Primeiro, vamos deixar claro o conceito básico de consumismo: a compulsão para a compra de bens, mercadorias ou serviços considerados supérfluos. Ou seja, itens desnecessários. Como fervorosa defensora de livros, tenho dificuldade em aceitar que esses possam ser considerados de alguma forma dispensáveis. Porém, vamos encarar a realidade: conheço muita gente boa que adquire livros mesmo sabendo que não terá tempo para lê-los. Existe outro tipo de pessoa que vai às compras literárias porque quer ter diversos exemplares vistosos nas prateleiras de casa, com o objetivo de parecer culto e nem tem a intenção de ler aquelas obras.
Em comum nas duas categorias acima, está o dinheiro extra na conta bancária. Livros podem mesmo ser um símbolo de status e prestígio. Já li reportagens sobre sebos especializados na venda de obras por metro para decoradores contratados por clientes interessados em dar pinta de intelectual. A vontade de parecer um admirador de literatura chega mesmo ao extremo do uso de livros cenográficos.
“Muito se discute sobre as obras literárias serem caras demais no Brasil, mas e se formos comparar com o preço dos ingressos de cinema em shoppings?”
No outro extremo, está a grande parcela dos apaixonados por livros. Muita vontade de ter uma biblioteca particular imensa e pouca grana no bolso. Muito se discute sobre as obras literárias serem caras demais no Brasil, mas se formos comparar com o preço dos ingressos de cinema em shoppings, de itens de vestuário e de show internacionais, por exemplo, os livros estão longe de serem inacessíveis, ao menos para a classe média.
Se a crise realmente bateu à sua porta, ainda assim isso não é desculpa para não ler. Existem sebos, inclusive virtuais, com livros vendidos a preços variados, basta pesquisar. Existem, ainda, sites com obras disponibilizadas online para download (alguns são perseguidos pela Polícia Federal por causa dos direitos autorais dos livros oferecidos de graça, mas isso é papo para outro texto).
E as bibliotecas?
O paraíso dos leitores sem dinheiro no bolso. Em Porto Alegre, recomendo a do Centro Municipal de Cultura. Sou frequentadora desde adolescente e tem muita coisa boa por lá. Foi lá que li grande parte da obra de Erico Verissimo, descobri quase todos os livros escritos por García Márquez e tive acesso ao maravilhoso Travessuras da Meniná Má, de Mario Vargas Llosa. Também foi graças a esse templo da cultura que li praticamente todos os livros do Caio Fernando Abreu (e depois fui comprando devagarinho para ter em casa). Outra preciosidade garimpada entre as prateleiras da biblioteca Josué Guimarães está Scar Tissue, autobiografia do Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers. Como vocês podem ver, um acervo variado e que vale mesmo a pena conferir.
Eu sou fã do jornalismo. A essa altura, penso que é alto que já ficou bastante claro. Acho uma das profissões mais fantásticas e necessárias. E não somente porque é a minha, mas porque penso que cumpre um papel importante na vida em sociedade. Quando coloco algo aqui mais negativo ou reflexivo não é porque sou algum tipo de mensageira do apocalipse ou uma pessimista compulsiva. Aliás, que fique claro, se tem algo que eu não faço é reclamar. Mas algumas curiosidades nesta vida reporteira chamam atenção. E às vezes não é algo positivo.
“Já vi jornalista vendendo marmita, brigadeiro, suco, salada de fruta, roupas, obras de arte, e por aí vai”
Que o glamour do jornalismo é totalmente ilusório não se tem dúvidas, afinal, o colega homenageado ou premiado é o mesmo que pisou no barro, no cocô e voltou fedendo a fumaça. Mas uma coisa que tem crescido nas redações e vai além das agruras naturais da profissão é o famoso “bico”. Já vi jornalista vendendo marmita, brigadeiro, suco, salada de fruta, roupas, obras de arte, e por aí vai. Tudo para engordar o porquinho no final do mês, já que nosso salário não acompanha a inflação há muitos anos.
Nem sei dizer se é simplesmente um direito do jornalista ganhar salários melhores de maneira geral, porque, afinal, precisamos nos sustentar como qualquer outra classe trabalhadora, ou se passa um merecimento por tanta dedicação e sacrifício a que somos submetidos diariamente, por ser da natureza da profissão. Afinal, não existe jornalista mais ou menos, este não se cria. Nessa profissão o mergulho é de cabeça.
E precisamos é garantir o plano de saúde em caso de afogamento.
Chega um dia na vida em que nossas verdades caem por terra. Há pouco, passei por uma situação dessas. Não, eu não estava errado; eu fiquei errado. Novos momentos trazem novas verdades, subvertem a ordem e convertem o outrora errado, ou disruptivo, em regra.
Por isso, cá estou, um arrogantão que já postou gifs debochando de quem gravava vídeos com o celular de pé, tendo que admitir que, além de ser válido, o formato vertical se tornou o melhor pro anunciante, ao menos quando estamos falando de redes sociais. Por quê? Eu explico.
Mais da metade das pessoas tem acessado as redes prioritariamente através dos seus aplicativos para smartphones. Estamos falando de dispositivos verticais por essência, com usuários cada vez mais exigentes com relação à experiência. Faz sentido demandar dele um esforço físico para ter a experiência certa de um vídeo que, na maioria das vezes, ele não pediu para assistir? As pessoas são espectadoras preguiçosas. Essa é uma verdade que não mudou desde a época de ouro da TV aberta. Por isso, os veículos retardaram tanto a entrada da tecnologia de controle remoto no Brasil; o público assistia, passivo, aos comerciais para não ter o esforço de ir até o televisor trocar de canal. E mais: ao gerar uma ação você também gera uma distração, interrompendo a experiência imersiva dos usuários.
“No Snap, os anúncios em vídeos verticais já estão sendo 9 vezes mais efetivos que os horizontais. Já no Facebook, os primeiros resultados já apontam para uma eficiência 3 vezes maior”
Claro que minha verdade não caiu sozinha. Teve muita gente grande que se deu conta disso antes e ajudou a derrubá-la. Facebook, Instagram (e Stories), Snapchat e Twitter eliminaram as barras laterais pretas dos vídeos verticais e expandiram sua visualização com aproveitamento de tela. Com algumas peculiaridades, claro, como a proporção 3:2 do Facebook.
Os resultados já começaram a aparecer: no Snap, os anúncios em vídeos verticais já estão sendo 9 vezes mais efetivos que os horizontais. Já no Facebook, os primeiros resultados já apontam para uma eficiência 3 vezes maior. É o que podemos chamar de um negócio win-win-adapt. Os dois primeiros a vencer com esses números são os anunciantes. Logicamente, com os anunciantes empolgados com tamanha efetividade e anunciando mais, Mark e companhia estão rindo à toa também.
Por fim – no último elo dessa corrente – estou eu, estão as outras produtoras e estão as agências, nos virando de cabeça pra cima e, mais uma vez, tendo de nos adaptar, reciclar, e evoluir linguagem e técnicas. Tudo isso para você ver mais anúncios e se incomodar menos, sem nem perceber.
Segundo informações do jornal, a matéria tratava de uma tentativa de extorsão sofrida pela primeira-dama Marcela Temer no ano passado. Liminar concedida pelo juiz Hilmar Castelo Branco Raposo Filho, da 21ª Vara Cível de Brasília, impede que a Folha publique qualquer informação sobre o ocorrido. Um hacker teve acesso aos dados do celular da primeira-dama e usou o conteúdo para chantageá-la. A petição foi assinada pelo advogado Gustavo do Vale Rocha, subchefe da Casa Civil, em nome da esposa de Michel Temer.
O Grupo Folha, por sua vez, vai recorrer da decisão. Em nota publicada pelo jornal, o diretor jurídico da publicação, Orlando Molina, diz que se trata de um atentado contra a liberdade de imprensa e que a ação se configura como censura. Já Michel Temer nega que se trate de censura. “Não houve isso, você sabe que não houve”, disse aos jornalistas.
A verdade é que a essa altura pouco importa a opinião do excelentíssimo presidente. É censura, sim. Um veículo de comunicação foi impedido de publicar uma reportagem com o argumento de resguardar a intimidade. Mas pera aí, foi a Folha que invadiu o celular de Marcela? Os dados divulgados pela reportagem são falsos? O conteúdo foi inventado? A notícia é mentirosa? Não. Não para todas as perguntas. A reportagem apenas divulgou informações tornadas PÚBLICAS pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Você também pode ter acesso a esses dados, os processos são os seguintes: 0000057-20.2017.8.26.0520, 0036961-28.2016.8.26.0050 e 0032415-27.2016.8.26.0050.
“Os jornalistas convivem com censura todos os dias”
O é que não é um caso isolado. Ano passado, um juiz paranaense ordenou a quebra de sigilo de uma jornalista que não quis divulgar suas fontes – algo protegido pela Constituição. A verdade é que os jornalistas convivem com censura todos os dias. Dentro da empresa, quando sua ideologia não fecha com a do patrão. Na rua, quando é agredido pela política em protestos – e até por manifestantes que veem o profissional como uma extensão do veículo em que trabalham. Quando é impedido de fazer seu trabalho, independente do motivo.
E o mais incrível é que há jornais que contribuem diariamente para o reforço da censura. A própria Folha fez isso quando divulgou um editorial extremamente questionável, para dizer o mínimo, em que endossa a violência da PM contra manifestantes e, de quebra, contra jornalistas. Afinal, segundo a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), houve mais de 300 violações contra jornalistas durante os protestos de 2013.
Sem contar que a cada ano que passa, perdemos posições em rankings de liberdade de imprensa. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, ocupávamos o 58º lugar em 2010. Hoje, estamos na 104ª posição. Que bela queda, hein. E isso que eu nem falei da autocensura, movida pelo medo, pelo temor de uma mão invisível.
Não sei quanto a vocês, mas tudo isso me faz pensar que estamos cada vez mais distantes de uma democracia e liberdade de imprensa ideais. E mais, seguimos nos enganando, como se fosse normal, como se estivesse tudo bem.
Nunca tive muita proximidade com os animais. Aliás, morro de medo da maioria deles. Quando criança, queria um cachorro mas não fui atendida, minha mãe dizia que eu não ia cuidar do bichinho e ela não queria mais essa responsabilidade. E ela provavelmente estava certa. Gatinhos nunca foram meus amigos, me sinto intimidada por eles. O máximo que eu consegui foi uma tartaruga de aquário, minúscula e com o peculiar entusiasmo dos répteis. De anfíbios, quero distância. Nesse caso é fobia, mesmo. Com direito a taquicardia.
Nem vou falar de animais de fazenda, tenho medo de todos eles, até das pacíficas vacas. Nem parece que fui criada na colônia. Mas sobre vacas, bois, porcos e galinhas eu falo em outro momento.
De qualquer maneira, já deu pra perceber que nunca fui uma ávida defensora dos direitos dos animais. Não fui criada com essa empatia e, como já perceberam, não me sinto à vontade perto deles. Isso fez com que minha percepção sobre o abuso animal fosse retardada. Somente agora, perto dos meus 30 anos, estou conhecendo a dura realidade a que os animais são submetidos ao redor do mundo. Existem várias frentes de ação do ser humano contra os animais e, aos poucos, pretendo falar sobre todas elas. Mas hoje abordo a mais convenientemente ignorada: os testes com animais.
Testes em animais nas indústrias farmacêutica e cosmética
Como fruto da minha desinformação, deparei com o fato de que quase todas as marcas de produtos de higiene e limpeza que eu utilizo realizam testes em animais. Fiquei bastante impressionada com o fato de isso ainda existir. Após algumas pesquisas, a conclusão foi chocante: dentre as marcas mais conhecidas, a maioria utiliza desse subterfúgio bárbaro. No site da PETA (People for Ethical Treatment of Animals), há várias informações sobre isso e é devastador. Por exemplo, a M.A.C Cosmetics, que sempre foi uma das minhas favoritas, não realizava testes em animais há muito tempo. Mas a Estée Lauder, companhia da qual a marca faz parte, voltou a vender na China. E lá, pasmem, o teste em animais é OBRIGATÓRIO. Bizarro.
Felizmente, há muitas opções legais e excelentes. Especialmente aqui no Brasil. Dentre outras, O Boticário, Natura e Quem Disse, Berenice? Não realizam testes em animais.
CLIQUE AQUI e confira se a sua marca favorita realiza testes em animais. Você também pode procurar pelo selo CRUELTY FREE nos produtos.
Se você pensa que é bobagem e que os testes não fazem tão mal assim. Ou se acredita que os animais aguentam e que é frescura pensar nos pobres coelhinhos que não tem o menor interesse em usar rímel, dá uma olhada nesse vídeo aí embaixo. A marca britânica LUSH Cosmetics fez uma ação em que atores (humanos, certo?) foram submetidos aos mesmos testes realizados nos bichinhos para que o nosso rímel seja incrível. É tenso, mas é preciso. Você vai pensar duas vezes antes de comprar aquele batom maravilhoso ou lavar o corpinho com Dove. Meus hábitos de compra mudaram. Falo mais sobre isso no próximo post 😉
Estávamos em Lisboa, ansiosos para chegar a Roma e usarmos a desculpa do frio para jantarmos uma comida pesada e um bom vinho tinto. De fato, era apenas nisso que pensávamos naquele fim de tarde cinzento. Na massa. Por isso, não nos atrasamos e chegamos ao aeroporto no horário sugerido, com antecedência, conforme havíamos planejado. Só não tínhamos contado com o atraso na decolagem (é, amigos, atraso não é privilégio de brasileiro, como vocês poderão ver nesta e em outras publicações desta humilde coluna). Enfim, não chegaríamos mais às 19h, como previsto. E então eu noto que no papel que eu imprimi antes da viagem e que continha as informações do hotel estava escrito, em tinta borrada pelos pingos de chuva:
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Check-in até 21h
Assim mesmo, em letras maiúsculas, a famosa caixa alta. E eu não tinha visto antes de embarcar para Roma. Ou seja, fiquei inquieta quando li, porque o relógio marcava 20h (horário local) e o avião ainda estava no ar. Não ia dar tempo. De jeito nenhum.
20h05 – Desembarque
20h10 – Na esteira
20h15 – Esperando a bagagem
20h20 – Esperando a bagagem
20h25 – Esperando
20h30 – Pois é
20h40 – Então
20h45 – Resmungos
20h50 – A bagagem chegou!
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O frio
Mas aí mesmo é que não ia dar tempo. Pensei, no entanto, que eles colocam isso no papel só pra apressar a gente, assim não precisam trabalhar até tarde e coisa e tal. Sei lá. Não iam deixar alguém do lado de fora àquela hora, afinal, o dia já havia partido e era (muito) inverno.
Por isso, lá fomos nós, cheios de esperança. Eu mencionei que o Aeroporto Fiumicino – ou Aeroporto Internazionale Leonardo da Vinci, não fica na cidade? Pois, fica a uns 30km. Do aeroporto para a estação de metrô, fomos de ônibus, do subsolo rumamos ao destino final. Corríamos feito doidos dentro do possível para duas pessoas cansadas e com pinta de estátua de gelo que carregavam duas malas (ou mais, não lembro). O meu cabelo parecia um animal atropelado, e quando vi meu reflexo no espelho comecei (?) a ficar muito irritada. E com medinho.
21h35 – Perdidos em uma rua escura, extremamente suspeita, com temperatura negativa e muitas malas (ainda não lembro quantas)
O frio era daqueles que congelava as hemácias. Se fizessem um corte na minha mão, sairia um sangue pastoso, ao melhor estilo zumbi. Difícil de respirar mesmo para dois gaúchos acostumados a invernos rigorosos sem poncho. E por mais que o metrô fosse próximo ao hotel, sob tais condições a sensação era de que caminhávamos há muito tempo e sob temperaturas glaciais. Ok, eu estou exagerando, mas não muito.
Finalmente, encontramos a rua do hotel perto das 22h, mas nada do nostro albergo, Dio! As rodinhas das malas já eram amigas da Via Atilio Regolo, mas nada do albergo, Dio Madonna!
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O hotel
Depois de quase meia hora de uma caminhada que mais parecia prova do líder, descobrimos que o albergue ocupava dois andares de um prédio comercial. E que realmente fechava às 21h, porque os hóspedes ficavam com uma chave. Não tínhamos onde dormir, estava frio, tudo muito escuro e sem uma viva alma por perto. Ah, mas do outro lado da rua estava o restaurante 3Quarti. Resolvemos que o fato de estarmos desamparados e sem ter onde pernoitar não seria um problema. Nós teríamos a nossa massa.
E é aí que a viagem que deu errado começa a dar certo. Simplesmente porque é Roma. E com o melhor italiano que pude providenciar àquelas alturas, expliquei nossa situação e perguntei se poderíamos entrar no phyno estabelecimento com a nossa bagagem. Todos foram extremamente gentis e, esquecendo do problema, tivemos uma noite incrível. Que jantar, senhores. O restaurante é intimista, com decoração impecável e requinte ao melhor estilo romano. Pedi o Spaghetti alla Carbonara, já o Cléber preferiu outro prato, mas não lembro (perdão!). Tudo absolutamente delicioso. Exatamente como nós esperávamos.
Mas ainda havia o problema da hospedagem. Resolvi não pirar e não pensar em dinheiro e lembrei do nome e localização do hotel em que eu havia estado na minha visita anterior à Roma. Confesso que o nome me deu esperança: Rinascimento. Perfecto, hã? E foi. Havia um quarto disponível e, finalmente, estávamos instalados.
Claro que, para completar a noite, tive uma dor de barriga horrível combinada com uma queda de pressão ainda pior, mas Roma vale a pena.
Na manhã seguinte, fomos nós e nossas amadas malas ao albergo original e nos instalamos lá. Bem mais simples que o outro, mas um ótimo quarto, com banheiro imenso, mesa, sofá. Um pequeno apartamento, de fato. Enfim, podíamos curtir Roma de verdade. Com céu azul e tudo.
Roma
O nome é emprestado de um dos maiores impérios da história, mas hoje perdeu o glamour aos olhos de muitos. Roma não é a capital da moda nem na Itália, não é uma cidade viva e efervescente, a maconha não é liberada. Enfim, não é o principal destino de jovens mochileiros. É, ao contrário, o lugar mais procurado por católicos fervorosos e beatos devotos por abrigar o Vaticano em suas entranhas.
Mas Roma transcende modismos. É uma metrópole linda que oferece aulas de História em tijolos erodidos e passeios em tons alaranjados. E se faz tudo com o estômago feliz ao embalo de um bom vinho e muito carboidrato. Ah, e de preferência sem nenhuma culpa, porque culpa e mimimi não combinam com Roma em nenhum aspecto. Vou dividir com vocês meus lugares favoritos e alguns que não se pode deixar de ver quando se está em Roma =)
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LUGARES PARA VER
Coliseu e o Fórum Romano
O Coliseu é considerado o maior símbolo do Império Romano e o principal ponto turístico de Roma. No auge, era capaz de acomodar 50 mil pessoas durante o “circo” ou “divertimento” da população, que consistia em batalhas sangrentas entre gladiadores, animais e até execuções. É um lugar impressionante, com uma energia pesada, como se todos os que sofreram dois mil anos atrás ainda estivessem presos naquelas paredes. Aproveite e visite as ruínas do Fórum Romano, o ingresso pode ser o mesmo.
PS.: há outro local do período do Império que pode ser interessante. O Circus Maximus era um estádio para jogos e corridas de biga – lembra do filme Ben-Hur? Mas confesso que hoje é um pouco frustrante por se tratar de um parque relativamente abandonado.
Piazza di Spagna
O conjunto conta com a fonte La Barcaccia, de Bernini, e com a famosa Scalinata di Spagna, uma escadaria do século 18 onde os turistas e romanos costumam sentar para descansar enquanto observam o movimento e tomam um gelato. Ao fundo, há a igreja Trinità dei Monti, que começou a ser construída em 1502. Ao final da escada, começa a famosa Via de Condotti, que conta com lojas das marcas mais famosas como Gucci e Versace. É de chorar no cantinho.
Fontana di Trevi
É usado como reservatório de água desde a antiguidade e foi construída no ponto final do Acqua Vergine, um dos mais antigos aquedutos que abasteciam a cidade de Roma. Construída em 1762 por Nicola Stevi, é um dos mais procurados pontos turísticos de Roma. Reza a lenda que jogar uma moeda na Fontana di Trevi garante mais uma visita à cidade. Não sei quanto a ti, mas eu achei que valia a pena.
Ah, se possível, visite a fonte também à noite, é um espetáculo à parte.
Pantheon
Antes, esse templo fora dedicado aos deuses romanos. Hoje, é um templo cristão. É um dos poucos monumentos da arquitetura greco-romana que permanence em bom estado. Além disso, é local do descanso final de personalidades como o pintor renascentista Rafael. A estrutura é impressionante com a cúpula que chega a 43m de altura.
Piazza Navona
A praça conta com três belíssimas fontes: Fontana dei Quattro Fiumi, Fontana di Nettuno e Fontana del Moro. O local foi transformado em praça no século 15, por ordem do Papa Inocêncio X, que contratou Bernini – olha ele aí de novo – para construir a fonte central. O local, na minha opinião, é mais atraente à noite, com seus ambulantes e restaurantes. Ah, a Embaixada do Brasil fica na Piazza Navona.
Campo De Fiori
Confesso que se não tivesse me hospedado próximo ao Campo de Fiori na primeira vez que estive em Roma, talvez não tivesse percebido seu encanto.
De segunda a sábado, acontece ali a maior feira aberta de Roma. Há de tudo. Comida, flores, souvenirs, pastas e por aí vai. Os produtos são impecáveis e é possível comprar massas diversas e produtos feitos à base de trufas. É também a única praça de Roma que não tem nenhuma igreja. Por outro lado, há uma série de restaurantes que servem um ótimo vinho. Os fervorosos que me desculpem, mas é sagrado o suficiente pra mim.
Castel Sant´Angelo
O Castelo é nada mais, nada menos, que o túmulo do Imperador Adriano, construído em 139 d.c. Fica bem próximo ao Vaticano e é uma construção impressionante às margens do Rio Tibre (que também merece atenção).
Cidade do Vaticano
Basílica de São Pedro – Foto: Geórgia Santos
A Praça de São Pedro é outro projeto de Bernini e foi construída no século 17. O local abriga a Basílica de São Pedro e é também onde vive o Papa. Há sempre uma movimentação intensa de católicos esperando pela sorte de ver o Santo Padre de perto, mas o Vaticano é muito mais que isso. É história.
No centro da Praça de São Pedro há um obelisco egípcio que foi levado à Roma por Calígula. Há uma lenda na cidade que diz que as cinzas de Júlio César estavam em uma bola dourada, no topo do obelisco, até a idade média.A entrada na Basílica é de graça.
Mas não pode sair de lá sem ver o Museu do Vaticano. É onde fica a Capela Sistina, cujo teto é adornado com afrescos de Michelangelo. Aliás, há peças belíssimas no interior do museu e inclusive espalhadas pelo jardim. Definitivamente, não é um passeio somente para católicos.
É possível adquirir o ingresso na bilheteria do Museu ou online, clicando aqui. As filas costumam ser grandes, mas vale a pena e costuma andar ligeirinho.
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ONDE FICAR (entendeu porquê eu comecei por este item, né?)
Via Attilio Regolo 12 D, Vatican City – Prati, 00192 Rome, Italy
Atenção para o Check in até às 21h, mas é um ótimo local para ficar e muito bem localizado.
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ONDE COMER
Roma é algo como a casa da bruxa na história de João e Maria, é como se fosse comestível. Há somente um segredo para evitar comida ruim: faça suas refeições o mais distante possível de pontos turísticos. Geralmente, os restaurantes no entorno de lugares tão movimentados costumam ser caros e péssimos.
Você pode comer um panini na rua por 2 euros, mas eu acho que quando em Roma, faça como os romanos e coma um belo prato de pasta ou uma maravilhosa pizza. Há restaurantes impecáveis que servem pratos excelentes por cerca de 12 euros.
Como eu disse, a cidade toda é comestível, mas eu vou dividir com vocês meus três restaurantes preferidos.
Meu lugar preferido em Roma. Um restaurante despretensioso que serve uma pasta espetacular. Mesmo durante o inverno, o ideal é jantar do lado de fora, com lareiras e cobertores no colo. Cléber pediu um Spaghetti alla Carbonara e eu um Gemelli Bolognese, tudo combinado com um Primitivo Soleone =)
Comi a melhor pizza da minha vida, aqui. Mas assim, brasileiros normalmente se frustram com a pizza italiana. Estamos acostumados a toneladas de queijo e 60 tipos de coberturas atrozes. Não é o caso, a cobertura é suave, leve e, nesse caso, a massa é bem fininha. Jesus, sonho com essa pizza até hoje – em caso de dúvidas, aquelas coisinhas escuras são trufas.
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COMO SE MOVIMENTAR
É muito fácil transitar por Roma, porque os pontos turísticos se concentram no “centro histórico” da cidade. Se tiver tempo de sobra, é perfeitamente possível – e recomendável – andar a pé. Caminhar é o melhor meio de locomoção para conhecer esse lugar incrível. É a única maneira de conhecer cada viela e descobrir igrejas escondidas, restaurantes preciosos e, claro, se perder.
Mas se não for tua praia, tem o metrô e ainda os táxis. Como a cidade é relativamente pequena, o táxi acaba não saindo caro, especialmente se não for um passeio solo.
É sensível o grau de essencialidade que o cinema de Mia Hansen-Love vai assumindo. E não estamos pensando aqui na ideia de progressividade da obra, inclusive pois seu filme anterior, Éden (2014), é talvez o seu mais estridente – e por isso o seu pior. Pensamos na capacidade argumentativa de sua mise en scène. O que está por vir acerta, com um golpe mais certeiro do que o desferido em seus filmes anteriores, o desenlace de sua trama.
Enquanto seus outros filmes (Adeus, Primeiro Amor) parecem deixar os acontecimentos contarem a si mesmos de uma forma muito pouco orgânica, aqui se apresenta mais sóbrio. Os exageros de retórica travados pelos seus personagens, que volta e meia insistem em infantilizar a sua elegância, não lhe tiram lá tanta força, pois o filme vence a polarização. Suas personagens estão sempre debatendo, argumentando, e a cineasta muito habilmente evita a adesão a um corpo pronto de ideias. Seu filme é político, evidentemente, mas o é em função de seu arranjo narrativo e não em virtude de qualquer conteúdo ou discurso.
Uma sinopse bastante simples diria que uma professora de filosofia, interpretada por Isabelle Huppert (seguramente a mais poderosa de todas as atrizes em atividade), passa por uma série de crises íntimas, familiares, profissionais e intelectuais. Ela tenta seguir em frente confrontando cada uma com maturidade, embora com certo desnorteamento diante das situações.
Ela prefere, como boa filósofa, o confronto ético e estético ao político, isto é, abre caminho para que a imagem confesseo seu sentido de acordo com as circunstâncias dadas. Isso fica mais evidente nas cenas em que os estudantes discutem os motivos de uma interrupção das aulas para fortalecer um grupo de protesto contra aquilo que parece ser a reforma da previdência francesa (que fora iniciada pelo “conservador” Sarkozy e depois chancelada, com modificações, pelo “socialista” Hollande). Há quem queira protestar e há quem queira estudar. Discute-se a democracia (que é a vontade da maioria, diz um estudante) e logo depois temos a professora dando uma aula sobre o Contrato Social de Rousseau. Ela tem um ex-aluno anarquista que escreveu um livro sobre a Mínima Moralia de Adorno. Seu marido, também professor, não é senão um conservador de alta estirpe, embebido em receios e ponderações – ele é um formalista: não existe forma que não expresse a sua ideologia.
Para esta amarração, a pergunta: é possível se colocar no lugar do outro? Questão elementar para a relação espectador-filme, a interrogação que aparece logo no início demanda esse esforço de ambos. Em meio aos infortúnios que vão se impondo para a professora (aquilo que iria lhes salvar, isto é, a revolução, não veio a galope, deixando em seu lugar a melancolia e certa desolação; a perda de sua mãe, o marido que a deixou, a editora que sempre a publicou passa a negar os seus projetos e a alterar outros para torná-los mais comerciais), resta então desembaçar a vista para seguir em frente.
Confira o trailer do filme
O que está por vir (L’avenir) de Mia Hansen-Love, França, 2016. Com Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka.
A imagem não bate com o que tu esperas do som? AINDA BEM. Hoje o espaço é dedicado a esses três musos da nova música brasileira – Jaloo, Liniker e Johnny Hooker. Estilos bem particulares mas que têm em comum essa “imagem que faz questionar”. Se depois de olhar, ouvir, tu seguires com alguma estranheza, recomendamos uma booooa reflexão. Se não, é só dar o play.
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A nova música brasileira tem um lineup de chorar de tão bom e, graças a Dios, tem levantado questionamentos e bandeiras sobre sexualidade, gênero, racismo e todo preconceito
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Jaloo tem um ímã. Para mim, ele tem um canto de sereia, uma coisa que hipnotiza. Jaime Melo tem 28 anos, veio do Pará, faz as vezes de modelo, é tímido e contou em entrevista ao HuffPost que acabou aprendendo a cantar para acompanhar as batidas que já fazia. Nos dois shows que fui, encontrei um Jaloo calmo, com looks e apresentações marcantes e acompanhado por duas bailarinas. Os clipes do artista e os remixes que circulam por aí (como do BossInDrama) merecem o seu tempo. Uma amiga diz que “o som dele não é fácil de consumir”. E talvez não seja mesmo, mas eu prefiro classificar como “música para dançar e sentir de olhos fechados”.
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Buena onda e lacração! Para mim, isso define o fenômeno Liniker. No dia 15 de outubro de 2015, o canal Liniker fazia o upload do EP ‘Cru’. Três músicas em três vídeos gravados em casa, em uma sala de estar, para passar exatamente a vibe dos músicos. Liniker comanda sua trupe de companheiros, Os Caramelows, com turbante, saia longa, argolas, colares, brincos, delineador, batom e bigode. Sim, bigode e uma voz grave que canta “deixa eu bagunçar você” com uma potência incrível! Hoje, o vídeo tem milhões de views e o cantor contou em mais de uma entrevista que foi surpreendido pela aceitação e sucesso. O show? Você não para um minuto mesmo que não conheça todo o repertório; ‘Zero’ é cantada a plenos pulmões por todos e ainda tem o momento ‘culto’ quando Liniker e as cantoras que o acompanham fazem um verdadeiro louvor ao lacre, ao poder, ao glitter. Dá uma esperança saber que Liniker faz tanto sucesso e, por onde vai, diz que é “bicha e preta”. O cantor lançou um projeto no Catarse para financiar o disco Remonta e você pode ajudar aqui.
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“Esse é pra sangrar!”, me disse uma amiga quando perguntei qual o clima do show do pernambucano Johnny Hooker. E é a melhor definição. Nem sei se podemos chamar apenas de cantor um cara de 28 anos que é também compositor, roteirista, ator e faz performances inesquecíveis. Johnny tem um timbre rasgado, com sotaque, que marca e canta coisas como “eu vou chamar Iansã, Ogum e Oxalá, vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito”. O clipes também são sempre uma obra à parte e contam histórias de amores latinos, sofridos, barrocos, dramáticos. Que tal começar a assistir os seis minutos de “Amor Marginal”?
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Além de produzirem arte de qualidade com sons, batidas, shows, vídeos, poesias, Hooker, Liniker, Jaloo e outros como As Bahias e a Cozinha Mineira, Filipe Catto, Rico Dalassam estão redefinindo padrões (quebrando com os que existem), rompendo barreiras preconceituosas, fazendo todo mundo se questionar e evoluir através da arte.
O ano de 2017 começou de forma tenebrosa para a população LGBT. Tivemos a morte a facadas do jovem Itaberli Lozano, da cidade de Cravinhos, no interior de São Paulo. Com apenas 17 anos e uma vida inteira pela frente, foi assassinado pela mãe e pelo padrasto por ser gay. O enfermeiro Marcelo Correia foi atingido na cabeça com uma barra de concreto na cidade de Prado, na Bahia. O vendedor Divino Aparecido foi espancado em Uberlândia. Está no hospital, em coma induzido. Um grupo de drag queens foi barrado na entrada de um shopping na Zona Leste de São Paulo. O casal Júnior Santos e Maycon Aguiar recebeu uma carta com insultos homofóbicos e racistas de vizinhos no condomínio onde moram, no Rio de Janeiro.
Esses são apenas alguns casos. São apenas os que saem no noticiário. Certamente existem muitos outros. Neste momento, uma menina lésbica está sendo expulsa de casa. Uma travesti está apanhando nas ruas. Um homem transexual está sendo desrespeitado no sistema de saúde. As estatísticas são muito generosas com a população LGBT porque a subnotificação das agressões que sofremos todos os dias é a regra geral. A realidade é muito pior.
Mas nós viemos de muito longe. Viemos da rebelião de Stonewall, onde enfrentamos o autoritarismo da polícia com nossos corpos. Ao longo de muitas décadas, conseguimos sair da marginalidade para o orgulho. Sem nunca perder a rebeldia necessária a todas e todos que estão acostumados a observar a vida pelas beiradas. Viemos de uma longa tradição de resistência individual e coletiva. E não vamos abaixar a cabeça, ainda que este ano comece com tantas notícias ruins. Com tantas vidas golpeadas pelo preconceito.
Maria Bethânia diz em uma canção: “Não mexe comigo, que eu não ando só”. Nós não andamos sós. As multidões que saem às ruas nas paradas LGBTs de todo o país e do mundo inteiro comprovam isso. A juventude e as novas gerações são a prova viva de que a discriminação está condenada ao ostracismo. Nossas vidas, linguagens e afetos constroem verdadeiras fissuras em um sistema marcado pela opressão. De fenda em fenda, abrimos um rombo. Quando aqueles que propagam o ódio menos perceberem, estarão em um abismo.
No tempo em que vivemos, qualquer manifestação de otimismo pode ser facilmente confundida como um ato de loucura. Como uma demonstração de ingenuidade. O poeta uruguaio Mario Benedetti certa vez escreveu que precisamos defender a alegria como um direito. Acredito que também devemos ter direito ao otimismo. Podem dizer que vivo fora da realidade. Esfreguem todas as piores notícias na minha cara. Falem-me de conjuntura, me xinguem de imaturo. Não importa. Eu ainda acordo todos os dias pensando na frase da escritora indiana Arundhati Roy: “Um outro mundo não apenas é possível, como ela [sim, é uma outra munda] está a caminho. Em um dia tranquilo, eu consigo ouvir sua respiração”.
Brasília - Michel Temer coordena primeira reunião com sua equipe após tomar posse na Presidência da República do Brasil. À direita, o ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes (Valter Campanato/Agência Brasil)
A indicação do atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal é desastrosa em vários níveis. Não apenas porque o indicado coleciona fracassos e eventos questionáveis em sua gestão, que vão desde uma pretensão absurda de erradicar a maconha em todo o continente (algo que ele, noves fora o delírio, ele não tem alcance legal para fazer) até uma mentira descarada sobre a presença de tropas federais em Roraima, passando por uma gestão desastrada do Fundo Penitenciário – tudo em meio a uma situação caótica e sangrenta em vários presídios do país. Também não é pelo seu histórico desastroso na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, onde comprovadamente mascarou dados de homicídios para fingir que a situação não era tão grave quanto sabemos que é. Tudo isso, claro, causa consternação – mas poderia ser rebatido a partir do notório saber jurídico e da produtiva carreira acadêmica do ministro, considerado uma das mentes mais promissoras do Direito brasileiro antes de transformar-se em (mau) gestor. Um exercício difícil, mas que não estaria proibido, de forma alguma.
O problema maior, porém, não está na incompetência do indicado. Incompetentes, no STF, têm sido mais comuns do que deveriam, inclusive. O intolerável está nas notórias, e jamais disfarçadas, afinidades políticas de Alexandre de Moraes. Filiado ao PSDB desde 2015 até pouco depois da indicação, ele é facilmente a mais politiqueira das indicações ao STF em muito tempo, superando com folga a presença de gente como Dias Tóffoli – que já era, convenhamos, mais do que suficiente nesse sentido. Já na pasta da Justiça a postura de Moraes era pouco republicana, repassando informações sigilosas ao núcleo de Michel Temer e antecipando ações da Lava-Jato contra o PT para contar vantagem em pleno palanque eleitoral, algo tão insólito e grave que motivou até um editorial no Estadão pedindo que ele renunciasse. Um alinhamento político que sempre rendeu frutos, fazendo dele um dos poucos nomes com trânsito irrestrito entre os tucanos e garantindo a blindagem de Temer, que jamais cogitou retirá-lo do posto, mesmo no auge da crise na segurança pública do país.
A independência entre os poderes não é apenas um conceito bonito: é algo fundamental para uma democracia minimamente saudável, pelo qual vale a pena (e muito) lutar. Só sendo muito #teamTemer ou #foraPT para ignorar o cheiro nauseante que emana dessa indicação – o mesmo fedor, aliás, que sentimos diante de Moreira Franco alçado a ministro, cargo que dá a ele o mesmo foro privilegiado que Gilmar Mendes negou a Lula no ministério de Dilma Rousseff. O mesmo Gilmar Mendes, aliás, que não se constrange em visitar e até pegar carona no avião de Michel Temer, a quem pode julgar enquanto presidente do TSE… Bem, acho que dá para entender onde quero chegar.
A indicação de Alexandre de Moraes – que inclusive nega e ridiculariza o que ele próprio disse em sua tese de doutorado – coloca como revisor da Lava-Jato alguém que estava até ontem no coração do governo que convulsiona por causa desta mesma investigação, sob a suspeita indisfarçável de que será um soldado do governo, e não da sociedade brasileira, durante sua longa estada na mais alta corte do Brasil. Nesse cenário, como não lembrar de Romero Jucá falando, na gravação agora famosa, de “estancar a sangria” com um “grande acordo, com STF, com tudo” – um spoiler tão eficiente que é quase o pré-roteiro de tudo que andamos vendo atualmente? Se o dito aparelhamento do Estado pelos governos petistas preocupava ao ponto de motivar protestos pedindo impeachment, como podem esses escandalosos sinais atuais de aparelhamento serem vistos com indiferença ou, pior ainda, relativizados?
Um dos sinais mais claros de um ambiente democrático se esfarelando é o desinteresse por princípios que se erguem acima das conveniências partidárias ou das raivinhas de ocasião. Qualquer um que deseja uma democracia sadia no Brasil, independente de alinhamento ideológico, deveria estar no mínimo assustado com a perspectiva de Alexandre de Moraes no STF. Porque ele escolheu virar um gestor incompetente ao invés de se aprofundar na doutrina, porque ele mente e dissimula informações de interesse público, porque já demonstrou destempero e falta de isenção em inúmeros momentos – mas, acima de tudo, porque é fortíssima a suspeita de que estará lá apenas para fazer o serviço do grupo político que está no poder. São sombrias as perspectivas para um país que aceite essa barbaridade sem espernear.