Samir Oliveira

Discutir gênero e sexualidade nas escolas é mais do que urgente, é vital

Samir Oliveira
7 de dezembro de 2017

O governo Temer excluiu qualquer menção à palavra “gênero” da nova versão da Base Nacional Comum Curricular. O texto, debatido no Conselho Nacional de Educação, define as diretrizes pedagógicas que as escolas públicas e privadas no Brasil devem seguir em cada disciplina, durante o Ensino Fundamental.

O Conselho é formado por especialistas, profissionais qualificados para estruturar as bases curriculares das escolas. Os conselheiros aprovaram emendas importantes ao texto, incluindo noções de combate à discriminação de gênero em disciplinas como História, Geografia e Ensino Religioso. Todas elas foram ceifadas ao chegar ao gabinete do ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM).

A censura passaria despercebida e sem alarde, já que o governo se negou a fornecer uma cópia do texto à imprensa. Felizmente o conteúdo acabou vindo a público e agora a sociedade civil pode pressionar o governo a voltar atrás. Não podemos aceitar que o mesmo ministro que deu a Alexandre Frota – um estuprador confesso – o status informal de conselheiro agora queira tornar as escolas espaços medievais e desconectados da realidade.

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Discutir gênero e sexualidade nas escolas é mais do que urgente, é vital

E barrar este debate é mais do que uma reação conservadora, é uma estupidez ineficaz

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As crianças e jovens têm acesso a informações e experiências que nenhuma regulação arcaica é capaz de proibir – desde o convívio com os amigos até o contato com as tecnologias de comunicação. A escola é um espaço fundamental de socialização e deve estar orientada para acolher a diversidade.

Estudei a maior parte do Ensino Fundamental em escola pública estadual, no interior do Rio Grande do Sul. Naquela época, entre a segunda metade dos anos 1990 e o início dos anos 2000, não havia qualquer discussão a respeito do bullying. Era muito difícil que se passasse um dia sem que eu sofresse algum tipo de agressão – física, verbal ou psicológica – por ser gay. Naquele momento eu sequer me entendia enquanto gay, mas meu comportamento não correspondia ao que era esperado de um menino, então eu “merecia” ser caçoado.

Gosto de pensar que muita coisa mudou de lá para cá. E, de fato, mudou. Avançamos muito! O problema do bullying nas escolas hoje é levado a sério. O que não quer dizer que não tenhamos que percorrer ainda um longo caminho. A recente expulsão de uma menina trans de 13 anos de uma escola em Fortaleza revela o abismo que se coloca diante de nós. O caminho para superá-lo passa pela inclusão de gênero e sexualidade nas diretrizes curriculares. Chega a ser criminoso compactuar com este tipo de censura no país que mais mata LGBTs no mundo, onde a população trans é a mais vitimada, num ciclo de violência que se inicia com a evasão escolar e o abandono familiar.

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O Brasil perdeu uma oportunidade histórica de avançar neste tema durante o primeiro mandato do governo Dilma

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O Ministério da Educação, comandado então por Fernando Haddad, havia elaborado materiais didáticos contra a homofobia para distribuir nas escolas. A bancada fundamentalista na Câmara – que fazia parte da base de apoio do PT – ameaçou abandonar o governo caso a iniciativa seguisse adiante. Isso bastou para que nossos direitos fossem rifados e Dilma desse uma de suas declarações mais infelizes ao dizer que “não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”.

Talvez, se naquele momento o governo Dilma houvesse enfrentado os reacionários, hoje a realidade em nossas escolas fosse um pouco melhor. O abismo não seria tão profundo. Agora Temer não precisa ceder às pressões fundamentalistas, pois seu governo é liderado diretamente por estes setores, que elaboram as políticas e decidem de forma autoritária o que deve ser debatido nas escolas.

A tesoura do ministro Mendonça Filho na Base Nacional Comum Curricular vem acompanhada de projetos absurdos chamados de “Escola Sem Partido” em diversas cidades e estados do país. Até mesmo no Congresso Nacional.

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São iniciativas que desejam, na verdade, colocar uma mordaça sobre a boca dos professores, como se a educação fosse um processo mecânico e neutro, despido de subjetividades

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Em São Paulo, a vereadora Sâmia Bomfim, do PSOL, está na linha de frente contra esta aberração e já conseguiu barrar sua votação uma vez. Como ela mesma disse em um discurso na Câmara dos Deputados: “A geração que ocupou as escolas no final de 2015 e no início de 2016 irá cobrar a conta” de todas as medidas regressivas que tentam colocar em curso atualmente.

Estas tentativas de censurar professores e de obstruir a discussão sobre gênero e sexualidade nas escolas não passam de uma grande cortina de fumaça para que a sociedade perca tempo – e os órgãos públicos escoem dinheiro – neste esforço inútil voltado ao atraso, enquanto o que realmente deveríamos estar debatendo é a qualidade do nosso ensino, as condições de trabalho e a remuneração dos nossos professores e a estrutura de nossas escolas.

Airan Albino

Padrão e segmento

Airan Albino
6 de dezembro de 2017

Eu entrei para o mundo das séries no ano passado. Demorei porque acreditava que não teria tempo para assistir temporadas e mais temporadas. Comecei com uma série que todo mundo falava bem: Breaking Bad. Vi as cinco temporadas e gostei, mas não achei tudo isso não. Tudo bem que não vi na época em que muitos reservaram certo período do dia para ver a série. Entretanto, só uma das temporadas me chamou a atenção, a quarta, que contém o personagem Gus Fring (Giancarlo Esposito). Beleza, eu obviamente iria me interessar na trama no momento que veria um semelhante.

Depois da série do Heisenberg, fui para a da Piper, Orange Is The New Black. Novamente por indicações do tipo “você tem que ver essa!”. Adivinha o que aconteceu? Repeti a obviedade e amei as personagens negras, como a Suzanne “Crazy Eyes” Warren (Uzo Aduba), a Tasha “Taystee” Jefferson (Danielle Brooks), a Poussey Washington (Samira Wiley) e a Cindy “Black Cindy” Hayes (Adrienne C. Moore).

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Eu sabia o porquê do meu interesse, era simples: eu me via representado e me enxergava em diversas situações interpretadas por elas

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Mas então, eu era o cara chato que só gostava das séries que tinham negros? Sim, porque isso realmente acontecia; e não, porque eu não estava fazendo nada de diferente dos meus amigos brancos. Assim como toda pessoa branca se identifica com personagens brancos, eu, negro, me identificava com os personagens negros. O grande problema dessa comparação é como nos é apresentada essa identificação: o branco é o padrão, e o negro é o segmento.

É pesado e triste perceber isso. Uma grande produção branca é tida como abrangente, todos os públicos são obrigados a ver, La La Land é um bom exemplo. Enquanto Moonlight, a grande produção negra é específica, direcionada apenas para negros. Essa é a parte triste. Na música Moonlight, Jay-Z resume o episódio do Oscar no refrão.

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 We stuck in La La Land/ Even when we win we gon’ lose

(Nós estamos presos à La La Land, mesmo quando nós ganhamos, nós perdemos)

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Ainda sobre o Oscar, a parte pesada é ver comentários das pessoas que “são mais compreensíveis”. Casey Affleck e Denzel Washington estavam concorrendo na categoria de melhor ator. Eu li num post de um amigo que: o Casey sabia sentir dor e transparecia isso em seus silêncios, já o Denzel gritava demais. O personagem que tinha o comportamento padrão ganhou. Isso é pesado por que? Porque o papel interpretado por Denzel (Troy Maxson) é praticamente o retrato da figura paterna negra. Eu me senti muito ofendido por esse comentário.

Atualmente, muitas séries estão em destaque em redes sociais, mas o padrão e o segmento continuam. Pela HBO, Game Of Thrones é o padrão e Insecure o segmento. Pela Netflix, Stranger Things é o sucesso (e tem até um negro) enquanto She Gotta Have It atingiu apenas o público negro. Não é errado afirmar que a produção multimídia negra está no seu melhor momento e, mesmo assim, não é valorizada. Além das já citadas temos 13th, Greenleaf, Black-Ish, Queen Sugar, How to Get Away with Murder, Empire, Atlanta, Luke Cage, OJ: Made In America, Scandal, Dear White People e The Get Down (que foi cancelada) como séries de excelência. Não é errado uma pessoa branca gostar de filmes e séries que a representa. O problema é tratar o interesse de uma parcela como o interesse do todo.

ECOO

Faça você mesmo (DIY) – Sabão líquido natural

Geórgia Santos
3 de dezembro de 2017

A ideia de produzir em casa um sabão líquido que seja natural faz parte da nossa caminhada em direção a uma vida mais sustentável, que agrida menos o meio ambiente. E essa receita da Flávia Aranha é uma mão na roda por uma série de motivos: é menos poluente que os produtos químicos que a gente costuma usar, não contém derivados de petróleo, produz menos lixo, é indicado para lavar roupas E louça e ainda é recomendado para quem sofre com alergias.

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E ainda é barata e rende TRÊS LITROS

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Uau! Isso porque essa receita tem só três ingredientes: sabão de coco, alcool e bicarbonato de sódio. Só precisa prestar atenção para que o sabão em barra seja, de fato, natural. É fundamental que apareça ÓLEO DE COCO ou ÓLEO DE BABAÇU na composição. E quanto menos ingredientes na lista, melhor. Se puder, compre um artesanal.

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RECEITA

  • 3L de água
  • 1 barra de sabão de coco (200g)
  • 50ml de álcool
  • 3 col de sopa de bicarbonato de sódio
  • Óleo essencial da sua escolha (opcional)

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Coloque a água para ferver. Enquanto isso, rale o sabão de coco. Coloque o sabão na panela quando a água estiver fervendo e mexa devagar, até que esteja dissolvido – use uma panela grande, porque pode transbordar. Acrescente o álcool e depois o bicarbonato de sódio. Mexa por mais alguns minutos, com cuidado. Desligue o fogo e acrescente o óleo essencial – não é obrigatório, mas o sabão não tem cheiro, então pode ser uma boa ideia.

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Deixe o detergente descansando por uma hora e, depois de frio, guarde em recipientes de vidro. Não se assuste com a textura, fica líquido feito água, mesmo. Não é um sabão viscoso. Além disso, costuma ficar transparente – o meu ficou turvo dessa vez, confesso que não sei porquê. A vantagem de quando fica turvo é que não corremos o risco de alguém achar que é água parada e jogar fora. Já aconteceu por aqui =)

Pronto, agora é só usar. =)

 

Tão série

The Handmaid´s Tale – Quando a ficção está muito perto da realidade

Geórgia Santos
2 de dezembro de 2017

Recomendar a série The Handmaids Tale ( O conto da Serva, em tradução livre) é um tanto desconfortável diante do contexto político no qual estamos inseridos. A obra da Hulu é uma adaptação do livro homônimo de Margaret Atwood, que apresenta um cenário distópico em que mulheres férteis são escravizadas por homens poderosos que as estupram com fins de reprodução.

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É quase cruel falar disso em um momento em que 18 homens tiram o direito de uma mulher abortar o fruto de um estupro

Mas é necessário

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The Handmaid´s Tale se passa em um futuro próximo no que é conhecido como a República de Gileade, uma teonomia cristã e militar que ocupa o que antes se conhecia por Estados Unidos da América. A nação é controlada por um grupo fundamentalista evangélico autointitulado “Filhos de Jacó”, que suspende a Constituição dos EUA com o pretexto de restaurar a ordem. O que vale, então, é a lei de Deus – o Deus no qual eles acreditam, no caso.

O novo regime se baseia na restauração, com o objetivo de reorganizar a sociedade americana em torno de um novo modelo totalitário e militarizado inspirado no Antigo Testamento. A sociedade é dividida em castas e os direitos das mulheres são retirados imediatamente – são, inclusive, proibidas de ler.

A produtora executiva da série, Elisabeth Moss, interpreta a narradora da história, a serva Offred, cujo nome significa literalmente Of-Fred. Ou seja, “De (propriedade de) Fred”. Ela faz parte de uma classe de mulheres que é mantida única e exclusivamente para fins reprodutivos, passando de senhor em senhor para procriar. Elas são crucias para a perpetuação da humanidade em um mundo em que a maioria das pessoas é estéril devido à poluição e doenças sexualmente transmissíveis.

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Trata-se de uma história em que as complexas camadas revelam as inúmeras formas que a opressão às mulheres pode assumir. Inclusive por mulheres

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Conforme a intimidade da protagonista é revelada, testemunhamos a viagem de Offred à lembrança de uma vida feliz em que podia ter uma conta bancária, em que podia usar a roupa que quisesse, conversar com quem bem entendesse. Ler. Mas também testemunhamos o egoísmo de Serena Joy (Yvonne Strahowski), a mulher que arquitetou a opressão – ela sempre acreditou que as mulheres deveriam servir.

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Eu só espero que qualquer semelhança seja mera coincidência

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O problema é que são coincidências demais. Basta acompanhar a TV Câmara para ver que a decisão sobre a saúde reprodutiva das mulheres já está nas mãos de homens. Neste mesmo canal, assistimos estes mesmos homens tomarem essas mesmas decisões com base em uma interpretação particular da Bíblia. Em qualquer comentário do Facebook há traços de repressão sobre o que uma mulher deve vestir ou como se comportar.

Aproveitemos, então, enquanto ainda podemos ler. É uma ótima oportunidade para compreender a importância do feminismo e da luta por direitos iguais. Da luta por uma vida decente.

Enquanto produto de entretenimento, apesar da bela fotografia e do suspense, é uma obra de linguagem arrastada por vezes, que atrasa o engajamento inicial. Mas é uma observação absolutamente pessoal, que resistiu à vontade de acompanhar aquela realidade tão distante e tão próxima. É uma produção importante e que deve ser vista. E que bom que eu insisti.

Toda mulher – e todo homem – precisa assistir ao que pode ser o nosso não tão impraticável futuro.

 

Imagens: Divulgação

Pedro Henrique Gomes

Crítica – No Intenso Agora

Pedro Henrique Gomes
25 de novembro de 2017

Como experiência histórica que reúne vários momentos cruciais em torno do ano de 1968, No Intenso Agora, novo filme de João Moreira Salles, traz para o centro de suas questões as próprias condições de produção das imagens registradas na época, no calor dos acontecimentos. Seguindo as informações narrativas que o filme transmite, as imagens evocam expressões de relações de classe, de esperança, de angústia, de desilusão, de reviravoltas no jogo político. O ponto de partida é a imagem. Imagem que virou arquivo. Um filme absolutamente pessoal. No caso, registros da elite brasileira (em que esteve presente Elisa, mãe do cineasta) em visita à China, em 1966, alimentaram nele o desejo do filme.

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Que imagens surgem nos diferentes contextos, questiona Salles, da China maoísta, da França do maio de 68, das greves operárias e das revoltas estudantis, da ditadura militar brasileira e da Tchecoslováquia quando da chegada dos tanques soviéticos que iriam interromper a Primavera de Praga?

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No Intenso Agora ajeita, levanta e corta: o resultado estético dessas imagens carrega, para além do espírito do tempo e da urgência material delas, a estrutura moral e política que permitiu a forma mais ou menos exata com que foram feitas. As imagens respondem a procedimentos dados pelas restrições locais. Segundo o diretor, o filme quer saber quem filma e como filma numa democracia, em uma ditadura ou em um país militarmente ocupado pelo estrangeiro.

A tensão entre o não saber o que se está filmando é a posição por vezes incontornável a quem quer que se aventure com uma câmera (das filmagens amadoras ao documentarista/cineasta que tem no ato de filmar a sua profissão de fé), daí a dificuldade de, muitas vezes, e mesmo que o filme seja também sobre isso, estabelecer conexões entre os registros expostos. Trabalhando com arquivo a partir de longa pesquisa, o filme costura estes acontecimentos para questionar os seus sentidos e significados, as suas expressões e seus gritos. Penso que há inclusive exageros de interpretação (por exemplo, na cena da babá com as crianças), mas eles também corroboram e insistem em escrever os seus sentidos, pois olhar imagens não é outra coisa senão provocar-lhes fissuras no ato mesmo de descrevê-las.

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O filme é seu próprio crítico

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É curioso que somos tentados, decerto exageradamente, a traçar paralelos, também eles, baseados em experiências locais. Junho de 2013, por exemplo, junto de seus desdobramentos, uma vez que a ideia do filme é anterior às manifestações. Este aspecto perfeitamente explícito que o filme possui, seu caráter de análise sistemática dado pelo narrador, permitem também o alargamento dessas relações contextuais. O maio de 68 francês, por seu turno, foi imaginativo e convocou certa potência, mas não conseguiu desestabilizar as superestruturas do poder, sendo inclusive domesticado por ele. O filme comenta isso ao mostrar a lida do governo francês, na figura de Charles de Gaulle, com as manifestações que tomavam Paris: o poder logo sufocou a revolta. João Moreira Salles percebe que falar sobre imagens num filme é também criar outras sobre elas, num processo de autorreflexão visual continuado – e, talvez por isso mesmo, extremamente arriscado e delicado. Seu filme corajosamente toma o risco.

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No Intenso Agora, de João Moreira Salles (Brasil, 2017).

Yo No Soy de Aquí

Uruguai – Seis meses, seis aprendizados

Alvaro Andrade
23 de novembro de 2017

Meio ano já é tempo suficiente para algumas constatações sobre o Uruguai. O tempo ajuda a consolidar percepções, derrubar mitos e ter uma visão menos romântica do país que se tornou a panaceia sul-americana.

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Como não amar um país movido a parrilla?

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1 – Amsterdã latina – Para os cidadãos uruguaios, a política sobre a maconha é de fazer inveja aos países de primeiro mundo: é permitido cultivar, comprar em farmácias (!!!) ou participar de cooperativas de cultivo. Enfermos começam a ter acesso aos derivados medicinais para tratamento de doenças crônicas. Mas turistas podem guardar o isqueiro e tirar o cachimbo da chuva pois não é nada fácil – nem permitido – conseguir um cogollo por aqui.

2 – Qualidade de vida x custo de vida – Aqui está o xis da questão: Morar em Montevideo é sentir-se seguro, ter serviços sempre próximos, 20km de orla urbanizada, limpeza eficiente e parques conservados. Mas viver a cidade custa caro: alimentação e moradia são os itens mais pesados do orçamento, seguidos por luz e combustível. Em geral, o custo de viver é pelo menos 20% mais caro que Porto Alegre, por exemplo.

3 – Imigração x oferta de empregos – Não são apenas os brasileiros que ‘descobriram’ a promissora qualidade de vida dos orientais. Cubanos e venezuelanos também estão na disputa pelas vagas de trabalho de nível básico. A situação é ainda mais complicada para vagas de nível técnico ou superior, já que o mercado é muito restrito.

4 – Educados sim, hospitaleiros talvez – idosos e mulheres têm preferência nos ônibus, todos cumprimentam-se e conversam amenidades. Amizades são cultivadas com esmero. Mas não espere intimidade imediata ou grande receptividade. Uruguaios são bastante reservados e ganhar a confiança deles demanda mais do que um churrasco em fim de semana.

5 – Tenha teu mate – Não chegue na roda do chimarrão esperando tua vez. Primeiro porque não tem roda, segundo porque não haverá tua vez. O mate é um patrimônio individual do uruguaio.

6 – Capital, pero no mucho – Montevideo tem metade da população uruguaia, três shoppings centers, grandes clubes de futebol, é uma capital repleta de parques, mas tem seus limites. A vida noturna da cidade é discreta, shows musicais de destaque são raros. O que se sobressai é o incentivo público a dança e dramaturgia, com espetáculos semanais no Teatro Solis. Comer e descobrir novos restaurantes acaba sendo o principal programa do fim de semana.

 

Foto: Pixabay

Guia de Viagem

Tokyos – Retratos do Cotidiano

Geórgia Santos
22 de novembro de 2017

Desde que compreendi o prazer da leitura – há muito tempo – percebi a verdade por trás do clichê de que os livros nos fazem viajar. As palavras desenhadas por autores talentosos foram trampolins para a minha imaginação e, acreditem, Hemingway levou-me à Cuba, onde conheci o velho Santiago; e com Jorge Amado viajei à Bahia, no período do carnaval, onde conheci Dona Flor e seu marido Vadinho. Conforme o tempo foi passando, percebi que a possibilidade de viajar transcende a página de um livro e pertence à arte.

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E hoje vou viajar à Tóquio

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O projeto Tokyos – Retratos do Cotidiano apresenta a capital do Japão que os estereótipos de guias de viagem deixam de fora. Na exposição do fotógrafo Gustavo Mittelmann, Tóquio supera as grandes construções e o neon para ser desvendada em sua essência humana.

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Tóquio são as pessoas

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As fotos exibem a cidade de que só existe por uma fração de segundo e depois se transforma. Uma cidade viva, com grande contraste cultural e movida por uma engrenagem humana que não tem nada de fria.

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Gustavo está compartilhando conosco a poesia visual das ruas 

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Tokyos – Retratos do Cotidiano está em exposição no Centro Cultural Érico Veríssimo, na sala O Retrato, entre 23 de novembro e 16 de dezembro. Parte das fotos integrará, em janeiro de 2018, uma mostra coletiva na Agora Gallery, em Nova York.

Centro Cultural Érico Veríssimo – Rua dos Andradas, 1223 – Centro Histórico, Porto Alegre – RS

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Gustavo Mittelmann é publicitário de 38 anos formado pela UFRGS. Sócio e diretor de cena da Catraca Filmes há 11 anos, já atua no audiovisual desde o final dos anos 90. Foi nessa mesma época que a paixão pela fotografia começou a se manifestar. Não demorou muito para o quarto se transformar em um laboratório de fotos preto e branco.

Ao longo dos anos, a atividade profissional ajudou a aprimorar o hobby e vice-versa. Como resultado, vieram dois prêmios de fotografia amadora e duas publicações na revista francesa Photo, uma das mais importantes da área no mundo.

Airan Albino

Consciência e invisibilidade negra

Airan Albino
20 de novembro de 2017

Dia 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. A data foi escolhida em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), principal referência negra na história do Brasil. Todos nós sabemos disso, do porquê ser feriado em algumas cidades. Entretanto, uma coisa não pode passar batido nessas orações: referência.

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Zumbi é, sim, o primeiro nome em que pensamos quando falamos de negritude no país, mas ele não é um bastião, o único

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Temos muitas referências negras na nossa história e, propositalmente, não sabemos de sua existência. Em conversas com amigos – negros e brancos de diferentes classes sociais – fiquei assustado ao saber do desconhecimento de nomes como Abdias do Nascimento (1914-2011) e Lélia Gonzalez (1935-1994). Esses dois foram líderes contemporâneos que tiveram impacto na cultura e política negra brasileira no último século, mas por que não os conhecemos? Ou pior: por que não vamos atrás de suas histórias?

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Porque o racismo age de muitas formas e invisibilizar o negro é uma delas

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Sou de Porto Alegre, nascido e criado, e só em 2015 passei a conhecer eventos de identidade e resistência do povo negro da cidade. Porto Alegre é uma cidade com uma segregação absurda. Todos nós, moradores da Capital, sabemos disso. No momento em que falamos os nomes dos bairros Moinhos de Vento e Restinga, conseguimos enxergar a cor dos moradores. Conseguimos fazer as associações de branco e negro; rico e pobre; central e periférico; bom e ruim; organizado e bagunçado; limpo e sujo. E fazemos isso sem esforço nenhum, “é natural.”

O Dia Nacional da Consciência Negra é um dia para que se reflita em cima de questões como essa, a da invisibilidade. Ele serve para que o debate do racismo seja levado ao maior número de pessoas possível, brancas e/ou negras. Ele serve para pensarmos em formas de mudar essas associações de bom e ruim, no momento em que falamos sobre pessoas brancas e pessoas negras. Ele serve para que as referências negras não sejam esquecidas, mas, sim, estudadas e respeitadas.

E esse momento de reflexão sobre a invisibilidade pode começar em Porto Alegre, uma das cidades mais ricas em cultura e história negra do Brasil. Na cidade que abrigou uma das maiores referências negras do país: Oliveira Silveira (1941-2009). Na cidade em que se iniciou o movimento e o projeto para que o 20 de novembro fosse escolhido como o dia da nossa consciência negra.

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*Na foto, Oliveira Silveira, poeta, militante do Movimento Negro e um dos líderes da campanha pelo reconhecimento do Dia Nacional da Consciência Negra (Divulgação)

Samir Oliveira

Não em nosso nome!

Colaborador Vós
16 de novembro de 2017
Foto: Beto Barata/PR

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, traz consigo uma série de debates a respeito do racismo no Brasil. A população LGBT negra está entre a mais vulnerável em nossa comunidade. Para refletir sobre essas questões, convidei o jornalista e militante do coletivo Juntos, Fernando de Oliveira Lúcio, a escrever um texto para a coluna Igualmente. Fernando foi coordenador do Projeto Purpurina, em São Paulo, e foi homenageado, em 2016, pela Associação da Parada LGBT de São Paulo, por seu documentário “Princesas Impossíveis”, sobre as vidas de travestis e transexuais.

Samir Oliveira

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Por Fernando de Oliveira Lúcio

A Semana da Consciência Negra se aproxima em um momento bastante oportuno, com discussões acerca de raça e discriminação pautando os veículos midiáticos. Enquanto militante negro e gay, que reivindica a luta do povo trabalhador com a mesma intensidade do combate a todo tipo de preconceito, enxergo agora um momento de importante reflexão para a chamada “esquerda identitária”. Quais serão nossos rumos daqui para frente?

Há pouco mais de uma semana, a ministra dos Direitos Humanos Luislinda Valois vem inflamando ânimos com sua reivindicação por um salário maior que os atuais 33 mil reais. Em sua defesa, define-se como uma “escrava”, oprimida por uma sociedade racista e machista. Não contente com a controvérsia anterior, Luislinda voltou a se comparar ao povo desfavorecido há dois dias, quando declarou ser uma mulher “preta, pobre e periférica”.

São inegáveis os avanços no debate sobre opressão nas últimas décadas. Nossa sociedade já não tolera que âncoras jornalísticos desdenhem das “coisas de preto” sem uma reação negativa em massa, forçando a emissora a suspendê-lo. Tampouco aceitamos que se tente patologizar a homossexualidade ou restringir o direito da mulher ao aborto legal sem ampla mobilização.

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Em um cenário como este, resta uma questão essencial:

Quem está do nosso lado?

Quem merece nossa defesa?

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Luislinda é um personalidade admirável. Primeira juíza negra do país, teve papel importante na defesa da legislação antirracismo. Com muita luta, conquistou seu lugar no alto escalão da política nacional … e escolheu seu lado. Filiada ao PSDB, um dos maiores baluartes do neoliberalismo no país, a autoproclamada representante das classes desfavorecidas acha por bem usar um discurso de combate ao racismo para ampliar seus privilégios. E o faz no exato momento em que auxilia um governo golpista a retirar os parcos direitos conquistados pelos trabalhadores. Há que se lembrar a cor da pele da maioria dos afetados por essas políticas nefastas: negra.

O uso de comparações exdrúxulas, alimentadas por motivações pessoais ou interesses políticos, não é um fenômeno novo. Em 2016, ao sofrer uma condução coercitiva ilegal, o ex-presidente Lula e vários de seus apoiadores apressaram-se a comparar seu mártir ao povo negro vitimado pela arbitrariedade pessoal. Lula, sem dúvida provindo da classe trabalhadora, hoje responde a processo judicial em liberdade, assessorado por advogados pagos a peso de ouro. É necessário apontar as irregularidades no processo a ele dirigido, porém qual o cabimento de compará-lo aos moradores das favelas, as mesmas favelas “pacificadas” em 2010 por ordem dele, a fim de abrir espaço para a realização da Copa do Mundo? E, sobretudo, qual a cor da pele da maioria dos afetados por essa política de segurança truculenta? Negra.

Mundo afora, a política encontra-se em um processo de reorganização. Mulheres, LGBTs, negros colhem os frutos de décadas de luta e vêem suas pautas debatidas e apoiadas por amplos setores da sociedade, talvez como nunca antes na história da Civilização Ocidental. Ao mesmo tempo, o descontentamento com o neoliberalismo, abraçado inclusive por grande parte dos antigos lutadores sociais, tem criado forte descontentamento entre aqueles que vêm sendo deixados para trás. Quem, como eu, acredita em outro modelo de sociedade, em que todos tenham seus direitos sociais e políticos reconhecidos, em que ninguém seja discriminado em função de raça, gênero ou sexualidade, não deve titubear ao tomar sempre o lado do povo trabalhador.

Defender representantes do neoliberalismo, cúmplices da exploração sofrida pela maioria dos negros, LGBTs e mulheres? Não em meu nome. Não em nosso nome!

 Foto: Beto Barata/PR

Nós US

Trumpism Doesn’t Win Everything

Sacha
15 de novembro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

Let there be hope for the difficult political times we’re going through. It had seemed that all the rules of the game were turned on their head. The 2017 election, however, showed that politics isn’t (yet) a lost cause.

This month’s elections showed that Trump is not immune to his historically unpopular presidency and the effects it has on his party. In a number of states, Democrats made large gains in local and statewide races. This was especially the case in Virginia, where they have nearly flipped one house of the state legislature—unthinkable leading up to the election.

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The results were in line with polling expectations

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Given last year’s losses, however, Democratic supporters were nervous about the possibility of further surprises. Instead, they made gains in friendly states like Virginia and inroads in more difficult places like Georgia, Montana, and South Carolina. Far from retreating further, the party appeared to solidify its position ahead of the 2018 midterm elections.

In Virginia’s governor race, the Republican candidate attempted to use Trump-style media tactics while maintaining a more reasonable profile in campaign rallies. That strategy backfired. If the new rules of the game were supposed to be Trump-style sensationalism at all costs, it appears at least the voters in Virginia didn’t fall for it. For all his flaws, the Democratic candidate managed to win by roughly 9 percentage points.

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The formula wasn’t a perfect elixir

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Politics, like most social sciences, is about sussing out trends over time as opposed to one-off revolutions of facts. What we know in American politics is that the president’s party is usually at a disadvantage in midterm and special elections. We also know that how low a president’s approval rating sinks tends to correlate with how well the opposition is poised to do in the next round of elections. As a sort of official testing ground, these elections proved that even in the era of Trump, that holds true.

That a bombastic campaign of populist cliches and scaremongering didn’t manage to succeed on Virginia voters should call into question what exactly made the formula work for Trump. The Republican Party is facing stiff challenges in upcoming elections. Whether it should embrace Trumpism and go full steam ahead on that particular brand of toxic populism, or change course to account for more popular public policy, is now more open a question than ever.

Image: Ben Shafer