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Diante do cenário político frustrante, em tantos sentidos, permito-me uma evasão da realidade. Sonho, fantasia, idealização, a tal utopia? Não sei. Talvez uma busca de fé no futuro. E nada melhor para isso, na minha opinião, do que recorrer ao escritor Caio Fernando Abreu. Ele, que tinha um profundo desgosto com o mês de agosto, escreveu bastante a esse respeito.
A crônica a seguir é do livro Pequenas Epifanias, uma seleção de textos publicados originalmente em jornais. Um alento para os dias atuais.
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Sugestões para Atravessar Agosto
Caio Fernando AbreuPara atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.
Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos — ou precauções — úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile à fantasia, categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.
Vivo nos Estados Unidos há alguns meses por conta de uma pesquisa de doutorado na área da Ciência Política. Isso fez com que, naturalmente, eu passasse a conhecer movimentos que não nos são familiares no Brasil. Alguns interessantes, outros menos; alguns produtivos, outros desprezíveis. Faz parte. Um deles é o Alt-Right, conhecido como uma espécie de direita alternativa e que ficou “famoso” no mundo ao endossar a candidatura de Donald Trump com fervor.
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De maneira superficial, pode-se dizer que na base do seu pensamento está o nacionalismo e a supremacia branca, ou europeia como gostam de denominar com eufemismo desavergonhado. Eles defendem o nacionalismo branco
Uau! – só que não
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Fiquei intrigada e decidi pesquisar mais sobre qual é a desses caras. A verdade é que apesar do nome “moderninho” e do trocadilho batido com a tecla “alt”, esse povo representa o que há de mais antigo e retrógado do mundo. São basicamente racistas e preconceituosos, são homofóbicos, islamofóbicos, TUDOfóbicos. Com frequência, seus interesses se misturam aos do neonazismo. Delícia.
Richard Spencer é considerado um dos líderes da Alt-Right. O comediante W. Kamau Bell conversou com ele no programa United Shades of America (algo como “Tons Unidos da América”, tons se referindo aos diferentes tons de pele) e foi absolutamente brilhante. A conversa é bastante esclarecedora para quem não está familiarizado com o movimento.
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Mas afinal de contas o que tudo isso tem a ver com bunda,
dona Geórgia?
Perdão por este nariz de cera, como chamamos no jornalismo. Mas é importante para dar contexto. Acontece que durante minhas pesquisas sobre esses caras, encontrei um texto em que um ser humano falava que os Estados Unidos estavam dando um testemunho de mediocridade a partir do momento em que os americanos estavam deixando os SEIOS de lado e preferindo as BUNDAS. Sim, é isso mesmo.
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Ele dizia que POR CULPA DA ESQUERDA, o país estava ficando cheio de imigrantes latinos e de negros, e que isso estava fazendo com que os homens passassem a gostar mais de BUNDAS do que de SEIOS e que isso era sinal de decadência.
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Vocês acreditam nisso? Eu não vou colar o link aqui porque me recuso a dar mais audiência para um imbecil desses. Mas o argumento dele se organiza em torno do fato de que homens ricos, sofisticados e DE BERÇO preferem os seios das mulheres. E homens pobres e sem modos preferem a bunda, porque são primitivos e era como as mulheres atraíam os homens quando ainda não éramos Homo Sapiens Sapiens. Logo, se a preferência nacional se tornar a bunda, será um testemunho de decadência.
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Agora me diz se pode um negócio desses?
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Eu juro que comecei a rir. Aquilo era tão absurdo, tão vulgar, tão grotesco e tão pequeno que simplesmente não valia a pena. Isso que nem mencionei o quanto isso é agressivo com as mulheres, né. Mas pensei que era só um maluco berrando sozinho na internet e pronto.
Qual não é minha surpresa quando vejo um JORNALISTA da REDE GLOBO DE TELEVISÃO, conceituadíssimo (por muitos, não por mim), escrevendo isso:
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Então cá estamos, lendo que os americanos são mais evoluídos porque gostam de seios e os brasileiros merecem as merdas que acontecem com eles porque gostam de bunda
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Isso foi escrito por um jornalista do mainstream, fora do submundo dos Alt-Right na internet – e curtido por MILHARES DE PESSOAS;
Isso foi escrito pelo mesmo cara que acha que o aquecimento global é uma farsa porque faz frio no sul do Brasil;
Isso foi escrito pelo mesmo cara que acha que precisamos revisar a idade penal;
Isso foi escrito pelo mesmo cara que ficou chocado com os “maus modos” das senadoras que protestavam contra a reforma trabalhista;
Isso foi escrito pelo mesmo cara que diz que Direitos Humanos é pra defender bandido;
Isso foi escrito pelo mesmo cara que debochou DO LATIM do relator da denúncia contra Temer – e cometeu um erro ao fazê-lo;
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Isso foi escrito por um comentarista político e econômico da Rede Globo, âncora de telejornais da Globo News e que é seguido por mais de 250mil pessoas
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Então cá estamos, lendo que os problemas políticos e sociais que os brasileiros enfrentam todos os dias é culpa da bunda. E isso, claro, é culpa da esquerda. Agora me digam se não tá tudo errado nesse mundo. Ou com esse cara, pelo menos.
Foto: Pixabay
Imaginem o Brasil com um governo com representantes interessados apenas em vantagens pessoais. Não estou falando de um livro-reportagem abordando os dias atuais em território brasileiro, mas de uma obra escrita no início da década de 1980 por Ignacio de Loyola Brandão. Sendo Não Haverá País Nenhum uma distopia, evidentemente mostra um Brasil com ainda mais problemas do que enfrentamos no momento. Entre eles, a Amazônia transformada em um deserto, a cidade de São Paulo rodeada por toneladas de lixo que formam colinas imensas, sol tão forte que corrói a pele em poucas horas…
Porém, pelo menos dois fatores nos remetem a inconvenientes semelhanças com o país real. O período histórico relatado no livro é a Época da Grande Locupletação, referindo-se ao enriquecimento ilícito dos governantes. Além disso, o narrador da história está completamente desorientado em relação à política e não entende de uma forma clara o que se passa a seu redor. Que é, pelo menos para mim, a sensação que tenho ao assistir aos noticiários nos últimos dias. Meu palpite é que tem algo a mais por trás de todo o escarcéu com as gravações feitas pelos empresários falcatruas da JBS. Mas o que existe mesmo? Quais são os interesses financeiros e políticos em retirar Michel Temer do poder? E qual seria o sentido de denunciar Aécio Neves antes das eleições presidenciais de 2018?
Enquanto eu e o restante dos brasileiros que não recebemos malas com dinheiro de propina ficamos desorientados em relação ao sentido de tudo isso, recomendo leituras que nos façam refletir e não ser feitos de bobo por discursos políticos vazios. O livro de Ignacio de Loyola Brandão pode ser encontrado facilmente nas grandes livrarias, como por exemplo, aqui.
E, em se tratando de distopias e momentos políticos e governos questionáveis, não podemos deixar de citar 1984, de George Orwell. O protagonista desse romance tem um trabalho que é basicamente reescrever notícias, de acordo com as mudanças de posicionamento do governo totalitário que domina seu país. Esse clássico literário é de onde provém a expressão Big Brother, que é o olho que tudo vê.
Já em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a sociedade é desprovida de núcleos familiares e as pessoas são divididas por castas. Qualquer questionamento ao sistema é impedido através da ‘soma’, uma substância que impede o surgimento de emoções ou possíveis revoltas.
Para concluir, vale conferir esse artigo, bem didático, sobre a distopia na literatura, do qual destaco esse trecho:
“A literatura distópica também pode representar um regime utópico que na prática destoa da teoria. As comunidades regidas pela distopia normalmente apresentam governos totalitários, ditatoriais, os quais exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social.
Nestes estados impera a corrupção e as regras instituídas em nome do bem-estar coletivo revelam-se elásticas. As conquistas tecnológicas são utilizadas também como instrumentos de monitoramento dos indivíduos, da Nação ou de grupos empresariais.”
O prefeito de São Paulo, João Dória, não é um político. E isso não é uma acusação feita a ele, ao contrário: é um mantra que o próprio chefe do Executivo paulistano repete sempre que possível, em um esforço incansável de convencimento coletivo. Mesmo estando eleito para fazer política pelo voto popular, mesmo precisando tomar decisões políticas, a partir de uma visão política das necessidades da maior cidade brasileira, em um ambiente cheio de disputas cuja natureza é incontornavelmente política: ainda assim, Dória usa a mais plácida das expressões faciais para dizer, e repetir, e frisar e acentuar que não, ele não é político. Não apenas isso: a coisa é dita com um ar de distanciamento muito claro, como se o prefeito não apenas nos informasse de que não vê a si mesmo como político, mas como quem faz questão de não ser político, como quem teme ser reconhecido como político pelo seu eleitorado.
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Não é uma admissão, um ‘ok, tens razão, não sou político’, mas bem mais um ‘não sou político coisa nenhuma, deus me livre’
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A despolitização da sociedade brasileira é o barro de onde surge esse tipo de coisa. Ser político, como sabemos, virou quase palavrão. O arquétipo do político, mais do que nunca em tempos de Lava-Jato e crise institucional generalizada, é de uma pessoa falsa e corrupta, que diz qualquer coisa para se eleger, que não dá a mínima para a população e na qual não se pode confiar. Não é uma missão para a qual se é eleito, mas sim uma espécie de profissão ou, melhor dizendo, de compromisso entre desonestos, quase uma parceria mafiosa. E aí convenhamos, quem quer falar sobre sua atividade do mesmo modo que um bandido confessa seu crime?
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Há tempos estamos elegendo governantes, na maioria das vezes, pelo que eles evocam de não-político na sua imagem ou discurso
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Vamos além de Dória, então: quem elegeu José Ivo Sartori governador do Rio Grande do Sul pensando em suas propostas? Todos sabemos que o que mais pesou foi sua imagem de ‘gringo’ gente boa, manso e bonachão, uma aparente chance de tranquilidade em um estado sempre incendiado pelo antagonismo político. Por outro lado, não se poderá dizer que Nelson Marchezan Júnior é alguém sem ideário ou trajetória política, mas até que ponto o dinamismo e juventude do atual prefeito de Porto Alegre (características marteladas durante toda a campanha do ano passado) são valores políticos?
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Nas redes sociais, nos bares e nas urnas, nossa discussão é pouquíssimo política: é uma briga de simpatias contra antipatias, onde o bem e o mal se confrontam, onde o potencial político de uma figura pública é medido a partir do seu não-envolvimento (prévio ou, em alguns casos, permanente) com a política institucional ou militante
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Não é à toa que muitos veem o manifestante como vagabundo, o fazer política como algo ineficiente, o debate político como besteira. Estamos enojados com o que virou nossa engrenagem política, de tal modo que tudo que esteja fora dela nos parece menos contaminado e, portanto, uma melhor opção. É nesse descrédito que figuras como João Dória, pela insistência em distanciar-se da política que ora exercem, acham várias ondas para surfar.
João Dória coloca a si mesmo como um empresário e, acima de tudo, um gestor. Embora a capacidade de gestão seja obviamente fundamental para manter um município – ou estado, ou país – nos eixos, não é minimamente possível gerir uma máquina política sem fazer política – e o que é fazer política senão assumir o papel de político? O prefeito de São Paulo, inclusive, continua fazendo política de forma incansável, com uma série de ações claramente midiáticas que causam a nítida impressão de que ele ainda não desceu do palanque, que continua em campanha para uma nova eleição que ainda não se definiu qual seja, mas aponta mais para Brasília do que para o Palácio dos Bandeirantes. Que não-político é esse que, mal eleito para a prefeitura, e mesmo tendo garantido que cumpriria esse mandato até o fim e não tentaria reeleição, admite com cada vez menos reservas que topa concorrer ao que quer que apareça como oportunidade em 2018? Que não-político é esse que se manifesta de forma dura, e claramente política, sobre uma greve geral que visa o governo federal, que não traz nenhuma oposição direta a sua própria administração – ou seja, que se posiciona de forma política sobre um relevante evento político?
Sugiro ao leitor e à leitora que desconfiem de quem, em meio aos políticos, insiste que não é político. Ou não é capaz de ver a si mesmo como político, mesmo sendo um deles, ou simplesmente tenta desviar os olhares para algum outro lugar. Ser ou não ser um político não é um predicado em si mesmo: é uma tarefa, que se assume ou não, de forma confessa ou dissimulada. E eu não sei vocês, mas eu quero meus eleitos bem políticos mesmo, porque ou a gente faz política de peito aberto ou ela simplesmente não serve, bem dizer, para nada.
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
Promovi uma pequena enquete pelo Twitter na semana passada. Meu objetivo: entender um pouco melhor a disposição dos setores mais à esquerda para um voto conveniente nas eleições de 2018 (caso elas aconteçam, é claro). Abaixo, o enunciado e as respostas:
https://twitter.com/igornatusch/status/854020659072180224
Algumas ressalvas. É evidente que se trata, acima de tudo, de um estudo de bolha – afinal, a imensa maioria das pessoas que tiveram contato com a enquete ou eram meus amigos e seguidores, ou eram pessoas próximas a esses que tiveram a chance de ver a enquete por meio de algum retweet. Um círculo pouco extenso e, portanto, de pouco ou nenhum valor científico. As opções também não foram as ideais: minha ideia inicial era ter cinco opções, com a candidatura do PSOL separada dos votos nulos. Porém, a ferramenta do Twitter infelizmente limita a quatro o número de alternativas – e, como para mim os nomes de Lula, Marina e Ciro eram fundamentais, fui forçado a juntar o partido com a opção de não votar em nenhum dos candidatos. Isso gera problemas óbvios para a leitura, como o fato de eu não saber exatamente quantos votariam nulo no cenário proposto. Ainda assim, acho que dá para tirar algumas reflexões usando essa enquetezinha como suporte.
A amostragem não é de todo desprezível, e a bolha no caso quase ajuda, pois a maioria dos meus seguidores são identificados com ideários progressistas e, portanto, mais pretensos a buscar opções de centro-esquerda em um cenário tão polarizado como deve ser o do ano que vem.
Ideologia fragmentada
O cenário que se desenha, a gente bem sabe, é de centro-esquerda fragmentada. É um momento de queda de hegemonia do PT, que durante décadas praticamente monopolizou o voto viável para esse nicho, ao menos em escala federal. Há um vácuo evidente nesse protagonismo, que será mais ou menos acentuado na medida em que Lula – única figura petista (e da centro-esquerda) cujas chances de vencer estão acima de debate – tiver ou não a oportunidade de concorrer.
Um exemplo é Ciro Gomes. Sem Lula, é um candidato a ser levado em conta; com o barbudo no páreo, perde muito de sua força, não sendo absurdo supor que possa deixar de lado sua convicção de momento e aceite concorrer como vice em uma chapa PT-PDT.
Talvez até mais do que uma briga pelo Planalto, o lado esquerdo do cenário político vê o pleito como uma chance de tomar a dianteira entre seus iguais – acima de tudo, se Lula não estiver na disputa.
Para o eleitor, a coisa é bem outra. Trata-se de lidar com um cenário desesperador – onde João Dória aparece como fenômeno midiático, Jair Bolsonaro cresce no submundo das redes sociais e não faltam Alckmins e Aécios aguardando o momento mais adequado para colocar o bloco na rua. Direitos históricos dos trabalhadores estão sendo profundamente visados, outros que vinham sendo construídos estão sob sério risco diante de um verdadeiro levante obscurantista, e tudo isso enquanto minorias seguem oprimidas por movimentações cada vez mais hostis, no Executivo e no Congresso.
Em resumo, ninguém parece pensar nas urnas como forma de legitimar um possível nome forte para o futuro à esquerda: o negócio é apagar incêndio, e rápido. A pequena amostra que temos até aqui mostra isso: o voto por convicção ou identificação ideológica fraqueja, diante de uma escolha cada vez mais clara por alguém que evite o pior. A quantidade de frases nessa direção, na enquete e no dia a dia, que tenho ouvido é testemunho claríssimo disso.
Esse cenário é de Lula
O discurso de que votar é uma escolha entre o criticável e o inaceitável vem sendo há tempos o mote das campanhas petistas – foi assim na reeleição de Dilma Rousseff, qualquer um há de lembrar. Num cenário onde os sonhos ruins de todos os progressistas viram realidade em frequência quase diária, reforçar esse discurso torna-se muito mais fácil. Ainda mais para uma figura como Lula.
Além de ter construído uma imagem quase messiânica em torno de si, o ex-presidente tem sido igualmente eficiente em construir, na imaginação de enormes contingentes, a narrativa de pai dos pobres perseguido por uma direita rancorosa e uma investigação injusta, determinada a destruí-lo.
Some-se a essa conjunção de fatores o já bastante consolidado ‘mito do gestor’: a convicção tácita e crescente de que o problema dos políticos é justamente serem políticos, e que é importante colocar no poder figuras que vejam o Executivo como um espaço de eficiência e objetividade. Sem desperdícios e sem perder tempo com discussões de fundo. Sem o debate conceitual, a esquerda perde muito do seu potencial, e a maré não está nem um pouco para esse tipo de discussão. Lula, com sua figura e seu discurso, é talvez o único político da “velha guarda” praticamente imune a esse tipo de colocação – praticamente.
Não é surpreendente (embora seja digno de nota) que muitos setores críticos ao modelo petista de governo federal estejam dispostos a engolir todas as críticas e reconduzir Lula ao Planalto. Há uma certeza (sustentava inclusive em pesquisas de opinião de escala nacional) de que, se ele concorrer, ele pode ganhar, somada a uma impressão não-expressa, mas presente, de que os outros não podem. E, ao menos para grande parte, sua vitória parece muito menos apavorante que a alternativa. Não que o voto convicto esteja inviável, mas vê-se na maioria das mentes submisso a uma narrativa de urgência que, pouco ou muito real que seja, é suficientemente convincente para ditar todas as decisões.
Queiramos ou não, Lula já é o nome forte do lado esquerdo do ponteiro. E isso já está consolidado.
A pergunta de um milhão de dólares: Lula conseguirá concorrer?
Que ele deseja, não há dúvida; sua situação com a lei, no entanto, pode facilmente impedi-lo. Poucos desejam que ele concorra – e isso não se aplica apenas à centro-direita, mas igualmente aos mais diferentes setores de esquerda que se opõem, por lógica político-eleitoral ou divergência ideológica, ao modelo petista de gestão e construção de alianças. Mas o eleitorado que teme as alternativas conservadoras e/ou liberais que estão na mesa demonstra claramente sua disposição de votar no barbudo, com uma convicção que pode ser pouco calorosa, mas não dá qualquer sinal de que possa arrefecer.
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
(you can read this article in English here)
Vivemos em tempos únicos, num cenário político sem precedentes. A definição de era extraordinária. Descrevo os dias atuais? Não, você entendeu errado. A política de sempre é a política extraordinária. Até com um tal presidente Donald Trump dos Estados Unidos da América.
Os acontecimentos no mundo não deixam de surpreender, a política também
Muito se tem falado sobre o aumento no risco de conflitos com Donald Trump liderando o país mais rico e militarmente potente do mundo. Isto não deixa de ser uma verdade. Porém, o lado que mais interessa é a ideia de que representa uma divergência profunda do status quo. Em maior ou menor grau, o risco de conflito na escala mundial é um constante desde o fim da Segunda Guerra Mundial, para não esquecermos da Guerra Fria e os diversos conflitos do século XX. Até o medo de guerra nuclear por causa de instabilidade de algum regime não é nada novo. No nosso mundo, já vivemos as mesmas tensões que hoje se apresentam com tanto apelo.
A política resume-se na ação e reação a estes eventos da história. A Crise dos mísseis de Cuba foi, no seu momento, o evento da mais alta tensão política no mundo, com o mais alto risco de guerra nuclear, num cenário de vários pontos potenciais de conflitos na mesma escala. A política surpreende-nos tanto quanto o resumo dos eventos que provoca.
O cenário político transforma-se conforme estes acontecimentos, tornando cada momento o mais incerto e arriscado de sempre
Um dos fundamentos da política é que os atores—os políticos, os regimes, os países como entidades monolíticas—respondem com respeito aos seus próprios interesses. Isto é, agem de acordo com o que consideram promover o seu bem-estar. Simples assim, certo? Não, é mais complicado.
A balança de poder no mundo depende de balanças de poder cada vez mais pequenas. Dois países mantêm a paz ou entram em conflito dependendo da correspondência ou não dos seus interesses internos. Um país mantém um regime estável se conseguir uma balança entre os interesses da sociedade civil e a classe político-militar. E continua assim. Em cada escala, uma balança diferente. A política responde, no seu fundo, a todas estas balanças, fazendo decisões para tentar resolvê-las.
É por isso que cada momento, especialmente com os avanços na tecnologia, é e sempre será o momento mais arriscado da história. Ontem parece estável quando amanhã não tem garantias, deixando de lado o que possa ter negado as garantias antes.
Vivemos a evolução de ideias nada novas
Trump não foi um gênio de garrafa que apareceu do nada. É, na verdade, apenas a evolução de pensamentos e ideologia já existente faz décadas nos Estados Unidos. Bill O’Reilly saiu do ar agora neste ano de 2017 depois de 21 longos anos cuspindo as palavras da ideologia que hoje domina na Casa Branca. O Partido Republicano experimentou cessar todas as atividades do governo por causa do orçamento em 1995, 18 anos antes do mesmo ato causar um escândalo de instabilidade impensável. E mais.
O único que há é uma evolução, em todos os lados, de ideias e pensamentos velhos. É verdade que nunca tivemos uma pessoa de tamanha inexperiência, com tal comportamento, com tais conflitos de interesse na Casa Branca. O que sucede, contudo, tem uma história da qual devemos aprender melhor.
Image: Miral Akbulut
A imagem que ilustra a matéria foi registrada em 13 de abril de 1984, durante o movimento de Diretas Já em Porto Alegre – uma manifestação que, imagino eu, a maioria dos leitores e leitoras considerará, no mínimo, legítima. É possível enxergar com certa facilidade bandeiras do PDT, PCB e PMDB na foto – siglas que, à época, eram identificadas com o campo progressista e de oposição à ditadura. Ao ver essa imagem nas recordações de Facebook, durante a semana passada, voltei a fazer uma reflexão sobre os gritos de “povo unido protesta sem partido”, tão comuns em mobilizações de rua nos últimos anos, vindos tanto de gente mais à esquerda quanto de conservadores e direitistas.
É óbvio que estamos diante de cenários muito diferentes, mas ainda assim acho válido o questionamento. Faria algum sentido dizer que trabalhistas e comunistas teriam “cooptado” a manifestação de Diretas Já a seu favor, ou que sua presença abalou a legitimidade do protesto? Faria sentido, para os que protestaram na época, dizer que “povo protesta sem partido”? E por que isso faz todo o sentido agora, para tanta gente, sendo que os partidos políticos seguem sendo (ao menos em teoria) basicamente o que eram naqueles tempos: catalisadores da vontade de determinados grupos sociais, traduzindo em projetos e bandeiras os anseios de fatias significativas da população nacional?
Há, como bem se sabe, uma onda forte de descrédito quanto à política institucional. Quando alguém grita exigindo que as bandeiras sejam baixadas durante um protesto, está basicamente manifestando essa descrença, essa sensação de que os partidos preocupam-se apenas com as próprias conveniências e nada mais. No entanto, essa revolta traz entre suas características uma ausência de resposta implícita, já que dela não surge (ou ainda não surgiu) um caminho que melhore essas estruturas, que traga uma democracia institucional mais sólida e menos corrompida. Não é necessariamente um erro, diga-se: é mais um sintoma da ausência de reflexão por trás da maior parte das vozes que participam desses gritos. As alternativas, quando surgem, ou são articuladas de forma ingênua (voto em pessoas, não em partidos) ou propondo o abandono completo da esperança democrática, como nos cada vez menos constrangidos gritos por intervenção militar. Não são as únicas, mas são as vozes que ganham força em um cenário onde a indignação surge sem base, como água que brota do chão e não se sabe para qual lado irá correr.
Não tenho e nunca tive partido político. Sou crítico do atual modelo político brasileiro e um moderado descrente das possibilidades da política partidária como um todo, especialmente no sentido de promover verdadeiras mudanças de modelo e de sociedade. Não me sinto plenamente representado por nenhuma das bandeiras de partidos políticos que estiveram (ou estão) presentes em manifestações pelo País, e penso que precisamos de uma reformulação profunda no cenário partidário, no mínimo. Ainda assim, acho que esse tipo de grito traz em si a semente de um equívoco, acho errado querer impedir que partidos políticos se digam presentes nas ruas, em meio à massa humana que reclama de alguma coisa.
Essa demanda de “povo sem partido” pode ser espontânea, mas sua formulação em grito de guerra não é ingênua e desinteressada. É filhote de setores que acreditam existir na política partidária (em especial a de esquerda) uma tendência ao crime, à desonestidade e à criação de tensão social, entre outras coisas. Quem tradicionalmente pede que partidos fiquem de fora das manifestações populares é quem é contrário à ação política como um todo – e isso favorece quem se beneficia da despolitização coletiva para manter o poder de fato em suas mãos. Ao gritar que o “povo protesta sem partido”, está se reforçando a ideia de que um protesto “puro” só existe na completa ausência de mobilização partidária. Ou então está sendo defendida, mesmo que de forma inconsciente, uma noção de que o povo está intrinsecamente distante da articulação política, como algo que é “deles” e que nos contamina caso tenhamos contato com isso. Em última análise, são argumentos que jogam a favor do status quo e contra qualquer tentativa, institucional ou não, de mudança. Gostem ou não da política partidária, ela ainda é e possivelmente seguirá sendo um meio importante de atuação, e não me parece interessante (mesmo eu sendo, como apontei, um crítico do modelo) que ela seja deslegitimada desse modo.
A verdade, gostem ou não, é que povo simplesmente protesta, com ou sem partido. Evitem a proximidade com grupos político-partidários, se discordam deles; não aceitem suas sugestões, ignorem, mantenham distância. Mas não sejam ingênuos, atuando a favor de forças que, se tiverem chance, não hesitarão em calar as próprias vozes que as conclamam.
Foto: Alfonso Abraham
Um jornalismo sem capacidade de obter informações sensíveis é frágil e submisso – e é exatamente isso que políticos mal intencionados querem
A condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, responsável pelo Blog da Cidadania, foi mais um dos gestos questionáveis oriundos da força-tarefa da Lava-Jato – uma investigação (e digo desde já para tirar essa pedra do caminho) muito importante, plenamente justificada e que deve, sim, ser conduzida até o limite, sem piedades ou simpatias eletivas. O pior dela, porém, não é o procedimento jurídico questionável em si, mas seu objetivo confesso: forçar o blogueiro a revelar quem havia vazado a informação, depois confirmada, de que Lula seria alvo direto de ações da operação. Ou seja, Sergio Moro e seus colegas queriam que Guimarães abrisse mão do sigilo da fonte, um dos pilares que sustenta toda a atividade jornalística. Para justificar a ação, a Justiça Federal do Paraná lançou uma nota onde, entre outras coisas, se lê o seguinte:
“Não é necessário diploma para ser jornalista, mas também não é suficiente ter um blog para sê-lo. A proteção constitucional ao sigilo de fonte protege apenas quem exerce a profissão de jornalista, com ou sem diploma.”
Isso não é novo. Há tempos jornalistas brasileiros têm sido assediados, de diferentes formas, para que revelem fontes de interesse para suas investigações. Eu mesmo, quando editor do Sul21, passei por algo parecido, ao acompanhar um colega chamado a depor pelo singelo motivo de ter entrevistado um representante de um movimento social – que não quis se identificar na matéria, e que a polícia desejava identificar a qualquer custo. Na ocasião, invocar o direito sagrado de sigilo da fonte foi suficiente – mas não são poucos as movimentações que querem relativizar ou mesmo acabar com essa barreira.
O motivo pelo qual esse direito constitucional não pode cair está no próprio texto da Justiça Federal paranaense. Quem definirá a linha de corte? Sua Majestade, o excelso Juiz Federal? Um Homem ungido para dividir bons e maus com um golpe de sua justa espada, eternamente iluminado e infalível? Caberá a ele, o Juiz Federal, determinar quem faz comentário jornalístico e quem não faz, quem dá notícia e quem não pode dar – e a nós todos não caberá senão dobrar os joelhos de forma obediente, aceitando a decisão do excelso Juiz como pia, boa, justa e severa na medida certa? Ou talvez caiba ao Deputado ou ao Senador, eleitos pelo voto popular, iluminados pelo aval do povo para dizer quando a fonte pode ficar em segredo e quando não pode? Talvez possa ser o Presidente, o mais poderoso entre todos, a figura a delimitar essa fronteira – afinal, ele será justo, será desinteressado, pensará exclusivamente no bem de nossa combalida coletividade?
Ninguém em sã consciência acredita nisso. Justamente porque o sigilo permite que essas mesmas pessoas – o deputado, o presidente, o juiz federal até – sejam denunciados e investigados por seus supostos malfeitos, como tantas vezes já se viu. Se fiscalizar os poderes é uma das funções do jornalismo (e inegavelmente o é), enfraquecer sua capacidade de obter informações sigilosas é decepá-lo, tanto faz se com boas ou más intenções. Que o jornalismo hoje é, na média, submisso ao interesse de fontes, infelizmente é algo notório – e algo que se revela tanto nos vazamentos seletivos quanto em situações como as “entrevistas informais” de promotores da Lava-Jato com jornalistas selecionados, situações igualmente subservientes e questionáveis. O fim da obrigatoriedade do diploma (e não estou fazendo juízo de valor a esse respeito, deixando claro) também contribui para esse quadro de incerteza. Mas são problemas que a atividade precisa resolver consigo mesma, pelos próprios mecanismos, sem a necessidade de uma voz iluminada surgida do firmamento para trazer uma resposta. Mesmo porque, como diz de forma cristalina o texto constitucional:
XIV – e assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional
Sim, eu sei que você percebeu: o trecho não fala em “ser jornalista”, o que hoje está menos definido do que nunca, mas em “exercício profissional”. Tire daí as suas conclusões.
Eduardo Guimarães é um blogueiro pelo qual não tenho absolutamente nenhuma admiração. Seu trabalho me parece, em vários aspectos, lamentável. Seu blog parece mais uma ferramenta de guerra política, financiada por setores políticos – não raro, e de forma profundamente condenável, com dinheiro público. É um fenômeno para mim repulsivo, e que fará muito bem em desaparecer para sempre. Mas quem dá informação (e, mesmo por linhas tortas e não raro mal cheirosas, é o que o blogueiro fez) exerce, em princípio, uma atividade jornalística – e, mesmo que tenham retirado a régua legal para delimitar as fronteiras da atividade, não é nada seguro confiar essa decisão à subjetividade da autoridade de ocasião.
Políticos, integrantes do Judiciário, empresários de vulto, grandes proprietários rurais – todos, na medida em que eventualmente tenham maus interesses, vão se sentir bem mais à vontade na medida em que jornalistas tenham (ainda mais) dificuldade para atuar. E, na medida em que eu diminuo o direito de Eduardo Guimarães de preservar sua fonte sem ser coagido a revelá-la, estou encorajando um monstro muito feio que, na primeira oportunidade, baterá à minha porta. E à sua também. Discutir se Eduardo Guimarães é ou não jornalista é uma forma engenhosa de desviar a atenção do principal: o que querem remover dele, e a partir daí pode ser removido de todos e todas, é um direito constitucional fundamental para o jornalismo. Se a definição de quem é jornalista ou não tornar-se algo subjetivo, algo que a autoridade da vez decide no poder de um canetaço, estamos todos sob risco – não só os profissionais, mas a sociedade inteira e sua capacidade de fiscalizar poderosos, em todas as esferas.
Foto: Igor Natusch
É sempre uma boa ideia votar em uma mulher – agora, mais do que nunca
Se alguém eventualmente tem dúvidas de que as mulheres ainda precisam lutar, e muito, pela igualdade plena no Brasil, uma simples observação de nossas casas legislativas traz elementos incontestáveis nessa direção. No Congresso, apenas 55 dos 513 deputados federais são mulheres, o que dá pouco mais de 10% do total. No Senado, a situação é ligeiramente menos ruim, com 12 senadoras em uma casa de 81 representantes, quase 15%. Ainda assim, um desequilíbrio brutal, já que as mulheres são 51,4% da população brasileira. De acordo com o TSE, menos mulheres foram eleitas prefeitas em 2016, no comparativo com 2012 – mais um dado que demonstra, com clareza, como as mulheres estão sub-representadas em nosso sistema político. Votamos muito, muito pouco em mulheres no Brasil.
Muito disso, é claro, vem da permanência de algumas ideias no subconsciente do brasileiro. A mais forte delas, uma suposta incapacidade feminina em tomar as rédeas de empreendimentos coletivos e da própria vida – o que, na mente preconceituosa de muitos, deveria forçar a mulher a um papel de submissão aos homens. A resposta, caso assim não haja, será violenta. Ou alguém tem notícias de um homem defensor de Direitos Humanos no Congresso que seja tão brutalmente perseguido quanto Maria do Rosário – alvo de ataques misóginos por parte até de colegas parlamentares? Alguém imagina Michel Temer, mesmo com a popularidade cada vez mais baixa, sendo vítima de montagens ultrajantes e gritos de guerra sexistas como os que Dilma Rousseff teve que vivenciar até o impeachment, e que possivelmente enfrente ainda hoje por aí? Os ataques a essas e várias outras mulheres em posições de poder político trazem em si um elemento extra, também visível no baixo número de eleitas: o de que a mulher não deve estar lá, de que o lugar dela não é ali. Uma situação, diga-se, que ainda surge em outras esferas de poder, como o Judiciário. Como esperar que os direitos delas sejam devidamente apreciados em um panorama como esse?
As unidades da Casa da Mulher Brasileira, planejadas para serem espaços de acolhimento nas principais cidades do País, sofrem para sair do papel. A aplicação efetiva da lei do feminicídio vai se tornando uma possibilidade cada vez menos concreta. A mudança nas proibições ao aborto, então, nem se fala. Há uma cruzada conservadora em curso no país, e boa parte das ideias que alimentam essa chama são contrárias a qualquer esforço emancipatório feminino: desejam a mulher silenciada, submissa, aceita nos espaços de decisão apenas para dar amém aos homens, jamais para contestá-los. É um cenário grave. E muito embora o voto não seja quase nada sem as mobilizações crescentes da sociedade civil em nome dos direitos das mulheres, ele também cumpre o seu papel.
Vivemos tempos de absurdo na política brasileira, onde um auto-intitulado Partido da Mulher tem dois representantes em Brasília, entre titulares e suplentes (ambos homens) e a presidente nacional afirma categoricamente que a sigla não se identifica com as lutas feministas. Ainda assim (e justamente por isso), reforçar o potencial eleitoral das mulheres é uma necessidade urgente, caso nossa busca seja a de uma sociedade onde homens e mulheres ganhem o mesmo salário, trabalhem durante o mesmo período, tenham o mesmo acesso a direitos e esferas de atuação social e política. Você vota em mulheres, leitor(a)? Se não vota, ou nunca votou, recomendo pensar a respeito. Porque os números que você digita na urna, mesmo cobertos das melhores intenções, podem estar enchendo as assembleias e prefeituras de homens, brancos, heterossexuais e de bom poder aquisitivo – pessoas que não viram criminosos por nenhum desses motivos, mas que são provavelmente bem menos sensíveis aos seus problemas (ou os da sua mãe, irmã, avó, prima, namorada, esposa, amante, vizinha ou amiga) do que você gostaria.
Foto: Cintia Barenho

