Glow

Que uma mulher nunca deixe de acreditar que é maravilhosa

Fernanda Ferrão
28 de junho de 2018

Quando eu vi a foto da minha amiga Daylane Cerqueir comemorando um ano de pole dance, fiquei muito feliz. Fiquei feliz porque ela estava linda. Mas também fiquei triste, porque sabia que em breve eu também completaria um ano desde que comecei a praticar. É estranho dizer que eu ficaria triste com uma façanha dessas, mas eu tinha absoluta certeza que não tinha nada para me orgulhar.

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A cabeça das mulheres é assim, nunca está bom. E não de um jeito perseverante, mas de um jeito destrutivo, triste, desanimador

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Mas tudo bem, continuamos. E que bom que continuamos. De repente, em uma mesma semana, subi três andares na barra na segunda-feira e, na sexta, fiquei no devil sozinha e soube, inclusive, sair da barra – vi a Bianca Castanho fazer isso tantas vezes e achei que não ia rolar. Mas assim, de repente uma ova, né? Trezentos e sessenta e cinco dias olhando esse corpo grande no espelho, de hot pant e top, esticando, puxando, forçando e pensando que vai mais mas o peito grande não deixa. Foram vários dias fugindo da aula, matando a sequência de giros porque back hook é muito ruim e nem é tão bonito, vários dias em que a mão escorregava, alguns dias dando caô porque eu não queria enfrentar. Fiz duas aulas praticamente chorando, segurando mesmo e em uma delas a Eloísa De Souza Honorato me disse:“Tu consegue fazer, tu só não consegue ver”.

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Teve um outro dia em que eu vi uma foto minha e a posição estava diferente das gurias –  óbvio, já que cada uma tem um corpo. Eu não consegui não chorar

Porque ser diferente do padrão é difícil mesmo quando a gente está em um ambiente com companhia acolhedora e também fora do padrão

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Mas foram muito mais dias segurando meu peso todo numa barra; muitos dias de respira e puxa; de força e alongamento; de mostrar para as amigas como eu fazia aquilo. Foram todinhos esses dias olhando nos olhinhos da Lolô e tendo certeza que ela acredita em mim, que ela me segura e me coloca pra cima. Quero que todo mundo encontre uma relação de amor e confiança como a que eu encontrei na Eloísa, que vocês encontrem um lugar sagrado  como eu achei o Maravilhosas (não tem nada mais legal que um lugar colorido, com música e mina andando pra cima e pra baixo quase pelada).  E mais, que vocês se encontrem em alguma atividade (se for física, melhor) que te prove todo dia que sim, tu podes! Gracias, Graziela Meyer, por ter criado essa loucura toda. Tu transformas vidas.

Amigos todos que se espantam e incentivam, continuem me chamando de maravilhosa. Quando eu deixo de acreditar, eu penso “Ah, fulano não ia se dar ao trabalho de mentir isso, né?”. Aí volto e seguimos el baile! 

Reporteando

A entrevista do Roda Viva é exemplo do que NÃO fazer

Geórgia Santos
26 de junho de 2018

Nos anos em que fui professora no curso de jornalismo da Famecos, adorava quando chegava o momento de abordar o tema “entrevista”. As cadeiras eram direcionadas para o radiojornalismo, mas uma boa entrevista é uma boa entrevista em qualquer meio e meus colegas professores e eu levávamos isso muito a sério. Afinal de contas, é a base de um jornalismo sólido e há métodos e técnicas a empregar para que ela seja bem conduzida.

À época, eu costumava recomendar que os alunos assistissem às entrevistas que David Frost realizou com o ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, em 1977. Após a renúncia de Nixon, o  jornalista britânico, até então famoso por programas de entretenimento, pagou para que o político concedesse entrevistas que seriam exibidas ao longo de quatro programas na televisão norte-americana. Aí já começa o problema. Afinal de contas, o pagamento indicaria o que se chama de jornalismo chapa-branca. Nenhum canal aceitou transmitir ou distribuir as entrevistas e Frost bancou do próprio bolso.

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A complexidade dessas entrevistas faz com que sejam exemplo do que NÃO FAZER  no jornalismo e, ao mesmo tempo, de JORNALISMO DE QUALIDADE

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O lance é que Frost estava mais preocupado com dinheiro do que com jornalismo e não se preparou para entrevistar Nixon, um político experiente e em domínio de sua retórica que pretendia usar as entrevistas para limpar o nome após o escândalo de Watergate. Lançando mão de tudo o que NÃO SE DEVE FAZER em uma entrevista, Frost foi engolido pelo republicano. Porém, como o próprio dinheiro estava em jogo, ele resolveu se preparar para a última entrevista. Sua equipe de produção descobriu fatos inéditos e Frost usou métodos eficazes. Como resultado, Nixon acabou admitindo a culpa e o jornalista entrou para a história. Além das imagens originais, o episódio foi imortalizado no filme Frost/Nixon, de Ron Howard.

Mas se a interação entre Frost e Nixon é um exemplo do ponto de vista técnico, a entrevista com Manuela D’Ávila no programa Roda Viva na noite de ontem (25) é um exemplo do que NÃO FAZER sob o ponto de vista ético e profissional.

Se Frost foi ineficaz, incialmente, porque não conseguia extrair informações de Nixon, alguns dos entrevistadores da pré-candidata do PCdoB à presidência da República foram levianos e irresponsáveis justamente porque não estavam interessados no que Manuela tinha a dizer.

Principalmente Frederico D’Ávila, um dos coordenadores da campanha de Jair Bolsonaro (PSL). A presença do diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB) foi absolutamente inadequada e suas perguntas absurdas e constantes interrupções deixaram isso bastante claro.

O aliado de Bolsonaro distorce fatos históricos já na primeira manifestação, ao alegar que o fascismo era um movimento de esquerda a partir de uma associação desconexa. Já na primeira manifestação, interrompe a entrevistada em seis momentos.

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O programa inteiro foi um festival de exemplos do que NÃO SE DEVE FAZER EM UMA ENTREVISTA

  • A pré-candidata foi constantemente interrompida, o que pode ser qualificado como o famigerado manterrupting – prática machista de interromper uma mulher quando ela está falando. Aliás, fica lançado um desafio a quem não acredita que isso exista: conte quantas vezes as mulheres são interrompidas e compare com os homens na mesma situação;
  • As repostas de Manuela D’Ávila eram ignoradas, especialmente pelo entrevistador já citado, que fazia “ganchos” e conexões livres, independente do que ela tinha a dizer;
  • As opiniões da entrevistada eram constantemente desqualificadas;
  • As propostas da pré-candidata foram ignoradas em diversos momentos em que se preferiu que focar a entrevista nas experiencias de Cuba e da União Soviética e em figuras como Lula, Maduro e até Stálin;

Infelizmente, a entrevista foi conduzida com um tom machista e foi inadequada do início ao fim. Uma cartilha para estudantes de jornalismo que, a partir deste exemplo, ficam sabendo o que não se deve fazer. E que não se exima a produção do programa, que ESCOLHEU convidar um aliado de Bolsonaro para entrevistar – ou sabatinar – uma pré.candidata. Já passaram pelo programa Alvaro Dias (Podemos), Marina Silva (Rede), Guilherme Boulos (Psol), João Amoêdo (Novo), Henrique Meirelles (MDB) e Ciro Gomes (PDT). Geraldo Alckmin (PSDB) será entrevistado em 30 de junho. Jair Bolsonaro (PSL) ainda não respondeu e, ao que tudo indica, não deve participar, já que anunciou que abre mão de participar dos debates eleitorais.

Confira aqui a íntegra da entrevista.

Foto: Reprodução / Facebook

ECOO

Comissão aprova PL do Veneno – e alguns deputados não poderiam estar menos preocupados

Geórgia Santos
26 de junho de 2018

Os deputados da Comissão dos Agrotóxicos aprovaram, nesta segunda-feira, o parecer do relator Luiz Nishimori (PR-PR) sobre o Projeto de Lei 6299/02, que flexibiliza as regras para comercialização de agrotóxicos no Brasil. Em menos de dois meses de debates, o PL do Veneno avança em meio à Copa do Mundo e a portas fechadas.

Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados

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O tema mobilizou grupos de diferentes setores da sociedade. De um lado, representantes do agronegócio. De outro, ambientalistas e entidades ligadas ao meio ambiente e saúde

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Apesar de todo o interesse em torno do assunto, alguns deputados não estavam preocupados ou atentos ao debate. Ao que tudo indica, tinham coisas mais urgentes a resolver. Segundo reportagem do jornal O Globo, César Halum (PRB) foi flagrado enquanto se divertia e olhava a foto de uma mulher seminua no celular. Ao ser questionado, não só não assumiu a responsabilidade como respondeu com grosseria.

“É o seguinte: você abre o celular, aí os caras vão e colocam isso aí. Eu abro toda hora para ver mensagem e aí de vez em quanto vem isso aí. Também não vou olhar uma foto de macho com pau duro olhando pra mim”, respondeu à reportagem de O Globo.

Já o deputado Victório Galli (PSL-MT) se divertia acompanhando o jogo entre Portugal e Irã pela Copa do Mundo, também pelo celular. Neste caso, não houve resposta do parlamentar. Os dois votaram a favor do projeto que flexibiliza o uso de agrotóxicos. O PL do Veneno foi aprovado por 18 votos a 9 e agora segue para votação na Câmara dos Deputados. 

Os ruralistas afirmam que a proposta trata, apenas, da diminuição da burocracia no processo de certificação dos produtos. Garantem que não há risco para os consumidores. O Vós já se posicionou sobre esse assunto, que acreditamos ser um problema de saúde pública. O PL do Veneno afrouxa a regulação de agrotóxicos e pode trazer sérios riscos à saúde humana. A nossa posição não é uma questão de opinião, mas embasada nos comunicados oficiais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e do Instituto Nacional do Câncer.

Se o projeto for aprovado no Congresso, o Ministério da Agricultura terá toda a autonomia para registrar novos agrotóxicos, sem a palavra das entidades de saúde e meio ambiente.

Confira aqui os riscos que a aprovação do PL do Veneno traz à saude.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – As Boas Maneiras

Pedro Henrique Gomes
22 de junho de 2018

As Boas Maneiras, nova parceria de Juliana Rojas e Marco Dutra, assume a roupagem do filme de fantasia dark, repleto de motivos visuais fabulares, de imaginações que se tornam carne e sangue, de sonhos que são também outra coisa, de clara aposta estética em uma estrutura de resgate a partir de várias referências matriciais que percorrem e marcam a história das imagens (da pintura, do cinema: da luz). É precisamente, paradoxal que seja, por se movimentar entre gêneros que o filme corrige sua postura narrativa com o contrapeso que um exige do outro, deslocando as sensibilidades do espectador para o interior de seu tecido narrativo.

O filme é envolvido, em essência, pela atmosfera do horror, por seus elementos universais, mas é embebido pelo musical, pelo drama social, assim como vários trabalhos anteriores tanto de Juliana (Sinfonia da Necrópole) quanto de Marco (Quando Eu Era Vivo) também são. O puxão de orelha sacana do musical, que acompanha o horror com frequência, por exemplo, nos cinemas americano e italiano, lança aqui os seus momentos de torpor: é para ser visualmente belo e sensivelmente repugnante o desenrolar de toda narrativa.

A percepção do espectador, no entanto, aprecia sofrer e agonizar a partir do jogo que a hibridez de gêneros propõe, onde sua conjugação visual transita entre o prazer e a emoção mediadas pelo medo. Sofrer é sentir a confusão entre o realismo e a fantasia, entre uma São Paulo de formas e conteúdos enigmáticos e fantasmagóricos (mas que ainda é a São Paulo que abriga muitas diferenças e insiste em não corrigir suas distâncias de classe), que aparecem não somente como necessidade de “comentário social”, mas como geografia de um mundo por um lado raro (de quem não precisa se preocupar com a crueldade desse mundo) e, por outro, muito constante (de quem articula sua existência na urgência das coisas). Sabemos onde estamos, mas nem sempre sabemos onde fincamos nossos pés (como em Jacques Tourneur ou em Dario Argento).

O tecido do filme, que se desdobra em dois tempos, tem Clara (Isabél Zuaa) como personagem central. Clara fez um curso de enfermagem que não concluiu, mas mesmo assim conseguiu o emprego na casa da gestante Ana (Marjorie Estiano), quando lá foi para uma entrevista. Com o tempo, ela percebe algo estranho no sonambulismo de Ana, passando a observar seu sono. Mesmo quando dá o salto divisório, é muito retilínea a trama do filme, que “acontece” rapidamente até criar o chão e os contornos dramáticos para sua metarreflexão ter início nas duas partes que o conectam.

Isso pois os elementos narrativos e visuais de As Boas Maneiras são cativantes por seus aspectos ilusórios, que solicitam um olhar atento e persistente a recepcionar e refletir o que vê. Não pela vontade de atrair o olhar do espectador para um alçapão, mas para envolvê-lo por inteiro em seu próprio desejo inconsequente, como são os desejos maternos e o amor sobre os quais o filme também versa. O deslocamento entre gêneros que o filme propõe é recorrente em certo cinema de horror onde a encenação (o Giallo, por exemplo) tem grande explicitude e evidência gráfica. Jamais esqueceremos do rosto que reflete no instante de um segundo num espelho em Prelúdio para Matar ou da aparição fantasmagórica de Madeleine no Hotel Vertigo em Um Corpo que Cai. De certa maneira, quando Clara estende a mão, na cena final, tomada por medo e confiança, também este plano permanecerá com toda sua força. Entranhados nas imagens, sucumbimos aos seus movimentos, mas os desejamos frontalmente.

As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Brasil, 2018. Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Gilda Nomacce, Hugo Villavicenzio, Andrea Marquee.

Pedro Henrique Gomes

Licínio Azevedo: viver para narrar

Pedro Henrique Gomes
2 de junho de 2018

A violência colonial nunca coube somente nos livros de História. Antes da independência, os países africanos só viam a si mesmos através do olhar do colonizador, isto é, não produziam imagens sobre si. Em última instância, não viam a si mesmos nas imagens que eram feitas “sobre a África e os africanos”. Em cada país aos seus modos, a experiência de descolonização propiciou, com todas as dificuldades imagináveis, por um lado, o fato de se começar do zero a construir um pensamento sobre a produção de imagens (uma questão estética e cultural) e, por outro, a própria inexistência dos meios para tal (uma questão econômica e política).

Independente de Portugal em 1975, assim como as outras ex-colônias portuguesas na África (como a exceção da Guiné-Bissau, que conquistou a independência um ano antes), Moçambique logo criou o Instituto Nacional de Cinema e, com ele, o Kuxa Kanema (O Nascimento do Cinema), cinejornal de atualidades (e documentário de mesmo nome dirigido pela cineasta Margarida Cardoso) cujo objetivo central consistia em “criar a imagem do povo e devolvê-la ao povo”. Foi comum, aliás, aos vários projetos socialistas que vigoraram na segunda metade do século passado o ímpeto de constituir (ou de reconstituir), pela via da cultura, suas feições nacionais após a libertação do jugo colonialista ou de ditaduras. Era preciso participar, em fato, da “batalha da informação”.

Convidado por Ruy Guerra, depois de rodar a América Latina como jornalista, passar por Portugal e Guiné-Bissau, Licínio Azevedo (nascido em Porto Alegre) chegou a Moçambique em 1977 para trabalhar no Instituto. E lá ficou, tornando-se um dos principais realizadores do país em uma época em que, inflamado pelo projeto de transformação socialista guiado pelo então presidente Samora Machel (que via o cinema como ferramenta fundamental desse processo), havia notável interesse popular no cinema. Um incêndio e, claro, antes dele, a guerra civil (que seguiria até 1992), deixaram a sede do Instituto em ruínas, minando a infraestrutura de produção de filmes que o país havia criado.

O fato é que, do jornalismo de narrativa muito próxima da ficção (inspirada pelo New Jornalism), Licínio Azevedo foi da escrita jornalística à literatura, e desta para o cinema, sem nunca ter os abandonado para se refugiar em um só meio de expressão. Antes de uma “transição”, Licínio realizou (e realiza), uma obra de confluência, de atravessamentos e interesses que não cabem somente no cinema, nem na literatura e tampouco apenas no jornalismo.

Licínio sempre parte de algo colhido do mundo, um acontecimento que virou notícia, um fato. Parte de algo “real” antes por seu espírito de resistência e de participação democrática através do texto e da imagem. Resistir é: conservar, fazer durar, permanecer. No seu caso, contar histórias. Seu filme Desobiência, por exemplo, torna imagem aquilo que não pode ser outra coisa, numa verdadeira aula de como fazer documentário e ficção a um só tempo, se apropriando dos elementos narrativos e visuais dos dois formatos e os incorporando ao seu estilo. O Grande Bazar, Hóspedes da Noite, A Árvore dos Antepassados, A Virgem Margarida e, agora, o Comboio de Sal e Açúcar, como outros, são todos cúmplices desse seu interesse narrativo, seja via escrita ou via cinema, seja na ficção ou no documentário.

Mas eu paro por aqui: a Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, exibirá o Comboio de Sal e Açúcar, seu mais recente filme, segunda-feira, 19h30, com a presença do Licínio em debate após a sessão – do qual este colunista também participará, embora certamente, antes de tudo, pronto para ouvi-lo.

Detalhes sobre a sessão (e sobre outras que também serão apresentadas pelo diretor no Rio de Janeiro): aqui.

ECOO

4 coisas que você precisa saber sobre o PL do Veneno

Geórgia Santos
20 de maio de 2018
Faz um exercício comigo. Imagina encher duas garrafas e meia com veneno. Falo dessas garrafas de 2L, garrafas PET de refrigerante. Agora imagina beber esses 5L de veneno. Impossível, né? Qualquer ser humano morreria. Mas e se fosse beber aos pouquinhos? Um golinho por dia? Não?
Lamento informar, mas todos os brasileiros fazem isso.

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Dados  Instituto Nacional do Câncer (INCA) mostram que os brasileiros consomem 5L de agrotóxicos por ano. Isso porque o Brasil é líder mundial no uso de pesticidas desde 2008. Aqui, é permitido o uso de determinadas substâncias que são proibidas em países desenvolvidos, por exemplo.

Mesmo assim, há quem queira flexibilizar o uso de agrotóxicos e fazer com que pareça algo bom. No site da Câmara dos Deputados, o PL 6299/02 é apresentado como um projeto de lei que regula Defensivos FitossanitáriosChique, né. Em propagandas redes sociais afora, há quem chame de Defensivos Agrícolas. Bonito.

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O nome é bonito, mas ainda estamos falando de agrotóxicos

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O projeto de lei em questão é o famoso PL do Veneno. Nome apropriado ao teor do texto que revoga a lei que controla o uso de agrotóxicos e flexibiliza o registro, controle e fiscalização desses produto no Brasil. Na gaveta há anos, a ideia volta com toda força. Foi reativada uma Comissão Especial na Câmara dos Deputados para acelerar a votação e a bancada ruralista não está para brincadeira. A saber, o autor do projeto é Blairo Maggi, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo Michel Temer.

Também estão em análise outras 17 propostas, entre elas o PL 3200/15, que substitui o nome AGROTÓXICO por defensivos fitossanitários e produtos de controle ambiental.  No Twitter, o perfil @LeiDoAlimento advoga pelo que chama de Lei do Alimento Mais Seguro. Há uma página também, em que se garante que a nova legislação fará com que os alimentos cheguem à mesa com mais segurança para todos. Afirma-se que o texto do projeto prevê a proteção dos consumidores e do meio ambiente.

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Não sou ingênua sobre a necessidade do uso de agrotóxicos em produções de grande escala. O problema é que ao invés de caminharmos na direção de uma alimentação cada vez mais limpa, corremos para abraçar uma substância que está nos matando.

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A ideia de que agrotóxicos fazem mal à saúde é amplamente aceita e comprovada, tanto que o consumo de alimentos orgânicos aumenta no Brasil e no mundo. Mesmo assim, parlamentares colocam interesses econômicos acima da saúde de gerações de brasileiros, afinal, agrotóxico não se tira com água. Porém, entre o PL do Veneno e a Lei do Alimento Mais Seguro, fica difícil saber do que se trata o projeto e de que forma ele pode afetar nossa vida de fato. Por isso, vamos listas algumas questões importantes.

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1 Mudança de Nome

O projeto prevê a mudança do nome agrotóxicos para defensivos fitossanitários. Além disso, altera o nome pesticida para enfermidade endêmica que mata. O relator do projeto, Luiz Nishimori (PR-PR) disse à Agência Brasil  que o termo agrotóxico é depreciativo e que não é usado em outros países.

Quem se opõe ao projeto afirma que o risco de mudar o nome está no fato de que as pessoas podem ser enganadas com uma falsa sensação de segurança que a palavra defensivos pode oferecer.  Tanto que entidades como o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Ministério Público Federal (MPF) publicaram notas em que demonstram grande preocupação com a aprovação do projeto. 
A Anvisa informou que a proposta não contribui com a disponibilidade de alimentos mais seguros. Portanto, “não atendendo, dessa forma, a quem deveria ser o foco da legislação: a população brasileira”. Já o MPF afirmou que a proposta é inconstitucional.
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2 Controle de Registro

A proposta exclui os ministérios da Saúde e o do Meio Ambiente do processo de análise e registro dos produtos sob o argumento de que demora de três a oito anos, o que faz com a tecnologia fique defasada. Isso significa que as atribuições ficam sob responsabilidade exclusiva do Ministério da Agricultura – eu mencionei que  autor do projeto é o atual ministro da Agricultura?

Hoje, o registro só é concedido depois de  passar também pelo Ibama e Anvisa, que analisam os possíveis danos para o meio ambiente e saúde. Ou seja, se apenas o Ministério da Agricultura analisar o produto, não há garantias de que seja seguro para o ambiente e para a saúde das pessoas que vão ingerir a substância.

Obviamente há um problema com relação à morosidade do poder público brasileiro, mas a saúde das pessoas precisa ser prioridade.

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3 Flexibilização

Hoje, a Lei dos Agrotóxicos proíbe o registro de pesticidas  mutagênicos, carcinogênicos teratogênicos. Ou seja, é proibido utilizar qual substância que cause câncer, que prejudique o desenvolvimento do feto, que gere mutações ou danos ao aparelhos reprodutor, além de danos ao meio ambiente e à saúde pública.

A nova proposta torna o conceito mais genérico, o que flexibiliza o uso de substâncias altamente perigosas.

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4 Registro temporário

O projeto advoga que se depois de 12 meses o parecer de um produto não for concedido, pode haver um registro temporário de um pesticida desde que ele tenha sido usado em, ao menos, três países. Basicamente, se as autoridades brasileiras não autorizarem o uso de uma substância, os agricultores podem usar mesmo assim, desde que tenha sido utilizado em outros lugares.

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Dados da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostram que quatro mil pessoas por ano sofrem com intoxicação por agrotóxicos – isso só em 2017. Sem contar os inúmeros danos a longo prazo que essas substâncias podem causar ao organismo humano e ao meio ambiente. Apesar disso, nossos parlamentares pretendem flexibilizar o uso de veneno na nossa comida. Tudo para atender ao lobby de gigantes do setor agroquímico como Bayer, Monsanto, Syngenta, Bunge, entre outras. Tudo para atender às demandas de muralistas fichados por crimes ambientais e acusações de trabalho análogo ao escravo.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – O Processo

Pedro Henrique Gomes
19 de maio de 2018

O plano de abertura de O Processo, documentário de Maria Augusta Ramos, sobrevoa a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para mostrar que há uma disputa política dada, encravada na polarização dos vermelhos, à esquerda, e dos verde-amarelos, à direita. A disputa pelos espaços midiáticos, narrativos, conceituais, encobre o tal processo do título, tempera os conflitos políticos, incendeia a já muito confusa discussão rodeada de “certezas históricas” e prerrogativas morais que corroem a esfera pública nacional. A batalha campal que é filmada de cima, dividindo dois focos de luta, amor e ódio, ao menos no plano simbólico, remete ao aspecto falsamente dual de nosso contexto político. Apesar de não romper com o dualismo, O Processo retira, na medida da possível, a política da esfera do espetacular, do televisivo, e a coloca em um espaço de observação e de crítica.

Consumado em agosto de 2016, após longo circo político-midiático, o impechment de Dilma Rousseff interrompeu seu segundo mandato presidencial, encerrando prematuramente o ano 14 de sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores.

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O Processo é feito de imagens de arquivo e captadas pela diretora em sessões do congresso, comissões, votações e debates da bancada governista no senado planejando os próximos movimentos da defesa de Dilma.

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O entendimento geral, no entanto, era de que o processo já possuía suas jogadas marcadas, seu xeque-mate programado. Resistir por todos os meios e fins era, pois, um ato político derradeiro.

Há uma coleção de imagens muito interessantes e bem articuladas, especialmente as captadas por Maria Augusta Ramos durante o “rito” jurídico, que respeita o tempo do drama e da fala, percebe a encenação que se apresenta para a câmera nas filmagens internas, de gabinete, nos corredores, as ligações telefônicas e entrevistas para imprensa. Ela respeita isso e seu filme ganha força e densidade dramática. Mas ao filmar o absurdo da política partidária institucional, o absurdo olha para você em reação. Momentos involuntariamente cômicos se embaralham com momentos de crise.

O filme quer tornar claro que houve um golpe parlamentar contra o PT e Dilma ao mesmo tempo em que, como documentário sobre o processo do impechment, quer também compreender os acontecimentos que basearam o golpe. No filme, está claro: não houve crime de responsabilidade fiscal, diz a defesa e a bancada governista representadas, entre outros, como personagens num thriller político, por José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Lindbergh Farias. A acusação teve em Janaína Paschoal, advogada e professora de Direito Penal, sua mais proeminente figura atendida pela câmera paciente e dedicada da cineasta. Mas se há uma coisa que o filme não faz é duvidar de si mesmo, explorar mais vivamente as tensões fora da máquina polarizadora para, aí então, buscar compreender algo. A narrativa é muito justa, retilínea e segura de sua ordem para que se possa compreender muito além da narrativa do golpe, como decerto era intenção do filme. Antes, já tinha as respostas: aqui está o golpe e foi assim. Os vermelhos, lá fora, choram a derrota e anunciam a volta por cima; os verde-amarelos, pujantes e satisfeitos, gozam não se sabe muito bem o que. O filme militante, muito justo, escorrega em suas virtudes.

Não se pode cobrar, claro, imparcialidade do documentário – embora, caso se queira, é plenamente possível ser imparcial. A história narrada por suas imagens tem um fio condutor, causalidade e uma sucessão de eventos em meio ao trâmite político cujo desenlace é o golpe, o impechment. É possível dizer que se tentou dar espaço para o outro lado, mas a construção da câmera é voltada para destruir a retórica da acusação, para isolar seus personagens ou para dimensioná-los, vez ou outra, pela caricatura. Isso é legítimo, embora fragilize a ideia de um filme feito “para que as pessoas possam refletir”. É verdade que, mesmo sem função, há imagens muito raras para não participarem do filme, como quando Janaína Paschoal bebe um achocolatado de canudinho no intervalo de alguma sessão ou o presidente da comissão que interrompe um debate para pedir a troca de uma campainha que não estava à altura do local. Esses momentos de precisão estética (fruto de atenção documental, atenção com o espaço ao redor) casam bem com o fato de alguns personagens aparecerem pouco, como Aécio Neves, Lula, Gilberto Carvalho e a própria Dilma.

Gilberto Carvalho é quem, aliás, marca um momento de reflexão tardia, já com a assunção da queda. Essa cena, crucial para o discurso do filme, é retrato também dos limites dessa reflexão que a militância petista difundiu pensando estar fazendo autocrítica.

O golpe parlamentar encerra um acordo político nacional com o pemedebismo, que foi rompido – e o lado do PT perdeu. Os golpeados não foram os políticos.

O Processo, de Maria Augusta Ramos, Brasil, 2018. Com José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin, Lindbergh Farias, Janaína Paschoal, Dilma Rousseff, Aécio Neves, Antonio Anastasia, Eduardo Cunha.

ECOO

Quantas espécies perdemos para sempre?

Geórgia Santos
6 de maio de 2018

Hoje, há 1173 espécies (táxons) ameaçadas de extinção no Brasil. Levantamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) indica como ameaçados 110 mamíferos, 234 aves, 80 répteis, 41 anfíbios, 353 peixes ósseos e 55 cartilaginosos, 1 peixe-bruxa e 299 invertebrados.

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Brasil
448 espécies vulneráveis (VU)
406 espécies em perigo (EN)
318 espécies criticamente em perigo (CR)
1 espécie extinta na natureza (EW)

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O processo de extinção está relacionado ao desaparecimento de espécies ou grupos em um determinado ambiente ou ecossistema. Isso pode ser um evento natural, assim como o surgimento de novas espécies. Mas a humanidade acelera muitos, se não a maioria, desses processos.

Geralmente, as espécies desaparecem em função da perda e degradação do habitat, algo que acontece com o desmatamento, expansão agrícola e urbana, além da instalação de hidrelétricas, portos e mineradoras. Outro problema é a pesca excessiva, no caso das espécies aquáticas, e a caça.

Um indício de que a mão do homem é responsável pelo fato de tantas espécies estarem ameaçadas de extinção é a velocidade com que se tornam vulneráveis. No Livro Vermelho da Fauna Brasileira publicado em 2008, o Brasil tinha 627 espécies ameaçadas de extinção. Em 1989, a lista continha 218 animais, embora não incluísse peixes e outras espécies aquáticas.

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Que animais são esses?

A lista completa está disponível aqui. É comum que a gente desconheça a maioria dessas espécies, mas há muitos animais que conhecemos muito bem. Alguns são símbolo da nossa fauna, como a onça-pintada, que está cada vez mais próxima da extinção. Sem contar os pequenos animais, facilmente esquecidos, como espécies de rãs e sapos, fundamentais para o equilíbrio do ecossistema.

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Fenômeno global

Em novembro de 2014, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN foi atualizada. Com os novos dados, chegou-se à conclusão de que mais de 22 mil espécies correm risco de desaparecer do planeta.

Neste ano, por exemplo, faleceu o último macho de rinoceronte-branco do norte. Sudan morreu aos 45 anos de idade. Eles foram rapidamente dizimados em função da caça predatória. Pesquisadores tentam recuperar a espécie com fertilização in vitro de uma fêmea de rinoceronte-branco do sul, com óvulos das últimas duas fêmeas de rinoceronte-branco do norte – e o sêmen de Sudan.

Mas há velhos conhecidos nessa lista, como o panda, o gorila das montanhas e o urso polar. Todos lembramos do urso polar faminto e desnutrido à procura de comida.

Acho que  já passou da hora de mudarmos nossos hábitos.

Imagens: Pixabay

ECOO

O problema do plástico é pior do que pensávamos

Geórgia Santos
29 de abril de 2018

Nós já falamos aqui sobre o mar de plástico a que estamos submetendo as próximas gerações. E se já parecia ruim, tudo indica que seja ainda pior.

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No início do ano, uma baleia cachalote foi encontrada morta com 29 quilos de plástico no estômago

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O animal media dez metros de comprimento e apareceu em Múrcia, no sul da Espanha, em uma cena que mais parecia saída de um filme de terror. Especialistas do Centro de Recuperação de Vida Selvagem El Valle encontraram, durante a autópsia, 29 quilos de sacolas plásticas de supermercado, um galão de plástico e pedaços de cordas e redes de pesca.

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Os pesquisadores concluíram que a baleia havia morrido justamente porque não conseguia expelir todo o plástico que havia engolido.

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Esse é sinal mais do que alarmante, absurdo, da quantidade de plástico que estamos jogando nos oceanos. Estima-se que mais de OITO MILHÕES DE TONELADAS de plástico sejam despejadas nos mares em todo o mundo. A crise é global e os números são assustadores. Estima-se que em 2050 teremos mais plástico do que peixes nadando nos oceanos.

Por se tratar de um material sintético, há poucos processos naturais capazes de desintegrar o plástico. Isso significa que as sacolas, canudinhos, copos e garrafas podem nadar por décadas, senão séculos. E não é algo que vai parar no estômagos de animais, somente.

Uma pesquisa realizada pela Orb Media encontrou fibras plásticas em 83% das amostras de água potável em todo o mundo. Outro estudo publicado neste ano ainda encontrou partículas de microplástico em 93% das amostras de água engarrafada (geralmente mineral). A pesquisa investigou 259 garrafas, de 19 localidades em noves países. Ao todo, testaram onze marcas diferentes. No Brasil, a marca testada é Minalba, que contém até 863 partículas de plástico por litro de água. A pior é a Nestlé Pure Life, que chega a 10390 por litro.

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O lado bom da história

Há uma série de iniciativas no mundo inteiro para reduzir a produção e consumo de plásticos. A mais conhecida é a proposta de cobrar por sacolas plásticas de supermercado, o que estimula o uso de sacolas de pano reutilizáveis. Inclusive no Brasil. O projeto de lei (PL 91/2018) que prevê a retirada do plástico da composição de pratos, copos, bandejas e talheres descartáveis foi aprovado pela Comissão de Meio Ambiente do Senado. A proposta é que o material seja substituído em até 10 anos por opções biodegradáveis. Só espero que não seja tarde.

Foto: Twitter / Espacios Naturales Protegidos de la Región de Murcia

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Imagens do Estado Novo 1937-45

Pedro Henrique Gomes
28 de abril de 2018

Imagens do Estado Novo 1937-1945 entra deliberadamente num vespeiro ao vasculhar materiais históricos, tais como imagens, canções populares, discursos radiofônicos, matérias em jornais, livros, filmes e, em essência, o diário mantido pelo próprio presidente Getúlio Vargas no intuito de oferecer sua narração sobre tudo isso.

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As imagens são mesmo abundantes e preenchem todo o filme.  E o off, narrado pelo próprio diretor Eduardo Escorel, acompanha, dando-lhes contexto e, claro, uma leitura particular (a do narrador) responsável por organizar, sistematicamente, todo o período do Estado Novo nas quatro horas de duração do filme.

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Getúlio Vargas, claro, é o personagem central, por onde se embaralham e percorrem todas as intrigas palacianas, tramas políticas, influências familiares, ameaças comunistas, comícios populares, oposições oligárquicas e toda sorte de relações que o seu governo produzia com o estrangeiro.

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Escorel começa, em fato, antes do Estado Novo (1937-45). Começa quando o movimento de 1930 (aka Revolução de 30) depôs Washington Luís da Presidência, dando fim a Primeira República. Ainda que breve, a narrativa inicia, nem que seja para fins contextuais, quando da chegada de Getúlio à presidência, em 1930, e vai terminar, após longos 34 anos, com o golpe de 1964 que depôs o então presidente João Goulart. A narração permite, no entanto, que a história se demonstre invariavelmente interconectada, comportando avanços e recuos no tempo da ação para indagar seja uma formação política, um gesto ou uma reviravolta na trama que conduz o filme. Os fatos não estão dados de antemão para o documentarista e pesquisador que é Escorel, ele irá percorrê-los, questioná-los, desconfiar das imagens que ele próprio mostra. Imagens do Estado Novo é resultado de uma pesquisa de muitos anos e que se traduz, como vemos, num panorama histórico ao qual podemos voltar várias e várias vezes, a depender das instâncias do nosso interesse.

De modo a não perder o movimento dos eventos, Escorel prefere o estilo clássico do documentário, como quem assume que a distinção de seus temas e não permite incorreções derivadas de leituras “emancipadas” da materialidade da história que narra. Apesar do eloquente racionalismo da narração, que busca se esquivar de subjetividades interpretativas, o filme propõe vários caminhos para nos aproximarmos do Brasil varguista e de todas as suas variadas formas e contradições. Seu objetivo, mais do que fazer memória com o processo histórico brasileiro que convulsionou a primeira metade século XX, consistiu precisamente em dar relevo a fragilização institucional do país, sua regular instabilidade política e seu baixo teor de participação democrática, tendo como nervo da ação o presidente Getúlio Vargas.

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Para contar essa história tendo Vargas como eixo é preciso ir longe sem sair do lugar

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As elites oligárquicas nacionais, saudosas do nacionalismo, estão aí desde a gênese do Brasil, maculadas nos sorrisos que desfilam nos banquetes palacianos, nas marchas autoritárias destituidoras e que provocam constantes abalos sísmicos na estrutura das instituições brasileiras. Ora, legitimidade para governar nunca foi permitida por muito tempo neste país que tanta vezes golpeou a si próprio e aos seus. Tomar o risco de buscar capturar as variações e dimensões da trama política nacional é, por si só, um desafio notável. Escorel acredita na força do documento. A natureza imponente da pesquisa contribui para que sua narrativa não disperse o interesse do espectador. A trama é complexa e recheada de contradições.

A simpatia de Vargas pelo nazi-fascismo é motivo de escrutínio por Escorel. A legislação trabalhista inaugurada pelo presidente e cujas fontes de inspiração são conhecidas ganham significativo destaque: tanto o malgrado populismo varguista quanto as suas reformas nos direitos sociais compõem diferentes faces de uma mesma moeda, basta vermos como a progressiva expansão dos direitos sociais não foi acompanhada pela expansão dos direitos políticos, antes pelo contrário. O nacionalismo econômico que sustentou o Estado Novo e rendeu ao governo o apoio dos integralistas liderados por Plínio Salgado – o anticomunismo os unia; da Alemanha hitlerista e de uma população majoritariamente católica, que decerto não podia ouvir falar em comunismo, Mao e União Soviética – foi possível através de uma bem difundida rede de censura da imprensa e das atividades políticas da oposição.

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O caráter autoritário do Estado Novo era evidente no modo paternalista com que tratava o povo (a ideia de povo, pelo menos).

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Filho do positivismo, não interessava ao governo do “pai dos pobres” ter o povo nas ruas senão como figurantes de seus desfiles e eventos propagandísticos. Ele queria a conciliação do patrão e do empregado. Mas como a política não comporta sentimentalismos, Vargas seria eleito pelo voto em 1950, mesmo após ter sido golpeado e apeado do poder pelos militares em 1945, quando se encerrava, tradicionalmente pela força, o Estado Novo.

Imagens do  Estado Novo conecta várias pontas dessa trama, deixa pontos de fuga e desafios reflexivos para o espectador realizar. Afora sua grandiosa empreitada intelectual, de estudo e pesquisa, há um caráter de exegese de certa sensação de democracia que o Brasil poucas vezes teve ou teve com baixa intensidade. A experiência de um golpe militar, tão recorrente na história brasileira, é ainda muito viva. Escorel faz jorrar a sangria para explorar, nos detalhes, as tensões do Estado Novo e o quanto ele ainda pode ser representativo para pensarmos os desdobramentos da política atual pela via da construção de discursos, tal como o seu próprio.