Tão série

Santa Clarita Diet – A única dieta que segui até o fim

Geórgia Santos
18 de fevereiro de 2017

Eu amo Bloody Mary. O drinque desprezado por brasileiros e brasileiras é dos meus favoritos. É picante. É intenso. É forte. É vermelho. Mas Sheila, a personagem de Drew Barrymore em Santa Clarita Diet, a nova série do Netflix, leva a devoção ao Bloody Mary a um outro patamar: com real blood – sangue de verdade.

A série retrata uma mulher de meia idade absolutamente comum e sem graça. Sheila é uma entediante corretora de imóveis que acha que rapidinhas são para cães de rua. Ela não fala palavrões, veste-se impecavelmente em tons neutros e atura ofensas do chefe com um sorriso no rosto. Ela vive em Santa Clarita, na California, com o marido Joel (Timothy Olyphant) e a filha Abby (Liv Hewson). São um casal bastante comum, com uma filha tão comum quanto sua relação.

“Ela vomita muito. Muito. Tipo muito, como frisa um colega de trabalho. Ela vomita tanto que vomita o coração”

A vida é bastante pacata. Até que Sheila encarna o exorcista e vomita uma gosma verde no carpete de uma casa que está mostrando a possíveis compradores. Ela vomita muito. Muito. Tipo muito, como frisa um colega de trabalho. Ela vomita tanto que vomita o coação. E é aí que uma série normalzinha sobre uma família de comercial de margarina se transforma em uma comédia de humor negro sobre zumbis e a hipocrisia permanente na qual estamos imersos.

Sheila transforma-se em um zumbi e só consegue comer carne crua. Carne de gado, de frango, essas coisas que toda a família tem em casa – exceto pelo tempo de forno, que difere um pouco das donas de casa comuns. Até que em um rompante de quem é guiado somente pelo instinto experimenta carne humana e não consegue voltar atrás.

As cenas podem ser bastante gráficas. A imagem da amiguinha do E.T. debruçada sobre um homem estripado pode ser muito chocante. Especialmente se notarmos que ela está com os intestinos do dito cujo na boca. Mas passado o choque, o que se tem é uma produção divertidíssima e inteligente. Sheila e o marido percebem que precisam matar outras pessoas para que ela possa sobreviver. Ainda assim, tentam manter a normalidade. E assim o público é brindado com uma mãe de família fazendo sua caminhada matinal enquanto bebe um smoothie de orelhas e nariz. Isso, sim, é um Bloody Mary.

“A Netflix usa da mais fina e ao mesmo tempo escrachada ironia para criticar a família americana “perfeita”

Ao mesmo tempo em que traz o elemento dos zumbis, um clássico de filmes de terror e de séries consagradas como The Walking Dead, a Netflix usa da mais fina e ao mesmo tempo escrachada ironia para criticar a família americana “perfeita”. Santa Clarita Diet é, também, uma crítica à sociedade das aparências: queremos o sangue do vizinho enquanto trocamos sorrisos e receitas de Brownie.

Em resumo, é a única dieta que segui até o fim – devorei os dez capítulos em um só dia. E não se preocupe, os pés e fígados que Drew Barrymore devora com tanto afinco são feitos de gominha de açúcar. Nhami.

Assista ao trailer

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Toni Erdmann

Pedro Henrique Gomes
17 de fevereiro de 2017

Por Pedro Henrique Gomes

Winfried (Peter Simonischek) resolve ir visitar a filha Ines (Sandra Hüller), que há anos deixou a Alemanha para ir trabalhar na Romênia. A sua empresa é responsável pela consultoria de risco de imagem de grandes companhias que resolvem tomar decisões impopulares (demissões em larga escala, como é o caso do filme). Ela precisa construir um arcabouço mais ou menos justificável para as demissões que irão se seguir a terceirização de serviços. Ao chegar lá, Winfried, como Bartebly, resolver negar esse mundo. Acha melhor não. Utilizando nomes falsos, dentadura e peruca, ele cria histórias para conseguir penetrar no mundo da filha (e se chocar contra ele), fazê-la questionar. Mas já adiantamos, a sagacidade do filme consiste em compreender perfeitamente que as escolhas de Ines são absolutamente conscientes.

Antes de ser uma comédia, Toni Erdmann tem momentos de humor que irrompem o drama e proclamam uma independência dentro da narrativa dramática maior (e mais fundamental): a práxis que se evidencia na relação do pai com a filha. O pai é um performer crítico, supostamente consciente de sua objetividade social, homem que conhece a natureza e a sociedade, que aprendeu a deslizar pela complexidade do sistema cultural que habita sua filha (e, claro, ele também), mas que não pensa em transformar outro mundo que não seja o seu: o da experiência cotidiana, da vida, de suas emoções diárias.

Esse personagem e essa relação dão o pontapé inicial no conflito de um ser com outro, um desafio nem tanto de conscientização, mas de re-conhecimento. Do quê? Do sujeito que o trabalho, tal como posto e levado a cabo, busca constantemente anular, deixar aos pedaços, reduzido em si mesmo e separado daquilo que lhe pode fortalecer. Isto, claro, como a mão, é uma estratégia invisível.

“Não é simplesmente transformar-se, mas derrotar, por metamorfose auto irônica, a inércia”

É lógico, no entanto, que Ade reconhece a ingenuidade daquilo que coloca em cena, isto é, da caricatura que cria do universo das finanças, haja vista o franco deboche que ela deixa vazar das reuniões de negócios, dos coquetéis de luxo, independentemente da presença do pai, o que clarifica que ele não é o centro do humor (todos vimos a cena da masturbação sobre os quitutes no hotel e a mais larga duração da sequência da festa no apartamento) do filme e, consequentemente, que o próprio humor não é aleatório, mas objetivo.

Tal qual um elemento detonador de certo terrorismo cultural, o humor faz intervenções que são antes de tudo desafios de encenação, ao que parece ser a mais potente obsessão de Maren Ade a se revelar agora: colocar na cena um conflito e então tencioná-lo, pelo exagero cômico, até o seu limite. Não é simplesmente transformar-se, mas derrotar, por metamorfose auto irônica, a inércia. Não há desespero, mas conflito, contradição. Sua filha vive o mundo das pessoas comuns, o mundo real, que é também o nosso. Um mundo que chamam de superficial, mas que é, em verdade, bem real e violento. As finanças, o marketing, a política internacional mediada pelas grandes corporações, nada disso é arbitrário no filme.

A financeirização engendrada pelo capitalismo globalizado mobiliza uma estética própria que a pureza não conseguiria alcançar (vide Costa Gavras, Ken Loach, Sérgio Bianchi e o time de cineastas críticos do sistema), pois prefere moralizar, esquematizar e se resguardar de todo o mal. Ade, ao contrário, se livra dos puros. Resolve deixar seu filme acontecer muito mais do que em todos os seus anteriores. Ela combina com absoluta inteligência cenas de genuína entrega emocional (onde o humor participa: vejam a cena em que Ines canta para algumas dezenas de desconhecidos em uma festa na qual ela entrou, com o pai, de surpresa) com momentos de exemplar dureza (a apresentação de um projeto para um cliente importantíssimo para a sua empresa).

Dividida entre o tempo em que trabalha e o tempo em que pensa no trabalho, Ines compreende os motivos da visita de seu pai desde o início, embora, ao final, mesmo senhora de sua consciência, sua vida seguirá. Ela sorri, chora e depois segue em frente. Real politik.

Toni Erdmann, de Maren Ade, Alemanha, 2016. Com Sandra Hüller, Peter Simonischek, Michael Wittenborn, Thomas Loibl, Lucy Russell, Hadewych Minis, Vlad Ivanov.

Samir Oliveira

Apoie as drags locais, elas são fabulosas

Samir Oliveira
16 de fevereiro de 2017
Foto: Fernanda Piccolo

O meu primeiro contato com a cultura drag foi uma decorrência de um dos meus primeiros contatos com o entretenimento LGBT em geral. Com a ideia – revolucionária para um guri de 18 anos recém-feitos – de que existiam espaços onde eu poderia ser mais livre, mais leve e mais feliz. Ser mais eu, afinal. Era o verão de 2006 e eu estava recém começando a frequentar as festas LGBTs em Porto Alegre. Aliás, naquela época ainda se usava o termo “GLS”.

Uma breve pausa: não posso deixar de solicitar um minuto de silêncio ao constatar que 2006 já é considerado “naquela época”.

Mas não foi na Capital que tive minha primeira experiência com a cultura drag. Foi no litoral. Em Tramandaí havia a única casa noturna LGBT de todo o Litoral Norte gaúcho. Era o saudoso Sunga’s Bar. Um cubículo que milagrosamente (certamente pelos poderes de Cher) abrigava uma pista de dança, um palco, um bar, um arremedo de pátio externo, uma sala com exibição de filmes pornográficos e, claro, um dark room.

Foi no Sunga’s Bar que vi a primeira apresentação artística de uma drag queen. Até hoje nunca vou esquecer a performance memorável da Castanha, que dublou “Vai Wilson, vai” com maestria. Castanha, para quem não sabe, é uma personagem histórica da cena transformista. Inclusive há um longa-metragem que leva seu nome e um pouco de sua arte, dirigido pelo gaúcho Davi Pretto.

“A gente costuma crescer achando que não existem outros LGBTs no mundo”

A performance de Castanha me marcou. Eu ainda estava desbravando um mundo novo para mim: o de festas e ambientes de sociabilidade onde eu podia sair livremente com meus amigos, flertar, beber, dançar e absorver todo tipo de referência cultural que a heteronormatividade sempre manteve bem distante. A gente costuma crescer achando que não existem outros LGBTs no mundo. Que somos os únicos e, portanto, que deve ter alguma coisa errada conosco. Até que um dia eu descobri que somos muitos. Que somos incrivelmente diversos e criativos. E isso me fortaleceu.

Ru Paul’s Drag Race

Recentemente, a cultura drag parece ter ganhado um novo impulso. Uma nova onda de visibilidade se espalhou a partir do surgimento do seriado RuPaul’s Drag Race, um reality show dirigido pela maior celebridade drag dos Estados Unidos, Ru Paul. Ou mama Ru, como costumam dizer suas filhas – e elas são muitas. De 2009 para cá, foram oito temporadas, além de duas séries especiais onde competiam apenas ex-participantes. A nona temporada já está saindo do forno, deve estrear em julho deste ano.

Ao todo, mais de 100 drags já passaram pela competição. Não é exagero dizer que muitas delas redefiniram ou consolidaram completamente suas carreiras a partir da exposição obtida no reality show. Com prêmios milionários e patrocinadores de peso (grandes marcas de cosméticos, de perucas, de vestidos, acessórios e joias), RuPaul’s Drag Race se converteu em uma verdadeira indústria de entretenimento drag, com projeção internacional.

Eu sou um fã da cultura drag e vi absolutamente todas as temporadas de RuPaul. Gritei diante das tretas. Vibrei quando minhas preferidas ganharam. Odiei a Phi-Phi O’Hara um milhão de vezes. E sei na ponta da língua muitos bordões. Mas nada disso me impede de refletir sobre os limites deste tipo de exposição, a utilidade de seus discursos e a necessidade de construirmos narrativas próprias e independentes.

Drags locais

No Brasil, a arte drag está sendo revigorada e reinventada por jovens talentos que deixam qualquer um de queixo caído. Em Porto Alegre, especificamente, me alegra muito ver uma cena drag criativa e rebelde. Ver que existem trocas e diálogos entre as referências e as que estão começando agora. Ver que já existem famílias se consolidando, como a maravilhosa Sarah Vika e sua filha Vitz Vika. Ver que as mais distintas inspirações e estéticas moldam a arte de nomes como Charlene VoluntaireCassandra Calabouço, Belle Z, Rebeca Rebu, Eva King, Sayuri, Ayo e tantas outras. É até uma injustiça eu me atrever a citar nomes aqui, pois certamente estou – por esquecimento ou por ainda não conhecer – deixando de mencionar muitos talentos. Temos, inclusive, um drag king: León Rojas, que questiona os padrões de masculinidade através de sua arte.

A rebeldia sempre fez parte da cultura drag. Não é à toa que a revolta de Stonewall foi protagonizada por drag queens e travestis. Em agosto de 2016, em uma apresentação no Vitraux – uma das casas noturnas LGBTs mais antigas de Porto Alegre – a Alma Negrot transformou sua performance em um grito de luta contra a violência policial. Outra drag ergueu um cartaz com os dizeres “Fora Temer” e incendiou o público.

Diversas festas têm surgido com a ideia de promover a cultura drag. Muitas delas trazem drags famosas, ex-participantes de RuPaul’s Drag Race, o que costuma atrair um público considerável. É uma estratégia inteligente, se aliada com o devido espaço para apresentações das drags locais – o que me parece estar ocorrendo na maioria dos casos. Nós precisamos apoiar cada vez mais as drags das nossas cidades. Elas são fabulosas. Inclusive se você é fã de alguma, aproveite este espaço para comentar e divulgar seu trabalho. A nossa diversidade é o que nos fortalece!

Crédito da foto: Fernanda Piccolo.

Reporteando

Jornalista vende (?)

Renata Colombo
14 de fevereiro de 2017

Eu sou fã do jornalismo. A essa altura, penso que é alto que já  ficou bastante claro. Acho uma das profissões mais fantásticas e necessárias. E não somente porque é a minha, mas porque penso que cumpre um papel importante na vida em sociedade. Quando coloco algo aqui mais negativo ou reflexivo não é porque sou algum tipo de mensageira do apocalipse ou uma pessimista compulsiva.  Aliás, que fique claro, se tem algo que eu não faço é reclamar. Mas algumas curiosidades nesta vida reporteira chamam atenção. E às vezes não é algo positivo.

“Já vi jornalista vendendo marmita, brigadeiro, suco, salada de fruta, roupas, obras de arte, e por aí vai”

Que o glamour do jornalismo é totalmente  ilusório não se tem dúvidas, afinal, o colega homenageado ou premiado é o mesmo que pisou no barro, no cocô e voltou fedendo a fumaça. Mas uma coisa que tem crescido nas redações e vai além das agruras naturais da profissão é o famoso “bico”. Já vi jornalista vendendo marmita, brigadeiro, suco, salada de fruta, roupas, obras de arte, e por aí vai. Tudo para engordar o porquinho no final do mês, já que nosso salário não acompanha a inflação há muitos anos.

Piso salarial do jornalista

Para se ter uma ideia, o piso de jornalista no Rio Grande do Sul (entre os mais baixos do país) é de R$ 2.231,69 em Porto Alegre e R$ 1.900,34 no interior do Estado. Diria que é a média do país. No Brasil, nos estados em que o piso é definidos, os valores variam de R$ R$ 1.115,44 para jornalistas do interior do Rio de Janeiro (sim, acredite) a R$ 3.254,92 no Paraná.

Nem sei dizer se é simplesmente um direito do jornalista ganhar salários melhores de maneira geral, porque, afinal, precisamos nos sustentar como qualquer outra classe trabalhadora, ou se passa um merecimento por tanta dedicação e sacrifício a que somos submetidos diariamente, por ser da natureza da profissão. Afinal, não existe jornalista mais ou menos, este não se cria. Nessa profissão o mergulho é de cabeça.

E precisamos é garantir o plano de saúde em caso de afogamento.

Catraqueanas

Minha Verdade Sobre Vídeos Caiu; E Caiu De Pé

Gustavo Mittelmann
13 de fevereiro de 2017

Chega um dia na vida em que nossas verdades caem por terra. Há pouco, passei por uma situação dessas. Não, eu não estava errado; eu fiquei errado. Novos momentos trazem novas verdades, subvertem a ordem e convertem o outrora errado, ou disruptivo, em regra.

Por isso, cá estou, um arrogantão que já postou gifs debochando de quem gravava vídeos com o celular de pé, tendo que admitir que, além de ser válido, o formato vertical se tornou o melhor pro anunciante, ao menos quando estamos falando de redes sociais. Por quê? Eu explico.

Mais da metade das pessoas tem acessado as redes prioritariamente através dos seus aplicativos para smartphones. Estamos falando de dispositivos verticais por essência, com usuários cada vez mais exigentes com relação à experiência. Faz sentido demandar dele um esforço físico para ter a experiência certa de um vídeo que, na maioria das vezes, ele não pediu para assistir? As pessoas são espectadoras preguiçosas. Essa é uma verdade que não mudou desde a época de ouro da TV aberta. Por isso, os veículos retardaram tanto a entrada da tecnologia de controle remoto no Brasil; o público assistia, passivo, aos comerciais para não ter o esforço de ir até o televisor trocar de canal. E mais: ao gerar uma ação você também gera uma distração, interrompendo a experiência imersiva dos usuários.

“No Snap, os anúncios em vídeos verticais já estão sendo 9 vezes mais efetivos que os horizontais. Já no Facebook, os primeiros resultados já apontam para uma eficiência 3 vezes maior”

Claro que minha verdade não caiu sozinha. Teve muita gente grande que se deu conta disso antes e ajudou a derrubá-la. Facebook, Instagram (e Stories), Snapchat e Twitter eliminaram as barras laterais pretas dos vídeos verticais e expandiram sua visualização com aproveitamento de tela. Com algumas peculiaridades, claro, como a proporção 3:2 do Facebook.

Os resultados já começaram a aparecer: no Snap, os anúncios em vídeos verticais já estão sendo 9 vezes mais efetivos que os horizontais. Já no Facebook, os primeiros resultados já apontam para uma eficiência 3 vezes maior. É o que podemos chamar de um negócio win-win-adapt. Os dois primeiros a vencer com esses números são os anunciantes. Logicamente, com os anunciantes empolgados com tamanha efetividade e anunciando mais, Mark e companhia estão rindo à toa também.

Por fim – no último elo dessa corrente – estou eu, estão as outras produtoras e estão as agências, nos virando de cabeça pra cima e, mais uma vez, tendo de nos adaptar, reciclar, e evoluir linguagem e técnicas. Tudo isso para você ver mais anúncios e se incomodar menos, sem nem perceber.

*Dados: socialmediatoday.com

ECOO

Veja porquê os animais não usam rímel

Geórgia Santos
12 de fevereiro de 2017

Nunca tive muita proximidade com os animais. Aliás, morro de medo da maioria deles. Quando criança, queria um cachorro mas não fui atendida, minha mãe dizia que eu não ia cuidar do bichinho e ela não queria mais essa responsabilidade. E ela provavelmente estava certa. Gatinhos nunca foram meus amigos, me sinto intimidada por eles. O máximo que eu consegui foi uma tartaruga de aquário, minúscula e com o peculiar entusiasmo dos répteis. De anfíbios, quero distância. Nesse caso é fobia, mesmo. Com direito a taquicardia.

Nem vou falar de animais de fazenda, tenho medo de todos eles, até das pacíficas vacas. Nem parece que fui criada na colônia. Mas sobre vacas, bois, porcos e galinhas eu falo em outro momento.

De qualquer maneira, já deu pra perceber que nunca fui uma ávida defensora dos direitos dos animais. Não fui criada com essa empatia e, como já perceberam, não me sinto à vontade perto deles. Isso fez com que minha percepção sobre o abuso animal fosse retardada. Somente agora, perto dos meus 30 anos, estou conhecendo a dura realidade a que os animais são submetidos ao redor do mundo. Existem várias frentes de ação do ser humano contra os animais e, aos poucos, pretendo falar sobre todas elas. Mas hoje abordo a mais convenientemente ignorada: os testes com animais.

Testes em animais nas indústrias farmacêutica e cosmética

Como fruto da minha desinformação, deparei com o fato de que quase todas as marcas de produtos de higiene e limpeza que eu utilizo realizam testes em animais. Fiquei bastante impressionada com o fato de isso ainda existir. Após algumas pesquisas, a conclusão foi chocante: dentre as marcas mais conhecidas, a maioria utiliza desse subterfúgio bárbaro. No site da PETA (People for Ethical Treatment of Animals), há várias informações sobre isso e é devastador. Por exemplo, a M.A.C Cosmetics, que sempre foi uma das minhas favoritas, não realizava testes em animais há muito tempo. Mas a Estée Lauder, companhia da qual a marca faz parte, voltou a vender na China. E lá, pasmem, o teste em animais é OBRIGATÓRIO. Bizarro.

Felizmente, há muitas opções legais e excelentes. Especialmente aqui no Brasil. Dentre outras, O Boticário, Natura e Quem Disse, Berenice? Não realizam testes em animais.

CLIQUE AQUI e confira se a sua marca favorita realiza testes em animais. Você também pode procurar pelo selo CRUELTY FREE nos produtos.

Se você pensa que é bobagem e que os testes não fazem tão mal assim. Ou se acredita que os animais aguentam e que é frescura pensar nos pobres coelhinhos que não tem o menor interesse em usar rímel, dá uma olhada nesse vídeo aí embaixo. A marca britânica LUSH Cosmetics fez uma ação em que atores (humanos, certo?) foram submetidos aos mesmos testes realizados nos bichinhos para que o nosso rímel seja incrível. É tenso, mas é preciso. Você vai pensar duas vezes antes de comprar aquele batom maravilhoso ou lavar o corpinho com Dove. Meus hábitos de compra mudaram. Falo mais sobre isso no próximo post 😉

 

 

 

 

Guia de Viagem

Roma – O atraso, o frio e o hotel

Geórgia Santos
11 de fevereiro de 2017

 

O atraso

Estávamos em Lisboa, ansiosos para chegar a Roma e usarmos a desculpa do frio para jantarmos uma comida pesada e um bom vinho tinto. De fato, era apenas nisso que pensávamos naquele fim de tarde cinzento. Na massa. Por isso, não nos atrasamos e chegamos ao aeroporto no horário sugerido, com antecedência, conforme havíamos planejado. Só não tínhamos contado com o atraso na decolagem (é, amigos, atraso não é privilégio de brasileiro, como vocês poderão ver nesta e em outras publicações desta humilde coluna). Enfim, não chegaríamos mais às 19h, como previsto. E então eu noto que no papel que eu imprimi antes da viagem e que continha as informações do hotel estava escrito, em tinta borrada pelos pingos de chuva:

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Check-in até 21h

Assim mesmo, em letras maiúsculas, a famosa caixa alta. E eu não tinha visto antes de embarcar para Roma. Ou seja, fiquei inquieta quando li, porque o relógio marcava 20h (horário local) e o avião ainda estava no ar. Não ia dar tempo. De jeito nenhum.

20h05 – Desembarque

20h10 – Na esteira

20h15 – Esperando a bagagem

20h20 – Esperando a bagagem

20h25 – Esperando

20h30 – Pois é

20h40 – Então

20h45 – Resmungos

20h50 – A bagagem chegou!

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O frio

Mas aí mesmo é que não ia dar tempo. Pensei, no entanto, que eles colocam isso no papel só pra apressar a gente, assim não precisam trabalhar até tarde e coisa e tal. Sei lá. Não iam deixar alguém do lado de fora àquela hora, afinal, o dia já havia partido e era (muito) inverno.

Por isso, lá fomos nós, cheios de esperança. Eu mencionei que o Aeroporto Fiumicino – ou Aeroporto Internazionale Leonardo da Vinci, não fica na cidade? Pois, fica a uns 30km. Do aeroporto para a estação de metrô, fomos de ônibus, do subsolo rumamos ao destino final. Corríamos feito doidos dentro do possível para duas pessoas cansadas e com pinta de estátua de gelo que carregavam duas malas (ou mais, não lembro). O meu cabelo parecia um animal atropelado, e quando vi meu reflexo no espelho comecei (?) a ficar muito irritada. E com medinho.

21h35 – Perdidos em uma rua escura, extremamente suspeita, com temperatura negativa e muitas malas (ainda não lembro quantas)

O frio era daqueles que congelava as hemácias. Se fizessem um corte na minha mão, sairia um sangue pastoso, ao melhor estilo zumbi. Difícil de respirar mesmo para dois gaúchos acostumados a invernos rigorosos sem poncho. E por mais que o metrô fosse próximo ao hotel, sob tais condições a sensação era de que caminhávamos há muito tempo e sob temperaturas glaciais. Ok, eu estou exagerando, mas não muito.

Finalmente, encontramos a rua do hotel perto das 22h, mas nada do nostro albergo, Dio! As rodinhas das malas já eram amigas da Via Atilio Regolo, mas nada do albergo, Dio Madonna!

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O hotel

Depois de quase meia hora de uma caminhada que mais parecia prova do líder, descobrimos que o albergue ocupava dois andares de um prédio comercial. E que realmente fechava às 21h, porque os hóspedes ficavam com uma chave. Não tínhamos onde dormir, estava frio, tudo muito escuro e sem uma viva alma por perto. Ah, mas do outro lado da rua estava o restaurante 3Quarti. Resolvemos que o fato de estarmos desamparados e sem ter onde pernoitar não seria um problema. Nós teríamos a nossa massa.

E é aí que a viagem que deu errado começa a dar certo. Simplesmente porque é Roma. E com o melhor italiano que pude providenciar àquelas alturas, expliquei nossa situação e perguntei se poderíamos entrar no phyno estabelecimento com a nossa bagagem. Todos foram extremamente gentis e, esquecendo do problema, tivemos uma noite incrível. Que jantar, senhores. O restaurante é intimista, com decoração impecável e requinte ao melhor estilo romano. Pedi o Spaghetti alla Carbonara, já o Cléber preferiu outro prato, mas não lembro (perdão!). Tudo absolutamente delicioso. Exatamente como nós esperávamos.

Mas ainda havia o problema da hospedagem. Resolvi não pirar e não pensar em dinheiro e lembrei do nome e localização do hotel em que eu havia estado na minha visita anterior à Roma. Confesso que o nome me deu esperança: Rinascimento. Perfecto, hã? E foi. Havia um quarto disponível e, finalmente, estávamos instalados.

Claro que, para completar a noite, tive uma dor de barriga horrível combinada com uma queda de pressão ainda pior, mas Roma vale a pena.

Na manhã seguinte, fomos nós e nossas amadas malas ao albergo original e nos instalamos lá. Bem mais simples que o outro, mas um ótimo quarto, com banheiro imenso, mesa, sofá. Um pequeno apartamento, de fato. Enfim, podíamos curtir Roma de verdade. Com céu azul e tudo.

Roma

O nome é emprestado de um dos maiores impérios da história, mas hoje perdeu o glamour aos olhos de muitos. Roma não é a capital da moda nem na Itália, não é uma cidade viva e efervescente, a maconha não é liberada. Enfim, não é o principal destino de jovens mochileiros. É, ao contrário, o lugar mais procurado por católicos fervorosos e beatos devotos por abrigar o Vaticano em suas entranhas.

Mas Roma transcende modismos. É uma metrópole linda que oferece aulas de História em tijolos erodidos e passeios em tons alaranjados. E se faz tudo com o estômago feliz ao embalo de um bom vinho e muito carboidrato. Ah, e de preferência sem nenhuma culpa, porque culpa e mimimi não combinam com Roma em nenhum aspecto. Vou dividir com vocês meus lugares favoritos e alguns que não se pode deixar de ver quando se está em Roma =)

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LUGARES PARA VER

Coliseu e o Fórum Romano

O Coliseu é considerado o maior símbolo do Império Romano e o principal ponto turístico de Roma.  No auge, era capaz de acomodar 50 mil pessoas durante o “circo” ou “divertimento” da população, que consistia em batalhas sangrentas entre gladiadores, animais e até execuções. É um lugar impressionante, com uma energia pesada, como se todos os que sofreram dois mil anos atrás ainda estivessem presos naquelas paredes. Aproveite e visite as ruínas do Fórum Romano, o ingresso pode ser o mesmo.

PS.: há outro local do período do Império que pode ser interessante. O Circus Maximus era um estádio para jogos e corridas de biga – lembra do filme Ben-Hur? Mas confesso que hoje é um pouco frustrante por se tratar de um parque relativamente abandonado.

Piazza di Spagna

O conjunto conta com a fonte La Barcaccia, de Bernini, e com a famosa Scalinata di Spagna, uma escadaria do século 18 onde os turistas e romanos costumam sentar para descansar enquanto observam o movimento e tomam um gelato. Ao fundo, há a igreja Trinità dei Monti, que começou a ser construída em 1502. Ao final da escada, começa a famosa Via de Condotti, que conta com lojas das marcas mais famosas como Gucci e Versace. É de chorar no cantinho.

Fontana di Trevi

É usado como reservatório de água desde a antiguidade e foi construída no ponto final do Acqua Vergine, um dos mais antigos aquedutos que abasteciam a cidade de Roma. Construída em 1762 por Nicola Stevi, é um dos mais procurados pontos turísticos de Roma. Reza a lenda que jogar uma moeda na Fontana di Trevi garante mais uma visita à cidade. Não sei quanto a ti, mas eu achei que valia a pena.

Ah, se possível, visite a fonte também à noite, é um espetáculo à parte.

Pantheon

Antes, esse templo fora dedicado aos deuses romanos. Hoje, é um templo cristão. É um dos poucos monumentos da arquitetura greco-romana que permanence em bom estado. Além disso, é local do descanso final de personalidades como o pintor renascentista Rafael. A estrutura é impressionante com a cúpula que chega a 43m de altura.

Piazza Navona

A praça conta com três belíssimas fontes: Fontana dei Quattro Fiumi, Fontana di Nettuno e Fontana del Moro. O local foi transformado em praça no século 15, por ordem do Papa Inocêncio X, que contratou Bernini – olha ele aí de novo – para construir a fonte central. O local, na minha opinião, é mais atraente à noite, com seus ambulantes e restaurantes. Ah, a Embaixada do Brasil fica na Piazza Navona.

Campo De Fiori

Confesso que se não tivesse me hospedado próximo ao Campo de Fiori na primeira vez que estive em Roma, talvez não tivesse percebido seu encanto.

De segunda a sábado, acontece ali a maior feira aberta de Roma. Há de tudo. Comida, flores, souvenirs, pastas e por aí vai. Os produtos são impecáveis e é possível comprar massas diversas e produtos feitos à base de trufas. É também a única praça de Roma que não tem nenhuma igreja. Por outro lado, há uma série de restaurantes que servem um ótimo vinho. Os fervorosos que me desculpem, mas é sagrado o suficiente pra mim.

Castel Sant´Angelo

O Castelo é nada mais, nada menos, que o túmulo do Imperador Adriano, construído em 139 d.c. Fica bem próximo ao Vaticano e é uma construção impressionante às margens do Rio Tibre (que também merece atenção).

Cidade do Vaticano

Basílica de São Pedro – Foto: Geórgia Santos

A Praça de São Pedro é outro projeto de Bernini e foi construída no século 17. O local abriga a Basílica de São Pedro e é também onde vive o Papa. Há sempre uma movimentação intensa de católicos esperando pela sorte de ver o Santo Padre de perto, mas o Vaticano é muito mais que isso. É história.

No centro da Praça de São Pedro há um obelisco egípcio que foi levado à Roma por Calígula. Há uma lenda na cidade que diz que as cinzas de Júlio César estavam em uma bola dourada, no topo do obelisco, até a idade média.A entrada na Basílica é de graça.

Mas não pode sair de lá sem ver o Museu do Vaticano. É onde fica a Capela Sistina, cujo teto é adornado com afrescos de Michelangelo. Aliás, há peças belíssimas no interior do museu e inclusive espalhadas pelo jardim. Definitivamente, não é um passeio somente para católicos.

É possível adquirir o ingresso na bilheteria do Museu ou online, clicando aqui. As filas costumam ser grandes, mas vale a pena e costuma andar ligeirinho.

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ONDE FICAR (entendeu porquê eu comecei por este item, né?)

Hotel Rinascimento

Via del Pellegrino, 122, Roma

Hotel requintado, não muito barato, mas com ótima localização.

Attilio Regolo

Via Attilio Regolo 12 D, Vatican City – Prati, 00192 Rome, Italy

Atenção para o Check in até às 21h, mas é um ótimo local para ficar e muito bem localizado.

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ONDE COMER

Roma é algo como a casa da bruxa na história de João e Maria, é como se fosse comestível. Há somente um segredo para evitar comida ruim: faça suas refeições o mais distante possível de pontos turísticos. Geralmente, os restaurantes no entorno de lugares tão movimentados costumam ser caros e péssimos.

Você pode comer um panini na rua por 2 euros, mas eu acho que quando em Roma, faça como os romanos e coma um belo prato de pasta ou uma maravilhosa pizza. Há restaurantes impecáveis que servem pratos excelentes por cerca de 12 euros.

Como eu disse, a cidade toda é comestível, mas eu vou dividir com vocês meus três restaurantes preferidos.

3 Quarti

Via Atilio Regolo, 21/23, Roma, quartiere Prati

Mercatto Hostaria

Piazza Campo de Fiori, 53, Roma

Meu lugar preferido em Roma. Um restaurante despretensioso que serve uma pasta espetacular. Mesmo durante o inverno, o ideal é jantar do lado de fora, com lareiras e cobertores no colo. Cléber pediu um Spaghetti alla Carbonara e eu um Gemelli Bolognese, tudo combinado com um Primitivo Soleone =)

Enoteca e Taverna Capranica

Piazza Capranica, 104

Comi a melhor pizza da minha vida, aqui. Mas assim, brasileiros normalmente se frustram com a pizza italiana. Estamos acostumados a toneladas de queijo e 60 tipos de coberturas atrozes. Não é o caso, a cobertura é suave, leve e, nesse caso, a massa é bem fininha. Jesus, sonho com essa pizza até hoje – em caso de dúvidas, aquelas coisinhas escuras são trufas.

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COMO SE MOVIMENTAR

É muito fácil transitar por Roma, porque os pontos turísticos se concentram no “centro histórico” da cidade. Se tiver tempo de sobra, é perfeitamente possível – e recomendável – andar a pé. Caminhar é o melhor meio de locomoção para conhecer esse lugar incrível. É a única maneira de conhecer cada viela e descobrir igrejas escondidas, restaurantes preciosos e, claro, se perder.

Mas se não for tua praia, tem o metrô e ainda os táxis. Como a cidade é relativamente pequena, o táxi acaba não saindo caro, especialmente se não for um passeio solo.

 

Fotos: Geórgia Santos

 

 

Pedro Henrique Gomes

Crítica – O que está por vir

Pedro Henrique Gomes
10 de fevereiro de 2017
Divulgação

É sensível o grau de essencialidade que o cinema de Mia Hansen-Love vai assumindo. E não estamos pensando aqui na ideia de progressividade da obra, inclusive pois seu filme anterior, Éden (2014), é talvez o seu mais estridente – e por isso o seu pior. Pensamos na capacidade argumentativa de sua mise en scène. O que está por vir acerta, com um golpe mais certeiro do que o desferido em seus filmes anteriores, o desenlace de sua trama.

Enquanto seus outros filmes (Adeus, Primeiro Amor) parecem deixar os acontecimentos contarem a si mesmos de uma forma muito pouco orgânica, aqui se apresenta mais sóbrio. Os exageros de retórica travados pelos seus personagens, que volta e meia insistem em infantilizar a sua elegância, não lhe tiram lá tanta força, pois o filme vence a polarização. Suas personagens estão sempre debatendo, argumentando, e a cineasta muito habilmente evita a adesão a um corpo pronto de ideias. Seu filme é político, evidentemente, mas o é em função de seu arranjo narrativo e não em virtude de qualquer conteúdo ou discurso.

Uma sinopse bastante simples diria que uma professora de filosofia, interpretada por Isabelle Huppert (seguramente a mais poderosa de todas as atrizes em atividade), passa por uma série de crises íntimas, familiares, profissionais e intelectuais. Ela tenta seguir em frente confrontando cada uma com maturidade, embora com certo desnorteamento diante das situações.

Ela prefere, como boa filósofa, o confronto ético e estético ao político, isto é, abre caminho para que a imagem confesse o seu sentido de acordo com as circunstâncias dadas. Isso fica mais evidente nas cenas em que os estudantes discutem os motivos de uma interrupção das aulas para fortalecer um grupo de protesto contra aquilo que parece ser a reforma da previdência francesa (que fora iniciada pelo “conservador” Sarkozy e depois chancelada, com modificações, pelo “socialista” Hollande). Há quem queira protestar e há quem queira estudar. Discute-se a democracia (que é a vontade da maioria, diz um estudante) e logo depois temos a professora dando uma aula sobre o Contrato Social de Rousseau. Ela tem um ex-aluno anarquista que escreveu um livro sobre a Mínima Moralia de Adorno. Seu marido, também professor, não é senão um conservador de alta estirpe, embebido em receios e ponderações – ele é um formalista: não existe forma que não expresse a sua ideologia.

Para esta amarração, a pergunta: é possível se colocar no lugar do outro? Questão elementar para a relação espectador-filme, a interrogação que aparece logo no início demanda esse esforço de ambos. Em meio aos infortúnios que vão se impondo para a professora (aquilo que iria lhes salvar, isto é, a revolução, não veio a galope, deixando em seu lugar a melancolia e certa desolação; a perda de sua mãe, o marido que a deixou, a editora que sempre a publicou passa a negar os seus projetos e a alterar outros para torná-los mais comerciais), resta então desembaçar a vista para seguir em frente.

Confira o trailer do filme

O que está por vir (L’avenir) de Mia Hansen-Love, França, 2016. Com Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka.

Glow

Música brasileira para alinhar a vibe

Fernanda Ferrão
9 de fevereiro de 2017

 

A imagem não bate com o que tu esperas do som? AINDA BEM. Hoje o espaço é dedicado a esses três musos da nova música brasileira – Jaloo, Liniker e Johnny Hooker. Estilos bem particulares mas que têm em comum essa “imagem que faz questionar”. Se depois de olhar, ouvir, tu seguires com alguma estranheza, recomendamos uma booooa reflexão. Se não, é só dar o play.

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A nova música brasileira tem um lineup de chorar de tão bom e, graças a Dios, tem levantado questionamentos e bandeiras sobre sexualidade, gênero, racismo e todo preconceito

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Jaloo tem um ímã. Para mim, ele tem um canto de sereia, uma coisa que hipnotiza. Jaime Melo tem 28 anos, veio do Pará, faz as vezes de modelo, é tímido e contou em entrevista ao HuffPost que acabou aprendendo a cantar para acompanhar as batidas que já fazia. Nos dois shows que fui, encontrei um Jaloo calmo, com looks e apresentações marcantes e acompanhado por duas bailarinas. Os clipes do artista e os remixes que circulam por aí (como do BossInDrama) merecem o seu tempo. Uma amiga diz que “o som dele não é fácil de consumir”. E talvez não seja mesmo, mas eu prefiro classificar como “música para dançar e sentir de olhos fechados”.

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Buena onda e lacração! Para mim, isso define o fenômeno Liniker. No dia 15 de outubro de 2015, o canal Liniker fazia o upload do EP ‘Cru’. Três músicas em três vídeos gravados em casa, em uma sala de estar, para passar exatamente a vibe dos músicos. Liniker comanda sua trupe de companheiros, Os Caramelows, com turbante, saia longa, argolas, colares, brincos, delineador, batom e bigode. Sim, bigode e uma voz grave que canta “deixa eu bagunçar você” com uma potência incrível! Hoje, o vídeo tem milhões de views e o cantor contou em mais de uma entrevista que foi surpreendido pela aceitação e sucesso. O show? Você não para um minuto mesmo que não conheça todo o repertório; ‘Zero’ é cantada a plenos pulmões por todos e ainda tem o momento ‘culto’ quando Liniker e as cantoras que o acompanham fazem um verdadeiro louvor ao lacre, ao poder, ao glitter. Dá uma esperança saber que Liniker faz tanto sucesso e, por onde vai, diz que é “bicha e preta”. O cantor lançou um projeto no Catarse para financiar o disco Remonta e você pode ajudar aqui.

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“Esse é pra sangrar!”, me disse uma amiga quando perguntei qual o clima do show do pernambucano Johnny Hooker. E é a melhor definição. Nem sei se podemos chamar apenas de cantor um cara de 28 anos que é também compositor, roteirista, ator e faz performances inesquecíveis. Johnny tem um timbre rasgado, com sotaque, que marca e canta coisas como “eu vou chamar Iansã, Ogum e Oxalá, vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito”. O clipes também são sempre uma obra à parte e contam histórias de amores latinos, sofridos, barrocos, dramáticos. Que tal começar a assistir os seis minutos de “Amor Marginal”?

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Além de produzirem arte de qualidade com sons, batidas, shows, vídeos, poesias, Hooker, Liniker, Jaloo e outros como As Bahias e a Cozinha Mineira, Filipe Catto, Rico Dalassam estão redefinindo padrões (quebrando com os que existem), rompendo barreiras preconceituosas, fazendo todo mundo se questionar e evoluir através da arte.

 

Samir Oliveira

O otimismo como um direito

Samir Oliveira
9 de fevereiro de 2017
Foto: Fernanda Piccolo

O ano de 2017 começou de forma tenebrosa para a população LGBT. Tivemos a morte a facadas do jovem Itaberli Lozano, da cidade de Cravinhos, no interior de São Paulo. Com apenas 17 anos e uma vida inteira pela frente, foi assassinado pela mãe e pelo padrasto por ser gay. O enfermeiro Marcelo Correia foi atingido na cabeça com uma barra de concreto na cidade de Prado, na Bahia. O vendedor Divino Aparecido foi espancado em Uberlândia. Está no hospital, em coma induzido. Um grupo de drag queens foi barrado na entrada de um shopping na Zona Leste de São Paulo. O casal Júnior Santos e Maycon Aguiar recebeu uma carta com insultos homofóbicos e racistas de vizinhos no condomínio onde moram, no Rio de Janeiro.

Esses são apenas alguns casos. São apenas os que saem no noticiário. Certamente existem muitos outros. Neste momento, uma menina lésbica está sendo expulsa de casa. Uma travesti está apanhando nas ruas. Um homem transexual está sendo desrespeitado no sistema de saúde. As estatísticas são muito generosas com a população LGBT porque a subnotificação das agressões que sofremos todos os dias é a regra geral. A realidade é muito pior.

Mas nós viemos de muito longe. Viemos da rebelião de Stonewall, onde enfrentamos o autoritarismo da polícia com nossos corpos. Ao longo de muitas décadas, conseguimos sair da marginalidade para o orgulho. Sem nunca perder a rebeldia necessária a todas e todos que estão acostumados a observar a vida pelas beiradas. Viemos de uma longa tradição de resistência individual e coletiva. E não vamos abaixar a cabeça, ainda que este ano comece com tantas notícias ruins. Com tantas vidas golpeadas pelo preconceito.

Maria Bethânia diz em uma canção: “Não mexe comigo, que eu não ando só”. Nós não andamos sós. As multidões que saem às ruas nas paradas LGBTs de todo o país e do mundo inteiro comprovam isso. A juventude e as novas gerações são a prova viva de que a discriminação está condenada ao ostracismo. Nossas vidas, linguagens e afetos constroem verdadeiras fissuras em um sistema marcado pela opressão. De fenda em fenda, abrimos um rombo. Quando aqueles que propagam o ódio menos perceberem, estarão em um abismo.

No tempo em que vivemos, qualquer manifestação de otimismo pode ser facilmente confundida como um ato de loucura. Como uma demonstração de ingenuidade. O poeta uruguaio Mario Benedetti certa vez escreveu que precisamos defender a alegria como um direito. Acredito que também devemos ter direito ao otimismo. Podem dizer que vivo fora da realidade. Esfreguem todas as piores notícias na minha cara. Falem-me de conjuntura, me xinguem de imaturo. Não importa. Eu ainda acordo todos os dias pensando na frase da escritora indiana Arundhati Roy: “Um outro mundo não apenas é possível, como ela [sim, é uma outra munda] está a caminho. Em um dia tranquilo, eu consigo ouvir sua respiração”.

Crédito da foto: Fernanda Piccolo.