Nós US

O trumpismo não ganha tudo

Sacha
15 de novembro de 2017
(you can read this article in English here)

Haja esperança para os difíceis tempos políticos que atravessamos. Já parecia que todas as regras do jogo estavam viradas. As eleições de 2017, no entanto, mostraram que a política (ainda) não é bem assim.

As eleições deste mês demonstraram que Trump não é imune à sua impopularidade histórica e os efeitos que causa no seu partido. Em vários estados, os democratas ganharam em grande em concorrências locais e estaduais. Isso foi especialmente o caso no estado da Virgínia, onde o Partido Democrata quase tem virado a Câmara dos Delegados—impensável antes da eleição.

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Os resultados seguiram as tendências das sondagens

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Dadas as perdas do ano passado, porém, apoiantes estavam nervosos com a possibilidade de mais surpresas. Em vez disso, ganharam campo em estados mais alinhados com a base como a Virgínia. Fizeram progresso em território mais difícil, como os estados da Geórgia, Montana e a Carolina do Sul. Longe de recuar, o Partido Democrata parece ter consolidado a sua posição antes das eleições de meio de mandato de 2018.

Na eleição para governado da Virgínia, o candidato republicano tentou usar táticas ao estilo de Trump nas propagandas enquanto mantinha um perfil mais razoável em atos da campanha. A estratégia deu errado. Se as novas regras do jogo eram a favor de um sensacionalismo ao modo de Trump a qualquer custo, os votantes da Virgínia não deram bola. Apesar dos seus defeitos, o candidato democrático conseguiu ganhar com quase 9 por cento mais de votos.

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A fórmula não foi um elixir perfeito

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A política, como a maioria das ciências sociais, é uma de descobrir tendências ao longo do tempo em vez de revoluções isoladas. O que sabemos da política dos Estados Unidos é que o partido do presidente geralmente está em desvantagem nas eleições especiais e de meio de mandato. Também sabemos que quanto mais baixa seja a aprovação do presidente, melhor tende a sair a oposição na próxima volta de eleições. Como prova oficial, essas eleições demonstraram que até na era de Trump, a hipótese continua válida.

Que uma campanha bombástica de clichês populistas e alarmismo não resultou com os votantes da Virgínia deve deixar em questão como foi que a fórmula resultou para Trump. O Partido Republicano enfrenta grandes desafios nas próximas eleições. A questão se deve ou não adotar o trumpismo e seguir a todo o gás com esse estilo de populismo tóxico, ou bem mudar de táticas e aceitar uma política pública mais popular, é hoje uma questão mais aberta que nunca.

Imagem: Ben Shafer
Samir Oliveira

Essa vitória é nossa – Bolsonaro é condenado a pagar multa por ofensas à população LGBT

Samir Oliveira
9 de novembro de 2017

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) foi condenado esta semana a pagar uma multa de R$ 150 mil por dano moral coletivo contra a população LGBT. A decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirma a sentença que já havia sido proferida em primeira instância em 2015. A indenização irá para o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDDD), criado pelo Ministério da Justiça.

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Essa vitória é nossa! É do movimento LGBT e de todos aqueles que lutam por um mundo mais justo e sem ódio

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A ação foi movida pelos grupos Diversidade, Arco Íris e CaboFree após declarações homofóbicas do deputado em 2011, durante entrevista ao programa CQC. Bolsonaro disse que jamais teria um filho gay porque seus filhos tiveram uma “boa educação” e acusou as paradas do orgulho LGBT de promoverem os “maus costumes”, contra Deus e a preservação da família.

Naquela época, Bolsonaro se gabava de nunca haver sido condenado. Agora já conta com a terceira condenação só este ano. A primeira foi uma multa de R$ 10 mil por ter dito que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não mereceria. E a segunda foi uma indenização de R$ 50 mil por comentários racistas contra a população quilombola.

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Bolsonaro pode não estar morrendo pela boca – tendo em vista que sua retórica odiosa infelizmente encontra apelo em setores expressivos da sociedade -, mas está pagando muito caro por ela

As três multas impostas pela Justiça já somam R$ 210 mil

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Na sentença que o condenou em primeira instância pelas declarações ao CQC, a juíza considerou que a liberdade de expressão não está acima da garantia de direitos a populações oprimidas. Ou seja: que liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de opressão. E a imunidade parlamentar do deputado não se aplica a este caso, em que ele estava emitindo uma opinião pessoal.

É significativo que Bolsonaro esteja sendo condenado justamente por estimular o ódio contra três grupos extremamente vulneráveis da sociedade: mulheres, negros e negras e a população LGBT. Por mais moroso que possa ser o processo judicial, as sentenças demonstram que esse tipo de discurso violento não encontra lugar na nossa Constituição.

Vivemos uma conjuntura muito dura, com o crescimento de setores semi-fascistas que preferem inventar pedófilos em museus do que derrubar um governo corrupto que compra apoio descarado no Congresso para se manter no poder. O movimento LGBT vem jogando um papel central neste enfrentamento, ocupando as ruas na linha de frente contra o conservadorismo. Afinal são as nossas vidas que estão diretamente em risco com este tipo de discurso de ódio.

As condenações do Bolsonaro são um bem-vindo sopro de alívio em meio a tantos retrocessos. É melhor ele Jair abrindo o bolso!

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Jogo Perigoso

Pedro Henrique Gomes
3 de novembro de 2017

O jogo aludido pelo título nacional de Gerald’s Game, a bem dizer, dura muito pouco tempo. Casal de anos, Gerald (Bruce Greenwood) e Jessie Burlingame (Carla Gugino) vão para uma casa distante de qualquer contato externo para retomarem o desejo um pelo outro, que parece adormecido. Gerald propõe imobilizá-la na cama utilizando algemas e toma alguns remédios para ganhar o ímpeto que lhe falta na vida cotidiana, e com a mulher com a qual partilha seus desejos. Ela, visivelmente constrangida, aceita, de início, a brincadeira. Acontece que o ato não se consuma. Após um desentendimento com os critérios do jogo, que oscila entre o desejo e o abuso, Gerald tem um ataque cardíaco fatal: está morto. Jessie fica então algemada num local totalmente isolado onde seus gritos não se farão ouvir.

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O jogo então passa da ação física para a ação mental

Jessie, sozinha, alucina

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Mike Flanagan, diretor de Jogo Perigoso, tem apreço pelo silêncio, inclusive visual, de sua encenação. Seu filme anterior, Hush (outro filme puramente mental, já que muitos sentidos faltam à protagonista), também se passa em um cenário isolado, também privilegia amplificar suas matérias de expressão a partir de uma figuração sóbria e de sets notavelmente discretos. É, ao que parece, esse o estilo do seu cinema. Ele tem, diga-se, boa noção do espaço onde busca instalar o medo, a estrutura da tensão e a dramaturgia, muito simples, que lhe convém. As evidências apontam para um cineasta pragmático (um tipo de pragmatismo narrativo que não existe em Stephen King, por exemplo, autor da obra na qual o filme se baseia; King é um escritor de floreios, de parênteses, de digressões).

O aprisionamento de Jessie, dadas as circunstâncias em que se deu, a faz retornar a memórias antigas, mais ou menos resolvidas, no entanto ainda certamente dolorosas. É na própria família que ela conhece a monstruosidade de um abusador – algo que vai carregar em seu olhar receoso diante das brincadeiras sexuais do marido. Incapaz de reagir agora, frágil demais para relutar quando criança é o que nos mostra a montagem dos acontecimentos que se dá em pelo menos três instâncias: o que ocorre de fato, o que ela imagina acontecer e o que é memória.

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As marcações que a estrutura narrativa do filme organiza apelam para ampla redundância discursiva

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A sanha explicativa, adotada no quarto final do filme, acaba sendo fatal ao encerramento dramático e, ao que me parece, até emocional: ela rompe com o aspecto figurativo que ele havia criado até boa parte de sua história, rompe com o ritmo de seu desenvolvimento, apressando-se em fornecer sentido ao mistério, a fazer passar a sua mensagem como um crente com seu livro sagrado.

O que faz desandar a sua habilidade de conduzir o mistério disparado inicialmente é sua narração altamente coercitiva – o seu Mal de Alzheimer narrativo: quer se fazer entender com absoluta rigidez, forçando explicações verbais (orais) tranquilamente dispensáveis uma vez que já estavam inscritas no filme visualmente – ou o contrário. Das duas, uma: ou Flannagan não confia na força das imagens que cria ou não confia nos espectadores que cultiva.

Gerald’s game, de Mike Flanagan, EUA, 2017. Com Carla Gugino, Bruce Greenwood, Carel Struycken, Chiara Aurelia.

Samir Oliveira

Parada Livre de Porto Alegre: um berro contra os retrocessos

Samir Oliveira
2 de novembro de 2017
Foto: Fernanda Piccolo

No dia 26 de novembro Porto Alegre realiza a XXI edição da Parada Livre. Um evento de massas, que reúne pelo menos 35 mil pessoas todos os anos na Redenção em uma verdadeira festa política de luta por direitos e celebração da diversidade.

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O tema deste ano não poderia ser mais adequado:

“Berro contra os retrocessos”

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É com esta combatividade que os LGBTs irão às ruas neste dia. O momento político do país exige uma resposta frontal ao conservadorismo e uma reação afrontosa às tentativas medievais de censurar expressões de sexualidade e identidade.

A Parada Livre representa essa resistência construída democraticamente por uma série de coletivos e organizações. É verdade que é preciso que ela seja cada vez mais política, no sentido de incidir sobre a estrutura política que nega nossos direitos, abafa nossa liberdade e espanca nossos corpos. Esse processo está permanentemente em curso, com as linguagens e estéticas próprias que a população LGBT domina para fazer política. Afinal, a própria existência da Parada é um ato político. É extremamente político que dezenas de milhares de corpos LGBTs saiam às ruas juntos para expressar seus afetos e exercer a plena liberdade de ser quem são.

A Parada Livre deste ano será mais uma etapa de um novo ciclo de lutas que a população LGBT vem travando no Brasil nos últimos meses. Os ataques de setores proto-fascistas da sociedade exigem uma resposta forte e impulsionam uma articulação entre todo o movimento.

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Ataques constantes

A representação maior deste novo ciclo foi a reação ao fechamento da exposição QueerMuseu em Porto Alegre. O episódio fortaleceu grupos de extrema-direita que destilam ódio contra qualquer manifestação de diversidade. Iniciou-se uma cruzada medieval contra a arte e as expressões de sexualidade e gênero no Brasil. O recuo vergonhoso do Santander diante destes grupos violentos catalisou esse sentimento antidiversidade.

A reação do movimento LGBT foi imediata e forte. Mais de duas mil pessoas se reuniram em frente ao Santander em plena quarta-feira para defender a liberdade artística. A vanguarda do movimento se uniu à categoria artística num duro enfrentamento aos grupos de ódio – especialmente ao MBL e seus satélites, que compareceram presencialmente no protesto e provocaram os ativistas.

A decisão da Justiça, em primeira instância, de autorizar a chamada “cura gay” representa um retrocesso de pelo menos 30 anos no que diz respeito ao consenso médico-psiquiátrico, científico e psicológico de que homossexualidade não é uma doença. Também esse episódio gerou uma onda de lutas muito forte. Em Porto Alegre, milhares foram às ruas para lutar contra este absurdo.

A população LGBT carrega consigo a responsabilidade de estar no enfrentamento diário à intolerância e ao fascismo, pois são seus corpos e suas expressões de afeto, identidade e sexualidade que estão sendo atacadas.

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O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Só neste ano foram 169 transexuais assassinados e assassinadas. A população de travestis e transexuais é a mais vulnerável nesse contexto de extermínio

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Fortalecer a Parada Livre é fortalecer essa resistência tão necessária nos dias de hoje. É lutar por vidas humanas que estão em risco por causa do preconceito e da intolerância. Por isso é tão criminoso que a prefeitura de Porto Alegre tenha suspendido o apoio que sempre deu ao evento. O movimento não se intimidou diante da postura autoritária de Nelson Marchezan Júnior e batalha duramente por financiamento, contando com a parceria de casas noturnas e bares LGBTs e com a criatividade militante na venda de bottons, camisetas e canecas – que podem ser compradas através da loja virtual http://www.lojaafirme.com.br.

A Parada Livre deste ano não será menor. Pelo contrário, expressará com muita força o verdadeiro berro contra os retrocessos que a população LGBT dará na Redenção em 26 de novembro. Será fabuloso!

Foto: Fernanda Piccolo

Reporteando

Vamos compartilhar um incômodo?

Renata Colombo
31 de outubro de 2017

O que vocês pensam sobre o futuro do jornalismo e da comunicação? Já pararam para pensar que a forma como produzimos conteúdo está em profunda transformação e ainda vai mudar muito, mas muito mais, nos próximos anos? Eu já, e decidi compartilhar esse incômodo.

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Fui buscar um curso para abrir a caixola

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Pois bem, quase saí correndo, confesso, já na primeira aula. Meu professor e alguns colegas trataram com a maior naturalidade do mundo a ideia de viver em uma realidade virtual, ter uma casa em que os aparelhos se comunicam e tomam decisões, andar em carros voadores, comer comida impressa e transplantar uma cabeça inteira. Mas não saí correndo. Sou muito curiosa pra isso. Em vez disso, passei a pensar mais nesta tal de disrupção, que parece mais difícil de enxergar na comunicação do que na tecnologia, já que estamos falando de um produto subjetivo.

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Disruptar é ousar, dar um salto em vez de seguir a linha reta da evolução natural das coisas. Mas como inovar ainda mais na forma de se comunicar?

Uma coisa é certa: ouvintes, leitores, internautas e telespectadores, querem muito mais de nós

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Eles não querem simplesmente ser informados. Isso eles têm em segundos, num simples acesso ao Facebook, Twitter ou site de notícias. Precisamos dar aos nosso público o diferencial, o além da informação, algo que pode estar na opinião, na personalização, na análise.

E aí me pergunto: até quando vai durar esta forma de fazer jornalismo, respondendo aquelas seis perguntinhas básicas do lead e pronto? Até quando teremos que nos isentar da análise ou da opinião ou do comentário porque foi assim que aprendemos e é assim que as redações fazem?

Quem está do lado de fora da nossa bolha pode não querer exatamente o que estamos oferecendo. Até que ponto estamos ouvindo nosso consumidor de informação? Espero que vocês compartilhem do mesmo incômodo.

Samir Oliveira

Ativistas trans se reúnem em Porto Alegre para debater construção de políticas públicas e luta por direitos

Samir Oliveira
26 de outubro de 2017

Porto Alegre vai receber neste final de semana um encontro de ativistas transexuais de toda a Região Sul do país. Trata-se do III Workshop Sul da Rede Trans Brasil. O evento ocorre de 27 a 30 de outubro, no Hotel Embaixador.

A iniciativa é organizada pela Rede Trans Brasil e pela Igualdade-RS. Ao longo de quatro dias, as ativistas e os ativistas irão debater uma série de questões que envolvem a comunidade T.

O tema central do encontro é: “Educação e trabalho oportunizam para a inclusão social”. Uma consigna que faz todo o sentido para uma população totalmente marginalizada, que não encontra alternativas a não ser a prostituição ou subempregos totalmente precários.

A evasão escolar é um problema dramático para a população de travestis e transexuais, que são obrigados/as a abandonar os estudos por conta do preconceito e da discriminação. Isso quando não são expulsas/os de suas casas pela intolerância da própria família – algo comum em todos os lugares, especialmente no interior.

Pensar em políticas públicas que garantam a permanência de travestis e transexuais nas escolas é um desafio que requer um olhar específico do poder público a este problema. A evasão escolar não é um fenômeno homogêneo e a população T é um dos grupos mais vulneráveis neste processo.

A capacitação e iniciativas que facilitem o acesso a empregos formais também é um passo fundamental a ser dado pelo poder público. Uma iniciativa interessante é a oferta de isenção de impostos a empresas que contratem um determinado número de funcionárias/os travestis e transexuais. É lamentável que tenha que haver uma política de desoneração para que as empresas passem a olhar para essa população, mas é um passo necessário em direção à conquista do direito ao trabalho.

Nos quatro dias de encontro, as/os ativistas da Rede Trans Brasil organizarão debates com autoridades públicas, pesquisadores e militantes de movimentos sociais. Além do trabalho e da educação, estão na programação temas como saúde da população trans, iniciativas de mapeamento e produção de dados que orientem políticas públicas, a relação com a mídia e a luta por uma retificação de nome civil e de gênero que despatologize as identidades trans.

Uma das lideranças da organização do evento é Marcelly Malta, figura histórica do movimento LGBT gaúcho e uma articuladora nacional da luta das pessoas trans. Vice-presidenta da Rede Trans Brasil e presidenta da Igualdade-RS, Marcelly batalhou bravamente – e foi vitoriosa – pela criação de uma ala para travestis e seus maridos dentro do Presídio Central de Porto Alegre. Um projeto fundamental para que essa população tenha um mínimo de dignidade e proteção dentro de um ambiente onde absolutamente todos os direitos são negados.

O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. A população trans é a mais vulnerável e vitimada. A auto-organização de travestis e transexuais e a articulação com o restante do movimento, com gestores públicos e o conjunto das entidades da sociedade civil é fundamental para que essa triste realidade se modifique. Viva a luta das pessoas trans!

O encontro da Rede Trans Brasil é aberto e gratuito e ocorre no Hotel Embaixador (Rua Jerônimo Coelho, 354, no Centro de Porto Alegre). Confira abaixo a programação completa:

SEXTA-FEIRA – 27/10

14h: Credenciamento
16h: Coffe Break
19h: Mesa de abertura
19h45: Fala da presidenta da Rede Trans Brasil, Tathiane Araújo.
20h30: Apresentações artísticas

SÁBADO – 28/10

9h: Diagnóstico das violações de direitos humanos, busca de ações governamentais da gestão de Estados e políticas de segurança pública
– Jorge Martins Moreira: Doutorando em Direito Constitucional/UBA (Igualdade/RS)
– Adriana Souza: Coordenadora da Diversidade Sexual do RS
– Patrícia Couto: Ouvidora da Defensoria Pública do RS.
– Guilherme Gomes Ferreira: Mestre em Serviço Social
– Gustavo Passos: Mestre e Doutorando em Educação pela UFRGS e coordenador de programas de prevenção à violência da Fundação La Salle / SMSPC de Canoas.
– Mediação: Cutuxa Borges – Transgrupo Marcela Prado

10h30: Perfil socioeconômico da população trans no Brasil – A importância da produção de dados para a construção de políticas públicas legislativas e judiciárias.
– Guilherme Gomes Ferreira: Mestre em Serviço Social
– Gustavo Passos: Mestre e Doutorando em Educação pela UFRGS e coordenador de programas de prevenção à violência da Fundação La Salle / SMSPC de Canoas.
– José Stona – UFRGS
– Mediação: Liza Minelli – Grupo Esperança

14h: Novas tecnologias de prevenção e estratégias de apropriação destes mecanismos para pessoas trans (PrEP-PeP e a importância do diagnóstico precoce)
– Representante da Coordenação Estadual de IST Aids do RS
– Representante da Coordenação Municipal de IST Aids de Porto Alegre
– Alicia Krüger: Assessora técnica do Departamento Nacional de IST Aids e Hepatites Virais
– Marcos Benedetti: Mestre em Antropologia Social
– Mediação: Luana de Jesus – Secretária da Rede Trans Brasil na Região Sul

16h: Mídia e a estigmatização das pessoas trans na sociedade
– Gabriel Galli: Jornalista e coordenador-geral do Grupo SOMOS
– Gian Carlos Lorenzeti Panisson: Estudante de comunicação social da ESPM Sul
– Alice Ferreira: Mulher travesti e radialista
– Caio Ramos: Publicitário e ilustrador, formado em Filosofia e Comunicação Social pela UFRGS
– Mediação: Cristiany Beatriz – Fórum Transexuais de Goiás.

DOMINGO – 29/10

9h: Política de saúde pública com foco na prevenção às IST/Aids e HIV para a população de homens trans
– Cauã Cintra: Coordenador do Núcleo de Homens Trans da Rede Trans Brasil
– Vicent Pereira Goulart: Grupo SOMOS
– Ale Mujica: Grupo Estrela Guia
– Mediação: Murilo Christofer Alves

14h: Processo transexualizador e as reais necessidades para a garantia de tratamentos que contemplem as necessidades de pessoas trans
– Cristiany Beatriz: Fórum Transexuais de Goiás
– Etory Luiz: Núcleo de Homens Trans da Rede Trans Brasil
– Ângelo Brandelli Costa: Conselho Regional de Psicologia do RS, PUCRS e PROTIG
– Mediação: Sophia  – Igualdade RS

16h: Retificação de nome civil: A (des)patologização de gênero em debate
– Jorge Martins Moreira: Doutorando em Direito Constitucional/UBA – Igualdade RS
– Luisa Stern: Advogada – Igualdade RS
– Gustavo Bernardes
– Gabriela Baptista Silva: Psicóloga Clínica e Mestre em Psicologia Social
– Mediação: Sophia – Igualdade RS

SEGUNDA-FEIRA – 30/10

9h: Propostas e moções

Nós US

Importa quem se opõe a Trump

Sacha
25 de outubro de 2017
(you can read this post in English here)

O senador Jeff Flake gerou polêmica quando anunciou que não ia se recandidatar em 2018, com uma mensagem plenamente anti-Trump. A abordagem consolou o establishment republicano pouco confortável com Trump, mas relutante a exprimir isso publicamente. A oposição de Flake a Trump também deixa margem para a esquerda afirmar que o apoio partidário a Trump está fraturando. É cedo, porém, chegar a essas conclusões, por alguns motivos.

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Quem critica o presidente importa

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O senador Flake é um dos poucos republicanos no Congresso que se opõem abertamente a Trump, questionando a sua aptidão para o cargo. Por mais que se opusessem a Trump nas primárias, os republicanos têm se unificado em apoio a ele desde a sua nomeação. As diatribes e posições repreensíveis de Trump não têm levantado nenhuma voz republicana contrária em público. O silêncio em torno dos piores comportamentos do presidente tem sido a forma preferida do partido lidar com ele.

Esse silêncio é o fator determinante para a continuidade da administração. Os republicanos convergem na perspectiva de promulgar a sua agenda em virtude de controlar a presidência juntamente com a legislatura. Acreditam, devidamente, que se conseguissem passar legislação, ela seria assinada por Trump. Com a expectativa de que os democratas se oporiam à legislação republicana, nas câmaras de poder, a resistência democrata importa pouco para a sobrevivência da Casa Branca.

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Os republicanos estão altamente unidos

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Apoio republicano a Trump, ou falta de oposição, tem sido inabalável desde o início da sessão legislativa. Qualquer oposição ao extremismo de Trump tem encontrado resposta em votos unificados em todos os temas. Sejam nomeações, seja a legislação em si, dissidência republicana tem sido ausente. Com um partido tão qualitativamente unificado, qualquer crítica se destaca.

Destaquemos momentos cruciais em que republicanos votaram em contra de legislação própria, tais como as tentativas de derrubar o ACA. Em cada instância, o desejo republicano de revogar o Affordable Care Act (Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente/PPACA em português) foi derrubado por um trio de senadores críticos da legislação, do impacto previsto, ou até do processo de lei mesmo. Esses senadores são mais dispostos a contrariar Trump e manter-se firmes em contra das suas propostas menos populares. Ainda assim, para qualquer tema há, no máximo, seis senadores que bloqueiam a legislação.

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Vozes críticas da maioria precisam manter o cargo para contar

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O senador Flake não tem sido, de acordo com o seu histórico de votação, um dos republicanos mais opositores à agenda de Trump. Contudo, em anunciando que não ia se recandidatar, começou a ser mais mordaz com o presidente. Embora votos importem mais como medida qualitativa para o partido da maioria decidir que assuntos são os mais importantes, a agenda é determinada pelo presidente. Por isso, sem se preocupar com muitos votos discordantes, críticas e dissidência por dentro do partido da maioria são tão importantes.

No entanto, para vozes republicanas críticas serem ouvidas e influenciarem a agenda legislativa da administração, é necessário que sejam representadas. É evidente que não se candidatar alivia o peso de fazer campanhas em que as palavras ditas podem ser mal-interpretadas. Flake parece que teria sido um candidato fraco contra candidatos nas primárias e na campanha geral. Outros senadores que decidiram não se recandidatar têm motivos semelhantes, ou bem da saúde.

Contudo, a liberdade de exprimir insatisfação num lugar onde isso implica contrariar a agenda legislativa não devia ser relegada apenas aos que não têm mais a perder politicamente. De cara com o extremismo, o freio mais importante são as vozes dissidentes entre as no poder. Precisamos dessas vozes agora e precisaremos delas depois de 2018, quando se constituirá a próxima legislatura.

Sem essas vozes, o Partido Republicano corre o risco de se render aos seus próprios elementos mais extremos. Se não houver figuras críticas dentro do seu partido, Trump terá a legitimação completa da sua agenda política. Essa é uma perspectiva inaceitável.

Imagem: Amanda Nelson
Nós US

It Matters Who Is Opposing Trump

Sacha
25 de outubro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

Senator Jeff Flake’s recent announcement not to run for reelection is getting a lot of attention for the starkly anti-Trump message he’s paired with it. His approach pleases the Republican establishment that is uneasy with the president but unwilling to speak out about him. His opposition to the president also allows for those on the left to claim the president’s support is fracturing even among his party base. These takes are premature, for a few reasons.

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Who is criticizing the president matters

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Senator Flake is one of only a handful of Republican congressmen to openly oppose Trump and question his suitability for office. However opposed Republican politicians appeared to be to Trump during the primary, since the campaign, they have coalesced around him. Trump’s objectionable positions and tirades have done nothing to dampen the silence that has characterized the Republican method of dealing with him.

That silence is the determining factor for the continuity of the Trump administration. Republicans converge on the prospect of getting their agenda enacted by virtue of the president belonging to the same party. They believe, rightfully, that should they manage to pass legislation, he will sign it. Because the Democrats are expected to oppose Republican legislation, in the annals of power, their resistance matters little for the survival of the White House.

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Republicans are strongly united

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Republican support for, or lack of opposition to, Trump has been remarkably strong since the start of the legislative term. Any vocal opposition to the extremist theatrics Trump puts on has been met with a resounding, unified vote on all issues put forward. From government appointments to legislation itself, Republican dissent has been largely absent from this term. With such a qualitatively unified party, any critical opposition stands out.

We can point to moments where handfuls of Republicans have voted down crucial legislation, such as with the ACA repeal attempts. In each instance, Republicans’ desire to repeal the Affordable Care Act has been derailed by a trio of senators consistently critical of the legislation, its effects, or even the process. These senators are seen as being more generally willing to contradict Trump and hold firm against his less popular proposals. Yet there are for any issue, at most, six senators standing in the way of smooth passage.

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Critical majority voices need to hold office to count

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Senator Flake has not, per his voting record, been one of the strongest Republican deniers of the Trump agenda. Yet in announcing that he will not seek reelection, he has struck a sharper tone toward the president. Although votes matter most as a qualitative measure of how the majority party decides what issues are most important, the political agenda is still largely set by the president. That is why, even without many opposing votes, criticism and dissent from within the majority party is so important.

However, for critical Republican voices to be heard and to shape the Trump administration’s agenda, they must be represented among their ranks. Evidently, not seeking reelection frees the binds of running campaigns that could see words be twisted around. Flake appeared to have been a weak candidate against primary and general campaign challengers. Other retiring senators have similar motives, if not their health.

Yet the freedom to speak up and express discontent in a place where that cuts against the legislative agenda ought not to be relegated only to those who have nothing left to lose politically. In the face of extremity, the primary check on influence are the dissenting voices among the ranks of those in power. Those sorts of voices are needed now, and they will be needed after 2018, when the next legislature will be constituted.

Without their voices, the Republican party runs the risk of turning itself over fully to the most extreme elements within it. If no Republican voices end up left to criticize and critique him, Trump will have gained full legitimation of his political agenda. That is an unacceptable prospect.

Image: Amanda Nelson
Guia de Viagem

Califórnia para crianças – Disneyland

Geórgia Santos
21 de outubro de 2017

O fato de eu não ter filhos faz com que eu, naturalmente, ignore destinos que sejam interessantes e divertidos para os pequenos. Isso mudou neste ano. Não, não estou grávida. Acontece que nos meses em que vivi na Califórnia, Estados Unidos, recebi visitas muito especiais. A Nanda (minha tia) e o Ronaldo passaram 12 dias comigo e não viajaram sozinhos: levaram a Helo, filha deles que tem quatro anos; e a Victoria, minha prima e afilhada que tem 14 anos.

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Imediatamente comecei a fazer um roteiro na Califórnia que fosse divertido pra uma criança e pra uma adolescente

E deu muito certo

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Deu tão certo que os adultos adoraram também e se divertiram tanto quanto. Eu escolhi quatro programações diferentes (todas no sul da California) pra dividir com vocês ao longo de quatro semanas. Mas como sempre acontece por aqui, obviamente algumas coisas saíram do script. Mas enquanto tudo dava certo, eu vestia minhas orelhinhas de Minnie e brinquei como se tivesse cinco anos.

 

 Disneyland

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Eu e a Vic; Helo e a Minnie

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Geralmente, quando os brasileiros pensam em Disney, imediatamente lembram de Orlando e do gigante parque da DisneyWorld. Acabam esquecendo que a Califórnia guarda com todo o carinho o primeiro parque temático que o senhor Walt construiu. A Disneyland foi aberta em 1955, em Anaheim, e é a história viva desse mundo mágico. É bem menor que a versão da Flórida, mas quando se viaja com uma criança de quatro anos, isso é uma grande vantagem.

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 O que levar

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Essa etapa é muito importante, afinal, um passeio à Disney não dura por duas horas, mas o dia inteirinho. Por isso, é importante pensar em alguns itens para passar o dia:

1. Garrafa d´água é fundamental, porque o clima de Anaheim é extremamente seco. Há água para vender, mas é cara. Então em vez de torrar o dinheiro comprando água, encha a garrafinha nos bebedouros espalhados pelo parque;

2. Muda de roupa, ou uma camiseta extra. Há brinquedos em que a gente pode se molhar, como o Splash Mountain. Sem contar que, com crianças, uma roupinha extra nunca é demais;

3. Filtro solar. Não precisa explicar, né;

4. Boné ou chapéu ajudam muito. O clima no sul da California é bastante estável e chove muito pouco. Isso significa que mesmo em dias de temperaturas relativamente baixa, o sol é bastante forte – e às vezes as filas podem demorar;

5. Carregador de bateria ou bateria extra. Não há celular que resista a um dia inteiro de fotos e vídeos;

6. Lanchinho como frutas, castanhas e barrinhas. Há muitos lugares para comer na Disney, mas eu recomendo os restaurantes somente para as refeições maiores como almoço e jantar, porque se perde muito tempo – além de ser caro e, quase sempre, porcaria;

7. Carrinho de bebê – mesmo para crianças mais velhas, porque elas vão cansar. Há carrinhos para alugar no local, então não precisa se preocupar muito com esse detalhe. O problema é que esses carrinhos não são os mais confortáveis, então a criança não fica muito acomodada ao dormir. Mas quebra o galho;

8. Casaquinho ou outro agasalho, pois a temperatura cai bastante à noite, mesmo no verão;

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 Como chegar

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A melhor maneira é ir de carro e deixar no estacionamento do resort. Mas se não pilha de alugar, pode pegar um trem até Anaheim e de lá pegar um uber.

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 O que ver

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Antes de mais nada, é muito importante baixar o aplicativo. Ali você tem acesso ao mapa e, principalmente, o tempo de espera de cada brinquedo. As filas são enormes e, em alguns casos, a espera passa de duas horas. Para evitar esse tipo de problema, é só controlar o tempo de espera no app. Às vezes, em função de algum evento, paradas com os personagens ou até mesmo horário, abre uma janela de menor espera. Além disso, existe um passe rápido que pode ser utilizado em alguns brinquedos e por tempo limitado.

A organização é muito importante porque não dá tempo de ver tudo, a menos que você fique mais de um dia. Abaixo, sugestões do que eu achei mais legal. Mas obvio que é apenas o meu gosto, por isso é legal baixar o app e explorar antes mesmo da viagem.

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MAINSTREET – É a entrada e o diferencial desse parque, que ó primeiro que o seu Disney construiu. A rua tem ares históricos com a reprodução de uma pequena cidade cenográfica, restaurantes, carruagens e vários personagens dando sopa, só esperando uma fotinha;

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FANTASYLAND – É a área perfeita para os pequenos, com atrações dos filmes clássicos da Disney, aqueles que todos vimos mil anos atrás. Alice no País das Maravilhas, Pinóquio, Rei Arthur, Peter Pan. É como voltar à infância. A gente vira criança. O lugar também é especial porque é onde “moram” as princesas. Teve adulto chorando ao ver a Rapunzel. Dá pra fazer um tour e conhecer várias princesas, o castelo da Bela Adormecida e ainda assistir a uma peça de teatro incrível;

.MICKEY´S TOONTOWN – É o coração da Disneyland, é onde tem a casa do Pateta, o barco do Donald, a casa do Tico e Teco, da Minnie e, é claro, a casa do Mickey, que é uma atração à parte e uma viagem no tempo . A gente tem a sensação de estar dentro de um desenho animado. É uma delícia e vale muito a pena;

 

TOMORROWLAND – A área futurista do parque, onde estão as atrações de Star Wars e Toy Story. Mas a minha favorita é o Submarino do Nemo, em que a gente embarca em um submarino de verdade e é levado por todas as aventuras que o pai do peixinho e a Dory enfrentaram;

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ADVENTURELAND – Aqui a gente encontra as aventuras do Tarzan e uma das melhores atrações de todo o parque, na minha opinião: Indiana Jones. É simplesmente incrível, especialmente pra quem conhece os filmes de cabo a rabo. Tem o jipe, tem a bola rolando, tem o Indi descendo do teto pra te salvar. E como se não bastasse, a área ainda abriga a Enchanted Tiki Room. Eu não entrei pra ver o que acontece, mas paramos do lado de fora onde há o Tiki Juice Bar, onde eles vendem uma sobremesa maravilhosa.

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E foi aí que a viagem que parecia tranquila virou um pequenino desespero

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Paramos os cinco para comprar o que eles chamam de Dole Whip Float, que é basicamente um sorvete de abacaxi dentro de um copo com suco de abacaxi e pedaços de abacaxi. Uma delícia docinha e refrescante – e com guarda-chuvinhas de papel. Mas essa iguaria não é uma descoberta minha, TODOS que pisam na Disney procuram por esse sorvetinho. Isso significa que o lugar tem zilhões de pessoas. Isso não seria problema se as crianças ficassem sentadinhas e quietinhas em seus lugares, não é mesmo? Mas sabemos que isso não acontece e não foi diferente com a Heloísa.

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Corre pra lá e corre pra cá até que … cadê a guria?

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A mãe dela se desespera e começa a gritar: “Heloísa! Heloísa!”A gente tentou acalmar a Nanda e começou a olhar pra os lados, até que o pai avistou a menina em forma de terremoto. Estava a dois passos de todos, olhando o poço dos desejos. Ufa. A sorte é que a Helo tinha uma pulseira com todos os dados e telefones, justamente pra o caso de se perder. No fim não precisamos desse recurso, felizmente, mas é uma ótima dica. E não esquece do sorvetinho;

 

NEW ORLEANS SQUARE – É, sem dúvida, a “vizinhança” mais legal da Disney. A gente é transportado pra New Orleans, especialmente à noite, e simplesmente não quer mais sair. Sem contar que tem duas atrações clássicas do parque estão lá: Piratas do Caribe e a Mansão Mal Assombrada. Vale cada segundinho;

Além disso, fique de olho no horário de atrações que ocorrem por todo o parque, como as Paradas e Paradas Elétricas, e os pontos em que os personagens estão dando autógrafos.

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 Onde comer

Cada área do parque oferece restaurantes com refeições de todos os tipos e pra todos os gostos. Nós almoçamos na FantasyLand, na Taverena do Gaston. Sim, ele mesmo, aquele da Bela e a Fera. O lugar é super bacana, como se a gente estivesse dentro do desenho. E a comida estava uma delícia.

Fotos: Divulgação e Arquivo Pessoal

Yo No Soy de Aquí

Drexler, um anfitrião exemplar

Alvaro Andrade
19 de outubro de 2017

Por trás da aparente tranquilidade montevideana, havia no átrio centenário do Teatro Solís uma bruma de contida expectativa. Era o frio na barriga característico de grandes amigos a espera de um reencontro: embora haja intimidade, nada permite o desleixo. Sendo assim, todos portavam-se no limite da ansiedade, aguardando com discrição e elegância.

O burburinho que emanava dos 1200 assentos diminuiu ao passo que escureceu a luz do palco. Sem cerimônias, percussão, baixo e violão tomaram seus assentos para só então o charme de um tímido Jorge Drexler romper da coxia para a primeira das muitas ovações que receberia naquela noite especial: após 13 anos, o montevideano que deixou a medicina para ser músico voltava a tocar no principal palco do seu país. Não vou me recordar da sequência das músicas, mas não há como esquecer a troca de gentilezas entre artista e público por 2h30 de espetáculo.

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Enquanto na plateia não se avistava sequer um telefone celular, no palco Drexler agia como um anfitrião exemplar, fazendo-nos sentir como se o Solís fosse nossa casa

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Mesmo tocado pelo natural nervosismo inerente à estreia de uma turnê internacional, Drexler deixou todos à vontade: não se furtou de pedir ‘respeito aos cinquentões’ após arrancar assovios enquanto tirava o casaco. Passada metade da apresentação, sem cerimônias incluiu no set, de improviso, a canção pedida por alguma fã na multidão. Com a intimidade permitida somente aos conterrâneos, cantou lendo as músicas do novo álbum na partitura. Quando errou, não titubeou em recomeçar e da plateia também veio o conforto: “No te preocupes, Jorge. Estás en casa”. Quando acabou, precisou voltar duas vezes para render-se aos aplausos intermináveis de quem, após aqueles momentos, sentia-se um pouco mais amigo de Jorge Drexler.

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Para nós, recém-chegados mas profundamente adeptos ao que Vitor Ramil cunhou de estética do frio, sentir-se tão confortável no ambiente proporcionado pelo artista foi um afago inesquecível

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Lanna e eu sentimo-nos um pouco mais em casa na noite de 4 de outubro.  Tão em casa que após dois dias pudemos dizer isso pessoalmente a Drexler, num daqueles encontros casuais que são possíveis apenas em um país de escalas tão reduzidas quanto a vaidade de seus maiores expoentes, fazendo valer o dito de que por aqui ‘naides és más que naides’.