Samir Oliveira

Raja Gemini: “Drag começou como uma revolução”

Samir Oliveira
26 de abril de 2018

Raja Gemini é o nome artístico de Sutan Amrull. É a personagem criada por esta fabulosa drag queen que venceu a terceira edição do reality show RuPaul’s Drag Race, uma das maiores atrações de entretenimento LGBT atualmente.

A terceira temporada da série foi ao ar em 2011 e muita gente que hoje acompanha o programa pode nem tê-la visto. Em novembro de 2014, Raja esteve em Porto Alegre pela primeira vez, participando da segunda edição da festa XTRAVAGANZA DRAG PARTY. Se não me falha a memória, foi a primeira visita de uma vencedora de RuPaul’s Drag Race à cidade. Naquela ocasião, tive a oportunidade de conversar com Raja durante mais de uma hora.

A entrevista viria a ser publicada no site Nada Errado, de Minas Gerais. O site acabou saindo fora do ar e a entrevista infelizmente se perdeu, junto com as maravilhosas fotos feitas pelos queridos Felipe Matzembacher e Marcio Reolon. Hoje em dia o Nada Errado sobrevive no Medium, mas o registro do vibrante papo que tive com a Raja não está lá.

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Por isso faço este resgate e deixo aqui a íntegra da entrevista.
Raja e a cultura drag ainda têm muito a nos ensinar!

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Quando você começou a se montar?
Raja: Eu comecei a me montar aos três anos de idade. Eu vestia as roupas e jóias da minha mãe. Foi nessa idade que eu comecei a experimentar. Mas eu comecei a levar isso mais a sério na adolescência, a sair nos clubes em drag a partir dos 16 anos. Eu cresci num lar religioso, então isso fazia parte da minha rebelião, sair com meus amigos, ir para as festas. Essa era a minha primeira intenção. Foi quando eu fiz 18 anos que decidi que drag era algo que eu realmente queria fazer. A maior parte do início da minha vida adulta foi bastante queer, focada em gênero, em drag, em me transformar em uma linda mulher. Mas agora não é mais apenas sobre isso. Não é uma rebelião, é mais sobre a forma como eu me relaciono e me identifico comigo mesmo.

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Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família.

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Como foi a sua relação com os pais?
Raja: Era muito difícil para eles entenderem. Eu nunca realmente saí do armário para eles. Eu comecei a me montar muito cedo, então eles sempre souberam. Meu pai foi muçulmano durante 50 anos, depois ele se converteu ao cristianismo – o que é proibido – e se tornou um pastor. Então sempre teve esse aspecto religioso presente na minha família. Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família. Eu sempre tive muitos medos até ir para a faculdade, que foi quando comecei a me sentir mais à vontade, já vivendo fora da casa dos meus pais. Mas com o tempo foi ficando mais fácil para mim me expressar junto à minha família.

Quando tu começou a trabalhar como maquiador profissional?
Raja: Eu comecei a fazer drag e a trabalhar como maqueador no mesmo período. Eu queria ser maqueador porque eu também queria saber me maquear bem. Eu tinha uns 20 anos quando eu comecei as duas carreiras de uma forma mais profissional.

Como surgiu a decisão de tentar participar de drag race?
Raja: Foi uma decisão difícil para mim, porque eu já tinha uma carreira estabelecida. Eu sabia que o seriado estava se tornando popular, mas eu não sabia se isso iria realmente ser algo arriscado para minha carreira como maquiador. Eu pensava que as pessoas poderiam zombar de mim por estar participando de um reality show, como se eu não estivesse me levando a sério. Eu pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que eu estava muito confiante também com meu trabalho como drag queen, então simplesmente me candidatei.

Foi a tua primeira tentativa?
Raja: Sim.

Que sorte!
Raja: Eu acho que as vezes as coisas apenas acontecem. Acho que quando fui escolhido para o seriado, isso demonstrou que a televisão estava pronta para algo diferente. Eu fiquei muito temeroso, porque eu era diferente. Eu achava que não fosse durar muito tempo, que eu não fosse ganhar. Eu achava que não iria durar nem meia temporada.

Quando tu entrou no seriado, tua carreira como maquiador era mais sólida do que a tua carreira como drag?
Raja: Eu era freenlancer, então às vezes eu tinha muito trabalho e às vezes não tinha nada. Se eu não conseguia me sustentar como maquiador, eu sempre tinha a opção de trabalhar como drag queen e vice-versa. Eu acho que tudo aconteceu quando tinha que acontecer, porque quando fui selecionado para drag race eu já estava pensando que eu tinha que me dedicar com muita seriedade a uma coisa ou outra. Eu já estava com 37 anos, eu tinha que levar isso a sério e crescer profissionalmente. Eu pensava que talvez pudesse me dedicar somente à maquiagem, mas foi aí que Drag Race aconteceu.

O que essa experiencia significou na tua vida?
Raja: Meus pais puderam ver o que eu fazia. Isso significou tudo para mim. Um ano depois de eu ganhar, meu pai faleceu. Antes disso ele pôde me ver como eu era. Eu lembro de sentir tanto medo de me expressar na frente dele. Eu sempre pensei: como vou explicar para ele que me visto com essas roupas engraçadas e faço shows nas boates? Ele nunca iria entender. E quando eu participei de Drag Race, meu pai pôde me ver fazendo algo que eu realmente gosto de fazer, que eu tenho orgulho de fazer. Para mim, fazer drag e participar daquela competição era minha própria versão de ser atlético, de ser forte.

Depois de tudo, ele acabou te apoiando?
Raja: Ele amou. Ele muito feliz e muito orgulhoso de mim. Isso foi o mais importante de tudo, juntamente com as amizades que eu fiz lá. Sou muito próximo da Manilla. Essa série mudou minha vida de muitas formas. Olhe onde eu estou agora: no Brasil! Antes de participar da série, fazer drag era apenas um fenômeno local para mim, eu trabalhava em Los Angeles, em Hollywood, agora tenho viajado muito.

No último episódio, Ru disse que você é uma pessoa bem introvertida. Você ainda se considera assim?
Raja: Eu acredito em Astrologia, eu acho que tem uma parte de mim que é, sim, bastante tímida. Nem sempre eu sei como me expressar em determinadas situações. Eu gosto de passar algum tempo sozinho, é assim que a minha mente funciona, eu acho que isso é algo poderoso. Então eu posso, sim, ser um introvertido, mas eu também posso ficar num palco, em frente a centenas de pessoas, e me jogar em direção a elas.

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No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha.

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E também no último episódio, quando Ru pediu para você listar suas qualidades e defeitos, você disse que pela primeira vez estava se enxergando como uma pessoa bela.
Raja: Eu acho que por um bom tempo eu usei drag como uma armadura para esconder qualquer insegurança que eu pudesse ter. No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha. Eu também finalmente percebi que, a essa altura, fazer drag já não era algo separado da minha vida. Já não havia mais um Sutan e uma Raja: eram os dois num só. Estar no programa me ajudou a perceber isso.

E fale um pouco sobre o estilo da Raja. Ela mudou muito com o tempo? Ainda brinca com as questões de gênero?
Raja: Até onde me lembro, nunca haviam considerado que eu adotava um estilo mais genderfuck até eu ter ingressado no programa. Na maior parte do tempo, eu sempre fui considerada linda e feminina, nunca haviam dito que eu fazia um estilo genderfuck. Eu acho que algo foi despertado em mim, nesse sentido, enquanto eu estava no programa. Mas, em geral, meu estilo não é tanto sobre gênero quanto é sobre criar uma ideia. Eu adoro ideias que são multiculturais, porque eu viajo muito e gosto de coletar influências de diferentes partes do mundo. Eu faço drag não porque quero me tornar uma mulher, mas porque quero expressar esse lado feminido. Eu faço drag porque eu amo as roupas, mais do que eu gosto da transformação. Só porque é um vestido, não significa que um homem não possa usá-lo. Se você fica ótimo em um vestido, você deveria usar esse vestido.

Você viveu na Indonésia dos 3 aos 10 anos. Como esse período influenciou na sua vida e na sua arte?
Raja: Influenciou tudo. Eu passei minha infância como um garotinho em Báli, totalmente envolvido naquela cultura, naquela espiritualidade, naquelas praias maravilhosas. Isso foi muito marcante para mim. Quando eu voltei para os Estados Unidos, já no início dos anos 1980, a primeira coisa que eu vi na televisão foi Boy George. Nós sequer tínhamos televisão na Indonésia. Quando voltei para os Estados Unidos, comecei a absorver todas essas referências, assitir aos clássicos de Hollywood, como uma esponja. Acho que crescer nesses lugares tão diferentes significou muito na minha vida, eu dou mais valor às coisas, porque cresci numa área muito pobre, então meu olhar sobre as coisas é bem diferente da maioria dos americanos.

Depois de ganhar, você disse que queria falar com as crianças, inspirar os meninos, dizer a eles que é tudo bem ser uma pessoa que não se enquadra.
Raja: Eu tenho feito tantas coisas desde então, eu vou dar palestras em universidades, em organizações LGBTs. Eu acho que meu diálogo com as novas gerações não é exatamente uma conversa direta, mas ocorre pela forma como eu vivo a minha vida. Eu nunca conversei com meus ídolos e meus heróis, eles nunca conversaram diretamente comigo. Mas eu assistia eles. Eu via Madonna, eu via RuPaul, eu via todos eles fazendo o que eles faziam e vivendo suas vidas de forma autêntica. E hoje nós temos as redes sociais, as pessoas vêm de todos os lugares entrar em contato pelo Instagram, pelo Twitter e pelo Facebook. Isso é maravilhoso.

Muitas pessoas mais jovens costumam te escrever e-mails, te contar sobre suas vidas?
Raja: Milhares de e-mails. Eu não consigo ler todos e acho que não tenho que ler todos. Muitas mensagens são parecidas. Eu estava no aeroporto aqui e dois garotos estavam me esperando. Duas adoráveis rainhas. É dessa forma que eu sei que estou fazendo a diferença, que, de alguma forma, sou um modelo para os mais jovens.

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Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis.

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Você também disse que, com a vitória, passou a ter muitos haters. Isso ainda continua ocorrendo?
Raja: Eu era muito novo em relação às redes sociais. Eu mal tinha uma conta no Twitter. Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis. Mas eu percebi que isso faz parte da nossa cultura. Eu tenho uma ótima amiga, a Dita Von Teese, nós nos conhecemos há quase 20 anos, e eu perguntei a ela como ela lida com isso? Ela disse: “Raja, se você ignorar eles, eles não existem”. Foi uma grande lição para mim. Se eu não os vejo, eles não podem me machucar. Então já fazem três anos desde a vitória e eu até que tenho gostado dos meus haters, porque quando eu leio o que eles escrevem ou ouço o que eles dizem, eu percebo que são besteiras, que eles têm muito medo daquilo que desconhecem e eu entendo isso. Eu acho que com o tempo eles vão acabar entendendo também.

Vocês são muito más umas com as outras no programa, isso é verdade ou é edição pelo show?
Raja: Eu acho que é uma competição e os produtores sabem como escolher diferentes pessoas para que haja esses tensionamentos. Eu não acho que a série faria tanto sucesso se todo mundo simplesmente se abraçasse, se amasse e dissesse como são lindos. Eu ficaria entediado vendo isso. Quando eu assisto um programa de televisão, eu quero ver tensão, drama. E Drag Race tem isso. Ainda que nós nos montemos, nós ainda somos basicamente garotos. Esse é o nosso esporte, é o nosso futebol. E muitos de nós nos tornamos verdadeiros amigos, trabalhamos em muitos lugares juntos. E são tantas drag queens, existe muita sororidade, somos uma comunidade e, inclusive, uma indústria.

Como uma vencedora, você tem sido convidada a participar de eventos para arrecadar fundos a causas sociais e do movimento LGBT?
Raja: Eu apoio muitas causas, mas eu acho que deveria participar mais, dedicar mais tempo a isso. É algo que eu quero fazer mais, até pela posição que eu ocupo. Não é algo que eu acho que faça o bastante, tanto quanto deveria.

Raja também está investindo na música, já lançou três singles. O que podemos esperar daqui por diante?
Raja: Eu nunca me considerei um músico ou um popstar. Eu estou aprendendo muito, eu sempre amei a música e agora consigo me expressar nesse sentido. Minhas influências são multiculturais, estou tendo muitas ideias. Eu tenho um apreço muito grande pela cultura oriental, pela mitologia, pela espiritualidade e pela iconografia, gosto de brincar com esses elementos. Eu não sei exatamente onde isso vai parar, mas vou continuar me expressando de várias formas e a música certamente será uma delas. Eu sei que não sou Adore DeLano, que tem um talento incrível, e não sou Courtney Act. Elas têm seus pontos fortes, ver tanta rainhas poderosas me fez perceber também onde está a minha força, que está no fato de eu conseguir me expressar visualmente.

Como foi seu tour pelo Brasil?
Raja: Maravilhoso. Eu nunca pensei que fosse voltar ao Brasil. Eu vim para cá há muitos anos, quando estava trabalhando em America’s Next Top Model, antes de Drag Race. Fiquei em São Paulo, mas estava trabalhando muito e acabei não fazendo muito turismo. E agora visitei três cidades diferentes: Recife, São Paulo e Porto Alegre – que é como São Paulo, só que mais tranquila e aconchegante. E o churrasco! Meu Deus! A primeira coisa que eu fiz quando cheguei foi comer um churrasco.

Que referências do Brasil você mais lembra?
Raja: Em palavras, eu sei dizer “ativo”, “passivo” e “versátil”, que eu prefiro chamar de Versache. Na minha primeira visita ao Brasil, eu me perguntava: como será que é esse país? Eu imaginava um país com muita natureza preservada e eu achava que todo mundo era sexy no Brasil, até mesmo avós e avôs, como se todo mundo natural e culturalmente tivesse muito sex appeal.

Ficou surpreso com a força da cultura Drag aqui?
Raja: Estou chocado. Os comentários e as mensagens de brasileiros vieram desde muito cedo para mim. Eu nem sabia como vocês nos assistiam, se Drag Race passava na televisão. Isso é maravilhoso. É incrível estar aqui, estou chocado, ver as pessoas tão entusiasmadas com meu trabalho me fez recarregar as energias.

Ouvi dizer que você gostou muito da Capirinha.
Raja: Eu já tinha tomado caipirinhas antes. Eu acho que é uma bebida bastante adequada para mim, é uma experiência muito forte, que mistura o sabor cítrico do limão com o doce do açúcar. Eu amo caipirinhas.

E o que você diria para quem está começando a se montar?
Raja: Encontrem-se. Sejam criativos. Não copiem ninguém. Tenham suas inspirações, seus modelos, mas não copiem. Porque drag começou como uma revolução, e é algo que deve ser sempre tratado desta forma um pouco revolucionária, política e espiritual. Outro conselho importante é: divirtam-se, sempre! Se eu não me divertisse, não estaria fazendo nada do que faço, de forma alguma.

ECOO

Dia da Terra – o que estamos fazendo por ela?

Geórgia Santos
22 de abril de 2018

Muito pouco.

Sim, há muitas pessoas que se dedicam a reduzir o impacto do estilo de vida contemporâneo no planeta. São pessoas corajosas que lutam em várias frentes para que os recursos naturais não se esgotem. Mas enquanto sociedade, enquanto grupo, fazemos muito pouco. E já estamos pagando por isso.

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O Dia da Terra é celebrado em 22 de abril desde 1970 com a finalidade de criar uma consciência ambiental comum, chamar atenção aos problemas ambientais.

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Naquele período surgiu a famosa narrativa de plantar uma árvore. E já nos anos 70 se falava em utilizar uma sacola de pano reutilizável no lugar de sacos plásticos. Mas em 50 anos, os problemas aumentaram muito. O que exige uma narrativa mais forte e incisiva: o planeta pode não resistir.

Precisamos mudar a maneira como vivemos de forma drástica, precisamos mudar hábitos se quisermos continuar vivos

É fundamental entendermos o aquecimento global como uma ameaça real; temos um problema gravíssimo relacionado ao consumo de plástico; estamos imersos em cosméticos e produtos de limpeza abarrotados de química; somos intoxicados com quantidades inverificáveis de agrotóxicos; estamos à mercê de um grupo político que não está preocupado com o meio ambiente; o presidente do país mais importante do mundo ironiza o ativismo ambiental.

Então, o que estamos fazendo por ela?

Muito pouco, repito. Desperdiçamos água, desperdiçamos comida, desperdiçamos energia, desperdiçamos vida

Se há uma crise, a responsabilidade é nossa e cabe a nós a recuperação. Não é fácil, mas comecemos. Comecemos com pouco, mas comecemos. Aqui tem cinco sugestões para dar esse primeiro passo e levar uma vida mais sustentável. Coragem.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Arábia

Pedro Henrique Gomes
13 de abril de 2018

Só existe “tiro e matação”, não há milagre no mundo. A constatação é de um menino, uma criança, personagem de Arábia. Seu irmão mais velho, André (Murilo Caliari), é quem participa do diálogo. Cena aparentemente lateral em Arábia, o filme de Affonso Uchoa e João Dumans organiza com precisão o seu desenvolvimento. Ela indica também um dos temas do filme, que é a violência e suas variadas formas de expressão. O mais substantivo em Arábia é a recusa do sociologismo e sua pretensão retórica baseada no senso comum, vide outros exemplares do cinema brasileiro recente (Que Horas Ela Volta?, Aquarius) que não o quiseram evitar. Seu compromisso (político que seja) é com a dramatização interna, com os motivos de seu protagonista, com a rede de relações que ele cria e vivencia. Há (pelo menos) um modo de mostrar isso e o filme o percebe.

O Brasil de hoje é um país no qual persistem os traços do autoritarismo fundador, que não é um traço ontológico “do povo”, mas cultivado por cima e que tornou hegemônico o grupo político-econômico que o agencia. Há um obsceno rombo entre as classes em disputa. A classe trabalhadora, que Cristiano (Aristides de Sousa) é expressão rigorosa, está em desvantagem dada a assimetria das forças em luta. O que Arábia propõe, no entanto, não é um inventário da luta de classes brasileira, ao modo de um Sérgio Bianchi, por exemplo. Não há o binarismo centro-periferia como estratégia de representação, tampouco como “noção” ou “conceito”. É mais sutil e, de certo modo, revigorante a história dessa desigualdade que a voz e o corpo ferido e esperançoso de Cristiano verbaliza e torna imagem. Imagem que a inversão valorativa da televisão e da publicidade (e também do cinema, da literatura…) já vulgarizou, tornou natural, incapaz de demonstrar.

O jovem André lê um diário deixado por Cristiano após este sofrer um acidente na fábrica de alumínio em que trabalha, em Ouro Preto, Minas Gerais. Cristiano relata boa parte de sua vida neste caderno pós-prisão, sua voz narrando desde o dia em que saiu do cárcere até dias antes do acidente. A leitura de suas notas de vida pelo jovem André acena para o narrador que interpreta aquilo que lê, como nós, espectadores, o fazemos com o filme. É dupla a narração pois Arábia assume a ambiguidade daquele universo, suas contradições e conflitos, as camadas do esquema de produção simbólica do que é o Brasil e o brasileiro trabalhador neste século. Cristiano, apesar de sua voz cansada, tem a auto-estima que esperam (esperamos?) que ele tenha. Ele crê, como sempre, na possibilidade de vencer a assimetria que o criou.

Ao sair da prisão, sua condição o faz saltar de trabalho em trabalho em busca do seu sustento, em busca, é claro, de uma vida melhor. Dar a volta por cima e recomeçar após perder a liberdade com o tempo mantido encarcerado, como diz a música dos Racionais que ele canta, não será sem suor e sangue. Com ele, temos a representação secular do trabalhador-operário no cinema brasileiro: no campo, na cidade, na estrada, na fábrica, seja onde for o precariado brasileiro é cena, é personagem, é modo de ver e de construir (e destruir) imagens e narração. É Cristiano quem narra, ainda que em segunda instância (é uma carta sua que é lida por André), é ele quem define o ponto de partida da leitura e escolhe um lugar para começar. Esse início é instável e conduz o espectador a abraçar essa instabilidade da narração, tal e qual a própria trajetória errante do personagem precipita.

Até alcançar a “maturidade” do entendimento de sua real condição e, modestamente, num grito não vocalizado, se imaginar conclamando todos os operários a interromperem os trabalhos e deixar incendiar a fábrica, Cristiano terá passado por muita coisa tentando preencher sua vida de sentido, terá conhecido, amado e perdido a mulher da sua vida, rodado Minas Gerais em busca de trabalho, se encantado e se desiludido com a perspectiva de sua existência.

Arábia é resultado de um esforço notável em considerar as circunstâncias sofridas que compõem a realidade nacional, que atravessa o Brasil inteiro e que o filme denuncia, esteticamente, com rigor e coerência formal. Ele parte, pois, do princípio não meritocrático de uma sociedade desigual para compreender a subjetividade a partir do trabalho objetivo, do material. No processo, encaminha finalmente (com um plano muito duro) o abalo mental e a resignação desse personagem não como alguém que desiste de tentar superar e vencer a instabilidade da vida, mas como quem simplesmente não deseja mais jogar seu jogo.

Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, Brasil, 2017. Com Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral, Renan Rovida.

Yo No Soy de Aquí

Parecidas, pero no mucho: cinco exemplos que Montevideo pode dar a POA

Alvaro Andrade
12 de abril de 2018

Elas rivalizam no pôr do sol mais bonito, são banhadas por  grandes rios, sede de dois grandes clubes com  torcidas apaixonadas e com quase dois milhões de moradores devotos do mate e da carne assada: são muitas as características e hábitos que aproximam Montevideo e Porto Alegre, mas infelizmente as semelhanças param por aí.  Enquanto a capital uruguaia encanta por sua limpeza e organização, a capital dos gaúchos sofre com o sucateamento dos serviços públicos usado como bandeira eleitoral. Abaixo cinco exemplos que poderiam melhorar a qualidade de vida dos porto-alegrenses.

 

1 Transporte público

Dificilmente um usuário de ônibus precisará caminhar mais que duas quadras no embarque, desembarque ou transbordo em Montevidéu. O plano diretor permitiu uma distribuição muito eficiente das linhas, que graças a um trânsito fluido, também são bastante pontuais. Além disso, a passagem é ligeiramente mais barata (36 pesos, o que equivale a R$ 4,20) e o sistema de transporte coletivo oferece algumas facilidades singelas, mas que fazem diferença, como o rastreamento das linhas por aplicativos e a possibilidade de recarga do cartão em redes de cobrança que se assemelham à casas lotéricas instaladas em todos bairros da cidade. As empresas que operam as linhas são cooperativas de trabalhadores, garantindo comprometimento com a qualidade e autonomia sindical.

2 Água limpa

A qualidade de vida do montevideano também se explica por sua relação com o rio da Prata, que de tão grande é carinhosamente chamado de mar. A cidade está de frente para a orla, com uma rambla de mais de 20 km totalmente urbanizada, com áreas para prática de vôlei de areia à rubgy. No verão, as praias são todas balneáveis e contam com serviço diário de limpeza da areia e salva-vidas.

3 Mobiliário urbano

Os espaços publicitários obedecem um plano diretor bastante específico, que mimetiza os anúncios na paisagem. Na maior parte da cidade, são verticais com cerca de 2 metros de altura e 1,5m de largura. Outdoors são bastante raros, restritos às laterais ou topo de edifícios. Embora as paradas de ônibus sejam bem simples, em todas elas há informação das linhas que atendem o ponto. A sinalização viária também tem identidade visual específica e os termômetros de rua, além de informarem a temperatura, oferecem prognóstico do dia seguinte e o fator de radiação UV.

4 Segurança

Montevidéu é considerada a capital mais segura da América Latina, embora  a sensação de insegurança venha crescendo entre os uruguaios. Mesmo assim, os níveis de violência são muito inferiores a Porto Alegre. Em 2017, foram 157 homicídios na capital uruguaia, frente a 574 na capital gaúcha. Além de uma menor desigualdade social, há um permanente investimento em videomonitoramento e valorização da carreira de policial, inibindo a corrupção.  A legalização da maconha também inibe o crescimento do poder do crime organizado.

5 Patrimônio histórico

São cada vez mais comuns as gruas da construção civil pela cidade e nota-se uma expansão imobiliária vertical, especialmente nos bairros mais procurados e caros, como Pocitos e Punta Carretas. Mas a maior parte da cidade conserva suas características arquitetônicas, onde predomina o art-deco. A prefeitura inclusive oferece isenção de imposto predial por uma década aos proprietários que investem na reforma de prédios antigos, desde que preservadas as características originais.

Reporteando

A política imita a vida

Renata Colombo
11 de abril de 2018

Por muito tempo, até já adulta, eu não tinha certeza sobre onde me encaixava no espectro político. Eu nem gostava muito de politica porque não acreditava nos políticos. Não gostava de radicalismos. Meus pais votavam no trabalhismo ou na direita, mesmo não sendo radicais, e também não o faziam por ideologia. Minha madrinha já era esquerda roxa. Fazia greve e estava sempre lutando por direitos e igualdade.

Questionava-me se era possível gostar só de um político e não do partido dele, e vice e versa. Me arrepiava com o “Lula lá” desde 89, mas na minha volta sempre falavam mal do PT

Até o dia em que descobri que o posicionamento político da gente tem mais a ver com o nosso posicionamento na vida do que com qualquer outra coisa. Os dois tem extremos, e eu achava errado. Talvez por isso me sentia confusa. Mas foi só perceber que muitos são mais fortes que um só e que defender igualdade e direitos básicos dos cidadãos são obrigações. Foi só olhar para a história é perceber que grandes nações precisaram de radicalismos, de revoluções, para viverem de respeito pleno.

Que se preocupar com os outros e não só consigo mesmo, se revoltar com injustiças e desigualdades, não achar normal gente morando na rua e criança pedindo comida, querer mudar um pedacinho do mundo são parte de uma personalidade, da minha personalidade, genuína de que pensa no próximo, de quem não consegue se ver como indivíduo sozinho no mundo.

Eu cobri dois momentos tristes da nossa história: o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Eu cobri uma mobilização popular em cada um destes eventos, de gente que acredita tanto nestes valores que quer recuperá-los.

Acho que agora, já adulta e com a ajuda da minha profissão, minha pergunta foi respondida e as coisas ficaram mais claras. Sim, eu estou triste com o que estão fazendo com a nossa democracia. Sim, nós precisamos de novos líderes políticos e uma geração menos corrupta. Sim, há um grande líder, apesar de você.

Samir Oliveira

O candidato anti-LGBT perdeu na Costa Rica, mas suas ideias cresceram

Samir Oliveira
5 de abril de 2018
Foto: Fabricio Alvarado | Arquivo Pessoal

A Costa Rica acaba de sair do segundo turno de suas eleições presidenciais com um resultado que, por um lado, representa um alívio a todos os defensores dos direitos humanos, mas por outro acende um sinal vermelho de alerta permanente.

O candidato reacionário e anti-LGBT Fabricio Alvarado foi derrotado, mas suas ideias ganharam peso.

No pleito do dia 1 de abril o cantor evangélico e apresentador de TV Fabricio Alvarado ficou com 39,2% dos votos, sendo derrotado pelo jornalista e escritor Carlos Alvarado, que obteve 60,8% de apoio popular. A virada surpreendeu o país, invertendo o resultado do primeiro turno e contrariando a previsão das pesquisas de opinião, que demonstravam um cenário extremamente polarizado.

A Costa Rica é reconhecida como a democracia mais sólida da América Central. Talvez seja mais conhecida ainda por ser um dos poucos países do mundo sem Forças Armadas. Mas estas eleições trouxeram à tona outra faceta do país: o conservadorismo brutal de sua sociedade em temas como sexualidade e direitos humanos.

Estas duas questões transformaram-se no eixo do debate eleitoral. Apenas um mês antes do primeiro turno, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) determinou que a Costa Rica legalizasse o casamento civil igualitário. A decisão posicionou o assunto no centro de todas as campanhas. Enquanto o governista Carlos Alvarado, de centro-esquerda, celebrou a sentença, o oposicionista de direita afirmou que um eventual governo seu não respeitaria o julgamento e ainda retiraria o país deste importante organismo multilateral.

Fabricio Alvarado mobilizou os piores sentimentos do país com sua candidatura. Sob o pretexto de defender uma suposta “família natural”, foi totalmente contrário a qualquer concessão de direitos à população LGBT. Garantiu que sua primeira medida no governo seria a revogação de um decreto que protege servidores federais e usuários dos serviços públicos contra a discriminação.

Os pronunciamentos do presidenciável da direita beiraram as raias do crime ao defender a chamada “cura gay”, uma invenção reacionária do fanatismo neopentecostal.

“Estou de acordo em que as pessoas que queiram sair da homossexualidade devam ter um espaço onde sejam atendidas e restauradas”, declarou. Isso mesmo, o termo exato que ele utilizou foi este: restauração.

Fabricio Alvarado é uma espécie de Marco Feliciano costarriquenho. Ele chegou a dizer que a homossexualidade é uma invenção do Diabo. E o pior é que muita gente foi seduzida por sua retórica preconceituosa. “Quando o inimigo (o Diabo) consegue confundir sexualmente uma pessoa e desviar sua identidade sexual, o que está fazendo é destruir sua identidade em Deus”, declarou.

Felizmente o jogo virou no segundo turno e Carlos Alvarado viu sua votação aumentar de 21,7% para 60,8%. O candidato do governista Partido Ação Cidadã (PAC) representa a continuidade de um projeto de centro-esquerda desgastado e envolvido em denúncias de corrupção. Não faço aqui uma defesa de sua plataforma, que não empolga e definitivamente não representa qualquer novidade. Mas é preciso dizer que sua vitória foi uma vitória contra a homofobia e o preconceito. A derrota de Fabricio Alvarado simbolizou um levante da Costa Rica contra o crescimento da intolerância, tanto é que o índice de eleitores que compareceram às urnas aumentou do primeiro para o segundo turno.

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Mas o alerta que faço no título não é em vão

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Apesar de ter sido derrotado, Fabricio Alvarado garantiu uma sólida base social no país. Entrou na eleição como o único deputado de um partido pequeno, o Partido da Restauração Nacional (PRN), e saiu do pleito como o líder da segunda maior bancada no Congresso, com 14 parlamentares -à frente inclusive da bancada governista, que elegeu 10 deputados.

A vitória da homofobia e do preconceito no primeiro turno acendeu o sinal de alerta e a sociedade costarriquenha soube reagir à altura. Mas o crescimento estrondoso do PRN demonstra que o fundamentalismo religioso está a poucos passos do poder. E eles não vão desistir, por isso nós devemos seguir resistindo.

Nós US

A renda ficou muito cara

Sacha
4 de abril de 2018

A inflação é uma praga que atinge não só o bolso do brasileiro. A crise que se passou em 2008 não deixou um canto do mundo livre de seus efeitos, mais tarde ou mais cedo. Depois de uma queda meteórica no mercado imobiliário no Ocidente, os preços têm voltado a níveis insustentáveis nas zonas de maior atividade econômica. Nos Estados Unidos hoje, em nada se nota tanto os efeitos da crise como na moradia.

Uma década perdida

Se está caro arrendar uma casa tanto no Rio de Janeiro quanto em cidades como Vancouver, São Francisco, ou Londres, o que há por trás disso? É preciso começar com a crise de 2008 e os efeitos no mercado financeiro.

Há uma década, a construção era financiada em grande parte por linhas de crédito pedidas aos bancos. Esses mesmos bancos em grande número faliram na crise financeira, levando à cessão da atividade de construtoras. Os bancos que restavam dificultaram o acesso a crédito.

Sem projetos, as construtoras começaram a encerrar ou especializar em projetos de luxo que pudessem pagar as contas. A bola de neve foi descendo durante anos, deixando muitas cidades com uma década inteira (ou mais) de construção perdida.

As populações, entretanto, não esperavam as construtoras recuperarem as condições. Entradas em plena recuperação econômica, essas cidades tornaram-se pólos migratórios sem que tivessem a capacidade de acolher todos que queriam habitá-las.

Não é por acaso que as cidades mais baratas para se viver são as mesmas que têm permitido a construção de capacidade adequada ao crescimento de emprego na última década.

O deslocamento de populações antigas às mãos de recém-vindos com mais dinheiro é o que se tem chamado gentrificação. Algumas cidades, já sentindo essa pressão, tentaram legislar proteções contra o fenômeno. Em cidade alguma isso tem resultado da forma desejada. Em alguns casos, a situação até foi agravada.

Com espaço limitado e pouca ação tomada para deixar lugar para todos, os mais privilegiados ganham. Os preços continuam a subir apesar de qualquer esforço. É o caso de toda a Califórnia, especialmente a área da Baía de São Francisco.

Não há uma causa única

Aqui não há nenhum mistério. O princípio de oferta e procura é bastante simples: quando existe um bem pelo qual há pouca oferta e muita procura, o preço sobe. E os preços subiram muito. As cidades e estados tampouco souberam construir habitação social o suficiente para as necessidades da população. Esta é a base dos males de comprar ou arrendar uma casa hoje em dia.

Isto se aplica tanto em casos extremos como na Espanha, quanto em áreas menos afetadas, como nas cidades da região chamado o Sun Belt (Cinturão do Sol) americano. Mas não explica tudo.

O ponto em comum de toda a explicação é o desejo de controlar e bloquear o crescimento populacional das cidades. Os motivos são vários para bloquear o crescimento. Argumentos superficiais defendem uma melhoria em qualidade de vida ou escolas públicas. Outros são mais discretos. Entre eles é o desejo de preservar o preço imobiliário por esta via artificial. Assim, enriquece-se quem já teve o privilégio de comprar casa no lugar e tempo certo.

As cidades americanas sofrem de um câncer de zoneamento excessivo

Outro fator agravante, eminente na Califórnia, é o zoneamento restritivo das cidades. O zoneamento dita os usos dos edifícios, permitindo a atividade comercial ou industrial, a residência, usos agrícolas e etc. Também dita a forma que podem tomar os edifícios. Isto é, restringe ou não o tamanho dos edifícios e determina se podem ser juntos ao estilo urbano ou somente separados ao estilo suburbano. Usos mistos são raros e frequentemente relegados a diferentes tipos de atividade comercial: torres parcialmente ocupadas por hotéis e escritórios, por exemplo.

Concebido como forma de regular os usos do território de um município, o zoneamento tem sido aplicado para bloquear crescimento de qualquer elemento indesejado nas cidades americanas. As origens do zoneamento remontam à época de integração e o movimento para direitos civis. Esta é a mesma época do processo de fuga dos brancos dos centros das cidades.

O zoneamento começa como uma forma discreta, entre muitas, de restringir o acesso de pessoas negras e outras inúmeras minorias às comunidades preferidas pelos brancos de classe média até alta.

Isto se efetua principalmente por meio de restringir a construção de casas em grande número. Esquece qualquer tipo de construção densa, como apartamentos ou condomínios, onde pessoas menos afortunadas podiam viver.

Uma vez designada uma área atrativa para se viver, ordenanças e ação civil completam o processo de negar a concessão de casas às minorias indesejadas. Chegou a tal ponto na Califórnia que algumas cidades sequer permitiram licenças para a construção de mais do que uma dúzia de casas novas durante a última década, enquanto a crise imobiliária se agravou nas suas respectivas áreas metropolitanas.

Uma nova política emergente quer corrigir esta falha

Nos últimos anos, tem surgido um movimento político que se centra na questão de ter casa para todos. Na legislatura californiana, várias iniciativas ganharam tração nos últimos três anos para facilitar o livramento de mais vivendas. Agora, um projeto-lei pretende forçar os municípios do estado a permitirem tipologias densas em torno de transporte público. Há candidaturas de vereadores em São Francisco focadas em transformar a cidade numa que constrói mais casas para acalmar os preços astronómicos na cidade. Assim se vai espalhando não só pela Califórnia, mas o país inteiro.

Toda a gente já começou a dar-se conta de que a renda está demasiada cara. Agora falta pôr em prática soluções para uma situação uma década atrasada.

Pedro Henrique Gomes

15h17 – Trem para Paris

Pedro Henrique Gomes
30 de março de 2018

Uma sensação de estranhamento percorre o filme, contorna grande parte de suas cenas. 15h17 – Trem para Paris tem lá sua radicalidade, que não é, para evitar desentendimentos, uma radicalidade narrativa. Clint Eastwood entende a psique americana com precisão e coloca, tanto neste filme como em Sniper Americano, o militarismo, o valor das armas como símbolos de autonomia, liberdade e segurança contra ameaças externas, a constituição da fé e o cristianismo obstinado que se conecta a isso tudo de maneira natural e autoevidente.

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Ele está seguro de que, se há uma maneira de filmar histórias de vidas comuns que presenciam e atuam em grandes acontecimentos, é imperativo que se abrace seus personagens sem tantas certezas morais. Se ele as mantêm, o filme as coloca em conflito.

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O exemplo é, novamente (assim como em Sniper Americano), o papel do narrador na condução das possibilidades de leitura que o filme faz abrir. Os filmes de Clint, como a sociedade americana, só parecem simples. O espectador é convocado a partilhar o mundo e toda a sujeira que o sustenta a partir da convocação de estereótipos e clichês. É uma posição paradoxal e instigante esta que sua obra evidencia: Clint não faz um cinema político puro padrão, conciliador de boas intenções e de seguranças intelectuais. A vitória dos bons e a punição dos maus, lógica do faroeste de herança fordiana, comporta também alguma contradição (inclusive emocional), pois o justiçamento nem sempre determina moralmente seus filmes (ao contrário de John Ford), deixando que a consciência espectatorial elabora seus sentidos.

O republicanismo de Clint se costuma somar ao argumento na esperança de resolver a moral formal que circunda seu cinema: ele é um reacionário, até um fascista, disseram por ocasião de alguns de seus filmes, mais recentemente (de novo) sobre Sniper Americano. Se por um lado isso não parece ser algo relevante para o entendimento do filme ou para a discussão crítica, todavia chama atenção para algo que é, no ponto de vista que articulo aqui, a ambiguidade sedutora da obra recente Eastwood. É notável inclusive como o cineasta percebe que a construção do imaginário do herói, materializado na figura de Spencer Stone, é um processo que passa também por aqueles que criam imagens: a televisão e o cinema, claramente. Clint tem culpa no cartório e explicita isso, pois entre os cartazes de filmes que Stone guarda em seu quarto quando jovem há um de Cartas de Iwo Jima.

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Assim como Sniper Americano, Trem para Paris não é um filme preocupado em contextualizar “o outro lado da história”. Ao contrário, o terrorismo aparece apenas como ameaça e como ponte para a jornada de salvação da qual os três jovens americanos serão protagonistas.

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Ao filme interessa os procedimentos internos, a consagração moral de seus três personagens centrais. Por outro lado, desde a infância o aparato bélico-religioso se manifesta exigente na educação dos meninos, moldando suas personalidades, motivando-os a buscar em certos mitos de origem (o exército e Deus, nas armas e na fé cristã) o combustível para negarem certas regras comuns, seja na escola, seja em casa, seja na rua. O filme sublinha essa ambiguidade – até com certa redundância, com certo exagero visual e textual.

Ambiguidade que está carregada na própria fotografia. Pois é curioso como os elementos documentais se misturam ao jogo da ficção proposto por Clint, não apenas pelo uso de imagens de arquivo do então presidente francês François Hollande congratulando os três, mas pela própria materialidade de suas imagens encenadas. O fato dos três interpretarem eles mesmos, não sendo atores profissionais, contribui para a sensação de estranhamento geral que o filme transmite, pois é também a ideia de representação que o filme quer colocar em crise. 

Com o tempo, no contexto da filmografia de Clint Eastwood, Trem para Paris ficará condicionado ao reconhecimento de filme menor. Não sem razão, pois apesar de continuar a tradição da autocrítica recente que o cineasta vem fazendo sobre a representação do heroi clássico americano o filme já não tem a mesma força.

The 15:17 to Paris, de Clint Eastwood, EUA, 2017. Com Spencer Stone, Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Jenna Fischer.

Samir Oliveira

LGBTs no centro das decisões políticas – por que não?

Samir Oliveira
29 de março de 2018

Em maior ou menor escala, o mundo inteiro assiste a uma crise brutal da democracia representativa. No Brasil não é diferente. O sistema, a política, tem muito pouco de democráticos. Pergunte aos LGBTs. Ou alguém realmente acha que chamar o povo para apertar um botão a cada dois anos é democracia?

As instituições estão distanciadas do povo, que não é chamado a decidir sobre a aplicação de políticas públicas. Mais do que isso: seus dirigentes estão encastelados em privilégios e temem a participação cidadã.

Há algumas maneiras mais ou menos eficientes de furar os bloqueios impostos por nossa racionada democracia. Uma delas é a criação de conselhos – órgãos vinculados à administração pública e compostos por integrantes da sociedade civil, sem caráter remunerativo. Assim temos conselhos municipais, estaduais e federais dedicados a diversas áreas. Os exemplos mais estruturados são saúde, educação e cultura.

Estas entidades atuam de forma a assessorar o poder público, mas também têm a missão de fiscalizar as ações, denunciar irregularidades, cobrar medidas efetivas e acompanhar execuções orçamentárias. O trabalho dos conselhos promove um controle social indispensável sobre os governos. Limita um pouco a sensação de “cheque em branco” que muitos imaginam receber do povo após uma eleição.

Com o avanço das lutas por direitos civis no país, novos conselhos foram se fazendo necessários nas diversas esferas de poder – como de mulheres, idosos e negros e negras. Mas ainda há um avanço que precisa ser concretizado: a criação de conselhos de políticas para a população LGBT. São raros os municípios que possuem algum tipo de estrutura pública voltada para esta comunidade. Porto Alegre, que poderia utilizar o prestígio político de ser a Capital para tornar-se uma referência ao restante do Estado, não possui um conselho LGBT.

Essa lacuna não existe por acaso. O preconceito dos governantes acaba afastando qualquer possibilidade de criação destes conselhos, ainda que os argumentos utilizados para isso sejam outros.

Mesmo quando, após muita pressão, a comunidade LGBT conquista a aprovação de um conselho municipal, acaba tendo que se mobilizar para impedir que o órgão torne-se uma correia de transmissão do governo e tenha seu caráter fiscalizatório e independente esvaziado.

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Resistindo às manobras

É o que ocorre neste momento em Pelotas, em que a prefeitura e entidades que apoiam o governo do PSDB na cidade tentam controlar a criação do Conselho Municipal LGBT. Um grupo de ativistas tem reagido a estas manobras e elaborou uma proposta de regimento interno para o órgão. Garantindo um funcionamento democrático, a eleição de seus integrantes e a paridade entre representações da administração pública e da sociedade civil. Um abaixo assinado para a implementação deste estatuto pode ser conferido aqui.

O caminho para a conquista de uma democracia real no Brasil é longo e árduo. A casta política não vai abrir mão de seus privilégios facilmente. Quem sempre decidiu tudo sozinho não está acostumado a compartilhar poder e a ouvir a população. Os mecanismos de participação popular através de conselhos não são perfeitos, nem são a única solução. É preciso combater seus vícios, como a eternização de velhas lideranças distanciadas de suas bases e a burocratização de suas estruturas, que sofrem tentativas permanentes de cooptação por parte dos governos.

O movimento que ocorre em Pelotas dialoga com esta necessidade de refundar fórmulas viciadas de participação limitada do povo nas decisões políticas. Esta mobilização não poderia vir de outro setor que não a população LGBT, historicamente colocada à margem do poder. Que Pelotas dê o exemplo que Porto Alegre se furtou de ser e coloque a comunidade LGBT no centro das decisões sobre as políticas públicas que lhe dizem respeito!

A foto (Harvey MIlk Foundation) de capa mostra Harvey Milk, o primeiro homem abertamente gay a ser eleito a um cargo público na Califórnia, em 1978, como supervisor da cidade de São Francisco. Um símbolo da luta LGBT por representatividade em cargos oficiais.

Yo No Soy de Aquí

Como comprei maconha nas farmácias uruguaias

Alvaro Andrade
28 de março de 2018

Aonde o senhor vai apresentar o atestado de domicílio?

A pergunta é feita por uma simpática policial que preenche o formulário no 11º Distrito, em uma tranquila rua do bairro Malvin, em Montevideo. Eu poderia ter inventado uma desculpa, como abrir conta em banco ou fazer ficha na biblioteca, mas resolvi testar o sistema.

És para el registro de adquiriente de cannabis en la farmacia, respondo caprichando no portuñol.

Cada envelope vem com 5g e custa 200 pesos, aproximadamente 24 reais.

A policial segue impávida, carimba o formulário e me deseja boa tarde, sem perder a simpatia no trato. Percebo que o único a estranhar aquela situação sou justamente eu, que em breve seria o mais novo cadastrado entre os 22.550 consumidores que tem direito a comprar na farmácia 10g de cannabis por semana em duas variedades de diferentes potências cultivadas em instalações do Exército. Parece roteiro de ficção, mas é Uruguai no más.

Para obter o registro não basta ir à polícia comprovar domicílio. Aos estrangeiros também é exigida residência permanente no país, uma papelada que dei início em Porto Alegre e foi resolvida após nove meses no Uruguai sem muita burocracia. De posse da cédula uruguaia, seda, isqueiro e comprovante de domicílio, fui bem feliz até a agência dos Correios mais próxima. Uma simpática casa, com amplo pátio às margens de uma das principais avenidas da cidade. Na entrada, algumas encomendas esperam entrega; dentro, um ambiente desorganizado e cheio de avisos de papel presos com alfinete no quadro verde com moldura de madeira. Na porta, novamente a polícia.

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Me aproximo e digo que desejo fazer o cadastro para comprar marirruana

O atendente não entende meu portunhol. Repito em tom de voz mais alto: para la cannabis el la farmacia. Ele toma minha identidade uruguaia, analisa com a calma típica do paisito e me insere no sistema, o que não inclui nenhuma informação pessoal a não ser um cadastro demográfico com idade, nível de formação e cidade onde vivo. O que permite saber o perfil médio do usuário por aqui: a maioria é de homens, entre 30 e 40 anos, com ensino médio ou superior completo.

Do meio da bagunça surge um leitor de impressões digitais; nove dos dez dedos da minha mão são registrados e em menos de dois minutos recebo um comprovante. Saio ainda processando aquele momento: o sistema é visualmente prosaico, envolvendo formulários de papel e um guichê típico de qualquer filme do Darín; por outro lado é extremamente eficiente e eu tenho direito a participar disso.

Desavisado, corro até a primeira farmácia ávido por, enfim, agarrar meus pacotes. No ônibus para o bairro Pocitos, onde está uma das quatro farmácias que toparam a empreitada de vender maconha ao lado da aspirina, já vou planejando o esperado momento da degustação da erva produzida por empresas contratadas pelo governo. A ansiedade é interrompida pelo desembarque; caminho triunfante até a farmácia, ensaiando mentalmente o portunhol pra não precisar repetir o pedido.

Era dia de testar o sistema. E ele mostrou que ainda precisa ser aprimorado. Na porta da farmácia, escrito a mão no melhor estilo uruguaio, a frase do apocalipse:

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“NO HAY MARIJUANA”

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Abalado, abro a porta e pergunto por previsão de chegada. A atendente, com o pouco que lhe resta de paciência depois de responder essa pergunta sei lá quantas vezes no dia, me informa que só a partir do dia 06 de março.

Saio googleando alguma informação e deparo com um app que mapeia e informa em qual farmácia ainda há estoque. A mais próxima está a 200km. Rapidamente faço contas mentais e percebo que vou precisar segurar as pontas. O governo criou a demanda mas não deu conta do recado. As empresas designadas pra cultivar a ganja falharam no ciclo e houve um hiato na produção, desabastecendo uma legião de 22 mil usuários que romperam a desconfiança e colocaram seus dedos amarelados no sistema. A degustação vai ter que esperar.

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Três semanas depois…

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Carros passam buzinando, pessoas filmam da janela dos ônibus, outros mandam trabalhar. São 08h30 de uma segunda-feira, o verão está acabando e a maconha voltou às prateleiras das farmácias uruguaias. Na semana anterior, o governo anunciou que o estoque seria reposto, o que foi suficiente para eu e as torcidas do Peñarol e Nacional nos unirmos neste importante compromisso no raiar do primeiro dia verdadeiramente útil desde o Natal.

Na fila que dobra a esquina antes das 9 da manhã, pessoas de todas as idades, gêneros e orientações sexuais conversam animadamente, fumam algum porro que alguém colocou na roda e tomam mate tranquilamente. A polícia passa e apenas observa de dentro da viatura. Poderia ser na Califórnia, ou uma cena utópica desses musicais dos anos 70, mas é século XXI, América do Sul, no mesmo país que foi pioneiro no voto às mulheres, no casamento homoafetivo, na legalização da prostituição e do aborto.

Depois de 45 minutos, estou no balcão da farmácia onde uma força-tarefa atende aos clientes: como uma linha de produção fordista que identifica, entrega e cobra um a um dos usuários. Nem precisa dizer que a demanda pelo remédio de Marley é muito maior que por aspirina. Decido por experimentar as duas variedades. Compro Alpha e Beta, 9% de THC. A primeira predominante índica, com efeito relaxante e brisa mais suave; a outra sativa, com pegada mais ativa, criativa e inspiradora.

Passo meu indicador esquerdo pelo leitor digital sem apresentar nenhum documento; levo 10g de cogollos para casa, entregues em um envelope selado e carregado de informações e alertas, como qualquer outro produto da prateleira com suas advertências e tabela nutricional. A brincadeira sai por módicos 400 pesos, como 48 reais.

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A galera do grupo do Whats no Brasil chora, as directs no Instagram fritam. Habemus maconha uruguaia

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Ônibus direto pra casa, azar a padaria, a larica fica pra depois. Pego o kit, vou pra sacada, ponho um Pink Floyd no shuffle. Escolho as três maiores flores; são buds compactos, frescos e muito cheirosos; tem um aroma doce e é possível notar os tricomas, sinal de que foi colhido na época correta para atingir o melhor efeito.

Faço um brinde à gravura do Mujica na parede e prendo fogo. A primeira tragada enche o pulmão e a tossida é inevitável. A brisa já se faz presente, a vista diminui, as nuvens ganham densidade e os acordes de atingem em cheio os sentidos. Não é um petardo que anula a iniciativa do sujeito, mas um sopro de inspiração pra se deter aos detalhes da vida.

Sistema testado, sistema aprovado. Que boa erva cultivam os uruguaios.