Guia de Viagem

Globalização – Medo, Preconceito e Visão

Ana Martins
1 de março de 2017

Globalização ou não? É esta a escolha dos eleitorados europeus em 2017. Paira ainda no ar a poeira do terramoto político de 2016 no Ocidente. Ao longo deste ano, vamos ver onde a poeira irá assentar. Por cá, aguardam-se ansiosamente os resultados da onda de eleições que começa já em março nos Países Baixos, passando por França em maio e pela Alemanha em setembro – três países onde a extrema-direita tem hipóteses de chegar ao poder. Depois da reviravolta do Brexit e das eleições americanas, teme-se o pior na Europa. Mas pode ser que do caos instalado por aquela nuvem de poeira possa ainda emergir um projeto europeu com novo alento.

“Inflamam-se os sentimentos recalcados pela moral prevalente; promete-se um regresso às origens idealizadas, a um passado que nunca existiu; culpam-se as elites e os imigrantes por um presente terrível que também não existe”

Bem antes do aberrante fenómeno Trump atingir os EUA, a retórica populista e os movimentos nacionalistas que alimenta já vinham ganhando tração na Europa. Inflamam-se os sentimentos recalcados pela moral prevalente; promete-se um regresso às origens idealizadas, a um passado que nunca existiu; culpam-se as elites e os imigrantes por um presente terrível que também não existe. A única coisa que existe, aliás, é o medo de que o populismo se faz valer. Esse, sim, é bem real. E é esta a realidade ignorada, ridicularizada e esquecida pela qual os partidos de centro estão agora a pagar.

“Não admitir a pertinência de cenários alternativos não é argumento, é arrogância”

Bem vistas as coisas, também o centro europeu se serviu da retórica do medo ao fazer a apologia do status quo como direção única e óbvia para os membros da UE. Não admitir a pertinência de cenários alternativos não é argumento, é arrogância. É uma oportunidade perdida para realçar as vantagens da direção que é posta em causa pelos partidos de protesto – neste caso os valores da diversidade e do mercado livre bem como uma visão favorável à globalização – que se tornaram “dogma morto”, usando a expressão de John Stuart Mill.

Pluralismo e liberdade de expressão

As ideias do pluralismo e da liberdade de expressão defendem-se, em parte, precisamente para garantir que o que se aceita como verdade o seja por convicção, não por preconceito. Afinal de contas, quem não consegue defender em debate os valores que lhe são incutidos pela sociedade, não sabe porque os defende de todo. Limitar-se a chamar todas as visões contrárias de ultrapassadas, perigosas e “deploráveis” é já uma desistência do que se pensa defender, e é ignorar o grão de verdade que outras posições podem conter.

O medo é real. O terrorismo existe. A diversidade implica perda de homogeneidade. Uma sociedade aberta convida constante transformação e adaptação. Há razões válidas para as pessoas preferirem o que lhes é familiar ao que lhes é desconhecido. Há também boas razões para vivermos em países com economias abertas, que trazem prosperidade, desenvolvimento e variedade e lidam conscientemente com os desafios que estas implicam.

Talvez Trump tenha sido a melhor coisa que aconteceu à perspetiva da globalização. Talvez a sua administração histérica e caótica enfraqueça o apelo do que os seus homólogos defendem na Europa. Talvez os defensores europeus do nacionalismo, encorajados pela sua vitória, caiam na arrogância que fez os seus rivais perderem território. E talvez estes rivais, agora sensíveis aos medos dos europeus, ofereçam uma visão convincente de uma Europa aberta – entre si e ao mundo.

Catraqueanas

Amor e desilusão na Distribuição de conteúdo por assinatura

Gustavo Mittelmann
27 de fevereiro de 2017

No último texto, falei sobre o comodismo dos usuários mobile e como isso estava resultando em um formato vertical para os anúncios em vídeo nas redes sociais. Bom, preciso fazer a ressalva de que somos preguiçosos, mas exigentes. E essa segunda característica, algumas vezes, pesa mais. O exemplo mais claro dessa dominância, senti na minha própria pele através dos serviços de assinatura.

É possível fazer uma ressalva dentro da ressalva? Bom, o texto é meu, então… liberdade poética: na verdade nunca fui preguiçoso em se tratando de garimpar filmes, álbuns e literatura para baixar de forma obscura (por pura falta de oferta oficial). Mas, assim como cada um de vocês, também fui seduzido pela facilidade nascida com os distribuidores de conteúdo por assinatura. Abracei o comodismo nas diversas embalagens em que me foi oferecido.
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“Considero uma troca justa: o aplicativo poupa meu esforço de busca na grande rede, e, por por facilitar minha vida, recebe mensalmente uns reais do meu bolso”

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Com essa fórmula, o Netflix se transformou no queridinho da galera. Existe ônus? Existe, claro. Não encontro lá tudo que gostaria de ver; há uma curadoria do conteúdo disponível, seja por entraves com um ou outro estúdio, seja por qualquer outro motivo. Não vem ao caso. O que importa, de fato, é que as restrições são compensadas com opções de qualidade e investimento sério até mesmo em produções próprias. Eu fecho o mês achando que fiz um ótimo negócio.
Essa mesma sensação de compensação ganha decibéis de realidade cada vez que a estrada é longa e o churrasco pede trilha sonora. É como ter desenvolvido um superpoder musical, de escutar praticamente tudo que eu quiser na hora que quiser. O Spotify só tem um desafeto aqui em casa, e não é o Apple Music, que não faz nada além de gerar meia dúzia de playlists temáticas. A mágoa fica por conta do iPad e seus 160gb de músicas engavetadas para o esquecimento.
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A Amazon me traiu

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Mas já me senti enganado, traído e desconsolado por quem eu menos imaginava. Amazon, sua falsa! Anos passei invejando os americanos com seus kindles e ar pseudo-intelectual nos parques e metrôs. Sim, essa coluna toda é para tratar, de forma quase terapêutica, da minha desilusão e das feridas abertas pelo Kindle Unlimited. Me atirei de cabeça logo que o serviço passou a ser oferecido no Brasil. Esperando, ávido, por novos títulos para matar a minha demanda reprimida.
Com o passar dos meses, no entanto, essa espera foi se transformando em abatimento até que não me restou outra chance senão abandonar precocemente um relacionamento que nascera repleto de sonhos de um futuro juntos. Não me restara dúvidas de que eu tinha caído por uma bonitinha mas ordinária assinatura. Uma bonita embalagem, de boa família, mas recheada de folhetins sabrinescos, autoajudas de quinta categoria e meia dúzia de clássicos escolares. Cerca de 50 mil títulos em português para fazer volume apenas. Tudo que era bom, que era lançamento ou que era interessante de fato, eu tinha que comprar fora do plano Unlimited.
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“Abandonei a comodidade da relação por me sentir feito de idiota”

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Tive uma recaída na rede. Passei a buscar tudo que não encontrava no meu relacionamento Kindle: bons livros de grandes autores e editoras respeitáveis, e revistas dos mais variados temas e procedências. Abandonei a comodidade da relação por me sentir feito de idiota. Amazon, o problema não sou eu, é você.
Escuta o que vou te dizer pra não acabar os dias sozinha: mais importante que o tamanho do acervo é o entretenimento que proporciona. Investe um tempinho, paga uns bons drinks e usa esse mesmo papinho que tu usou comigo pra convencer as editoras que é mais vantajoso pra todos ganhar no volume de vendas, encorpar o sistema de assinatura mensal com conteúdo gratuito e se tornar uma referência de fato e por merecimento, do que ganhar um pouco mais por vendas avulsas e esparsas em um país sem o hábito de leitura. Quem sabe, daí, rola um revival entre nós.
ECOO

Imperatriz Leopoldinense – Carnaval da sustentabilidade na Sapucaí

Geórgia Santos
27 de fevereiro de 2017

Volta e meia uma escola de samba do Rio de Janeiro escolhe um elemento da natureza para homenagear na avenida. Isso quando o assunto não é a preservação do meio ambiente em si. Assim, de cabeça, lembro da Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1991, com seu “Chuê, Chuá… As Águas Vão Rolar”; da Beija-Flor, em 2004, exaltou a Amazônia no enredo “Manôa – Manaus – Amazônia – Terra Santa Que Alimenta O Corpo, Equilibra A Alma E Transmite A Paz”; da Portela, em 2008, “Reconstruindo a Natureza, Recriando a Vida: o Sonho Vira Realidade”. Felizmente, essa lista é realmente grande e de tempos em tempos o Carnaval do Rio nos põe a pensar sobre nossos hábitos.

Xingu, o clamor que vem da floresta

Neste ano não foi diferente. A Imperatriz Leopoldinense foi para a Marquês de Sapucaí com o enredo “Xingu, o clamor que vem da floresta”. Mas o que parecia somente mais um desfile cuja temática era um povo da Amazônia com uma vibe “salvem o verde” transformou-se em um polêmica no momento em que tocou no bolso de um setor poderoso da nossa economia. A chamada Rainha de Ramos escancara o estrago que o crescimento desenfreado do agronegócio causa à natureza. Abordando o problema das derrubadas e queimadas na Amazônia para criação de gado até o problema com o uso excessivo de agrotóxicos. As entidades ligadas ao setor, obviamente, não gostaram nada disso.

Em nota, a escola respondeu de maneira clara e objetiva e esclareceua o fato de que não tem interesse em demonizar o agronegócio, mas de trazer à tona uma discussão importante e necessária.

“Vamos falar da rica contribuição dos povos indígenas do Xingu à cultura brasileira e ao mesmo tempo construir uma mensagem de preservação e respeito à natureza e à biodiversidade.

Segundo relato da própria população que vive ali, a região do Xingu ainda é alvo de disputas e constantes conflitos. A produção muitas vezes sem controle, as derrubadas, as queimadas e outros feitos desenfreados em nome do progresso e do desenvolvimento afetam de forma drástica o meio ambiente e comprometem o futuro de gerações vindouras. Os resultados, como sabemos, são devastadores e na maioria das vezes irreversíveis.

Acreditamos que, para além do entretenimento, o carnaval e a escola de samba – levando em consideração que os olhos do mundo se voltam para nossa festa – têm um compromisso com o social e o desenvolvimento sustentável.

Passada a polêmica, a escola desfilou linda e emocionante. Além de explorar a fauna e a flora da região, a Imperatriz abordou uma série de questões polêmicas como a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Representantes das etnias do Xingu, incluindo o Cacique Raoni, participaram do desfile.

Aqui é possível ver um trecho do desfile.

 

 

 

Guia de Viagem

Veneza – O carnaval e o velho tarado

Geórgia Santos
25 de fevereiro de 2017

Sempre gostei de carnaval, especialmente do nosso carnaval. Desde criança. E quando resolvi que visitaria Veneza em 2007, era o carnaval que eu esperava ver.

Eu tinha 19 anos e era a primeira vez que viajaria sozinha. Tudo foi planejado minuciosamente: começaria em Amsterdam, iria para Paris de trem (uma aventura que será seu próprio post) e de lá seguiria para a Itália, também pelos trilhos, onde visitaria Milão, Verona e Veneza. Sonhava com aquelas gôndolas e aqueles caras maravilhosos remando só pra mim, com uma boina estilosa que ficaria ridícula em qualquer homem não italiano. Parecia um belo plano. Até eu chegar ao país da bota.

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“A bonita, aqui, quis fazer um mochilão pela Europa com um mochilão nas costas. Quando tentei acomodar a bagagem, o barco balançou e eu me estatelei no chão com a mochila ainda presa”

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Cheguei a Veneza de trem, depois de loooongas 13 horas de viagem. Imediatamente, embarquei em um vaporetto, que nada mais é uma espécie de ônibus-barco. Ou barco-ônibus. É um barco. E por mais charmoso que possa parecer, foi um problema logo no início. A bonita, aqui, quis fazer um mochilão pela Europa com um mochilão nas costas. Quando tentei acomodar a bagagem, o barco balançou e eu me estatelei no chão com a mochila ainda presa. Eu parecia uma tartaruga recém pescada, me debatendo no chão de uma embarcação. Foi lindo.

Veneza é cercada e entremeada por água. Deveria ter pensado nisso antes.

Chegando em terra firme, consegui me localizar de maneira rápida. É uma cidade pequena, cheia de charme e onde a melhor maneira de se locomover é a pé. Ou de barco, mas acho que essa parte vocês já entenderam.

Larguei as coisas no hotel e decidi almoçar. Nada de invenção: um sanduíche de prosciutto com tomates e manjericão, e uma bela taça de vinho tinto para iniciar os trabalhos. Depois de alimentada, percorri as ruelas entrecortadas por um vento gélido como se pertencesse àquele lugar. Talvez um dia tenha pertencido. E caminhei até chegar a Piazza San Marco, um lugar absolutamente esplêndido e atrolhado de turistas e pombos. Muitos pombos. O espaço abriga três edifícios principais, a Basílica de São Marcos, o Palácio Ducal de Veneza e o Campanário da Basílica.

Conhecendo Veneza

Comecei pelo principal e, logo que entrei, encontrei um simpático senhor. Não lembro o nome, mas digamos que fosse Paolo. Apresentou-se como professor de historia da arte e, do alto de seus 70 e tantos anos contou-me, em belas palavras, a origem daquelas edificações e das pinturas que adornavam cada uma daquelas paredes. E assim foi em todas as salas, em todos os prédios. Em cada um dos pontos turísticos. Um professor impecável ao longo de três horas. Até que me falou sobre uma igrejinha pouco visitada, que ficava mesmo ao lado de onde estávamos.

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“Juro que me vi amordaçada em um calabouço, pronta para ser esquartejada, implorando em português por minha vida na Itália”

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Paolo muito educado, muito atencioso, novamente contou a história do lugar e sua razão de ser. Um edifício sombrio, com pouca luz e arte gótica. Causou-me estranheza, confesso. Não estava confortável. Paolo viu graça e riu, até que as luzes se apagaram de vez. Juro que me vi amordaçada em um calabouço, pronta para ser esquartejada, implorando em português por minha vida na Itália. Por 30 segundos, achei que ia morrer. Passado esse meio minuto, eu tive certeza. O velho pegou na minha mão e, como se fosse a coisa mais normal do mundo, tentou me beijar. Eu recuei. Ele sorriu. Eu recuei. Fingi que alguém me ligava e corri.

Corri. Corri. Corri. Aí corri mais um pouco. Depois corri mais. Quase nadei.

Foi a primeira vez que fui assediada desse jeito, por um idoso. Confesso que no início, naturalmente, pensei que tivesse dado bandeira. Sabe como é. Mas passados tantos anos é bastante claro que não passava de um predador. Um velho tarado tentando seduzir uma guria de 19 anos. Que bom que não passou disso.

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“Confetes, cores e trajes lindos em uma festa diferente, leve, lúdica e regada a prosecco”

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Mas eu não ia deixar que um senhor descompensado estragasse minha viagem. Afinal, o carnaval estava chegando e aquela cidade era linda demais pra ficar com medo. Comprei uma máscara de porcelana linda, que até hoje adorna minha parede. Coloquei outra sobre meus olhos e, apesar da ironia, vi a mágica acontecer à base de muito brilho. Confetes, cores e trajes lindos em uma festa diferente, leve, lúdica e regada a prosecco. Era frio, mas todos estavam suficientemente quentes com a felicidade. E longe de velhos tarados. Bom carnaval =)

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Lugares para ver

Veneza é uma cidade pequena, para ser aproveitada à pé. Recomendo que seja visitada no inverno, pois o calor italiano, além de intenso, pode atrapalhar o passeio. Isso porque o cheiro do canal, que é bastante poluído, pode incomodar os turistas.

Piazza San Marco

 Como deu pra perceber, é o local mais visitado e procurado de Veneza, impossível não passer por lá. É a única praça de Veneza – as outras são os chamados campi. Por séculos, a Praça de São Marcos foi o centro religioso, administrative e cultural da cidade. Tem 170 metros de comprimento e abriga a Basílica , o campanário , as colunas e  a Biblioteca Marciana, o Palazzo Ducale, o Procuratie e a Torre do Relógio.

Basílica de São Marcos

A arquitetura é uma obra-prima que mistura influencias ocidentais e orientais – inclui mosaicos bizantinos esotéricos herdados de Constantinopla além do ícone de Nossa Senhora de Nicopeia. É uma igreja que mescla elementos góticos, românticos e bizantinos. Tem cinco cúpulas e a central mede 43 metros de altura.

A entrada é gratuita, mas existe a possibilidade de reservar um bilhete. É uma boa ideia para evitar filas e, acredita, haverá filas.

Coleção Peggy Guggenheim

É uma das mais importantes coleções de arte moderna do mundo, considerada a mais famosa. Exibe obras de Magritte, Picasso, Kandinsky, Pollock, Ernst, Braque, Dalí, Mondrian, Chagall, Miró entre outros.

Torre do Relógio

Em estilo renascentista, é um ponto de encontro entre venezianos. Antigamente, era a porta de entrada para a antiga Mercerie, que era a rua de compras em Veneza.

Ponte do Rialto

É a ponte mais importante de Veneza e atravessa o Grande Canal. Além da belíssima arquitetura, o entorno é cheio de lojinhas e barraquinhas para comprar souvenirs.

Ponte dos suspiros

É um dos pontos mais importantes e visitados de Veneza Foi construída em pedra de Ístria, no estilo barroco, no início do século XVII. Ela foi construída especificamente para ser uma prisão. Diz a lenda que, antigamente, os prisioneiros atravessavam a ponte e suspiravam.

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Onde ficar

Não vou recomendar hotéis em Veneza porque, honestamente, não lembro onde fiquei. Mas lembro o suficiente para recomendar uma estudada no mapa da cidade. Veneza é uma ilha, mas é possível ficar hospedado no continente, na Comune di Venezia, ou seja, na Região Metropolitana. É mais barato e basta pegar um vaporetto para chegar aos pontos turísticos. Mas se a ideia é ficar na ilha – e eu acho que vale a pena, os preços são mais salgados conforme se aproximam dos pontos turísticos.

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Como se movimentar

A melhor maneira é caminhando, mesmo. É uma cidade pequena e super charmosa. Ou forma é usando os vaporettos. Ainda há as gôndolas, mas é mais uma atração turística que um meio de transporte. E é um passeio caaaaaaro.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Até o Último Homem

Pedro Henrique Gomes
24 de fevereiro de 2017

Desmond Doss (Andrew Garfield), jovem do interior dos Estados Unidos, das profundezas da tradição. Sua fé o move indistintamente; na guerra (a Segunda Grande Guerra), decerto cegamente. Um purgatório terreno, real, cruel e violento, tudo isso o jovem assume para si, toma como missão. Cristão de ordem adventista (lembremos, apenas de passagem, que os Adventistas do Sétimo Dia, como é o caso do protagonista do filme de Mel Gibson, são esperançosos pelo advento de Cristo, que então retornaria), portanto protestante de seiva conservadora, Doss vai à guerra para salvar, não para matar. Ele não quer ser ímpio. Não pega em armas, se recusa desde o treinamento e acaba servindo como médico após uma guerra interna com o Exército do seu próprio país (seus superiores tentaram de tudo para impedir que fosse ao campo de batalha). Vai ao front para prover assistência médica, como diz o título do filme, Até o Último Homem.

Boa parte do filme se passa nesses momentos que antecedem o combate e o espetáculo edificante e bárbaro do indivíduo redentor, material que abunda sua metade final. Em geral são ruins e existem, grosso modo, para fornecer os motivos que reforçaram a fé de Doss (como se precisasse). Quando jovem, ele feriu gravemente o irmão após uma briga que, incentivada pelo pai, parecia fazer parte da educação dos meninos. Agressivo e alcoolista, o pai de Doss feria a todos, a ele, ao irmão e principalmente a mãe. História de redenção, trama de sacrifício: Mel Gibson não acha necessário, no entanto, se desculpar por seus motivos políticos, morais, religiosos e estéticos. Os clichês, internamente assimilados, se articulam simplesmente para que sua composição tome o efeito desejado: que nossos corpos se percebam paralisados ao final da sessão – se de amor ou ódio, pouco importa. Que muitos espectadores questionem os motivos ridículos de sua fé, isso ele conscientemente ignora, o que serve bem ao seu filme ao mesmo tempo em que o afasta de uma percepção mais complexa de sua abordagem. Mas ele não quer ir tão longe para não errar.

Até o Último Homem expõe a contradição, cinematográfica por excelência, da pureza da fé de seu protagonista com a sujeira do sangue que transborda do campo de batalha – e que Mel Gibson filma com despudor. Fé, como todas, que comporta uma contradição diante da qual o crente precisa se rebater para mantê-la. No caso de Doss, como fazer parte da guerra não fazendo?

Diferentemente de um Clint, vide Sniper Americano, o filme de Gibson é refratário de uma análise mais dura sobre o herói que filma, parece aceitar com muito mais facilidade e languidez a síntese que propõe. Isso se deve, talvez, ao fato de Gibson estar muito mais aferrado ao seu sistema de crenças do que Clint, o segundo mais cético e radical quanto à representação do “herói”, que também enfrenta dilemas morais de ordem patriótica e religiosa (só que, em Sniper, se mata para salvar). Questão imanente de fé.

Neste contexto, na Batalha de Okinawa, aos olhos de todos os personagens americanos do filme (com uma exceção importante e fundamental, a saber, o próprio Doss), é claro que os japoneses são monstros inferiores, nutridos apenas pela ânsia de matar. O americano bom, este não: Doss salva inclusive alguns soldados inimigos no front. Sua fé é acima de tudo universal. Todos os outros combatentes veem os japoneses como insetos, mas Doss não os menciona desse modo, sequer os menciona. Este é, portanto, o artifício que desencadeia a divergência. Doss é incapaz de odiar o inimigo, todos os outros querem vê-los dilacerados. Como pode um homem não querer matar enquanto seus colegas se sacrificam pela pátria? Gibson responde mostrando que seu personagem central está inspirado por Deus e, assim sendo, ele irá triunfar. Como? O que ele consegue, de fato, é salvar o fracasso de todos os demais.

Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, EUA, 2016. Com Andrew Garfield, Vince Vaughn, Teresa Palmer, Sam Worthington, Hugo Weaving, Luke Bracey.

Samir Oliveira

Uma farsa criada para perseguir ativistas

Samir Oliveira
23 de fevereiro de 2017
Foto: Caroline Ferraz/Editorial J

Não é exagero afirmar que o ano de 2013 foi um ano decisivo na minha vida. Naquela época trabalhava como repórter e foi nesta condição que acompanhei todas as manifestações que tomaram conta de Porto Alegre, no lastro de uma revolta popular que revirou o Brasil e amedrontou a casta política.

As jornadas de junho fizeram parte do meu amadurecimento político. Foi com a juventude nas ruas em 2013 que fortaleci minha consciência de militante LGBT, percebendo que algo novo estava sendo gestado naquele momento. Conheci muita gente, me aproximei de coletivos e movimentos. Fui tomado por aquela atmosfera incontrolável e potente.

“Nem o realismo mágico de Gabriel Garcia Márquez conseguiria ser tão criativo na invenção de uma crônica fantástica como essa montada pela polícia gaúcha, com a cumplicidade do Ministério Público e a anuência do Judiciário”

Mas este texto é mais do que um exercício de nostalgia. É uma necessidade. No dia 21 de fevereiro iniciaram-se as audiências de um processo que se arrasta desde 2013 contra seis ativistas que participaram das jornadas de junho: Matheus Gomes, Rodrigo Brizolla, Lucas Maróstica, Gilian Cidade, Alfeu Neto e Vicente Mertz. Trata-se de uma farsa jurídica. Nem o realismo mágico de Gabriel Garcia Márquez conseguiria ser tão criativo na invenção de uma crônica fantástica como essa montada pela polícia gaúcha, com a cumplicidade do Ministério Público e a anuência do Judiciário.

Estes jovens não estão sendo acusados por acaso. Todos faziam parte da organização do Bloco de Lutas pelo Transporte Público, esforço de diversos coletivos e entidades que se unem em torno de uma pauta comum para mobilizar a sociedade porto-alegrense por um transporte 100% público e de qualidade. Foram selecionados pelo Estado para servir de exemplo a todos os manifestantes, numa tentativa de rebaixar os movimentos sociais a algo semelhante a uma quadrilha perante a opinião pública.

As acusações

Os seis militantes são acusados de liderar depredações e saques. A acusação é baseada no depoimento de uma pessoa desconhecida, que disse ter roubado dois secadores de cabelo a mando do Bloco de Lutas. Uma piada de mau gosto. Como se o levante juvenil e popular de 2013 tivesse ido às ruas do Brasil inteiro para roubar secadores. Mas a trama fica mais interessante quando verificamos as outras testemunhas que embasam a ação: um policial militar e o jornalista Voltaire Santos que, na época, trabalhava na Rádio Gaúcha.

O repórter em questão se infiltrou de forma clandestina em uma assembleia do movimento, afirmando à polícia ter presenciado a organização de ações violentas por parte dos manifestantes. É a expressão de um tipo de jornalismo que sempre atuou em uma relação umbilical com a polícia. O mesmo jornalista foi um dos responsáveis pelo fechamento de uma clínica de aborto em Porto Alegre, gerando constrangimento a mulheres que se veem obrigadas a recorrer a estes locais e ainda por cima acabam sendo expostas como criminosas em uma articulação perversa entre mídia e polícia.

A minha participação

Como repórter, acompanhei de perto todas as manifestações de 2013. Estive em assembleias do movimento durante a ocupação da Câmara Municipal e nunca presenciei qualquer organização de atividade violenta. Eu tinha contato direto com muitos dos ativistas acusados nesta ação. Nunca vi nenhum deles com uma pedra na mão ou incitando – muito menos coordenando – qualquer atitude violenta. As depredações que ocorreram foram um sintoma daquele momento político, um fenômeno espontâneo e incontrolável das ruas em ebulição, não uma atitude orientada por qualquer movimento. Dificilmente multidões se rebelam com um sorriso no rosto e flores nas mãos.

Sei que esta coluna é um espaço para falar de temas relacionados à população LGBT. Talvez pareça que este texto não tem relação nenhuma com isso, mas tem. Em 2013, centenas de milhares de jovens tomaram as ruas mandando um recado ao nosso sistema político apodrecido: “Não nos representam”. Essa foi a síntese de um acontecimento que, mesmo com imprecisões, representou uma fissura no regime. É por isso que a juventude que saiu às ruas está até hoje sendo perseguida. É por isso que o Estado quer transformar ativistas em réus.

A comunidade LGBT nunca foi representada por este sistema denunciado em 2013. A institucionalidade brasileira não dá a seus cidadãos LGBTs direitos básicos, como casamento – regulado pela esfera judicial, mas inexistente no âmbito legal -, direito à livre identidade de gênero e um conjunto de políticas públicas voltadas à educação para a diversidade e ao combate ao preconceito. A ausência destes direitos alimenta uma cultura do ódio e torna cada um de nós, LGBTs, alvos permanentes. Por isso optei por usar este espaço hoje para denunciar esta farsa, este processo kafkiano. Os LGBTs conhecem de perto o arbítrio e estão sujeitos a todo tipo de autoritarismo, portanto nenhum de nós deve compactuar com este tipo de situação.

Foto: Carolina Ferraz/Editorial J

Nós US

No, Trump wasn’t Brexit

Sacha
22 de fevereiro de 2017

(pode ler este artigo em português aqui)

There is a whole sea of comparisons between Brexit and Trump. They’re considered sister phenomenons, a wave spreading throughout the West. Except, despite appearances, they’re not quite as similar as they seem.

Similarities

It’s true that Western populism, in the current state of things, has taken on a conservative tendency. It’s also true that xenophobia is running high just as much in the United States as in Europe. It’s a fact that the demographics of Europe and the US are shifting toward ever less white, Christian pastures. It appears to be the case, for now, that the Conservative Party of the UK and the Republican Party of the US don’t have as well-defined of plans for what should come after their electoral victories as they made it seem. The media helped to construct and participate in a spectacle, abusing false premises and falsified facts to induce a more lucrative, dramatic result. Up to here, everything appears basically the same.

Where the paths split

The splitting point between Brexit and Trump resides, in part, in the fundamental difference in their respective political scenarios. The convocation of a referendum to determine the continuation within the European Union by a British government with a wide majority in Parliament does not, in fact, correspond with the regular occurrence of elections for the leader of another country. Cameron called the referendum looking for political consolidation at home and legitimation in Brussels, where he saw his bargaining position reduced because of strategic political errors in dealing with Europe.

Clinton’s big error was underestimating the importance of the electoral map

Cameron’s big error was to underestimate the apathy and friction to the EU that older Englishmen have. These are the same people who tend to vote in greater numbers and who lived through the complete trajectory of the difficult fit of the UK in the EU. Compare that to the loss of nearly 3 million votes that Trump had against Hillary Clinton, which has left doubts about the legitimacy of his presidential mandate, if not about the electoral system that allowed for him to win despite that discrepancy. Clinton’s big error was underestimating the importance of the electoral map.

The friction between the UK and the EU has always been well known, and led the EU to concede many special statuses for the country with regard to its contribution to the EU budget, belonging to the single currency, and more. Trump represents the culmination of years of extreme rhetoric normalized by factions of the Republican Party and the conservative media in the US, especially in their game of obstinance against everything that had anything to do with president Obama.

The main motive for voting to leave the EU was a nostalgia for times of greater individual relevance on the global stage for the ex-Empire, settled by a wide margin. The main motive for voting for Trump was a belief in his aggrandized rhetoric of xenophobia, racism, misogyny, and nationalism as an easy solution to local problems that have little to do with it—an elixir that worked by the slightest of margins in just the right places.

The similarities between the two cases are many, but it’s best that we avoid treating them as if they were exactly the same phenomenon.

Image: Michal Zacharzewski
Nós US

Não, Trump não foi Brexit

Sacha
22 de fevereiro de 2017

(you can read this article in English here)

Há todo um mundo de comparações entre o Brexit e Trump. São considerados fenômenos-irmãos, uma onda que se está a espalhar pelo Ocidente. Só que, apesar das aparências, não são tão parecidos assim.

Semelhanças

É verdade, sim, que o populismo ocidental segue uma tendência conservadora. É também verdade que a xenofobia está em alta, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Nessa mesma linha, é um fato que a demografia do ocidente está a mudar para lados cada vez menos brancos e cristãos. Também parece verdade, de momento, que o Partido Conservador do Reino Unido e o Partido Republicano dos Estados Unidos não têm planos tão bem definidos quanto faziam parecer para os próximos passos depois dos êxitos eleitorais. Em ambos os casos, a grande imprensa ajudou a construir e participou de um espetáculo mediático, abusando de falsas premissas e fatos fabricados para levar a cabo um resultado mais dramático e lucrativo. Até aqui, só semelhanças entre os dois casos.

Onde os caminhos se separam

O ponto de divergência entre o Brexit e Trump reside, em parte, na diferença fundamental dos respectivos cenários políticos. A convocatória de um plebiscito para determinar a permanência na União Europeia por parte de um governo britânico com uma maioria ampla no Parlamento não corresponde, de fato, com a ocorrência regular de eleições para o líder de outro país. David Cameron convocou o plebiscito na busca de consolidação política em casa e legitimação em Bruxelas, onde a sua posição de barganha se viu bastante reduzida por erros políticos na escala europeia.

O grande erro de Clinton foi de subestimar a importância do mapa eleitoral

O grande erro de Cameron foi subestimar a apatia e fricção com a União Europeia que têm os ingleses mais velhos. Esses mesmos que mais tendem a votar e que viveram todo o trajeto do encaixe difícil do Reino Unido na União Europeia. Comparamos isso com o fato de Donald Trump perder em torno de 3 milhões de votos contra Hillary Clinton no voto popular, deixando dúvidas sobre a legitimidade do seu mandato—senão em boa parte do sistema eleitoral que o permitiu ganhar apesar da discrepância. O grande erro de Clinton foi de subestimar a importância do mapa eleitoral.

A fricção entre o Reino Unido e a União Europeia sempre foi bem conhecida e levou a UE a ceder vários estatutos privilegiados para a nação com respeito à contribuição orçamental, à pertinência na zona da moeda única e mais. Já Trump representa a culminação de anos de retórico extremo normalizado por fações do Partido Republicano e a imprensa conservadora dos Estados Unidos, principalmente no seu jogo de obstinação contra tudo que tinha a ver com o presidente Barack Obama.

O motivo principal de votar pela saída do Reino Unido da União Europeia era uma nostalgia por tempos de maior relevância na escala mundial, acertado por uma margem ampla. O motivo principal de votar em Trump era uma crença na sua vangloriosa retórica xenófoba, racista, misógina e nacionalista como solução fácil para problemas locais que nada têm a ver—um elixir acertado por margens estreitíssimas nos lugares certos.

As coincidências entre eles são muitas, mas melhor evitarmos tratá-las como se fossem exatamente o mesmo fenômeno.

Imagem: Michal Zacharzewski
Reporteando

A fonte deve ser preservada

Renata Colombo
21 de fevereiro de 2017

Ao longo da carreira, jornalistas passam por maus bocados e situações que preferem não lembrar. Somos agredidos, ameaçados, chantageados. Nós, mulheres, frequentemente assediadas. Há algo em nosso trabalho que faz com que as pessoas pensem que somos propriedade delas, ou algo do tipo. Coisas de poder. Sem contar na pressão para divulgarmos nossas fontes. Parecem esquecer que a fonte deve ser preservada. E não sou eu que estou dizendo, é a Constituição Federal.

Mas em meio a tanta coisa desagradável, temos nossos momentos de diversão. E, sim, rimos muito também.

Eu era uma repórter iniciante, uma “foca”, como chamamos no linguajar jornalístico. Era meados de 2009 e eu produzia uma reportagem dessas de prestação de serviços na área da saúde. Não lembro se era sobre gripe, vacinação ou falta de leitos em hospitais – algo bastante comum em Porto Alegre, infelizmente. Mas lembro que era para ser uma matéria trivial, cotidiana da cidade. Como já trabalhava em rádio há um tempo, tinha muitas fontes em hospitais e de profissionais da área e não era difícil o acesso às pessoas, na maioria das vezes. Então liguei para um médico “bam-bam-bam” pedindo uma entrevista para aquela tarde mesmo. Tinha que fechar a reportagem até o fim do dia.

“Dei início a entrevista e tudo corria tudo muito bem até que o telefone captou um ruído estranho vindo de dentro do consultório silencioso do médico”

Estávamos preparados, o operador na mesa de áudio e eu, que já estava no estúdio. Tudo estava certo. Até a hora de a gravação começar.  Dei início a entrevista e tudo corria tudo muito bem até que o telefone captou um ruído estranho vindo de dentro do consultório silencioso do médico. O operador e eu fechamos todos os microfones e tivemos ataques de risos. Daqueles fiasquentos, mesmo, de encher o olho de lágrimas e coisa e tal. Foi difícil finalizar. A conclusão a que chegamos é de que também era para ser silencioso o pum que o doutor deixou escapar.

Sim, ele soltou um peido, mesmo. No meio da gravação. E tão alto que conseguimos ouvir.

Guardo a gravação até hoje, mas é claro que, como sempre no jornalismo, não revelo a fonte nem sob tortura. É muito importante preservar as fontes.

ECOO

Cabelo comportado é o que não polui – Aprenda a desintoxicar as madeixas

Geórgia Santos
19 de fevereiro de 2017

No post anterior, eu falei sobre empresas de produtos de higiene e beleza que realizam testes em animais. Mas a opção consciente de cosméticos vai além do problema horroroso com os bichinhos. Descobri que cabelo comportado é o que não polui. As nossas escolhas exercem uma série de impactos sobre o meio ambiente, especialmente no que tange à produção de lixo e no despejo de químicos que poluem rios e lençóis freáticos. Isso sem falar no efeito (devastador) à nossa saúde. Há muitos aditivos relacionados a uma lista interminável de doenças, inclusive câncer.

“Custo pra quem e benefício pra quem? Ao escolher à revelia, é benefício pessoal e custo pro planetinha”

Escolher produtos de acordo com a consciência ambiental e que não fazem mal à saúde é uma transição SUPER difícil de fazer, eu reconheço. Normalmente se escolhe um produto de acordo com o efeito e preço, a boa e velha relação custo/benefício. E é aí que a porca torce o rabo. Custo pra quem e benefício pra quem? Ao escolher à revelia, é benefício pessoal e custo pro planetinha.

Eu decidi começar pelos meus esvoaçantes cabelos crespos. Uau, difícil, hein. Comecei pelo xampu (erradamente!) e fui parar direto no site da LUSH, que produz cosméticos com ingredientes naturais e auto conservantes. Comprei dois: o REHAB e o CURLY WURLY, o primeiro é uma espécie de antirresíduos e o outro é específico para o meu tipo de cabelo. Adorei. Eles limpam super bem e deixam o cabelo lindo. Já o condicionador sólido (comprei o Jungle) é horrível. Difícil de usar, espesso e não desembaraça ou hidrata.

Só que eles não são naturais. Tóin!

A LUSH afirma que 71% dos seus produtos são produzidos de maneira natural  e sem conservantes sintéticos. E eles realmente tem muitas alternativas legais. Mas os que eu escolhi não fazem parte desse grupo.

VEJA QUAIS SUBSTÂNCIAS EVITAR NA HORA DE LAVAR OS CABELOS

1. SULFATOS

 A limpeza bonitinha a que estamos acostumados é fruto de um coquetel de surfactants, substâncias que limpam produzem aquela espuma toda. Os mais comuns, são:

  • Sodium Lauryl Sulfate (Lauril Sulfato de Sódio)
  • Sodium Laureth Sulfate (Lauriléter Sulfato de Sódio)
  • Ammonium Lauryl Sulfate (Lauril Sulfato de Amônio)
  • Ammonium Laureth Sulfate (Lauriléter Sulfato de Amônio)

Pesquisas do EWG, que estuda o efeito de substâncias químicas tóxicas, indicam que esses aditivos são responsáveis pela intensa descamação no couro cabeludo e coceira. Eles suspeitam, ainda, que o Lauril Sulfato de Sódio seja um poluente ambiental. Mais do que isso, o JOURNAL OF THE AMERICAN COLLEGE OF TOXICOLOGY alerta para o fato de que essa substância pode desnaturar as proteínas da pele e ser absorvido. Já o Lauriléter Sulfato de Sódio e o Lauril Sulfato de Amônio podem ser contaminados por substâncias tóxicas e cancerígenas como o dioxano e óxido de etileno.

2. AS FRAGRÂNCIAS SINTÉTICAS

 A mais famosa é o tal do PARFUM, esse sim está por tudo. O problema é que essa palavrinha pequena pode esconder mais de 3 MIL SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS. Foi minha perdição por tantos anos, sem falar nos tantos produtos orgânicos que utilizam em suas fórmulas como um sintético seguro. O problema é que podem causar danos ao sistema respiratório e ocasionar alergias em pessoas sensíveis. Há ESTUDOS que ainda indicam que as fragrâncias são tóxicas para o sistema imunológico.

3. SILICONES E DERIVADOS DE PETRÓLEO

Essas substâncias costumam ser responsáveis pela hidratação e pelo brilho nos nossos cabelos:

  • Silicones (dimethicone, simethicone, cyclomethicone, dimethiconol)
  • Parafina (paraffin)
  • Óleo mineral (mineral oil/paraffinum liquidum)
  • Petrolato (petrolatum)

São produtos comuns de se encontrar em rótulos e eles não tratam o cabelo de verdade, só dão a ilusão de um aspecto mais bonito. E eles não são solúveis em água, ou seja, poluem o meio ambiente.

Mas não voltei à estaca zero, os produtos da LUSH são bons para transição. Afinal, não são 100% naturais mas são melhores do que os que a gente costuma utilizar em função das quantidades reduzidas de sintéticos. Resolvi ler mais sobre o assunto e descobri algumas coisas úteis que quero compartilhar com vocês.

No site do UM ANO SEM LIXO, que é um guia incrível pra quem quer mudar os hábitos, tem uma lista maravilhosa de MARCAS DE XAMPUS E SABONETES NATURAIS. Todos para comprar online =)

Mas não é um processo fácil. Usando os cosméticos convencionais, uma troca abrupta para os orgânicos pode ser um grande choque. E o resultado pode não ser bom. Há quem não se adapte ao cheiro, às texturas ou até não limpar como gostaríamos. Para a transição ser mais suave, é importante desintoxicar o cabelo.

COMO DESINTOXICAR O CABELO

  • Comece de trás pra frente. Ou seja, comece substituindo a máscara hidratante, passe para o leave-in, depois o condicionador e depois substitua o xampu;
  • Os produtos da LUSH que eu usei são ótimos para transição, além de feitos à mão, eles são produzidos com ingredientes e naturais e tem quantidades baixas de conservantes sintéticos, bastante inferiores aos produtos convencionais. E eu comprei líquido, mas o ideal é utilizar o sólido, porque além de evitar a embalagem a gente já se acostuma com a lógica de lavar o cabelo com algo que parece um sabonetinho. Só que é caro =/

Nos próximos posts eu vou passar por cada um dos passos, começando pela máscara hidratante, então fica de olho por aqui. É difícil, mas é possível. Um dia a gente chega lá. =)