Pedro Henrique Gomes

Crítica – O Processo

Pedro Henrique Gomes
19 de maio de 2018

O plano de abertura de O Processo, documentário de Maria Augusta Ramos, sobrevoa a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para mostrar que há uma disputa política dada, encravada na polarização dos vermelhos, à esquerda, e dos verde-amarelos, à direita. A disputa pelos espaços midiáticos, narrativos, conceituais, encobre o tal processo do título, tempera os conflitos políticos, incendeia a já muito confusa discussão rodeada de “certezas históricas” e prerrogativas morais que corroem a esfera pública nacional. A batalha campal que é filmada de cima, dividindo dois focos de luta, amor e ódio, ao menos no plano simbólico, remete ao aspecto falsamente dual de nosso contexto político. Apesar de não romper com o dualismo, O Processo retira, na medida da possível, a política da esfera do espetacular, do televisivo, e a coloca em um espaço de observação e de crítica.

Consumado em agosto de 2016, após longo circo político-midiático, o impechment de Dilma Rousseff interrompeu seu segundo mandato presidencial, encerrando prematuramente o ano 14 de sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores.

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O Processo é feito de imagens de arquivo e captadas pela diretora em sessões do congresso, comissões, votações e debates da bancada governista no senado planejando os próximos movimentos da defesa de Dilma.

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O entendimento geral, no entanto, era de que o processo já possuía suas jogadas marcadas, seu xeque-mate programado. Resistir por todos os meios e fins era, pois, um ato político derradeiro.

Há uma coleção de imagens muito interessantes e bem articuladas, especialmente as captadas por Maria Augusta Ramos durante o “rito” jurídico, que respeita o tempo do drama e da fala, percebe a encenação que se apresenta para a câmera nas filmagens internas, de gabinete, nos corredores, as ligações telefônicas e entrevistas para imprensa. Ela respeita isso e seu filme ganha força e densidade dramática. Mas ao filmar o absurdo da política partidária institucional, o absurdo olha para você em reação. Momentos involuntariamente cômicos se embaralham com momentos de crise.

O filme quer tornar claro que houve um golpe parlamentar contra o PT e Dilma ao mesmo tempo em que, como documentário sobre o processo do impechment, quer também compreender os acontecimentos que basearam o golpe. No filme, está claro: não houve crime de responsabilidade fiscal, diz a defesa e a bancada governista representadas, entre outros, como personagens num thriller político, por José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Lindbergh Farias. A acusação teve em Janaína Paschoal, advogada e professora de Direito Penal, sua mais proeminente figura atendida pela câmera paciente e dedicada da cineasta. Mas se há uma coisa que o filme não faz é duvidar de si mesmo, explorar mais vivamente as tensões fora da máquina polarizadora para, aí então, buscar compreender algo. A narrativa é muito justa, retilínea e segura de sua ordem para que se possa compreender muito além da narrativa do golpe, como decerto era intenção do filme. Antes, já tinha as respostas: aqui está o golpe e foi assim. Os vermelhos, lá fora, choram a derrota e anunciam a volta por cima; os verde-amarelos, pujantes e satisfeitos, gozam não se sabe muito bem o que. O filme militante, muito justo, escorrega em suas virtudes.

Não se pode cobrar, claro, imparcialidade do documentário – embora, caso se queira, é plenamente possível ser imparcial. A história narrada por suas imagens tem um fio condutor, causalidade e uma sucessão de eventos em meio ao trâmite político cujo desenlace é o golpe, o impechment. É possível dizer que se tentou dar espaço para o outro lado, mas a construção da câmera é voltada para destruir a retórica da acusação, para isolar seus personagens ou para dimensioná-los, vez ou outra, pela caricatura. Isso é legítimo, embora fragilize a ideia de um filme feito “para que as pessoas possam refletir”. É verdade que, mesmo sem função, há imagens muito raras para não participarem do filme, como quando Janaína Paschoal bebe um achocolatado de canudinho no intervalo de alguma sessão ou o presidente da comissão que interrompe um debate para pedir a troca de uma campainha que não estava à altura do local. Esses momentos de precisão estética (fruto de atenção documental, atenção com o espaço ao redor) casam bem com o fato de alguns personagens aparecerem pouco, como Aécio Neves, Lula, Gilberto Carvalho e a própria Dilma.

Gilberto Carvalho é quem, aliás, marca um momento de reflexão tardia, já com a assunção da queda. Essa cena, crucial para o discurso do filme, é retrato também dos limites dessa reflexão que a militância petista difundiu pensando estar fazendo autocrítica.

O golpe parlamentar encerra um acordo político nacional com o pemedebismo, que foi rompido – e o lado do PT perdeu. Os golpeados não foram os políticos.

O Processo, de Maria Augusta Ramos, Brasil, 2018. Com José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin, Lindbergh Farias, Janaína Paschoal, Dilma Rousseff, Aécio Neves, Antonio Anastasia, Eduardo Cunha.

Samir Oliveira

Raja Gemini: “Drag começou como uma revolução”

Samir Oliveira
26 de abril de 2018

Raja Gemini é o nome artístico de Sutan Amrull. É a personagem criada por esta fabulosa drag queen que venceu a terceira edição do reality show RuPaul’s Drag Race, uma das maiores atrações de entretenimento LGBT atualmente.

A terceira temporada da série foi ao ar em 2011 e muita gente que hoje acompanha o programa pode nem tê-la visto. Em novembro de 2014, Raja esteve em Porto Alegre pela primeira vez, participando da segunda edição da festa XTRAVAGANZA DRAG PARTY. Se não me falha a memória, foi a primeira visita de uma vencedora de RuPaul’s Drag Race à cidade. Naquela ocasião, tive a oportunidade de conversar com Raja durante mais de uma hora.

A entrevista viria a ser publicada no site Nada Errado, de Minas Gerais. O site acabou saindo fora do ar e a entrevista infelizmente se perdeu, junto com as maravilhosas fotos feitas pelos queridos Felipe Matzembacher e Marcio Reolon. Hoje em dia o Nada Errado sobrevive no Medium, mas o registro do vibrante papo que tive com a Raja não está lá.

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Por isso faço este resgate e deixo aqui a íntegra da entrevista.
Raja e a cultura drag ainda têm muito a nos ensinar!

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Quando você começou a se montar?
Raja: Eu comecei a me montar aos três anos de idade. Eu vestia as roupas e jóias da minha mãe. Foi nessa idade que eu comecei a experimentar. Mas eu comecei a levar isso mais a sério na adolescência, a sair nos clubes em drag a partir dos 16 anos. Eu cresci num lar religioso, então isso fazia parte da minha rebelião, sair com meus amigos, ir para as festas. Essa era a minha primeira intenção. Foi quando eu fiz 18 anos que decidi que drag era algo que eu realmente queria fazer. A maior parte do início da minha vida adulta foi bastante queer, focada em gênero, em drag, em me transformar em uma linda mulher. Mas agora não é mais apenas sobre isso. Não é uma rebelião, é mais sobre a forma como eu me relaciono e me identifico comigo mesmo.

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Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família.

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Como foi a sua relação com os pais?
Raja: Era muito difícil para eles entenderem. Eu nunca realmente saí do armário para eles. Eu comecei a me montar muito cedo, então eles sempre souberam. Meu pai foi muçulmano durante 50 anos, depois ele se converteu ao cristianismo – o que é proibido – e se tornou um pastor. Então sempre teve esse aspecto religioso presente na minha família. Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família. Eu sempre tive muitos medos até ir para a faculdade, que foi quando comecei a me sentir mais à vontade, já vivendo fora da casa dos meus pais. Mas com o tempo foi ficando mais fácil para mim me expressar junto à minha família.

Quando tu começou a trabalhar como maquiador profissional?
Raja: Eu comecei a fazer drag e a trabalhar como maqueador no mesmo período. Eu queria ser maqueador porque eu também queria saber me maquear bem. Eu tinha uns 20 anos quando eu comecei as duas carreiras de uma forma mais profissional.

Como surgiu a decisão de tentar participar de drag race?
Raja: Foi uma decisão difícil para mim, porque eu já tinha uma carreira estabelecida. Eu sabia que o seriado estava se tornando popular, mas eu não sabia se isso iria realmente ser algo arriscado para minha carreira como maquiador. Eu pensava que as pessoas poderiam zombar de mim por estar participando de um reality show, como se eu não estivesse me levando a sério. Eu pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que eu estava muito confiante também com meu trabalho como drag queen, então simplesmente me candidatei.

Foi a tua primeira tentativa?
Raja: Sim.

Que sorte!
Raja: Eu acho que as vezes as coisas apenas acontecem. Acho que quando fui escolhido para o seriado, isso demonstrou que a televisão estava pronta para algo diferente. Eu fiquei muito temeroso, porque eu era diferente. Eu achava que não fosse durar muito tempo, que eu não fosse ganhar. Eu achava que não iria durar nem meia temporada.

Quando tu entrou no seriado, tua carreira como maquiador era mais sólida do que a tua carreira como drag?
Raja: Eu era freenlancer, então às vezes eu tinha muito trabalho e às vezes não tinha nada. Se eu não conseguia me sustentar como maquiador, eu sempre tinha a opção de trabalhar como drag queen e vice-versa. Eu acho que tudo aconteceu quando tinha que acontecer, porque quando fui selecionado para drag race eu já estava pensando que eu tinha que me dedicar com muita seriedade a uma coisa ou outra. Eu já estava com 37 anos, eu tinha que levar isso a sério e crescer profissionalmente. Eu pensava que talvez pudesse me dedicar somente à maquiagem, mas foi aí que Drag Race aconteceu.

O que essa experiencia significou na tua vida?
Raja: Meus pais puderam ver o que eu fazia. Isso significou tudo para mim. Um ano depois de eu ganhar, meu pai faleceu. Antes disso ele pôde me ver como eu era. Eu lembro de sentir tanto medo de me expressar na frente dele. Eu sempre pensei: como vou explicar para ele que me visto com essas roupas engraçadas e faço shows nas boates? Ele nunca iria entender. E quando eu participei de Drag Race, meu pai pôde me ver fazendo algo que eu realmente gosto de fazer, que eu tenho orgulho de fazer. Para mim, fazer drag e participar daquela competição era minha própria versão de ser atlético, de ser forte.

Depois de tudo, ele acabou te apoiando?
Raja: Ele amou. Ele muito feliz e muito orgulhoso de mim. Isso foi o mais importante de tudo, juntamente com as amizades que eu fiz lá. Sou muito próximo da Manilla. Essa série mudou minha vida de muitas formas. Olhe onde eu estou agora: no Brasil! Antes de participar da série, fazer drag era apenas um fenômeno local para mim, eu trabalhava em Los Angeles, em Hollywood, agora tenho viajado muito.

No último episódio, Ru disse que você é uma pessoa bem introvertida. Você ainda se considera assim?
Raja: Eu acredito em Astrologia, eu acho que tem uma parte de mim que é, sim, bastante tímida. Nem sempre eu sei como me expressar em determinadas situações. Eu gosto de passar algum tempo sozinho, é assim que a minha mente funciona, eu acho que isso é algo poderoso. Então eu posso, sim, ser um introvertido, mas eu também posso ficar num palco, em frente a centenas de pessoas, e me jogar em direção a elas.

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No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha.

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E também no último episódio, quando Ru pediu para você listar suas qualidades e defeitos, você disse que pela primeira vez estava se enxergando como uma pessoa bela.
Raja: Eu acho que por um bom tempo eu usei drag como uma armadura para esconder qualquer insegurança que eu pudesse ter. No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha. Eu também finalmente percebi que, a essa altura, fazer drag já não era algo separado da minha vida. Já não havia mais um Sutan e uma Raja: eram os dois num só. Estar no programa me ajudou a perceber isso.

E fale um pouco sobre o estilo da Raja. Ela mudou muito com o tempo? Ainda brinca com as questões de gênero?
Raja: Até onde me lembro, nunca haviam considerado que eu adotava um estilo mais genderfuck até eu ter ingressado no programa. Na maior parte do tempo, eu sempre fui considerada linda e feminina, nunca haviam dito que eu fazia um estilo genderfuck. Eu acho que algo foi despertado em mim, nesse sentido, enquanto eu estava no programa. Mas, em geral, meu estilo não é tanto sobre gênero quanto é sobre criar uma ideia. Eu adoro ideias que são multiculturais, porque eu viajo muito e gosto de coletar influências de diferentes partes do mundo. Eu faço drag não porque quero me tornar uma mulher, mas porque quero expressar esse lado feminido. Eu faço drag porque eu amo as roupas, mais do que eu gosto da transformação. Só porque é um vestido, não significa que um homem não possa usá-lo. Se você fica ótimo em um vestido, você deveria usar esse vestido.

Você viveu na Indonésia dos 3 aos 10 anos. Como esse período influenciou na sua vida e na sua arte?
Raja: Influenciou tudo. Eu passei minha infância como um garotinho em Báli, totalmente envolvido naquela cultura, naquela espiritualidade, naquelas praias maravilhosas. Isso foi muito marcante para mim. Quando eu voltei para os Estados Unidos, já no início dos anos 1980, a primeira coisa que eu vi na televisão foi Boy George. Nós sequer tínhamos televisão na Indonésia. Quando voltei para os Estados Unidos, comecei a absorver todas essas referências, assitir aos clássicos de Hollywood, como uma esponja. Acho que crescer nesses lugares tão diferentes significou muito na minha vida, eu dou mais valor às coisas, porque cresci numa área muito pobre, então meu olhar sobre as coisas é bem diferente da maioria dos americanos.

Depois de ganhar, você disse que queria falar com as crianças, inspirar os meninos, dizer a eles que é tudo bem ser uma pessoa que não se enquadra.
Raja: Eu tenho feito tantas coisas desde então, eu vou dar palestras em universidades, em organizações LGBTs. Eu acho que meu diálogo com as novas gerações não é exatamente uma conversa direta, mas ocorre pela forma como eu vivo a minha vida. Eu nunca conversei com meus ídolos e meus heróis, eles nunca conversaram diretamente comigo. Mas eu assistia eles. Eu via Madonna, eu via RuPaul, eu via todos eles fazendo o que eles faziam e vivendo suas vidas de forma autêntica. E hoje nós temos as redes sociais, as pessoas vêm de todos os lugares entrar em contato pelo Instagram, pelo Twitter e pelo Facebook. Isso é maravilhoso.

Muitas pessoas mais jovens costumam te escrever e-mails, te contar sobre suas vidas?
Raja: Milhares de e-mails. Eu não consigo ler todos e acho que não tenho que ler todos. Muitas mensagens são parecidas. Eu estava no aeroporto aqui e dois garotos estavam me esperando. Duas adoráveis rainhas. É dessa forma que eu sei que estou fazendo a diferença, que, de alguma forma, sou um modelo para os mais jovens.

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Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis.

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Você também disse que, com a vitória, passou a ter muitos haters. Isso ainda continua ocorrendo?
Raja: Eu era muito novo em relação às redes sociais. Eu mal tinha uma conta no Twitter. Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis. Mas eu percebi que isso faz parte da nossa cultura. Eu tenho uma ótima amiga, a Dita Von Teese, nós nos conhecemos há quase 20 anos, e eu perguntei a ela como ela lida com isso? Ela disse: “Raja, se você ignorar eles, eles não existem”. Foi uma grande lição para mim. Se eu não os vejo, eles não podem me machucar. Então já fazem três anos desde a vitória e eu até que tenho gostado dos meus haters, porque quando eu leio o que eles escrevem ou ouço o que eles dizem, eu percebo que são besteiras, que eles têm muito medo daquilo que desconhecem e eu entendo isso. Eu acho que com o tempo eles vão acabar entendendo também.

Vocês são muito más umas com as outras no programa, isso é verdade ou é edição pelo show?
Raja: Eu acho que é uma competição e os produtores sabem como escolher diferentes pessoas para que haja esses tensionamentos. Eu não acho que a série faria tanto sucesso se todo mundo simplesmente se abraçasse, se amasse e dissesse como são lindos. Eu ficaria entediado vendo isso. Quando eu assisto um programa de televisão, eu quero ver tensão, drama. E Drag Race tem isso. Ainda que nós nos montemos, nós ainda somos basicamente garotos. Esse é o nosso esporte, é o nosso futebol. E muitos de nós nos tornamos verdadeiros amigos, trabalhamos em muitos lugares juntos. E são tantas drag queens, existe muita sororidade, somos uma comunidade e, inclusive, uma indústria.

Como uma vencedora, você tem sido convidada a participar de eventos para arrecadar fundos a causas sociais e do movimento LGBT?
Raja: Eu apoio muitas causas, mas eu acho que deveria participar mais, dedicar mais tempo a isso. É algo que eu quero fazer mais, até pela posição que eu ocupo. Não é algo que eu acho que faça o bastante, tanto quanto deveria.

Raja também está investindo na música, já lançou três singles. O que podemos esperar daqui por diante?
Raja: Eu nunca me considerei um músico ou um popstar. Eu estou aprendendo muito, eu sempre amei a música e agora consigo me expressar nesse sentido. Minhas influências são multiculturais, estou tendo muitas ideias. Eu tenho um apreço muito grande pela cultura oriental, pela mitologia, pela espiritualidade e pela iconografia, gosto de brincar com esses elementos. Eu não sei exatamente onde isso vai parar, mas vou continuar me expressando de várias formas e a música certamente será uma delas. Eu sei que não sou Adore DeLano, que tem um talento incrível, e não sou Courtney Act. Elas têm seus pontos fortes, ver tanta rainhas poderosas me fez perceber também onde está a minha força, que está no fato de eu conseguir me expressar visualmente.

Como foi seu tour pelo Brasil?
Raja: Maravilhoso. Eu nunca pensei que fosse voltar ao Brasil. Eu vim para cá há muitos anos, quando estava trabalhando em America’s Next Top Model, antes de Drag Race. Fiquei em São Paulo, mas estava trabalhando muito e acabei não fazendo muito turismo. E agora visitei três cidades diferentes: Recife, São Paulo e Porto Alegre – que é como São Paulo, só que mais tranquila e aconchegante. E o churrasco! Meu Deus! A primeira coisa que eu fiz quando cheguei foi comer um churrasco.

Que referências do Brasil você mais lembra?
Raja: Em palavras, eu sei dizer “ativo”, “passivo” e “versátil”, que eu prefiro chamar de Versache. Na minha primeira visita ao Brasil, eu me perguntava: como será que é esse país? Eu imaginava um país com muita natureza preservada e eu achava que todo mundo era sexy no Brasil, até mesmo avós e avôs, como se todo mundo natural e culturalmente tivesse muito sex appeal.

Ficou surpreso com a força da cultura Drag aqui?
Raja: Estou chocado. Os comentários e as mensagens de brasileiros vieram desde muito cedo para mim. Eu nem sabia como vocês nos assistiam, se Drag Race passava na televisão. Isso é maravilhoso. É incrível estar aqui, estou chocado, ver as pessoas tão entusiasmadas com meu trabalho me fez recarregar as energias.

Ouvi dizer que você gostou muito da Capirinha.
Raja: Eu já tinha tomado caipirinhas antes. Eu acho que é uma bebida bastante adequada para mim, é uma experiência muito forte, que mistura o sabor cítrico do limão com o doce do açúcar. Eu amo caipirinhas.

E o que você diria para quem está começando a se montar?
Raja: Encontrem-se. Sejam criativos. Não copiem ninguém. Tenham suas inspirações, seus modelos, mas não copiem. Porque drag começou como uma revolução, e é algo que deve ser sempre tratado desta forma um pouco revolucionária, política e espiritual. Outro conselho importante é: divirtam-se, sempre! Se eu não me divertisse, não estaria fazendo nada do que faço, de forma alguma.

Voos Literários

Livros pra tentar entender o Brasil atual – parte 2

Flávia Cunha
17 de abril de 2018

Diante da repercussão positiva do primeiro texto sobre obras cujo conteúdo podem auxiliar na compreensão do momento sociopolítico brasileiro, resolvemos dar espaço para nossos leitores darem mais sugestões. Teve livro indicado duas vezes, mas com explicações tão relevantes, que decidimos publicar as duas justificativas para a escolha da obra. Teve gente que sugeriu 2 livros, diante da complexidade do panorama brasileiro.

Agradecemos aos participantes das duas matérias, que demonstram ser possível debater e refletir sobre política de uma forma produtiva, construtiva e sem baixaria. E a coluna Voos Literários e o portal Vós estão abertos para novas dicas de leitura do nosso público.

As Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano

“Acredito que nenhum outro joga mais luz nessa obscuridade politica/social atual quanto As Veias Abertas da América Latina, do mestre Eduardo Galeano. Essa obra mostra com uma nitidez cristalina tudo que está acontecendo aí.  Veias Abertas não só explica, aquilo faz é desenhar esse momento. O cara que não entender após aquela leitura, é caso de internação.

Gilberto Alves – agente da polícia civil, formado em Filosofia

“Apesar de Galeano se referir muito mais aos colonizados por espanhóis, mostra a origem do que chamo de nosso Complexo da Senzala. Acredito que mostra que realmente corrupção, apesar de deplorável, nunca foi o problema. A questão é que nós acostumamos aos papeis do patrão, feitor e escravo. Quando essa ordem sai do prumo nos atrapalhamos ainda mais como Nação que nunca fomos.”

Tatiane de Sousa – jornalista, repórter da Radioweb

Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro –  Raymundo Faoro

“A justificativa encontra-se no título da obra, por descrever como se deu o processo de formação das elites politicas no Brasil desde a era colonial. Outro livro que me vem ao pensamento é O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Nesta obra encontrarmos a expressão concunhadismo, que explica muita coisa sobre nossa politica.

Paulo Eduardo Szwec – cineasta

Tristes Trópicos – Claude Lévi-Strauss

“O livro trata a respeito de um etnógrafo que visitou o Brasil nos anos 1930 e desenvolveu um texto que mistura ciência a um relato literário minucioso ímpar.  O seu relato torturante é sobre algumas realidades tropicais, que contrastam a grandeza (potencialidade) com a miséria. Também mostra que as belezas paradisíacas dos países foram exauridas em seus recursos naturais e relações (des-)humanas degradantes. E, hoje, vemos no Brasil tudo isso que ele constatou nos anos 1930 amplificado.  Ainda sobre esse livro, sugiro a leitura desse texto e desse outro aqui.” 

Tiago Siliprandi Giordani – Artista, designer gráfico e professor

Reinventando o Otimismo  – Carlos Fico

“Nesse momento em que vivemos no país, há uma onda que tenta fundamentar ideias ditatoriais, que supostamente traria certa ordem ao caos vigente. No livro, Carlos Fico mostra os mecanismos de linguagem que tentam dar fundamento a essas ideias absurdas através da propaganda da época da ditadura militar brasileira.”

Tiago Siliprandi Giordani – Artista, designer gráfico e professor

Negras Raízes – Alex Haley

“No objetivo de descobrir quem é, Haley levantou todo um mural que retrata a nação americana e toda sua construção racial, e desmonta a iniquidade da superioridade racial que os escravocratas e seus modernos seguidores se atribuíam.

No Brasil,  algumas tentativas nessa busca às origens têm sido feitas, mas todas esbarram numa barreira intransponível: falta de documentação. Por determinação de Ruy Barbosa, então Ministro da Fazenda, em circular de número 29, de 13 de maio de 1891, todo o arquivo relacionado com a escravidão foi queimado para erradicar de vez a ‘terrível macha’. Com isto, o grande segmento da população brasileira, que são os negros e mestiços, ficou flutuando num grande espaço por não saber de onde veio. Quais as tribos que entraram no Brasil? A pergunta, feita por Artur Ramos no seu livro O Negro Brasileiro (1934), continua sem resposta precisa. 

Haroldo Costa, na introdução da obra

Sugestão de Kais Ismail Musa – fotógrafo

Tem outras sugestões? Comentem nas redes sociais do Vós ou escreva para flavia@vos.homolog.arsnova.work e mande sua dica de leitura.

Voos Literários

9 livros para tentar entender o Brasil atual

Flávia Cunha
10 de abril de 2018

Diante da minha perplexidade com os acontecimentos sociopolíticos dos últimos dias, recorri ao meu perfil pessoal no Facebook com uma singela pergunta: “Que livro tem a ver com o momento político atual no Brasil?” Apesar de ver muitas críticas com relação à propagação de ódio nas redes sociais, no meu caso, não tenho do que reclamar. A enquete informal trouxe sugestões relevantes de obras de diferentes estilos e épocas, mas que me fizeram refletir sobre o fato de que estamos vivendo um panorama complexo e instigante.

Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda

“Raízes do Brasil é obra fundamental para entender aspectos que envolvem nossa formação cultural, a mistura deveras obscura entre o público e o privado, a ascensão do patrimonialismo e burocracia, mas principalmente, como não podemos dissociar absolutamente nada do que experimentamos agora da nossa herança cultural.”

Tércio Saccol, jornalista, professor universitário e colaborador do Portal Vós

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A Lei de Murphy – Arthur Bloch

“A Lei de Murphy, seja livro, filme ou quadrinhos – não interessa o veículo – a conclusão é uma só: se pode dar errado, certamente dará”

Lucia Porto, jornalista, criadora do Prateleira 1–  Livros, literatura & afins: das coisas boas da vida.

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Ensaio sobre a Lucidez – José Saramago

“O Nobel de Literatura fala de uma cidade não identificada em que 70% dos eleitores votam em branco em uma determinada eleição. Sem movimento para que isso acontecesse, o fato é um desabafo. Os políticos e as instituições já não serviam mais ao povo. Já não eram dignos de confiança. Isso faz com que os governantes reajam, inicialmente, com violência e tortura. Depois, a cidade é abandonada à própria sorte.

O enredo todo me parece muito similar com o que o Brasil está passando no sentido de que as pessoas já não acreditam nos políticos ou nas instituições e estão decididas a abandonarem o sistema. Estão abrindo uma oportunidade imensa para que pessoas com pensamentos totalitários tomem o poder e decidam por elas. O que Saramago tenta mostrar é que o autoritarismo pode agir sob os panos da democracia. E que é preciso muita lucidez para enxergar.”

Geórgia Santos, jornalista, cientista política e editora-chefe do Vós

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1964: a Conquista do EstadoRene Armand Dreifuss

“O autor foge da análise simplista de golpe militar e aprofunda o debate sobre as diferentes forças sociais que atuaram para o golpe e durante este. Foge, portanto, da dicotomia comunistas e nacionalistas – o que parece muito com hoje, mostrando o interesse em manter o status quo e ampliar os privilégios dos grupos historicamente beneficiados. Tudo a ver com nossos dias”

Deivison Campos, jornalista e professor universitário

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O dia em Que Getúlio Matou Allende, Flavio Tavares

“Através de suas memórias como ativista estudantil e repórter, Tavares analisa a politica da Era Vargas e dos anos 60, demonstrando que as instituições e o Estado de Direito no Brasil sempre estiveram subordinados à agenda de quem estava no poder.”

Eduardo da Camino, músico e proprietário do Mondo Cane Bar

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1984 – George Orwell

“Somos monitorados via mídias digitais e manipulação da mídia televisiva.”

Marcelo Martins, auxiliar administrativo

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Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre

“É preciso um exercício de recorrer à História para compreender momentos que vivemos e essa essa obra (junto com Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda) são bem bacanas para compreender a formação dessa tal sociedade brasileira como é hoje. Claro, sem determinismos, mas uma forma de ir mais fundo para compreender essas brigas entre ‘o andar debaixo’ e o ‘andar de cima’.”

João Vitor Santos,  jornalista do Instituto Humanitas Unisinos

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O inimigo eleito – os judeus, o poder e o anti-semitismo – Julio José Chiavenato

Sinopse:  Resultado de mais de duas décadas de exaustiva pesquisa sobre esse povo massacrado e perseguido através dos séculos. Contudo, o Autor não se atém a exposição dos fatos. Vai mais longe: analisa as causas do anti-semitismo, localiza os estereótipos nas dobras do pensamento de grandes intelectuais do passado e da atualidade e indica os preconceitos racistas latentes na sociedade contemporânea”.

Indicação do publicitário e colaborador do Vós, Gustavo Mittelmann

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Brasil – 500 anos de corrupção – Sérgio Habib

Trecho que se refere ao período histórico de 1889, com a proclamação da República no Brasil, quando a nomeação de pessoas para cargos públicos era utilizada como troca pelo apoio recebido pelos eleitos:

“O funcionalismo público passava, destarte, a ser um ambiente propício onde opera-se a corrupção, contribuindo, para isso, uma intensa e pachorrenta burocracia, ao que parece, dificultada exatamente para ensejar o ‘favor’, a ‘propina’, ou o ‘jeitinho’, do tipo ‘criar dificuldades, para vender facilidades’”

Indicação do empresário Jorge Bered

Imagem: “A Pátria” (1919), de Pedro Bruno, do acervo do Museu da República

Reportagens Especiais

QUEFAZER . uma história sobre a labuta dos imigrantes

Geórgia Santos
6 de abril de 2018

English version

Quem são esses homens nas calçadas? Faço essa pergunta com certa frequência. Algumas vezes em voz alta. Quem são os homens nas calçadas, vendendo tantas coisas? De onde vem? O que fazem? O que pensam? Alguns sorriem. Outros mal piscam. As pálpebras que abrigam aquele olhar distante parecem imóveis. Tantos com jeito de solidão. É como se estivessem sozinhos em pleno centro da inquieta Porto Alegre. Quem são, de verdade, esses homens nas calçadas?

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Ele vestia camiseta e bermudas brancas, duas peças simples que cresciam em contraste com a pele retinta e a luz do final de tarde. Não sei se posso dizer que eram bermudas, talvez fossem o que eu chamava de capri na adolescência, um tipo de calças curtas, abaixo do joelho. Usava chinelos, estava à vontade com a areia entrando em contato com os pés. Era estiloso. A roupa toda era parte de um costume que ele arrematava com uma fina jaqueta de uma conhecida marca esportiva. Tinha capuz. Adidas, talvez? Acho que lembro das listras confundindo-se com os dentes perfeitos que apareciam com o sorriso fácil e autêntico, típicos de alguém que não conhece a timidez. Ele dava todos os indícios de que queria conversar. De que precisava conversar.

Conheci-o na praia do Quintão. Enquanto minha mãe negociava uma rede com seu Messias, distraí-me com as dezenas de óculos que esse imigrante vendia na calçada da esquina da farmácia, pertinho do Asun. Tinha uma coleção incrível. Ele sorria. Aquele mesmo riso fácil e autêntico permanecia, inabalável. Enquanto eu experimentava alguns modelos e demonstrava uma extrema incapacidade de colocá-los de volta no lugar apropriado, dona Gertrudes apareceu sem que eu percebesse e, com a nova rede em punho, recriminou meus impulsos.

 

“Mais óculos, Geórgia? Isso é quase uma obsessão.”

“Mãe, não é tanto assim.”

 

Era tanto assim. Eu ria e tentava convencer a ela e a mim de que eu precisava realizar aquela compra. Afinal, o preço estava tão bom e as armações tão bonitas e eu tão afim. Ele também ria enquanto ela revirava os olhos e eu fingia que não era comigo. Despedi-me sem perguntar seu nome. Eu tinha pressa, o vento era intenso e eu oscilava entre quase quebrar os dentes ao mastigar grãos de areia, tentar manter os olhos abertos e domar meu cabelo, que parecia preso em um vórtice de redemoinho. Fui, mas determinada a voltar.

Voltei. No dia seguinte, parei na mesma esquina movimentada e ele sorriu novamente, novamente fácil, novamente autêntico. Ele havia lembrado de mim. Não só de mim.

 

“Cadê a mãe? Não veio hoje?”, perguntou rindo, provavelmente revivendo na memória a cena ridícula da qual fomos protagonistas no dia anterior.

“Hoje não. Fugi!”, respondi brincando.

 

Nem tão brincando assim. Aproveitei a companhia do marido pouco preocupado com o que eu faço com meu dinheiro e comprei os óculos sem os olhares maternos de desaprovação. Com mais calma e menos vento, perguntei seu nome.

 

“Mamadou.”

 

Mamadou é esse homem de 27 anos que está no Brasil há dois. Chegou à procura de emprego, assim como a maioria dos 1,06 milhão de estrangeiros que vivem no país, segundo dados do Ministério da Justiça. Mais de 50 mil estão no Rio Grande do Sul. A socióloga Aline Passuelo, à época da entrevista, trabalhava com Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),  que presta gratuitamente assessoria jurídica, psicológica e social. Ela explicou que os estrangeiros que chegam ao Rio Grande do Sul vem, principalmente, do Haiti, Senegal, Colômbia e Síria.

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“SOU DO SENEGAL. JÁ OUVIU FALAR NO SENEGAL?”

“Claro, Mamadou.”

“Mesmo? Muita gente não sabe onde fica o Senegal.”

Senegal. Foto: Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

O Senegal é daqueles lugares em que a natureza hipnotiza. As cores são quentes, as roupas compõem um mosaico em contraluz enquanto a terra e o pouco verde se encontram perto da água salgada. Há muito tempo é considerada uma democracia bem-sucedida da África Ocidental. Desde a independência da França em 4 de abril de 1960, já são décadas de tradição de governos estáveis e comando civil. Também é um país extremamente seguro. A capital Dakar é berço de artes com sua Village des Arts, lar e galeria de cerca de 50 artistas. Também vem de lá o primeiro filme do continente. Borom Sarret (1963), do diretor senegalês Ousmane Sembène, foi o primeiro filmado na África por um diretor africano e negro. É de tirar o fôlego.

Mas é daqueles lugares que tira o fôlego e não devolve. O país é um dos mais pobres do mundo. Na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB) de outras nações, dados Banco Mundial mostram o Senegal na 154º posição em uma lista de 185. O resultado é um também baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida comparativa de fatores como riqueza, alfabetização, educação, expectativa de vida e natalidade. Na classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), o Senegal ocupa a posição de 162 em um rol com 168 países.

Com 15 milhões de habitantes, a maioria da população é composta por jovens que não tem emprego ou oportunidades em uma terra que sobrevive da agricultura e precisa enfrentar as secas cada vez piores. A nuvem de poeira pode ser bonita ao expectador do célebre Rally Dakar, mas na realidade é a representação da sede, da falta de ar, de um destino árido. A solução é encontrar o futuro em outro lugar.

Senegal. Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

A professora Juliana Rossa auxilia os imigrantes senegaleses em Caxias do Sul de diversas formas e, após alguns anos de convívio e uma longa visita ao país, percebe que há um padrão no perfil do imigrante. “A família costuma escolher um representante para migrar, ele vai ter uma responsabilidade com a família que ficou. Esse representante é jovem, saudável, com muita vontade de trabalhar e, geralmente, instruído.”

É do Senegal que vêm os homens nas calçadas. Vêm para trabalhar. Como diz a professora Juliana, “se não fosse o trabalho, seria turismo”. E com certeza não é turismo.

A imigração do Senegal não é um movimento recente. Após a independência da França, em 1960, homens senegaleses migraram para os Estados Unidos e Europa à procura de algo em que acreditar. O pai de Mor Ndiaye foi para a Espanha na década de 80, mas ele resolveu vir para o Brasil, à procura do lugar que aparecia nas histórias contadas por um amigo quando eram crianças. “Eu tinha um amigo de infância que passava as férias aqui, o pai dele trabalhava no consulado em São Paulo. Quanto ele voltava, ele só falava nisso. Então eu cresci e escolhi o Brasil para viver.”

Mor chegou em 2008, quando ainda havia poucos compatriotas em Porto Alegre. Mas em 2014 o movimento migratório aumentou quando uma terrível estiagem acometeu o Senegal ao mesmo tempo em que o mercado brasileiro precisava de mão de obra em função da Copa do Mundo. Milhares de senegaleses decidiram procurar pelo futuro no Brasil.

Mor Ndiaye, Presidente da Associação dos Imigrantes Senegaleses. Imagem: Catraca Filmes

“A gente sabia que o Brasil era muito violento e difícil, mas também um país de alto crescimento. Quando eu cheguei, cheguei na época em que oportunidade estava sobrando.” Mor trabalha como Relações Públicas em uma grande empresa, encontrou a oportunidade que procurava. Mesmo privilegiado, porém, ele sabe como é difícil despencar em um estado como o Rio Grande do Sul. Por isso, criou a Associação dos Imigrantes Senegaleses para ajudar aos mais de 4,2 mil patrícios que vivem no Estado – 1200 somente na capital e em torno de 800 em Caxias do Sul.

“Tu gostas de morar aqui, Mamadou?

“É bom aqui, a gente consegue ganhar um dinheirinho para viver com dignidade e ajudar a família. Mas tem que trabalhar bastante. Bom, em qualquer lugar do mundo tem que trabalhar bastante, não é mesmo?”

“É mesmo. Mas ainda é bom?” 

“Quando cheguei, não demorei para conseguir trabalho. Trabalhei em muitas coisas, tinha emprego fixo. Mas agora já não é assim. Então tive que procurar o que fazer.”

Mamadou não é lacônico, apesar do tom, tampouco  pessimista. Nada disso. Disse com o sorriso. Aquele fácil e inabalável.

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QUE FAZER? 

O BRASIL ENTRE OS DESEMPREGADOS E OS EXPLORADOS

O otimismo não altera o fato de que a conjuntura mudou muito em menos de quatro anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no período de novembro a janeiro do ano passado, 12,7 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil. É praticamente a população do Senegal inteira. E isso, obviamente, afeta os estrangeiros. A advogada Márcia Abreu, do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS (Saju), esclarece que, em 2014, as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes eram o idioma (os senegaleses falam francês) e falta de moradia, além da questão da regularização de documentação. Hoje, é a falta de emprego. “Antes já era um problema. Em qualquer entrevista de emprego, inclusive no Sine, quando viam que era imigrante, nem olhavam o currículo, já davam subemprego. E agora mudou bastante, a gente tá vivendo um momento muito diferente, não tem comparação com anos atrás.”

Mamadou não me disse o sobrenome, mas contou que está feliz por poder trabalhar de forma tranquila, alimentar-se, dormir bem. Ele sabe que é, de certa forma, privilegiado. A maioria demora para conseguir uma vida estável e isso faz com que perdure uma condição de extrema vulnerabilidade. E os problemas que se acumulam com a falta de emprego são inúmeros e imensos e desumanos. “A maior preocupação do imigrante é trabalhar, para dar um começo e se regularizar. Ele não vai se preocupar tanto com o tipo de serviço que ele tem escolher, qual salário vai receber e onde trabalhar. Muitas vezes, imigrantes trabalham em serviços que os brasileiros não trabalham, mas isso não deixa de ser um serviço digno.”

Mor conversava comigo em uma sala que fica no quarto andar de um prédio no centro de Porto Alegre. Na Rua dos Andradas, antes e sempre Rua da Praia. Enquanto ele fala sobre a procura de serviço, da janela eu avisto os homens nas calçadas. Não vejo Mamadou. Mas vejo Mohammed, cujo nome ainda não sei mas com quem prometo conversar. Não consigo parar de pensar no quão vulneráveis eles estão. E eles estão. Nossa conversa é interrompida por um rapaz que preferiu não divulgar o nome.

“Esse rapaz aqui é um exemplo do que eu estava te falando.”

“Ele sofreu algum tipo de exploração?”

“Sim. Ele estava trabalhando num local e foi demitido meses depois sem justa causa. Não recebeu direitos, não recebeu salário, não sabe a quem recorrer e vai acabar entrando numa vida vulnerável. Mas não é só ele. Isso mostra que uma grade quantidade de imigrantes vive nessa situação.”

E bastou falar da primeira história para os relatos de opressão brotarem na memória dolorida de quem vê as consequências da escravidão entranhadas no racismo estrutural do Brasil.

 

“Tem outro caso de três imigrantes que estavam trabalhando e foram demitidos. Três meses sem receber salário, mais de três anos sem férias.

“Uma menina trabalhava de empregada em uma casa, se acidentou dentro do serviço porque ela trabalhava mais do que deveria. Trabalhava quase 24 horas por dia. Ela morava no serviço. Ela não tinha horário pra começar e terminar. Acordava antes de todos, ia dormir depois de todo mundo. Então ela caiu, fora do horário que deveria ser o serviço, mas estava trabalhando. Quebrou o braço. Só que a empregadora disse pra ela não falar que estava trabalhando. No final das contas, ela foi mandada embora, não recebeu salário, não tinha onde morar e ainda ficou sem poder trabalhar.”

O procurador Luiz Alessandro Machado, do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS), conta que, há dois anos, foi instaurado um procedimento promocional (3124/2016) para tratar dos imigrantes que vivem no Estado. Principalmente em relação ao trabalho escravo, tráfico de pessoas e discriminação. “Os imigrantes muitas vezes não sabem aonde denunciar, não tem em quem confiar, tem dificuldade em se comunicar, isso faz com quem fiquem muito mais vulneráveis à exploração.”

Há inúmeros registros de caso de exploração e/ou racismo no interior do Estado envolvendo senegaleses e haitianos. E há casos envolvendo pessoas de outras nacionalidades. Na região de Passo Fundo, nos municípios de Arvorezinha e Doutor Ricardo, o MPT desvelou um esquema de aliciamento de trabalhadores uruguaios, paraguaios e argentinos para a produção de erva-mate. Inclusive com intervenção dos chamados atravessadores – ou coiotes. Eles eram mantidos em condições degradantes e análogas ao trabalho escravo.

O órgão esbarra na resistência dos imigrantes em levar adiante as denúncias de abuso. “A maioria só  vem em situação extrema, quando não recebe o dinheiro e quer ir embora.” Ele lembra, porém, que os imigrantes podem se sentir seguros ao conduzir qualquer denúncia ao MPT, que pode ajudar, inclusive, na produção de novos documentos. A aprovação da resolução normativa 122 dá aos procuradores a atribuição para requerer o visto a quem foi vítima de exploração ou tráfico de pessoas. Com isso, podem permanecer no Brasil por até cinco anos.

Mas o procurador admite que há falhas na verificação dos problemas. “A gente tá fazendo um mapeamento da situação e abriu um procedimento investigatório para cada uma das empresas que empregam trabalhadores imigrantes e pedimos fiscalizações para o Ministério do Trabalho.” Até o momento, os maiores problemas estão vinculados ao assédio moral e discriminação racial.

A limitação maior está na verificação do trabalho informal, no qual o procurador Luiz Alessandro Machado reconhece haver espaço para atuação. O RS é o terceiro estado que mais emprega imigrantes no país (10%), mesmo assim, cada vez menos os senegaleses conseguem emprego com carteira assinada. Em 2014, o mercado formal absorvia os recém chegados na construção civil, em grandes fábricas, empresas de limpeza e serviços gerais e, principalmente, em frigoríficos. Com o crescimento da exportação de carne para países árabes, cresceu a demanda de mão-de-obra muçulmana para executar o abate halal, que é a forma como um animal deve ser abatido de acordo com as leis do Alcorão. Mas com a crise econômica, política e social que o Brasil enfrenta, os imigrantes foram os primeiros demitidos. E se já era raro que alguém valorizasse sua capacidade intelectual, a conjuntura política brasileiro dificultou isso ainda mais. A professora Juliana Rossa contou que até o currículo pode ser um problema. As documentações são diferentes, os endereços fluidos e comprovantes são difíceis de apresentar. “Tem muitas particularidades no mundo do trabalho, e esse mercado não se abre pra eles.”

OUÇA OS RELATOS DE EXPLORAÇÃO  E A ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO

 

Mamadou, então, recorreu ao que sabe.

“Eu gosto de vender. No Senegal, a maior parte das pessoas trabalha na agricultura, mas não tem espaço pra todo mundo. Então o jovem vende. A gente começa a vender cedo.”

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QUEFAZER 

O SENEGAL E UMA POPULAÇÃO MOLDADA PARA O COMÉRCIO

Em um erro de digitação, descobri a existência da palavra “quefazer”. Assim mesmo, tudo junto. Minha ignorância me impedia de saber que significa ocupação. Conforme o dicionário, é um vocábulo descrito como o trabalho que se faz por hábito, costume. Imediatamente pensei nos homens nas calçadas. Não é por acaso que eles optam pelo comércio ambulante. No Senegal, 70% da população é formada por jovens que não tem onde trabalhar em um país que sobrevive da agricultura e sofre com as estiagens. Como consequência, eles migram para as grandes cidades na esperança de serem absorvidos pelo comércio, uma arte que se não é inata os acompanha desde muito cedo e faz parte da cultura do país de maioria muçulmana.

Juliana Rossa é jornalista e professora da Faculdade Murialdo de Caxias do Sul. Há mais de cinco anos convive com os imigrantes e pesquisa sobre aspectos culturais específicos do Senegal. No doutorado em Letras pela UCS/UniRitter, centrou o estudo na poesia oral e na performance dos cantos religiosos. A caxiense viajou ao país, onde pôde não apenas aprofundar a investigação mas também desvendar um vínculo fortíssimo entre a religiosidade e a habilidade comercial.

Estima-se que 94% dos senegaleses sejam muçulmanos. O islamismo praticado no país é influenciado pelo Sufismo, conhecido como uma corrente mística que tem no Muridismo uma das fraternidades mais expressivas na etnia Wolof (que abrange quase metade da população do Senegal). O aspecto religioso é tão importante na sociedade que as crianças são encaminhadas para uma escola árabe desde muito cedo. Geralmente, os meninos passam a frequentar a escola corânica a partir dos cinco anos.

“Eles aprendem árabe e decoram o Alcorão. Dependendo da família, a criança fica mais ou menos tempo. Essas escolas corânicas são mantidas com doações, são espaços em que as crianças passam o dia relativamente sozinhas e precisam aprender a “se virar”, com pouquíssimo tempo para brincar. Essa escola caleja a personalidade deles. Por exemplo, às vezes, para almoçar, eles precisam pedir comida nas casas dos vizinhos. Ao fazer esse gesto, eles se colocam humildes. É como uma troca. Ao pedir ajuda, eles também se dispõem a ajudar, a tratar a todos muito bem e com muito respeito. Então, porque eles vendem muito bem? Porque eles retornam a essa formação inicial.”

Um professor senegalês foi quem explicou a relação à Juliana. É uma espécie de solicitude que se aprende desde muito cedo, como uma permuta de gentilezas. Algo que é reforçado nas pessoas que, dentro do Muridismo, praticam a corrente Baye Fall, facilmente identificáveis pelas roupas coloridas e os dreadlocks – às vezes confundidos com os Rastafari. “Se tu encontrares um Baye Fall e tu estiveres com frio, ele vai tirar a roupa que tem para que tu não sintas frio. Se há uma festa religiosa, ele vai cozinhar, ele vai fazer, ele que vai ajudar.”

O relato da professora Juliana Rossa mostra como a negociação faz parte de quem eles são. Eles vendem, vendem, vendem eletrônicos, vendem comida, vendem arte, vendem roupas, vendem.

Senegal. Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

“A gente nasce naquele ambiente em que as pessoas vendem na rua. Muitas pessoas que estão aqui, já vendiam lá.” Mor não é vendedor, mas confirma que há essa preparação. As cidades estão envoltas na atmosfera das transações comerciais. Por isso, diante da crise no mercado formal brasileiro, recorrer ao comércio ambulante e informal é uma escolha natural para os senegaleses. Natural, mas não significa uma alternativa fácil.

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“O IMIGRANTE, QUANDO DECIDE SAIR, JÁ ESTÁ PREPARADO. TU TÁ INDO PRA OUTRO PAÍS, TEM QUE TOLERAR CERTAS COISAS.”

 

É preciso coragem para enfrentar as ruas na branca Porto Alegre. As certas coisas a que o Mor se refere em tolerar são pesadas. Não demoro para perceber que ele está falando de racismo, xenofobia, intolerância em todas as formas, preconceito de todos os jeitos.

“Se eu saio na rua e paro ali no menino que tá vendendo, em dez minutos eu vou reparar em alguma coisa preconceituosa que ele não vai perceber.”

“Como assim?”

“Porque eu estou aqui há mais tempo. Sou mais ligado.”

“Tu falas de racismo velado?”

“Isso, são pequenas coisas que eu percebo.”

“E coisas nem tão pequenas, acontecem?”

“Sim. Na semana passada, por exemplo, eu fui no tabelionato acompanhar alguém que precisava da minha ajuda para autenticar um documento. Quando a gente chegou o cara falou que não ia autenticar porque não era um documento oficial. Só que era um documento da Polícia Federal. O menino ficou arrasado.”

Eu recebo a informação com assombro. É o tipo de história que todos sabemos que existe, mas envergonha a confirmação. Acho que não consigo esconder o constrangimento e o rubor que toma conta do meu rosto. Mor se apressa em explicar que a maioria dos gaúchos trata os imigrantes com respeito, mas insisto que ele fale de quem não o faz. Superada a resistência inicial, ele emenda um desabafo no suspiro.

 

“A palavra “racismo”. Eu conheci o significado dessa palavra na prática há pouco tempo. Não é um problema no Senegal, mas aqui parece que vai ser sempre. Agora há pouco eu conversava com alguém que foi contratado em uma grande empresa, com carteira assinada, para um bom cargo de nível superior. Ele foi lá hoje e foi apresentado à pessoa que seria sua chefe. Ela olhou pra ele e disse: “eu não quero esse cara.”

“Por causa da cor.”

“Sim, por causa da cor. O racismo no Brasil existe e os imigrantes sofrem diariamente. E o problema não é ser imigrante, é ser imigrante africano e negro. O imigrante europeu com a mesma formação não encontra as mesmas dificuldades. O negro brasileiro sofre e o negro africano sofre.”

Conforme ele fala, meus ombros pesam com a vergonha que todo brasileiro deveria carregar. Imediatamente me lembro de uma frase da socióloga Aline Passuelo, com quem eu havia conversado muito tempo antes. “Jamais vou esquecer de um imigrante que me disse que descobriu que era negro no Brasil. Ele descobriu que ser negro era um problema no Brasil.”

Eu também jamais vou esquecer do que a Aline me contou. Em pleno século XXI, o negro africano atravessa o oceano para descobrir um país que não se permite livrar da cruel e torpe tradição escravagista. E esse comportamento social tem um impacto devastador no imaginário dos imigrantes senegaleses, que aguentam em silêncio e sozinhos. Não são poucos os que apresentam transtornos psicológicos, geralmente relacionados à depressão.

 

“Sofrem calados porque todos os dias acontecem pequenas coisas.”

“Tipo o que, Mor?

“O imigrante vai na farmácia e é ignorado. Vai na padaria e alguém repara na cor, que tem sotaque diferente, e não é atendido. Começa a ser tratado de forma diferente.”

“E como ele reage a essas coisas?”

“Ele não tem com quem reclamar, geralmente passa por tudo isso sem reclamar. Isso choca.”

E como. E acabam se fechando. Quando conheci o Mamadou, percebi que havia algo diferente. Ele queria conversar, precisava conversar e assim o fez. Abertamente. Com aquele sorriso fácil e inabalável. Isso era incomum. Nas outras vezes em que abordei um imigrante, fosse para uma conversa, fosse para uma entrevista, a resposta era amigável mas monossilábica. Mor me disse que era medo de ser julgado e maltratado. Fazia sentido. As palavras vinham carregadas de desconfiança, de receio. Foi assim com Mohammed, o menino que eu avistei da janela enquanto falava com Mor. Desligado o gravador, fui até ele. Comprei um cabo para o carregador do meu celular por quinze reais e perguntei seu nome. Ele me olhou com surpresa. Respondeu, mas cabreiro. Foi quando lembrei de algo que poderia quebrar o gelo.

“Tu foste levar uma chave a pedido do Mor para a senhora da portaria, não é mesmo?”

“Sim, como você sabe?”

“Eu estava sentada nas cadeiras que ficam na entrada.”

“Ah, sim. Agora eu me lembro.”

“Estava justamente aguardando para conversar com o Mor, estou fazendo uma reportagem sobre a vida dos imigrantes senegaleses aqui no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. ”

“Que bom.”

“Tu vives aqui há quanto tempo?”

“Há dois anos. Eu tenho 22 anos, cheguei aqui com 20.”

“Vende bastante?”

“Não posso me queixar.”

“E gosta de morar aqui?”

“É bom, eu consigo ajudar minha família. Mas quero voltar.”

Quando ele encolheu os ombros e desviou o olhos, as palavras do Mor ecoaram nos meus ouvidos. Sorrio. Ele sorri de volta. Desejo sorte a ele e sigo meu rumo.

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FAZER O QUE? 

 

Meu avô fala muito isso. Seu Orozimbo é neto de imigrantes italianos. A família Pellizzaro chegou no Rio Grande do Sul no final do século XIX. Esquálidos de fome, pálidos de frio e vestindo farrapos. Chegaram aqui, há mais de cem anos, em busca de uma oportunidade, por menor que fosse.

Das histórias que o nono Giuseppe contava, creio que não figuravam relatos de preconceito. Em nenhum momento surgia a dor de ouvir de um brasileiro que eles estavam ali para roubar empregos ou para trazer doenças. Pelo contrário, eles inclusive foram incentivados pelo governo brasileiro. Ganharam terrenos para colonizar. E prosperaram. Alguém acreditou neles e eles tiveram a chance de prosperar.

“A gente só precisa de uma mínima oportunidade. De consideração e respeito.”

Imigrantes senegaleses trabalhando nas ruas de Porto Alegre. Foto: Geórgia Santos

São jovens. Estão batalhando, trabalhando, vivendo longe dos pais, longe da família, longe de tudo o que conhecem. Longe de festas em que toca mbalakh. Longe da voz de Youssou N´Dur. Longe das plantações de mil e dos pratos de diakhouté. Fazer o que?

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“Prazer em te conhecer, Mamadou.”

“Também, Geórgia.”

Não era uma entrevista. Era apenas uma conversa, eu só queria saber quem ele era, de verdade. Fiquei feliz em ver que era um cara cheio de sonhos, feliz, que corre atrás daquilo que acredita. Foi assim que conheci um dos homens nas calçadas. Espero que o sorriso continue fácil e inabalável.

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Reportagem: Geórgia Santos

Vídeo: Catraca Filmes

Tércio Saccol

Sobre PIBs e polarização

Tércio Saccol
5 de março de 2018

Como toda temática – de Neymar à intervenção federal no Rio de Janeiro – uma grande polarização tomou redes sociais, fóruns mais e menos qualificados e alguns diálogos na última semana, quando foi divulgada a alta de 1% do Produto Interno Bruto, o PIB.

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E a lógica média dessas discussões, só para variar, resvalou em análises desprovidas de sentido, percepções enviesadas e um esforço enorme para desqualificar ou catapultar a relevância desse número

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Importante citar o contexto desse crescimento: 1% após uma recessão histórica, que alavancou o desemprego, fragilizou a indústria e abriu um campo de ação para reformas que, vestidas com a armadura da urgência, atropelaram discussões e consultas públicas.

Ministério da Agricultura/Divulgação

“Ah, mas no governo Dilma, quando cresceu 1%, o destaque foi negativo”, diz o fórum alinhado a ex-presidente derrubada em um processo de cunho político. É verdade. Mas também é verdade que, despida a nossa inocência para entender de onde vêm as fontes de informação, que um crescimento de 1 após um crescimento de 2 é diferente de um crescimento de 1 após uma queda.

“Mas então, você está defendendo…” Não. Não se trata de um respaldo a euforia de Henrique Meirelles, o possível candidato insípido de um governo marcado por rejeição massiva e coleções invejáveis de casos de corrupção. É importante lembrar que o crescimento dessa medida dos bens e serviços está ancorado em um desempenho extraordinário do setor agrícola, especialmente o milho e a soja.

Não menos importante destacar que uma das medidas para injeção de fôlego no poder de compra, a liberação do saque do FGTS, não poderá se repetir em 2018, e que o crescimento de consumo das famílias, também festejado, tem algum respaldo nessa medida.

Aliás, propõe-se perceber que o quarto trimestre de 2017 teve virtual estagnação da economia e que houve nova queda de investimentos, motor para reativação econômica. Soma-se a essa discussão inúmeras pesquisas recentes, como a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, de Thomas Piketty, o fato de que a concentração de renda está em processo de ascensão ou manutenção, mostrando que esse crescimento não está incidindo de forma direta na distribuição.

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Há ainda quem associe a sustentação desse incremento a reformas e mudanças estruturais, embora essa discussão não mereça ser tratada de forma tão efêmera – como foi a trabalhista, decidida em meia dúzia de gabinetes em alguns meses

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Mas esse PIB

E aí? E aí que é óbvio que ninguém está pedindo uma análise dissociada da economia política, mas não dissociada do bom senso. Claro, como defende Thomas Straubhaar, o PIB já não deveria ser a única métrica de geração de valor, já que não consegue mensurar com precisão dados digitais e economia compartilhada.

Acrescenta-se aí que ainda é bastante difícil dizer qual a base – se há uma – para confirmação ou não da continuidade do crescimento e da diminuição do desemprego. Mesmo assim, o dado não é desprezível (nem passível de celebração).

Reprodução

Quanto às manchetes? Aí que não há simplificação capaz de sintetizar a complexidade de um contexto econômico, e como tal, é ainda mais difícil traduzir isso em uma manchete, que aliás, já deve ser vista como parte de um contexto maior.

Há, dependendo dos elementos usados e da ótica do recorte, possibilidade de múltiplas perspectivas sobre o dado apresentado. Provavelmente, ainda é muito cedo para garantir alguma celebração, especialmente por um governo com graves problemas de legitimidade, mas antes tarde do que mais tarde para voltar ao patamar de 2011 na economia, o que se atingiu com o famigerado 1%.  

Geórgia Santos

Entre o Bolsa Família e uma Louis Vuitton

Geórgia Santos
5 de fevereiro de 2018

Há muitos anos são ouvidos brados retumbantes de quem é contra o Bolsa Família. Esse programa criminoso que ajuda os miseráveis a saírem da pobreza extrema, que absurdo, vejam só.

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“Onde já se viu, dar dinheiro a alguém sem que mereça”

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“As pessoas recebem esse dinheiro pra não ter que trabalhar. O povo tá sustentando vagabundo”

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“Não dá pra dar o peixe, tem que ensinar a pescar” (minha favorita)

 

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Esses são apenas três dos “argumentos” que recheiam caixas de comentários Facebook afora. Não vou entrar no mérito dos programas de mobilidade social, em cujo potencial eu acredito. Muito menos me dedico a comentar sua apropriação política, que não vem ao caso. Minha intenção é abordar o tema sob o ponto de vista humanitário.

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Você sabe o valor do Bolsa Família?

O benefício é pago de diferentes maneiras, dependendo da composição do grupo familiar e da faixa de renda. Não é um programa perfeito, mas ajuda as pessoas a superarem a linha da miséria. Há várias categorias dentro do Bolsa Família, mas para facilitar o entendimento, falemos do teto. O maior benefício possível de receber é de R$ 364,00.

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Uma família com baixo nível de renda, com CINCO crianças e DOIS adolescentes vinculados ao benefício , recebe R$ 364,00

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E isso é uma ofensa aos brasileiros, aos que se dizem cidadãos de bem e não admitem pagar pelo sustento dos outros com seus impostos, mesmo que sonegados. Compreendo perfeitamente o fato de que há pessoas que não acreditam em programas deste tipo, que não enxergam benefícios no assistencialismo, que não percebem vantagens em um auxílio como este. Compreendo mesmo, sem ironia. O indivíduo é formado por múltiplas variáveis e não sou do tipo que acredita em ideologia certa, por mais que defenda o lado que considero mais adequado à nossa realidade. Mas não compreendo como alguém pode ser desconectado da realidade a ponto de acreditar que R$364,00 é dinheiro suficiente para acomodar uma família inteira. Uma família numerosa, esquecida e marginalizada pela desigualdade cruel que assola o Brasil.

 

Hoje, quase 30% de toda a renda do Brasil está na mão de apenas 1% da população. A Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada pelo economista francês Thomas Pektty, ainda aponta que é a mais concentração no mundo. Em termos práticos, relatório da Oxfam indica que CINCO pessoas tem patrimônio equivalente ao da METADE DA POPULAÇÃO brasileira mais pobre.

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CINCO pessoas tem patrimônio equivalente ao de CEM MILHÕES

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Nessa linha, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que metade dos trabalhadores ocupados (formais) tem renda menor que um salário mínimo. A média salarial dessa fatia da população era, em 2016, de R$ 747,00, abaixo dos R$ 880,00 estipulados para o ano. Na outra ponta do espectro social há apenas 889 MIL pessoas, que compõem a fatia dos mais abonados e recebem, em média, R$ 27 mil por mês.

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É nessa faixa privilegiada em que se encontram os magistrados do país

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Segundo o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), um juiz substituo recebe R$ 27.500 mensais, para falar apenas do salário mais baixo. É uma categoria distinta, especialmente diante da desigualdade colossal que mancha de sangue e suor a nossa sociedade. Mas não para por aí, os juízes (assim como parlamentares e outros membros dos três poderes) tem direito a um benefício chamado auxílio-moradia.

Assim como fiz com o Bolsa Família, falemos de teto. O valor máximo do benefício é de R$ 4.377, 37, número que, segundo a pesquisa já mencionada do IBGE, supera o salario de 92% da população brasileira. O benefício é um reembolso das despesas com moradia que começou com a mudança da capital brasileira para Brasília. Supondo-se que os deputados só teriam imóveis em suas cidades de origem, criou-se um dispositivo que suprisse os gastos com moradia em Brasília. Em seguida foi ampliado para outros poderes. Hoje, 17 mil juízes recebem auxílio-moradia.

Entre eles está o juiz Sérgio Moro, símbolo da justiça em sua cruzada contra a corrupção. O magistrado tem imóvel próprio em Curitiba e ainda assim recebe o teto de auxílio que, segundo ele, supre a falta de reajuste. O salário base de Moro é de R$ 28.948,00, além de gratificações.

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Mesmo assim, o cidadão de bem não se incomoda com os R$4.377,37 de auxílio-moradia, o valor de uma bolsa modelo Speedy 30 da Louis Vuitton 

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Moro não está fora da lei. O recebimento do benefício é absolutamente legal e é um direito dele. Mas está longe de ser justo e todos sabemos disso. Eu sei disso e ele sabe disso. Ainda assim, diante da injustiça que nos é esfregada na cara diariamente, falta indignação, e a única explicação que parece fazer sentido é a ilusão de uma meritocracia que ignora pontos de partida e a ofensa com uma possível mobilidade de classes. “Os juízes trabalham duro, estudaram, se prepararam, passaram em concurso, tem pilhas e pilhas de processos para análise. Quem recebe o Bolsa Família é vagabundo, não faz nada, só quer saber de mamar nas tetas do governo. Tem é que trabalhar.” É isso? O engraçado dessa história é que as tetas são as mesmas para os dois.

No final das contas, o brasileiro se ofende com o Bolsa Família mas não se importa em pagar uma Louis Vuitton para os magistrados.

Foto capa: Pixabay

Foto Sérgio Moro: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Geórgia Santos

18 homens decidiram por 105 milhões de mulheres

Geórgia Santos
9 de novembro de 2017

Comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (07), o texto da PEC 181/2015, que proíbe o aborto em qualquer circunstância. O texto impede a interrupção da gravidez inclusive em casos de estupro ou risco de morte para a mãe, duas situações previstas na legislação brasileira. O grupo era formado por 18 homens e apenas uma mulher, que deu o único voto contrário.

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18 homens decidiram sozinhos o que 105 milhões de mulheres devem fazer com seus corpos

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A sessão durou quase quatro horas, mas tinha seu destino traçado como a crônica de uma morte anunciada. A comissão especial era formada por 28 deputados. Destes, 21 homens e três mulheres eram publicamente contrários à legalização do aborto antes mesmo de começarem os trabalhos do grupo. Como se não bastasse, todos os especialistas ouvidos pelos deputados (em somente três audiências públicas) também eram contrários à descriminalização da prática.

Com essa pequena amostra, percebe-se que vivemos em uma democracia em que 513 deputados são eleitos para representar os 203,2 milhões de brasileiros, mas sofremos de dois sérios problemas de legitimidade.

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PROBLEMA 1

Apesar de a maioria da população ser formada por mulheres (51,6%), segundo o IBGE, nós ocupamos apenas 10% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Isso significa que nós não temos a devida representação quando se trata de discutir qualquer tema que tenha relação com nossa existência feminina. E mesmo nos espaços em que esse percentual pode ser aumentado, como em comissões especiais, não há nenhum movimento de correção. E esse caso é exemplo de cartilha.

PROBLEMA 2

A religião passa a ditar as regras em um Estado laico. A decisão de proibir o aborto em casos de violência sexual não está baseada em conhecimento científico ou debates de ordem ética e moral, todos bem-vindos. Ela está centrada única e exclusivamente em uma crença religiosa, neste caso, majoritariamente evangélica.

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Vemos a reprodução de centenários e hipócritas padrões coloniais, em que o aborto clandestino serve para esconder deslizes dos senhores mas é um pecado diante do seu Deus

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Cavalo de Tróia

A PEC 181/2011 tem sido chamada de Cavalo de Troia porque, originalmente, o texto de autoria do senador Aécio Neves (PSDB-MG) tratava apenas da ampliação de direitos trabalhistas, como o aumento da licença-maternidade para mulheres com filhos prematuros. Mas em uma manobra digna dos gregos, a bancada religiosa da Câmara assumiu o protagonismo da discussão quando pressionou o presidente da casa, Rodrigo Maia, a instalar uma comissão para discutir a interrupção da gravidez. Isso logo após o Supremo Tribunal Federal (STF) descriminalizar o aborto no primeiro trimestre, algo que irritou profundamente as alas mais conservadoras do Congresso.

Assim, o deputado Tadeu Mudalen (DEM-SP) aproveitou o momento para incluir a expressão “desde a concepção” em dois artigos da Constituição. Ou seja, ele estabelece que o princípio da dignidade da pessoa humana e garantia de inviolabilidade do direito à vida devem ser respeitados “desde a concepção”, no momento em que o óvulo é fecundado pelo espermatozoide. Em entrevista à Rede Globo, o parlamentar não fez questão de dissimular e foi bastante claro quanto à intenção. “Essas duas palavras que colocamos é pra garantir a vida e porque somos contra o aborto”, explicou.

Com a alteração, os artigos 1º e 5º ficam com a seguinte redação:

Portanto, na prática, a interrupção da gravidez fica inviabilizada sob qualquer circunstância.

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Retirada de direitos

O que aconteceu ontem no Congresso não está em dissonância com o atual momento pelo qual o Brasil passa. É um reflexo quase óbvio do momento de intolerância pelo qual passamos. E não estou me referindo ao fato de haver parlamentares contra o aborto ou contra a legalização da prática – que são coisas diferentes, diga-se de passagem. O reflexo da intolerância é a falta de debate sério, a escassez de discussões produtivas, embasadas, intelectualmente honestas. O reflexo da intolerância é tratar o fanatismo como fato científico e base legislativa.

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E o resultado dessa mixórdia de religião, machismo e desonestidade é a retirada de direitos conquistados há mais de 70 anos

O Código Penal brasileiro garante o aborto em caso de violência sexual ou risco à saúde da mãe desde 1940

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Esse tipo de movimento legislativo torna-se, portanto, um retrocesso literal; temporal e simbólico. Em que as mulheres sequer tem o direito à voz para que possam decidir sobre seu futuro e seu próprio corpo justamente em um momento em que os números sobre o aborto no Brasil são alarmantes.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já fez pelo menos um aborto antes dos 40 anos. Os números são da Pesquisa Nacional do Aborto, do Instituto Anis. Com isso, são realizados mais de um milhão de procedimentos ilegais e, em geral, inseguros por ano no Brasil. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma mulher morre a cada dois dias por complicações decorrentes do aborto ilegal.

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Aborto é uma questão de saúde pública

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Não me revolto com o resultado em si, afinal, tenho consciência de que nem todas as mulheres concordam com minhas opiniões e elas também precisam ser representadas. Eu inclusive não me revoltaria com a aprovação dessa PEC se ela tivesse sido discutida à exaustão, se tivesse havido equilíbrio de opiniões na comissão, se especialistas de ambos os lados tivessem sido ouvidos e, principalmente, se as mulheres tivessem decidido. Mas nada disso aconteceu. Então eu me revolto com o que nos foi negado.

E os 18 homens que negaram voz a 105 milhões de mulheres são estes:

Gilberto Nascimento (PSC-SP)
Leonardo Quintão (PMDB-MG)
Givaldo Carimbão (PHS-AL)
Mauro Pereira (PMDB-RS)
Alan Rick (DEM-AC)
Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ)
Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP)
Marcos Soares (DEM-RJ)
Pastor Eurico (PHS-PE)
Antônio Jácome (PODE-RN)
João Campos (PRB-GO)
Paulo Freire (PR-SP)
Jefferson Campos (PSD-SP)
Joaquim Passarinho (PSD-PA)
Eros Biondini (PROS-MG)
Flavinho (PSB-SP)
Evandro Gussi (PV-SP)
Diego Garcia (PHS-PR)

E deputada Érika Kokay (PT-DF), única mulher da votação, votou contra. Agora, a Proposta de Emenda Constitucional segue para o plenário da casa e deve ser apreciada em dois turnos. Ainda há tempo de reverter e ampliar o debate. Infelizmente, ainda seremos apenas 10% das vozes da Câmara. Ainda assim, serão homens a decidir nosso destino.

Voos Literários

“Comunista, vai pra Cuba!!”

Flávia Cunha
17 de outubro de 2017

Essa frase (e variações dela) vem sendo reproduzidas em comentários pela Internet, essa rede criada para interligar as pessoas mas que parece cada vez mais ser usada como instrumento de propagação de ódio. Fiquei divagando sobre esse tipo de declaração, ao ter um comentário desses associado a um texto meu. Fiquei genuinamente intrigada. 

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O que faz com que o internauta em questão ache que eu sou comunista?

E “comunista” é xingamento?

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Então, fui fazer algumas pesquisas para propor reflexões a respeito. A verdade é que o tão temido comunismo nunca foi aplicado em nenhum país, por prever o fim do Estado com a chegada da igualdade absoluta entre os cidadãos. A sociedade, portanto, arranjaria uma maneira de se autorregulamentar. Seria, a grosso modo, a etapa final do socialismo, esse sim implementado na antiga União Soviética e em Cuba, por exemplo.

Para entender as raízes do ódio ao comunismo, cheguei num artigo sobre o anticomunismo e constatei que não  há um consenso nesse movimento. Liberais, conservadores, democratas cristãos, fascistas e nazistas têm (ou tiveram) em comum o ódio aos comunistas. O principal motivo, me parece, seria por essa ideologia prever o fim da propriedade privada.

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Mas o que está ocorrendo no Brasil para que de uma hora para outra tanta gente fale em comunismo de forma tão agressiva? Sempre foi assim?

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Nas minhas investigações de obras ligadas ao tema, encontrei alguns fatos curiosos. Em 1980, um livro da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense com o título O Que é Comunismo? foi lançado sem problema algum em território brasileiro, mesmo antes da abertura política.  

Em 1985, era a vez de uma biografia sobre uma comunista virar sensação entre leitores de diferentes vertentes políticas. Olga, de Fernando Morais, aborda a trajetória da comunista e judia Olga Benário, como explica o jornalista, na introdução da obra:

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“A reportagem que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro; a vida de Olga Benario Prestes, uma história que me fascina e atormenta desde a adolescência, quando ouvia meu pai referir-se a Fílinto Müller como o homem que tinha dado a Hitler, “de presente”, a mulher de Luís Carlos Prestes, uma judia comunista que estava grávida de sete meses. Perseguido por essa imagem, decidi que algum dia escreveria sobre Olga, projeto que guardei com avareza durante os anos negros do terrorismo de estado no Brasil, quando seria inimaginável que uma história como esta passasse incólume pela censura.”

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Perceberam a última frase? Em 1985, era possível escrever sobre uma comunista sem ser execrado. Aliás, as críticas da época foram muito boas, como podemos notar pelas avaliações da imprensa da época, que constam nessa primeira edição.

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“Além de ser um retrato de corpo inteiro de Olga Benario, o livro acabou sendo uma história completa da revolta comunista de 1935.” (O Globo)

“Estou impressionado com a qualidade do texto e com o belo profissionalismo com que o trabalho foi encarado. É, sem sombra de dúvida, uma excelente obra e um livro indispensável.” (Tarso de Castro – Tribuna da Imprensa)

“Não é apenas o relato da vida e da morte de Olga Benario, mas traz revelações inéditas e polêmicas sobre a revolta comunista de 1935.” (Jornal O São Paulo)

“Só agora a fascinante história de Olga é contada de verdade para nós – e de forma apaixonada.” (Marília Gabriela – TV Bandeirantes)

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O livro Olga foi reeditado com sucesso em 1994 quando também não houve nenhum tipo de comoção por abordar, com humanidade e alguma ternura, a trajetória de uma comunista. O filme Olga, de 2004, tampouco enfrentou críticas do gênero. Alguma coisa realmente parece ter mudado nesses últimos anos no Brasil. E, no meu ponto de vista, não foi para melhor.

Sobre Cuba, citada no título desse texto, falarei em breve. A abordagem será de uma obra passada na terra de Fidel e escrita por um norte-americano premiadíssimo. Aguardem!

Geórgia Santos

Qual a tua parcela de culpa no caos?

Geórgia Santos
10 de outubro de 2017

A essa altura do campeonato, creio que todos concordam que vivemos sob a ameaça iminente do caos, do obscurantismo, do autoritarismo. Sim, AINDA está no campo da ameaça porque, infelizmente, tudo ainda pode piorar por estas bandas.

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Mas será possível?

Será possível que as águas possam ficar ainda mais turvas?

Como?

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A verdade é que o caminho para uma espiral sombria de piração é bem curto, basta abrirmos mão do pensamento crítico. E, lamento, estamos bem avançados. Começamos negando a ciência; depois, foi a vez de relativizar a História com a cegueira daqueles que não querem ver; agora, estamos demonizando a arte; o próximo passo é o apedrejamento.

E nesse caminho em que a gente desaprende a pensar, é cada vez mais conveniente apontar terceiros culpados pela desgraça a que estamos submetidos. A culpa é sempre deles.

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ELES é que destruíram o país. ELAS é que são umas vadias. ELES é que são corruptos. ELAS é que são ladras. ELES é que são degenerados. ELAS é que acabaram com os valores da família. ELES é que serão apedrejados

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E nesse caminho em que a gente desaprende a pensar, a culpa sempre será deles, aqueles com quem não concordamos. Nunca nossa e dos nossos incautos. Nunca minha e dos meus puros. Torna-se cada vez mais fácil e conveniente esquecer que todos somos responsáveis, de uma forma ou outra, pela realidade que ajudamos a moldar. Consciente ou não, oferecemos as pedras que serão atiradas contra quem se levantar e que serão usadas para construir o muro do feudo que se cria em nossa nova idade média. Isso acontece toda vez que proferimos uma palavra de intolerância, uma ofensa, um desejo de morte, uma reverência à tortura, um pedido de intervenção. Isso acontece toda vez que censuramos o que deve ser dito. Uma palavra. Uma pedra.

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Voltemos a pensar, antes que seja tarde

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E nesse caminho em que a gente reaprende a pensar, pensa em qual a tua parcela de culpa no caos.