Catraqueanas

A vida imita a vida

Gustavo Mittelmann
26 de março de 2018

Tal qual o jornalismo, mas em proporções um pouco diferentes, a produção de vídeo nos coloca em contato com realidades e culturas distintas. A gente aprende quase sempre. E, algumas vezes, olhando de fora, percebe coisas que chocam pela incapacidade das pessoas juntarem A e B. Por que estou falando isso? Bom, a introdução é um pouco genérica, mas é importante para falar de uma situação muito específica. Há uns meses, produzimos um trabalho na área de saúde de abrangência nacional, o que nos levou a algumas viagens. Nessa ocasião, vivi os dois extremos.

Em Santarém (PA), me encantei e pude perceber a beleza e simplicidade de um povo que vive, depende e valoriza o rio

Por outro lado, estive em Goiânia. Por essas questões de horários de voo, acabei com um dia livre na cidade logo ao chegar. Na recepção do hotel, ao perguntar de programações para se fazer na cidade, me surpreendi com a existência de um complexo arquitetônico e cultural ímpar: o Centro Cultural Oscar Niemeyer. É pra lá que vou, claro! Papo de Uber, pra saber mais a respeito, o motorista não tinha certeza de qual era a entrada do complexo e tudo o que sabia é que o pessoal se juntava no estacionamento para andar de skate.

O que ele não sabia, e nem a recepcionista do hotel, e que só descobrimos ao chegar lá é que o complexo estava fechado e permaneceria assim por meses

Frustrado, pego outro Uber para voltar. Vamos em busca de outra programação, mas tudo o que consigo dele e de outros funcionários do hotel é saber que há dois shoppings na cidade com “boas” atrações (além do ar-condicionado no calor absurdo): um deles oferece pista de kart para correr, e o outro, batalha com armas laser. O orgulho das pessoas e o nível de informação a respeito, em comparação ao caso do Centro Cultural, me impressiona. Volto pro hotel, almoço e vou dormir.

No dia seguinte, partimos, eu e o Baiano – Diretor de Fotografia do trabalho – para gravar na UTI do SUS no hospital da cidade. Lá, internado em coma, um jovem de 19 anos vítima de um tiro na cabeça. Estava andando de moto quando foi fechado por um carro. Encostou ao lado no semáforo e bateu na lataria para chamar a atenção.

Arrancou ao abrir o sinal e foi baleado por trás, pelo motorista do carro

Eu dormi na minha tarde livre, por falta de programas culturais para fazer na cidade. As crianças, jovens e adolescentes de lá, por outro lado, passaram a tarde apostando corridas motorizadas e atirando uns nos outros por diversão. A vida imita a vida, mas as pessoas parecem não acordar para essa obviedade.

Foto: Santarém, Pará /  Gustavo Mittelmann

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Trama Fantasma

Pedro Henrique Gomes
10 de março de 2018

É melhor dizer logo de cara que Trama Fantasma é o filme de melhor execução que Paul Thomas Anderson já realizou. A confusão de valores narrativos e temáticos que antes lhe afetavam, neste filme o enriquecem. Em primeiro lugar, Trama Fantasma assume os monstros de sua ficção ao abraçar de vez o realismo em um sentido muito evidente, qual seja, o de capturar e sublinhar certas características do tempo e do espaço sem as decorações narrativas que estavam lá em Magnólia, Embriagado de Amor, Sangue Negro e outros de seus filmes. Pois o realismo é justamente essa clareza com que as formas se apresentam, construindo e destruindo as emoções do espectador conforme avançam. Suas razões não são simplesmente técnicas (como em Boogie Nights), mas possuem agora um senso de proporção temporal e uma franja emocional muito sutil.

A epifania egocêntrica dá lugar a um olhar paciente e autocontido sem perder seu caráter sistemático de grande melodrama que o filme quer ser. É necessário encarar a imagem de maneira frontal e isto quer dizer limitar as interrupções visuais que sua câmera sempre pareceu desrespeitar em nome de virtuosismos.

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O próprio espaço constitui um entrave positivo, pois o filme se passa praticamente todo em locação interna – o que aumenta a pressão sob suas personagens, quase que exigindo delas nada menos que a vida em sacrifício, em troca da liberdade

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Em Trama Fantasma tudo é essencial para a partitura do filme, para seu desenvolvimento e fruição: o ritmo condensado de sua ação, a longa introdução ao cenário central do filme, sua atmosfera de ambientação tipicamente aristocrática (estamos na Inglaterra da metade do século XX), a mansão gigante que é tanto local de trabalho quanto morada do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua irmã e gestora imperial Cyril (Lesley Manville). Mr. Woodcock constura para a realeza britânica e para nomes fortes da alta sociedade inglesa. O filme é a história de obsessões: do estilista por sua modelo e métodos de rotina intocáveis, da irmã pelo controle e pelo poder, da jovem Alma (Vicky Krieps) por Woodcock, de Paul Thomas Anderson pela depuração perfeccionista de seus motivos visuais que, neste filme como em nenhum outro, estão plenamente justificados.

Alma, trabalhando então como garçonete, recebe Woodcock e o serve no estabelecimento de beira de estrada. O flerte rapidamente se traduz num convite para que o estilista tire as medidas da moça. Ela vira sua modelo, sendo seu corpo o corpo ideal, figura que dá forma a sua criação artística. O tema da obsessão pela forma (forma do corpo, forma das formas) inicia. Alma logo está trabalhando para Woodcock, isto é, vendendo a mercadoria mais valiosa que há, sua força de trabalho. Na casa, o trabalho e o descanso se misturam até que as diferenças se apaguem (é a isto, afinal, que o título do filme alude; a linha fantasma), para depois voltarem marcantes e venenosas, salientando os aspectos do suspense que o filme também instaura.

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O ganha pão e o tesão acentuam o melodrama, embaralham a relação não só de Alma com Woodcock, mas dele com Cyril. Anderson acertou de vez a mão

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A trilha sonora é precisa ao criar a pressão atmosférica desejada e as músicas se repetem para reforçar o próprio looping da vida que se organiza dentro da mansão. Há, claro que há, um corte de classe subsumido na ação coordenada do filme. As senhoras que trabalham silenciosas e competentes e todas as outras personagens do filme, mulheres ou homens, cujo roteiro não deu mais que meia dúzia de frases, quando muito, demonstram isso. A obsessão do cineasta está muito bem focada naquela paixão pela forma e pelo contorno que se traduz em seus personagens, em especial na relação do Mr. Woodcock com Alma.

Obsessões são coisas naturais dos cineastas: Griffith, Eisenstein, Hitchcock, Preminger, Bergman, Tarkovski, Almodóvar, entre muitos outros. Falamos, isto parece claro, de um cineasta que se move calculadamente entre o rigorismo extremo (kubrickiano) e o ceticismo moderado (que ele herda, muito já se disse, de Robert Altman). A trama fantasma é resultado também dessa correlação de referências e estilos narrativos.

Há uma dificuldade (crítica e essencialmente dos críticos que escrevem sobre seus filmes), na nossa crítica bem como na estrangeira, em estabelecer os elementos formais que compõem sua obra sem cair em pedantismos ou divagações aleatórias sobre o “apuro formal”, a “elegância da montagem”, “a sagacidade do roteiro”, enfim, todo um repertório de afirmações que podem ser aplicadas a qualquer cineasta com traços mais ou menos recorrentes. Uma espécie de pesadelo descritivo ronda nossa escrita. Ademais insuficiente, essa confusão, se ela existe e não é somente coisa da minha cabeça, mantém inexplorada a relação controversa entre suas obsessões temáticas e suas obsessões estéticas. Há um paradoxal mal estar na leitura dos filmes de PTA e que Trama Fantasma ajuda a dissipar, pois trata-se, agora podemos dizer, de um filme de afirmação.

Talvez de fato ainda exista espaço para um pensamento conceitual sobre cinema nos próprios filmes. Da parte de Paul Thomas Anderson, este é sem dúvida o exemplar mais completo. Um filme realista que livra o cineasta da zona de sombras.

Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson, EUA, 2017. Com Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville.

Tércio Saccol

Sobre PIBs e polarização

Tércio Saccol
5 de março de 2018

Como toda temática – de Neymar à intervenção federal no Rio de Janeiro – uma grande polarização tomou redes sociais, fóruns mais e menos qualificados e alguns diálogos na última semana, quando foi divulgada a alta de 1% do Produto Interno Bruto, o PIB.

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E a lógica média dessas discussões, só para variar, resvalou em análises desprovidas de sentido, percepções enviesadas e um esforço enorme para desqualificar ou catapultar a relevância desse número

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Importante citar o contexto desse crescimento: 1% após uma recessão histórica, que alavancou o desemprego, fragilizou a indústria e abriu um campo de ação para reformas que, vestidas com a armadura da urgência, atropelaram discussões e consultas públicas.

Ministério da Agricultura/Divulgação

“Ah, mas no governo Dilma, quando cresceu 1%, o destaque foi negativo”, diz o fórum alinhado a ex-presidente derrubada em um processo de cunho político. É verdade. Mas também é verdade que, despida a nossa inocência para entender de onde vêm as fontes de informação, que um crescimento de 1 após um crescimento de 2 é diferente de um crescimento de 1 após uma queda.

“Mas então, você está defendendo…” Não. Não se trata de um respaldo a euforia de Henrique Meirelles, o possível candidato insípido de um governo marcado por rejeição massiva e coleções invejáveis de casos de corrupção. É importante lembrar que o crescimento dessa medida dos bens e serviços está ancorado em um desempenho extraordinário do setor agrícola, especialmente o milho e a soja.

Não menos importante destacar que uma das medidas para injeção de fôlego no poder de compra, a liberação do saque do FGTS, não poderá se repetir em 2018, e que o crescimento de consumo das famílias, também festejado, tem algum respaldo nessa medida.

Aliás, propõe-se perceber que o quarto trimestre de 2017 teve virtual estagnação da economia e que houve nova queda de investimentos, motor para reativação econômica. Soma-se a essa discussão inúmeras pesquisas recentes, como a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, de Thomas Piketty, o fato de que a concentração de renda está em processo de ascensão ou manutenção, mostrando que esse crescimento não está incidindo de forma direta na distribuição.

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Há ainda quem associe a sustentação desse incremento a reformas e mudanças estruturais, embora essa discussão não mereça ser tratada de forma tão efêmera – como foi a trabalhista, decidida em meia dúzia de gabinetes em alguns meses

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Mas esse PIB

E aí? E aí que é óbvio que ninguém está pedindo uma análise dissociada da economia política, mas não dissociada do bom senso. Claro, como defende Thomas Straubhaar, o PIB já não deveria ser a única métrica de geração de valor, já que não consegue mensurar com precisão dados digitais e economia compartilhada.

Acrescenta-se aí que ainda é bastante difícil dizer qual a base – se há uma – para confirmação ou não da continuidade do crescimento e da diminuição do desemprego. Mesmo assim, o dado não é desprezível (nem passível de celebração).

Reprodução

Quanto às manchetes? Aí que não há simplificação capaz de sintetizar a complexidade de um contexto econômico, e como tal, é ainda mais difícil traduzir isso em uma manchete, que aliás, já deve ser vista como parte de um contexto maior.

Há, dependendo dos elementos usados e da ótica do recorte, possibilidade de múltiplas perspectivas sobre o dado apresentado. Provavelmente, ainda é muito cedo para garantir alguma celebração, especialmente por um governo com graves problemas de legitimidade, mas antes tarde do que mais tarde para voltar ao patamar de 2011 na economia, o que se atingiu com o famigerado 1%.  

Pedro Henrique Gomes

Idrissa Ouedraogo: história e memória

Pedro Henrique Gomes
2 de março de 2018

É de uma precisão cortante a obra que nos legou o cineasta Idrissa Ouedraogo, morto em 18 de fevereiro. Nascido em Burkina Faso, Ouedraogo reinventou um cinema que ainda inventava a si próprio. Apesar de Burkina Faso ter iniciado uma política nacional voltada ao desenvolvimento das artes locais que permitiu bom desenvolvimento do cinema em comparação com os demais cinemas africanos, Idrissa Ouedraogo é um dos poucos cineastas do país que conseguiu fazer mais do que um ou dois filmes.

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Nesse cenário, ele teve sólida e reconhecida obra, nacional e internacionalmente, a partir dos anos 1980, quando começa a filmar

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Seus filmes tiveram penetração mundial e, mais importante, visibilidade nos países africanos. Ele instruiu, isto é, filmou a África para os africanos e nela encontrou também as suas obsessões temáticas e estéticas. São as tradições e as transições que a vida coloca diante dos indivíduos as questões que mais lhe interessavam filmar.

Eis um cineasta que vislumbrou uma linguagem particularmente africana (um debate frequente), diante de todas as dificuldades que atravessavam e persistem nas periferias cinematográficas no mundo. A África ocidental francófona subsaariana é, como foi sempre, um território em disputa pelos imaginários, pelas identidades nacionais, os processos de descolonização que explodiram nos anos 1960 e, finalmente, o neocolonialismo. Uma vez livres da invasão colonialista formal, era preciso reconstruir a memória, traçar uma história da memória.

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Idrissa as filmou (suas memórias pessoais) ao mesmo tempo em que fornecia as bases para a consolidação de outras, engendrou uma experiência visual que não se acomodou em ser simplesmente política como muitas vezes se exigiu dos cineastas e demais artistas africanos

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Ele reconheceu, eu diria até de forma pioneira, que a luta pela restituição das identidades nacionais, para além dos esforços de independência econômica, política e cultural, é travada também por imagens e por palavras, pois é preciso discutir a questão das línguas africanas por meio do cinema. Estas questões são muito bem colocadas pelo escritor queniano Ngugi Wa Thiong’o, em artigo publicado no livro Cinemas no Mundo – África: indústria, política e mercado, organizado pela Alessandro Meleiro (Ed. Escrituras).

Ouedraogo foi um cinéfilo e seus filmes mais conhecidos, Yaaba e Tilaï, são expoentes da coerência de seu estilo: um gosto profundo e um interesse claro por preencher o silêncio com a alma dos indivíduos que filmava. É uma relação espiritual e material, uma conexão entre a terra e os céus, os vivos e os mortos. E que não se acaba.

Neste sábado, 03, a Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, programou uma homenagem ao cineasta, às 19h30, onde eu comentarei o legado de Ouedraogo após a exibição de Yaaba (1989), um de seus grandes filmes. Será uma sessão especial!

Guia de Viagem

Como comer bem em outro país

Geórgia Santos
17 de fevereiro de 2018

Quando se viaja a outro país, a tendência é ser excessivamente cuidadoso com a alimentação, além de economizar ao máximo com comida. Pois eu sou o oposto. Essa foto aí em cima, por exemplo, é de um café da manhã maravilhoso no meu último dia em San Francisco, na Califórnia, Estados Unidos. Mais especificamente, um brunch no maravilhoso Kitchen Story, um lugar que me fez vibrar na mesma frequência que a cidade.

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Acredito que grande parte da experiência de conhecer um lugar novo esteja na cultura e na gastronomia

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Não acho que seja possível conhecer uma cidade sem provar sua comida, seu tempero, seu sabor. Da mesma forma, prefiro investir em um bom restaurante e ficar em um hotel modesto, por exemplo, do que comer sanduíches ou frango de supermercado para economizar. Ora, porque eu comeria um panini nas ruas de Roma se posso experimentar um belo spaghetti alla carbonara?

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Explorar os restaurantes de outro país é uma excelente oportunidade para conhecer mais sobre costumes e cultura

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Dito isso, eu tenho plena consciência que comer em outro país pode ser bastante difícil. Não somente pela resistência que algumas pessoas tem a novos sabores, mas também porque as tradições e etiqueta variam de acordo com a região. E isso pode ser bastante desconfortável.

Para evitar constrangimentos, pensei em algumas sugestões para aproveitar ao máximo as mais variadas experiências gastronômicas

  1. Coma na hora certa

Faça as refeições no mesmo horário em que os moradores locais. Dessa forma, tu não corres o risco de não ter onde almoçar caso os restaurantes fechem cedo, por exemplo. Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos o jantar é bastante cedo para os padrões brasileiros, por volta das 18h. Na Inglaterra é ainda pior, no final da tarde. Por isso, se tu saíres para jantar às 21h em um desses dois países, tu vais ficar com fome;

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  1. Use os utensílios corretos – ou nenhum

É preciso ter cuidado com esse detalhe, em alguns países, comer da maneira errada pode ser uma ofensa. Então informe-se. O ideal pode ser garfo e faca, hashis, ou simplesmente comer com as mãos. O lance é dar uma espiada na mesa ao lado e copiar;

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  1. Coma sem pressa

Tu estás de férias, não precisa comer rapidão para pular para o próximo passeio. Um bom restaurante pode ser tão interessante quanto um ponto turístico. Aqui no Brasil, nossas refeições costumam ser demoradas – com exceção dos dias de trabalho e correria. O mesmo acontece na Itália, por exemplo. Então não devore um prato de pasta em 10 minutos. Saboreie;

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  1. Pesquise sobre gorjetas

Já passei muita vergonha com isso. Aqui no Brasil, é costume incluir 10% de serviço na conta final. Por isso, não temos o hábito de dar gorjeta, muito menos de 20%. Mas em muitos países, não deixar gorjeta é extremamente deselegante. Por outro lado, em lugares como o Japão é considerado ofensivo. Por isso, pesquise;

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  1. Fuja de restaurantes turísticos

Geralmente, os melhores restaurantes não estão nas proximidades dos pontos turísticos. Pelo contrário. Ali estão os lugares mais caros e com pior comida disponível. Procure os restaurantes escondidos e despretensiosos para uma ótima relação de custo benefício.


Encontrei a melhor pizza da minha vida quando me perdi em Roma. Espiei por uma porta, só vi alguns italianos. Não sabia onde estava, mas que pizza.

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  1. Coma onde os locais comem

Se você entrar em um restaurante e só enxergar turistas, há algo errado. A boa comida típica está onde os moradores estão. Uma boa pesquisa antes da viagem pode ajudar bastante. Pergunte a amigos que já visitaram o lugar.

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Pedro Henrique Gomes

O Jovem Karl Marx

Pedro Henrique Gomes
16 de fevereiro de 2018

O Jovem Karl Marx mantém vaga a cadeira disponível para que uma cinebiografia honrosa do filósofo alemão possa enfeitar as nossas memórias. O filme de Raoul Peck é altamente contraditório no mau sentido, isto é, não no sentido de como a filosofia de Marx pensava o processo da história. Peck filmou uma estátua, não um homem. Não necessariamente por idolatrar Marx, pois não parece ser esse o caso, mas antes por não penetrar o seu pensamento e, neste processo, revelar um Marx menos repleto de jargões. Dificilmente este filme articula a ideia de uma encenação econômica a uma montagem novelística (que parecem ser propostas do cineasta), pois está baseado num ritmo estranho ao próprio objeto de sua investigação.

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Os primeiros contatos com Engels, apenas modestamente criativos tal como filmados, impossibilitam que os personagens estejam à altura de suas ideias

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Embora o didatismo seja uma escolha evidente da narração, Peck conduz seu filme movendo situações por atropelos para encaixar flashes das principais (as mais virais) ideias de Marx. Não resolve muito: a gênese do jovem Marx não está lá senão como encarnação publicitária do gênio revolucionário que ele significa para a esquerda mundial, apesar da grande caracterização pessoal que August Diehl dá a seu personagem, como grande ator que é. Publica-se a lenda.

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É período pleno da Revolução Industrial e lá está tudo o que ela representou e representa: as máquinas aumentam a produtividade do trabalho, produz-se mais riqueza social, mas esta produtividade aniquila os trabalhadores que enfrentam longas jornadas por salários miseráveis e que esta riqueza não fica com eles

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Engels, Marx, Proudhon, Stirner e outros estão vendo o que Adam Smith e David Ricardo não puderam ver tão claramente pois o objeto de suas pesquisas ainda estava em transformação. O filme expõe estes contatos, as divergências, as ideias teóricas de cada um apenas rapidamente para conseguir estabelecer um corpo básico de sequências, o que é tanto sua força quanto sua fraqueza. Força, pois há um nítido esforço de representar um período central da produção intelectual de Marx dos mais complexos (o da escrita de A Ideologia Alemã, 1845/46, e do Manifesto Comunista, 1848), que talvez pela própria impossibilidade da representação seja disperso e frenético. Fraqueza, pois este frenesi empresta a Marx uma frivolidade cartunesca e, paradoxal que seja, idealista.

Por óbvio, estão lá as críticas aos jovens hegelianos, aos anarquistas (da corrente de Proudhon), aos próprios socialistas; discursos mais ou menos efusivos contra a burguesia, os alentos quantos aos processos revolucionários, a organização de alguns de seus principais textos, a vida familiar com Jenny (sobre quem, aliás, se poderia fazer uma bela peça cinematográfica), enfim, vários momentos constitutivos da trajetória do jovem Marx.

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Acaba que, diante de tudo o que o filme quer mostrar, muito da força de O Jovem Karl Marx seja apenas picotado, fique de rebote daquilo que a ânsia em construir o mito deseja priorizar

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Em observação, parece relevante dizer que a expressão dos conceitos e das ideias de Marx são matérias de duro resgate – e o filme muito bem se esquiva de trazer para o cinema um Marx profeta. Se sempre o foram para os marxistas (e talvez principalmente para eles) e para seus detratores célebres (que em grande parte o leram mal), como não haveriam de ser para um singelo cineasta?

Le Jeune Karl Marx, de Raoul Peck, França/Alemanha/Bélgica, 2017. Com August Diehl, Stefan Konarske, Hannah Steele,Vicky Krieps, Olivier Gourmet.

ECOO

Glitter não é comida de peixe

Geórgia Santos
4 de fevereiro de 2018

Pode parecer estranho vincular carnaval e sustentabilidade, eu sei. Mas a questão é que não podemos levar uma vida mais verde apenas de segunda a sexta. A mudança de hábitos para uma rotina mais rotina sustentável pode e deve estar presentes em todos os nossos atos, inclusive no carnaval. Inclusive no glitter.

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O carnaval é um prato cheio para pôr em prática novos conceitos

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Comecemos pelo óbvio de não jogar latinhas e garrafas pelo chão, e sim em lixeiras apropriadas. Quem sabe levar o próprio copo para beber cerveja em vez de usar os plásticos descartáveis, ou aquelas canecas que ficam penduradas no pescoço para o caso de o bebum não conseguir segurar, hein.

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Mas e o glitter, hein?

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Eu já falei aqui sobre o estrago que o plástico causa no meio ambiente. E adivinha do que o glitter é feito? Pois é, de plásticos. Aqueles pedacinhos lindos e brilhosos e glamourosos e, aparentemente, inofensivos são feitos de plástico. Um material que não é biodegradável e que é pequeno demais para ser filtrado pelo sistema de tratamento de esgoto. Isso significa que aquele brilho todo que escorre pelo ralo vai parar direto nos rios e mares. Reportagem da BBC explica direitinho todo o caminho.

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Mas nós sabemos que glitter não é comida de peixe

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A boa notícia é que ninguém precisa dispensar o brilho do carnaval, porque há inúmeras opções de glitter biodegradável.  Eu confesso que nunca havia pensado nisso, até porque não costumo usar o produto. Só me dei conta desse impacto no ano passado, quando visitava a cidade de San Luis Obispo, na California. Entrei por acaso na loja da Heart´s Desire Soap Co., uma empresa local que produz cosméticos 100% naturais. Comprando alguns mimos para amigas, deparei com o glitter ecológico e percebi que o brilho tradicional deveria entrar para a lista do que não usar.

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Felizmente, ninguém precisa viajar para a Califórnia para comprar glitter seguro. Abaixo segue uma lista com algumas sugestões:

Pura BioGlitter – A Pura vai para o seu segundo carnaval com glitter biodegradável, vegano e artesanal. E o resultado fica lindo!

Shock –  A Shock é uma empresa carioca que existe desde 2016 e produz glitter biodegradável, vegano e hipoalergênico. E ainda tem a vantagem de ter filtro solar (seguro);

GLITRA – Além de produzir glitter biodegradável, a Glitra ainda investe em projetos que evitam a poluição dos oceanos por plásticos

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Imagens: Pixabay e Instagram Pura BioGlitter

Tão série

O Próximo Convidado Dispensa Apresentações

Geórgia Santos
4 de fevereiro de 2018

Antes de David Letterman encerrar a estada de 30 anos no comando do The Late Show, ele entrevistou o então presidente Barack Obama, em maio de 2015. Incerto do próprio futuro, perguntou quais os planos de aposentadoria do ainda jovem político.

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“Eu estava pensando, você e eu, nós poderíamos jogar dominó juntos, sei lá, ir até o Starbucks mais próximo”, disse Obama

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Bem, o entrevistador não esqueceu da sugestão. Com um dos conhecidos copos do Staburcks em primeiro plano e uma barba quase messiânica, telefonou ao ex-presidente e fez uma proposta. Aguardou. Compensou. Barack Obama é o primeiro entrevistado do novo projeto de Letterman no Netflix, My Next Guest Needs No IntroductionO Próximo Convidado Dispensa Apresentações. E, de fato, dispensa.

Alguns poucos reclamaram da empolgação de David Letterman ao entrevistar o ex-presidente. Não gostaram do que chamaram de bajulação. Não concordo. Aliás, discordo tanto quanto possível. O que se vê não é bajulação, e sim um homem grato por ter encontrado alguém por quem nutre imenso e verdadeiro respeito, como ele mesmo diz.

Ao longo de quase uma hora, Obama fala bastante, com a usual discrição. Prefere discutir o macro a entrar nas minúcias do novo governo. Mas esta não é uma entrevista qualquer. A conversa com o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos é permeada por uma pesada carga histórica e emocional. Letterman viajou à Selma, Alabama, para atravessar a ponte Edmund Pettus ao lado do deputado John Lewis, presente no Domingo Sangrento de 1965. Na ocasião, militantes do movimento pelos direitos civis realizaram um protesto pacífico para reivindicar o direito da população afro-americana ao voto. Foram recebidos com cassetetes, gás lacrimogêneo e sangue. Muito sangue.

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O jornalista perguntou a Lewis o que estava do outro lado da ponte, simbolicamente

E o ativista respondeu sem titubear: “Obama”

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E Obama sabe disso. Sabe que é fruto daquela luta. Sabe que sem Martin Luther Jr e a entrega e o sangue de milhares de outros ativistas, os Estados Unidos não teriam tido o primeiro presidente negro em 2008. Isso também é parte da preocupação do Democrata com a horizontalidade das políticas públicas e a diminuição da desigualdade.

 

Em poucos minutos, ele consegue explicar o problema da desigualdade crescente que assola o mundo. Mais do que isso, lança a pergunta fundamental a que devemos responder.

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Como fazer uma economia nesse ambiente tecnológico globalizado que seja boa para todos?

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Precisamos buscar essa resposta. Talvez a busca seja mais importante do que a resposta em si. A primeira temporada prevê seis episódios, lançados mensalmente. Além de Obama, serão entrevistados George Clooney, Malala Yousafzai, Jay-Z, Tina Fey e Howard Stern. Uau. Não sei quanto a vocês, mas eu estou muito ansiosa.

Guia de Viagem

Como viajar apenas com bagagem de mão

Geórgia Santos
3 de fevereiro de 2018

O carnaval está chegando e muita gente vai viajar para curtir o feriadão. Alguns vão para a praia, outros para o Rio, outros para o Nordeste. Há também quem vá escapar para mais longe e atravessar o Oceano. Mas o que todos tem em comum é o fato de que ninguém quer se preocupar com o que colocar na mala. Até porque, no caso do carnaval há outras prioridades – e trajes sumários. Mas como não se preocupar?

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É muito simples, basta viajar apenas com a bagagem de mão

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Não precisa se preocupar com bagagem extraviada. Nada de ficar mil anos esperando a mala aparecer na esteira. Nenhuma chance de precisar pagar alguma taxa extra. Parece difícil, mas é bastante simples. Basta ser objetivo. No inverno complica um pouco, mas é perfeito pra o carnaval, especialmente com alguns truques na manga. E se a ideia é voltar com muitas compras, basta comprar uma mala no país de destino e despachar somente na volta, que tal?

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1. Comece comprando uma mala compacta, porém espaçosa

As malas que podemos carregar no avião, sem despachar, não são todas iguais. O ideial é encontrar uma que seja compacta, para ser fácil de carregar, mas espaçosa. De preferência com alguns bolsos externos e um expansor;

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2. Espalhe tudo pela cama

Essa etapa é fundamental. Sem pensar no tamanho da mala, espalhe pela cama tudo o que tu achas que é imprescindível. A partir daí, edite e fique com o básico;

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3. Não repita itens pesados

É absolutamente desnecessário levar dois tênis, duas calças jeans, dois casacos, duas saias. Claro que tu precisas de mais de uma blusa, por exemplo, mas leve apenas uma peça dos artigos mais pesados;

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4. Invista em peças únicas

Essa vale para mais as mulheres. Invista em peças únicas, vestidos e macacões. . Afinal, em geral, um vestido ocupa menos espaço que uma saia e uma blusa;

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5. Não exagere nas peças íntimas

Leve somente o necessário, ou seja, uma para cada dia. Afinal, não é difícil lavar uma calcinha ou cueca. O mesmo vale para meias;

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6. Economize nos cosméticos

Leve somente o essencial, o mínimo. Creme dental, desodorante, sabonete, xampu, condicionador. Se a qualidade dos produtos não for importante, nem isso precisa, já que alguns hotéis oferecem miniaturas.

O mesmo vale para a maquiagem: corretivo, batom e rímel. Até porque, é sempre uma compra possível – ou provável. Além da quantidade, cuidado com o tamanho. As embalagens precisam ter menos de 100ml e guardadas em um saquinho transparente. No carnaval tá liberado o brilho, hein;

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7. Otimize o espaço

Nada de atirar as coisas de qualquer maneira. Dobre com cuidado e organize os itens de maneira a aproveitar ao máximo o espaço da mala;

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8. Deixe os líquidos em local acessível

Nada de esconder os líquidos no fundo da mala, sempre coloque por último. Deixe por cima do restante, porque talvez a segurança do aeroporto queira averiguar; Por precaução, leve um segundo kit de higiene na bolsa;

Foto: Pixabay

ECOO

App ajuda a identificar componentes tóxicos em cosméticos e alimentos

Geórgia Santos
28 de janeiro de 2018

Uma das maiores dificuldades ao fazer a transição dos cosméticos tradicionais para os naturais é saber quais substâncias são tóxicas e quais são de baixo risco. Se o produto for 100% artesanal e natural, esse problema desaparece, afinal, é só conversar com quem fez e analisar os poucos ingredientes seguros da fórmula. Mas quando se fala em cosméticos industrializados, a situação muda de figura.

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São zilhões de substâncias com nomes confusos em latim, escritos em letra miúda e praticamente impossíveis de decifrar

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Há alguns relativamente comuns como parfum e lauril sulfato, ao menos são mais conhecidos. Mas eu, particularmente, não sei a procedência e a consequência da maioria dos componentes utilizados na cosmética industrial. E então? O que se faz nesses casos? Como avaliar as substâncias dos produtos que estão na prateleira?

Pensando nisso, a Environmental Working Group (EWG), uma organização sem fins lucrativos com foco na preservação ambiental e em um estilo de vida natural e saudável, criou um banco de dados. O EWG’s Skin Deep® mostra não apenas cada ingrediente dos cosméticos mais usados pela população em geral como ainda exibe uma classificação de toxicidade. Ou seja, ficou mais fácil saber quais produtos são mais ou menos nocivos.

O banco de dados não está disponível em português, mas é fácil consultar os ingredientes. Lembra dos nomes estranhos? Então, eles seguem um padrão internacional, então isso não muda. O único problema é que alguns produtos de marcas brasileiras não estão no cadastro. Mas aí você pode acrescentar e o programa calcula se é tóxico ou não.

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Como funciona?

Há duas possibilidades: pode ser online ou via aplicativo. A versão do site é uma barbada. É só entrar na página EWG’s Skin Deep®  e digitar, no campo de busca, o nome da marca, produto ou ingrediente.  A plataforma trabalha com a seguinte escala: 1-2 risco baixo; 3-6 risco moderado; 7-10 risco alto. Para desenvolver essa classificação, levam em conta desde riscos a alergias até câncer.

Já o aplicativo EWG’s Healthy Living tem a facilidade estar ao alcance do seu telefone. O banco de dados tem 120.000 cosméticos e alimentos e a busca pode ser feita escaneando o código de barras. O vídeo abaixo mostra como.

https://www.youtube.com/watch?v=mYIurYTifjA

E aí, vai testar? Não precisa escanear cada produto que passa pela tua mão, mas ajuda bastante. É uma boa maneira de começar a transição para cosméticos mais seguros, além de extremamente fácil.