PodCasts

OUÇA Bendita Sois Vós #37 STF, Lula Livre e Fake News

Geórgia Santos
11 de novembro de 2019

Nesta semana, Lula Livre. Vamos falar da decisão do Supremo Tribunal Federal que, por 6 votos a 5, decidiu contra a prisão após condenação em segunda instância e impactou diretamente o caso do ex-presidente Lula, que foi solto no dia seguinte à votação do STF.

Apesar de a decisão apenas ratificar o que sempre esteve na Constituição, não agradou ao ex-juiz Sérgio Moro, antes algoz de Lula, hoje ministro da Justiça. O desfecho tampouco foi uma notícia para o presidente Jair Bolsonaro, que admitiu que, sem a ajuda de Moro, o cenário político poderia ser outro.

O Supremo passou um ano discutindo uma cláusula pétrea da Constituição, mas o mais impressionante é que foi uma votação apertada; amplamente contestada por alguns setores da sociedade e seguida por inúmeras informações falsas. E é disso que a gente vai falar no programa de hoje, do STF enquanto espaço político. Participam Geórgia Santos, Flávia Cunha e Igor Natusch. 

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PodCasts

OUÇA Bendita Sois Vós #36 Os novos modelos autoritários

Geórgia Santos
4 de novembro de 2019

Nesta semana, vamos falar sobre como se constroem os novos modelos autoritários. Eles não começam com golpe, mas com presidentes eleitos democraticamente que, aos poucos, enfraquecem as instituições. Eles acontecem de dentro pra fora. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, nem tão aos poucos assim, vem se tornando um exemplo disso – na linha dos governo das Filipinas, Turquia, Rússia e Hungria.

Desde o início do governo ele se posiciona contra as Universidades Federais, contra o Ibama, contra a mídia, contra o STF, e esses são apenas alguns exemplos. E na semana que passou, o descaso pelas instituições ficou mais claro.

O nome “Bolsonaro” surgiu nas investigações do assassinato de Marielle Franco e o presidente foi rápido em desacreditar a imprensa e a polícia. E, como se não bastasse, disse que teve acesso a provas antes da investigação para, segundo ele, evitar que fossem adulteradas.

Quase completando um ano de governo, a exemplo do que fazia nas eleições, Jair Bolsonaro é um risco cada vez maior à democracia brasileira. Participam os jornalistas Geórgia Santos, Flávia Cunha, Igor Natusch e Tércio Saccol.

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Reportagens Especiais

Venezuela . a distopia após duas décadas de Chavismo

Alvaro Andrade
19 de julho de 2019

Texto e fotos: Alvaro Andrade / Venezuela

Em Caracas, no bairro 23 de Enero, os olhos de Hugo Chávez ainda pairam sobre o povo. O grafite em preto e branco com la mirada del comandante está por todos os lados e parece manter a vigilância sobre o reduto de maior apoio ao chavismo na Venezuela. A região, a menos de um quilômetro do Palácio Miraflores, sede do regime, é estratégica, pois ali estão concentrados os colectivos, grupos paramilitares criados para operarem como milícias de segurança nos bairros e que hoje são um braço civil armado do governo. No topo de um morro, à direita da entrada para o mausoléu 4 de Febrero, onde estão os restos mortais do ex-presidente, uma capela religiosa leva seu o nome e sua fotografia está posta em um altar, cercada por velas acesas e outras imagens. “Chávez era do povo, por isso é tão amado”, diz o porteiro do quartel 4F, um simpático caraquenho vestido com a indefectível camisa vermelha do PSUV, o partido socialista que comanda a Venezuela.  

Pelo caminho, parte do legado chavista pode ser notado nos incontáveis prédios de Misión Vivienda, plano de moradia gratuita que, segundo dados oficiais, já alcançou os 2 milhões de imóveis distribuídos gratuitamente ao povo. No entanto, basta afastar-se das regiões centrais de Caracas para  perceber que o bolivarianismo ainda ficou distante de muita gente.Em Petare, maior favela da América Latina, composta por 80 bairros em diferentes morros de Caracas, a insatisfação fervilhava em meados de dezembro. Moradores bloquearam a via expressa que fica logo abaixo e foram reprimidos pela Ordem Interna, um grupo militar destinado especificamente a conter manifestações.

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“Nos falta água, nos falta luz. Não há comida, nem trabalho. Prometeram um pedaço de pernil e nem isso chegou”, reclama um aposentado diante de uma oficina instalada às margens de um dos becos da favela

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Apesar da má reputação de violência e territórios controlados, Petare não se difere muito das favelas brasileiras. Casas sem reboco, vielas, escadarias, falta de saneamento e gatos de luz. Mas na capital venezuelana, a fome mata os sorrisos e todos repetem o mesmo. “Estamos  hartos!”, ou seja, cansados, exaustos, fartos de esperar. “Esse era um governo que se dizia do povo, mas já nos esqueceu faz tempo”, diz o mecânico que se desdobra para consertar um dos tradicionais veículos antigos que, assim como o país consome muito e vive cheio de problemas.

LEI DE TALIÃO

Dois retalhos de calça jeans servem como bandagem para conter a hemorragia nas pontas dos braços onde antes havia mãos; o rosto está empapado de sangue, pois os olhos e a língua também foram arrancados. Leocer Maiz, um jovem de 19 anos, foi entregue assim, com vida e consciente, no hospital da cidade de El Callao, no sul venezuelano. Ele sofreu as consequências por ter praticado uma série de roubos na região controlada pelos pranas, máfias locais que exploram ouro ilegalmente e que jamais perdem a chance de reafirmar sua autoridade.

A  mutilação de Maiz não foi um fato isolado. As máfias operam sem piedade na região conhecida como Arco Minero, a cerca de 250 quilômetros da fronteira com o Brasil. São cinco povoados às margens da rodovia Troncal-10, em uma área que parece esquecida pelo governo venezuelano.

Apesar da presença militar em postos de controle a cada 50 quilômetros, quem realmente manda na região são os garimpeiros. Las Claritas, um povoado sugestivamente conhecido como Sodoma e Gomorra, é o retrato brutal dos contrastes venezuelanos.

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Às margens das crateras e do barro da estrada que se mistura ao lixo e ao esgoto a céu aberto, se espalham vitrines de lojas com fartura digna de áreas comerciais de grandes cidades.

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“Tudo que falta na Venezuela se consegue aqui: remédios, pneus, máquinas. Também tem drogas e prostituição. Onde tem ouro, tem dinheiro, então essas coisas vêm junto”, conta Manoel González, taxista de El Callao já acostumado com a estética decadente da região. “Se não incomodar ninguém aqui, nada vai te acontecer. Mas nem pensa em filmar ou fotografar”, adverte.

O sol escaldante aquece o piso úmido e o resultado é um abafamento sufocante. Além do forte odor de esgoto, do permanente fluxo de motos barulhentas e caminhões a poucos centímetros da calçada, o semblante de quem está por ali não é nada convidativo. Bancas compram e vendem ouro à luz do dia; um grande mercado oferece de bananas a animais recém abatidos, passando por analgésicos, motosserras e muita bebida alcóolica.

Mesmo tão inóspito, o Arco Minero se converteu em uma das últimas esperanças de trabalho dos venezuelanos dentro do próprio país. Alexiis Urquia Rivas, 24 anos, tenta manter-se afastado dos problemas, mas conhece bem os riscos da região. “Aqui ainda é possível trabalhar e conseguir um pouco mais do que no resto do país. Se encontrar ouro, ganho dinheiro. Muita gente está vindo de outros estados com essa ideia, mas muitas vezes se assustam quando encontram a realidade”.

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EXPROPRIAÇÕES VIRARAM MATO

A crise se agravou desde a morte de Chávez, em 2013. O sucessor, Nicolás Maduro, que não chega à sombra do seu carisma, herdou uma crise diplomática permanente, dívida pública em alta e queda brutal no preço do petróleo, o que em parte ajuda a explicar a dimensão das dificuldades venezuelanas, além do agravamento dos bloqueios econômicos e sanções internacionais.

Enquanto Maduro implementa sucessivos planos econômicos, concede reajustes salariais para tentar conter a inflação e usa o bloqueio como justificativa para todos os males, a produção interna é praticamente nula e o país depende essencialmente de importações. A economia pouco diversificada é outro fator que agrava a situação, levando ao desabastecimento. E quando a demanda é maior que a oferta, naturalmente há  inflação.

Poucos meios de produção tomados pela revolução estão organizados e funcionando, especialmente na produção de alimentos. A maioria fica relegada ao abandono, agravando a escassez. Segundo um levantamento do Observatório de Direitos de Propriedade, 1.359 empresas foram expropriadas entre 2005 e 2017, além de mais de 5 milhões de hectares de terras, segundo a Federação Agrícola do país.

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A produção no campo minguou, as empresas alimentícias foram fechadas, o bloqueio externo se agravou e os produtos desapareceram das prateleiras.
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Desde indústrias de lácteos, passando por fábricas de cimento ou insumos agrícolas, a mão do Estado chegou a diversos setores da iniciativa privada, mas não deu sequência ao trabalho. As empresas que não foram estatizadas acabaram abandonando o país, gerando desemprego e pulverizando a classe média.

Em Valencia, multinacionais como GM, Ford, Crysler e Good Year encerraram operações por falta de matéria-prima e deixaram um rastro de mais de 10 mil desempregados na cidade, um polo industrial da região oriental. Hoje, vê-se obras inacabadas, apagões, racionamento de água e rodovias sem manutenção; as gôndolas dos supermercados já não estão tão vazias, mas os preços seguem completamente distantes do poder aquisitivo representado pelo salário mínimo. “Nosso hotel tinha ocupação média de 80%, hoje estamos em 10 a 15%”, lamenta o brasileiro Antonio, radicado há 40 anos na Venezuela. “O comunismo não deu certo. Eu, que sou empresário, já tenho dificuldade. Imagina esse povo todo na rua. As pessoas não tem o que comer, mas isso não era assim”.

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A ESPERANÇA É O MADURO DOS OUTROS

Dificilmente faz frio na Venezuela. Naquela noite de começo de janeiro, nada no céu indicava que iria chover. Jéferson, um menino de 12 anos, percebe que vou dormir na rua após o segurança pedir para me retirar do saguão do terminal de Puerto Ordaz, que será fechado na madrugada. O garoto se aproxima e me convida a dormirmos juntos sob a marquise. Gentilmente estende um dos cobertores e pede para que eu retire os tênis. “Mais tarde vai chover, mas assim você sente a brisa fresca e dorme melhor”. Ato contínuo, ele toma a outra manta e me cobre com delicadeza. “Estás cômodo?” Quase não consigo responder e me ponho a chorar, emocionado com tamanha doçura. Ele senta ao meu lado, me dá um abraço e diz para eu não ter medo. “Aqui estamos seguros”. Logo ele adormece e eu fico acordado a tempo de ver a chuva chegar. É minha última noite na Venezuela.

Antes de dormir Jéferson me contou que fugiu de casa há 5 meses, onde morava com a avó após os pais ‘viajarem’ para outro país, que ele não sabe qual. Não vai a escola. Sua vida e sua casa são o aeroporto de Puerto Ordaz, no centro-sul. Sobrevive da boa vontade dos funcionários e dos passageiros que não conseguem fugir de tanta simpatia. “Bom dia, tudo bem? Que faça boa viagem!”, exclama ele ao amanhecer, distribuindo sorrisos com a cara ainda amassada. O dia começa, os aviões pousam e decolam e ele logo se dispersa em meio ao rebuliço do aeroporto.

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Sigo conversando com os trabalhadores locais e, sabendo que sou brasileiro, fazem uma pergunta recorrente:
E o Bolsonaro, quando chega?

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De norte a sul, sufocados pela crise, é difícil encontrar quem se oponha a algum tipo de intervenção para ‘libertar’ o país. A recente escalada diplomática já era vista com muita esperança em meados de janeiro, quando a oposição articulava com governos do exterior o isolamento do presidente reeleito, Nicolas Maduro. Assim que ele foi empossado, o presidente da Assembleia Nacional, que teve poderes cassados pela Suprema Corte, autodeclarou-se presidente interino. Juan Guaidó, um deputado outsider oriundo dos protestos de 2014, assumiu o enfrentamento aberto com Maduro e convocou as Forças Armadas a apoiá-lo no golpe, mas ficou apenas com parte do apoio popular e estrangeiro.

O FUTURO

“As coisas pioraram muito desde que tu partiu. Os preços subiram ainda mais e a polícia está mais violenta. Prenderam meu sobrinho simplesmente porque ele tinha mensagens combinando que iria ao protesto do dia 23 de janeiro”, diz Jose Zerpa, um dos amigos feitos na Venezuela ao longo dos 20 dias de reportagem. Assim como ele, outros relatam sua esperança com as manifestações de apoio da comunidade internacional.

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“Eu fui às ruas, não podemos mais conviver com Maduro e esse regime”
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Em seu discurso de posse na contestada e desacreditada reeleição, Maduro prometeu combater a corrupção e corrigir rumos, mas frente a circunstâncias tão dramáticas as palavras já não dispõem de credibilidade para aplacar os críticos, muito menos colocar comida na mesa daqueles que, por falta de opção, excesso de persistência ou um tanto de malandragem dia a dia sobrevivem na terra de Bolívar.

 

Geórgia Santos

In family we trust

Geórgia Santos
18 de julho de 2019
(Washington, DC - EUA 19/03/2019) Encontro com o Senhor Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América. Foto: Alan Santos/PR

Na última semana, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que pretendia indicar o terceiro filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. O comunicado informal foi feito no dia 11, um dia depois de  Eduardo completar 35 anos, idade mínima necessária para assumir o cargo de embaixador. Em tempos de sociedade da informação, a reação negativa foi praticamente instantânea na internet. Da oposição, é claro, mas também os aliados se mostraram contrários à decisão de Bolsonaro. O “guru” Olavo de Carvalho disse que se tratava de um retrocesso.

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Até os apoiadores do Twitter roeram a corda

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É NEPOTISMO?

O primeiro “problema” é, obviamente, o fato de o presidente indicar o próprio filho para a função de embaixador no que se pode chamar de país mais importante do mundo. Não há precedentes em outras democracias. O único estadista a indicar o filho para a Embaixada dos EUA foi um rei saudita. Bolsonaro garante que não há nepotismo, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) tem decisões difusas sobre a legalidade do tema. Em agosto de 2008, foi aprovada uma súmula que proíbe a nomeação de cônjuge ou parente até terceiro grau para cargos em comissãos, de confiança ou função gratificada. Isso vale para todos os poderes em níveis municipal, estadual e federal. A questão é que  não está claro se a regra vale para cargos de natureza política,  como ministros de Estado e embaixadores.

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ELE PODE SER INDICADO?

Uma segunda crítica com relação à decisão de Bolsonaro provém do fato de que ele Eduardo não é um diplomata, logo, não poderia ocupar o cargo. Mas não é bem assim. É verdade que a legislação brasileira estabelece que os chefes das chamadas missões diplomáticas permanentes devem ser escolhidos entre os ministros de primeira ou segunda classe do Itamaraty. Mas há uma exceção. Brasileiros natos que não pertençam aos quadros do Ministério das Relações Exteriores e que sejam maiores de 35 anos de idade podem ser indicados para embaixadas. A prerrogativa de escolha é do presidente. Desde que sejam cidadãos “de reconhecido mérito e com relevantes serviços prestados ao país.” E é aí que a porca torce o rabo.

Jair, na mesma ocasião em que anunciou a possibilidade de indicá-lo, garantiu que Eduardo é a melhor pessoa para ocupar o posto de embaixador nos Estados.  “Ele é amigo dos filhos do Trump, fala inglês e espanhol, e tem uma vivência muito grande no mundo. Poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente”, disse o presidente. 

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Poderia, mas não é

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Eduardo discorda e, na mesma hora, disse estar honrado com a escolha. Não apenas isso, garantiu estar preparado para o desafio.  “É difícil falar de si próprio, né? Mas não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição, tem muito trabalho sendo feito, sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá, no frio do Colorado, em uma montanha lá. Aprimorei o meu inglês, vi como é o trato receptivo do norte-americano para com os brasileiros”, disse o parlamentar.

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EDUARDO É QUALIFICADO?

Dificilmente fritar hambúrguer no frio do Maine faça alguma diferença para quem quer ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Além do mais, alguns veículos brasileiros informaram que a lanchonete onde ele diz ter trabalhado não serve hambúrguer. Já falar inglês é importante. Mas também, há vídeos do terceiro filho de Bolsonaro que circulam pela internet e mostram o deputado falando um inglês sofrível, o que indica que ele consegue se comunicar em inglês, mas que não é fluente.

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Diante das críticas aos seus atributos, ele resolveu responder divulgando no Twitter o que ele chamou de “breve currículo”
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Foto: Reprodução /Twitter

Ai, não foi uma boa resposta. Especialmente errando a sigla da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, no caso. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro não recuou. Uma semana depois de iniciada a polêmica, ele finalmente decidiu por indicar o filho Eduardo Bolsonaro como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. E se mostrou surpreso com a “pressão” que a família vem sofrendo.

“Por que essa pressão em cima de um filho meu? Ele é competente ou não é competente? Dentro do quadro de indicações políticas, que vários países fazem isso, e é legal fazer no Brasil também, tá certo”, disse.

Não, ele não é competente, caro presidente. E o currículo que ele tanto exibe é, binariamente, uma prova bastante contundente da falta de preparo de Eduardo – e da irresponsabilidade da indicação.

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Apesar disso, a escolha de Bolsonaro faz sentido

Explico

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Bolsonaro já mostrou ser bastante desconfiado de maneira geral, o que faz com que se cerque, cada vez mais, de sua família. Esse é um traço que o presidente do Brasil tem em comum, justamente, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Afinal de contas, o conselheiro sênior de Trump é, nada mais, nada menos, que seu genro, Jared Kushner. O currículo dele é, com certeza, mais impressionante que o de Eduardo Bolsonaro, mas sua experiência como investidor e magnata do ramo imobiliário nunca o credenciaram para que ele ocupasse a posição que ocupa. Além de Jared, Ivanka Trump, a filha do presidente americano, é figurinha carimbada na administração e em eventos internacionais. Quem não lembra das caretas com que ela nos brindou durante as reuniões do G20?

Ivanka acompanhou o pai durante todo o tempo. Ela inclusive sentou ao lado dos chefes de Estado como se fosse algo absolutamente normal, como se pode ver em uma das imagens acima. Da mesma forma que Eduardo fez durante a primeira viagem oficial de Jair Bolsonaro aos Estados.

(Washington, DC – EUA 19/03/2019) Encontro com o Senhor Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América. Foto: Alan Santos/PRbaix
(Washington, DC – EUA 19/03/2019) Encontro com o Senhor Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América. Foto: Alan Santos/PR

Não acho que seja uma boa escolha, não acho que Eduardo Bolsonaro tenha o mínimo de preparo intelectual e experiência necessários para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Mas, dentro da lógica de Trump, que montou um “negócio de família”, faz sentido. “In family we trust”, parafraseando um ministro aí.

 

 

Foto de capa: Alan Santos/PR

Reportagens Especiais

Venezuela . da esperança ao desespero

Alvaro Andrade
17 de julho de 2019

Texto e fotos: Alvaro Andrade / Venezuela

O carro começa a falhar quase no topo da colina enquanto o motorista, Hermanito Manuel, chacoalha o volante buscando as últimas gotas de gasolina do Fiesta 2006 que nos traz desde Santa Elena do Uairén, fronteira da Venezuela com o Brasil. Estamos a caminho de Ciudad Bolívar em uma travessia de 750 quilômetros entre reservas indígenas e áreas de garimpo ilegal. Após vencer o pico da subida, o carro vai no embalo até encostarmos no fim de um fila quilométrica de onde só seria possível prosseguir se conseguíssemos abastecer. São 7h15 do primeiro dia de uma jornada de mais de 2000 km por terra, atravessando a Venezuela de sul a norte por cinco estados para observar o cotidiano da crise que se transformou no novo foco de tensão da geopolítica mundial.  

Nessas primeiras horas da manhã, o clima lembra o de um Mad Max pacífico: centenas de veículos esperam por gasolina há pelo menos quatro horas no acostamento de uma rodovia em área deserta do planalto venezuelano. O posto, operado por uma comunidade indígena, já recebeu combustível, mas o reabastecimento não foi retomado porque o gerador elétrico está, supostamente, com problemas.  Apesar de uma aparente displicência por parte dos donos do estabelecimento, os motoristas riem, fazem piadas, fumam e esperam sem qualquer traço de indignação diante da dificuldade para obter gasolina no país com as maiores reservas de petróleo do planeta.

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“Neste país só temos o direito de esperar”, ironiza um motorista na roda de conversa

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DA BONANÇA AO CAOS

As filas, em qualquer lugar e para qualquer coisa, são o retrato de um povo à espera da revolução prometida, mas que se tornou uma miragem. No período em que esteve no poder, Hugo Chávez aprovou e submeteu a referendo uma série de mudanças profundas nas leis do país, como a possibilidade de reeleição indefinida, a extensão do mandato presidencial para seis anos, o fim do latifúndio, a redução da jornada de trabalho de 8 para 6 horas semanais e abriu caminho para as expropriações de ‘empresas improdutivas’. Surfando na abundância do petróleo, responsável por 95% das exportações e com cotação superior a U$$ 100 o barril, o chavismo teve sua fase de ouro, desfrutou de amplo apoio popular e logrou cumprir parte das suas promessas, especialmente aos mais pobres, com a distribuição de moradias e ampliação do ensino. Mas também perseguiu opositores, aparelhou o Estado e, em nome da defesa da soberania e autodeterminação, descambou para o autoritarismo.

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Os dias atuais em nada lembram os vigorosos sonhos manifestados na posse de Chávez , em 2 de fevereiro de 1999

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Qualquer atividade cotidiana exige paciência e planejamento, pois certamente será necessário esperar. Em Caracas, filas pelo transporte público somam mais de 200 pessoas ao fim do dia; em Ciudad Bolívar, quase 100 se escondem do sol sob uma marquise diante de uma agência bancária que permite saques de 1000 bolívares (U$$ 1,50); em Valencia, há fila para comprar o CLAP, o kit de comida subsidiada vendida pelo governo para tentar aplacar a fome; em Puerto Ordaz, fila para comprar pão na padaria que conseguiu farinha.

Nos últimos  cinco anos o PIB venezuelano teve uma queda de 37%; segundo a FAO, agência da ONU para alimentação e agricultura, 3,7 milhões de venezuelanos estavam desnutridos em 2018; 87% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo estudo de uma universidade local; o governo sofre com isolamento internacional e, dentro de casa, está imerso em crise política e institucional permanente. Nicolás Maduro, o sucessor,  carrega nos braços pelo menos 125 mortos em repressão de protestos e graves acusações de prisões ilegais, tortura e violação de direitos humanos por entidades como a ONU e a Human Rights Watch

Com uma economia colapsada e inflação estimada pelo FMI em absurdos 1.000.000.000%, a Venezuela ainda é considerada o país mais violento da América Latina, com 81,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Escassez, infra-estrutura deficiente, apagões, falta de dinheiro em espécie, corrupção e uma crise política incessante impulsionam a maior diáspora de que se tem notícia no novo continente. Os números oficiais apontam quase três milhões de imigrantes, mas quem vive na Venezuela garante que o número é pelo menos o dobro – ou mais de 10% dos seus 31 milhões de habitantes. Para muitos, chegar ao Brasil significa a chance de recomeçar. 

 

SEQUELAS DE CARACAS

Sentado como pode sobre um colchão, ainda de cueca ao lado de uma garrafa pet cheia de urina, Jesús Ibarra emite com dificuldade as palavras entrecortadas por longas pausas, até que seu pai entende que ele deseja vestir-se para conceder a entrevista. O estudante de engenharia de 21 anos ficou 45 dias entre a vida e a morte após cair desacordado no poluído rio Guaire, em Caracas, vítima de uma bomba de gás lacrimogêneo disparada pela polícia, que partiu seu crânio. Ele e o pai imigraram de Caracas de ônibus até chegarem ao Brasil e, em Roraima, ao abrigo Rondon II, montado pela ONU em parceria com o governo brasileiro para mitigar os efeitos da crise imigratória de 2018.

Já sentado, Jesús lembra pouca coisa sobre os acontecimentos que acabaram por render cinco cirurgias, enormes cicatrizes na cabeça e sequelas na fala e no raciocínio que levará para o resto da vida. “Éramos apenas jovens estudantes cansados daquela situação. Alguns amigos não tiveram a mesma sorte porque o regime começou a atirar para matar”, conta. Os protestos de 2017 deixaram um rastro de mais de 120 mortos no país. Ainda sem perspectiva, aguarda pacientemente sua vez de partir para algum canto do Brasil. “Quero recomeçar minha vida”.

À ESPERA DA LISTA

Faltam poucos dias para a partida dos ônibus que fazem a interiorização dos imigrantes venezuelanos para nove estados brasileiros. No abrigo Rondon II, um dos quatro montados pelas Forças Armadas do Brasil na capital de Roraima, há muita expectativa. Assim que a lista com os nomes dos 771 passageiros é afixada em uma das janelas, logo se instala um misto de euforia e decepção entre os selecionados e aqueles que vão precisar aguardar um pouco mais para seguir viagem. O abrigo é um dos seis montados em diferentes pontos da cidade, totalizando 10 mil imigrantes cadastrados segundo balanço divulgado em dezembro.

“Vou para a Paraíba, não sei onde fica, mas qualquer lugar será melhor do que onde viemos”, diz uma das imigrantes enquanto chora e abraça os familiares ao identificar o nome entre os selecionados.  A partida deste contingente ajuda não apenas a eles próprios, mas também outros compatriotas que ainda aguardam nas ruas de Boa Vista a chance de acessar um dos centros de atenção. Apesar do esforço das autoridades brasileiras, o local é um oásis que não dá conta de suprir toda a demanda. Até passar pela triagem, receber documentação e entrar na fila de espera, famílias inteiras, com crianças e idosos, precisam se sujeitar a dormir debaixo de marquises ou em locais improvisados.

LAS OITCHENTERAS

Em outras áreas de Boa Vista a sobrevivência como imigrante impõe condições de vida ainda mais duras. As ruas de chão batido e terra vermelha dos arredores do terminal Caimbé, na zona oeste da capital, são a passarela para meninas e mulheres que tentam caprichar no sorriso e na simpatia – mesmo de barriga vazia.

As “oitchenteras”, como ficaram conhecidas em função do valor médio dos programas, não escolhem hora para trabalhar. Mesmo sob o abafamento constante da região tropical, montam em saltos altos e tentam manter a maquiagem no rosto na sua busca por clientes, mesmo à luz do dia. “Não vou te dizer meu nome porque minha família não sabe que somos putas”, diz uma das garotas, que sequer tem 18 anos. Ao lado da irmã, é econômica nas palavras.

Perguntada sobre as manchas roxas que leva na altura do pescoço, responde tentando demonstrar coragem. “Marcas da vida. Aqui é muito perigoso, mas é a forma que temos de sobreviver.” Em poucos minutos circulando pela área, é possível contar mais de 20 mulheres espalhadas pelas esquinas, sentadas debaixo de árvores e conversando com motoristas em carros de vidros escuros.

Alvaro Andrade
Mulheres trabalham a luz do dia em Roraima.

O bairro, que já não tem as melhores condições de infraestrutura, sofreu o impacto que acompanhou a prostituição. Com a abertura de casas noturnas e bares, o tráfico de drogas e a violência vieram juntos. “Não vejo a hora de sair daqui. Tínhamos um bairro humilde, mas de respeito. Agora tenho medo de sair de casa”, diz Jussara Rodrigues, aposentada de 72 anos que é uma das tantas moradoras da região que colocou a residência à venda. 

Enquanto isso, na Venezuela, a crise política não dá sinais de arrefecimento. A escalada diplomática atingiu níveis ainda mais elevados quando Nicolás Maduro tomou posse para um novo mandato de seis anos – após eleições contestadas por observadores estrangeiros e a oposição. Tanto que Juan Guaidó, um outsider eleito presidente da Assembleia Nacional, autodeclarou-se presidente interino com apoio explícito dos EUA. Ele foi prontamente reconhecido por países latino-americanos e europeus, mas reacendeu a tensão geopolítica internacional ao opor China e Rússia aos interesses de Washington no petróleo caribenho. Maduro ainda resiste graças ao poder político e econômico que concedeu aos militares, com distribuição de cargos e vistas grossas à corrupção. Com lealdade comprada e bem paga, não há sinais de que a caserna se alie a oposição e aos yanakees, aprofundando a crise para níveis inimagináveis. 

Acesse aqui a segunda reportagem da série. Venezuela . a distopia após duas décadas de chavismo

PodCasts

OUÇA Bendita Sois Vós #25 Seis meses de Bolsonaro

Geórgia Santos
1 de julho de 2019

No Bendita Sois Vós desta semana, os jornalistas Geórgia Santos, Igor Natusch e Tércio Saccol falam sobre os seis meses do governo de Jair Bolsonaro. Um período bastante turbulento e de muita disputa política. Após três meses, apenas, Bolsonaro já tinha a pior avaliação entre presidentes de primeiro mandato da história do período democrático.

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Foram seis meses de muitas mudanças no primeiro escalão, decretos e mais decretos, declarações polêmicas e gafes múltiplas

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Um governo marcado pela proximidade inegável com milicianos e que tem à frente um presidente com filho senador investigado. Sem falar no desmonte da educação; o ministro Sérgio Moro sob pressão da Vazajato e com o pacote anticrime congelado; e um Congresso rebelde.

Para discutir a performance do governo nas mais diversas áreas, o podcast traz os depoimentos do cientista político Augusto de Oliveira; do especialista em segurança pública Marcos Rolim; da professora Jananína Maudonett, especialista em educação e movimentos sociais; e ainda dos jornalistas Airan Albino, ativista do movimento negro; e Samir Oliveira, ativista da causa LGBT.

No Sobre Nós, inspirados na discussão sobre a Reforma da Previdência, um dos temas mais importante do planalto, Raquel Grabauska e Angelo Primon trazem A Velhice de Simone de Beauvoir e O Velho e o Mar de Ernest Hemingway. 

Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.

Geórgia Santos

Colectivos brasileiros?

Geórgia Santos
19 de junho de 2019
(Santa Maria - RS, 15/06/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores da população de Santa Maria. Foto: Alan Santos/PR

Durante evento na cidade de Santa Maria (RS), no último sábado (15), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) voltou a defender que os brasileiros tenham acesso a armas de fogo. Mas desta vez, a justificativa foi além da autodefesa e do papinho de que “se os bandidos estão armados, os cidadãos de bem também precisa estar”. Ele disse que é preciso armar a população para evitar golpes políticos.

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“Nossa vida tem valor, mas tem algo muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta”, disse Jair Bolsonaro

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Primeiro que eu tenho dificuldades para entender o conceito de liberdade sem vida, mas vamos deixar isso de lado. O que importa aqui é que Bolsonaro descreveu o que se conhece por formação de milícias armadas com objetivos políticos. E ele o fez de forma bastante direta.

É curioso que ele tenha proposto isso enquanto ele é o presidente. Ele quer armar a população para que os cidadãos não permitam que ele se perpetue no poder? Provavelmente, não é o caso. É mais provável que ele queira armar a população para que ninguém permita que ele seja removido do poder.

Infelizmente, a história recente da política latino-americana não permite que essa sugestão seja entendida como mais uma ideia de Bolsonaro a não ser levada a sério ou, pelo contrário, seja encarada como a visão de quem defende a democracia e a liberdade acima de tudo. Isso porque, pasmem, foi exatamente o que Hugo Chavez fez na Venezuela.

Colectivos 

Os colectivos são organizações comunitárias criadas para dar suporte ao governo da Venezuela e à revolução Bolivariana. Oficialmente, apresentam-se como grupos dedicados à promoção da democracia, à promoção de grupos políticos e atividades culturais. Alguns deles de fato auxiliam com a manutenção de centros de cuidado infantil, programas para as crianças em horário alterando ao da escola, reabilitação de dependentes químicos e ainda atividades esportivas. Mas inúmeras organizações descrevem os colectivos como gangues armadas.

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Os colectivos podem ser considerados, então, grupos paramilitares que operam como milícias e, hoje, são um braço armado do governo
Um braço civil armado do governo

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A ONG Human Rights Watch descreve os colectivos como  “grupos armados pró-governo”  e que assediam e agridem oponentes do governo venezuelano. Entre outras coisas, são acusados de atacar funcionários de canais de televisão de oposição, inclusive enviando ameaças de morte a jornalistas. Estima-se que haja entre 20 e 100 colectivos diferentes na Venezuela.

O jornalista 

Não sei se as “tentações” a que Bolsonaro se refere são as suas ou as de seus opositores – embora eu arrisque um palpite. De todo modo, é interessante que o homem que se elegeu como a salvação a quem temia que o Brasil virasse a Venezuela seja tão simpático aos métodos do vizinho. 

Ao fim e ao cabo, espero mesmo que não passe de uma conjectura minha e que seja somente mais uma ideia de Bolsonaro a não ser levada a sério. Porque duvido que seja apenas a visão de quem defende a democracia e a liberdade acima de tudo. Acima de tudo está outra coisa.

Para saber mais sobre a situação da Venezuela, ouça nosso podcast aqui.

Foto: Santa Maria – RS, 15/06/2019 / Alan Santos/PR

Voos Literários

O Brasil é Macondo, fora do tempo e sem memória?

Flávia Cunha
28 de maio de 2019

O Brasil muitas vezes me parece imerso no realismo mágico, um movimento literário que tem como principal característica a alternância entre a lucidez e a loucura. Há meses penso se comparar o monumental Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, com o atual momento político brasileiro não seria um desrespeito à memória e ao legado do genial escritor colombiano.

Porém, ao começar a pesquisa para escrever esse texto, deparei com diversas análises de especialistas em literatura que consideram o enredo Cem Anos de Solidão uma grande alegoria à história da América Latina. A repetição e a circularidade temporal seriam então metáforas para a realidade latinoamericana. Mais tranquila, prossegui na escrita dessa coluna.

Para quem ainda não leu esse clássico, a obra mostra a trajetória de sete gerações dos Buendía, com repetições de nome tão frequentes que é preciso estar atento para não se atrapalhar na leitura.  Na comparação que me permitirei fazer aqui sobre a obra de García Márquez e o Brasil, vou ressaltar uma característica dos Buendía: o vício de construir para destruir.

Aureliano Segundo foi um dos que mais fizeram para não se deixar vencer pela ociosidade. […] Para não se chatear, entregou-se à tarefa de consertar as numerosas imperfeições da casa. Apertou dobradiças, lubrificou fechaduras, parafusou aldrabas e nivelou ferrolhos. […] Vendo-o colocar os trincos e desmontar os relógios, Fernanda se perguntou se não estaria também caindo no vício de fazer para desfazer, como o Coronel Aureliano Buendía com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botões e a mortalha, José Arcadio Segundo com os pergaminhos e Úrsula com as lembranças.”

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Assim como os Buendia, os políticos brasileiros parecem ter o vício de construir, para destruir e para construir novamente em seguida. Vamos tomar como exemplo as reforma trabalhista e previdenciária

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Alguém duvida que daqui a um tempo surja algum novo governante sugerindo recriar o que hoje está sendo eliminado? E talvez esse político do futuro seja visto como um visionário, alguém que finalmente pensou no futuro dos trabalhadores.

Falando em direitos trabalhistas, um episódio da história real colombiana que foi inserido no enredo é o Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928, quando um número desconhecido de trabalhadores foi morto pela polícia. O motivo, a participação em uma grande greve de funcionários de uma multinacional norte-americana, a United Fruits. Os grevistas foram considerados subversivos e comunistas e, por isso, foram assassinados.

Na versão ficcional, o massacre é esquecido pelos sobreviventes do povoado de Macondo:

A versão oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o país por quanto meio de divulgação o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se impor: não houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das suas famílias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades até passar a chuva. A lei marcial. continuava, prevendo que fosse necessário aplicar medidas de emergência para a calamidade pública do aguaceiro interminável, mas a tropa estava aquartelada. Durante o dia, os militares andavam pelas torrentes das ruas, com as calças enroladas na metade da perna, brincando de naufrágio com as crianças. De noite, depois do toque de recolher, derrubavam as portas a coronhadas, arrancavam os suspeitos das camas e os levavam para uma viagem sem regresso. Era ainda a busca e o extermínio dos malfeitores, assassinos, incendiários e revoltosos do Decreto Número Quatro, mas os militares o negavam aos próprios parentes das suas vítimas, que atulhavam os escritórios dos comandantes em busca de notícias. ‘Claro que foi um sonho’, insistiam os oficiais. ‘Em Macondo não aconteceu nada, nem está acontecendo nem acontecerá nunca. É um povoado feliz.’ Assim consumaram o extermínio dos líderes sindicais.”

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Assim como na Macondo de García Márquez, o Brasil atual insiste em ignorar fatos históricos e tentar reescrever a História brasileira.

Não houve ditadura. Não houve tortura. Não houve censura. (Só pra quem mereceu…). Quantas gerações de Buendia brasileiros serão necessárias até o Brasil acordar desse realismo mágico, entre a lucidez e a loucura?

Imagem: Reprodução do quadro A Persistência da Memória, de Salvador Dali

Igor Natusch

Um governo de tarados

Igor Natusch
27 de abril de 2019

É tentador tratar os diferentes núcleos de interesse que constituem o governo de Jair Bolsonaro como uma coisa só. Uma inclinação que surge não só como atalho, mas também como reação: afinal, não é o que essas mesmas pessoas fazem o tempo todo, rotulando toda divergência como comunismo, todo conhecimento como libertinagem universitária, toda pauta identitária como ameaça à sociedade e à família?

Tentador, sim, mas equivocado e até mesmo contraproducente. O governo Bolsonaro está muito, muito longe de ser todo uma coisa só. E me parece que só é possível compreendê-lo minimamente (e, a partir disso, agir contra seus aspectos mais nefastos) reconhecendo as muitas distinções entre seus grupos, admitindo que estamos diante de uma geleia de motivações primárias e muitas vezes incoerentes entre si – mas que encontraram, na figura caricata de Jair Bolsonaro, um eficiente avatar coletivo.

O que não quer dizer, é claro, que nada aproxime esses núcleos. Estão, sim, unidos em vários aspectos.

O principal deles, penso eu, é a pressa.

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Talvez se possa dizer, em um resumo grosseiro, que se trata de um bando de recalcados. Não deixa de ser verdade, mas acho que outro termo define ainda melhor: penso que são, na verdade, uma legião de tarados.

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Não quero dizer, é claro, que são todos pervertidos sexuais. Alguns possivelmente sejam, e é evidente que questões de origem sexual estão no coração de boa parte das maluquices que temos testemunhado nos últimos tempos. Mas não quero brincar de psicanalista amador aqui. Me refiro à fixação doentia, que distorce o objeto da obsessão ao ponto de transformá-lo em monstruosidade intolerável – e que motiva o impulso incontrolável de reação, de confronto e, se possível, de destruição.

Como descrever, por exemplo, os discípulos de Olavo de Carvalho que querem “limpar” a educação brasileira? Pessoas forjadas no pleno desprezo às universidades supostamente apinhadas de comunistas, que defendem a necessidade de buscar o conhecimento fora do ambiente ideologizado da academia – e que, ao mesmo tempo, inventam títulos acadêmicos em um esforço de legitimação? Pessoas obcecadas em gravar cada ato de professoras e professores, resumindo os incontáveis problemas e carências das escolas brasileiras à atuação de doutrinadores desonestos contra crianças indefesas? Pessoas que não recebem o reconhecimento que consideram justo para sua suposta erudição e, como retaliação, atacam as faculdades que os rejeitam, querem extinguir os filósofos e sociólogos que se mancomunam para negar-lhes a glória? Não estamos nós diante de gente obsessiva, com recalques não resolvidos e que, agora, se apressa em eliminar o alvo ao mesmo tempo desejado e temido?

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Não são, por acaso, um bando de tarados?

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Não existe algo de tara em um ministro que, incapaz de disfarçar sua absoluta inaptidão para as relações internacionais, chega a convocar coletivas para enumerar suas ideias supostamente revolucionárias, ao mesmo tempo em que corre para deitar-se aos pés dos Estados Unidos como um cãozinho fiel? Não são, a seu modo, tarados os que loteiam o Ministério do Meio Ambiente para liberar a exploração irrestrita de recursos naturais, que aniquilam a Funai para lançar sobre os povos originários brasileiros a perspectiva de um genocídio ainda mais acelerado e brutal?

Não serão movidos por uma espécie de tara os que inserem na incontornável discussão sobre a Previdência maldades contra idosos em situação de miséria e trabalhadores rurais, para citar apenas dois casos? E não são tarados, mesmo que não sejam todos membros formais do atual governo, os que transformam a lei em salvação da alma nacional, os que fazem acusações a aplicam penas como se em missão divina, os que esperam que a lei se dobre à punição, e não o contrário?

Evidente que há muitas nuances e interesses atuando nesse cenário, e dizer que o Brasil está na mão de gente que só pensa na satisfação imediata de impulsos depravados seria cair no erro que coloquei lá no começo, de pegar uma etiqueta só e colocar em todos os produtos do estoque. Não existe uma só extrema-direita, e não existe só uma onda no mar reacionário, ainda que os efeitos terríveis sejam basicamente os mesmos. Mas não estariam juntos se algo não os unisse, e não é exatamente a família Bolsonaro que promove essa coesão, embora ela funcione bem como imagem pública e discurso catalisador.

Trata-se de um governo de tarados: cada um com um impulso diferente, mas todos consumidos pela mesma urgência, transformados em pelotão pela ânsia e pelo frenesi.

Foto: Divulgação / Governo Federal

Geórgia Santos

Bom sujeito, não é

Geórgia Santos
12 de março de 2019

Há poucos dias, li algo curioso sobre a vida do Rei Ludwig II da Baviera, que reinou entre 1864 e 1886. No texto A Oktoberfest Escondida (tradução livre), o autor garante que o chamado “Rei de Contos de Fada” detestava a célebre festa bávara. Ao que tudo indica, Ludwig II era um misantropo que não gostava de grandes aglomerações, tinha pavor de cerveja e não gostava da Oktoberfest. O texto carece de fontes, embora a personalidade reclusa do monarca seja facilmente confirmada pela literatura e História. De qualquer forma, fiquei intrigada com esse regente  que não gostava de cerveja e desprezava a festa mais famosa de seu reino.

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Imediatamente, pensei que seria o mesmo que um presidente do Brasil detestar o carnaval

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Não propriamente impensável, afinal, cada um sabe de seu cada um, como diz meu pai. Mas seria curioso, especialmente depois de testemunharmos tantos presidentes aproveitando a folia à sua maneira. Quem não lembra de Itamar Franco curtindo um camarote ao lado de Lilian Ramos? Fernando Henrique Cardoso não foi à Sapucaí durante seu mandato, mas assistiu aos desfiles em 2013 e até deu entrevista enquanto molhava o bico. Luiz Inácio prestigiou o carnaval do Rio de Janeiro quando ainda era presidente. Tem até foto de Lula tascando um beijo na careca do Neguinho da Beija-Flor. Dilma, quando ainda era ministra, vestiu um chapéu colorido e assistiu ao Galo da Madrugada em Pernambuco.

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De fato, seria curioso um presidente do Brasil detestar o carnaval

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Mas minha curiosidade seria satisfeita em breve, afinal, a realidade brasileira não decepciona, jamais. No dia do carnaval, o presidente Jair Bolsonaro fez o impensável. Publicou, no Twitter, um vídeo em que um homem urina sobre a cabeça de outro homem, na rua, durante a festa de um bloco de carnaval. Com a seguinte legenda:

“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões.”

O vídeo foi publicado sem restrição, para que todos pudessem ver e, como disse o presidente, comentar. Como se a situação não pudesse ficar pior, perguntou, também no Twitter, o que era “golden shower”, em alusão ao ato praticado pelos protagonistas das imagens divulgadas pelo chefe de Estado. Essa foi a forma que Bolsonaro encontrou para responder às críticas que recebeu em blocos de carnaval Brasil afora, em que até o seu boneco de Olinda levou cerveja na cara.

Ludwig II podia não gostar da Oktoberfest. Aliás, o tal texto dá conta de que, em 22 anos de reinado, só foi à festa em seis ocasiões e, mesmo assim, relutante. Praticamente arrastado. Mas foi. Não só foi como não teve a intenção de desmoralizá-la, pelo que consta. Não apenas tolerava como compreendia a importância das festividades para o fortalecimento da cultura de seu povo. Ludwig II podia não gostar da Oktoberfest, mas a respeitava. Algo que Bolsonaro parece desconhecer.

Preferia ter ficado na curiosidade. Preferia não saber como é ter um presidente no Brasil que não aprecie a importância do carnaval. Como diria Dorival Caymmi, bom sujeito, não é. Ruim da cabeça ou doente do pé.