Glow

Música brasileira para alinhar a vibe

Fernanda Ferrão
9 de fevereiro de 2017

 

A imagem não bate com o que tu esperas do som? AINDA BEM. Hoje o espaço é dedicado a esses três musos da nova música brasileira – Jaloo, Liniker e Johnny Hooker. Estilos bem particulares mas que têm em comum essa “imagem que faz questionar”. Se depois de olhar, ouvir, tu seguires com alguma estranheza, recomendamos uma booooa reflexão. Se não, é só dar o play.

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A nova música brasileira tem um lineup de chorar de tão bom e, graças a Dios, tem levantado questionamentos e bandeiras sobre sexualidade, gênero, racismo e todo preconceito

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Jaloo tem um ímã. Para mim, ele tem um canto de sereia, uma coisa que hipnotiza. Jaime Melo tem 28 anos, veio do Pará, faz as vezes de modelo, é tímido e contou em entrevista ao HuffPost que acabou aprendendo a cantar para acompanhar as batidas que já fazia. Nos dois shows que fui, encontrei um Jaloo calmo, com looks e apresentações marcantes e acompanhado por duas bailarinas. Os clipes do artista e os remixes que circulam por aí (como do BossInDrama) merecem o seu tempo. Uma amiga diz que “o som dele não é fácil de consumir”. E talvez não seja mesmo, mas eu prefiro classificar como “música para dançar e sentir de olhos fechados”.

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Buena onda e lacração! Para mim, isso define o fenômeno Liniker. No dia 15 de outubro de 2015, o canal Liniker fazia o upload do EP ‘Cru’. Três músicas em três vídeos gravados em casa, em uma sala de estar, para passar exatamente a vibe dos músicos. Liniker comanda sua trupe de companheiros, Os Caramelows, com turbante, saia longa, argolas, colares, brincos, delineador, batom e bigode. Sim, bigode e uma voz grave que canta “deixa eu bagunçar você” com uma potência incrível! Hoje, o vídeo tem milhões de views e o cantor contou em mais de uma entrevista que foi surpreendido pela aceitação e sucesso. O show? Você não para um minuto mesmo que não conheça todo o repertório; ‘Zero’ é cantada a plenos pulmões por todos e ainda tem o momento ‘culto’ quando Liniker e as cantoras que o acompanham fazem um verdadeiro louvor ao lacre, ao poder, ao glitter. Dá uma esperança saber que Liniker faz tanto sucesso e, por onde vai, diz que é “bicha e preta”. O cantor lançou um projeto no Catarse para financiar o disco Remonta e você pode ajudar aqui.

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“Esse é pra sangrar!”, me disse uma amiga quando perguntei qual o clima do show do pernambucano Johnny Hooker. E é a melhor definição. Nem sei se podemos chamar apenas de cantor um cara de 28 anos que é também compositor, roteirista, ator e faz performances inesquecíveis. Johnny tem um timbre rasgado, com sotaque, que marca e canta coisas como “eu vou chamar Iansã, Ogum e Oxalá, vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito”. O clipes também são sempre uma obra à parte e contam histórias de amores latinos, sofridos, barrocos, dramáticos. Que tal começar a assistir os seis minutos de “Amor Marginal”?

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Além de produzirem arte de qualidade com sons, batidas, shows, vídeos, poesias, Hooker, Liniker, Jaloo e outros como As Bahias e a Cozinha Mineira, Filipe Catto, Rico Dalassam estão redefinindo padrões (quebrando com os que existem), rompendo barreiras preconceituosas, fazendo todo mundo se questionar e evoluir através da arte.

 

ECOO

EU DESTRUÍA O PLANETA – E NEM SABIA

Geórgia Santos
7 de fevereiro de 2017

Não, não sou um meteoro – nem o da paixão – ou qualquer outro evento apocalíptico a que estamos acostumados a assistir no cinema em filmes como Mad Max, Independence Day, 2012 ou Planeta dos Macacos. Mas de certa forma, sou parte ativa de um movimento que destrói o planeta aos poucos e de maneira consistente, ou pelo menos era. Isso está mudando. Eu estou mudando.

Eu sempre tive a ilusão de que era ecologicamente correta. Isso porque vivia com meus pais em uma casa com duas claraboias, algo que diminua o consumo de energia elétrica e iluminava nossa cozinha “apenas” com a luz do sol, e com aquecimento solar da água. Além disso, separo o lixo. E não somente entre seco e orgânico, mas ainda entre papel, plástico e vidro. Ah, eu também fecho a torneira enquanto escovo os dentes. Provavelmente, a combinação dessas três coisas é mais do que grande parte da população faz, e essa ilusão me bastava.

Eu preferia ignorar o consumo de carnes e toda a espécie de produtos animais; eu preferia ignorar o fato de não consumir produtos orgânicos; de não observar se determinada empresa de cosméticos testa em animais; eu preferia ignorar o fato de os produtos de beleza e limpeza não serem biodegradáveis; de a quantidade de lixo produzido lá em casa estar acima do normal. Eu ando de carro, eu uso lã, tenho tapetes, calçados e bolsas de couro. Uso absorventes, protetores diários, sabão em pedra, detergente qualquer. Eu fumava. E a lista não termina.

Qual não foi o meu choque quando percebi que eu, uma mulher informada, antenada e consciente, não sabia absolutamente nada sobre sustentabilidade. E mais, estava destruindo o nosso planetinha sem dó nem piedade? Fiquei pasma.

Comecei aos poucos e aos poucos vou entendendo o que significa cuidar da terrinha de verdade. E eu vou contar tudo por aqui. Bora me ajudar a fazer Eco?

Enquanto isso, nunca é um mau momento para (re)ve Uma verdade inconveniente – An inconvenient Truth.

Geórgia Santos

A morte de Marisa e os lados da ignorância

Geórgia Santos
7 de fevereiro de 2017
Foto: Paulo Pinto - Agência PT

Em inúmeras ocasiões pensei que o ser humano não poderia ser mais torpe. E não falo de ações individuais de um serial killer, falo do inconsciente coletivo, mesmo. De ações de massa. Mas em (quase) todas essas ocasiões eu fui surpreendida: nós sempre podemos descer mais um pouquinho. E as reações à doença e morte da ex-primeira dama Marisa Letícia  e suas consequências foram o exemplo perfeito do quão pequenos podemos ser.

Aos 67 anos, a esposa do ex-presidente Lula sofreu um AVC e permaneceu internada por dias no hospital Sírio-Libranês, em São Paulo. Bastou a primeira linha da primeira notícia para as redes sociais serem inundadas por CELEBRAÇÕES. Sim, houve quem comemorasse o derrame de uma mãe, de uma avó, de uma companheira, de uma amiga, de uma pessoa. Bestas latiam enquanto se deleitavam com o sofrimento da “ladra” – o adjetivo mais leve dirigido à enferma. Houve, também, manifestações de solidariedade, mas essas foram apagadas pela enxurrada de ódio, que exigia resposta dos solidários.

Quando a morte de Marisa foi confirmada, na última sexta-feira (3), a canalhice continuou. Memes de péssimo gosto circulavam pelos celulares via WhatsApp, eram compartilhados no Facebook e enaltecidos por insensíveis.

A ignorância não tem fim, pensei eu. Triste.

Mas os insultos não estavam restritos às redes e pequenos grupos. Tampouco a quem detesta o PT e o que ele representa. Pelo contrário, eles estavam por todos os lados. Mas com alvos diferentes. Durante o velório da ex-primeira dama, um repórter da TV Globo não apenas foi impedido de trabalhar por quem frequentou a cerimônia como foi agredido física e verbalmente. “Assassino”, gritavam. Creditando o AVC sofrido por Marisa ao trabalho da mídia tradicional que, segundo eles, estava empenhada em acabar com Lula. Episódio similar ocorrera um dia antes quanto Michel Temer prestou solidariedade ao ex-presidente com uma visita ao hospital. Ele também fora chamado de assassino.

A ignorância se perpetua, pensei eu. Cada vez mais desiludida.

Então chegou o momento em que Lula discursou ao lado do caixão da esposa. Com os olhos vermelhos e lavados, lembrou da vida que construíram juntos e enalteceu a mulher. Terminou, no entanto, em tom surpreendente: “Marisa morreu triste”, disse ele, que explicou que a mulher estava sofrendo com o que ele chamou de perseguição. Achei inadequado, sim. Mas quem sou eu para dizer como um homem em luto deve se comportar? Como disse um amigo, se existe alguém, nessa história toda, que tinha justificativa para ser inadequado diante de tudo o que está acontecendo, esse alguém é Lula. Não por uma questão política, não está em jogo se é homem bom ou não, se roubou ou não, se foi bom ou mau presidente. Mas por uma questão humana. É um homem que acabou de perder a companheira de uma vida toda.

Porém, não há perdão. Rapidamente uma colunista que prefiro não citar o nome se apropria da situação e escreve: “Case com alguém que não vá fazer comício no seu velório quando chegar a hora.” Ora, é muito baixo. Crítico de velório é demais pra minha cabeça.

De fato, é desumano celebrar a morte de Marisa. É torpe chamar repórter de assassino. E baixo usar a morte politicamente.

A ignorância não escolhe lado.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Eu, Daniel Blake

Pedro Henrique Gomes
18 de janeiro de 2017
Eu, Daniel Blake (divulgação)

Por Pedro Henrique Gomes

Daniel Blake sofreu um ataque cardíaco. Segundo recomendações de seus médicos, está impossibilitado de trabalhar. Ele entra com um pedido de auxílio financeiro, que lhe é devido, junto ao órgão de Seguridade Social inglês, mas tem seu pedido negado: o Estado alega que ele está em condições de trabalho. Tenta recurso, desiste, encontra com as dificuldades impostas pela falta de dinheiro, conhece pessoas em situações semelhantes, ajuda como pode.

Eu, Daniel Blake, o novo filme de Ken Loach, Palma de Ouro no último Festival de Cannes, pretende que o espectador se indigne diante das dificuldades impostas pelo Estado para que um cidadão consiga ter direito a um benefício previdenciário básico.

Loach é daqueles cineastas que não abre mão do estilo e da determinação de sua militância. De suas imagens, a tradição do espírito operário resplandece. A mira, no entanto, nem sempre acerta o alvo. A sua agenda política (que em linhas gerais são justíssimas e compreensíveis) coloca seus filmes dentro de uma norma que ele próprio não consegue transpor para além de certo engessamento narrativo. Seus filmes, mesmos os melhores (Os Ferroviários, de 2002, por exemplo), travam na unilateralidade de suas observações, destituindo-nos daquele mistério contraditório e das tensões que propõem os grandes filmes baseados no “realismo social”.

Loach condena o cinema hollywoodiano (este dos grandes espetáculos) por seus esquemas estéticos e políticos, todavia permite que seus filmes se embriaguem em um nível de chantagem emocional estranho para um cineasta do seu timbre. Eu, Daniel Blake não foge ao riscado.

Ainda que engessado, ainda que repleto de atalhos discursivos e adaptações absurdamente pesadas para passar a mensagem necessária, Eu, Daniel Blake dá indícios, logo em seu início, de que Loach tentará olhar a complexidade do mundo (mesmo que seja do mundo em que ele se insere, ideologicamente falando) sem suas certezas habituais que resultam num enquadramento sociológico severamente limitado.

Que numa modernidade capitalista as individualidades sejam alçadas a um patamar primordial, que a competitividade do mercado e o alargamento dos espaços privados sobre os públicos sejam sintomas, que o Estado burocratizado em consórcio pútrido com o mercado seja um convite ao abandono dos populares, isto parece sensato dizer – e a obra de Loach nos diz.

Mas o filme não precisa necessariamente que o espectador compartilhe de suas crenças, pois nada muda: o seu prato já vem servido e não podemos acrescentar temperos. Resta observar a degradação humanitária da qual seu filme provavelmente se alimentará. A burocracia vence, derrotando a esperança. Há como reerguê-la?

Pedro Henrique Gomes

2016: os 11 melhores filmes do ano

Pedro Henrique Gomes
18 de janeiro de 2017
Carol (divulgação) Carol (divulgação)

Por Pedro Henrique Gomes

Virada de ano religiosamente publico uma lista com os melhores filmes que vi. São 11, do goleiro ao atacante. Como é a primeira lista desta coluna, explico sumariamente o critério adotado: filmes que entraram no circuito de exibição a partir do primeiro dia do ano. O primeiro lugar deixei para Carol, esse filme grandioso do Todd Haynes. Nele, tudo é tão insólito que sem dúvida é real (Oh, Piglia!).

Sem muitos desdobramentos, eis os meus filmes favoritos de 2016:

1 – Carol, de Todd Haynes (EUA, 2015)

2 – Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia, 2015)

3 – Elle, de Paul Verhoeven (França, 2016)

4 – Creepy, de Kiyoshi Kurosawa (Japão, 2016)

5 – A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien (China, 2015)

6 – Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas (Brasil, 2014)

7 – Sangue do Meu Sangue, de Marco Bellocchio (Itália, 2015)

8 – Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira (Brasil, 2014)

9 – Sully – O Heroi do Rio Hudson, de Clint Eastwood (EUA, 2016)

10 – Certo Agora, Errado Antes, Hong Sang-soo (Coréia do Sul, 2015)

11 – A Vizinhança do Tigre, Affonso Uchoa (Brasil, 2014)

Geórgia Santos

Meia-noite ainda não chegou mas a legalidade já virou abóbora

Geórgia Santos
12 de setembro de 2016

Era uma vez uma jovem chamada Democracia.

Linda, era daquele tipo de mulher que contagia, sabe? Uma brasileira voluptuosa de cerca de 30 anos com um poder hipnotizador. Com aquele sorriso largo, cheio de dentes e significado, ela dominava qualquer ambiente. Parecia quase uma justiceira, uma Mulher Maravilha em roupas mais discretas, talvez, mas sempre com o laço da verdade.

Ela era do tipo que acreditava realmente na igualdade, dizia que somente na igualdade nossa sociedade pode evoluir. Mais do que isso, ouvia a todos com a mesma atenção enquanto pregava que a liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades. Ela era tão livre que costumava sair correndo por aí, deixando sua marca por onde quer que passasse. Mas ela detestava atalhos. Ah, como detestava.

Mas esse caráter afável e altivo da Democracia a deixava vulnerável. Ela confiava e abraçava a todos mas nem todos o faziam com sinceridade. No discurso, eram amigos, mas pelas costas, o jeito faceiro dessa mulher inteligente e intensa, com os lábios sempre pintados de vermelho, incomodava aos que preferem uma moça recatada e do lar.

Em público, era a namoradinha do Brasil. Mas a portas fechadas, diziam que não é pra casar.

Todo o cinismo a deixou frágil a ponto de ela se tornar refém de sua madrasta, dona Câmara, que tinha duas filhas muito malvadas, chamadas Corrupção e Farsa. Ah, como elas a maltratavam. Dona Câmara fazia dela um joguete, usava seu nome quando considerava conveniente, mas não tinha a menor consideração por ela, o menor cuidado. E suas irmãs não perdiam a oportunidade de a destruir. Corrupção e Farsa constantemente espancavam Democracia diante de todos, que assistiam atônitos ao espetáculo. Rasgavam sua roupa, machucavam seu corpo e cometiam os abusos mais atrozes.

Depois de muito sangrar, porém, Democracia se reergueu. Com a ajuda de tantos admiradores que jamais deixaram de acreditar, ela percebeu que podia confiar no futuro. Justiça, a fada madrinha, preparou-a para uma nova vida. Pegou uma abóbora, transformou-a em bicicleta mágica e chamou de Legalidade.

Por um tempo,  a Legalidade conduziu Democracia. Por caminhos tortos às vezes, é verdade, mas elas sempre chegavam ao destino.

Justiça não avisou, no entanto, que Legalidade sucumbiria eventualmente.E todos descobriram da maneira mais dura.

Meia-noite ainda não chegou, mas Legalidade já virou abóbora e Democracia está ferida.

(Espero que não seja o Fim)

Geórgia Santos

R.I.P. Jornalismo ou (Você não pode achar isso normal)

Geórgia Santos
12 de setembro de 2016

Em 2013, os brasileiros foram surpreendidos com protestos massivos, que reuniam milhares e milhares de pessoas nas ruas de inúmeras cidades do país. Quem preferiu testemunhar do sofá, via a tudo estático, extasiado, empolgado e até assustado. Em grande parte, foram transmitidos em tempo real em canais de notícias da TV Fechada, especialmente a GloboNews. Até que alguém cunhou uma frase que resumia bem a situação: “O gigante acordou”. As pessoas, de repente, lembraram que a rua era, sim, lugar de protesto e reivindicação. E mesmo um público tão heterogêneo como aquele poderia querer a mesma coisa.

Ao longo desses últimos três anos, muita coisa aconteceu. Muitos protestos também. E com eles, muitos repertórios de reivindicação pertencentes a uma gama ampla e diversa (cartazes, gritos, apitos, depredação etc). Foi contra o governo em 2013, contra a Copa em 2014, contra Dilma em 2015, contra e a favor do Impeachment em 2016.

Com relação a esses últimos, a grande imprensa teve uma reação quase orgásmica. Deleitava-se com os protestos que fazia questão de dizer que eram pacíficos enquanto mostrava fotografias de criancinhas abraçadas em policiais e babás empurrando os carrinhos do bebê. Mas tudo bem, manifestação mais do que legítima e definitivamente expressiva (alguns falam na casa do milhão, mas as fotos são contraditórias. Deixemos assim).

Já sobre protestos contra impeachment, o foco da mídia é a “destruição”. Milhares de pessoas tomam as ruas, mas o mais importante é confronto com a polícia. Milhares estão indignados com a situação política, mas o grupo de 10 vândalos tem mais destaque. Uma menina ficou cega, mas o absurdo está em queimar contêiner.

Que seja. It happens.

Mas nada foi como que o jornal O Estado de São Paulo fez hoje.

Ontem (04), mais de cem mil pessoas saíram às ruas da capital paulista (e outras cidades do Brasil) para protestar contra o novo “presidente”, Michel Temer, que havia dito que havia umas 40 pessoas na rua. O “Fora Temer” ecoava pelo país inteiro em um grito pacífico. Sim, pacífico. Sem quebradeira, sem vandalismo, sem incêndio.

Sabe qual foi a capa do jornal O Estado de São Paulo nesta segunda-feira, dia 05?

A CANONIZAÇÃO DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Meia dúzia de palavras sobre o protesto em uma nota microscópica que ressalta um tumulto inexistente e nenhuma foto.

Em outros periódicos, frisaram o “confronto” que ocorreu no final do protesto. Detalhe, não houve confronto, apenas uma ação arbitrária da polícia, que usou bombas de gás para dispersar o público que não fez absolutamente nada a não ser gritar. Além, é claro, do jornalista agredido gratuitamente por policiais.

Se os manifestantes choraram a morte da democracia, eu registro aqui meu pesar pelo falecimento do jornalismo.

Tércio Saccol

Apesar da crise

Tércio Saccol
12 de setembro de 2016

A abordagem da imprensa tradicional na cobertura econômica costuma ser alvo constante das discussões ideológicas que circulam – prensadas entre discursos de ódio, ironias e ofensas – nas redes sociais. Entre as correntes mais heterodoxas, ressaltaram-se as reportagens encabeçadas pelo “apesar da crise” uma espécie de mote para ressalvar conquistas e méritos mesmo em meio à recessão atribuída, em grande escala, à ausência de planejamento do governo brasileiro.

O apesar da crise tem muito de piada, mas é a máxima que simplifica e traduz, de certa forma, parte da linha que norteia a maior parcela do jornalismo econômico produzido atualmente. A ausência de contexto, de reconhecimento e análise sobre os emissores das mensagens recorta uma realidade apenas parcial. Ao exaltar o apesar da crise como exceção meritória em meio a um lamaçal entendido como criado exclusivamente por gestão pública, reverbera-se, na realidade, uma visão de mundo. E é justo que ao acertarmos nossos acordos com ouvintes, espectadores e leitores, o façamos ler as letras miúdas.

Recentemente, uma reportagem sobre o pós-governo Temer, o título “PIB deve melhorar, mas desemprego e inflação devem piorar”, ressalvando, em uma unanimidade de economistas a correção providencial de rumo na economia, quase que suavizando o momento tão conturbado. Ora, se por um lado, as políticas macroeconômicas visam alto nível de emprego, estabilidade de preços, distribuição de renda e crescimento econômico de forma minimamente equânime, por outro, não se pode esquecer a dimensão de cada um desses temas para nossos públicos. Desemprego e inflação podem ser mais do que tópicos para alguns milhões.

O espectro do recorte que exalta a necessidade de severos ajustes e reformas capitaneadas por grupos de economistas, também ecoa uma corrente de pensamento. Nem todo ajuste encontra concordância e naturalidade unânime. Atrás dos microfones e das canetas que conduzem as palavras, há sempre interlocutores. É justo que, seja amparada pela Escolas Austríaca, Keynesiana, Marxista ou de Chicago, não se traduza um discurso como universal, como verdade exclusiva, como linha única para o jornalismo econômico. Para uma ciência multifacetada, uma visão plural.

Nós US

Ainda sobre aquele muro…

Sacha
12 de setembro de 2016

Com todos os despropósitos que vimos este humilde 2016, chegamos a setembro com mais outra para o monte de lixo acumulado, na forma de uma visita ao México de um senhor candidato à presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Já estamos quase acostumados à discrepância entre a seriedade e formalidade do cargo e o irascível circus peanut* antropomorfizado que é o Trump. Desta vez foi ao México fazer diálogo com o presidente desse país, Enrique Peña Nieto, depois de largos meses passados a chamar imigrantes mexicanos de tudo menos estimáveis e valorosos para os Estados Unidos. O objetivo? Fortalecer relações e promover a unidade entre os países, ao estilo de uma visita oficial de estado. Meras horas depois, numa conferência de imprensa habitual do candidato, voltou a dizer as mesmas asneiras de sempre sobre os imigrantes naturais do país visitado. Parece ironia, mas não.

Há especulação (e parece-me a explicação mais provável, a mais) de que esta viagem foi uma tentativa por parte da equipe Trump moderá-lo por influência imediata, ou seja, somente, através de discurso direto com quem tem a chave de ouro do fluxo migratório norte-americano, consegue convencê-lo alterar o discurso radical. Visto o improviso com que o Trump tem proclamado sobre basicamente todos os temas políticos do dia além da polémica migração de muçulmanos e mexicanos, a estratégia até parece boa: o político pretendido formula uma posição na hora que, sem querer pedir desculpas ou parecer fraco no seu posicionamento, fica desdobrado depois. O problema é justamente que este é o issue mais pressionado pelo próprio Trump e por mais influenciável que seja, forma base do seu pensamento político. O fracasso é evidente. O circo mediático e correspondente falta de política a sério continua igual.

*lit. “amendoim de circo”, confeito parecido com o marshmallow criado nos Estados Unidos, amado por crianças e detestado pelos próprios pais e outros adultos com bom senso desde meados do século 20, com textura e gosto artificiais, geralmente de cor-de-laranja pálida.

Reporteando

O adorável risco de recomeçar

Renata Colombo
12 de setembro de 2016

Quando digo a mim mesma que não seria outra coisa na vida que não jornalista, o frio na barriga é um dos motivos. Nem tudo na profissão são flores, quase nada na verdade. A gente ganha mal na maioria das vezes, sofre boicotes, se frustra, ouve mais nãos do que sins. Mas tem sensações que compensam e nos levam à realização pessoal e profissional tão grandes, de desafiar a si mesmo, de provocar uma mudança real no mundo, que a balança equilibra. O que é ruim já não é mais tão péssimo. O que é bom fica ainda mais ótimo. E não, isso não é um texto de autoajuda. É o relato de alguém que virou a vida de cabeça para baixo pra descer de novo a montanha russa e faria de novo e de novo.

Quando falo em desafio, falo em risco, em ter coragem, em ir até o fim, em não sossegar até conseguir, em provar, contestar, não se contentar, não se acomodar, se orgulhar. Isso não se aplica somente no dia-a-dia ou em uma apuração. Este comportamento vale para a vida, afinal vida de repórter passa da porta da redação, é na verdade do lado de fora dela. 
Quando falo que vale para a vida é porque a profissão e a vida neste caso se misturam. O jornalismo anda ao lado, a notícia assopra num ouvido, a desconfiança sussurra no outro. Mas ele anda descuidado. Os reporteiros andam apressados, ansiosos, preguiçosos, desovam tudo antes de sentir aquele frio na barriga que falei lá em cima. Sabe quando parece que borboletas dançam lindamente no estômago? É isso. Poucas coisas na vida da gente fazem sentir isso. Temos que cuidar disso. Estamos aqui pra falar e cuidar disso.