Não foi nada fácil fazer uma retrospectiva de 2019. De todo modo, todos nós, do Vós, concordamos que o ano foi marcado pelo desgoverno de Jair Bolsonaro. Então selecionamos alguns temas em que esse desgoverno se destacou. Começamos com as questões ambientais, em especial os incêndios na amazônia e vazamento de óleo – sem esquecermos, é claro, das declarações estapafúrdias do presidente.
Outro tema em destaque é a corrupção. Porque apesar de o ministro Sérgio Moroafirmar que não houve corrupção em 2019, encerramos o ano com mais notícias das rachadinhas do clãBolsonaro – sem falar no escândalo da Vazajato.
Não podemos esquecer que 2019 também foi o ano em que a educação foi acossada, universidades federais atacadas e Paulo Freire, sim, Paulo Freire, demonizado. A desigualdade aumentou e o ministro da economia, Paulo Guedes, não parece se incomodar com isso. Sem contar os constantes ataques às minorias, que foram normalizados – senão institucionalizados.
Para acompanhar as discussões dos jornalistas Geórgia Santos, Tércio Saccol e Igor Natusch, selecionamos algumas das entrevistas que fizemos ao longo de 2019 para o Bendita Sois Vós. Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.
A expressão latina quid pro quo significa a ação de dar uma coisa em troca de outra. No vivíssimo português, o sentido da frase ancestral se transformou graças a um livro farmacêutico levava esse nome. Com orientações para aplicar um princípio medicinal em vez de outro, com os mesmos efeitos, a publicação levou a culpa pelas confusões cometidas por seus leitores. Cada erro de receita sustentava o que virou o tão nosso quiprocó.
Coube ao ordenamento jurídico dos Estados Unidos trazer o original latino de volta à pauta. O presidente Donald Trump, denunciado na Câmara dos Representantes por abuso de poder e obstrução do Congresso, responderá a um processo de impeachment no Senado.
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O motivo? Quid pro quo!
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Trump teria oferecido, ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, liberar recursos retidos na área militar. Em troca, o hóspede da Casa Branca pediu uma atenção especial à suspeita de envolvimento de Hunter Biden (filho do ex-vice e atual pré-candidato democrata à presidência, Joe Biden) em um esquema de corrupção empresarial no país do leste europeu.
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Na pura essência das letras, _quid pro quo_!
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No início de dezembro, Donald Trump anunciou sanções a Brasil e Argentina pela desvalorização do real e do peso diante do dólar. Segundo o presidente dos Estados Unidos, os dois latino-americanos se aproveitavam deliberadamente do peso e do poder da verdinha. Como punição, taxas sobre o aço e o alumínio produzidos por aqui. O presidente Jair Bolsonaro disse ter uma linha aberta com o colega do norte, mas não houve correspondência. E antes já tínhamos ficado a ver navios no caso da OCDE, quando Trump preferiu apoiar a adesão de Argentina e Romênia no grupo dos ricos.
Na nossa nova diplomacia, com Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e America first, Bolsonaro bem que queria firmar um quid pro quo com Trump. Mas só dando e sem receber nada em troca, apenas nos sobrou o quiprocó.
OUÇA Bendita Sois Vós #41 O que acontece quando não estamos olhando
Geórgia Santos
16 de dezembro de 2019
O Bendita Sois Vós desta semana trata das coisas que acontecem quando não estamos olhando – e quando estamos olhando também. Com este governo, não podemos piscar.
Porque enquanto Jair Bolsonaro chama Greta de Pirralha, indígenas estão sendo assassinados em suas terras. Enquanto a gente presta atenção ao presidente, o Congresso aprova o pacote anticrime, que de anticrime não tem nada. Enquanto se discute a liberdade de expressão no humor, o prefeito do Rio de Janeiro veta jornalistas da Globo de participarem de coletiva. E um homem veste uma suástica enquanto se distrai em um bar com naturalidade
Com Geórgia Santos, Igor Natusch e Tércio Saccol. Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.
OUÇA Bendita Sois Vós #40 Pessoas com deficiência na mira do governo
Geórgia Santos
9 de dezembro de 2019
No episódio 40 do podcast, os jornalistas do Bendita Sois Vós discutem o retrocesso com relação aos direitos das pessoas com deficiência que está em curso no Brasil. O novo marco regulatório da educação especial propõe que estudantes com deficiência estudem em escolas e classes especiais.
Além disso, projeto de lei encaminhado pelo governo de Jair Bolsonaro ao Congresso Nacional pretende modificar a atual política afirmativa para o acesso de pessoas com deficiência ao emprego.Segundo o texto do PL 6.195/2019, as empresas poderão substituir a contratação pelo pagamento de um valor equivalente a dois salários mínimos mensais.
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Hoje, as pessoas com deficiência no Brasil somam 14 milhões, e elas estão prestes a perder seus direitos
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Para compreender o tamanho do retrocesso, o convidado da semana é o professor Felipe Mianes, doutor em educação e especialista em educação inclusiva. Participam os jornalistas Geórgia Santos, Flávia Cunha e Igor Natusch. Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.
(Bento Gonçalves - RS, 05/12/2019) Presidente da República Jair Bolsonaro, assiste à Assinatura de Atos.
Foto: Alan Santos/PR
Depois de tantas crises espalhadas pelo continente, coube a Bento Gonçalves fechar o ano de 2019 no Mercosul. A cidade da serra gaúcha recebeu a Cúpula de Chefes de Estado do bloco econômico em um período de incertezas e de ruídos entre os países. O Brasil de Bolsonaro deixou clara sua mensagem aos povos (e, principalmente, ao diplomatas, ministros e presidentes) vizinhos.
O país, por intermédio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu a abertura do Mercosul à economia mundial. O chanceler defendeu acordos bilaterais mais flexíveis e parcerias com a Europa, além de países asiáticos, caribenhos e latino-americanos. Até aí, uma posição legítima. No entanto, o discurso pragmático tinha em si doses de olavismo.
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Araújo condenou o “socialismo”, tratando como uma força que para o trem do desenvolvimento da América do Sul
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Disse que o modelo foi aplicado no Mercosul pelos governos anteriores e pela Venezuela, que colocaram o continente no “fundo da caverna”. O chefe do Itamaraty foi mais longe: disse que o Brasil de hoje não age mais por ideologia.
O recado foi interpretado, por jornalistas e correspondentes que cobrem a Cúpula, como um recado à Argentina de Alberto Fernández, que assume o poder no dia 10 de dezembro. O peronista de centro-esquerda chegou ao poder com o apoio do kirchnerismo, uma vertente que, na economia, adota uma postura bastante protecionista no mercado.
Se Araújo e Paulo Guedes, o ministro da Economia, realmente não têm ideologia e vão se guiar pelo pragmatismo, deverão sentar para conversar com Fernández e seu novo gabinete. Se o governo Bolsonaro quiser imprimir uma postura mais flexível e liberal na economia – e repito, é legítimo – não vai poder tratar tratar um governo igualmente legítimo da forma como vem tratando. Se o Brasil quiser tratar o Mercosul não mais como um “freio”, mas como um “acelerador”, conforme declarou o chanceler, vai ter que conversar com os russos… ou melhor, com os argentinos!
Bendita Sois Vós #39 Aliança de Bolsonaro com Bolsonaro
Geórgia Santos
2 de dezembro de 2019
Trinta e oito – 38, o número escolhido por Jair Bolsonaro para representar o novo partido da família, o Aliança Pelo Brasil. Mas não o novo partido da família brasileira, e sim o novo partido da família Bolsonaro. Jair será o presidente, o filho mais velho, o Senador Flávio Bolsonaro, será o primeiro vice-presidente, e o filho mais novo, Jair Renan Bolsonaro, será vogal. Não, não é uma letra, é um membro com direito a voto.
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O partido tem sido identificado, pela maioria dos analistas e cientistas políticos, como de extrema-direita e ultranacionalista
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Mas para Bolsonaro é apenas um movimento tradicional e conservador. Para tentar compreender onde o Aliança Pelo Brasil se encaixa na política brasileira, conversamos com o cientista político Rafael Machado Madeira, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS.
No estatuto do Aliança pelo Brasil, espera-se que os filiados sejam contra a descriminalização das drogas e do aborto e combatam ao comunismo,nazifascismo e ao globalismo.Também é esperado que defendam a família, a natureza das crianças, a meritocracia e o porte e posse de armas. Ah, e a democracia, mas aí é só um detalhe, não? De todo modo, o partido ainda não existe oficialmente, embora já tenha milhares de seguidores nas redes sociais.
Participam os jornalistas Geórgia Santos, Igor Natusch e Tércio Saccol. Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.
Em 2012, eu tive um sonho com Brilhante Ustra. Um pesadelo, melhor dizendo. Embora minha recordação é de que tenha sido um sonho breve, foi algo tão intenso que eu o recordava nitidamente na manhã seguinte, ao ponto de me sentir capaz de registrá-lo. Publiquei um texto sobre ele no meu antigo blog, que hoje está offline.
Era assim:
“Sonhei que estava em uma coletiva de imprensa na qual falaria o Brilhante Ustra. Pelo jeito, ele ia anunciar que estava livre de processos judiciais, comemorar a impunidade garantida a ele pela Lei da Anistia – ao menos, é essa a pauta que eu recordava ter recebido.
A sala era ampla e estava cheia de entusiastas, muitos militares, alguns poucos repórteres. Um deles, conhecido meu de pautas em Assembleias e Câmaras por aí, comentou comigo, em voz baixa:
– Pelo jeito, esse cara se escapou mesmo…
Respondi, em um cochicho, com um tom de ironia:
– Se escapou nada, nem imagina a matéria que eu vou fazer sobre essa palhaçada toda!
Ustra estava com uma expressão radiante, plena de confiança. Sorria. Recebia tapinhas nas costas. No centro da sala, uma imensa bandeira brasileira, de verde vivo e chamativo. Nos cantos do palco (pelo jeito, a coletiva seria em um palco), estranhos arranjos misturando rosas brancas, lírios e metralhadoras.
Eu, sentado a um canto, sinto nojo daquilo tudo.
Começa a tocar o hino nacional. Todos se erguem, em júbilo absoluto, para saudar a pátria mãe. É como a abertura de uma convenção partidária. Eu permaneço sentado, segurando o bloquinho e a caneta.
– O senhor precisa se levantar. É o hino – diz uma pessoa, cujo rosto eu não enxergo.
– Não vou me levantar – respondo eu, em voz branda, mas já prevendo incomodação.
– Levante e saúde o líder – disse outro, mais ríspido, me tocando no ombro.
Repeli sua mão. Outras pessoas começam a se aproximar. Meu colega jornalista (que estava de pé, mas sempre esteve de pé, então não era por adesão a eles que se erguia) tentava debilmente me defender.
– Não vou levantar. Não vou! – continuava eu, já cercado, levando os primeiros empurrões, enquanto o hino tocava mais alto, cada vez mais alto.
Acordo a instantes do linchamento.”
Hoje entendo que esse sonho foi profético. Para mim, nem é questão de acreditar nessas coisas ou não: basta comparar o que me restou de memória com o que vejo hoje, nos jornais impressos e nos sites de notícias, e a certeza é impossível de contornar.
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Lembro do arranjo de balas de grosso calibre que alguém achou por bem fazer para homenagear a Aliança Pelo Brasil, movimento fascista que finge desejar ser um simples partido político
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Lembro dos alucinados marchando e batendo continência para uma réplica da Estátua da Liberdade, em frente a uma loja da Havan. Lembro do parlamentar que transformou uma bandeira brasileira em terno, e de outro que vociferou frases horrendamente racistas em plenário, às vésperas do Dia da Consciência Negra. Lembro do filho do presidente dizendo que, se os opositores não ficassem quietinhos, podia rolar um novo AI-5 – um desaforo que deveria resultar em cassação de mandato, embora eu tenha a triste certeza de que não chegaremos nem perto disso.
Lembro da ideia simplória e estúpida de que basta espalhar colégios militares pelas principais cidades brasileiras para a educação dar um salto de qualidade. Do presidente propondo, aos sorrisos, que militares em operações de Garantia da Lei e da Ordem tenham carta branca para matar. Do governador do Rio de Janeiro metralhando favelas com helicópteros, comemorando a morte de um sequestrador com grotescos socos no ar. E lembro não só do então deputado federal (e agora presidente) evocando a memória de um torturador desumano para agredir Dilma Rousseff, como do chanceler distribundo o livro abjeto desse ser repugante como se fosse leitura recomendável, de sua viúva tomando chá com Jair Bolsonaro, dos que ostentam camisetas repugnantes defendendo que Ustra ainda vive.
A verdade é que Ustra, mesmo condenado em segunda instância, escapou-se da justa punição pelos horrores que perpetrou. E que, mesmo morto e enterrado, encontrou uma caricatural e grotesca forma de sobrevida.
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Tenho certeza que, a essa altura, Brilhante Ustra sorri no inferno
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É possível tirar o sorriso de escárnio do rosto morto do facínora? Não tenho dúvida de que sim. Mas acordar desse pesadelo passa por uma etapa fundamental – duas, na verdade: preservar a memória do que foi e não permitir que, mais tarde, se esqueça o que hoje está sendo. Se hoje a ideia burra e mentirosa de que “tudo era melhor na ditadura” ganhou força ao ponto de virar um elemento de debate, é porque o lado mais obscurantista do Brasil teve sucesso em manter e, depois, disseminar essa falsidade. Se hoje pessoas se dizem discípulas de alguém como Ustra, é porque há sucesso crescente na estratégia reacionária de reinventar a história. É contra isso que precisamos nos erguer, é isso que não podemos permitir. É assim que podemos nos libertar da idolatria a torturadores e assassinos, arremessar Ustra e outros de sua laia de volta ao abismo do qual jamais deveriam ter saído.
Um ano depois: LGBTs vão do medo à luta para enfrentar Bolsonaro
Samir Oliveira
20 de novembro de 2019
Os dias que se seguiram à vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 foram marcados por um sentimento de medo profundo entre a comunidade LGBT. Era como se, de repente, nossas vidas estivessem ainda mais em risco. Como se passássemos a viver sob o fio de uma espada, pronta para decepar nossos sonhos, nossas conquistas e nossas possibilidades de ser e amar.
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Como pode uma política que agride nossa existência receber o voto entusiasmado de quem diz nos amar?
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Um ano já se passou desde então. Eu senti esse medo. Meus amigos sentiram este medo. Foi impossível não se deixar tomar por este sentimento. Ainda mais quando muitos de nós percebemos, como foi o meu caso, que este projeto violento de Brasil foi eleito com o apoio de nossos familiares, amigos e conhecidos. Como pode uma política que agride nossa existência receber o voto entusiasmado de quem diz nos amar? O Brasil ainda ficará devendo esta resposta a milhões de LGBTs por um bom tempo.
O sentimento imediato era de que os 57 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro não toleravam nossa existência. Como viver em um país que está disposto a patrocinar nosso extermínio? Conheço gente que não conseguiu suportar. Pessoas que partiram antes das eleições e não pretendem mais voltar. E pessoas que ainda estão pensando em se mandar de vez.
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Assim como percebi medo e horror, também vi brotar um sentimento de resistência muito grande entre LGBTs
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Mais do que nunca, nossa estética virou uma forma de afrontar o sistema. As cores do arco-íris, que tanta repulsa causam à base de apoio mais dura do bolsonarismo, ostentam nosso orgulho. As paradas LGBTs continuam levando multidões às ruas, demonstrando ao mundo que não iremos voltar ao armário. A criminalização da LGBTfobia pelo STF foi uma conquista civilizatória em tempos de Bolsonaro. A decisão do Supremo de equiparar LGBTfobia ao crime de racismo é um espinho na garganta do bolsonarismo. Não é pouca coisa que ela tenha ocorrido justamente durante o reinado de ódio que se instalou no país.
Também causa indigestão a esta gente o fato de que um casal gay se encontra no epicentro da oposição ao governo. O jornalista Glenn Greenwald e o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) viram suas vidas serem reviradas do avesso pela segunda vez. A primeira aconteceu quando revelaram ao mundo a rede suja de espionagem dos Estados Unidos. Agora Glenn, com a coragem característica dos bons jornalistas, desnudou a tragédia farsesca de um juiz-acusador e de um procurador apaixonado por si mesmo. E com isso atraiu para si a fúria do bolsonarismo e os insultos dignos de quinta série associados à sua sexualidade e à sua família. A disputa chegou ao esgoto quando até mesmo sua mãe, com câncer em estágio terminal, e seus filhos foram atacados.
A conjuntura política é grave. Não podemos contar apenas com nosso voluntarismo diante da corrosão democrática que o país vive. O melhor que temos a fazer é nos organizarmos para enfrentar este período histórico. Nossa resistência individual precisa encontrar na luta coletiva um elo que dê sentido à revolta e à mobilização por transformações estruturais no Brasil.
Bolsonaro nada mais é do que a face mais desumana de um sistema podre que recorreu ao medo para rebaixar ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora. O recrudescimento da opressão contra a população LGBT está inserido neste projeto nefasto de país, em que interessa ao capitalismo que nós sejamos considerados cidadãos de segunda categoria, para que possamos ser mais facilmente explorados. Por isso, nossa resistência precisa andar lado a lado de uma luta que também seja antissistêmica, encontrando sentido nas trincheiras ao lado das mulheres, da negritude, do sindicalismo, dos ambientalistas, dos estudantes, e de todas e todos que estejam dispostos a apontar um novo rumo para o país.
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O medo experimentado após o resultado eleitoral vem, ao longo deste ano que insiste em não terminar, cedendo lugar à certeza de que não estamos sozinhos
Mas apenas nossos aliados de sempre não bastam
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Precisamos conduzir um esforço de diálogo com setores da base bolsonarista que não compactuam com ideias fascistas – base essa que vem sendo corroída desde a posse do presidente. Bolsonaro não seguirá seu mandato agarrado ao que existe de mais alucinado, radical e intransigente em sua base de apoio – e a criação de seu novo partido indica essa tentativa de organizar com mais solidez este setor. Suas declarações absurdas e as palhaçadas cotidianas servem para manter um núcleo fiel energizado, mas afastam franjas importantes do bolsonarismo que não estão dispostas a ir para o vale tudo em nome de uma cruzada ideológica e antidemocrática da extrema-direita.
Essas pessoas precisam estar do nosso lado na luta pelos direitos sociais, contra o autoritarismo e em defesa das chamadas “minorias”. Muitas pesquisas já demonstram evidências fartas de que nem todo mundo que votou em Bolsonaro é racista, misógino e LGBTfóbico. Não podemos desprezar este dado, pois não iremos virar este jogo apenas com nossas próprias forças. Temos que energizar nossas bases e falar para os nossos também, mas precisamos ir além, encontrando em nossa organização coletiva um canal para ampliarmos nossas vozes e furarmos as bolhas.
OUÇA Bendita Sois Vós #36 Os novos modelos autoritários
Geórgia Santos
4 de novembro de 2019
Nesta semana, vamos falar sobre como se constroem os novos modelos autoritários. Eles não começam com golpe, mas com presidentes eleitos democraticamente que, aos poucos, enfraquecem as instituições. Eles acontecem de dentro pra fora. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, nem tão aos poucos assim, vem se tornando um exemplo disso – na linha dos governo das Filipinas, Turquia, Rússia e Hungria.
Desde o início do governo ele se posiciona contra as Universidades Federais, contra o Ibama, contra a mídia, contra o STF, e esses são apenas alguns exemplos. E na semana que passou, o descaso pelas instituições ficou mais claro.
O nome “Bolsonaro” surgiu nas investigações do assassinato de Marielle Franco e o presidente foi rápido em desacreditar a imprensa e a polícia. E, como se não bastasse, disse que teve acesso a provas antes da investigação para, segundo ele, evitar que fossem adulteradas.
Quase completando um ano de governo, a exemplo do que fazia nas eleições, Jair Bolsonaro é um risco cada vez maior à democracia brasileira. Participam os jornalistas Geórgia Santos, Flávia Cunha, Igor Natusch e Tércio Saccol.
OUÇA Bendita Sois Vós #34 Eleições 2022, Bolsonaro e a crise no PSL
Geórgia Santos
21 de outubro de 2019
Nesta semana, discutimos as eleições de 2022. Sim, falta mil anos, mas o presidente parece não perceber. Afinal, Jair Bolsonaro e o seu partido, PSL, estão em crise e o país virou um novelão. Brasil é, finalmente, Sucupira.
Mas Bolsonaro está longe de ser o Bem-Amado. ’Queimado para caramba’; ‘Ingratidão impera’; e ‘Vou implodir o presidente’ são algumas das frases que marcaram o racha no PSL.
A crise política opõe o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da sigla, Luciano Bivar. A disputa envolve controle da legenda e das verbas do fundo partidário e do fundo eleitoral.Além da permanência do presidente e de deputados na legenda. Sobrou até para a deputada Joice Hasselmann. Ela foi destituída do cargo de líder do governo no Congresso após apoiar a manutenção do delegado Waldir na liderança do PSL na Câmara. Segundo ela, a inteligência emocional de Bolsonaro é menos 20 e traição é modus operandi do Governo.
E em meio a isso tudo, o PSL rompe e flerta com Wilson Witzel, Luciano Huck brinca de candidato, a esquerda está zonza e, claro, há um crescente descrédito na política institucional e a eleição de 2022 já começa a ser discutida.
Participam os jornalistas Geórgia Santos, Flávia Cunha, Igor Natusch e Tércio Saccol. O convidado da semana é o professor Marcos Marinho, pesquisador e consultor em comunicação e marketing político.Você também pode ouvir o episódio no Spotify, Itunes e Castbox.