Samir Oliveira

Precisamos repetir o óbvio: ser gay não te impede de ser machista

Samir Oliveira
9 de março de 2017
Foto: Adria Meira

Nesta semana marcada pelo Dia Internacional da Mulher, o assunto desta coluna não poderia ser outro que não o machismo perpetuado por homens gays. Trata-se de algo tão intrínseco em nossa própria sociabilidade que pode ser difícil para alguns identificar determinados comportamentos e discursos como integrantes de uma cultura machista. Façamos, então, um esforço radical de compreensão.

Eu aprendi muito com minhas amigas. Especialmente com minhas amigas lésbicas. À medida em que passei a conviver mais com as outras letras da população LGBT, fui percebendo o quanto o segmento “G”, ao qual pertenço, está na vanguarda do atraso quando olhamos para o conjunto de nossa comunidade. Não me refiro apenas ao movimento gay enquanto um corpo político – justamente apontado como centralizador de toda causa LGBT, valendo-se de privilégios que lésbicas, bissexuais e transexuais não possuem. Refiro-me aos indivíduos gays enquanto sujeitos, suas dinâmicas internas de convivência e linguagem.

Ao deixar de me relacionar apenas com amigos heterossexuais passei a me libertar de diversas formas ao estabelecer vínculos com outros sujeitos como eu. Outros homens gays. Mas hoje percebo que, no que diz respeito ao machismo, apenas transitei do convívio com comportamentos machistas heterossexuais para o convívio com comportamentos machistas vindos de homossexuais.

Ainda é muito comum, em círculos de amizade formados por homens gays, ouvir absurdos misóginos

Ouvir expressões que humilham mulheres, que expressam a ideia de que homens gays possuem nojo da genitália feminina. Também não são raras as vezes em que homens gays se apropriam de elementos socialmente tidos como “femininos” como forma de rebaixamento, ecoando a noção de que tudo que é associado a uma ideia de “feminino” é inferior. Esses comportamentos, muitas vezes, não são reproduzidos de maneira a constituir conscientemente uma ação machista. Mas oprimem da mesma forma. Não me custa nada entender por que minhas amigas lésbicas preferem sair com meninas lésbicas, interagir com outras mulheres. Elas se sentem mais seguras e acolhidas, a salvo de comentários de seus amigos gays que, mesmo de forma inconsciente, reproduzem machismo e até mesmo lesbofobia.

Isso para não falar das mulheres transexuais e travestis. Estas estão sujeitas a toda forma duvidosa e opressora de humor por parte de homens gays. O tempo inteiro.

Ainda hoje é preciso repetir o óbvio: que ser gay não significa portar um passe livre para a reprodução de outras opressões. Que ser gay não te impede de ser machista. A força da luta das mulheres despertou em mim um alerta permanente a este tipo de conduta. Eu preciso do feminismo para ser viado. Porque homofobia e machismo andam de mãos dadas, massacrando juntas tudo que é associado a conceitos socialmente construídos de “feminilidade”. Porque durante toda a minha infância eu fui ensinado a entender que ser “mulherzinha” era ser inferior. Que não havia “xingamento” pior para um menino do que ser chamado de menina. Que eu não podia usar canetas coloridas na escola, porque isso “era coisa de bichinha”. Que eu não podia lavar louça em casa, porque “isso é coisa de mulher”. Que se eu não “andasse como um homem” poderia ser insultado nas ruas. A maioria dos ataques e insultos homofóbicos tem suas raízes cravadas no ódio a qualquer ideia socialmente associada ao feminino. É inaceitável que homens gays, vítimas desses mecanismos perversos de opressão sistêmica, também reproduzam a lógica das engrenagens que os sufocam.

Foto: Adria Meira

Nós US

One Candidate Alone Can’t Break the Glass Ceiling

Sacha
8 de março de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

The same way that racism was not solved simply by passing constitutional amendments, nor by having a black president of the United States, one candidate or future president of the United States alone can’t break the glass ceiling. Not even the most qualified candidate of recent generations, with an incomparable resume devoted to public service. Hillary Clinton’s loss in the presidential elections of 2016 teaches us a great lesson about what is still left to accomplish in the fight for equality. It really does take a village.

The same way that racism was not solved simply by passing constitutional amendments, nor by having a black president of the United States, one candidate or future president of the United States alone can’t break the glass ceiling

It isn’t important that previously unthinkable goals be achieved. Winning more votes doesn’t matter. It doesn’t matter that a vision of greater minority representation be promoted. Indeed, none of those things matter when done by one person alone. And they were.

The truth of our world is that, whether we like her politics or ideas, Hillary represents all of the aforementioned things. She was, without question, the candidate with the most complete resume in public service of our time. Her career has at no moment has stopped being in the service of improving the lives of others. She achieved what many women before here were unable to in securing the presidential nomination of a major political party. She won around 3 million more votes than Trump in the election. Hillary had everything in her favor to surpass the ultimate challenge and still was unable. She didn’t even show up to the glass-ceilinged venue chosen by her campaign to make her victory speech, should she have won the election that fateful night.

Hillary had everything in her favor to surpass the ultimate challenge and still was unable

For as horrific as society considers Trump’s unfettered misogyny, it’s still more comfortable with that than the novelty of women occupying positions of greater responsibility. We see this in the statistics of female participation in politics around the West, where it’s rare that they make up even half of a Parliament. We can see it in the ever-persistent wage gap. Women in the richest country in the world are also the only ones in the world who do not, by law, have the right to even a single week of paid maternity leave.

A presidente has the capacity to effect changes in all of these policies. They have the potential to create progress on equality. But they wouldn’t be able to transform society themselves alone. They need the support of congressmen, of governors, of city laws, of corporate boards, of volunteer organizations. They especially need society’s confidence in the participation of women, even at the highest ranks, is beneficial to everyone. Even more so when they have the equity they need to make their own choices about their lives. Without this, the glass remains unbroken.

Image: elma avdagic
Nós US

Uma candidata só não quebra o teto de vidro

Sacha
8 de março de 2017
(you can read this article in English here)

Do mesmo modo que o racismo não foi solucionado apenas passando emendas à constituição, nem tendo um presidente de raça negra, uma candidata ou uma futura presidente dos Estados Unidos sozinha não quebra o teto de vidro. Nem a candidata mais qualificada das últimas gerações, através de um currículo ímpar em dedicação ao serviço público. A perda de Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016 ensina-nos uma grande lição sobre o que ainda falta por alcançar na luta pela igualdade. É tarefa de uma aldeia mesmo.

Do mesmo modo que o racismo não foi solucionado apenas passando emendas à constituição, nem tendo um presidente de raça negra, uma candidata ou uma futura presidente dos Estados Unidos sozinha não quebra o teto de vidro

Não importa alcançar metas previamente impensáveis. Não importa ganhar mais votos. Não importa impulsar uma visão do mundo que inclui a representação maior de minoridades. Não importa, aliás, nada que uma só faz. E fez.

A realidade do nosso mundo é que, gostar ou não das ideias e política dela, Hillary representa todo o acima mencionado. Foi, sem escrúpulos, a candidata com o currículo de serviço público mais completo dos nossos tempos. A sua é uma carreira que em momento algum deixou de ser ao serviço de melhorar a vida da gente. Alcançou o que muitas mulheres antes dela não conseguiram na candidatura oficial para presidente de um dos grandes partidos políticos. Ganhou em torno de 3 milhões de votos mais do que Trump na eleição. Hillary teve tudo ao seu favor para superar o último desafio e não conseguiu. Nem apareceu no local de teto de vidro que escolheu para se proclamar, caso tivesse ganhado aquela noite.

Hillary teve tudo ao seu favor para superar o último desafio e não conseguiu

Por mais horroroso que a sociedade considere o machismo desavergonhado de Trump, ela ainda está mais confortável com isso do que a novidade de mulheres ocupando cargos de maior responsabilidade. Vemos isso nas estatísticas de participação feminina na política em todo o Ocidente, onde raro é chegar à metade de uma câmara parlamentar. Mostra-se na persistência da disparidade salarial. As mulheres no país mais rico do mundo são as únicas no mundo que não têm, por lei, o direito a licença maternidade paga durante uma única semana.

Uma presidente—ou presidenta, aquela forma preferida pela primeira chefe de estado brasileira, por destacar deliberadamente a ocupação feminina do cargo—tem capacidade de gerir mudanças em todas estas políticas. Ela tem o potencial de impulsar progresso em matéria de igualdade. Mas ela não transforma a sociedade sozinha. Ela precisa do apoio de legisladores, de governadores de estados, das leis municipais, dos conselhos corporativos, das associações voluntárias. Ela precisa sobretudo da confiança da sociedade que acredita que a participação dela e de todas as outras mulheres é beneficial para todos. Mais ainda quando têm equidade para fazer as suas escolhas e fazer as suas vidas. Sem isso, o vidro mantém-se intacto.

Imagem: elma avdagic
Reporteando

Sobre ser mulher no jornalismo

Renata Colombo
7 de março de 2017

Não é fácil ser mulher no jornalismo, por mais que a gente queira acreditar que não há diferenças de tratamento, de salários e coisa e tal. Especialmente quando se chega ao assunto do assédio a que somos submetidas constantemente.

Qual de nós, repórteres, nunca ouviu uma daquelas piadas infames na redação?

“Que espetáculo, hein fulaninha”

Quem nunca teve que conviver com a preferência da fonte pela jornalista mulher?

“Se é pra ela, eu conto tudo”

Quem nunca levou cantada de entrevistado e teve que sair de uma saia justa?

“Da próxima vez, em vez de um café te levo para tomar um vinho”

Falemos um pouco, verdadeiramente, sobre como é ser mulher em mais um universo machista e masculino. E aí não me refiro só ao ambiente jornalístico, a redação em si, mas a todos por onde a profissão transita, com destaque para o político e policial.

“Tua missão passa a ser não somente acompanhar os flagrantes, entrevistar e gravar, mas também tentar ser invisível”

Não existe coisa mais constrangedora do que repórter chegando em operação policial ou delegacia. Tua missão passa a ser não somente acompanhar os flagrantes, entrevistar e gravar, mas também tentar ser invisível. Sério, a gente se sente das duas uma: um ET ou um bife daqueles bem suculentos. Não é nem um pouco confortável. E olha que cobrir operação, perseguição, pode ser bastante interessante, principalmente para quem está em início de carreira.

Mulheres e o poder

Mas vamos, neste dia da mulher, à situação “mais mais” dentre as constrangedoras: ser repórter em Brasília. Político em Brasília se acha Deus – ou melhor, tem certeza que é. E nesta condição, a maioria daqueles homens, com todo aquele poder, pensa que pode olhar ou falar o que quiser e da maneira que quiser para as repórteres que circulam pelos corredores do poder. Não é raro ministros, senadores e deputados convidarem jornalistas para sair. Não é raro agirem como quem tem a resposta que tu queres e, por isso, acreditam que podem pedir o que quiserem em troca.

Só sei que em tempos de empoderamento feminino vale sempre lembrar que podemos, sim, responder e dizer não.

E aproveitando o gancho, neste dia 8 de março vai rolar um tuitaço de um grupo muito legal de jornalistas que luta contra essas “gracinhas” ridículas da profissão. Procura lá #jornalistascontraoassedio que tu vai encontrar reflexões bem interessantes.

Na minha modesta opinião, o problema não é receber flores nesta data, mas elas não serem entregues diariamente.

ECOO

Cabelo tonhonhóin, lindo e consciente – como hidratar os cabelos de maneira natural

Geórgia Santos
5 de março de 2017

 

Eu já falei aqui que resolvi encarar o desafio de mudar meus hábitos de consumo e passei a utilizar cosméticos naturais no meu corpo. E comecei pelos cabelos. Saí do comodismo dos cosméticos tradicionais para ser mais consciente – cuidar mais de mim e da terrinha ao evitar petrolatos e sulfatos. Pra mim é especialmente difícil porque meus cabelos são crespos e descoloridos (coisa que não faço mais), duplamente mais difíceis de cuidar (domar) do que fios lisos.

Para fazer essa transição, o indicado é começar de trás pra frente. Ou seja, primeiro substituir as máscaras de hidratação, depois os modeladores, o condicionador e então substituir o xampu químico por um natural – e de preferencia sólido para evitar a embalagem.

De cara, descobri A MELHOR MÁSCARA HIDRATANTE PARA CABELOS CRESPOS do mundo. Adivinha: óleo de oliva.

“Isso mesmo, azeite é melhor do que qualquer produto que eu tenha usado. E acredite, eu já usei muitos, caros e baratos, nacionais e importados”

Na verdade, o de oliva foi o que melhor funcionou para o meu tipo de cabelo, mas a ideia é utilizar óleos vegetais para hidratação capilar no lugar de produtos caros e cheios de química. E, pasmem, funciona inclusive para quem tem cabelo oleoso.

A técnica se chama umectação e consiste, basicamente, em aquecer o óleo e passar nos cabelos. Abaixo, veja como recuperar os seus cabelos de maneira natural, sustentável e cheirosa, sem agredir o meio ambiente e o nosso corpo.

MÁSCARA HIDRATANTE PARA CABELOS

½ xícara de óleo vegetal de sua preferência (só!)

  • Aqueça o óleo em banho maria até que ele esteja morno;
  • Divida o cabelo em mechas e aplique o óleo nas pontas ressecadas. Se o seu cabelo for seco, pode aplicar em todo o comprimento, apenas evite a raiz;
  • Massageie levemente enquanto aplica o óleo, para que o produto penetre nos fios;
  • Cubra com uma touca ou uma toalha morna e deixe agir por uma hora – se tiver tempo, pode deixar até duas, mas tome cuidado para não deixar o cabelo pesado. Melhor não arriscar se o seu cabelo for oleoso;
  • Depois é só lavar e ser linda =)

Há vários tipos de óleo vegetal que podem ser usados para hidratar o cabelo. Abaixo, uma listinha com as propriedade de cada um 😉

ÓLEO DE OLIVA

Ideal para cabelos cacheados. É rico em antioxidantes como vitaminas A e E. Nutre e repara o couro cabeludo, ajuda no combate à caspa e promove o crescimento do cabelo. Também tem propriedades anti-inflamatórias e hidrófilas, que ajudam na formação de uma camada protetora, além de intensa nutrição. Reduz o ressecamento dos cabelos danificados e reduz as pontas duplas e o frizz;

ÓLEO DE COCO

Ideal para cabelos secos e danificados. Rico em vitaminas E e K, além de ácidos graxos. Consegue penetrar profundamente nos fios, combate o ressecamento, pontas duplas e reduz o frizz. Promove restauração capilar e é um bom aliado no combate à caspa e coceiras;

ÓLEO DE JOJOBA

Ideal para cabelos oleosos. Por ter uma composição parecida a do óleo produzido pela pele humana, desintoxica o couro cabeludo e reduz o excesso de sebo. A região fica limpa além de estimular a circulação sanguínea. Mas verifique se óleo é realmente puro antes de usar no couro cabeludo;

 

ÓLEO DE RÍCINO

Ideal para cabelos finos e com intensa queda. Poderoso aliado contra a queda e quebra dos fios. Rico em vitamina E e sais minerais, estimula o crescimento do cabelo ao ser aplicado no couro cabeludo, além de auxiliar no tratamento da calvície. Também previne pontas duplas;

 

Tão série

Mês da Mulher – Maratona Grace and Frankie

Geórgia Santos
4 de março de 2017

Entramos no belíssimo e colorido mês de março, também conhecido como aquele período de trinta dias em que as mulheres são celebradas por sua maravilhosa existência. Nós agradecemos, embora haja muita hipocrisia envolvida nessa celebração. Mas isso é assunto para outra hora. De qualquer forma, decidimos entrar no ritmo nesta valorosa coluna: vamos falar sobre séries em que as mulheres arrasam e começamos por Grace and Frankie.

“Não são duas velhinhas tentando encontrar sentido na vida. São duas tiazonas gatas que estão de volta à pista, se é que me entendem”

Em Porto Alegre, o primeiro final de semana de março começou chuvoso e perfeito para uma maratona. Mas vale assistir a todos os episódios de Grace and Frankie mesmo em um local ensolarado. A série da Netflix traz ninguém mais ninguém menos que Jane Fonda (Grace) e Lily Tomlin (Frankie) para contar a história de duas mulheres da faixa dos 70 anos que precisam recomeçar suas vidas. E não, o problema não é aposentadoria ou viuvez. Não são duas velhinhas tentando encontrar sentido na vida. São duas tiazonas gatas que estão de volta à pista, se é que me entendem. E elas fazem isso sofrendo, chorando, rindo, se divertindo e inventando lubrificantes naturais de inhame para facilitar o sexo.

Enredo

Acontece que seus respectivos maridos, representados por Martin Sheen e Sam Waterston, revelam às duas que são gays. Não para por aí: os dois, que são amigos há quarenta anos, contam que estão apaixonados e que tem um caso há duas décadas. As esposas, em choque, vão parar na casa de Praia que os casais tem em comum e são obrigadas a conviver.

As duas se odeiam e não poderiam ser mais diferentes. Grace é uma empresária aposentada que criou sua própria linha de cosméticos. Extremamente bem-sucedida, é perua que se alimenta de alface e luz e consome quantidades importantes de Dry Martinis – minha perdição, diga-se de passagem. Frankie, por sua vez, é uma artista plástica, sem apego às coisas materiais. Vive de maneira natural, consome orgânicos, medita e come muito, especialmente quando bate a larica da quantidade importante de maconha que fuma.

A combinação é bombástica e hilária. E isso que eu nem falei do chá de peiote que faz as duas viajarem legal ao redor de uma fogueira à beira-mar. Junte os filhos à essa loucura e o que temos é uma série engraçada e ao mesmo tempo profunda.

Ser mulher aos 70

Se é difícil ser mulher aos trinta ou em qualquer idade –e não, não é mimimi de feminista, é somente a realidade – imagine depois dos 70. Essas duas precisam enfrentar o mundo e dizer que sim, mulheres idosas também transam, também tem desejos, também querem tomar porres, também querem fumar maconha, também sofrem quando se sentem invisíveis, também choram quando são feridas, também tem paranoias, sentem medo e querem viver.

Já são duas temporadas, com 13 episódios cada uma, de cerca de 40 minutos. Vale a pena cada segundo – especialmente o episódio em que há um pinto mecânico no quintal. E não, não falo do filho da galinha.

A terceira temporada de Grace and Frankie estreia em 24 de março. Até lá, assiste às duas primeiras e dá uma olhada no trailer aí embaixo.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Eu não sou seu negro

Pedro Henrique Gomes
3 de março de 2017

James Baldwin iniciou o projeto de um livro, Remember This House (1979), que não concluiu, no qual pretendia contar a história dos Estados Unidos através da figura de três amigos seus, notadamente Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Em comum, além da militância pelos direitos civis dos negros americanos, Baldwin chama atenção ao fato de que os três, nos anos 1960, foram assassinados antes mesmo dos 40 anos – ele morreria aos 63 anos, na França, para onde se mudou em 1948. Eu não sou seu negro, dirigido por Raoul Peck, é construído inteiramente a partir de fragmentos dos manuscritos deixados por Baldwin.

“Não descarreguem as suas responsabilidades sobre nós, o problema do racismo não é simplesmente dos negros, em essência é dos brancos, pois vocês o criaram”

Negro, escritor, militante e orador habilidoso. O texto salienta a sofisticação do pensamento do seu pensamento, a poesia crua de sua prosa, expõe suas contradições de jovem, revela as angústias dos anos de maturidade. Baldwin é muito persuasivo e é algo como isto: não descarreguem as suas responsabilidades sobre nós, o problema do racismo não é simplesmente dos negros, em essência é dos brancos, pois vocês o criaram. O genocídio indígena e a escravidão negra não foram invenções dos negros. O filme chama atenção para as divisões de classe no seio da sociedade americana: “o branco é uma metáfora do poder”.

Peck costura a narração, na voz de Samuel L. Jackson, com imagens de grandes filmes do cinema americano. Baldwin, atento também ao cinema, comenta alguns deles, sua herança, seu imaginário, seus heróis. Não havia representação do negro (nem do índio) no cinema americano senão como elementos de vilania ou a partir de um ponto de vista aristocrático. Não era possível o reconhecimento do negro no cinema. Baldwin cresceu envolvido por essa cultura.

O filme de Raoul Peck é consciente do poderoso material que tem em mãos e não o despeja sobre seus espectadores. Sua narração é pausada, cantada letra por letra em sonoridade irrepreensível, o filme é minucioso nesse sentido puramente estético do rigor documental, tão rigoroso que chega a ser um tanto engessado e apegado ao “televisionismo” da montagem. Ao mesmo tempo, a produção de Baldwin como escritor tratava, não com menor força, de sexualidade, de pressões sociais, em suma, da homossexualidade – Baldwin era homossexual. O filme menciona isso apenas lateralmente através de um relatório do FBI, o que é estranho, pois confiar ao estado policial e racista a descrição de uma particularidade fundamental de seu personagem ameaça (ainda bem que não consegue, graças a ele mesmo) retirar um pedaço dele. Não foi o recorte escolhido pelo cineasta, no entanto.

Outra questão que se imputa negativamente ao filme de Peck, sem surpreender, é um “olhar” semelhante ao que grande parte da crítica (ocidental) despejou (com muita violência, diríamos) sobre os cinemas africanos durante boa parte dos seus anos de formação, a partir de 1960. Em resumo, esperavam que os cineastas dos países africanos “não abandonassem as suas raízes”, que “criticassem o colonialismo” e o seu continuador exatamente perverso, o neocolonialismo pós-independência.

Era preciso ser radical, diziam. O bem aventurado imaginário colonizador (eurocêntrico; nestes casos, em grande parte o francês) pretendia um certo cinema africano: aquele que eles gostariam de ver. Os cineastas africanos queriam outra coisa – ou pelo menos algumas outras coisas, mas não há espaço para remontar este debate agora. É claro que ao salientar isso não se interrompe as críticas ao filme, apenas se questiona uma modalidade específica de juízo valorativo que parece querer um tipo de filme adequado aos seus desejos, esquecendo o filme tal como ele foi concebido.

I am not your negro, de Raoul Peck, França/EUA. Com James Baldwin, Martin Luther King, Malcolm X, Medgar Evers, Dick Cavett, Samuel L. Jackson, Henry Belafonte.

Glow

Não é fácil ser maravilhosa

Fernanda Ferrão
2 de março de 2017
Maravilhosas Corpo de Baile durante saída do bloco Pilantragi em São Paulo/2017.

Eu quero emagrecer. Acho que quase todo mundo sofre da síndrome “eu poderia ter uns quilinhos a menos, né?” Mas não é essa a questão.

A questão é que as mulheres são ensinadas a não se sentirem bem com os seus corpos. E eu não acho isso, tenho certeza. Absoluta, eu arrisco. E o motivo dessa certeza é apenas ter nascido mulher e ser rodeada de outras delas.

Tenho uma amiga linda, magra, alta, elegante, sabe? Mas ela acha que as pernas são longas demais. Outra amiga é malhada, a bunda mais durinha que você já viu e isso depois de já ter dois filhos, mas ela não gosta da barriga, diz que é flácida. Infelizmente, eu poderia preencher muitas linhas com exemplos de mulheres detonando seus corpos. Se tu ainda não acreditas e achas que pode ser mimimi (credo), tem uma pesquisa recente que fala sobre isso. A chamada diz assim: “Pesquisa britânica mostra que apenas 61% das meninas entre 7 e 21 anos se sentem atualmente felizes com a própria aparência?”.

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Uma meninade  S E T E   anos ?já não gostada sua aparência

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E ela ainda nem sabe exatamente o que é a sociedade e como ela nos manipula.

E agora que estamos alinhados sobre esse absurdo que é viver num mundo onde o normal é não se aceitar, onde a distorção de imagem pode chegar a casos sérios e resultar em doenças como anorexia, bulimia, depressão… Peço licença para falar de uma experiência pessoal, recente e ainda não digerida totalmente. Faço parte do grupo Maravilhosas Corpo de Baile. Uma junção de mulheres incrivelmente diferentes lideradas pela Grazi Meyer. O que fazemos? Nos encontramos para dançar e trabalharmos nossa confiança.

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“Além do exercício físico, de entender e gostar de vermos o que nosso corpo é capaz de fazer, vamos incentivando umas as outras a aceitarmos os elogios que recebemos”

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Na primeira aula, fui apresentada às únicas duas regras: todas se apoiam e se (auto)elogiam. Chega de reagirmos ao elogio com “imagiiiina, você que é!” Além do exercício físico, de entender e gostar de vermos o que nosso corpo é capaz de fazer, vamos incentivando umas as outras a aceitarmos os elogios que recebemos. A reação deve ser “sim, meu cabelo tá bom hoje, né? o teu também tá bonito, guria”. É uma rede de apoio.

No dia 19 de fevereiro de 2017, um domingo muito calorento, eu e outras 24 mulheres desfilamos a frente do Bloco Pilantragi na zona oeste de São Paulo. De maiô. Apenas maiô, flores na cabeça e glitter, muito glitter. E amor, apoio, olho no olho, mãos dadas e corpos rebolativos.

Entender que eu posso sair por aí exibindo o meu corpo fora do padrão é um acontecimento quase sem descrição. Mas ver nos olhos de outras mulheres a felicidade de se sentir representada, é melhor ainda. Também recebi olhares e palavras de homens incentivando o que estava acontecendo ali. Na falta de palavras melhores, indico a entrevista da sábia e corajosa Grazi para o Hypeness. Através do Maravilhosas, eu estou começando a descobrir uma Ferrão que um monte de gente já me dizia que existia. Humildemente indico que tu também vá atrás do que pode te libertar.
Teu corpo e tudo em ti é lindo demais, pode confiar!

Outra leitura legal sobre o tema: http://ind.pn/2lq2asP

Maravilhosas Corpo de Baile.

 

Guia de Viagem

A História da Selfie

Candice Kipper Klemm
2 de março de 2017

Muitos imaginam que a arte de fotografar a si próprio é algo recente, o que na verdade não é. A retomada desta técnica com tanto entusiasmo aflorou em meados de 2013 em um momento que as máquinas digitais haviam dominado o mercado popular da fotografia.

A palavra “selfie” é originária da incorporação do substantivo self, cujo significado em inglês é EU. Nada mais é também do que um autorretrato que, no dicionário brasileiro significa uma “imagem que se faz de si próprio”. No entanto, falarmos em autorretrato não confere o mesmo valor do que falarmos em uma selfie. Em meados de 2013 essa palavra foi considerada a palavra do ano pela Oxford English Dictionary.

“Um dos primeiros registros que temos, data o ano de 1920 onde o fotógrafo Joseph Byron se autorretrata com um grupo de amigos”

Embora a grande maioria das pessoas tenha conhecido e se familiarizado com o termo recentemente, a prática da selfie é muito mais antiga do que podemos imaginar. Um dos primeiros registros que temos, data o ano de 1920 onde o fotógrafo Joseph Byron se autorretrata com um grupo de amigos estabelecendo o mesmo comportamento que hoje presenciamos, descontração ao registrar a imagem. Joseph nasceu na Inglaterra imigrando mais tarde para os EUA onde ficou conhecido por fotografar shows da Brodway. De todas as suas mais de 23 mil fotos guardadas no museu de Nova York, as selfies, por ele tiradas, fazem parte da sua coleção lhe rendendo o título de primeiro fotógrafo a produzir uma selfie.

Hoje, ao tirarmos uma selfie a fazemos com o mesmo propósito com o qual ela surgiu, descontrair, divertir e continuar guardando além da memória o registro de nossos passos, vidas, de nossas ações, seja sozinhos ou em grupo. Não importa o tipo de fotografia, o que importa realmente é o prazer que ela nos proporciona ao capturarmos a imagem.

Nomes diferentes

A título de curiosidade vale saber que as selfies, dependendo do motivo e apresentação recebem nomes bem diferentes do que normalmente conhecendo existindo mais de 20 nomenclaturas  específicas. A selfie das pernas, por exemplo, também é conhecida pelo nome de Legsie. A selfie onde o destaque é a barba é chamada de beardie, selfies que são tiradas no interior do carro mostrando o dono são as carfie, selfie de casais, couplie, de mães com seu filhos em primeiro plano, mom selfie. Ou seja, não importa o nome dado a essa prática, o importante mesmo é se divertir.

Fonte: DIY Photo

Samir Oliveira

Especular sobre a sexualidade alheia é uma forma de violência

Samir Oliveira
2 de março de 2017
Foto: Ludovic Bertron/Flickr

No movimento LGBT muito se debate sobre a necessidade de termos orgulho de ser quem somos. De sairmos da vergonha, da reclusão, do espaço convencionalmente chamado de “armário” para o orgulho. É um processo difícil e extremamente subjetivo. Cada pessoa sabe a forma de conduzi-lo de acordo com sua realidade, com sua situação afetiva e familiar.

“A exposição de LGBTs ocorre diariamente em comunidades, bairros e círculos sociais, ampliada pela potência das redes sociais”

Mas muitas pessoas não têm essa escolha. Acabam sendo expostas. Acabam sendo alvo de especulações, até mesmo de acusações. A exposição de LGBTs ocorre diariamente em comunidades, bairros e círculos sociais, ampliada pela potência das redes sociais. Há um fenômeno igualmente perverso que atinge escalas ainda maiores: a exposição de LGBTs famosos. Personalidades que, por qualquer que seja o motivo, optaram por não fazer uma transição pública do armário para o orgulho. E tudo bem, ninguém é obrigado a isso, ainda mais quando se é uma pessoa pública. Sabemos que a atenção da mídia e a reação das pessoas nem sempre acontece da maneira mais agradável.

Muita gente pode argumentar que pessoas públicas têm poder de influência e, portanto, enquanto LGBTs, deveriam utilizá-lo para lutar contra o preconceito. É verdade, concordo com isso. Mas não podemos empurrar ninguém para essa situação. Precisamos respeitar o tempo e a disposição de cada um. Estrutura emocional e fortalecimento afetivo não brotam do dia para a noite.

Privacidade

Isso não quer dizer que estas pessoas sejam mal resolvidas, infelizes e vivam uma vida de mentira. O ator Leonardo Vieira, exposto em uma foto beijando outro homem, nunca escondeu sua homossexualidade de seus amigos, de sua família e das pessoas que compõem seu círculo social. Ainda assim, o preconceito caiu sobre suas costas de forma brutal quando sites de fofocas transformaram seu gesto de carinho em um escândalo.

No mundo da ficção, vimos na série Sense8 o personagem do ator Lito, um galã mexicano de filmes de ação, ser confrontado com este dilema, com a decisão de “sair do armário” publicamente – ainda que em sua vida pessoal nunca tenha se escondido para a família e os amigos. Esta trajetória não foi fácil para Lito, a própria indústria cinematográfica que o cerca foi contra a decisão. Mas após muita reflexão o personagem demonstrou que estava disposto a enfrentar o preconceito. Claro que o mundo da ficção por vezes mascara a crueza da realidade, mas Lito, assim como muita gente na mesma situação, só conseguiu transitar para o orgulho porque estava fortalecido em seu círculo afetivo e familiar.

A polêmica envolvendo Daniel

Recentemente uma nova falsa polêmica atingiu as redes sociais e revelou como a lógica da exposição forçada pode ser cruel e se retroalimenta inclusive dentro da própria população LGBT. Em pleno Carnaval, a foto de um homem jovem e bonito sem camisa no perfil do cantor Daniel no Twitter gerou as mais diversas especulações a respeito de sua sexualidade. Piadas e insinuações sobre o episódio pipocaram por todos os lados, quando na verdade tudo não passava de um equívoco cometido por quem gerencia as redes sociais de Daniel e do cantor Delluka Vieira, o homem que aparecia na foto do tuíte. O mesmo tuíte havia sido postado nas duas contas, em um evidente erro de social media.

Em 2014, Daniel lançou sua autobiografia em um livro chamado “Minha estrada”. Nele, o cantor comenta que no início de sua carreira eram fartos os boatos sobre sua sexualidade. “Quando comecei a ficar conhecido, a imprensa queria saber com quem eu estava namorando. Como sempre fui muito caseiro, se algum jornalista perguntava se eu estava solteiro, eu dizia que sim, mesmo se estivesse namorando. Por conta disso, começaram a espalhar por aí que eu era gay. Nunca tive nenhum tipo de preconceito contra os homossexuais, mas, em determinados momentos, essa história ganhou uma dimensão que começou a me incomodar. Inventaram um monte de histórias, algumas circulavam com força na internet”, disse.

As especulações ganharam força após Daniel aceitar fazer parte de uma campanha publicitária para uma marca de cuecas, com fotos suas em peças íntimas circulando por cartazes e outdoors. São exemplos de como a cultura da exposição forçada – seja ela sobre pessoas famosas ou não – é uma expressão da homofobia que precisamos combater. É também um ato de violência que atinge inclusive pessoas que não são LGBTs. Ninguém tem o direito de tirar uma pessoa à força do armário, sem que ela esteja fortalecida afetivamente para lidar com tudo que isso representa. Sair do armário é um ato de empoderamento, mas só se você quiser e estiver pronto ou pronta para isso.

Foto: Ludovic Bertron/Flickr