Nós US

O curioso caso da consternação

Sacha
22 de março de 2017

(you can read this article in English here)

É confirmado: o presidente dos Estados Unidos da América está sob investigação pelo FBI por interferência russa durante a sua campanha eleitoral e comprometimento estrangeiro na sua carga eleita. Em tempos normais, esta investigação seria o suficiente para forçar a sua demissão, como ocorreu com Nixon no caso Watergate. Porém, não vivimos em tempos normais.

Não há um momento em que a administração eleita se afasta da campanha eleitoral, em grande parte por motivos de comportamento acerca dos escândalos em que se envolve o regime novo. A administração mantém tanto a mesma composição de pessoal como de discursos, atribuindo todo tipo de falha ou escândalo à anterior administração ou a Hillary. O último ponto mostra-nos uma dissonância profunda no discurso do Partido Republicano e a realidade do ocorrido antes e durante a campanha.

Trump não está prestes a sofrer uma destituição neste momento pelo mesmo motivo que havia 37 audiências para o caso Benghazi ainda depois de resolvido

O curioso, portanto, vem de todo o suposto mal atribuído à oponente ser, na outra mão, o alvo real das investigações abertas. Hillary, disseram, era corrupta e comprometida, incompetente por usar servidores próprios de email. Entretanto, a administração mantém uso de servidores particulares de email e o presidente segue com o seu telefone Android inseguro. O FBI investiga abertamente comprometimento da administração e as figuras envolvidas nela e na campanha. A inversão de culpabilidade mostra o eco na retórica que segurou a vitória entre o eleitorado certo na última etapa da campanha.

A amnésia repentina da consternação mostrada por Hillary num contexto do mesmo tipo de acusações ao presidente esconde a lição que o Partido Republicano tem aprendido no seu tempo na oposição: não importa o significado das palavras, importa a implicação que levam. Trump não está prestes a sofrer uma destituição neste momento pelo mesmo motivo que havia 37 audiências para o caso Benghazi ainda depois de ser resolvido.

Não é uma acusação de corrupção, impedimento de expressão livre ou impropriedade ética que importa: é a capacidade de tal momento gerir um ponto de conflito político que serve. No momento que não serve o lado acusador para avançar a sua agenda política, logo vem essa amnésia curiosa.

Imagem: melodi2
Reporteando

A dúvida é a humanidade da reportagem

Évelin Argenta
22 de março de 2017

A ideia fixa é a morte do jornalismo. Dar o passo e comprovar uma tese é o pior caminho para a reportagem. O exercício da dúvida, o permitir-se titubear é o que ainda nos mantém no rumo certo. É o exercício mais complexo a ser feito em momentos de ideias confortáveis. A dúvida é a humanidade da reportagem.

Depois de alguns anos contando histórias, encontrei uma que não queria contar. pelo menos não do jeito tradicional, desse jeito de rádio que aprendi a fazer quase automaticamente. Sei reconhecer a melhor sonora em poucos minutos. edito, falo no improviso, sei o ponto certo de engatar outra. Assim, em um minuto e meio, resumo o mundo.

Mas essa história não merecia uma sonora. Merecia horas do nosso mundo

Era o juri de um caso complexo, mas sem polêmicas. Não havia polêmica alguma, discordância alguma nas imagens que mostravam três policiais militares assassinando a tiros um homem rendido, sentado no chão, em uma área nobre de São Paulo. O homem era um jovem de 18 anos e tinha roubado uma moto minutos antes. Provavelmente nem estaria naquele bairro cheio de condomínios fechados se não fosse a circunstância. Foi perseguido, entregou-se e morreu. Assim, às duas da tarde de um feriado de independência. O caso veio à tona dias depois, quando as imagens das câmeras de segurança de uma dessas ilhas de sossego chegaram à imprensa. Nem o noticiário sangrento e gritado dos fins de tarde apedrejou “os bandidos” e, quase dois anos depois, veio o dia do veredicto.

O julgamento

No tribunal, os três Policiais em nada lembravam aqueles das imagens. Em suas fardas, tinham passos certos, quase ensaiados e um desfecho pronto. Em frente ao júri eram a imagem do achaque. “Sim senhor.” “Não senhor”. “Não fiz isso, não, senhor”. Eram jovens também. O mais velho não passava dos 30. Nossos olhares nunca se cruzaram. Eu olhava pra eles e eles olhavam pro chão.

Enquanto defesa e acusação se enfrentavam numa espécie de festival de atuação, eu olhava para eles e buscava a humanidade que eu não queria encontrar. Eu queria que fossem condenados. Que pagassem pelo crime que cometeram. Eles não deveriam despertar em mim qualquer traço de piedade. “Mataram um homem sem chance de defesa” era o que dizia o promotor. “A sonora perfeita”, meu espírito de rádio. Mas eles precisavam ser julgados. Precisavam ter a chance da defesa.

Os advogados

Ao lado deles, cinco dos melhores advogados de São Paulo. Um deles, conhecido por defender Policiais Militares e conseguir bons resultados. Uma das únicas derrotas foi o caso Carandiru, que teve o julgamento anulado recentemente. Não teve nenhuma grande derrota, então.

O júri

Os jurados, cinco homens e duas mulheres, olhavam atentamente para os gestos daquele homem que esvoaçava a toga preta aberta. Parecia um corvo, curvo. Gritava o mantra dos tempos obscuros. A cada “bandido bom é bandido morto”, me contorcia na cadeira, sempre sob o olhar de um policial militar que fazia a segurança do fórum. Levantei duas vezes durante as oito horas de debate para passar informações à redação. Do outro lado da linha, pouco importava o embate. Queriam a sentença. Aceitei a minha.

Não atendi a alguns telefonemas que mostravam no visor “Estúdio do Ar”. Se era a sentença o interesse, não podia resumir o mundo todo naqueles “você tem quarenta segundos, flor!”. Como não podia usar o celular no tribunal, me dediquei como a uma aula de história. Maldita tecnologia que me tirou a mania de andar com cadernos e canetas marca texto!

O processo

Sem o peso da ansiedade das sonoras, resolvi ouvir com atenção a todos os argumentos dos advogados, que alegavam legítima defesa dos policiais. Sim, eles estavam se defendendo de um homem rendido, sentado no chão e sem camisa. E se estivessem? Me permiti fazer essa pergunta em silêncio. E se aqueles homens, que ganham pouco e não têm preparo algum para a rua tivessem, realmente, se assustado com um movimento brusco do suspeito (como dizia o advogado) e tivessem atirado por reflexo? Então talvez o réu devesse ser outro. Quem deveria responder pela morte do jovem?

O promotor também prendeu minha atenção quando perguntou o que diferenciava aqueles homens “da lei” dos homens “fora da lei”, que matam “por susto” em latrocínios? O que transformava os últimos em bandidos bons e mortos e os primeiros em heróis condecorados? Por que a vida de uns vale menos que uma moto?

A sentença

Foram mais de duas horas de sala secreta, quando os jurados se reúnem para determinar a sentença. Na sala de imprensa a opinião era quase unânime: “Vão ser absolvidos”. O que nos levava a tal conclusão era um vídeo exibido pela defesa nos 10 minutos finais, com imagens de policiais sendo rendidos e mortos por “bandidos maus e vivos”. Cada imagem era narrada aos gritos pelo advogado. Ex-policial, engasgou o pedido de absolvição num início de choro.

Na leitura da sentença, todos os textos prontos, com alguns espaços para trocar as palavras “absolvidos” por “condenados”. Lacunas vazias esperando os anos de pena, caso a segunda alternativa se comprovasse.

A juíza, terceira mulher no meio de tantos homens julgadores, decidiu que a diferença entre os policiais e o ladrão de moto é tudo o que separa os dois mundos. Os homens da lei não tinham aquele passo ensaiado por acaso. Ele era ensaiado, de fato. Sabiam usar as permissões da lei a seu favor. O ladrão de moto não tinha nada por si.

Homicídio simples para um dos PMs. Doze anos e cinco meses. Bem menos que os 26 que a acusação queria, com todos os agravantes. Absolvição para os outros dois.

Vitoria da defesa. Satisfação da promotoria.

Catraqueanas

Não faça o que você gosta; faça o que você gosta dar certo

Gustavo Mittelmann
20 de março de 2017
Man in small conference room with whiteboard notes

Essa coluna é pra tentar ser atual falando de dez anos atrás. Uma provocação que surgiu a partir da visita que recebemos de uma turma de jornalismo da Unisinos. Perdi a conta do número de vezes que fomos convidados a falar da produtora, mostrando nossos trabalhos e processos de produção. Coisas que respondia sem piscar; que câmera, quanto de luz, formato de arquivo e assim por diante.

.

Dessa vez não. Em uma tarde, refletimos, fomos questionados e nos questionamos coisas que, se tivessem sido abordadas há uma década, certamente teriam nos levado por rumos diferentes

.

Pela primeira vez, falamos como empreendedores e não produtores audiovisuais. Mas é lógico que uma coisa está atrelada à outra. Sim, falando agora, é o que parece, mas há 10 anos queríamos apenas fazer o que gostávamos: vídeos. “Joguei tudo para o alto e fui fazer o que gostava”. Certo? Não.

.

Ah, então é errado fazer o que se gosta? Preciso ser eternamente infeliz em um emprego que me pague as contas? Amigo, nem uma coisa nem outra

.

Primeiro, porque hoje em dia só vai existir algum grau de estabilidade em determinados cargos públicos. De resto, pode escrever: uma hora você vai pra rua. Então esqueça a infelicidade eterna. Em segundo lugar, não é errado fazer o que se gosta; errado é encarar isso de forma aventureira, sem planejamento ou visão de negócios. Fizemos isso há 10 anos atrás? Fizemos. E te digo, se a produtora resistiu por dez anos e cresceu até chegarmos onde estamos hoje é porque, ao longo da caminhada fomos assumindo posturas e atitudes que, parando para pensar agora, são chamadas de Empreendedorismo.

Nós gostamos de fazer vídeos, mas precisamos fazer planilhas, devemos traçar planos estratégicos e não podemos nos dar ao luxo de não controlar de perto a relação com clientes e fornecedores.

.

Mas, com tanta coisa chata, não deixa de ser fazer o que se gosta? Não, não deixa. Porque, se além de todas essas obrigações administrativas, ao invés de fazer vídeo, eu tivesse optado por abrir uma pizzaria, com certeza eu não teria aguentado passar por tudo que passamos pra chegar até aqui

.

Entenda de uma vez por todas: as startups bilionárias não são chamadas de unicórnios porque ter uma é como viver um conto de fadas, mas sim porque são mitos. Há quem diga que viu, mas não deve levar mais uma mão cheia de anos para vermos que eram apenas cavalos paraguaios travestidos. Não acredite em mágica. Empreender não é um manifesto no Youtube. Trabalho e consistência devem ter a mesma dimensão ou mais que a paixão. Modelo Google? Outra lição aprendida na marra: ter uma mesa de sinuca na empresa em meio a uma crise mundial, como foi a de 2009, realmente não ajuda a encontrar saídas.

.

O empreendedorismo está visceralmente ligado à Indústria Criativa. Mas o “criativo” diz respeito aos processos e produtos. Ao passo em que a inovação precisa estar presente, a consistência de planejamento e administração são ainda mais indispensáveis

.

Então esqueça o unicórnio. Olhe para a sua empresa como um patinho feio. Esteja preparado para a realidade mais dura. Conte com a sorte, mas não dependa só dela. Seja competente, mas tenha planejamento. Descobri tarde, mas a tempo, que era um empreendedor. Agora, as coisas andam cada vez mais no rumo certo. Mas fica aquela dúvida: há 10 anos atrás, se tivéssemos enxergado isso de largada, seríamos um embrião pré-histórico de uma startup, quando fazíamos conteúdo online antes da grande maioria de Produtoras? Ou não teríamos encarado a aventura? Laura Andrade, da Olha Lá, tem um conselho interessante a respeito: só empreenda se você não consegue fazer outra coisa. A Laura é empreendedora.

ECOO

Gel de linhaça – Cachos perfeitos

Geórgia Santos
19 de março de 2017

Nessa vibe de ser ecologicamente correta, a gente enfrenta algumas dificuldades e complicações. É uma vida toda na comodidade de usar os produtinhos que estão na prateleira do supermercado ou da farmácia e era isso. Agora, surge o gel de linhaça.

Não serei ingrata, os cosméticos tradicionais me salvaram a vida. Quando eu era criança e adolescente, não tinha esse lance de creme para pentear, modeladores de cachos e muito menos os leave-in. Fala sério, no máximo um Neutrox amarelinho. Ou seja, se já não tinha finalizador tradicional, imagina se eu ia ter acesso aos que não prejudicam o ambiente e a saúde. Eu nem sabia que existiam. Mas isso mudou.

Há uns meses, descobri o melhor finalizador DA VIDA para os cabelos, especialmente para cabelos ondulados, cacheados ou crespos: o gel de linhaça. Ele deixa o cabelo macio, sedoso e modelado ao mesmo tempo. Os cachos ficam lindos, leves e soltos. E tem INÚMERAS vantagens

É natural;

Fácil de fazer;

Barato;

Saboroso;

Light;

Hein? Mas é de passar no cabelo ou de comer? Os dois!

MODELADOR DE CACHOS – QUE, DE QUEBRA, DÁ PRA COMER

 

Ingredientes

½ xícara de linhaça dourada

2 xícaras de água

folhas de gaze

1 pote de vidro

Modo de fazer

  • Misture a linhaça e a água em uma panela, leve ao fogo e mexa até que forme um gel;

  • Coe o gel com a gaze, espremendo até que o gel saia limpo;
  • Acondicione em um pote de vidro e guarde na geladeira;

Se quiser potencializar o efeito, pode misturar com babosa, especialmente se o seu cabelo for O produto dura cerca de um mês na geladeira, mas além de passar no cabelo, ele pode virar uma geleia light e delicinha. É só misturar o gel com uma xícara de purê de qualquer (prefiro de morangos) fruta e passar no pão. Super nutritivo, docinho, gostoso e light. Nham =)

Tão série

Mês das Mulheres – The Good Wife

Geórgia Santos
18 de março de 2017

 

O nome não parece ter a ver com empoderamento feminino, afinal, a premissa da “boa esposa” é herança da sociedade machista. Mas The Good Wife é o oposto disso. Ao longo de sete temporadas, a advogada Alicia Florrick (Julianna Margulies) se afasta daquilo que todos esperam dela: o estereótipo de bela, recatada e do lar.

Evolução da “boa esposa”

No primeiro episódio da primeira temporada, vemos uma Alicia pálida, mal vestida e com cara de dona de casa suburbana. Vemos uma esposa humilhada enquanto fica ao lado do marido, o procurador-geral que teve um caso com outra mulher e se envolveu em um escândalo de corrupção. Isso faz com que ela precise/queira mudar sua vida: ela volta a advogar e toma as rédeas da própria vida. Encontra um antigo amor dos tempos de faculdade, começa a trabalhar no escritório do bonitão e está armada a cama. Só precisamos deitar.

A trama tem tudo que a gente precisa pra não desgrudar os olhos da televisão: crimes, política, intrigas, sexo, affairs, mentiras, traições, mais crimes, mais intrigas e mais crimes. E sexo. E mentiras. E mais traições.

 

Com o passar do tempo, Alicia e a série amadurecem o suficiente para que fiquemos viciados na história dessa mulher poderosa que é uma mãe-dona-de-casa-que-trabalha-fora-e-é-casada-mas-não-é-e-ama-dois-caras-ao-mesmo-tempo-mas-não-tem-certeza-e-está-crescendo-profissionalmente-mas-talvez-não-saiba-lidar-bem-com-isso-ou-saiba. Ufa. Eu sei que ficou grande, mas na série também é assim, tudo ao mesmo tempo agora.

Mulheres poderosas

E não é somente Alicia. Temos Diane Lockhart (Christine Baranski), uma advogada fodona e Democrata até a alma, constantemente lutando contra os conservadores e pelos direitos da mulher, como regularização do aborto. Temos Kalinda Sharma (Archie Panjabi), uma mulher misteriosa e independente que não deixa que ninguém diga como viver a vida.

Então, se tu ainda não viu, corre pra assistir The Good Wife. A série está disponível no Netflix e vale cada clicada. É uma história de empoderamento e emancipação, uma história crua e real sobre os degraus que a mulher precisa subir ou escalar para conseguir ser vista. Eu não vou dar spoiler, mas se tu não te importa com isso, dá uma olhada neste texto da Time sobre o último episódio da série e entenda a evolução de uma personagem que estava em busca de si.

A série acabou, mas o nosso amor, não. Dá uma olhada no recap da primeira temporada e me diz se não é de viciar?

Guia de Viagem

Bruxelas – O tombo

Geórgia Santos
17 de março de 2017

Quando eu era uma jovenzinha e fiz um mochilão sozinha pela Europa, passei de trem pela Bélgica e fiquei encantada com o que vi pela janelinha. Pensava em quando voltaria a ver aquele lugar tão austero e caloroso ao mesmo tempo. Sentia, de fato, algo especial ali. Anos depois, a oportunidade surgiu e, em 2014, conheci Bruxelas.

Eu vivia em Lisboa em função de um mestrado e o instituto no qual eu estudava organizou um seminário de três dias no Parlamento Europeu – phynos. Era a oportunidade perfeita para mim, que mesclava estudo, política e turismo. Ou seja, meu pequeno paraíso particular.

.

Bruxelas é cosmopolita, cheia de imigrantes e uma variação enorme de idiomas que transforma o cinza do inferno

em um arco-íris

.

Partimos, então, em pleno inverno. O grupo relativamente grande foi instruído a usar roupas adequadas ao Parlamento, obviamente. Ou seja, nada de calça jeans e tênis. Vesti um belo vestido envelope com cara de executiva, meia calça e sapatos de salto alto, combinados com um trench coat e um cachecol. Chiquérrima e empolgadíssima para meu dia de cientista política famosa. Nem as belas cervejas belgas acompanhadas de um delicioso waffle me empolgariam tanto quanto o roteiro intelectual que me esperava. Com uma leve garoa, nos apressávamos para atravessar a praça em frente ao prédio do Parlamento quando … POFT.

.

Caí. Assim, do nada, simplesmente desabei. De joelhos. De quatro. No meio da rua.

.

A linda, maravilhosa e chiquérrima executiva/politóloga – também conhecida como eu – estava espatifada no meio da rua com a bunda pra cima e embaixo de chuva. Olho pra baixo e noto que, além da dor absurda que eu sentia, minha meia estava rasgada e meu joelho sangrava. Havia uma parte da pele esfolada e, ao lado, um corte bastante feio. Meu dia começou bem.

Parlamento Europeu

Chegamos ao Parlamento Europeu e lá eu fui informada que não havia quem pudesse limpar meu ferimento. Eles sequer me ofereceram um band-aid. Nadica de nada. Lavei com água e sabão no banheiro, mesmo, e uma alma caridosa me deu um curativo que mal tapava o corte gigante que minha perna ostentava. Quanto à meia, não tive tempo de ir ao hotel trocar de roupa, fiquei com a peça rasgada, mesmo. Estava muito frio, não poderia tirar.

Empinei o nariz e saí andando como se nada fosse. Chiquérrima com a meia rasgada. Eu mencionei que o dia terminou com um jantar no Parlamento, no mesmo lugar em que são recebidos os chefes de estado? E eu com a meia rasgada

 

Mas não é um tombinho (?) que vai estragar uma viagem dessas, não é mesmo? Bruxelas merece um crédito e valeu muito a pena. Conheci até a OTAN – mas lá não apenas não podíamos tirar fotografias como era “expressamente discutir política”, como anunciava uma placa. Tenso.

.

Lugares para ver

Bruxelas, apesar de ser a capital da União Europeia, é uma cidade relativamente pequena, mas tem muito pra ver. Aliás, acho melhor dizer que tem muito para curtir. A vantagem é que muitas das atrações estão no que chamam de Petite Ceinture, o pequeno centro.

Grand Place

A Grand Place, ou Grote Markt, é Patrimônio Histórico da Humanidade. Os prédios datam dos séculos 14 a 17 e serviam como espaço para os mercados da cidade. Hoje, recebe uma série de atrações, entre elas a feira de natal.

Manneken Pis

Basicamente, é menininho fazendo xixi. A estátua está ali desde 1619 e é bastante interessante. Já houve inúmeras tentativas de furto e, em datas especiais, recebe roupinhas comemorativas. Tem uma versão feminina, que é menos popular, chamada Janneken Pis, que fica escondida na mesma rua do Delirium Café.

Place de la Bourse

A praça comporta o prédio em que funcionava a bolsa de valores. É o local em que os cidadãos costumam se reunir em eventos importantes, como eleições, protestos etc. Bem pertinho, dá pra ir caminhando até a Place Sainte-Catherine, onde há  restaurantes e galerias.

Jardins do Monts de Arts

Há belos jardins e um mirante de tirar o fôlego. Sem contar que as ruelas do entorno são bem charmosinhas e abrigam o Museu Real de Belas-Artes da Bélgica e o Museu de Instrumentos Musicais.

Palácio Real de Bruxelas

É o local em que mora e trabalha o Rei da Bélgica, apenas. A visitação só é aberta durante o verão, entre 22 de julho a 4 de setembro.

Distrito Europeu

É o bairro em que ficam todos os prédios das Comissões Europeias e o Parlamento. Para quem tem interesse em conhecer um pouco mais sobre o funcionamento da União Europeia, há um espaço aberto a visitação, o Parlamentarium. É uma exposição interativa, com um tour pela história da UE que dura cerca de 90 minutos. Fica aberto todos os dias da semana e a entrada é gratuita.

Museus

Para os amantes das artes, há paradas obrigatórias: o Museu René Magritte e o Museu Horta apresentam o que há de melhor dos dois artistas.

.

Onde comer/beber

Há três coisas cujo consumo é obrigatório na Bélgica: waffle, chocolate e cerveja. Não tem como fugir. Com relação ao chocolate, é possível encontrar os mais famosos como o Godiva Neuhaus, e outros mais populares como Côte D’or. São todos absolutamente deliciosos.

Chez Leon

A especialidade da casa é, justamente, a culinária típica: moules (mexilhões), peixes, carbonnades flamandes (carne cozida na cerveja escura), stoemp (purê de batatas com uma série de ingredientes), waterzooi (um tipo de sopa de frango). Fica bem pertinho do Delirium.

Delirium

É o mais famoso, nem por isso é ruim ou “muito turístico”. Ao contrário, é parada obrigatória. Para se ter uma ideia, está no Guiness por conta dos mais de 2mil rótulos diferentes de cerveja que a casa oferece. São três andares cheios desse líquido dos deuses.

Brasserie Georges 

É um dos favoritos entre os turistas que visitam Bruxelas. As porções são ótimas e os preços são amigos. E, claro, deliciosos.

.

Onde ficar

Lamento, mas essa vou ficar devendo pra vocês. Fiquei hospedada em um ótimo hotel, mas não lembro o nome e sequer fiz a reserva. Lamento. Mas vale a pena ficar em local próximo do centro para poder aproveitar a cidade caminhando.

.

Como se movimentar

Como Bruxelas é pequena, o ideal é se movimentar a pé. Mas também é possível andar de metrô, que funciona super bem.

Pedro Henrique Gomes

A 13ª Emenda

Pedro Henrique Gomes
17 de março de 2017
13TH

Não demora para A 13ª Emenda confessar a sua potência argumentativa. As políticas de encarceramento em massa de negros e latinos não é um dado lateral para entender a perversidade racial que circula nos EUA. É, ao contrário, o seu traço mais marcante, o continuador ideológico do racismo e das violências escravagistas que explicam o fenômeno do sistema prisional (e, claro, da Justiça) daquele país. É entendimento do presente que ilumina o entendimento do passado, poderia dizer Marx. Há também as diferenças de classe, tão cruciais no campo minado do debate que estão amalgamadas com o racismo. O racismo evoluiu de um sistema de posse para um sistema de segregação e preconceito estruturado e violento. É ainda preciso lutar.

O filme de Ava DuVernay nos diz que para compreendermos esse recorte é preciso ter perspectiva histórica, e esta nos deixa claro que o processo de mistificação do negro como ameaça ao branco precisava ser uma ameaça real após o fim da escravidão. Precisava tomar corpo, ser imagem. O filme então utiliza as imagens de cinema, a partir de O Nascimento de Uma Nação, para reforçar esse ponto – poderia citar muitos outros filmes, vários deles menos lembrados; …E o Vento Levou, por exemplo. O filme de Griffith deu, após seu lançamento, em 1915, novo fôlego a Ku Klux Klan e inspirou nova onda de perseguições (para acompanhar esse momento vale ler Melvyn Stokes, em especial, seu livro D.W. Griffith’s the Birth of a Nation: A History of the Most Controversial Motion Picture of All Time).

Após o fim da escravidão negra, em 1865, a 13ª emenda condenou o negro ao estigma de criminoso. O filme refaz o percurso sem encenação, aposta na força das entrevistas, do arquivo. A certa altura, colocam-se as divergências em campo: mostrar ou não as imagens da violência motivada pelo racismo? É preciso chocar a opinião pública e, assim, promover algum nível de consciência social da situação histórica da população negra nos Estados Unidos? As políticas de guerra às drogas iniciadas com Nixon (Lei e Ordem) e reforçadas com Reagan promoveram um aumento absurdo do número de presos no país desde os anos 1970. Somados a isso, os complexos prisionais privados lucram como máquinas de moer carne. Quando tais políticas começam a perder força o discurso vira a ponto de os democratas, que com Clinton eram favoráveis, com Hillary pedem reformas. Nem tanto ao mar, pois, nas palavras de Angela Davis, historicamente os processos reformistas sempre significaram mais opressão. Isto é, é dos escravizados que devem nascer as ações políticas práticas e não dos escravizadores.

Uma ressalva firme ao filme é petulância da “estética Netflix”, que vem abaular, rodear de power points, promovendo um picoteamento incrível nas falas dos entrevistados para dinamizar o ritmo do filme. É uma característica comum aos documentários feitos pela empresa, a montagem ultra planejada (num mal sentido), mediada por intervalos de respiro musicados e então devolvidos ao ritmo do argumento como um soco. Esse ritmo, num filme que é puro fluxo de pensamento reflexivo, soa anacrônico.

Voltaremos a este filme em uma próxima coluna.

13th, de Ava DuVernay, EUA. Com Michelle Alexander, Angela Davis, Cory Booker, Jelani Cobb.

Samir Oliveira

O que eu aprendi com o Tinder em um ano de solteirice

Samir Oliveira
16 de março de 2017
Foto: Denis Bocquet

Em fevereiro minha solteirice mais recente completou um ano. Eu não tinha ideia do que significava estar solteiro na era dos relacionamentos intermediados por aplicativos. Muita coisa mudou no mundo durante os quatro anos em que estive comprometido. No campo das relações sociais, talvez nada tenha mudado com tanta intensidade como a forma como as pessoas se conhecem hoje em dia.

No início de 2012, quando comecei o relacionamento que teria fim no ano passado, ainda não existia o Tinder. Passei quatro anos sem nenhum tipo de contato com essa tecnologia. Não demorou muito para que eu descobrisse que a minha forma de ser solteiro no período pré-2012 era completamente ultrapassada. Na melhor das hipóteses, era ingênua. Na minha época – lá vem o idoso de 28 anos – a principal plataforma digital para relacionamentos gays era o famoso chat do Terra. Mais especificamente, a sala Eles&Eles.

Mergulhei no mundo dos aplicativos de relacionamentos atraído pela expectativa de desvendar os códigos da solteirice contemporânea. Após um ano como usuário assíduo, posso me atrever a tecer alguns comentários a respeito destes curiosos habitats.

Em primeiro lugar, eu acho incrível como aplicativos como o Tinder nos transformam em marqueteiros de nós mesmos. Precisamos construir uma imagem coerente com os objetivos que queremos alcançar, sejam eles amizade, sexo casual, fetiches ou relacionamentos monogâmicos. Qualquer que seja a proposta, precisamos construir uma imagem de nós mesmos que, em tese, nos ajude a concretizá-la. Este esforço não é necessariamente artificial, embora sua repetição possa torná-lo, no mínimo, automático e frio.

Em um segundo momento, caí numa ilusão que acredito ser comum a todos os iniciantes: a de que ter um match significa ser correspondido. Na verdade eu ainda não sei o que significa ter um match. Mas sei que não significa necessariamente reciprocidade, como a ideia destes aplicativos parece sugerir. E não falo isso para sentir pena de mim mesmo. Já deixei de corresponder tanto quanto não fui correspondido. Com o tempo fui aprendendo que estas coisas simplesmente acontecem. São definidas por circunstâncias e percepções, não necessariamente por maldades ou mesquinharias.

Em um ano interagindo com pessoas através destes aplicativos, já vivenciei uma penca de encontros que renderiam ótimas histórias. Conheci muitos caras e me surpreendi de diferentes formas. Acabei me metendo em algumas furadas, mas também cheguei a fazer até amizades – pelo menos uma boa amizade apareceu para mim pelo Tinder.

Para sobreviver nesta nova forma de ser solteiro, precisei entender que estes aplicativos não podem ser o centro da minha solteirice. Que a vida é muito mais dinâmica do que um jogo de likes e matches e que a troca de olhares e sorrisos ao acaso ainda vale para alguma coisa, felizmente.

Foto: Denis Bocquet/Flickr

Guia de Viagem

Cartagena – O calor e o mosquito

Geórgia Santos
10 de março de 2017

Lua de mel é daqueles momentos que a gente espera com certa ansiedade, por uma série de motivos bastante óbvios, e planeja minuciosamente. Quando era criança, eu dizia a todos que viajaria para as ilhas gregas após a celebração de meu matrimônio. Não rolou.

Por uma grata surpresa do destino e uma combinação de conveniência e curiosidade, Cléber e eu resolvemos passar nossa lua de mel em Cartagena de Indias, na Colômbia. E que bela decisão. Fomos de Porto Alegre ao Panamá e, rapidinho, chegamos ao nosso destino final.

.

No aeroporto, estavam nos esperando a gerente do hotel em que nos hospedamos, um calor infernal de 57 graus e uma horda de mosquitos

.

Ao longo do trajeto, já deu pra sentir a vibe da cidade. Um lugar diferente, em que o antigo e o novo conversam em meio a uma explosão de cores, luzes e som. Era janeiro e o verão estava na pele das pessoas, que passeavam pelas ruas da cidade. Livres. Tudo naquela cidade transpirava liberdade, calor e movimento.

Estávamos cansados e resolvemos dormir, mas só depois de bebermos um espumante rosé em temperatura perfeita sobre as flores espalhadas pela cama. Phynos. Acordamos cheios de energia e bem cedo para aproveitar o café da manhã e a piscina do hotel.

O calor e os mosquitos

Era 7h da manhã e a temperatura era de 32 graus. Delícia. Estávamos de férias, mesmo, e uma aguinha nos aguardava – não todo aquele concreto da capital gaúcha. Dei uma mordida em um patacón e o primeiro mosquito atacou. Sem problemas, já estou acostumada. Um gole no suco de abacaxi e o segundo avançou, também nas pernas. Foi colocar a granola na boca e o terceiro veio sem dó nem piedade.

.

Foi aí que me deu um estalo. Cedo da manhã, calor, mosquitos aos montes, voando baixo e picando nas pernas e pés. Isso tem nome e é nome de rico: Aedes Aegypti

.

Sim, a nossa viagem à Cartagena foi durante o surto de Zyka que acometeu o Brasil e, também, a Colômbia.

A partir daí eu fiquei completamente paranoica, especialmente ao lembrar que não havia levado repelente. Eu empacotei laxante mas esqueci do repelente (se bobear tinha até supositório). Fomos à piscina – que ficava no terraço do hotel – e tudo o que eu fiz foi obcecar com insetos que boiavam bem belos e faceiros. Eu olhava cada mosquito, um por um, procurando por patas compridas e listradas. A cada suspeita, eu pirava. Só descansei depois de umas 13 picadas, uma coceira infernal e a compra de um repelente.

Depois disso, aí sim, eu pude aproveitar Cartagena do jeito que a cidade de Gabo merece: com atenção, dedicação e deleite. E valeu cada minutinho. Cada picadinha. Ah, e Zyka free.

.

Lugares para ver

Por mais que Cartagena fique no litoral colombiano, não espere praias bonitas. É um lance meio litoral gaúcho, nada de marzinho verde e coisa e tal. Porém, há ilhas e praias próximas à cidade como o Arquipélago de Rosário e Playa Blanca. Mas pra isso vale outro post. Quanto à Cartagena, é um lugar histórico, colorido e com uma culinária maravilhosa.

Cidade Amuralhada

Cartagena é a cidade amuralhada. As Muralhas de Cartagena tem 11 km de extensão e foram construídas para proteger a região dos piratas e outros invasores no século 16. Dentro das muralhas estão muitos dos principais pontos turísticos da cidade. Ela pode ser visitada por dentro e por cima, ou seja, é possível caminhar por ela ou simplesmente sentar para apreciar o por-do-sol. Dentro das muralhas estão as melhores lojas, restaurantes e passeios. Vale bater perna, mesmo, e explorar cada cantinho.

Torre do relógio

É uma das entradas da cidade murada. O melhor: há um sebo com livros incríveis e diversos exemplares de livros de Gabriel García Márquez. Inclusive primeiras edições. Eu garanti um exemplar da primeira edição de O Amor Nos Tempos do Cólera, que está devidamente protegido por uma caixa de vidro em minha estante.

Portal de los Dulces

Em frente à torre há um caminho de bancas de doces com as coisas mais deliciosas do mundo. Cocadas de todos os tipos e sabores e uma variedade interessante de doces de leite. Como essas cabeças de bonecas bizarras e docinhas.

Palácio da Inquisição

Dentro dos muros também fica o Palácio da Inquisição. A inquisição espanhola instalada em Cartagena em 1610 foi das mais sangrentas e não terminou até 1821. É possível ver alguns dos instrumentos de tortura utilizados, listas de livros proibidos e de pessoas perseguidas e assassinadas como forma de controle da população e fixação do poder da Igreja Católica. É um ambiente tenso e assustador, mas fundamental para entendermos um pouco de nossa história. Funciona de segunda a sábado das 09h às 18h e aos domingos das 10h às 16h. A entrada custa 16mil COPS, cerca de R$20,00.

Castelo San Felipe de Barajas

É a maior obra militar do novo mundo construída pela coroa espanhola. É uma construção imponente que oferece uma vista incrível da cidade. No caminho, é bacana parar para uma foto com os Sapatos Velhos, feito em homenagem ao poeta local Luis Carlos López, autor do poema “A mi ciudad nativa”. Na obra, ele compara a cidade com um par de sapatos velhos, pelo carinho que inspiram. O monument, criado em 1946, é obra de Héctor Lombana Piñeres.

.

Onde comer/beber

La Cevicheria

Impossível viajar àquela região e não experimentar uma das iguarias mais apreciadas, o ceviche. Em La Cevicheira, é possível experimentar um dos melhores da cidade. Recomendo pedir o trio, em que é possível provar de três preparações diferentes. O ambiente tem temática marítima e mesas na calçada. Um charme.

Cl. 39 #7 14, Cartagena, Bolívar, Colombia

La Casa de Socorro

Um restaurante com comida típica colombiana, em que se prova um bom peixe, patacones e arroz con coco. O preço é acessível e fica próximo à cidade murada. Parada obrigatório para conhecer o sabor de Cartagena.

Cl. 25 #8B-112, Cartagena, Bolívar, Colombia

La Cocina de Pepina

Serve a cozinha colombiana tradicional e revisitada. Os preços são um pouco mais salgados, mas vale a visita. Os pratos são sofisticados e cheios de sabor.

Cl. 25 #10B-6, Cartagena, Bolívar, Colombia

Bazurto Social Club

O lugar ideal para bons drinques e ouvir uma bela música. Mas o charme especial fica por conta do passado: era o bar favorito de Gabo.

Getsemaní, Av. del Centenario, Cra 9 #30-42.

Teléfono: +57 (5) 664 3124 / +57 317 648 1183

info@bazurtosocialclub.com

Cafe Havana

Uma das casas mais tradicionais da cidade serve bebidas e oferece ótima música cubana ao vivo. Salsa até dizer chega. O ambiente é incrível, como se fosse uma volta ao passado, já que fica em um autêntico clube de jazz dos anos 50. Mas os preços são bastante salgados. Só aguentamos um drinque e umas cervejas. Bem carinho.

ESQUINA, Cra. 10, Cartagena, Getsemaní, Colombia

La Casa del Habano

É uma charuteria. Basicamente um cubículo em que enrolam e vendem charutos cubanos. Mas, meus amigos, serve o melhor mojito de Cartagena e uns sanduíches dos deuses. O Ropa Vieja vale cada mordida. Mas assim, eu andei lendo que há outra (ao menos o endereço é diferente do que eu vi) e que é fake e tal, ou seja, não é parte da franquia a que diz fazer parte e que os charutos são falsificados. Não entrei lá pelos charutos, apesar de ter fumado, então tá de boa. De qualquer maneira, o botequinho em que entramos era perto do Cafe Havana e serviu um almocinho delícia.

.

Onde ficar

Hotel Boutique Santa Ana

Além de charmoso, ofrece um café da manhã dos deuses e personalizado. O serviço é impecável e feito sob medida para casais. O hotel conta com piscina no terraço, redes e tem ótima localização. Próximo à Praça da Santíssima Trindade, local de efervescencia cultural. Além disso, é possível ir até a cidade murada a pé. Perfeito.

Calle del Carretero (29) No. 10B – 34 · Getsemaní · Cartagena · Colombia

Teléfono: (+575) 643 6125 · (+575) 643 6451

Móvil: (+57310) 586 1393 · (+57312) 584 8511 Solo Whatsapp

Email: info@casasantaana.net · infousa@casasantaana.net

Pedro Henrique Gomes

Hell or high water

Pedro Henrique Gomes
10 de março de 2017
8E9A3008.CR2

Antes de me voltar para uns filmes de modo mais detido, preciso ainda escrever sobre alguns outros. Não consegui assistir a todos os filmes da “awards season”, portanto esboço abaixo algumas palavras sobre alguns deles – enquanto já há outros chegando, pois neste final semana estaremos em peregrinação para assistir Silêncio, do Martin Scorsese, e Personal Shopper, do Olivier Assayas, e O Apartamento, de Asghar Farhadi.

A Qualquer Custo, de David Mackenzie

O cenário é o sul dos Estados Unidos. Texas, claro. Jeff Bridges interpreta o xerife. Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) roubam bancos para constituírem um patrimônio (uma lembrança de que a luta de classes no velho oeste é a luta pela propriedade da terra). O filme mostra que os bancos, após tomarem as terras, dominam e controlam a economia local. Chegaram com violência, expulsaram os povos indígenas, tomaram conta das terras. Portanto, a dominação territorial/espacial é um elemento da ação de A Qualquer Custo – e de seus dramas também. Mackenzie o faz com atenção especial aos espaços (isto é, aos enquadramentos). Os espaços, no cinema, aprofundam tensões, distendem o tempo, provocam angústias e maravilhamentos. Não assisti aos seus filmes anteriores, mas o cineasta demonstra conhecer o riscado. Eis o lema que seus personagens carregam: roubar dos ricos e dar a nós, os que precisamos.

Aliados, de Robert Zemeckis

O CGI francamente debochado, o chroma key escandaloso, a atmosfera retida ao que é essencial ao movimento do filme, este Aliados é um delírio. Mesmo que seja para roubar um pouco de Raoul Walsh aqui, um pouco de Lubitsch ali, não é fácil (tentar) ser clássico. Zemeckis está plenamente consciente dos artifícios que utiliza para manipular narrativamente o seu filme e, ao mesmo tempo em que inscreve seu filme dentro da tradição, é muito livre para criar uma ação visualmente muito interessante e uma história de amor que encerra o caso de maneira a honrar os seus personagens. Uma mistura honesta de drama amoroso, filme pastiche de guerra e filme de ação fantástica (vocês viram a cena do parto em meio aos bombardeios?).

Lion – Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis

Incrível como um filme desaba totalmente após cada minuto de projeção, principalmente na segunda fase da vida do protagonista (a segunda parte do filme). Mesmo antes, nota-se que a mão é pesada, o filme teima em seguir uma cartilha jornalística sub-sensível que não consegue articular as suas sensibilidades dramáticas. As tendências estruturais se manifestam desreguladas, impedindo que mesmo a substância mais elementar para que o filme funcione, a emoção, se veja jogada numa montagem e principalmente numa encenação que impedem que o filme aconteça. O ápice do filme é a descoberta da casa através de imagens de satélite do Google. Uma reportagem escrita teria melhor sorte.

Manchester à Beira-mar, de Kenneth Lonergan

Esperto ao filmar conversas, Kenneth Lonergan faz com que as melhores cenas de seu filme sejam aquelas em que uma tensão se cria de maneira autocontida. O cineasta sabe filmar esse diálogos mais duros travados pelos personagens pois não precisa fazer muito e, ao mesmo tempo, não pode simplesmente deixá-los a própria sorte. Mas ele encontra a medida e seu filme então flui – no entanto, cá entre nós, os flashbacks ainda me parecem deslocados no filme, puramente repetitivos. Não interrompe a conversa e a melancolia que rebate daquele espaço frio e cinzento dá força ao filme. Vale acompanhar o próximos passos do cinema de Lonergan.