Marcos Santos/USP Imagens Tecnologia da informação
Jornalistas, repórteres e editores são seres humanos normais, e não robôs dotados de informação programada, caso ainda haja alguma dúvida. Aquele combinado de informações que chega até as pessoas foi escrito e apurado (guarde estas palavras: apuração e checagem) por uma pessoa como eu, como você, que erra, se confunde e, ao mesmo tempo, também tem ideias brilhantes.
Por que digo isto? Porque a apuração é o princípio mais básico dos básicos para um jornalista
Conheci, ao longo da carreira, muito repórter que divulgava informações que não havia apurado – que fazia uma reportagem com base em outros veículos, sem perguntar nada para fonte alguma. Conheci editor e produtor mais preocupado com o imediatismo da notícia do que com a divulgação correta da história. Conheci plantonista que matou o cara errado porque não checou duas vezes o que estava escrevendo.
O problema é que, às vezes, o errado vira norma e a gente se vê no meio do turbilhão de equívocos
Em uma dessas situações, preocupada em não divulgar o que não havia apurado, me neguei a ler certa informação no ar – era uma notícia dada por outro veículo e da qual eu não tinha nenhuma confirmação com minhas fontes. Comprei uma briga por causa disso, mas dormi tranquila e aliviada. Horas depois da desavença, veio a publicação de uma errata a respeito da nota que não li. A informação estava equivocada.
O colega que errou era um repórter como eu, não era um robô com um big data no cérebro. Não sei se faltou checagem ou houve outro problema, essas coisas acontecem. Mas sei que se eu não me preocupasse com apuração, duas pessoas teriam errado
Me arrependo da briga? Lógico que não. Comprarei outras como esta? Óbvio que sim. Para o ouvinte, leitor ou telespectador, o que vale é o que chega até ele. A errata não tem garantia. Para ele fica a imagem de um jornalista confiável ou não. E não quero ser a segunda opção, já tem muitos por aí.
Parece uma pregunta idiota, e é. É uma pergunta extremamente idiota. O problema é que a resposta da sociedade tem sido ainda mais imbecil. Sobre o que é mais importante, planeta ou lucro, estamos ficando com a segunda opção.
Alguém sempre vai dizer que é exagero, que não é bem assim. Que esse papo é coisa de ecochatos da esquerda autoritária que são contra o empreendedorismo. Que o planeta está a alvo e que o aquecimento global é invenção dos chineses (?). Acontece.
O problema é que esse alguém é o presidente dos Estados Unidos
Mesmo que o presidente em questão seja Donald Trump, o que é algo bizarro em si, é extremamente preocupante. Significa que o comandante em chefe do país mais poderoso do mundo acredita que a humanidade pode fazer o que quiser com os recursos naturais e que tudo ficará bem assim. Senão melhor. O absurdo chegou ao ponto em que se está negando a ciência. O resultado é que as pessoas foram obrigadas a marchar pelo senso comum, como bem disse o nosso colunista Sacha Nixon, no espaço Nós US.
Mas mesmo que seja uma marcha pelo mínimo e pelo óbvio, que coisa tão linda é ver lutarem pela bem estar comum
Sim, porque não estamos falando de um protesto baseado em questões individuais. Talvez na Marcha pela Ciência (March for Science) alguém tenha protestado porque perdeu financiamento para a pesquisa que estava realizando, mas no caso da Marcha das Pessoas pelo Clima (People´s Climate March), que ocorreu neste final de semana, a reivindicação é simplesmente continuar existindo.
Parece drástico, mas não é. Chegamos a um ponto em que absorvemos o descontrole em nossas rotinas como algo natural. Com a água, com o lixo, em nossas casas, na escola, em nossas indústrias. É mais barato, ganho mais, vendo mais, lucro mais, mais, mais, mais.
E vivemos menos, menos, menos, menos
Que bom que fomos às ruas para proteger nosso meio ambiente e declarar a responsabilidade do presidente dos Estados Unidos ao conduzir essa questão. Precisamos celebrar o fato de estarmos acordados para dizer, em alto e bom som e no meio da rua, que o planeta é mais importante. Respondendo a uma pergunta idiota.
USA. Alabama, Montgomery. The Great Freedom March. Martin Luther KING Jr. led a group of marchers from Selma to Montgomery to fight for black suffrage.
“An artist’s duty, as far as I’m concerned, is to reflect the times.
Nina Simone
Em tradução livre, Nina Simone diz que o dever do artista, até onde ela sabe, é retratar o período em que vive. Obviamente é uma afirmação da qual um pintor ou um poeta podem se apropriar, mas ela se referia à música. A sua arte, a arte que ela levava tão a sério. Não sei se essa frase foi a inspiração de Dwayne Johnson (ele mesmo, The Rock) para produzir o programa “Soundtracks – Songs that defined history”, mas certamente é a isso que o programa se refere.
A nova produção da CNN, é um tributo ao que a música é capaz de fazer em uma sociedade em constante movimento
A ideia é identificar a trilha sonora de grandes acontecimentos de nosso tempo, identificar ou relembrar as “Canções que marcaram a história”, como diz o título. No primeiro episódio, ouvimos Nina Simone e Stevie Wonder, entre outros, durante a luta pelos direitos civis. Sete décadas de protestos por um mundo melhor; no segundo episódio, Billy Joel e o seu “New York State of Mind” após o 11 de setembro e Bruce Springsteen externando toda a dor de um povo em um álbum.
O programa foca em eventos históricos para a população norte-americana, já que é exibido nos Estados Unidos, mas isso não significa que não possa ser apreciado por um outsider. Afinal, a luta pelos direitos civis na década de 60 em solo americano foi também a luta da população negra de todo o mundo por uma sociedade mais justa e igual. Martin Luther King Jr é um herói da humanidade e, ainda hoje, todos os que batalham contra o racismo querem gritar “Mississipi Goddam”.
O primeiro episódio mostrou que o protesto está na voz de todos os inconformados e a música nos ajuda a verbalizar as reivindicações e a imortalizá-las
Já o segundo episódio mostra o quanto a música pode mexer com nossas emoções. Pode curar, mas também pode abrir uma ferida
Ainda há seis episódios pela frente – ao menos dessa primeira temporada – e, confesso, estou ansiosa. É raro ver uma produção com tamanha qualidade e sensibilidade. Sem cair no clichê, no óbvio. Sem recorrer ao mais fácil. Mas cavando fundo no que a nossa sociedade tem de mais dolorido e papel da música para na constante rotação da terra.
Foi uma semana congelante no sul do Brasil, segundo relatos que recebi. Previsivelmente, a gauchada já começa a se coçar pra viajar pra serra e passar aquele frio gostoso enchendo a cara de vinho em frente a uma lareira e coisa e tal. Três amigas e eu resolvemos fazer isso e viajamos para Cambará do Sul há quase cinco anos. E valeu a pena, mas foi uma viagem turbulenta – óbvio.
O suposto atropelamento deixou a viagem estranha, mas bastante propensa a ataques de riso eventuais. No meu caso, de puro nervosismo. Provavelmente algo que herdei de minha mãe, considerando que não há ninguém no mundo que ria mais que ela ou o faça em situações mais inadequadas. E os risos eram realmente aleatórios, não estávamos bebendo nem fumando maconha. Só coca-cola e uns marlboros.
Quando avistamos a placa indicando que estávamos em Cambará do Sul, já havia passado de 1h da manhã. A cidade parecia o cenário de um filme do Clint Eastwood. Abandonada, escura, com uma baita neblina e sem uma viva alma na rua. Veja bem, almas, havia. Vivas, nenhuma.
Todos os celulares estavam sem bateria – lembrem, era 2012 e as fotos foram tiradas com câmera digital – e nós não tínhamos a menor ideia de como chegar à pousada. Estávamos condenadas a vagar até que alguma pessoa aparecesse. Renata começou a dirigir em círculos pela cidade, na esperança de que encontrássemos alguém que pudesse nos ajudar. Felizmente, de alguma forma, chegamos até a casa em que ficava a Brigada Militar.
Neste ponto é importante ressaltar que Fernanda e eu estávamos em meio a um dos piores ataques de riso de toda a viagem. Eu não conseguia respirar, meu diafragma estava distendido e louco pra soluçar e minha barriga estava tão tensa que a câimbra já se anunciava. Não bem câimbra, mas aquela dor que dá quando a gente corre sem ter o menor preparo físico, sabe. Por isso, Renata e Evelin, muito responsáveis, sugeriram que nós ficássemos no carro pra que os policiais não se sentissem ofendidos. Justo.
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Elas desceram e começaram a bater na porta, aparentemente sem muito sucesso. Quando já estavam voltando pra o carro, aparece alguém na porta. Sem farda e armado. Elas se borraram, Fernanda e eu rimos ainda mais
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Esclarecida a situação de estarmos vagando pela madrugada, as gurias pediram ajuda. Se desculparam pelo nosso comportamento infantil e eles, gentilmente, explicaram como chegar à pousada. Quando elas voltaram pra o carro, perguntei pra Renata se ela havia entendido, ao que ela me garantiu que sim. Mentira. Duas quadras depois ela não sabia mais pra onde ir e nós não conseguíamos mais encontrar a Brigada.
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“Sem demora, notei que um carro nos seguia. As gurias estavam céticas, me chamaram de paranóica”
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A essa altura nós já não ríamos mais. Estávamos com medo, mesmo. E tínhamos razão pra isso. Sem demora, notei que um carro nos seguia. As gurias estavam céticas, me chamaram de paranoica. Riram. Mas aquilo estava estranho. Renata resolveu testar o motorista e começou a entrar em ruelas improváveis. A cada curva que nós fazíamos, eles seguiam o mesmo trajeto. Viramos à direita. Eles também. Viramos à esquerda, eles também.
Ficamos desesperadas. Assustadas de verdade. Estávamos em uma cidade fantasma sendo seguidas por um automóvel que parecia ter quatro homens dentro – exatamente a quantidade de mulheres em nosso carro. Renata foi mais corajosa –e doida – e resolveu parar o carro e perguntar o que estava acontecendo. Não reagimos bem.
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“Tu tá louca. Eles vão nos estuprar, nos matar, a gente não vai sair viva disso. Não para esse carro. A gente vai ser presa fácil. Não faz isso!!!”
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Eu estava em pânico, a Fernanda chorava, a Évelin blasfemava e a Renata abaixou o vidro e perguntou: “O que vocês querem?” Notando o nosso desespero, o rapaz sorriu e disse: “A gente sabia que vocês iam se perder, por isso resolvemos ajudar.” Eram os brigadianos que decidiram nos seguir, garantindo que chegaríamos ao destino. “A gente leva vocês até lá, segue o carro”, explicou. Obviamente, diante do ridículo, caímos na gargalhada de novo e fizemos o que eles disseram.
Mas algo soou estranho. Eles não estavam de viatura ou fardados. Hm, não parecia certo. Ao mesmo tempo, o carro seguia para uma rua escura, de chão batido, sem casas ou prédios no entorno. Todas pensamos a mesma coisa.
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“Nós somos muito trouxas. É uma emboscada!!!!”
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Começamos a gritar, eu comecei a chorar e a Fernanda não parava de gritar que era uma emboscada. A Évelin e a Renata tentaram manter a calma, mas elas estavam apavoradas também. “Eles vão nos estuprar no mato, cortar nossos corpos em pedacinhos e ninguém nunca mais vai encontrar. Meu Deus, nossas famílias. Que horror. Arranca esse carro, foge. É uma emboscada! É uma emboscada!!!!”
Eu sei que parece coisa de quem vê muito Criminal Minds, mas a situação era tensa. Eu alternava entre risos e choro e estava muito assustada. Até que tudo ficou ainda pior. Eles pararam o carro em uma rua escura e, aparentemente, sem saída. Não conseguiríamos passar por eles. Nisso, outro carro surge do nada e nos fecha. Fodeu.
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“Eu disse que era uma emboscada, a gente vai morrer!!!”, gritou a Fernanda
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A essa altura do campeonato, todas nós acreditávamos nisso. De verdade. Quando eles desceram do carro, o discurso de despedida já começava a ser ensaiado e as lágrimas eram bastante intensas. Era o fim. Adieu. Era uma emboscada.
Exceto pelo fato de que estávamos em frente à pousada e o cara que “nos fechou” só estava entrando na garagem da própria casa. Mas também, dá uma olhada na rua do bagulho. Imagina à noite. Compreensível, né?
Sim, adivinhou, caímos na gargalhada. De novo. Só que dessa vez foi difícil de parar. Eu levei muito tempo. Acordamos o dono da pousada, demorei uma hora pra fazer a lareira funcionar (que já estava preparada e era só acender um fósforo) e quase fui expulsa do quarto ao melhor estilo Big Brother, com votação e tudo, porque não calava a boca.
Hoje “A Emboscada” virou nome de grupo no whatsapp. Mas a saga daquele final de semana não parou por aí. Ainda fizemos estragos em São Francisco de Paula…
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Lugares para ver
Fortaleza e Itaimbezinho
O turismo em Cambará é totalmente voltado pra natureza e as grandes atrações são os canyons da Fortaleza e o Itaimbezinho. Particularmente, acho o da Fortaleza mais bonito e interessante. O único inconveniente é o acesso. A estrada pra chegar até lá é horrível. Mas não tem erro, é só seguir as placas, mesmo quando parece que alguém vai te matar no meio do nada. Chegando lá, é só caminhar bastante e explorar as trilhas ao máximo – e desviar dos boizinhos – e aproveitar a vista maravilhosa. Pra quem gostas de algo mais radical, é possível fazer a trilha no riacho que corta o canyon, mas pra isso é preciso procurar as empresas especializadas que oferecem esse serviço. Os hotéis e pousadas, na maioria, oferecem pacotes com passeios exclusivos por trilhas em diversos locais da região.
Já o Itaimbezinho tem uma infraestrutura mais preparada para receber turistas, com guias, banheiros e tudo muito bem sinalizado. Há duas trilhas, que o visitante escolhe de acordo com o quanto quer caminhar. Ao longo do caminho, há recantos lindos esperando por quem está afim de explorar o matagal, com riachos e cascatas pra recarregar as energias. Só tomem cuidado com os búfalos. Não é piada. Especialmente com neblina….
Turismo rural
Eu nasci na colônia, então passear por sítios e fazendas em meio a animais não me impressiona. Mas pra quem nasceu na cidade, pode ser um passeio interessante. Há uma série de estâncias que estão prontas para receber visitantes que queiram conhecer um pouco mais do universo campeiro. Os hotéis da região estão todos preparados pra indicar o melhor roteiro pra tua viagem.
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Onde comer
Não é uma cidade grande, com grandes restaurantes. por isso, recomendo a hospedagem em um local que ofereça café da manhã. Os melhores restaurantes da cidade estão localizados no hotéis mais equipados – e caros -, que qualquer pessoa pode acessar. Mas há outras alternativas.
É um local delicioso que vende geleias e antepastos orgânicos, produzidos no local, a Querência Macanuda. Quando nós visitamos pela primeira vez, em 2012, só era possível fazer uma pequena degustação dos produtos. Hoje o sítio está preparado para receber quem queira degustar um espumante ou uma boa cerveja artesanal. Ainda oferecem tábuas de queijos, sorvetes e outras delícias.
O lugar perfeito pra quem quer experimentar uma boa comida campeira, sem falar na ótima seleção de cachaças que a casa oferece. É um espetáculo no inverno, com a comida reconfortante e fogões à lenha. A comida é maravilhosa e rola até um som bem gaudério.
Se tem grana sobrando, nem pense em ficar em outro lugar. É a experiência perfeita. Da vista à comida, dos spas à lareira. Desenhado para agradar até ao cliente mais exigente, é sofisticado sem apagar o clima rural da cidade.
Foram essas as cabanas difíceis de achar. Apesar do local ermo – que nem é tanto assim -, vale muito a pena. O preço é acessível e as cabanas são bem equipadas e aconchegantes. Uma ótima alternativa.
A passagem da tranquilidade ao caos é o elemento detonador do conflito. Quando a esposa de um habitante (combalido) é levada por uma tribo de canibais, o xerife da cidade (Kurt Russell) mobiliza um pequeno grupo em busca de resgatá-la. Os personagens são cansados, de falas arrastadas, alguns impacientes, outros já andam com idade avançada ou estão debilitados de algum modo – e não há muitos deles. A missão não será fácil. Na tradição do gênero, nunca é.
Filme que passou em branco nos cinemas (chegou aqui diretamente em streaming), Rastro de Maldade segue a cartilha clássica do western e busca a renovar, embora essa renovação não seja sempre fluida e bem organizada, se escorando e dependendo, por vezes demais, dos códigos do gênero. A violência que mostra, desde o primeiro plano, não é novidade no faroeste, embora o cineasta Craig Zahler, neste que é o seu primeiro filme como diretor, tenha ambições um tanto mais literais ao filmar corpos sendo partidos ao meio a base de machadadas. É um universo que proporciona essa liberdade, este o do faroeste: o deserto montanhoso e isolado, o silêncio do vento e a sensação de justiça e preservação da calmaria local.
O filme já inicia partindo desse rompimento do sossego do vilarejo. Roubos, mortes e sequestros acontecem (desconfiam de índios). Mas são poucos os espaços que existem no filme, sendo a ação concentrada a uma prisão, duas ou três casas e a trilha rumo ao resgate. A concisão do espaço resulta em tensão ao longo do tempo, pois o filme captura bem os ambientes e os personagens. Mas mesmo que tente incluir elementos do mais puro cinema de horror para escapar das responsabilidades morais do gênero (pois o horror comporta mais as hipérboles do que o western), os seus personagens precisam responder aos códigos, precisam preencher as lacunas estruturais do roteiro e, sobretudo, devem morrer na hora certa.
Se cada filme é um tratado sobre o cinema e, embora seja dedicado na construção do tempo de cada sequência e na descrição do quanto é complicado tomar uma decisão (sempre é), o filme é certamente conservador ao insistir na vilania de “tribos”, bem e mal corporificados naquele que é incivilizado. A história do western foi erigida em torno de muitos valores que não possuem dimensão alguma no filme de Zahler, aparecendo enterrados na sua preocupação (justa) por criar um filme que pudesse transitar livremente entre gêneros. Mas o trânsito não se dá sem atropelamentos. A filiação ao gênero se dá mais pela via de um pastiche tarantinesco do que pela assimilação da própria história cinematográfica do western.
Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler, EUA, 2015. Com Kurt Russell, Richard Jenkins, Matthew Fox, Patrick Wilson, Lili Simmons.
Não é normal que cientistas e entusiastas da ciência saiam às ruas em defesa de suas práticas. Mas cá estamos.
No sábado passado, milhões de pessoas saíram às ruas pelo mundo inteiro em defesa da ciência. Isto é, a ciência geral. A prática de fazer pesquisas empíricas para chegar a conclusões baseadas em resultados duplicáveis. A base de todo o nosso conhecimento do mundo moderno. Foi tanta gente só nos Estados Unidos que, outra vez, superou os participantes da posse do presidente.
A história do anti-intelectualismo nos Estados Unidos não é nada nova
Para entender tudo isso, é preciso reconhecer o fundamento do apelo dos cientistas: a ciência sofre um ataque existencial aos seus recursos e medidas com a chegada de um executivo notoriamente anti-intelectual. A casta política que envolve o presidente também adota esta posição. Seja por interesses corporativos ou religiosos, há uma corrente notável de anti-intelectualismo nos Estados Unidos. O país figura entre os que menos acreditam na evolução e na mudança do clima no Ocidente, entre outros assuntos básicos de ciência. Há setores céticos a ponto de promoverem movimentos contra a medicina moderna que lhes deu a possibilidade de viver vidas mais longas e com melhor qualidade. E assim continua.
A história do anti-intelectualismo nos Estados Unidos, porém, não é nada nova. Existe desde a fundação das colônias em solo norte-americano, antes de serem sequer estados, nem entre eles unidos. No caso dos Estados Unidos, a Grã-Bretanha não conseguiu exportar o seu modelo de classes sociais, sendo a vasta maioria dos chegados provenientes de classes inferiores no velho mundo. Desde então, a educação acadêmica sofre de uma percepção que varia entre inutilidade, elitismo, improdutividade ou mais além. É um constante por partes maiores ou menores da sociedade até ainda hoje.
É por este ceticismo da ciência que tanta gente marchou nas ruas. Não porque existe em si, mas porque acaba de tomar conta dos mais altos poderes do país. O tônico da fé na auto-suficiência e a ideia de que apenas esforços ambíguos são a chave de sucesso não é só o elixir do homem comum. Agora, um dos grandes partidos já tomou uma dose alta. Os cientistas viram-se obrigados a protestar pelo senso comum que entende o benefício do seu trabalho. Falta ver se o resultado é duplicável.
It isn’t normal that scientists and aficionados take to the streets in defense of their work. But here we are.
This past Saturday, millions of people took to the streets across the world in defense of science. That is, science in general. The practice of doing empirical research to come to conclusions based on duplicable results. The base of all of the knowledge in the modern world. There were so many people just in the United States that, once again, they exceeded the attendance of the presidential inauguration.
The history of anti-intellectualism in the United States is nothing new
To understand all of this, it’s necessary to recognize the fundaments of the scientists’ appeal: science is under an existential attack to its resources and means with the arrival of a notoriously anti-intellectual executive. The political caste around the president also takes this position. Whether for corporate or religious interests, there is a notable current of anti-intellectualism in the US. The country factors among those which believe the least in evolution and climate change in the West, among other basic topics in science. Sectors of the country are so skeptical of science that they have developed movements against the very modern medicine that has given them the possibility of living longer, better quality lives. And so on.
The history of anti-intellectualism in the United States, however, is nothing new. It’s existed since the founding of the first colonies on North American soil, before there were even states, much less united ones. In the US, Great Britain did not succeed in exporting its class system, because the vast majority of those who settled the colonies came from the lowest rungs of Old World society. Ever since, education has suffered variously from perceptions of uselessness, elitism, unproductiveness, and much more. It is a constant for larger or smaller parts of society through even now.
So many people marched in the street because of this skepticism. Not because it exists, but because it just took control of the highest powers of the country. The tonic of belief in self-reliance and the idea that only ambiguous effort is necessary for success is no longer just the elixir of the Average Joe. Nowadays, one of the main parties has taken its own hearty dose. Scientists found themselves forced onto the streets to march for the common sense that understands the benefits of their work. It remains to be seen whether the result is duplicable.
Noticiar um suicídio é um tabu no jornalismo. Via de regra, quase não se usa esta motivação ao noticiar casos de polícia ou mortes trágicas. A gente chega a dizer que a pessoa foi encontrada morta e pára por aí, sem muitos detalhes. Superficialmente explicando, evitamos falar que alguém se matou justamente para não dar a ideia a quem cogita esta possibilidade. É, inclusive, uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mas o assunto precisa ser abordado. É preciso falar sobre isso. De forma diferente, de forma reflexiva, colaborativa. É também papel da imprensa alertar às pessoas e mostrar que existem organismos que trabalham para ajudar quem sofre com depressão.
E por que não dar notícias boas também? Fazendo um mea culpa, damos pouquíssima atenção para notícias boas. Elas geralmente perdem de goleada quando estão no páreo com as ruins.
O Centro de Valorização da Vida, o CVV, ganhou destaque nas últimas semanas pelo aumento no número de chamados de pessoas que pensavam em se suicidar. Os pedidos de ajuda dobraram. Neste meio tempo veio a série da Netflix que fala justamente do assunto.
A polêmica de “13 Reasons Why”
A produção aborda os problemas pelas quais uma jovem passa em determinado período da adolescência e mostra, em detalhes, como ela acaba com a própria vida. Na trama, ela reúne 13 motivos para o suicídio, descreve cada um em gravações e entrega às pessoas que considera culpadas pelo seu sofrimento.
A série gerou polêmica. Enquanto algumas pessoas consideram-na adequada por abordar um assunto tão abafado, desperta preocupação em outras pelo forte poder sugestivo – psiquiatras, inclusive.
Entre as abordagens positivas, destaco a discussão sobre a depressão na adolescência, a falta de diálogo na escola sobre o assunto e os pequenos, bem pequenos sinais, que o jovem tenta mostrar quando está à beira de cometer algo tão drástico. Sem falar no fato de que evidencia o impacto que determinadas ações, aparentemente inofensivas, tem na vida de um adolescente.
A série peca, no entanto, ao justificar o suicídio da personagem. Algumas das 13 razões que levam a personagem ao suicídio são, de fato, gravíssimas. Outras, porém, por mais dolorosas que sejam, são dramas da juventude pelos quais qualquer pessoa passou ou ainda vai sofrer antes dos seus 20 anos. Algumas coisas são inerentes à idade. Não conheço jovem que não tenha sido “traído” pelo ficante ou pela amiga, que não foi chamado de apelido que odiava. Isso é horrível e as pessoas precisam saber que não é maneira de tratar ninguém, mas também não acredito que possa ser usado como motivo para justificar um suicídio em uma série de televisão. É perigoso demais.
O que mais vale nisso tudo é a discussão e o fato de que estamos falando sobre isso. Talvez, se não fosse a série, muita gente ainda estaria olhando para o telefone e pensando se vale mesmo a pena lutar pela vida. Vale sim.
As temperaturas já começaram a cair no Rio Grande do Sul e o primeiro instinto é se enfiar debaixo de um cobertor e ascender a lareira ou o fogão a lenha ou uma espiriteira (aquele lance de jogar álcool na panela e tocar fogo, super seguro). O segundo instinto é viajar pra Serra. Gramado, Canela e blá blá blá. Um saco, lamento. Tudo muito fake pro meu gosto. Já Cambará do Sul é outra história.
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Cambará é a essência do inverno gaudério: campos de cima da serra, um frio do cão, comida campeira, chimarrão, poncho e neblina. Perfeito
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Por esses e outros motivos, minhas amigas e eu resolvemos nos bandear praqueles lados e explorar a natureza da região, intercalando as trilhas com vinho em frente à lareira. Fernanda, Évelin, Renata e eu estávamos empolgadas naquele inverno de 2012, afinal, seria nossa primeira viagem juntas e, certamente, seria linda. Mas nem tudo correu como imaginávamos.
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Aliás, nem com a imaginação da J.K. Rowling nós chegaríamos ao que nos aconteceu naquele final de semana
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Reservamos uma cabaninha charmosa em Cambará. Ficaríamos de sexta a domingo e, na volta, ainda passaríamos em São Francisco de Paula. Como eu dava aula na sexta à noite, só poderíamos sair depois das 22h. E foi o que fizemos. Levei minhas coisas pra Universidade e as gurias me buscaram lá. Renata foi dirigindo. Estávamos tranquilas, afinal, mesmo que a estrada não fosse uma maravilha, não teria muito movimento àquela hora da noite. Estávamos certas.
A primeira bizarrice aconteceu na estrada, na ERS-020Estávamos felizes e cantantes, empolgadas com aquelas musiquinhas clássicas de roadtrips entre quatro amigas e nenhum jeans viajante.
Obrigada, Alemão Ronaldo, por esse momento. Continuando, passamos a viagem comendo porcaria e bebendo coisas açucaradas sem nenhuma culpa.
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Estávamos falando mal dazinimiga, trocando confidências e dando gargalhadas quando vimos um corpo na beira da estrada e um carro estacionado ao lado. Sim. Foi isso
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Ficamos em imediato silêncio e resolvemos parar pra ver o que estava acontecendo, aquele instinto sem noção de jornalista. Quando nos aproximamos do veículo que não conseguimos identificar, um homem desce do automóvel. Com uma silhueta significantemente assustadora ao melhor estilo cadeirudo à meia noite, ele caminha na nossa direção.
Ele não disse nada, não fez nenhum sinal ou tentativa de comunicação. Simplesmente caminhou na nossa direção e parecia que ele tinha algo em mãos. Mas a gente não conseguia ver, por causa da luz no nosso rosto. Ele não passava de uma sombra, na verdade.
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Me borrei toda. Corremos o mais rápido possível e saímos dali em um fração de segundos, berrando como cabritas sem a mãe
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Claro que precisávamos fazer alguma coisa, mas cinco corpos na beira da estrada não ajudariam a resolver o mistério. Chegamos à conclusão que deveríamos ligar para a polícia. Felizmente, com quatro jornalistas no carro, encontrar o telefone direto do batalhão não seria um problema. Não foi. Ligamos para o Comando Rodoviário da Brigada Militar e explicamos, com parcimônia, a situação. A verdade é que não sabíamos o que tínhamos visto, mas acreditávamos que valia a pena averiguar.
Depois deste fato, estávamos menos felizes e cantantes e mais tensas e silentes. Continuamos comendo porcaria, mas aquilo mexeu com a gente e com os nossos medos. Mas a gente não perdia por esperar….
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Como chegar
Carro ou ônibus. Há vários caminhos possíveis mas, apesar do corpo na beira da estrada, a melhor alternativa é usar o caminho pela ERS-020 quando sai de Porto Alegre.
Pessoas trans podem conquistar no STF direito à retificação de nome e gênero sem necessidade de cirurgia
Samir Oliveira
20 de abril de 2017
Imagem: Monica Helms
O Supremo Tribunal Federal começou a análise de uma ação que pode representar um marco na vida das pessoas transexuais no Brasil. Demandado por um homem trans do Rio Grande do Sul, o STF terá que decidir se as pessoas travestis e transexuais têm o direito de realizar a retificação de nome e de gênero na Justiça sem a necessidade de terem feito uma cirurgia de transgenitalização.
Entenda o problema
No Brasil, travestis e transexuais precisam enfrentar um verdadeiro calvário na Justiça para conseguir acesso a um direito básico: o direito de serem contemplados com seus nomes verdadeiros em seus documentos oficiais – e não com o nome que lhes deram no nascimento, que não representa suas identidades. Para isso, devem constituir um advogado e ingressar com uma ação na Justiça, terceirizando a decisão sobre suas identidades às convicções de um juiz. No Judiciário conservador que temos, sabemos bem o que isso pode significar.
Na prática, cada juiz adota um procedimento diferente, tornando os caminhos ainda mais tortuosos para a garantia de um direito que deveria ser tão básico. Em geral, todos solicitam um laudo psiquiátrico. Trata-se de uma violência desproporcional contra a população trans, que se vê obrigada a recorrer a um médico para que lhe confirme sua identidade.
Algo pelo qual pessoas cisgêneras nunca irão passar na vida. Afinal, quando que um homem ou uma mulher cis precisarão de um atestado psiquiátrico para dizer, diante do Estado brasileiro, que se identificam plenamente com o gênero que lhes foi designado? É mais uma prova de que a cisnormatividade é uma opressão sistêmica e institucional, que impõe às pessoas trans todo tipo de percalços e sofrimentos ao longo de suas vidas.
Retificação de gênero
Mas o que já é ruim consegue ficar ainda pior. Se para retificar o nome as pessoas travestis e transexuais já precisam enfrentar uma verdadeira batalha jurídica, o caso se torna ainda mais doloroso quando se trata da retificação de gênero. Nestes casos, os juízes costumam exigir que as pessoas tenham feito, também, a cirurgia de transgenitalização. Afinal, para o “cistema”, não é possível que existam homens com vagina ou mulheres com pênis.
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Isso se torna ainda mais perverso quando verificamos que, no Brasil, apenas quatro hospitais da rede pública realizam este procedimento pelo SUS
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E as filas de espera são gigantescas. Existem muitos casos de pessoas trans e travestis que simplesmente não desejam fazer essa cirurgia. Por isso serão desrespeitadas em suas identidades?
Está nas mãos do STF o poder de criar uma jurisprudência capaz de acabar com esta injustiça. A competente advogada Maria Berenice Dias, uma referência na luta por direitos para a população LGBT junto ao Judiciário, está à frente do caso. O que já é um alívio, pois sabemos que ele está em boas mãos e que haverá uma disputa jurídica de alto nível para que este direito seja garantido.
Como sempre, no Brasil, esta é uma meia conquista. Afinal, mesmo que o STF decida em favor da população trans, será mais um direito conquistado pela metade, pela via judicial. Assim como o casamento civil igualitário. Nós precisamos de leis que assegurem estes direitos. Para ontem! Na Argentina, por exemplo, a população trans está amparada pela legislação para retificar seu nome e gênero nos registros civis através de um mero procedimento administrativo. Sem precisar ingressar na Justiça para isso – algo que, mesmo com eventual sentença favorável do Supremo, ainda será necessário.