Samir Oliveira

Vídeo flagra agressão policial a travestis em Porto Alegre

Samir Oliveira
19 de outubro de 2017

Infelizmente, este é mais um texto sobre agressão a travestis por policiais. Na semana passada, escrevi a respeito da perseguição que a população T sofre em um bairro nobre de São Paulo. Desta vez o crime ocorreu em Porto Alegre, na Rua Ramiro Barcelos, em plena luz do dia.

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Um vídeo chocante mostra um policial militar agredindo uma travesti negra durante o que parece ser uma abordagem

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Em seguida uma brigadiana se aproxima, mas não faz questão de interromper o abuso ou chamar a atenção de seu colega. O material foi denunciado ao gabinete do vereador Roberto Robaina (PSOL) – que, junto com Luciana Genro, se reuniu com o governador José Ivo Sartori (PMDB) e o secretário de segurança Cezar Schirmer para apresentar oficialmente o caso e cobrar providências.

Vídeo flagra o momento em que travesti é agredida por policial militar na rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre.

Este caso, felizmente, chegou às mãos de autoridades políticas comprometidas com a luta LGBT. Isso, aliado com a ampla cobertura da imprensa, pode fazer com que alguma atitude seja tomada pelo Estado em relação à conduta dos servidores envolvidos. Mesmo assim, é preciso estar muito vigilante, pois o percurso que este tipo de denúncia toma nos escaninhos da burocracia policial quase sempre resulta em arquivamento. Ou em pizza, para utilizar um jargão da política.

Como repórter, já acompanhei diversos casos de abuso de autoridade por parte da polícia. Talvez o principal deles tenha sido o de dois jovens africanos que foram humilhados por uma brigadiana dentro de um ônibus. Tive uma longa conversa com eles, que retratei nesta reportagem. Percorri a cadeia de comando policial atrás de explicações, de respostas e de informações sobre o andamento das investigações. No fim, a servidora foi inocentada, mesmo tendo – sem nenhuma justificativa que não fosse o racismo – apontado uma arma carregada para dois jovens inocentes dentro de um ônibus em movimento, numa conduta que expôs todos os passageiros ao risco de levarem um tiro.

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A diferença é que agora existe um vídeo comprovando a denúncia

E existem agentes públicos dispostos a pressionar até mesmo o comandante em chefe da Brigada Militar – a saber, o governador – para que alguma providência seja tomada

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Sempre que uma denúncia dessas vem à tona, surgem apressados defensores da polícia para dizer que se trata de um “caso isolado”. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo, especialmente a população de travestis e transexuais. Nosso modelo policial é uma herança nefasta da ditadura militar que permaneceu intocada desde a redemocratização. Este tipo de conduta é praticamente uma tradição consagrada na polícia. Está longe de ser um “caso isolado”.

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Investigações independentes

Mudar esta realidade é uma luta que mesmo os policiais que entendem a importância do respeito aos direitos humanos precisam travar dentro da corporação. O sistema é estruturado para proteger este tipo de conduta criminosa. A rígida estrutura militar prevê punições severas para qualquer tipo de desrespeito à hierarquia policial, mas pouco ou nada faz em relação a condutas abusivas da tropa contra a população que deveria proteger.

É absurdo que a própria Brigada Militar seja responsável por avaliar as denúncias que chegam contra os integrantes da corporação. O mesmo vale para a Polícia Civil. Corregedorias vinculadas à própria instituição são o caminho mais seguro para o “deixa disso” do corporativismo.

Neste sentido, é importante a defesa que o ex-deputado Marcos Rolim faz da criação de uma corregedoria independente no Estado. Um órgão sem ligação direta com as polícias que atue para investigar denúncias de abuso e descontrole dos agentes. Não é algo que depende do governo federal. Trata-se de uma mudança institucional que cabe aos governadores e deputados estaduais aprovarem.

Enquanto isso não ocorre, seguimos lutando com as armas que temos e aproveitando todas as fissuras que existem dentro do sistema para criar brechas em favor de uma nova cultura democrática dentro dos rincões mais autoritários do Estado. Se os policiais entenderem que não podem esbofetear travestis – ou qualquer cidadão – durante uma simples abordagem, já teremos conquistado uma importante vitória. Mais uma, no marco de muitas que ainda precisam ser consolidadas.

Yo No Soy de Aquí

O dilema de imigrar

Alvaro Andrade
12 de outubro de 2017

Imigrar não significa ignorar o que acontece no Brasil. Independente da distância, é impossível repercutir a espiral de retrocessos vividos desde o golpe de 2016. Ao mesmo tempo, sucita um dilema permanente, uma espécie de culpa de alguém que optou por um confortável autoexílio enquanto amigos e colegas tentam formar uma resistência aos constantes ataques a direitos que jamais imaginei que seriam retirados. Nasci em 85, sou filho de militante política criado no berço da democracia e da liberdade.

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E eis me aqui vivendo em outro país em busca de liberdades e oportunidades que vejo recrudescerem todo dia na terra onde nasci

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É uma angústia, uma sensação de impotência. Uma dúvida sobre minha dignidade em dizer alguma coisa sobre minha terra a partir do conforto da tela do celular enquanto a luta é travada no dia-dia. Mas também sei que no Brasil, tomar posição nesta disputa reduziu meu círculo social, que aliado à escalada da violência foram determinantes para trocar de endereço.

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Eu já não me sentia livre para me expressar, não me sentia mais confortável para circular, não via sentido no que estava fazendo

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Já faz quase meio ano e ainda fico dividido entre minha liberdade de escolher um local onde tenho tranquilidade para planejar a vida e o sentimento de egoísmo por deixar para trás os problemas de onde nasci. O futuro me parece cada vez mais tenebroso do outro lado da fronteira e não sei bem quando volto, até por que sinto ainda não consegui partir completamente.

Nós US

O carvão não voltará tão cedo

Sacha
11 de outubro de 2017
(you can read this article in English here)

O Brasil é afortunado em ter uma abundância de fontes de energia renováveis, fazendo com que a rede brasileira seja uma das mais limpas entre todos os grandes países do mundo. Já os Estados Unidos não contam com o mesmo luxo. Lá, o carvão mineral foi o principal recurso energético nas usinas do país até 2016, ano em que foi ultrapassado pelo gás natural. A queda do carvão, em suma, é devida às forças do mercado. O preço dos combustíveis fósseis tem caído drasticamente nos últimos anos. Junto com isso, avanços tecnológicos têm contribuído a uma queda ainda maior no preço dos renováveis.

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Tudo isso é relevante por causa da reversão do Clean Power Plan (Plano para Energia Limpa) instaurado no mandato de Obama

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O que a administração de Trump pretende conseguir com a reversão do Clean Power Plan é uma revitalização da indústria de carvão mineral, que tem sofrido grandes quedas em produção e receitas. Isto pode ser visto como apelo a dois dos princípios mais importantes para Trump: a lealdade e a negação da mudança climática. Primeiro, porque os mineiros de carvão e chefes dessa indústria foram entre os primeiros a dar apoio absoluto à candidatura de Trump. Segundo, simplesmente porque o carvão é altamente poluente. O carvão mineral tem as taxas de emissão mais altas de todas as formas de produção elétrica. O pensamento é simples: retirar os regulamentos da indústria para a aplacar e dar um golpe simultâneo à ciência climática e às políticas de Obama.

O problema com isso é que a deterioração da indústria de carvão é devida a uma queda de demanda por causa da viabilização de tecnologias mais eficientes e menos poluidoras. O gás natural tem desenvolvido no meio do fluxo do preço de petróleo para ser uma opção mais barata e flexível, com o benefício de poluir menos do que outros combustíveis fósseis. Energia solar e eólica têm beneficiado de caídas nos custos de produção e operação. Isso é fruto de avanços tecnológicos, principalmente com silicone. Devido a isso, 2016 foi o ano em que o gás natural ultrapassou o carvão em volume de produção. Assim, virou a fonte principal de energia nos Estados Unidos pela primeira vez na história.

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O carvão foi expulso do ápice pelo mesmo mercado que o colocou aí

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Por certo, a indústria de energia solar emprega mais do que o dobro de funcionários que emprega a indústria de energia de carvão mineral. A solar, juntamente com outras fontes renováveis de energia, tem a vantagem de poder empregar pessoas em qualquer parte do país. Carvão, no entanto, depende de extração limitada a poucas regiões. Enquanto caírem os preços, haverá cada vez mais incentivos de instalar renováveis, com ou sem subsídios. Ao contrário, a indústria de carvão necessitará de subsídios para sobreviver durante a implosão do setor.

O carvão também está sendo eliminado por uma indústria elétrica cada vez mais diversificada. Sem depender de uma única fonte para a maioria de produção, o risco de flutuações repentinas de preço é reduzido. Sustentabilidade é apenas mais economicamente segura. É melhor não ficar à espera que volte com força, por mais que Trump e os seus votantes o gostassem.

Imagem: Patrick Moore
Nós US

Coal’s Not Coming Back Any Time Soon

Sacha
11 de outubro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

Brazil is fortunate in having abundant sources of renewable energy, making its grid one of the cleanest among large countries in the world. The United States is less fortunate in this regard. Coal served as the primary energy resource in power plants across the country until 2016, when it was overtaken by natural gas. The decline of coal is due, in sum, to market forces. The price of fossil fuels has dropped dramatically in recent years. Along with that, technological advances have contributed to an even greater drop in the price of renewables.

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All of this is relevant because of the Trump administration’s recent reversal of the Clean Power Plan instated under Obama

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What the Trump administration intends to set in motion by reversing the Clean Power Plan is revitalize the coal industry, which has seen dramatic declines in production and revenue. This can be seen as an appeal to two of Trump’s most important tenets: loyalty and denial of climate change. First, because coal miners and industry bigwigs were among the first unwavering supporters of the Trump campaign. Second, simply because coal is highly polluting. It is the highest-emitting of all energy sources. The thought behind this is simple: remove the regulations on the industry to appease it and hit back against climate science and Obama’s policies simultaneously.

The problem here is that the coal industry’s deterioration is spurred by lowering demand as a result of cleaner, more efficient technologies becoming more readily available. Natural gas has developed in the wake of fluctuating oil prices to become a much more affordable and flexible option, with the benefit of polluting less than both coal and oil. Solar and wind energy have seen dramatic declines in their costs of production and operation. This is the fruit of technological advances, especially with silicone. Because of this, 2016 saw natural gas overtake coal as the main source of energy production in the United State for the first time ever.

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Coal has been kicked out of the top spot by the same market that put it there

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Indeed, solar power alone employs over twice the amount of workers than the entire coal industry. It, along with other renewable energy sources, has the advantage of being able to employ workers anywhere in the country, instead of relying on region-specific extraction. As prices continue to drop, incentives to install more renewables will continue to rise, with or without subsidies. On the contrary, the coal industry will require subsidies in order to extend its practical lifespan somewhat longer as the industry implodes.

Coal is also being eliminated by an electric industry in ever-increasing diversification. Not relying on one source for the majority of production puts the market at lower risk for sudden price fluctuations. Sustainability, simply put, is more economically sound. Don’t expect it to come roaring back, however much Trump and his voters would like it to.

Image: Patrick Moore
Reporteando

A notícia do outro lado do balcão

Renata Colombo
11 de outubro de 2017

Mesmo em lados opostos do balcão, sempre mantive uma ótima relação com os assessores de imprensa, independente de governo ou empresa. Também já “briguei” muito com assessor que não concordou com minha abordagem ou esperava pauta “chapa branca”, aquela que não problematiza. Mas tudo sempre baseado em muito respeito. Inclusive tenho amigos em assessorias que fiz depois de muito bater boca por causa de pauta.

Quando digo que “briguei”, por favor, entendam como “discuti com classe”. Inclusive vale um adendo: só perdi a calma uma vez, e foi no ar, ao vivo, com os chefes me olhando, porque o dono de uma empresa que eu provei que estava cometendo um crime tentou desqualificar meu trabalho.

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O fato é que nem sempre a sugestão que uma empresa faz à redação é pauta e nem sempre o assessor entende isso. A diferença está no que a gente faz com este entendimento divergente sobre o que é ou não notícia

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Semana passada recebi dados de uma pesquisa sobre a saúde dos caminhoneiros. Pedi pra enviarem mais informações sobre o assunto e usei em uma reportagem com os devidos créditos. Só que a pauta virou pra outro lado, foi ampliada, ganhou relevância nacional e acabei usando os dados da pesquisa para mostrar umas das consequências das dificuldades que os motoristas enfrentam em cumprir a lei por falta de estrutura nas estradas.

Eu não fiz a matéria conforme a empresa ofereceu. Eu não responsabilizei a empresa por nenhum dos problemas relatados. Eu não usei a empresa como case de bom exemplo porque ela é uma entre tantas outras Brasil afora. Por isso busquei entidades representativas e o governo federal.

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Mas o assessor de imprensa não gostou que não acatei a sugestão por completo. Veio me questionar, me esculhambou e disse que minha matéria é mentirosa

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Pra piorar, mandou uma sequência interminável de Whatsapps tentando interferir na condução da matéria e me convencer da abordagem que ele considerava correta. Depois de dizer que editor, chefe de reportagem e coordenador leram e ouviram a matéria, me limitei a um “ok”, ou então estaria até agora sendo esculhambada.

Desculpa, colega, mas o conceito de notícia é relativo e respeito sempre é bom, obrigada.

ECOO

Faça você mesmo (DIY) – Barra hidratante natural

Geórgia Santos
8 de outubro de 2017

Eu nunca gostei de passar hidratante no corpo, por vários motivos. Acho uma mão (sim, me julguem), detesto a sensação de ficar melecada depois, demora pra absorver, não fico com a sensação de pele macia, é ruim pra vestir a roupa logo em seguida e sinto que perco um tempão. Não gosto mesmo. Simples assim. Por isso, nunca foi um hábito. Eu me decidia a começar a usar e minha determinação durava uns dois dias, no máximo. E quando descobri todas as tranqueiras que colocam nos cremes, aí sim minha antipatia só aumentou.

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Isso mudou quando eu conheci as barras hidratantes naturais

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Comprei uma barra de massagem da LUSH. A Percup é feita com manteiga de cacau e grãos de café. Natural (depois percebi que tinha fragrância artificial), cheirosa, uma delícia. Mas ainda tinha o problema da textura, ainda me sentia melecada depois de passar e, sim, continuava sendo uma mão. Até que resolvi testar outro produto da mesma marca, o Scrubee. É um hidratante e esfoliante para passar no final do banho.

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É só passar a barra em todo o corpo da mesma forma que um sabonete. Quando terminar, enxágua o excesso e seca o corpo com uma toalha, normalmente

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É perfeito. Porque se eu não tenho paciência para passar o creme, não gosto de ficar grudenta, acho difícil vestir a roupa depois de passar hidratante e perco um tempão, isso não acontece com a barrinha.

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É como passar sabonete duas vezes. Simples, fácil e a pele fica cheirosa e macia

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Eu percebi essa facilidade com o Scrubee, mas a verdade é que essa rotina pode ser aplicada a qualquer barra hidratante. Todas podem ser usadas durante o banho. E se é assim, porque não cortar o intermediário e produzir a própria barrinha em casa? Além de garantir a qualidade dos ingredientes, é BEM mais barato.

No site Um Ano sem Lixo, a Cristal Muniz ensina a fazer uma barra de massagem hidratante em casa. Eu adaptei um pouco a receita para as minhas necessidades – e você pode fazer isso também de acordo com o tipo de pele.

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Receita base

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1 parte de manteiga de cacau

1 parte de cera de abelha

1 parte de óleo vegetal (isso só é necessário se a pele for muito seca. Pode ser coco, amêndoas, semente de uva etc)

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Derreta todos os ingredientes e coloque em formas de silicone. Assim que a mistura endurecer, está pronta para uso.

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Além desses ingredientes, é possível acrescentar óleos essenciais de acordo com a necessidade do corpo ou ainda determinados grãos para ajudar na esfoliação (antes de derreter). Abaixo, alguns exemplos dos ingredientes e suas funcionalidades:

Combate à celulite – acrescente grãos de café e algumas gotas de óleo de laranja, que age como descongestionante linfático;

Problemas de pele – acrescente algumas gotas de óleo de camomila ou até mesmo a flor seca, que ajudará a esfoliar a pele de maneira delicada. A camomila é aconselhada para tratar acne, eczema, feridas, pele seca, dermatites e até reações alérgicas;

Combate à insônia – acrescente algumas gotas de óleo essencial de lavanda e algumas flores para um sono mais tranquilo. A lavanda reduz a hiperatividade e ainda age como um ótimo cicatrizante;

Má circulação – acrescente algumas gotas de óleo de alecrim e algumas folhas da erva. O alecrim estimula a circulação e ajuda a combater varizes e dores musculares;

E se a intenção é só acrescentar um aroma aconchegante, ótimo. Abuse do oleo e pétalas de rosas, canela, caramelo, enfim, seja criativa.

Afinal de contas, se a manteiga de cacau sempre salvou nossos lábios durante o pior dos invernos, porque não pode ajudar a hidratar o restante do corpo? E além de ser natural, não produz lixo =)

Samir Oliveira

Travestis organizadas contra a violência policial

Samir Oliveira
5 de outubro de 2017

Esta semana vi uma notícia que me chocou e inspirou ao mesmo tempo: a de que travestis estavam denunciando a violência e o assédio sofridos por policiais à paisana na Zona Sul de São Paulo. Fiquei chocado – talvez ingenuamente – por perceber que este tipo de conduta ocorria em plena luz do dia. Por custar a crer que essa realidade, tão comum durante a ditadura, como relatam muitas travestis que viveram aquele período, segue presente até hoje.

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E fiquei inspirado pela força e resistência destas mulheres. Não se intimidaram diante da violência. Organizaram-se, filmaram seus agressores e foram até as últimas consequências com suas denúncias.

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Elas desejam apenas trabalhar. É evidente que sua presença é um incômodo ao bairro Cidade Jardim. Travestis, e ainda por cima prostitutas, desvalorizam o preço dos imóveis na região nobre de São Paulo.

Como elas ousam permanecer próximo ao Jockey Club? Misteriosamente aparecem policiais à paisana para reprimi-las, sem que ninguém assuma tê-los contratado. A própria associação de moradores do Cidade Jardim nega a contratação com uma mão e defende que se enxote as prostitutas com a outra.

Desconfio que façam isso porque sabem que é ilegal contratar policiais militares para bicos de qualquer natureza. Tanto é que a própria corregedoria da Polícia está investigando o caso. O que não deixa de ser revoltante – afinal a corporação não está apurando a comprovada e registrada violência dos policiais contra as travestis, mas sim o fato de eles estarem fazendo um bico.

Não fosse a organização das travestis e a coragem em encaminhar as denúncias, nós provavelmente nem tomaríamos conhecimento desta situação humilhante a que elas estão expostas. Que os movimentos LGBTs de São Paulo cerquem de solidariedade estas trabalhadoras. No país em que a expectativa de vida da população trans é de 35 anos, elas são verdadeiras sobreviventes.

Reporteando

#JuntosContraoMachismo nas redações

Évelin Argenta
28 de setembro de 2017

Eu tinha um editor na antiga redação onde trabalhava que, por falta de noção ou caráter (nunca saberei), mantinha um blog com anotações e devaneios pessoais. A maioria dos textos girava em torno das personagens da redação, mulheres, quase sempre. Lá era possível ler fofocas e bastidores que somente os contemporâneos dele poderiam decifrar. Piadas internas, lembranças de fatos que provocavam gargalhadas entre o macharedo.

O fulano, aí já em tempos vividos por mim, começou a escrever sobre as estagiárias. Por desconhecimento ou medo de delatar esse tipo de comportamento na redação onde recém tinham sido admitidas (depois de um longo processo seletivo que inflou seus egos e murchou seus sonhos) nenhuma delatou. Eram tempos diferentes e essa juventude feminista ainda era tímida. Todo mundo dizia “ah, o fulano é louco”, “o fulano é um personagem”, “o fulano é doente”. Ninguém, no entanto, deixava de rir das piadinhas machistas do fulano.

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Pois bem, amigos, os tempos (graças às deusas todas) estão mudando. Hoje, uma coluna sobre a estagiária jamais passaria em branco. E não passou

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O desastre textual assinado pelo colega Guilherme Goulart, do Correio Braziliense, levantou a discussão e um grupo de jornalistas de São Paulo fez a discussão ganhar corpo, alma e voz.

Não é de hoje que as Jornalistas Contra o Assédio me orgulham. Além de amigas, talentosas repórteres, editoras, redatoras, âncoras premiadas, elas são o “sapato na máquina”, aquele que faz o trabalho parar e pensar que algo está sendo feito de forma errada. Essa semana, o coletivo lançou a campanha #JuntosContraoMachismo.

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A série de vídeos mostra homens reproduzindo frases que há anos são ouvidas por nós, mulheres, nas redações do país. A coleção tem pérolas como “a fulana trabalha como homem”,  “você saiu com algum diretor antes de virar apresentadora?” e por aí vai

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As frases – não que isso seja surpresa – foram ouvidas REALMENTE por colegas.  Elas surgiram a partir de uma consulta com um grupo de mais de cinco mil mulheres jornalistas de todo o Brasil. As profissionais foram consultadas sobre que tipo de assédio já tinham sofrido. O coletivo recebeu mais de DUZENTAS frases.

Participaram da #JuntosContraoMachismo nomes como Chico Pinheiro, Juca Kfouri, Fernando Rodrigues, Felipe Andreolli, Cazé, Mário Marra, Fábio Diamante, Marcus Piangers, Matheus Pichonelli, Abel Neto, Guilherme Balza, Cauê Fabiano, Nilson Xavier, Thiago Maranhão, Leonardo Leomil, Guilherme Zwetsch, Ricardo Gouveia, Fernando Andrade, Márcio Porto, Thiago Uberreich, Tiago Muniz, Rafael Colombo, Philipe Guedes, Chico Prado, Reinaldo Gottino e Haisem Abaki.

Os vídeos da campanha #TodosContraoMachismo estão disponíveis na página no Facebook do coletivo Jornalistas Contra o Assédio, no twitter e, espero, na tua rede social, também. A campanha vai até o dia 08/10.

O machismo é muito sério. Ele não diz respeito apenas a mulheres.

Somos #JornalistasContraoAssédio
E vamos #JuntosContraoMachismo

Yo No Soy de Aquí

Abortos no Uruguai crescem, mas mortalidade de gestantes é a menor da América Latina

Alvaro Andrade
28 de setembro de 2017

O número de abortos continua crescendo no Uruguai, embora em ritmo menor que em anos anteriores. É o que revela recente balanço do Ministério da Saúde sobre os procedimentos supervisionados pelo governo em 2016. Na comparação com 2013, primeiro ano da legalização da prática, o número total anual cresceu 26,3%, totalizando 9719 procedimentos em 12 meses. Mas se comparado a 2015 o crescimento foi de apenas 3,7%.

O balanço ainda apontou uma pequena redução de 2,6% no número de abortos praticados por jovens com menos de 20 anos de idade entre os anos de 2015 e 2016. A queda mais expressiva foi faixa de até 15 anos de idade: no ano passado 74 meninas interromperam a gestação, enquanto no ano retrasado o número foi de 94. De 15 a 20 anos o número se manteve praticamente estável, totalizando 6 casos a menos que em 2015.

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Em 2012 o Uruguai tornou-se o quarto país da América Latina a descriminalizar o aborto, que só é permitida à cidadãs e mulheres residentes, em qualquer circunstância até a 12ª semana de gestação. Em casos de estupro, são permitidos até a 14ª semana

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Quando há risco para a mãe ou má formação do feto, podem ser feitos em qualquer período da gestação, sempre supervisionados por uma junta formada por assistente social, psicóloga e ginecologista encarregadas de verificar a certeza das pacientes quanto a realização do procedimento.

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Ainda de acordo com os registros oficiais, em 2016 apenas uma gestação foi interrompida porque a mulher foi vítima de violação sexual ante 20 em 2015, o ano com maior número de casos do tipo

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A legalização do aborto faz com que a taxa de mortes vinculadas a gravidez, parto ou aborto seja a mais baixa da América Latina. Segundo dados da Organização Panamericana de Saúde(OPS) e Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa uruguaia é de 14 mortes a cada 100.000 nascidos vivos.

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Já um estudo do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade Estadual de Campinas destaca que as mortes decorrentes de aborto em mulheres gestantes caíram de 37,5% no período 2001-2005 a apenas 8,1% entre 2011-2015

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A lei que permite o aborto ainda é alvo de polêmicas, especialmente no interior do país. Em reportagem do Jornalistas Livres,  ongs e coletivos feministas apontam que há uma grande resistência entre médicos de cidades do interior, que alegam objeção de consciência para receitar o abortivo Citotec às pacientes. A administração do medicamento, feito em casa pelas gestantes, também é outro aspecto que causa problemas: originalmente desenvolvido para combater úlceras, o Citotec provoca uma série de efeitos colaterais muito fortes, que não raro obrigam as mulheres a procurar as emergências hospitalares. 

Apesar das dificuldades, a realidade indica que assim como na legalização da maconha, a descriminalização do aborto também resulta em mais proteção ao cidadão, onde o Estado lhe proporciona a liberdade de tomar as próprias decisões e garante segurança ao invés de criminalizá-lo. 

Para saber mais, leia as reportagens de Página 12 e Jornalistas Livres.

 

Reporteando

Jornalista é pessoa

Renata Colombo
28 de setembro de 2017

Não tem coisa que me revolte mais como pessoa do que violência, abuso, maus-tratos, abandono, enfim, tudo que envolva crianças. Ao mesmo tempo que me embrulha o estômago, desperta uma raiva que desconheço em mim.

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Engana-se quem acha que repórter é um ser frio, isento por completo ou que jamais se envolve com os fatos. Tem coisas que são difíceis demais de cobrir. Já até contei alguns casos aqui para vocês

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Pois bem. Esta semana ocorreu algo que não cobri, mas me revoltou e fez lembrar de outras coberturas. A história de uma guriazinha de cinco anos que teve uma baita coragem de, após um abuso em pleno supermercado de Porto Alegre, fugir do pedófilo e ainda contar para a mãe o que ocorreu.

Lembrei de uma semana há uns quatro anos. Era repórter em Porto Alegre e passei cinco dias cobrindo três casos de abuso sexual de crianças pelo interior do Rio Grande do Sul. Um delegado contou detalhes sobre um padre que abusava dos coroinhas da igreja. Foi insuportável de ouvir e nem tinha condições de publicar um relato tão escabroso. Os outros dois eram de pais que abusavam das filhas. Recordo bem de um em que a menina tinha somente dois anos. Eu disse dois anos.

É impossível ficar alheio ou não sentir nada diante de fatos como estes. Cada colega procura um meio de liberar sua indignação. Eu falo, escrevo, faço questão de publicar e publicar e publicar coisas como esta para que não se repitam. E que a atitude desta guriazinha sirva de esperança para que as futuras gerações tenham a coragem dela de lutar contra violências como esta. E com isso, quem sabe, as próximas nem tenham motivos para precisar de tanta coragem.