Tão série

Sete momentos em o Globo de Ouro foi palco de protestos

Geórgia Santos
6 de janeiro de 2018

O tapete vermelho será diferente neste domingo (7). As atrizes de Hollywood prometem usar preto na cerimônia do Globo de Ouro, em Los Angeles. A ação ocorre em solidariedade ao movimento #metoo, que denuncia o assédio e abuso sexual na indústria cinematográfica. A campanha foi lançada após as inúmeras denúncias contra o produtor Harvey Weinstein e outros poderosos do ramo como uma forma de levante, de desabafo.

A cerimônia é basicamente um open bar, o que promove uma atmosfera bastante diferente do Oscar, mais informal e descontraída. O que não impediu, porém, que o Globo de Ouro fosse palco de resistência ao longo dos anos. De política. Às vezes em tom jocoso, às vezes despretensiosamente, às vezes com a seriedade que o próprio tema carregava, às vezes em forma de afirmação. Ou seja, não é a primeira vez em que a premiação servirá de palanque para uma causa.

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Listamos sete momentos em que o Globo de Ouro foi palco de protestos – ou de coragem

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1. Tina Fey e Amy Poehler cutucando o machismo em 2014

As duas são hilárias e já proporcionaram momentos memoráveis ao apresentar o Globo de Ouro em mais de uma ocasião. Mas muito antes de o movimento feminista ressurgir como no ano em que passou, Tina Fey e Amy Poehler alfinetaram a indústria cinematográfica e os padrões absurdos estabelecidos como ideal de beleza feminina com uma piadinha. Ao falar do emagrecimento de Mathew McConaghey para o papel em Clube de Compras Dallas, as duas dispararam: “Ele perdeu 20 quilos, o que uma atriz chama de estar em um filme” – “He lost 45 pounds, or what actresses call being on a movie”.

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2. O discurso de Meryl Streep em 2017

A atriz foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille, pelo conjunto da obra, e aproveitou o momento para desabafar. Com pelo menos metade do país ainda atordoada com a eleição de Donald Trump, Meryl Streep fez um discurso impactante, pedindo empatia aos estrangeiros – aproveitando, inclusive, o fato de que o Globo de Ouro é organizado pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood.
“Este instinto de humilhar, quando feito por alguém em uma plataforma pública, afeta a vida de todo mundo, porque dá permissão para outros fazerem o mesmo. Desrespeito convida desrespeito, violência incita violência. Quando os poderosos usam de suas posições para praticar bullying contra os outros, todos nós perdemos”, disse.

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3. Globo de Ouro cancelado em função da greve dos roteiristas em 2008

A premiação foi palco de protesto até mesmo quando não aconteceu. Em 2008, a cerimônia foi cancelada em função da greve dos roteiristas de Hollywood, que ameaçava um tapete vermelho vazio. Os vencedores foram anunciados em uma coletiva de imprensa.

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4. Tina Fey e os haters em 2009

De novo a frente do seu tempo, Tina Fey aproveitou o momento em que recebeu o prêmio de melhor atriz em série de comédia por 30 Rock para falar dos haters nas redes sociais. Ela lembrou que se alguém estiver em risco de se sentir muito bem consigo mesmo, basta acessar a internet. E ainda citou nominalmente um hater de estimação.

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5. Jodie Foster (praticamente) assumindo a homossexualidade em 2013

Conhecida por manter a vida privada, bem, privada, a atriz surpreendeu a todos quando recebeu o prêmio Cecil B. Demille em 2013. Durante o discurso, ela disse: “Eu acho que tenho essa necessidade súbita de dizer algo que eu nunca fui capaz de divulgar em público. Mas eu vou simplesmente falar, certo? Alto e com orgulho, certo? Então eu vou precisar do seu apoio nisso. Eu sou solteira.”

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6. Tracy Morgan e a América pós-racial em 2009

Quando 30 Rock venceu o prêmio de melhor série de comédia, o ator Tracy Morgan tirou a estatueta das mãos da criadora do programa e disse: Tina Fey e eu fizemos um acordo. Se Barack Obama vencesse as eleições, eu falaria em nome da série de agora em diante. Bem-vindos à América pós-racial. Eu sou a face da América pós-racial. Lide com isso, Cate Blanchett!”

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7. Oliver Stone protesta contra a política anti-drogas em 1979

No discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor roteiro pelo filme Expresso da Meia Noite, Oliver Stone fez um protesto contra a política anti-drogas em vigor nos Estados Unidos. Foi justamente naquele período em que começou o encarceramento em massa da população negra norte-americana, muito bem abordado pelo documentário 13 Emenda. Ele foi retirado a força do palco e nós não conseguimos encontrar imagens do momento. Há, porém, a declaração de quando ele ganha o Oscar no mesmo ano e mostra “consideração a todos os homens e mulheres, em todo o mundo, que estão na prisão nesta noite.”

Fotos: Getty Images

Samir Oliveira

Por que as críticas a Pabllo Vittar são tão duras?

Samir Oliveira
4 de janeiro de 2018
Foto: Mídia Ninja

É bem possível que nenhum artista contemporâneo seja tão criticado no Brasil como Pabllo Vittar. Suas apresentações são minuciosamente analisadas. Qualquer deslize vocal torna-se imperdoável. O prazer em desqualificar seu trabalho revela a compulsão obsessiva de seus haters. A caixa de comentários – sempre ela – em qualquer post sobre a artista nas redes sociais e em portais de notícia comprova o que estou dizendo.

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Estou há algum tempo tentando entender esse fenômeno. Não encontrei respostas definitivas, mas tenho algumas hipóteses.

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Primeiramente, busquei no próprio sucesso de Pabllo Vittar a explicação para as críticas. Afinal parece natural que qualquer artista com uma grande base de fãs tenha, também, uma grande base de haters. Mas isso não é totalmente verdade. Caetano Veloso, Chico Buarque, Paul McCartney… Tento pensar em outros artistas com projeção multitudinária e não me recordo de ver nenhum deles gerar uma forte carga negativa de comentários em publicações a seu respeito.

Descartada esta hipótese, passo a focar na técnica vocal de Pabllo Vittar. Não entendo absolutamente nada de música e canto, tecnicamente falando. É claro que consigo identificar quando alguém desafina, quando algo está errado ou um pouco estranho. Mas é só. E Pabllo nunca me soou desconfortável de ouvir. Qual grande artista nunca desafinou, nunca falhou ao tentar atingir determinada nota ou alcançar um tom? Surpreendentemente, todos os haters de Pabllo Vittar tornaram-se críticos musicais de uma hora para outra, especialistas na mais fina análise de técnicas vocais.

https://youtu.be/EmxPMJ7UZ88

O mais recente campo de batalha neste sentido foi provocado por Ed Motta. Com mais de 400 mil seguidores no Facebook e um público cativo, o cantor postou um vídeo de Pabllo interpretando o clássico I Have Nothing, da Whitney Houston, no programa Altas Horas. Ed Motta não economizou elogios: “Eu chorei de verdade vendo porque não imaginava essa musicalidade, timbre lindo nas notas graves e quando atingiu as notas altas foi com propriedade. Depois conferi pelo YouTube que faz tempo que o talento dela é verdadeiro e genuíno”.

O comentário de Ed Motta enfureceu seus fãs, que se viram realmente perplexos e incapazes de entender como o ídolo poderia gostar de Pabllo Vittar. Cumpriram a própria expectativa do cantor, que, mesmo sem conhecer profundamente o trabalho da drag queen, já havia percebido que ela é alvo de críticas desproporcionais: “Muita gente denominada/inventada pelo mercado como ‘artista’ com grandes vendagens, premiações simuladas, não tem um terço da capacidade vocal de Pablo Vittar. Pablo faz um sucesso imenso, mas tem um exército de ódio yang que se incomoda profundamente com o que isso representa na sociedade obediente e engessada”.

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Só me restou uma última hipótese: a do preconceito. Relutei em aceitá-la, de tão óbvia e simples que aparenta ser. Mas é a única explicação plausível

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Veja bem, não estou aqui dizendo que quem não gosta de Pabllo Vittar é preconceituoso e homofóbico. Estou dizendo que preconceituoso e homofóbico é quem se orgulha de não gostar de Pabllo Vittar. Quem gosta de odiar seu trabalho, quem se incomoda com sua projeção e sente uma necessidade incontrolável de demonstrar a todo mundo o quão desconfortável se sente com a existência da artista.

O pior é quando utilizam outros ícones da arte LGBT para camuflar o preconceito. Como se gostar de Renato Russo, Freddie Mercury e Cazuza isentasse qualquer um de ser homofóbico. É o velho e bom “não tenho nada contra, inclusive tenho amigos que são”.

Discussões a respeito da qualidade técnica e artística de produções e agentes culturais são sempre perigosas. Primeiro, porque são extremamente subjetivas. Segundo, porque podem facilmente cair na vala comum do elitismo, que se expressa em todas as ideologias. Enquanto os conservadores de direita opõem uma certa noção elevada de cultura ao que se costuma classificar inferiormente como “cultura popular”, uma esquerda mais ortodoxa não cansa de responsabilizar as superestruturas da indústria cultural pela massificação de produções com suposta baixa qualidade. Um debate deste tipo está condenado a terminar pior do que quando começou.

O que importa é que uma drag queen de fora do circuito Rio-São Paulo, de origem humilde e vinda dos grotões do Brasil, esteja atingindo projeção internacional em sua carreira. No país que mais mata LGBTs no mundo, não é pouca coisa.

Foto: Mídia Ninja

Tão série

As 7 melhores séries de 2017

Geórgia Santos
30 de dezembro de 2017

É muito difícil fazer uma lista reduzindo grandes produções a números tão diminutos. Ao mesmo tempo, algumas são simplesmente melhores do que as outras. Por isso, escolhi sete séries que se destacaram em 2017 usando única e exclusivamente o critério do instinto. Lembrei dessas instantaneamente. Foram as mais memoráveis. As que mais marcaram o ano.

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Master of None

No último post, eu avisei que era importante que Master of None fosse vista antes de o ano acabar. Mas isso não impede que tu corra atrás depois da virada. Vale a pena. Afinal, o que era para ser só mais uma comédia romântica com o simpático Aziz Ansari acabou por tornar-se uma das produções mais representativas do momento em que a gente vive. Especialmente se tu estás na casa dos 30 anos. A segunda temporada tem episódio em preto e branco, episódio mudo, com e sem os protagonistas, história de amor, tolerância e, ainda por cima, o Dev falando “allora” durante o período em que ele vive na Itália – é muito fofo.

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Mindhunter

MINDHUNTER

A grata surpresa do ano. Confesso que, dentre tantos títulos do catálogo da Netflix, escolhi Mindhunter somente por causa da minha estranha obsessão com serial killers. Ou melhor, com suas histórias. Foi uma opção despretensiosa, mas que valeu a pena.

Nos anos 70, agente Holden Ford (Jonathan Groff), do FBI, se dedica a traçar um perfil psicológico para o então novo fenômeno dos serial killers. A ideia é desenvolver um método que os ajude a compreender porquê a morte quando não há “motivo”. Para isso, eles passam a entrevistar assassinos condenados. São todos personagens reais como o aterrorizante, estranho e simpático – sim, ele é – Ed Kemper (Cameron Britton).

A série foi criada por David Fincher (Seven) e é baseada em fatos reais, com uma boa dose de licença poética e suspense.

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Twin Peaks

No ultimo episódio da segunda temporada, Laura Palmer disse: “I´ll see you again in 25 years” – “Eu o verei novamente em 25 anos”. Atrasou, mas David Lynch cumpriu a promessa. E como o fez. No retorno de Twin Peaks, o diretor explora algumas lacunas das temporadas passadas e apresenta novos mistérios ao público.

Os longos episódios não são empecilho para não querer desgrudar da TV. Afinal, o suspense compensa a tensão. É uma bela obra em termos de estética e narrativa.

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The Handmaids Tale

Recomendar a série The Handmaids Tale ( O conto da Serva, em tradução livre) é um tanto desconfortável diante do contexto político no qual estamos inseridos. A obra da Hulu é uma adaptação do livro homônimo de Margaret Atwood, que apresenta um cenário distópico em que mulheres férteis são escravizadas por homens poderosos que as estupram com fins de reprodução.

Enquanto produto de entretenimento, apesar da bela fotografia e do suspense, é uma obra de linguagem arrastada por vezes, que atrasa o engajamento inicial. Mas é uma observação absolutamente pessoal, que resistiu à vontade de acompanhar aquela realidade tão distante e tão próxima. É uma produção importante e que deve ser vista. E que bom que eu insisti.

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This is Us

THIS IS US — “Last Christmas” Episode 110 — Pictured: (l-r) Sterling K. Brown as Randall, Justin Hartley as Kevin, Chrissy Metz as Kate, Susan Kelechi Watson as Beth — (Photo by: Ron Batzdorff/NBC)

A série só estreou no Brasil neste ano, mas já conquistou a quem teve a felicidade de cruzar seu caminho. This is Us é um drama familiar que inova em formato e linguagem, já que conta duas histórias paralelas com um gap temporal de mais de 30 anos.

A trama principal gira em torno de um grupo de pessoas que nasceu no mesmo dia. Na década de 80, o casal Jack (Milo Ventimiglia) e Rebecca (Mandy Moore), espera a chegada de trigêmeos. No presente, Kevin (Justin Hartley) é um ator de televisão frustrado com os papéis superficiais que interpreta; Kate (Chrissy Metz) luta contra a obesidade; e Randall (Sterling K. Brown) reencontra o pai que o abandonou quando ele era bebê.

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Veep

É quase um crime que eu ainda não tenha falado sobre a série que considero uma das melhores de sempre – e não apenas no gênero da comédia. Veep tem simplesmente um dos textos mais engraçados e ácidos da TV. É impossível não rir muito com a brilhante atuação de Julia Louis-Dreyfus no papel da ex- presidente Selina Meyer, que agora luta com todas as forças e falta de noção para não cair no ostracismo. Não à toa o papel já lhe rendeu cinco Emmys de Melhor Atriz.

O elenco é impecável e os personagens impecavelmente imbecis. E para pânico geral de todas as nações, a série é assustadoramente verossímil com suas lambanças na Casa branca e desencontros entre deputados, presidentes e quaisquer pessoas que passem por Washington DC.

Infelizmente, no momento, Julia Louis-Dreyfus luta contra um câncer. Veep deve volta para uma última temporada em 2019.

Orange is The New Black

A nova temporada começa três dias após a morte de Poussey Washington (Samira Wiley) e é de partir o coração. Mas mais do que isso, as detentas abordam temas que tem permeado a nossa realidade durante uma rebelião, como o movimento Black Lives Matter. A gente vê, através das grades da Penitenciária de Litchfield, o preconceito do nosso mundo enquanto mulheres tentam encontrar sua voz. Vale cada minutinho, cada grão de pipoca.

Tão série

Master of None – Você precisa ver antes de o ano acabar

Geórgia Santos
26 de dezembro de 2017

No último episódio da primeira temporada de Master of None, da Netflix, um Dev (Aziz Ansari) engasgado após engolir uma tonelada metafórica de pontos de interrogação pede socorro a seu pai, Ramesh (interpretado pelo pai de Ansari, Shoukath). São muitos os porquês envolvidos em seus relacionamentos falidos e na crescente incerteza sobre o futuro profissional em uma carreira que parece definhar – os típicos fantasmas que saem debaixo das camas das crianças assustadas para assombrar todos os trintões desencontrados. Dev não consegue decidir. Não consegue decidir de quem gosta, qual é a mulher certa, o que ele quer fazer da vida. Ele não consegue arriscar. Ele não consegue decidir.

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Ramesh – “Você precisa aprender a tomar decisões, cara. Você é tipo aquela mulher sentada em frente à figueira, encarando os galhos enquanto a árvore morre.”

Dev – “Que mulher? Que árvore?”

Ramesh – “Sylvia Plath? A Redoma de Vidro? Tu nunca lê, tá sempre no youtube…”

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“Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história. Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica. E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada. Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés.”

Sylvia Plath , The Bell Jar. New York: Bantam Books, 1972.

A série gira em torno do paradoxo da escolha. Toda escolha tem uma consequência. E, como esclareceu Plath, toda escolha implica na anulação de outra. Talvez Dev continue não lendo Sylvia Plath, mas ele decidiu. Decidiu ir para a Itália aprender a fazer massa e, quem sabe, encontrar algumas das respostas.

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Na segunda temporada de Master of None, Dev já não é mais o mesmo. Arnold (Eric Wareheim), Denise (Lena Waithe) e Brian (Kelvin Yu) já não são mais os mesmos. Eles todos estão encarando a figueira

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E o resultado disso é ainda melhor é uma primorosa leitura da vida contemporânea. Dentre os dez episódios está uma homenagem ao filme Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica; uma celebração a Nova York em um episódio totalmente silencioso, produzido a partir da perspectiva de uma pessoa surda; um retrato (desastroso) da cultura do Tinder; outro episódio dedicado inteiramente à Denise, em que ela assume sua homossexualidade diante da família; além de referências à Bob Dylan e Vanilla Sky; questões de fé e tradição, muçulmanos comendo bacon.

E preso a essa roda viva está um Dev mais maduro, que se vê também como parte da engrenagem que critica. Ele continua apontando o racismo sempre que é confrontado com isso, mas também é flagrado repetindo padrões. Em um episódio, ele não reconhece seu maquiador, um homem negro, em um ato quase casual de racismo. Ele também falha em reconhecer no amigo o comportamento de um predador sexual. Sem contar na ficante racista, problema que ele só aponta depois de já ter transado com ela.

Allora, diz Dev constantemente. Aquela palavra que a gente usa para preencher o espaço vazio da conversa, que sai automaticamente, sem pensar. Allora, com todos os defeitos, Dev está tentando. E nós? Estamos? Em termos evolutivos, 2017 foi um ano nulo. Retrocedemos no que tange à política e ao convívio social, como se nunca tivéssemos avançado daquele estágio de Homo Habilis – e olhe lá.

Allora, está na hora de parar de encarar a figueira e, finalmente, escolher um figo. E assistir Master of None pode ajudar, definitivamente. Ah, e tem o John Legend tocando piano. Allora…

 

Foto: Divulgação

 

Tão série

Seinfeld – Celebrando o Festivus

Geórgia Santos
23 de dezembro de 2017

Seinfeld é uma das minhas séries favoritas de todos os tempos. É inadequada, debochada, provocadora e nada polida. Politicamente incorreta sem ser torpe. No ponto. Uma crítica à sociedade mas também uma crítica a quem leva a sério demais as convenções. E não seria diferente com o Natal.

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Eu nunca fui fã do Natal

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Mentira, quando era criança eu esperava ansiosamente pelo Papai Noel. Houve a vez em que saí do banho desesperada, correndo nua pela casa, porque ouvira os passos do bom velhinho estalando no piso antigo de madeira. E eu estava certa, lá estavam os presentes onde antes só havia uma poltrona. Ironicamente, morria de medo daqueles caras que se vestiam de Papai Noel em lojas ou, no caso de Paraí, no ginásio de esportes.

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Mas meu fascínio com o Natal passou assim que percebi que era um embuste

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E antes que alguém fale sobre Jesus e presépios, eu respondo: acho que nunca nem fui a uma missa de Natal, logo, não significa nada pra mim. Restou meu fascínio pelos presentes ao passo que a data se tornou apenas uma noite legal em que se janta uma comida especial com a família ao mesmo tempo em que se é invadido por uma nostalgia quase perigosa.

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Foi um alento quando vi o Seinfeld debochando do Natal

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Não que eu ache que mereça deboche, não me entendam mal. É apenas muito interessante ver a quebra do paradigma de episódios reminiscentes em que as luzinhas piscam e todos vestem seus suéteres vermelhos, pesados demais pra usarmos no verão no brasileiro.

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A Festivus to the rest of us

No episódio “The Strike”, que foi ao ar em 1997, o público conhece o Festivus, um feriado laico celebrado em 23 de dezembro como uma alternativa às pressões e consumismo da época de Natal. A celebração não-comercial inclui o jantar, obviamente, mas também uma série de outros elementos que o tornam muito especial.

Em vez de um pinheiro, o adorno tradicional é um cano de alumínio sem enfeites, porque causam distração; também não há muito amor a ser distribuído, em vez disso há a “Ventilação de queixas”, em tradução livre, que consiste em cada pessoa verbalizar todos os motivos pelos quais os familiares foram uma decepção ao longo do ano. “Eu tenho muito problemas com vocês todos, e agora vocês vão ouvir”, diz Frank Costanza (Jerry Stiller), o criador do feriado; por fim, há o que se chama de “Façanhas de força”, em que o anfitrião escolhe alguém para ser desafiado durante uma luta

A Festivus to the rest of us” significa algo como “um feriado para o restante de nós”, justamente destacando o caráter inclusivo da data. Afinal de contas, o Festivus foi criado no dia em que o pai de George (Jason Alexander) não conseguiu comprar a boneca que o filho tanto queria.

Esse episódio é revigorante. É engraçado, é leve, é absurdo, é quase pecaminoso para quem acredita em pecado. Se o que tu queres é uma versão de meia hora de uma propaganda do Zaffari, Seinfeld não é pra ti. Mas se a tua ideia de Natal é dar umas boas risadas às custas dos nossos rituais ultrapassados, as aberrações de Jerry Seinfeld caem como uma luva. Enquanto tu decides, eu vou pegar minha hipocrisia, preparar a marinada do peru e terminar de decorar a árvore =)

 

 

 

Pedro Henrique Gomes

Os melhores filmes de 2017

Pedro Henrique Gomes
22 de dezembro de 2017

Como de costume, do goleiro ao atacante, a minha lista, absolutamente pessoal, é claro, é formada pelos onze filmes que mais me interessaram nesse ano. 2017 foi um ano mais de aprofundamento teórico que de exercício da cinefilia (mea culpa pela baixa frequência de postagens nesta coluna, aliás), o que se refletiu em poucos filmes vistos. Eis a lista.

1 Na Vertical, de Alain Guiraudie (França)
2 Beduíno, de Júlio Bressane (Brasil)
3 Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo (Coréia do Sul)
4 Z – A Cidade Perdida, de James Gray (EUA)
5 Toni Erdmann, de Maren Ade (Alemanha)
6 O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues (Portugal)
7 A Morte de Luís XIV, de Albert Serra (Espanha-França)
8 A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha (Brasil-Portugal)
9 No Intenso Agora, de João Moreira Salles (Brasil)
10 Melhores Amigos, de Ira Sachs (EUA)
11  Silêncio, de Martin Scorsese (EUA)

Samir Oliveira

Sim, é possível ser LGBT e muçulmana

Samir Oliveira
21 de dezembro de 2017
(Credit: Antonio Guillem via Shutterstock/Salon)

Faz um bom tempo que li este texto pela primeira vez, publicado em julho de 2015 no site Salon. Desde então, procuro revisitá-lo com alguma frequência e sempre encontro nas palavras da autora, a escritora muçulmana Lamya H, sentidos que a leitura anterior não revelava.

Por entender que esta discussão praticamente não existe no Brasil, e por combater frontalmente os estereótipos e preconceitos que cercam a comunidade muçulmana e os povos árabes em geral, resolvi fazer uma tradução livre e imperfeita das palavras de Lamya. Publico seu texto aqui em minha coluna no Vós na esperança de que suas reflexões também deixem outras mentes inquietas e, quem sabe, contribuam para mudanças em paradigmas já tão cristalizados.

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Por Lamya H*

Eu estou empolgada com este encontro. Eu realmente estou. Já faz um tempo desde minha última decepção amorosa, e minha melhor amiga tomou para si a tarefa de decidir que chegou a hora de eu seguir em frente. Ela insistiu para que eu baixasse o Tinder e me animou enquanto fazíamos juntas meu perfil. Fui encorajada a deslizar para a direita algumas vezes e falar com mulheres com quem eu dava um match. Levou algum tempo, mas eu finalmente estou entrando neste clima. E agora eu estou empolgada com este encontro.

Ela conseguiu se elevar até o topo das minhas crushes do Tinder. Sua originalidade – um componente essencial de todas as minhas paixões – é empolgante. Ela é inteligente, engraçada e ainda por cima linda.

Vamos nos encontrar para tomar um sorvete. Ela está um pouco atrasada. Começo a olhar para todos os rostos que estão passando ao redor, tentando encontrar alguma semelhança com as fotos que ela postou no Tinder. Queria vê-la antes de ser vista. “Procure pelo hijab”, eu havia dito a ela – um pouco ansiosa por revelar o que há embaixo dos chapéus nas minhas próprias fotos do Tinder. “É difícil não me notar.” Sua resposta indiferente, nem fetichista, nem surpresa, me tranquilizou. Estou empolgada com este encontro.

Mas… Nós nos vimos no mesmo instante, trocamos olhares tímidos e cumprimentos rápidos antes de pedir os sorvetes. Nos sentamos e a segunda pergunta que ela me fez foi:

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“Então, Lamya, me diga como você pode ser lésbica e muçulmana ao mesmo tempo?”

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Sempre tem um mas.

Isso acontece com tanta frequência que já tenho até uma estratégia. Primeiro, reviro levemente os olhos. Depois vem a resposta pronta. Digo que diversidade sexual e de gênero e islamismo não são coisas mutualmente excludentes. Que o Islã não é um monólito. Que o meu Islã é amplo e meu Deus, acolhedor. Que a comunidade LGBT também não é um monólito, que há diferentes formas de ser LGBT e diferentes narrativas que não se encaixam nos modelos ocidentais de “sair do armário” e reproduzir modelos familiares heteronormativos. Que as pessoas precisam parar de fetichizar aqueles de nós que vivemos nestas intersecções aparentemente impossíveis. Que a minha orientação sexual e minha religiosidade muçulmana não precisam ser reconciliadas, pois elas estão profundamente conectadas e fazem parte de quem eu sou.

Depois que eu termino esse discurso educativo, estou exausta e meu interesse na pessoa evapora. As tentativas de seguir tendo um encontro legal parecem vazias e, depois que um certo período de tempo já passou, eu uso o trabalho como desculpa e vou embora.

Já é tarde quando meu amigo me chama. Do nada, e um pouco depois do horário apropriado para uma ligação. O telefone toca uma vez apenas e depois ele desliga. Já sei que esse tipo de chamada é uma senha para que eu atenda imediatamente quando ele ligar de novo, antes que ele mude de ideia. Ele respira fundo depois do “alô” e esta é minha deixa para assumir o rumo da conversa. Eu me aconchego no sofá com o telefone, me acomodo na sala à meia-luz, falo um pouco sobre amenidades e coisas do dia a dia até que ele se sinta pronto para conversar.

Vem aos poucos. Ele me conta que seu pai está doente. Que acabou de falar com sua mãe ao telefone. Que têm havido comentários maldosos sobre seu ex-namorado e níveis pesados de culpabilização. “Você tem rezado?”, sua mãe lhe pergunta. “Você tem lido o Alcorão? Se você lesse, saberia a diferença entre certo e errado.” Ele parece cansado e irritado, mas especialmente cansado.  Cansado de alegarem uma relação entre ele ser gay e os problemas de sua família. Cansado de silêncios e de não poder responder de volta. Cansado de deixar algumas coisas passarem batido em nome da compaixão. Será que os pais dele sabem que ele está sofrendo? Será que sabem que estão magoando ele, que estão afastando ele do conforto que encontrou na religião? Suas palavras transformam-se em lágrimas e eu me pego chorando junto.

Mas… Enquanto as lágrimas dão lugar ao silêncio que se acomoda entre nós, ele me faz uma pergunta tranquila:

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“Como você consegue, Lamya? Como você consegue ser lésbica e muçulmana ao mesmo tempo?”

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Eu não posso mentir para o meu amigo. Ele sempre esteve presente nos momentos difíceis. Eu sempre estive presente em seus momentos difíceis. Ele sabe o que significa lidar com o fato de ser gay e ser muçulmano. Eu me recuso a respondê-lo com respostas prontas. Não posso usar respostas prontas para ele porque sequer as tenho para mim mesma.

A própria ideia de que tenho que ter uma resposta é parte do problema. Como se nós fôssemos seres estáticos que precisam ter tudo solucionado. Como se só fosse permitido viver e amar após solucionar todos os impasses. Como se não houvesse espaço para o amadurecimento, para questionamentos críticos ou para aprendizados. Essas são as respostas que eu nunca quero ter.

Mas eis algumas coisas que eu sei, algumas possibilidades que encontrei e que tornam possível ser ao mesmo tempo LGBT e muçulmana.

Minha orientação sexual e minha fé muçulmana estão profundamente costuradas no tecido de quem eu sou. É impossível que eu tenha que escolher entre uma coisa ou outra. É impossível que eu veja ambas como mutuamente excludentes. Eu não preciso que um Imã me diga que posso encontrar conforto e alegria em ambas. Não preciso de explicações nos versos do Alcorão e nas Hadith, que frequentemente são citadas em outro sentido. Eu examinei todas as explicações e hermenêuticas do Alcorão numa tentativa de torná-lo mais acolhedor aos LGBTs. Algumas delas me convenceram, outras definitivamente não. Em alguns momentos parecia que eu estava brincando com as palavras, esticando seus significados. Este processo acabou me ensinando que um texto é um texto. Textos vêm com contextos e interpretações, é possível me apegar ao que dialoga comigo e deixar o resto para lá. Confiar sobretudo na minha fé e na minha prática, na justiça e na compaixão.

É desta forma que procuro estender essa compaixão aos outros, particularmente à minha comunidade muçulmana. Eu não tenho que renunciar a ela e não posso culpar toda uma comunidade por casos de homofobia em um mundo que é homofóbico. Não posso fazer isso enquanto o homonacionalismo e a política LGBT tradicional vêm sendo utilizados para marginalizar minha comunidade e pintá-la como atrasada, justificando ocupações. Não preciso me defender por seguir frequentando a minha mesquita. Não preciso justificar a plenitude espiritual e a sensação de conexão que eu sinto neste espaço imperfeito, nesta comunidade imperfeita – que luta, sim, contra a homofobia, assim como contra o racismo e a misoginia. Uma comunidade que enfrenta simultaneamente a vigilância e a perseguição. Que sofre com guerras feitas em nosso nome – guerras que dizem nos salvar de nós mesmos –, com nossas pátrias sendo bombardeadas por drones. Essa é a comunidade imperfeita com a qual eu luto junto, mas ao mesmo tempo contra.

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Eu não preciso performar minha sexualidade lésbica de uma forma que seja compreensível para pessoas heterossexuais – através do casamento ou reivindicando imposições biológicas –, ou para outras pessoas LGBTs

Eu não sou obrigada a tirar meu hijab ou a sair do armário se eu não quiser. Nem para os meus pais, nem para conhecidos casuais e nem mesmo para os meus amigos

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O que eu preciso, e o que percebi que não posso viver sem, é a minha comunidade. Mais especificamente, a comunidade LGBT muçulmana: uma família que nós escolhemos, composta por pessoas que comem juntas, protestam juntas, onde eu posso ser lésbica e muçulmana sem ter que ficar me defendendo, me explicando e me justificando. Uma comunidade com pessoas que comem juntas após o jejum diário no Ramadã, que leem o Alcorão juntas e que se divertem juntas em passeios na praia. Pessoas que me colocam para cima após uma decepção amorosa. Pessoas com quem eu posso contar quando preciso de apoio, porque elas também contaram comigo quando precisaram. Pessoas que definem o que é compartilhar o amor.

Não me entendam mal, ainda assim tem dias em que viver parece impossível. Em que o futuro parece impossível. Dias em que palavras casuais, mas cáusticas, machucam profundamente. Dias em que choro escondida na escada. Dias em que é mais fácil apenas dizer as coisas certas, ao invés de realmente acreditar nelas. Dias que parecem insustentáveis e exaustivos. Dias em que parece mais fácil sonhar com soluções simples, cortar os laços comunitários e ser assimilada – desistir e fingir.

Mas também há dias em que se agitam com possibilidades revolucionárias: estruturas familiares alternativas e sonhos sobre comunidades muçulmanas LGBTs. São estes dias que fazem tudo valer a pena. São estes dias que tornam possível ser LGBT e muçulmana ao mesmo tempo. Dias em que deixamos os “mas” de lado e apenas somos.

Eu conto ao meu amigo sobre estes dias e, ao invés de exaustão, sinto apenas alívio.

*Lamya H é uma escritora lésbica e muçulmana vivendo em Nova York.

(Crédito da imagem: Antonio Guillem via Shutterstock/Salon)

ECOO

Ideias de presentes sustentáveis (e baratos!) para o Natal

Geórgia Santos
17 de dezembro de 2017

Esse ano (in)tenso vai chegando ao fim, mas com a proximidade do Natal a nossa ansiedade só aumenta. Por isso a gente pensou em algumas coisas que podem te ajudar a lidar com, pelo menos, uma parte desse problema: os presentes. Que tal inovar e investir em presentes sustentáveis, baratos e feitos por ti? Dessa forma é possível fazer um consumo consciente, que evita os excessos e desperdícios, com itens que, de quebra, serão úteis. Não serão jogados no cantinho dos anjinhos de gesso da vó – com todo o respeito aos anjinhos de gesso da vó 😉

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Os presentes que a gente selecionou são amigos do teu bolso, do planeta e são cheios de amor

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 Barrinhas hidratantes naturais

Essas barrinhas além de lindas podem ser usadas por pessoas de qualquer idade, porque são feitas com ingredientes naturais e que não agridem o nosso corpo – nem o meio ambiente. Clique aqui para ver a receita.

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Difusor de ambientes

Quem não adora entrar em uma sala ou quarto cheirosinhos? Banheiro, então, nem se fala. Pois um difusor de aromas é muito fácil de fazer, basta misturar algumas gotas de óleo essencial da sua preferência com óleo de amêndoas (ou outro óleo vegetal que tenha um aroma mais neutro ou adocicado, como o óleo de semente de uva). Aí é só colocar em uma garrafinha de vidro bem charmosa e juntar os palitinhos de bambu. Eu gosto de colocar a planta in natura do óleo essencial, mas é só pra ficar bonitinhos. As quantidades variam de acordo com o tamanho. Em uma garrafa de 50ml eu usei 45ml de óleo de amêndoas e 30 gotas de óleo essencial.

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Se tu não estiveres afim de fazer o presente, experimenta fugir do óbvio. Hoje há uma série de opções de cosméticos naturais, por exemplo. Bolsas feitas com tecidos reutilizados e/ou sustentáveis. Ou quem sabe começa evitando aquela embalagem desnecessária para embrulhar o presente. Em vez de usar aquele monte de papel e plástico, compra um lenço e bacana e embrulha com tecido. Dois presentes em um 😉

Nós US

Sim, até o Alabama leva assédio a sério

Sacha
13 de dezembro de 2017
(you can read this article in English here)

É raro que um democrata seja eleito num estado como o Alabama. Algumas regiões do país são tão fielmente partidários que nem sequer têm votantes indecisos o suficiente para terem candidatos eleitos do outro partido. A margem, simplesmente, é demasiado grande. O Alabama é o exemplo prototípico disso. Ainda assim, Doug Jones não deixou escapar a sua oportunidade na eleição especial para o Senado contra o republicano Roy Moore.

Consideremos as circunstâncias. Roy Moore tem uma larga, insidiosa história de acusações de abuso sexual de menores de idade. Inclusive foi impedido de jamais entrar em certo shopping por causa disso. As vítimas já se têm apresentado com relatos de faz décadas. Todas as acusações seguem um padrão da vítima ser menor de idade e ele ser agressivo.

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Um político permanecer na candidatura nessas condições é quase impensável

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O que é extraordinário das circunstâncias da eleição no Alabama é o momento que escolheram fazer as acusações contra o candidato de um partido. Vivemos agora uma onda de vítimas a contar as suas histórias de assédio e abuso. Esses relatos são levados a sério e os agressores estão responsabilizados pelo acontecido. Hollywood faz semanas que não para de expulsar os acusados. Este efeito também se transferiu para a política, com vários políticos notáveis dos dois grandes partidos forçados a não se recandidatar ou mesmo demitir-se por cause de acusações credíveis.

Embora seja notável que Moore conseguiu, de algum jeito, a candidatura republicana, o apoio tépido que teve do partido não é tanto assim. Não devemos esquecer que o próprio presidente quase viu a sua campanha implodir pelos comentários de “grab them by the pussy” gravados em vídeo. Apesar de grandes nomes na mídia e na política caírem, o maior de todos continua, por enquanto, confortável na sua posição. Este momento na nossa cultura, aliás, não se tem estendido ao mais flagrante dos acusados.

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A persistência de #MeToo não tem paralelo

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Sem a onda da sociedade a dar voz contra assédio e abuso sexual, seria quase impossível exigir a demissão de figuras tão estabelecidas. É para o benefício da sociedade em geral, especialmente as mulheres mesmo, que outra vez nos despertamos à violência real de assédio e abuso. Numa época em que o ciclo mediático se tem reduzido a meras horas, a persistência de #MeToo não tem paralelo. Isso na sua extensão, persistência e capacidade de atingir figuras de todos os lados dos espectros sociais. Sejam rabinos, diretores, vereadores, representantes, ou outros, agressores estão sendo expostos por vítimas caladas há muito tempo.

Roy Moore perdeu por apenas 1,5% até ao final da noite de terça-feira. Essa é uma margem estreitíssima de rejeição da personificação de tudo contra o qual o movimento Me Too luta. Mesmo assim, aconteceu. É um momento breve de alívio da barragem de escândalos na política que não parece ter fim. Se conseguir alcançar o acusado mais alto, será na base desta mesma opinião pública.

Imagem: Jordan Ladikos
Nós US

Yes, Even Alabama Takes Sexual Harassment Seriously

Sacha
13 de dezembro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

It’s a rare feat that a Democrat gets elected in a state like Alabama. Some parts of the country are so staunchly partisan that they don’t have so much as swing voters to tip their elections any other way. There’s simply too wide of a margin. Alabama is the prototypical example of this. Yet Doug Jones managed not to bungle the special Senate election he contested against Republican Roy Moore to win the seat.

Consider the circumstances. Roy Moore has a long, dark history of accusations of underage sexual assault. This includes even being prohibited from visiting a shopping center due to this. Victims have come forward with accounts spanning decades. All follow a regular pattern of them being underage and him being aggressive.

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A politician remaining in the race for office in such a condition is nearly unthinkable

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What’s remarkable about the circumstances of the Alabama special election is the timing of the accusations against one party’s candidate. We are currently experiences a mass wave of victims coming forth about sexual assault. They are being taken credibly and having their aggressors held accountable for it. Hollywood has not stopped purging its ranks of any and all accused in weeks. The effect has spilled over into politics, with several prominent politicians from both major parties being forced not to seek reelection or resign due to credible accusations.

While it is remarkable that Moore managed to finagle the Republican candidacy, the tepid embrace of the party should not be. We need not forget that the president himself had his own campaign nearly implode due to the infamous “grab them by the pussy” remarks on video. Despite top names in the media business and in politics coming crashing down, the name at the very top remains comfortably, for now, in his position. Our cultural moment, however, has not yet seemed to extend to the most egregious of the accused.

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The durability of #MeToo is unparalleled

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Without the groundswell of society outspoken against sexual harassment and assault, it would be nearly impossible to call for the ouster of such established figures. It is for the benefit of society at large, especially women themselves, that we have once again woken up to the real violence of sexual assault. In an era in which the news cycle has been reduced to mere hours, the durability of #MeToo is unparalleled. Its scope, its lasting power, and its ability to touch those on all sides of the social spectrums. Be they rabbis, directors, councilmen, congressmen, or beyond, sexual offenders are being exposed by long-silenced victims.

Roy Moore lost by 1.5 percentage points, as of the end of the night on Tuesday. That is a very small margin of rejection of the political embodiment of everything the Me Too movement stands against. Yet it happened, and it is a brief moment of respite from the seemingly endless barrage of scandal coming from our politics. If it should rise all the way to the top, it will be on the back of this public sentiment.

Image: Jordan Ladikos