Raquel Grabauska

Amor incondicional?

Raquel Grabauska
5 de outubro de 2018
Eu tive um ataque de amor e abracei meu filho menor bem forte, cherei e disse: como posso te amar tanto?
Ele: porque tu é minha mãe, ora!

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Fiquei rindo muito, claro. E depois fiquei pensando no tal amor incondicional. Eles ainda não me desafiaram a ponto de eu questionar esse amor. Por enquanto, sei que é amor incondicional porque tenho a sorte de ter dois fofos como filhos. Mesmo nos dias em que não dormem. Mesmo nos dias em que deixam os brinquedos jogados. Ou que todas as roupas incomodam. Mesmo quando eles precisam de mim a cada meio segundo. Mesmo quando eles não precisam de mim o dia todo. Mesmo que…

Ver os filhos crescendo é um desafio terno e assustador. Não é só pelas roupas que deixam de servir de um dia pro outro. Não é só porque temos que saber os nomes de todos os personagens dos desenhos animados. Não é só porque num dia tu faz a comida que eles mais amam e no outro dia eles não suportam aquela mesma comida.

É um estado de atenção, vigília. Sem trégua. Porque se a gente não está atento, deixa passar o que mais importa. Deixar de ver que eles aprenderam algo novo, que o vocabulário aumentou, que ele já sabem dizer “procrastinar”e mais, já sabem o que isso significa! Um amor incondicional. Por ora é assim. Pra sempre assim.

Raquel Grabauska

Adoção – Quatro relatos de pais e mães que adotaram uma criança

Raquel Grabauska
28 de setembro de 2018

Ter um filho é algo que não tem como descrever. Posso falar anos e anos sobre o que é. E nunca vou chegar nem perto da complexidade, a felicidade e a inteireza que envolve tudo isso. Sabe como se tem filho? Com amor. Essa é a melhor forma. Meu carinho e admiração a quem tem tanto amor.

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Conversei com quatro pessoas que tiveram umas das atitudes mais lindas que alguém pode ter: adotar uma criança

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Airton, pai do Henrique e do José Guilherme

Quando tiveram a ideia de adotar?
O Marcos sempre teve vontade, porém decidimos no inicio de 2009 e neste mês mesmo agimos…hehehe

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
Dia 26 de janeiro de 2009 fomos até o JIJ (Juizado da Infância e Juventude) nos inscrevemos, já com documentação exigida e, a partir daí, passamos por todo o processo de habilitação (entrevista com psicólogos e assistentes sociais com visita dos mesmos em nossa casa) para adoção como qualquer outro casal ou pessoa que pretende adotar. Em abril já estávamos habilitados e na lista de adotantes do CNA (Cadastro Nacional de Adoção). Em novembro recebemos a ligação do JIJ da cidade de origem deles e fomos conhecê-los no dia 26 de novembro e depois veio duas visitas deles em nossa casa durante fins de semana. Depois da segunda visita decidimos que os queríamos e eles aceitaram ser nossos filhos. No dia 14 de dezembro aconteceu a audiência e saímos dali com a guarda provisória. Após a segunda visita da equipe de acompanhamento fomos dados como totalmente adaptados, teve o parecer favorável do juiz e depois do trânsito julgado do processo (45 dias) fomos registrá-los em maio de 2010.

Que idade tinha a criança?
Adotamos dois irmãos. O Henrique tinha 9 anos e o José Guilherme tinha 4 anos.

Qual a parte mais difícil?
Felizmente não tivemos nada de empecílio. Achamos que foi um processo que bem feliz. Todas as pessoas que de uma forma ou de outra se envolviam neste processo eram muito tranquilas e foi facílimo TUDO.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
Vimos eles pela primeira vez no dia 26 de novembro, quando fomos no abrigo. Nada sabíamos sobre eles. Primeiro conversamos com a equipe maravilhosa do abrigo, nos contaram sobre a vida deles e depois fomos no pátio conhece-los. Estavam junto com outras crianças. Fomos sem eles saber quem éramos e assim conhecemos sem saberem a nossa intenção. Depois eles vieram até a sala da secretaria e conversamos com eles. Foi amor a primeira vista. Falamos o que estávamos fazendo ali e se eles gostariam de nos conhecer melhor, nossa casa. Combinamos a visita. Depois desta tivemos a certeza que eram eles e eles também que éramos nos os pais que eles escolheriam.

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Eu costumo dizer que o universo conspirou e que nossos caminhos estavam traçados para se cruzarem. Sou espirita e acredito que nesta passagem na terra estamos resgatando algo de outras vidas. Estava escrito que assim seria. E está sendo maravilhoso.

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Eu recomendaria que adotasse imediatamente e deixe de pensar. É uma relação de completa troca de amor, carinho, atenção, puxões de orelhas e companheirismo. Portanto, recomendo que a pessoa se jogue de cabeça e totalmente disposto para dar e receber muito amor e carinho. Com certeza será muito feliz.

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Dorana, mãe do Davi e, agora, mãe da Júlia, de um ano e três meses

Quando tiveram a ideia de adotar?

Sempre tivemos a vontade de adotar, mas a atitude veio quando não conseguimos engravidar do segundo filho.

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?

A ideia desde o namoro…kkkk Mas entre ir no Foro Central, ficar habilitado e adotar, 6anos e 5 meses..

Que idade tinha a criança?

Um ano e dois meses. Pedimos no perfil uma menina de até quatro anos.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?

A primeira vez a gente se esforça pra se equilibrar, é um momento tenso e intenso!

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
O que recomendo, bom, em uma semana com ela em casa, estamos nos adaptando. Que esta busca seja feita com o apoio da tua família, que seja iniciada de uma vez e que lembre sempre que ” ganhar” um filho é um presente. Independente de ser biológico ou não, ele será TEU pra sempre. Responsabilidade como pais…para criarmos uma pessoa que some neste mundo.

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Ana, mãe do Henrique,7 anos

Quando tiveram a ideia de adotar?

Após tentarmos três gestações sem sucesso

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
1 ano

Que idade tinha a criança?
1 ano e 8 meses

Qual a parte mais difícil?
À espera longa sem ter prazo certo e depois não saber muito sobre a criança

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
01 mês antes de ir para minha casa

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Não sabia, ela me foi designada e nós a acolhemos, não sentimos aquela coisa mágica que muitos falam. Houve uma empatia e afeto mútuo pois ele queria uma família e nós queríamos um filho, mas nada mágico, tudo muito construído até hoje, tijolinho por tijolinho. No início há um estranhamento, pois de repente nasce uma criança, sem gestação, sem data de parto.

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Esteja de coração aberto, não coloque ideias em caixinhas, nem planos rígidos, abra-se para aprender, para receber e, claro, para exercitar um amor que com certeza vai te desafiar e exigir muito.

Vanessa, mãe da Dora, três anos

Quando tiveram a ideia de adotar?
No nosso caso não foi uma “ideia”. Eu sempre acreditei ser essa uma das certezas que tinha sobre maternidade. Minha companheira abraçou o meu mundo e as minhas certezas e com a vida em comum começamos a reconhecer os ecos uma da outra como nossos também. Assim se deu a decisão íntima de sermos mães pela via da adoção.
Entendemos que para nós o caminho da maternidade pela inseminação de um doador de sêmen já é uma adoção. Adoção essa unilateral, no nosso entender . E ainda com variáveis muito elásticas quanto ao que mobiliza esses doadores.
Outra questão quanto à seleção dos possíveis doadores em um banco de sêmen brasileiro que nos deixou tão distantes dessa ideia foi o fato de que, como mulheres brancas que somos, só poderíamos ter doadores igualmente brancos. Para nós isso é assustador. Já na época. Ainda mais hoje, nós mulheres brancas, mães de uma menina negra.

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
Alguns anos (quase 4 anos) desde a primeira vez que falamos sobre o assunto. Em um primeiro momento nos dedicamos a construir nossa relação. Nosso entendimento como casal. Do amor sedimentado cresceu a vontade de expandir esse amor para alguém que nascesse desse amor. E a adoção é só AMOR – pelo outro. Um outro que não é gerado em você mas nasce e cresce em você. E a razão de ter aqui a “palavra Amor” repetidas vezes é porque só é possível a entrega quando o AMOR é maior e transborda.
Porém de tudo – demoramos 17 meses para sermos habilitadas e da habilitação até a chegada da Dora foram quase 4 anos.

Que idade tinha a criança?
A conhecemos com menos de um ano e ela chegou com 1 ano e meio.

Qual a parte mais difícil?
Como mãe a parte dilacerante é quando já se sabe que sua filha existe; tem um rosto, um olhar, um cheiro… e você precisa dia após dia se despedir e a deixar no abrigo até que alguém compreenda que essa criança já tem uma família para chamar de sua.

Para nós como mulheres que se amam o mais difícil foi lidar com o preconceito. Em muitas etapas iniciais do processo de habilitação e ainda pela parte técnica do abrigo.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
Foi um turbilhão. Dentro do abrigo, noite, frio. Eu ali em dia de festa para as crianças maiores. Ela doente sem nada de festa. Muito séria, olha triste, desconfiada, vem pro meu colo. Foi a emoção mais doida e doída que já vivi. Fui tomada por uma coragem de mundo e ao mesmo tempo um medo imenso do que estava por vir me pegou pela mão. Não é fácil quando nos damos conta de que o coração bate fora do peito.

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Como não saber?

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Recomendo leitura, escuta, compartilhamento, entrega. Recomendo urgentemente que participe de grupos de apoio à adoção. Apenas os sérios. Tem muita bobagem nas redes e muito preconceito.
E antes de mais nada que somente pense a adoção se ou quando o coração estiver pronto. Adoção não pode ser vista e não é a última opção para se formar uma família. Os adotantes é que devem ser na verdade os adotados. As famílias é que devem adotadas por essas crianças. Já passaram por muito. Não são consolo nem nos devem gratidão. O luto é delas e não nosso. Precisamos ser e estar inteiros para elas que muitas vezes são fragmentadas, apenas parte de histórias que “preferimos” não contar, que “preferimos” esquecer.
E por fim termos a certeza segura de que uma família formas pela adoção tem raiz no amor. E isso – o amor – também passa de pais para filhos.

Lugares bem legais para ver um pouco sobre isso

DNA da Alma

Adoção Tardia

CEJA – PE

E aqui, pra chorar um pouquinho

* Na foto estão a Vanessa e sua companheira, Júlia, junto com a filhota, Dora. O clique foi da Maria Clara Adams, para a exposição Amores Perfeitos.

Raquel Grabauska

Praga de filho!

Raquel Grabauska
21 de setembro de 2018

Dias desses comentei com o namorado de um amigo que já tem filhos grandes sobre o sono que estava sentindo. Meus filhos acordaram váaaaaaarias vezes na noite, me tornando um zumbi matinal.

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Ele disse: “filhos pequenos dão trabalho. Filhos grandes dão dor de cabeça”.

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Nunca mais parei de pensar nisso. Resolvi aproveitar pra me divertir um pouco com o trabalho que os filhos pequenos nos dão. Às 10h da manhã, o filho menor pede colo pra o pai pra ver o que tem no armário das comidas. Descobriu um pirulito que jazia escondido. Começa a negociação. O pai não cede. Filho frustrado. Manha, fúria, desgosto.

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Por fim, desabafo: “se eu fosse adulto, eu faria o que queria”.

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Certamente o primeiro ato da sua vida adulta será comer um pirulito às 10h da manhã de um feriado. Por aqui, quando não deixamos fazer alguma coisa que querem muito, ouvimos coisas terríveis:

Não vou te convidar pro meu aniversário!
Não vou te emprestar os meus brinquedos!
Não gosto mais de ti, só do papai (ou só da mamãe!, quando o algoz foi o pai).
Ninguém me entende!

Essas duras palavras duram em torno de doze segundos. Daí vem o melhor abraço do mundo. Sempre. E somos novamente convidados para o aniversário. E podemos brincar com seus brinquedos. E eles ficam sabendo que os amamos.

Raquel Grabauska

Mamãe, porque tua bunda balança TANTO?

Raquel Grabauska
14 de setembro de 2018

O TANTO em maiúsculas foi por minha conta. Ele não gritou. perguntou com a naturalidade com que faz todas as mil perguntas do dia. Mas eu ouvi como se tivesse sido gritado. Todo meu corpo (menos a bunda) enrijeceu.

Tinha eu saído do banho, bem tranquila, limpinha e cheirosa. Estava indo do banheiro para o meu quarto me vestir. Não percebi a presença de um seguidor. Virei, me cobri com a toalha, desfiz a cara de espanto e pensei no que responder:

– porque nos últimos oito anos eu me dedico à maternidade mais do que a mim mesma;
– porque sou artista e preciso viver do meu trabalho e fico com pouco tempo para ginástica,
– porque tenho 45 anos e a genética é assim mesmo;
– porque sim ;

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Pensei ainda mais algumas coisas. Pensei em como ensinar pra um menino a respeitar as diferenças. A respeitar os corpos. Pensei, pensei, pensei. Ele ali, me olhando, com a mesma cara que estaria se tivesse me perguntado qual a cor do céu num dia nublado. Eu percebi que para ele era só uma pergunta. E me dei conta de que tudo bem. Minha bunda balança mesmo. Por todas as minhas razões. E talvez algumas outras que eu não saiba…

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Respondi que é assim mesmo

Cada bunda tem seu jeito

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Assim, como as pessoas têm cores diferentes, cheiros diferentes, tamanhos diferentes. A minha bunda é assim. E tá tudo bem. Ficamos os dois bem. Ele foi brincar e eu me vesti. Acho que depois disso comecei a rebolar mais quando caminho, sem preocupação. Não sei muito mais oq ue poderia ter falado pra ele. Mas ensinei pra mim que tá tudo bem coma minha bunda.

Raquel Grabauska

Morte e vida

Raquel Grabauska
7 de setembro de 2018

Meu filho maior (sete anos) começou a sentir medo da morte. Da própria morte. Ouviu algo no noticiário do rádio do carro e ficou impressionado. Foi uma das poucas vezes em que me senti tão incapacitada para orientá-lo. Só consigui abraçar e dizer que é assim, mesmo.

As mortes precoces sempre rondaram minha família. Eu cresci com esse medo. Minha mãe era refugiada de guerra. Família dissipada, um tio morto em terras distantes, outro ficou por lá enquanto a família fugiu para sobreviver. Um outro tipo de morte.

Hoje, sete de setembro, é a data de nascimento da minha mãe. Antes de ter filho, meu maior medo era o da morte dela. Perdi o meu pai aos 17 anos – ele tinha 47. Quase a minha idade agora. É assustador pensar que daqui três anos terei vivido mais que meu pai. Já tenho mais tempo de vida sem pai do que com ele. Haja terapia. E nem com terapia.

Aniversário da minha mãe sem ela. Pelo quinto ano. O pai nos dava a sensação de estrutura. Quando ele se foi, a casa se desorganizou. Tivemos que reaprender tudo.

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Quando a mãe se foi, o coração se desorganizou
E de um jeito…
Não tem mais aquela sopinha no dia de gripe. Não tem mais aquele abraço nos dias em que se está pequeno demais pro tamanho do mundo. Não tem não mais aquele olhar dizendo que tudo vai dar certo

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Então meu filho, hoje não consigo conversar contigo sobre a morte. Vou tentar te falar do amor que fica. Da panqueca que aprendi a fazer. Das risadas e brincadeiras que minha mãe me ensinou. Da força para viver em dias não tão bons. A morte vai vir. Não quero pensar nisso. (Haja terapia). Quero ser tua mãe o maior tempo que eu puder. Quero que tua vida seja boa, pra te fazer tu sorrir ao lembrar quando não estiver mais aqui.

* Sobre a ilustração, pedi ao Benjamin que desenhasse sobre o medo que tem sentido. Ele não quis. Insisti um pouco, dizendo que se ele desenhasse, poderíamos olhar pro medo juntos. Ele não quis. Disse que queria desenhar uma coisa feliz. Que assim seja.

Raquel Grabauska

Minha infância e a infância dos meus filhos

Raquel Grabauska
31 de agosto de 2018

Muitas vezes me pego pensando no quão boa é a vida que meus filhos têm. Eles são realmente privilegiados. Muito. Tem um tanto disso que é sorte, tem um tanto que é decisão nossa como pais, tem um tanto que é da vida. De vez em quando eu dou choques de realidade.

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Esses dias um deles começou a dar meu discurso sobre as pessoas que não tem comida ou oportunidade. Eu comecei e ele foi falando junto e disse: tu sempre diz isso, mamãe.
Eu falei: sempre digo e sempre vou dizer.

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Eu recebi muito amor quando era pequena. Tive uma mãe muito amorosa. Meu pai era uma pessoa dura. Do seu jeito, mostrava que se importava conosco, mas a dureza era constante. Já o amor da mãe transbordava, e isso era quase tudo que eu precisava. Passamos por bastante privação, tive poucas oportunidades de fazer programas legais em família, passeios e outras coisas que todos deveriam poder. Quando vejo meus filhos Tendo a vida que têm, fico com o coração cheio. Eles têm uma vida linda. Imagino que as lembranças da infância serão incríveis.

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Eles têm pais amorosos e presentes. Somos pais privilegiados também. Um tanto de sorte, um tanto de opção nossa. Uma série de fatores que nos fazem felizes por estarmos juntos

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Mas me preocupo e até me assusto quando eles estão descontentes. A vontade que tenho é de contar o que vivi, que não foi fácil, porque foi comigo, fui em quem sentiu. Mas que não é nada comparado ao que se vê por aí. Parâmentro é tudo. Não quero assustar, mas quero que saibam a vida linda que têm.

Sei que posso tentar fazer o melhor, que nunca vai ser o suficiente. Eles vão sempre ter do que reclamar. Assim como eu fiz com minha mãe. A semana toda passei cantando essa música.

Gosto mais da versão na voz da mãe dela, mas achei pertinente ser a filha cantando..

Raquel Grabauska

Mãe Careta

Raquel Grabauska
24 de agosto de 2018

Dia desses nos encontramos entre adultos. Começamos a brincar, jogar, rir muito. Todos com filhos. Tava um momento tão lindo dos pais (pais que estão sempre proporcionando momentos lindos para os filhos), que naquele instante focamos em nós. Um filho pediu o celular, o pai deu. Outra pediu, ganhou. E assim foi. Os meus olharam pro meu marido: porque eles podem e nós não? Ganharam. Aquele dia me deu um aperto. Porque se não tivesse celular, eles estariam brincando.

Dois dias depois, encontramos um amigo querido dos guris no almoço. Ele já chegou com celular. Nem almoçaram. Só jogaram. Achei tão triste!

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De uma amiga sobre a filha: “Ela por exemplo tá de férias agora, mas não sinto que tô inteira… porque continuo trabalhando…”

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Viajamos de avião e meu filho menor jogou no celular durante vôo – a gente também não quer ser E.T. Mas foi o próprio inferno. Ele só queria fazer isso. Com o maior, eu conversei e ele entendeu e cedeu. Mas com o menor, precisou eu ter um chilique com o meu marido. Ele é bem legal, e eu também sou, mas disse que se ele desse o telefone de novo, eu ia embora na hora. Imagina o tanto que me irritei.

Então, nas férias, fiz uma desintoxicação. No dia seguinte, comprei canetas, papel e livro de colorir. Brincaram a tarde toda, nem quiseram ver televisão.

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Da minha amiga: “Bah, pior que ela (a filha) quando tem lápis e coisas pra pintar fica muito tempo. Mas tem vezes q eu esqueço disso e parece ser mais fácil ligar a TV, o jogo…”

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E ela é uma ótima mãe. Ótima! Mas a questão é que é fácil na hora, depois, é o próprio inferno. Eu quando chego em casa, sei, só pelo jeito dos guris, se assistiram algum desenho violento ou jogaram. É muito visível o quanto se alteram. Meu filho maior tá questionando sobre quando terá seu próprio celular. Se depender de mim….

Sou atriz, utilizo tratamentos alternativos de saúde, sou a senhora dos orgânicos, nunca imaginei que seria a mãe careta! Mas sou. Assumidamente careta.

Raquel Grabauska

Programa de família

Raquel Grabauska
17 de agosto de 2018

Sempre que viajamos priorizamos os programas que serão possíveis para os nossos filhos. Eles têm sorte por terem pais que não gostam de shopping. Brincadeiras à parte, gostamos de nos divertir vendo eles se divertirem. Agora que estão crescendo, temos conversado a respeito de vermos coisas diferentes, ter outras experiências, novas vivências.

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Uma das coisas que testamos foi levá-los nas férias que passamos em Montevidéu para uma visita guiada ao Teatro Solis

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Aproveitamos que meu irmão, minha cunhada e sua mãe estariam junto  – para caso precisássemos amordaçar os guris, digo, caso precisássemos de apoio. Confesso que entrei meio sem respirar. A guia falava em um espanhol mega rápido, estava bastante quente dentro do prédio, ocasionando um festival de tirar roupas.  Era muita explicação. Andamos por umas salas e tudo ia bem. Me emociono sempre que conheço um teatro novo. Ter essa experiência com meus queridos foi ainda mais emocionante.

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Quando entramos no majestoso teatro, desconfiança
O mais velho disse: não vai ter peça, né?
Eu disse que não, que iríamos só conhecer
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Estávamos ouvindo a explicação da guia quando alguém dá um grito no teatro. Um dos guris estava comigo e o meu marido e o outro mais atrás com os tios. Eu gelei, suei, tremi até perceber que não era da minha prole que tinha saído o som. Uma pequena apresentação surpresa para alegrar a visita ao teatro. A encenação percorreu a plateia.

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Claro que o ator parou ao lado do meu filho para o qual eu tinha dito que não teria peça
Claro que em dois segundos meu filho estava ao meu lado
Quase ao mesmo tempo ouvi o mais novo: é muita conversa! Porque eles não apresentam lá em cima? (Apontando para o palco)

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Tudo isso durou uns 5 anos (contagem de tempo de mãe em perigo) ou 3 minutos em contagem de tempo de pessoas em situações normais de pressão e temperatura. Quando saímos, todos que estavam na visita estavam parados no saguão e meu filho disse: eu prefiro o teatro da mamãe. Um oinnnnn coletivo e uma mãe com sorriso bobo feliz. Os guris estão crescendo.

Raquel Grabauska

O Dia dos Pais e o dia em que me senti a pior mãe do mundo (e arredores)

Raquel Grabauska
10 de agosto de 2018

Estávamos fazendo uma viagem em família. Passeio gostoso, com tempo, caminhadas sem pressa ou destino. Parávamos para contemplar o que queríamos, crianças correndo atrás dos pombos. Éramos o próprio comercial de margarina (se é que existe comercial de margarina ao ar livre).

Só uma coisa, antes de continuar a história: sou o tipo de pessoa que perde o amigo, mas não perde a piada. Sempre. Já me meti em cada fria, cada constrangimento. Mas não aprendo. Quando vi, a bobagem já saiu.

Voltando ao passeio. Eu estava andando de noite com minha querida cunhada. Vimos uma faixa com um pitoresco desenho que era IGUAL ao meu marido. Na manhã seguinte, repetimos o caminho com a família toda e eu estava ansiosa pela piada. Quando chegamos, apontei para a faixa, bem feliz mostrando aos meus filhos.

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Olhem só, uma foto do papai!!!!!

Os dois me olharam incrédulos. O menor logo mudou o foco. O maior ficou paralisado: “esse não é o meu pai!!!!!” Eu achei estranha tamanha veemência. Ele tem bastante senso de humor. Fazemos muitas piadas juntos.  Olhei pra ele, olhei pra faixa, olhei pra ele e olhei pra faixa de novo. Olhei de novo e gritei!

A pintura da faixa tinha uma grande faca cravada nas costas
Eu só não tinha percebido esse pequeno detalhe

Depois disso, haja pombos, passeios e brincadeiras pra extrair a culpa das minhas costas! Um feliz Dia dos Pais para todos os pais. Especialmente para o pai dos meus filhos, que além de ter me dado os nossos dois gurizinhos, ainda segue comigo há 15 anos. Com todas as minhas piadinhas.

Raquel Grabauska

O Museu Desmiolado

Raquel Grabauska
3 de agosto de 2018

Me senti desmiolada por quase perder. Uma exposição linda, completamente interativa e gratuita. Não tem desculpa para não ir no Museu Desmiolado.

Aqui vão os depoimentos de como foi vista por cinco crianças diferentes

Joana levantou, sentou na cama. Sorrisão no rosto: “Mãe! Tem muita coisa! Muita coisa naquele museu…”, deitou e voltou a dormir.
Joana, 4 anos

Tem uma coisa muito macia. Eu me joguei e não conseguia sair (rindo muito). É amarela. E tinha a vermelha também.
Tom, 4 anos

Adorei poder desenhar e deixar o desenho na parede. E desenhei aquelas obras que deram medo: o castelo da bruxa e as fitas.
Anita, 5 anos

Gostei das fitas coloridas que balançam e voam não me lembro direito, e em segundo, daquela outra das pedras preciosas.
João , 5 anos

Gostei do relógio gigante , porque dava pra mexer e ele girava. Gostei muito dos pufes macios.  Da mesa que tava pra tirar todas as peças de encaixe e não precisava arrumar depois.
Benjamin, 7 anos

 

A inspiração para tudo isso é o livro Museu Desmiolado, de Alexandre Brito.

Museu Desmiolado
Onde: Santander Cultural
Quando: até 12 de agosto
Horário: de terça a sábado das 10 às 19h
Domingo: das 13 às 19h