Pedro Henrique Gomes

Crítica – Corra

Pedro Henrique Gomes
15 de maio de 2017

Corra, primeiro longa-metragem de Jordan Peele, leva o jovem Chris (Daniel Kaluuya) para a casa dos pais de sua namorada para uma visita. A família não sabe que ele é negro, pois, sob garantia da namorada (Allison Williams), que é branca, eles são bastante esclarecidos e não veriam problema na relação da filha com ele. A realidade, no entanto, é senhora de outra complexidade.

A cordialidade racista, sempre embutida e mal disfarçada nos gracejos e em comentários sobre as aptidões físicas do negro, é aqui levada ao escárnio, ao ridículo, ao grotesco. O filme de Peele não é nada sutil (não quer ser): a estrutura formal do racismo é colocada desde o esqueleto. Peele não se ocupa em metaforizar, comenta a sujeira civilizacional em sua indecência de forma crua. É assim que podemos entender, por exemplo, um diálogo que é aparentemente idiota, a saber, quando o seu sogro (neste momento ainda não o sabemos, mas ele é um branco rico, racista e assassino; o componente de classe não escapa ao filme) diz que votaria novamente em Obama, pois ele teria sido o melhor presidente da história dos Estados Unidos, ao que Chris concorda desconfiado.

A preocupação em se misturar com os brancos parece, no início, mais de sua namorada do que do próprio Chris, que age como alguém que já conhece a violência do racismo e pode lidar com ela. Ao chegar na casa dos pais da namorada, que fica num vilarejo bem distante de qualquer outra habitação, Cris logo estranha a presença de empregados negros trabalhando para a família e que apresentam comportamento muito suspeito. A contradição não é aleatória, logo veremos.

A partir daí as suas resoluções não são, em verdade, as melhores. Suas soluções têm certo automatismo e previsibilidade (como se descobre o mistério, como se luta contra ele, quem ajudará a resolvê-lo) e o relógio de seu humor bate atrasado, embora o filme consiga manipular esses esquemas mantendo constante a tensão fundamental do filme, já que o diretor tem um estilo de direção já bastante mentalizado, de encenação pensada – e deve matizá-la em filmes seguintes. O seu domínio estético permite que o filme não descambe para a sátira desleixada que se encerra em um discurso político de boas intenções.

Embora não seja importante retê-lo, aviso que revelo a seguir parte do mistério do filme: usando os corpos negros como hospedeiros para a mente dos brancos mais velhos da família, retira-se o cérebro do colono para colocá-lo no corpo da vítima de maneira a prolongar a sua existência. Ou seja, a perpetuação material da vida provém do sacrifício criminoso dos corpos negros. Não há como pedir socorro, por razões óbvias, para a polícia, e não há tampouco pessoas confiáveis por perto.

O que esse aparato todo revela não é tanto a analogia com certos grupos supremacistas, mas o descabimento, mais largo, de uma sociedade que inviabiliza e interdita a convivência. É pois no imaginário colonizador que se sobrepõem as narrativas do racismo e sua maquinaria complexa, inclusive instituindo-o como sistema que, aí sim, naturalizado, pode ser reproduzido pelos que sofrem do racismo. Contra isso, a luta.

Get Out, de Jordan Peele, EUA, 2017. Com Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford.

Catraqueanas

A Obsolescência Programada das Pessoas

Gustavo Mittelmann
15 de maio de 2017

Eu tenho um iPhone. Ainda não deu tempo de riscar a carcaça ou rachar a tela. Mas já deu tempo dele ficar defasado. Com rumores de protótipo do modelo iPhone 8 pulando na timeline, ele está prestes a ficar 3 modelos pra trás. Logo não vai ter mais assistência ou atualizações disponíveis. Obsolescência programada; assustador como o prazo de vida útil de um dispositivo ou bem de consumo é cada vez mais curto. Mas, muito mais assustador é ver que esse conceito se alastrou dos produtos para a sociedade, agravado pela crise dos setores convencionais da economia e a supervalorização das startups – tecnológicas, modernas e… jovens.

Com isso, surge uma nova fase de vida: passamos pela adolescência, temos um intervalo de alguns anos de vida adulta produtiva e logo chegamos à obsolescência; um hiato imposto a ser encarado antes da velhice. Ao passo em que a expectativa de vida aumentou, temos um governo que demanda nossa contribuição até uma idade igualmente mais avançada, porém, do outro lado, temos uma expectativa de utilidade no mercado de trabalho com um limite etário cada vez menor.

Obviamente, por conta da relação de forças entre governo, mercado e você, já sabemos quem vai sair frustrado com essa nova realidade. É uma falácia essa crença de que útil é sinônimo de novo. Na verdade é na coexistência de gerações dentro de um espaço que habita a disrupção.

O vinil e o streaming, a aquarela e o vetorial, 35mm e 4k. Existe um papel fundamental de referência e consistência que não deve ficar de fora dos processos; inclusive, e principalmente, do processo de inovação. É preciso uma carga de conhecimento do que se fez e de como se fez ao longo dos anos, e o que se errou no caminho, para saber fazer um diferente melhor. Existe uma geração que eu considero privilegiada, e da qual faço parte –  mesmo que ainda antes dos 40 anos – que viveu boa parte dos processos de inovação das últimas décadas, e que consegue ter a compreensão da importância de todas as etapas e, principalmente, de sua complementaridade.

Existe toda uma construção de raciocínio diferente na criação de um texto datilografado, ou na edição linear de uma ilha VHS. Isso não é saudosismo; e, sim, facilita a vida digitar e apagar e rediagramar, ou trocar o plano do meio quantas vezes quiser. Mas é importante ter o conhecimento e a experiência de ter passado por esses diferentes tipos de raciocínio de construção para saber o que é evolução e o que é involução.

Bastam alguns ciclos temporais dentro de empresas com essa filosofia de juventude produtiva para que esse conhecimento acumulado rume à extinção, trazendo à tona erros recorrentes e outrora ultrapassados. Ou seja, umas poucas gerações pensando em quais as dificuldades de determinado nicho no momento apenas, e as dificuldades históricas desse mesmo nicho vão ressurgir. O resultado vai ser a proliferação da mudança pela mudança, e a inovação vai se tornar um cachorro correndo atrás do próprio rabo.

ECOO

10 momentos em que minha mãe foi ecologicamente correta sem saber

Geórgia Santos
14 de maio de 2017

Não fui criada com uma intenção de ser ecologicamente correta. E falo de intenção porque há famílias em que ensinam isso pra os filhos desde muito cedo ou sempre. Lá em casa, não era parte da conversa ou da rotina. Isso não significa que meus pais não são conscientes. E eu não estou falando de reciclagem de lixo, falo de medidas bastante importantes.

Na casa dos meus pais há duas claraboias que iluminam as áreas de convivência, o que elimina a necessidade de usar lâmpadas durante o dia. Além disso, o aquecimento da água da casa e da piscina é solar. Bacana, né? Mas a minha mãe é mais consciente do que ela imagina.

10 momentos em que minha mãe foi ecologicamente correta sem saber – ou sem perceber

1 “Vai a pé”

 

2 “Rápido nesse banho, Geórgia. Tu tá aí há quase uma hora, a água do planeta vai acabar”

 

3 “Apaga a luz quando tu for pra cama”

 

4 “Come a sobra de ontem, não precisa fazer mais comida”

 

5 “Usa açúcar pra esfoliar a cara, é mais barato. Ou farinha de milho”

 

6 “Vai a pé”

 

7 “Vai caminhando ou de bici”

 

8 “Deve ter na horta do vô”

 

9 “Para de fumar”

 

10 “Vai à pé”

Tão série

Especial Dia das Mães – Modern Family

Geórgia Santos
13 de maio de 2017

Depois de oito temporadas e inúmeros Emmys e Globos de Ouro, o sucesso de Modern Family é inegável. Não é exatamente uma série sobre mães e filhos, eu sei. Mas então por que falar dela justamente hoje? Explico. Porque acho que ela aborda maternidade de uma maneira saudável ao invés de exibir aquela imagem clichê que mostra a mãe como uma mulher perfeita ou como a fonte de todos os problemas dos filhos. Geralmente, é o tal do oito ou oitenta. Mas não em Modern Family.

A série mostra o turbulento dia-a-dia de três núcleos da – nada convencional – família Pritchet, O que nos interessa, no entanto, são as mães. Ao menos por hoje. E, nesse caso, são dois tipos bastante diferentes de mãe. De um lado temos Gloria (Sofía Vergara), a mãe superprotetora, que elogia o filho o tempo inteiro e tem certeza de que ele é a criatura mais maravilhosa do mundo. E faz tudo isso ao mesmo tempo em que sufoca o rebento e o isola do mundo real. De outro, temos Claire (Julie Bowen), bastante pragmática, que não hesita em julgar e esfregar o mundo real na cara deles. Tudo isso ao mesmo tempo em que ajuda com o trabalho de Ciências e faz cupcakes pra feira da escola.

As duas exibem uma característica que quase todas as mães tem em comum: aquele amor doido e incondicional pelos filhos

Mas o que me interessa é que as duas exibem outras características das quais quase todas as mães compartilham: elas se frustram, elas ficam com raiva, elas ficam cansadas, elas se irritam quando os filhos sabem de mais ou quando sabem de menos; não gostam quando as meninas usam roupa muito curta ou esquecem de passar maquiagem; se preocupam se os filhos saem muito, se preocupam se os filhos não saem; ficam doidas se os filhos não estudam, ficam doidas se os filhos estudam demais. E às vezes isso é demais.

Claire e Gloria nos mostram que as mães querem mandar tudo à merda, às vezes. E elas tem toda a razão.

As duas acertam e erram com seus filhos e normalizam essa humanização da família. E eu acho isso extremamente saudável. Todo mundo comete erros, e todo mundo tenta acertar enquanto isso também.

Há mães que erram mais, é verdade, como DeDe (Shelley Long), mãe de Claire e Mitchel (Jesse Tyler Ferguson). Ela bagunçou legal a cabeça dos dois, o que mostra que às vezes as mães simplesmente não conseguem lidar com a situação – ou não querem. E, às vezes, não há mãe na parada. Lily (Aubrey Anderson-Emmons) é criada pelos pais Mitchel e Cameron (Eric Stonestreet) e vai muito bem obrigada, tudo isso porque é cercada de muito amor e carinho. Afinal, é isso o que importa, né?

Enfim, Modern Family nos faz pensar sobre muitas coisas, eu acho. Tem casal com diferença de idade, tem casal homossexual, tem casal “tradicional”, tem estrangeiros, tem criança adotada, tem criança gênio e outra bem longe disso, tem gente bonita e outras nem tanto. E tem maternidade. Só falta uma coisa para Modern Family ser perfeita no quesito evolução humana na contemporaneidade: uma mulher que não queira ser mãe.

 

 

Guia de Viagem

Lisboa – A cidade favorita da minha mãe

Geórgia Santos
13 de maio de 2017

Eu vivi em Lisboa por um ano e, de fato, poderia escrever por horas sobre os lugares que conheci em Portugal, sobre o que comi e, claro, sobre os deliciosos obstáculos que encontrei pelo caminho. Mas neste final de semana, só importa o que ela tem a dizer sobre Lisboa. Ela quem? Dona Gertrudes, a Tude, também conhecida como minha querida e adorada mãe.

Mamãe e eu damos um pulinho em Fátima. A gente não gostou nem um pouquinho, mas não conta pra ninguém =P

 .

Lisboa é a cidade favorita da minha mãe apesar de, como não poderia deixar de ser com membros da família, muita coisa ter dado errado. Muita coisa

.

A Tude visitou Lisboa três vezes. Na primeira vez, tudo correu de maneira tranquila (os problemas aconteceram em Madri, Barcelona e Sevilha, que visitamos na sequência). Na segunda eu já morava por lá e, ah, ela não imaginava o que estava a sua espera. Dois dias antes de voltar pra casa, meu pai teve febre e começou a tossir de maneira bastante assustadora, algo como um pastor alemão tentando falar. Insistimos pra que ele procurasse ajuda e uma médica foi até minha casa. Foi a vez de ela insistir pra que ele fosse ao hospital. Chegou lá e foi internado depois de dar respostas completamente sem nexo à médica que o atendia naquele momento. Ele estava com nada mais, nada menos, que Gripe A. Que evoluiu para pneumonia.

.

Os dois ficaram duas semanas presos dentro do Hospital da Cruz Vermelha com meu pai delirando por falta de oxigênio e abstinência do cigarro

.

Ele só foi liberado depois que eu garanti que ele teria oxigênio em casa e no transporte de volta pra casa. Sim, oxigênio no avião. E foi operado assim que chegou ao Brasil. Foi bizarro. A mãe pirou (com razão), mas isso não afetou o amor por Lisboa. Deixou ela morrendo de medo de voltar, é verdade, mas ela continuou amando a cidade

Depois de muita insistência, ela resolveu voltar. Quase um ano depois do fatídico episódio. Lisboa a esperava de braços abertos, como diz a musiquinha da TAP, mas não era só isso. Portugal a esperava também com mais um punhado de surpresas que renderiam, aproximadamente, uns 15 posts. Mas eu vou encurtar o lance e listar os episódios:

1. Saindo do El Corte Inglés, uma loja de departamentos, o alarme disparou. Dois seguranças correm na direção dela pra revistar as sacolas enquanto a gringa fica vermelha. Eu, do lado de fora fumando um cigarro, só ri. Ela, do lado de dentro, queria matar todo mundo. Foi uma comoção, de fato. Todo mundo olhando, aquele preconceito com as brasileiras que devem ter roubado uma mercadoria e tal. Deveríamos ter processado.

2. Numa bela noite, ela e minha madrinha saem pra ir ao supermercado. Minha prima e eu ficamos em casa. Nós sabíamos que havia lojas pelo caminho e que não seria uma tarefa de 15 minutos. Mesmo assim, elas estavam demorando demais, eu já estava preocupada. Umas duas horas depois elas aparecem encharcadas e morrendo (sério) de tanto rir, elas mal conseguiam respirar. Acontece que no caminho de casa, que ficava a duas quadras do lugar, elas conseguiram se perder. Só que era noite e um temporal desabava sobre a cidade. Elas começaram a dar voltar no centro comercial e, finalmente, foram para o lado errado. Nesse meio tempo, o chapéu da minha mãe sai voando pela rua alagada e a doida começa a correr atrás. Duas horas depois….

3. Num passeio ao Cabo da Roca, onde há penhascos deliciosos, ela se desequilibrou com o vento e levou um tombão. Longe dos penhascos.

4. Entediada em uma loja, resolveu esperar pela irmã do lado de fora. Pra passar o tempo, resolveu brincar de estátua viva com a sobrinha. Com direito a passar o chapéu e tudo. Eu amo minha mãe.

Eu passaria o dia escrevendo sobre a as aventura da Tude, mas vocês já entenderam, né? Então dá uma olhada no que ver e o que fazer em Lisboa. Claro, os lugares favoritos da mãe. Não é um guia definitivo, mas é o roteiro perfeito pra ela.

.

Lugares pra ver

A mãe adora passear por Lisboa, bater perna, mesmo. Felizmente, é uma cidade perfeita pra isso, mesmo com as lombas.

.

Chiado

É um dos bairros mais charmosos da cidade. Perfeito para caminhadas, também abriga algumas das lojas e cafés mais interessantes de Lisboa, como o Café à Brasileira, famoso pela estátua de Fernando Pessoa. Mas também é onde se pode observar alguns dos pontos turísticos mais importantes de Lisboa, como o Museu do Carmo e o Elevador de Santa Justa. Se caminhar um pouquinho além do convento, há um mirante espetacular. E se quiser subir umas lombas, aproveita pra explorar o Bairro Alto.

Rossio/Baixa

Perfeito para bater perna e descobrir as lojinhas e lojonas das ruas do entorno do centro da cidade. Vale caminhar até a Praça do Comércio, que fica à beira do Tejo.

Belém

É uma região mais afastada do centro da cidade, mas é uma das bonitas de Lisboa. Tem jardins lindos além de uma feira de antiguidades incrível aos domingos. Sem falar da possibilidade de caminhadas deliciosas à beira do Tejo. Alguns dos pontos turísticos mais legais estão por lá, como a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerônimos. Ah, e é onde se come o famoso Pastel de Belém.

Onde comer

A mãe é malinha pra comida, mas em Lisboa não encontrou qualquer problema. É tudo uma delícia.

Os Jerônimos

Do ladinho dos famosos pastéis de Belém tem um restaurante minúsculo e nada glamouroso, mas que serve um peixe dos deuses e por um preço bastante honesto. E o gerente (ou dono, não sei) é uma figura. Fala mil idiomas e vai fazer de tudo pra que todos se sintam à vontade. Sugestão da Tude: prove os carapaus, dois peixes grelhados na brasa com azeite e alho e umas batatas ao murro. Hm!

Café Royale

É um café e restaurante que serve uma comida maravilhosa ao estilo bistrô e por um preço convidativo. Sem falar do terraço nos fundos da propriedade. Escolha perfeita pra o verão.

Solar dos Presuntos

Uma ótima escolha pra quem tiver grana pra gastar. As paredes forradas com fotos de celebridades dão o atestado. A comida é gostosa de verdade, mas é caro.

Como se movimentar

Lisboa é perfeita para andar à pé, mas não deixe de andar com os famosos elétricos, os bondes amarelos da cidade. A mãe não só adora como recomenda. Táxi também ajuda e é bem barato.

Samir Oliveira

Crivella, essa parada é nossa!

Samir Oliveira
11 de maio de 2017

O prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, do PRB, quer acabar com a Parada do Orgulho LGBT na cidade. Um evento que existe há 22 anos e que, em 2016, levou 600 mil pessoas às ruas. Trata-se do terceiro maior evento municipal, com um impacto estimado em R$ 470 milhões na economia da cidade.

.

Mesmo que não trouxesse impacto econômico nenhum, é um evento necessário, pois sua dimensão é política, pedagógica e de resistência

.

É uma atividade festiva e de luta por direitos. Um dia em que LGBTs podem sair às ruas e demonstrar seus afetos sem medo. Ser quem são de forma plena e livre. Celebrar o orgulho e combater o preconceito. Não é pouca coisa em um país onde um LGBT é assassinado a cada 26 horas.

No primeiro ano de sua gestão, Crivella já disse que não irá destinar recursos públicos à Parada. Um ataque sem precedentes à população LGBT. Utiliza o argumento dos recursos públicos como cortina de fumaça para esconder a homofobia da atual administração. Isso não tem nada a ver com disponibilidade de verbas. É uma decisão política e ideológica de um governo liderado por um bispo licenciado da Igreja Universal. Um sujeito que já declarou que a homossexualidade é um “mal terrível” e que já sugeriu que gays são fruto de uma tentativa de aborto mal sucedida. Mais uma prova de que, no Brasil, o Estado laico existe apenas na letra morta da Constituição. Fosse o contrário, o prefeito deixaria seus dogmas religiosos de lado ao tratar de políticas públicas.

.

Além de cortar verbas, o prefeito quer modificar a forma como a Parada é feita. Organizada há 22 anos pela ONG Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, a Parada envolve dezenas de entidades em sua realização

.

É um evento autônomo do movimento social, feito pelas mãos de militantes LGBTs e apoiadores da causa. Mas Crivella quer retirar as entidades que lutam por nossos direitos da jogada. A prefeitura quer fazer uma licitação para organização da Parada. Parece uma piada de mal gosto. Como se fosse um evento que pudesse ser organizado por uma produtora, por agentes externos à causa LGBT. Como se a Parada não fosse a expressão legítima dos anseios, desejos e inspirações da população LGBT.

Os defensores do prefeito argumentam que Crivella não vai acabar com a Parada, apenas vai retirar os recursos que a prefeitura injeta no evento. “Que busquem patrocínio na iniciativa privada”, dizem. Como se fosse simples. Como se existissem milhares de empresas dispostas a apoiar a causa LGBT sem transformar nosso dia de luta em uma espécie de estande de venda de seus produtos. Ou pior: como se não fosse obrigação do poder público investir em cultura, turismo e apoiar um movimento que luta por igualdade e direitos civis. Na prática, o corte de verbas do município inviabiliza um evento que requer estrutura de segurança, trios elétricos, banheiros químicos e placas de sinalização para mais de 500 mil pessoas.

Felizmente, há resistência. Os movimentos sociais que lidam com a causa LGBT no Rio de Janeiro estão muito mobilizados. O vereador David Miranda, filiado ao PSOL e único parlamentar assumidamente gay da cidade, articula um abaixo assinado para pressionar o prefeito. A campanha “Essa parada é nossa” está a todo vapor. Precisamos mostrar ao Crivella que o amor é maior que o ódio. Que sua política de ataque aos nossos direitos vai fracassar, pois nós somos muitos e não estamos sozinhos. Clique aqui e apoie o abaixo assinado!

Foto: Fernanda Piccolo.

Nós US

SNAFU, or Situation Abnormal

Sacha
10 de maio de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

It’s important to remember that the political climate in which we live today is not normal. Not because of the extreme rhetoric, no. It’s because of the constant breach of ethics and decorum coming from the White House.

The director of the FBI has just been fired by the president. The president names the directors of many a position, so all the more normal in a transitional government, right? Much to the contrary, as it were. The director of the FBI is named to a fixed 10 year term in the position, regardless of who becomes president. The president can, of course, revoke the position at will, however this is an action generally reserved for situations of dire necessity. In this case, just by chance, James Comey was carrying out an investigation on the connections between Trump and Russia, possible interference in the election, and more.

The most abnormal thing about this administration up to now is its relationship with the press

The firing of James Comey, though, is not the first anomaly in the Cabinet. Candidates who are openly opposed to the intended functions of their departments are being systematically nominated to lead them. The attorney-general was declared too racist to be a federal judge in 1986. The secretary of education wants to dismantle the public education system in favor of radical privatization. Nearly every position could serve as an example.

Among them, the most abnormal thing about this administration up to now is its relationship with the press. Beyond questioning the legitimacy of the traditional press for convenience, it doesn’t hide the fact that it lies and distorts reality. When it came out that Comey had been fired, the White House decided to speak to the…Russian press. It blocked all American media from the press conference, accepting only Russian sources. To say that this is extraordinary is not saying much.

We still don’t know where the investigation into Trump and his campaign will go. In the meanwhile, the actions by Trump demonstrate a worrying abnormality.

Image: abcdz2000
Nós US

Situação anormal

Sacha
10 de maio de 2017
(you can read this article in English here)

Vale relembrar que o cenário político no qual vivemos hoje não tem um caráter normal. Não é pela retórica extrema, não. É pela brecha interminável de ética e decoro vindo da Casa Branca.

O diretor do FBI acaba de ser demitido do seu cargo pelo presidente. O presidente nomeia os diretores de muitos cargos, então tudo normal por um governo em transição, certo? Pois, muito ao contrário. O diretor do FBI é nomeado para cumprir um mandato fixo de 10 anos, seja quem for o presidente. Cabe, sim, ao presidente revogar o cargo à sua disposição, porém, esta ação é contemplada apenas em situações de grave necessidade. Neste caso, por muito acaso, James Comey estava a realizar uma investigação sobre conexões entre Trump e a Rússia, possível interferência na eleição e mais.

O mais anormal desta administração até agora é a sua relação com a imprensa

A demissão de James Comey, contudo, não é a primeira anomalia nos cargos do gabinete. Candidatos abertamente em contra das funções dos seus departamentos são sistematicamente nomeados para os liderar. O procurador-geral foi declarado demasiado racista para servir como juiz federal em 1986. A secretária de educação quer desmantelar o sistema de educação pública a favor privatização radical. Quase todos os postos serviam de exemplo.

Entre todos, o mais anormal desta administração até agora é a sua relação com a imprensa. Além de questionar a legitimidade da imprensa tradicional por conveniência, não esconde que mente e distorce a realidade. Quando saiu que Comey tinha sido despedido, a Casa Branca decidiu falar com a imprensa…russa. Barrou toda a imprensa americana da conferência, aceitando apenas fontes russas. Dizer que o acontecido é extraordinário é dizer pouco.

Ainda não sabemos aonde vai a investigação de Trump e a sua campanha eleitoral. As ações de Trump presidente, no entanto, mostram uma anormalidade preocupante.

Imagem: abcdz2000
Pedro Henrique Gomes

Five Came Back

Pedro Henrique Gomes
8 de maio de 2017

Enquanto acompanhamos, sem norte, o lamaçal acachapante da nossa política (não só a nossa), de minha parte resta algum refúgio mental nos filmes. Não que isso implique facilidades ou conforto. Ao nos movermos por entre imagens, também nos perdemos nelas – talvez em consequência delas, por elas.

Passei a última semana assistindo os documentários que o filme Five Came Back (produzido pela Netflix e narrado por Meryl Streep) menciona, realizados por grandes cineastas americanos como propaganda governamental da guerra: John Ford, Frank Capra, George Stevens, William Wyler e John Huston. O documentário, dirigido por Laurent Bouzereau, em três episódios, pune o espectador com o modo Netflix de narrar o mundo, rigorosamente quadrado e superficial (as falas dos contemporâneos Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, por exemplo, são meramente publicitárias). Mas o interessante é, após ver o filme de Bouzereau, encarar a maratona dos trabalhos que ele cita (que a Netflix incluiu em seu catálogo).

Já havia visto os filmes de Capra e Wyler, mas não os outros. Artilharia pesada, os filmes se inserem no aparato formal da guerra, sua estrutura e sua técnica. No conjunto, representam e oferecem ampla visão sobre a formação dos discursos, das narrativas e, claro, do olhar de cada cineasta sobre os objetos que filmam: a morte, a destruição, a História em luta. É sabido que, em regimes fechados ou abertos, o Estado geralmente fez uso do cinema como propaganda. Até mesmo “propaganda” é um termo que pode soar vago a luz de leituras mais sofisticadas sobre os efeitos políticos de um filme e sua relação com os espectadores. Mas deixamos esse debate para outro momento.

***

Se a guerra merece ser filmada, se há coisas que são representáveis ou irrepresentáveis, a estas preocupações os filmes não se apegaram. A propaganda anti-nazi passava por filmar as atrocidades cometidas pelos nazistas (dezenas de campos de concentração, isto é, campos de extermínio); ou pelos italianos e japoneses. O filme de George Stevens, Nazi Concentration Camps, por exemplo, é muito duro: vai aos campos filmar os corpos soterrados, os resgates, as missões do exército americano. Há uma preocupação, documental por excelência (estamos nos anos 1940, momento enérgico para a tradição realista no cinema), em captar a realidade tal como ela se apresenta. Para entender Hollywood, temos que ir ao encontro de suas imagens mais contraditórias.

Não sei se resumo bem, mas a hipótese de Five Came Back, construída a partir dos filmes que menciona, é que ao filmar os dispositivos de destruição de vidas que desembocaram nas duas Grandes Guerras, o que os cineastas estavam fazendo era participar simbólica e operacionalmente dos conflitos, ajudando a construir o seu imaginário, a formular as suas narrativas centrais.

Samir Oliveira

Acolher e prevenir: precisamos falar sobre suicídio entre jovens LGBTs

Samir Oliveira
4 de maio de 2017
Foto: Francesca Woodman

Falar sobre suicídio é algo extremamente delicado. Não sou um profissional capacitado para lidar com este tipo de situação. Não quero escrever cartilhas ou dar lições. Quero falar sobre experiência e acolhimento. Em tempos de correntes perversas nas redes sociais e seriados que dialogam – ainda que de forma problemática – com o tema, acredito ser oportuno jogar luzes sobre um dos grupos que mais sofrem com isso.

Jovens homossexuais fazem parte de grupo de risco

Não precisamos de pesquisas para saber que os jovens LGBTs estão muito mais suscetíveis a cometer suicídio do que jovens heterossexuais e cisgêneros. Mas não custa nada lembrar. Um estudo de 1998[1], com mais de 4 mil estudantes do estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, verificou que a taxa de tentativas de suicídio era de 35,3% em jovens homossexuais e 9,9% em alunos heterossexuais. Outra pesquisa[2], da mesma época, ouviu jovens de uma escola pública de Minnesota, constatando que 28,1% dos estudantes gays e bissexuais já tentaram tirar a própria vida, contra 4,2% de seus colegas heterossexuais.

Um estudo mais recente, da Universidade de Columbia, entrevistou 32 mil alunos de escolas públicas nos Estados Unidos, entre 13 e 17 anos. Os resultados foram alarmantes: os jovens LGBTs têm uma tendência ao suicídio cinco vezes maior que os heterossexuais.

“O ambiente escolar, para mim, sempre foi uma máquina de moer carne de viado (sic)”

Números que demonstram uma realidade cruel. Já fui um jovem homossexual com muitos conflitos e passei por poucas e boas. Na verdade, por muitas e nem tão boas assim. O ambiente escolar, para mim, sempre foi uma máquina de moer carne de viado. Um lugar onde as crianças e os adolescentes reproduzem todos os preconceitos que aprendem em suas famílias, muitas vezes através de “piadas” e “brincadeiras”.

Como se isso não fosse o bastante, ainda há um completo despreparo das direções e orientações pedagógicas para lidar com a diversidade. Para estender a mão a quem precisa de acolhimento. Pode ser que muita coisa tenha mudado desde os meus tempos de colégio. Pode ser, também, que as condições concretas da minha realidade tenham sido mais duras. Afinal de contas, a experiência de um aluno de escola pública no interior do Rio Grande do Sul, como foi o meu caso, não é a mesma de um estudante de uma Capital. Mas o preconceito não conhece fronteiras. Pode ser mais escrachado em uma região e mais velado em outra, mas está em todos os lugares.

A escola como local de acolhimento

As escolas deveriam ser um refúgio para os jovens LGBTs, que na maioria dos casos enfrentam uma opressão diária em suas próprias famílias. O meu único refúgio era a biblioteca, longe do convívio com os outros alunos. Por “convívio”, entenda-se: bullying, perseguição e agressões. E não estou nem falando da adolescência. Quando uma criança na terceira série implora à sua mãe para trocar de colégio por bullying homofóbico, sabemos que o sistema está falido.

Felizmente, na juventude, tive contato virtual com ONGs e entidades que lutam por nossos direitos. Entendi que não havia nada de errado comigo e que o problema era o preconceito. Mas muitos não têm esta sorte ou esta possibilidade de acesso a informações e de esclarecimento. A escola, especialmente a escola pública e pretensamente laica, deveria cumprir este papel. O papel de informar, educar para a diversidade, combater condutas opressivas por um viés pedagógico, acolher vítimas de violências praticadas dentro de seus muros e iniciar um processo positivo de mudança na conduta de agressores.

Como disse no início, não sou especialista e não tenho a receita para que isso aconteça. Mas tenho algumas pistas. Uma mudança positiva certamente passa pela inclusão de disciplinas relacionadas à diversidade sexual e de gênero nas licenciaturas que formam nossos professores e pedagogos. E na inclusão deste tema nos próprios currículos escolares – na contramão de tudo que vimos nos últimos anos no Brasil, quando um conservadorismo assassino inventou um inimigo imaginário chamado “ideologia de gênero” e retirou este debate dos planos municipais de educação do país inteiro.

Centro de Valorização da Vida – a ajuda está a um telefonema de distância

Se você está lendo este texto e precisa de ajuda, procure o Centro de Valorização da Vida mais próximo. O CVV está espalhado em diversas cidades brasileiras e atende 24 horas de forma gratuita também pelo telefone. Em Porto Alegre, o número é 184.

Site do CVV: http://www.cvv.org.br/
Busque a unidade mais próxima de você: http://www.cvv.org.br/postos-de-atendimento.php

[1]GAROFALO, R. et al. The Association between health risk behaviors and sexual orientation among a school-based sample of adolescents. Pediatrics, Elk Grove Village, Illinois, US, v. 101, p. 895-902, 1998.

[2]REMAFEDI, G. et al. The relationship between suicide risk and sexual orientation: results of a population-based study. American Journal of Public Health, Birmingham, AL, v. 88, n. 1, p. 57-60, 1998.

Foto: Francesca Woodman