Samir Oliveira

A força da Jesus travesti na pele de Renata Carvalho

Samir Oliveira
28 de setembro de 2017
Foto: Ligia Jardim/Divulgação

E se Jesus Cristo fosse uma travesti vivendo entre nós até os dias de hoje? Essa é a premissa do espetáculo “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, dirigido por Natalia Mallo e interpretado por Renata Carvalho. Tive o privilégio de assistir à peça semana passada no festival Porto Alegre em Cena. Saí impressionado.

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É impossível não se comover com a potência revolucionária de seu texto e com a atuação primorosa de Renata. Ela sustenta o monólogo durante uma hora com força titânica

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O roteiro é recheado de parábolas bíblicas, como não poderia deixar de ser. Em muitos momentos, as referências são trazidas à luz da atualidade para refletir sobre problemas sociais e opressões a populações vulneráveis. Uma das cenas que mais me tocou foi quando Jesus relembra a tentativa de apedrejamento de uma mulher em praça pública. Num tom celestial, sua intervenção conclamou os presentes: “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. E então a multidão se dissipou.

A Jesus travesti interpretada por Renata Carvalho domina na ponta da língua as gírias do mundo LGBT. Frequenta baile funk e celebra de forma quase divina o prazer em todas as suas formas – inclusive o sexual.

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O espetáculo é um grito de luta por direitos a mulheres, negros e negras e à população LGBT – especialmente à população trans. A cena final da peça é praticamente um manifesto

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Não sou um crítico de teatro. Este texto traz apenas minhas impressões leigas sobre o espetáculo. Uma dramatização que provocou a fúria de setores conservadores que consideram uma ofensa a possibilidade de que Jesus Cristo seja retratado como uma travesti e interpretado por uma atriz travesti.

Estes setores sentiram-se fortalecidos com a decisão vergonhosa do banco Santander de encerrar a exposição Queermuseu em Porto Alegre. Por isso, ingressaram na Justiça para censurar a peça em Jundiaí e levaram. Encontraram um juiz conservador o bastante para atender ao pedido, numa sentença que é uma verdadeira afronta ao Estado laico. Em Porto Alegre, duas ações foram protocoladas na tentativa de interditar a peça. Felizmente aqui a Justiça não vestiu a vergonhosa farda da censura. O magistrado declarou textualmente que impedir a realização do espetáculo é censurar a liberdade de pensamento e o avanço da humanidade.

Tive a oportunidade de conversar com a Renata Carvalho e a Natalia Mallo antes da peça, no teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana. Elas gentilmente receberam ativistas do movimento LGBT da cidade e se mostraram muito interessadas na construção de necessárias pontes entre a expressão artística e a luta por direitos.

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O tiro dos reacionários saiu pela culatra

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A censura à peça em Jundiaí deu visibilidade ao espetáculo e gerou uma onda de solidariedade em torno de atriz Renata Carvalho. Isso ficou demonstrado em Porto Alegre através do encontro da atriz com os movimentos LGBTs e do expressivo público que lotou o teatro. A imprensa compareceu em peso para entrevistar a atriz e a diretora e realizar a cobertura da estreia da peça.

Em meio a tantos retrocessos, a plena exibição de “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu” em Porto Alegre e o sucesso atingido pelo espetáculo soaram como um ritual de resistência e liberdade. Como disse Simone de Beauvoir: não existem tempos mortos. E nós estamos bem vivos!

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

Nós US

Porto Rico, condenado por não ser estado

Sacha
27 de setembro de 2017
(you can read this article in English here)

O furacão Maria devastou a ilha de Porto Rico por completo. Não há, nos dias depois, sequer eletricidade na ilha, nem infraestrutura restante para tal. Não há previsão de que a luz seja restabelecida durante meses, talvez até meio ano. E o governo federal não move nem um dedo para ajudar.

A temporada de ciclones tropicais no Oceano Atlântico tem sido mais leve nos últimos anos. Desde os danos causados pelo furacão Sandy em 2012, não houve nenhum de tamanha importância. Este ano, porém, dois furacões devastadores já tinham chegado às costas norte-americanas, provocando grandes danos nos estados do Texas e da Florida. O número de afetados já tinha atingido os milhões, seja por falta temporária de luz, seja por danos a bens materiais.

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E então veio o furacão Maria

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Porto Rico é uma ilha de cultura hispânica, pertencente aos Estados Unidos em consequência de um conflito com um império espanhol decadente, que perdia as suas possessões caribenhas de vez no fim do século 19. Basta dizer que a ilha, sem status de estado, é um vestígio de colonialismo—os seus cidadãos são cidadãos americanos com todos os deveres e privilégios envolvidos, mas sem representação na legislatura federal ou voto no colégio eleitoral que decide o presidente. A história da ilha, possessão espanhola desde o primeiro contato com a tribo dos taínos, faz com que a cultura seja marcadamente diferente da do continente.

A resposta aos furacões Harvey e Irma foi rápida. Os estados afetados receberam garantias generosas de socorro e reconstrução de infraestruturas essenciais. Esses territórios, por acaso, são áreas fielmente republicanas ao nível legislativo e estadual. Com a maioria no Congresso e simpatia não desmerecida da nação, o aval do socorro foi fácil.

Em Porto Rico, no entanto, toda a ilha está sem eletricidade e há uma escassez de comida, medicamentos e materiais de construção. A agricultura foi dizimada e não será capaz de produzir nem uma parte minúscula da comida que as pessoas necessitam—este ano, não há colheita. Barragens, equipamentos de telecomunicações e mais da chamada infraestrutura vital ou estão em risco de falhar, ou destruídos. A destruição na ilha é, por fins de habitação humana, total. A luz vai demorar meses a restabelecer-se. Não há previsão de quanto tempo será preciso que hospitais estejam normalizados, que comida seja garantida e que os imóveis danificados sejam reconstruídos.

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Basta dizer que a ilha, sem status de estado, é um vestígio de colonialismo

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Se a reação foi produtiva e construtiva depois dos furacões anteriores, como será que foi depois de Maria? Sem surpreender ninguém, a imprensa tem vindo com cobertura mínima das consequências para Porto Rico, preferindo controvérsias entre a liga profissional de futebol americano e o presidente. O próprio presidente demorou para se proclamar publicamente. O que teve a dizer primeiramente? Um sermão no Twitter sobre o grande endividamento da ilha. Desde então, as garantias de socorro têm sido escassas. A lei marítima que impede a atracação de navios estrangeiros nos portos americanos, suspendida por Harvey e Irma, não será suspendida para Porto Rico.

Que a discrepância entre o tratamento dos estados do Texas e da Florida e o de Porto Rico não parece casualidade, pois não parece. A administração e o partido republicano já se têm mostrado menos preocupados com os problemas das minorias raciais, senão abertamente racistas. Que Porto Rico não é um estado complica a já tépida reação que recebe frente à tragédia, também. Esquecemo-nos de Porto Rico porque não se conforme ao sistema que o domina. O colonialismo segue vivo, eis o exemplo mais claro.

Imagem: Angel Janer
Nós US

Puerto Rico, Condemned to Its Fate for Not Being a State

Sacha
27 de setembro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

Hurricane Maria devastated the island of Puerto Rico in its entirety. In the days afterward, there is no electricity anywhere on the island, nor a grid to reestablish. There’s no estimate for getting the electricity flowing again for months, up to half a year. And the federal government isn’t moving a finger to help out.

The Atlantic hurricane season has been milder in recent years. Since the damage done by Hurricane Sandy in 2012, there hasn’t been another of similar dimensions. This year, however, already saw two devastating hurricanes reach American coasts before Maria, provoking great damages to the states of Texas and Florida. The number of those affected had already reached the millions, whether for power outages or damage to material goods.

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Then came Maria

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Puerto Rico is a culturally hispanic island, a possession of the United States as a consequence of a conflict with a declining Spanish Empire, which would lose all of its Caribbean possessions toward the end of the 19th century. It suffices to say that the island, not being a state, is a vestige of colonialism—its citizens are American citizens with all the privileges and duties that entails, but without representation in the federal legislature or a vote in the Electoral College that decides the president. The history of the island, a Spanish possession from the first contact with the Taíno tribe, makes it such that the island’s culture is markedly different from that of the mainland.

The response to hurricanes Harvey and Irma was swift. The affected states, Texas and Florida, received generous guarantees of help and reconstruction of essential infrastructure. Those states, as it were, are reliably Republican at the legislative and state levels. With a majority in Congress and not unwarranted national sympathy, a green light on help was simple.

In Puerto Rico, meanwhile, the entirety of the island is without power and there is a growing shortage of food, medications, and construction materials. Agriculture on the island was decimated, guaranteeing that this year, it will be unable to produce even a minuscule fraction of the food it needs. Dams, telecommunications equipment, and much other vital infrastructure are either in risk of failure or destroyed. The destruction on the island is, for means of human inhabitation, all-encompassing. Electricity will take months to come back online. There’s no estimate for how long it will be for hospitals to normalize, that food will be guaranteed, and that damaged buildings will be rebuilt.

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It suffices to say that the island, not being a state, is a vestige of colonialism

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If the reaction was productive and constructive after the previous hurricanes, how might it be after Maria? To the surprise of no one, the press has produce minimal coverage of the consequences for Puerto Rico, preferring instead a spat between the NFL and the president. The president himself took his time to make a public statement. What did he have to say? A Twitter lecture on the vast indebtedness of the island. Since then, guarantees of help have been scarce and the island is lacking. The marine law that impedes foreign ships to dock in American ports, suspended for Harvey and Irma, will not be for Puerto Rico.

That the discrepancy between the treatment of Texas and Florida and that of Puerto Rico doesn’t appear to be mere coincidence is evident. The administration and the Republican party have shown themselves to be less worried about the plight of racial minorities, if not outright, openly racist. That Puerto Rico isn’t a state complicates the already tepid reaction it has gotten in wake of tragedy is also evident. We forget about Puerto Rico because it doesn’t conform to the system that dominates it. Colonialism is alive and well, and of it here we have our best example.

Image: Angel Janer
ECOO

Horário de verão é assunto sério

Geórgia Santos
24 de setembro de 2017

Todo mundo tem opinião sobre o horário de verão e não há unanimidade. Enquanto eu, particularmente, adoro o fato de que o dia fica maior e dá pra tomar um chopinho na calçadas às 21h, há quem considere uma desvantagem. E agora, com a intenção de acabar com o horário de verão, o governo federal reacende esse debate.

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A justificativa é que a adoção do horário de verão para economia de energia, não se justifica mais

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O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Romeu Rufino, disse que “a avaliação é que, sob a perspectiva do setor elétrico, o horário de verão não se justifica”. Isso porque, segundo dados do governo, a economia gerada com a aplicação do horário de verão diminuiu nos últimos quatro anos. Entre 2013 e 2016, caiu de R$405 milhões para R$159,9 milhões.

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Confesso que não compreendo essa justificativa. Mesmo que a economia tenha diminuído, ela ainda existe, certo?

Por que alguém não ia querer economizar R$ 159 milhões?

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No Brasil, o horário de verão é aplicado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do Distrito Federal (Brasília). De acordo com os dados divulgados pelo Ministério de Minas e Energia nos últimos quatro anos, o Brasil economizou cerca de R$1,4 bilhão. A adoção do horário de verão gerou uma economia de R$853 milhões para os consumidores. Tanto que especialistas recomendam a manutenção da extensão do dia.

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Mas a discussão está centrada em uma abordagem equivocada

Testemunhei jornalistas bradando em suas TLs sobre achar o horário de verão ótimo ou desagradável e, lamento, mas considero essa abordagem extremamente leviana. Até agora, as justificativas que apresentei se sustentam na questão financeira. Obviamente é um fator importante, mas não podemos nos esquecer que economia na geração de energia é, antes de mais nada, uma redução no impacto ambiental. Em tempos de negação da ciência e do aquecimento global, é preciso levar em conta este aspecto do horário do verão, que é uma medida adotada pela maioria dos países ocidentais, com resultados efetivos e eficazes.

Por outro lado, há cientistas que acreditam que o horário de verão contribui para o aquecimento global, e não o contrário, uma vez que o ar-condicionado permaneceria ligado por mais tempo. O problema com essa afirmação é que ela é derrubada pela redução do consumo de energia, afinal, ar-condicionado depende da mesma eletricidade que a lâmpada.

Pode não parecer, mas horário de verão é assunto sério e precisa tratado como tal, com seus prós e contras devidamente pesados. Por isso formulamos uma lista de benefícios e malefícios (formulada a partir de uma pesquisa com múltiplas opiniões), para que você possa tomar uma decisão informada caso o governo resolva consultar a população. Não pensa no choppinho no final da tarde, não pensa no dia que não termina nunca. Pensa no planeta.

BENEFÍCIOS

  • Economia de energia
  • Redução de impacto ambiental (com a economia de energia elétrica)
  • Redução no número de acidentes nos horários de pico
  • Redução no número de assaltos

MALEFÍCIOS

 

Foto: Pixabay

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Coração de Cachorro

Pedro Henrique Gomes
22 de setembro de 2017

Coração de Cachorro, filme da cineasta americana Laurie Anderson, começa pelo meio: é um ensaio, um floreio pelo pensamento da narradora. Lollabelle, sua cachorra, é a personagem central – ela morreu e o filme é dado em sua memória. A voz da cineasta, que acompanhamos atentos ao longo de todo o filme, parte desse indefinível momento que é a tentativa de descrição de um sonho.

A sua trama, alegórica e filosófica, possui também caráter evidente e autorreferido: é o que nos faz perseguir a leitura do texto, fixar a atenção nas imagens, buscar conexões, entender as sugestões que ela deixa.

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Seus personagens são seres vivos e ficções políticas, além de convenções sociais, objetos dessas convenções, ideias, conceitos, imaginação, sonho e fantasia

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Para ajustar a narratividade do filme, para que sua expressão “vingasse” como pensamento sobre as imagens e sobre o texto, Anderson adotou uma postura de aproximação e distanciamento simultâneos. Isso não neutraliza o impacto emocional do filme (se quiserem, o seu caráter poético) dado que seu texto cria, inventa, conta, recita, canta, sofre e alucina pois é um texto vivo que choca o espectador contra a sua angústia, num movimento de enfretamentamento literal. A cineasta reconhece a tensão entre, por um lado, a proximidade que o relato tem dela mesma e, por outro, o seu aspecto de sugestão, de ligação intersubjetiva.

Penso que o filme está inteligentemente possuído por algumas questões que vão além da narrativa pessoal diante de uma perda (“every love story is a ghost story”). Se há a pretensão de poetizar sobre dor, sofrimento e amor, há também uma ideia de pensamento estético que os envolve. Os elementos que o filme nos entrega pareciam me perguntar o tempo inteiro qual a relação possível que o espectador pode estabelecer com imagens assim. Quais os tipos de questões que o relato, ensaístico que é o deste Coração de Cachorro, pode colocar para qualquer pessoa que não seja a que as vivenciou (a narradora) e, no limite, produzir emoções. Só “afeto” e “discurso poético” não seriam suficientes. Não parecem ser estes, em si, os elementos de encantamento do filme. Sua força está em sua imaginação. O 11 de setembro, Kierkegaard, Wittgenstein, David Foster Wallace, o vigilantismo, eis suas referências.

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Em uma sociedade que controla (de modo notável, aliás, nos Estados Unidos), que vigia e que direciona culturalmente o pensamento e o imaginário ordenado, como reagir?

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Em tese, o 11 de setembro deu impulso a esse movimento vigilante (o intensificou, numa segunda onda de controle e paranoia; a primeira foi a detonada pela câmera de Abraham Zapruder quando esta filmou o assassinato de Kennedy e desencadeou a ficção paranoica que irrompeu no cinema americano a partir de então) numa sociedade que oferece, paradoxal que seja, liberdade e segurança como nenhum outro lugar no mundo. Essas imagens povoam o filme. Como o cérebro, que procede por livre associação, assim é a liberdade de Coração de Cachorro ao construir as suas ilações.

Heart of a dog, de Laurie Anderson, EUA, 2015. Com Laurie Anderson e Lollabelle.

Samir Oliveira

Eu poderia ter sido uma vítima da “cura gay”

Samir Oliveira
21 de setembro de 2017

O ano era 2003. Eu ainda não conhecia o termo “cura gay”. Acho que ninguém conhecia. Não era um assunto tratado pela mídia ou com trânsito na esfera política

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Eu tinha apenas 15 anos quando fui arrastado à força para fora do armário. Não pude optar por permanecer dentro dele até me sentir fortalecido o bastante para sair. De cara, fui levado a um médico. Não a um psiquiatra, mas a um neurologista. Sim, gente: um neurologista. É evidente que o plano traçado para mim era o de alguma espécie de “cura”. Lembro até hoje das palavras daquele médico, com um livro da OMS em mãos: “Desde os anos 1990 a homossexualidade não é considerada uma doença”.

Nunca mais vi esse médico. Não lembro seu nome. Mas, nos últimos dias, tenho lembrado constantemente de suas palavras e do que elas significaram para mim naquele momento. Minha vontade é de ligar para ele e agradecer: “Você não sabe, mas me salvou”.

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Imaginem se eu caísse nas mãos de um charlatão? Ou se existisse em 2003 uma liminar judicial abrindo brechas para supostas terapias de “reversão sexual”?

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Tenho pensado muito nisso na última semana. Não apenas no que aconteceu ou poderia ter acontecido comigo. Mas no que pode estar acontecendo neste momento com um menino gay ou uma menina lésbica de 15 anos. Será que eles terão a sorte de ouvir de um profissional da saúde que “homossexualidade não é doença”? Ou será que irão ouvir que a Justiça agora autoriza a “cura gay”?

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O Samir de 2003 pensaria que estamos vivendo em uma distopia

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A aclamada série “The Handmaid’s Tale” nos alerta que os sinais do retrocesso sempre estiveram presentes, mas que nunca demos importância. Fico me perguntando se em 2003 os sinais de que algum tipo de “cura gay” seria possível em 2017 pairavam no ar. Realmente não sei, estava preocupado demais em sobreviver ao inferno naquela época para notar.

Hoje eu sei. Sei que a ação que resultou no precedente para a “cura gay” foi aberta por uma psicóloga lotada no gabinete de um deputado federal evangélico do DEM. Rozangela Alves Justino trabalha com Sóstenes Cavalcante, que além de parlamentar é pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, liderada por Silas Malafaia – ele mesmo.

O deputado Sóstenes, chefe da psicóloga-missionária que reivindica a “cura gay” na Justiça, diz em seu próprio site pessoal falar diretamente com Deus: “Comigo Deus tem tratos específicos de tempos em tempos para cumprir determinadas missões”.

Hoje eu sei que a seita de Silas Malafaia investe na abertura de centros de reabilitação para dependentes químicos. O que o impediria de inaugurar centros de reabilitação para homossexuais? Se tais tratamentos passarem a ser considerados legais, nada.

O perfil @nadanovonofront no Twitter faz um alerta interessante. Estes centros de reabilitação que pipocam em todo o país possuem convênios com os governos. Ou seja, recebem recursos públicos para tratar de dependentes químicos – já que não há vagas para todos na rede hospitalar ou nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS).

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Imaginem o mercado lucrativo que a “cura gay” pode representar para os rentistas da fé. Nada mais pragmático para setores que aprenderam a ganhar dinheiro a partir do sofrimento

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Um relatório do Conselho Federal de Psicologia aponta as condições degradantes em que os pacientes são tratados nestes centros. O órgão avaliou 68 comunidades terapêuticas em 25 estados e constatou violações graves: “Interceptação e violação de correspondência, violência física, castigos, tortura, exposição a situações de humilhação, imposição de credo, exigência prévia de exames clínicos como teste de HIV, intimidações, desrespeito à orientação sexual, revista vexatória de familiares, violação de privacidade, entre outras, são ocorrências encontradas em todos os lugares visitados”, disse Cláudio Garcia Capitão, que representava o CFP no Conselho Nacional de Saúde em 2015, quando apresentou o estudo.

Aqueles que desejam a “cura gay” já perderam diversas vezes no Congresso. Não conseguiram fazer avançar seus projetos, mesmo em um Congresso absolutamente conservador como o nosso – o que revela o nível de regressão medieval da medida. Por isso apelam à Justiça, onde em algum momento acabariam encontrando um juiz conservador que lhes desse razão.

Eu acredito que podemos mudar essa história. A disputa segue na Justiça e no Congresso, mas a saída não virá das instituições. Virá da nossa organização coletiva e da força da nossa luta. Só assim poderemos deixar de viver neste presente distópico.

ECOO

Eu testei – Anticaspa natural

Geórgia Santos
17 de setembro de 2017

Sim, eu tenho caspa. Essa coisinha nojentinha e desgraçada que insiste em armar acampamento no nosso couro cabeludo é uma forma leve de dermatite seborreica. Ao contrário do que muitos pensam, esse problema não está associado a falta de higiene, não é coisa de quem não lava o cabelo – aliás, lavar demais pode agravar o quadro. A intensidade da caspa aumenta de acordo com alguns fatores como mudanças bruscas de temperatura, oleosidade do couro cabeludo, temperatura da água (quanto mais quente, pior), estresse e alterações hormonais.

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Mas o maior problema é que a caspa não tem cura

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É isso mesmo. É tipo celulite, existe só pra atrapalhar. Os xampus anticaspa funcionam muito bem quando o assunto é reduzir a quantidade e melhorar o aspecto do couro cabeludo. Nos casos mais graves, em que há prurido (coceira), esses produtos também auxiliam. O problema é que são mais eficazes os que contem metais pesados, como zinco, especialmente.

Por isso, seguindo o conselho da Mona Soares, da Ewé Alquimias. Em um post do Instagram, ela contou que dilui o xampu no mel orgânico. O ingrediente, segundo ela, é ótimo pra quem tem caspa porque é antifúngico, regenerador celular e antioxidante. Se você for vegan, o mel pode ser substituído por melado de cana.

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Eu testei – e aprovei

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Resolvi seguir o conselho e testar o mel como um anticaspa natural. A receita é bastante simples: partes iguais de mel orgânico e do xampu que se costuma usar diariamente. O resultado é incrível. Em uma semana já notei que meu couro cabeludo fica limpo por mais tempo e meu cabelo mais macio. Com o passar dos dias, já foi possível notar uma redução na caspa – já não noto caírem no ombro quando uso preto.

 

Pedro Henrique Gomes

Cinema novo

Pedro Henrique Gomes
15 de setembro de 2017

Não há nenhuma dúvida de que vivemos um golpe. O golpe, no entanto, ao que me parece, não foi contra um partido político. Nós fomos os golpeados.

Semana passada a Cinemateca Capitólio exibiu uma mostra que desenhou, para quem ainda não entendeu, que a trágica evolução política brasileira desde o início do século passado tem poucas novidades. Seu roteiro, obscenamente previsível, está talhado na memória visual de filmes como os do Cinema Novo. A mostra Cinema Novo – Brasil em Transe trouxe alguns dos filmes que fizeram parte de uma geração de cineastas e obras que, na atualidade de seus temperamentos políticos, (ainda) falam do nosso tempo – visto que o autoritarismo e o baixo teor democrático que experimentamos até agora nos corroi por dentro e por fora. O enredo se repete primeiro como tragédia.

A mostra exibiu Os Herdeiros, de Cacá Diegues, Terra em Transe, de Glauber Rocha, O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, Quem é Beta?, de Nelson Pereira dos Santos, Desesperato, de Sergio Bernardes Filho, O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl, e Cinema Novo, de Eryk Rocha.

Teve de tudo. O poder político enredado ao econômico, a concentração da riqueza nacional, financeira ou não, as arapucas políticas, as sabotagens, os crimes, os golpes de Estado, a miséria dos populares, o populismo, a violência, as ditaduras, a tropicália, a Bossa Nova, as utopias, as desilusões, em suma, o sangue, o suor e as lágrimas. Para entender o cinema brasileiro e o Brasil precisamos passar por estes filmes, no que eles têm de envelhecido e de atual, na sistematização e no rigor formal das ideias de Glauber (como bom eisensteiniano) e na alegoria de Nelson Pereira.

Passadas décadas, ainda não aprendemos.

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Em cartaz, também na Cinemateca, está Coração de Cachorro da Laurie Anderson – que vale todas as nossas atenções. Publico hoje ainda as minhas impressões sobre o filme.

Samir Oliveira

Não seremos a província do atraso

Samir Oliveira
14 de setembro de 2017
Foto: Samir Oliveira

O que a interdição de uma exposição após críticas distorcidas e ideologicamente dirigidas na internet revela sobre nosso estado? A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi encerrada pelo Santander Cultural por conta de ação orientada pelo Movimento Brasil Livre (MBL) nas redes sociais.

A exposição colhe referências de diversidade e representações da comunidade LGBT na arte brasileira. O exército de ignorantes motivados do MBL espalhou a mentira de que se trata de apologia à pedofilia e à zoofilia.

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Associar homossexuais à bestialidade e pedofilia é uma antiga tática de difamação promovida por grupos de ódio

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Em entrevista à Rádio Guaíba, o próprio promotor da Infância e Juventude de Porto Alegre, Júlio Almeida, disse que não há nenhuma referência à pedofilia na exposição Queermuseu. “Pedofilia, por definição legal, é a utilização de criança e adolescente em cena de sexo explícito, reprodução de sexo explícito ou simulação de sexo explícito, ou ainda a exposição de genitália de criança e adolescente. Isso não existe na exposição. Pedofilia não acontece”, afirmou, após visitar o local.

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Durante 26 dias a sociedade gaúcha não viu nenhum problema deste tipo com a exposição Queermuseu. Mais de 20 mil pessoas circularam pelo local

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Um dos quadros alvo de repúdio é o “Cena de interior II”. Trata-se de um trabalho de Adriana Varejão que denuncia a violência e as atrocidades do período colonial brasileiro. A obra faz parte do conjunto “História às margens” e já esteve exposta durante meses no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2012 – sem gerar absolutamente nenhum alarde. Adriana Varejão é uma artista mundialmente reconhecida. Em 2011, uma de suas telas, “Parede com incisões à Fontana”, foi arrematada por R$ 3 milhões num leilão em Londres.

Mas bastou chegar no Rio Grande do Sul e cair nas mãos dos brutamontes do MBL para que seu trabalho passasse a ser divulgado como “apologia à zoofilia”. Bastou a ação midiática orquestrada do MBL para que seus seguidores saíssem do breu intelectual em que se escondem, erguendo tochas e foices exigindo o linchamento de artistas.

Uma prática semelhante à adotada por regimes de exceção. Em 2015, uma exposição na Bélgica exibiu ao público obras que o nazismo baniu da Alemanha por considerar “arte degenerada”. Nomes como Picasso e Marc Chagall estavam na lista.

A cena de membros do MBL intimidando frequentadores da exposição remete à imagens da época da ditadura, quando o Comando de Caça aos Comunistas atacou a peça Roda Viva. Os entusiastas da interdição artística em nome da “moral cristã” causam inveja ao CCC.

Aliás, a própria ideia de que uma expressão artística com a qual não se concorde deva ser banida agrada muito aos criminosos do autoproclamado Estado Islâmico, que destroem obras históricas em nome de uma cruzada moral.

O que fará em seguida o MBL? Irá propor a interdição do Museu do Prado, em Madri, por exibir O Jardim das Delícias Terrenas, de H. Bosch? Boicotará todas as representações do mito grego de Leda o Cisne, reproduzidas por pintores como Leonardo Da Vinci e Paolo Veronese – que mostram o acasalamento da rainha de Esparta com Zeus, sob a forma de um animal?

O MBL encarna o espírito atrasado dos liberais na economia e medievais nos costumes. É absolutamente lamentável que o Santander Cultural tenha cedido a este tipo de pressão. Nenhum centro cultural sério em qualquer lugar do mundo teria interditado uma exposição por críticas de segmentos reacionários. Mas, como bem lembrou o vereador Roberto Robaina, não se poderia esperar muito, afinal os bancos também cederam ao nazismo.

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REAÇÃO

O escândalo que significou o encerramento da exposição virou notícia nacional e internacional. A reação da classe artística e da população LGBT foi rápida e aguerrida. Um ato organizado às pressas conseguiu reunir quase 2 mil pessoas em frente ao Santander Cultural na tarde de terça-feira (12/09). Toda a vanguarda do movimento LGBT gaúcho estava presente. As centrais sindicais também divulgaram uma nota unitária em apoio à exposição.

O ato resistiu bravamente a todas as tentativas de provocação do MBL e de seus satélites. E foram muitas. O YouTuber Arthur do Val, provocador maior da direita, foi trazido de São Paulo especialmente para tumultuar a manifestação. Com a firmeza que o combate ao fascismo exige, mas sem baderna generalizada, os provocadores foram expulsos do ato. Infelizmente, ao final do protesto, a ação articulada dos capangas do MBL conseguiu tumultuar um ato que já estava dispersando.

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Com a covardia que lhes é característica, foram provocar os manifestantes para em seguida se refugiar atrás

de um cordão policial

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O batalhão de choque da Brigada Militar se enfileirou para proteger os milicianos, jogando bombas de gás contra toda a população e transformando a Praça da Alfândega num cenário de guerra. Duas pessoas foram detidas: um morador de rua, cuja identidade não foi revelada, e o jornalista Douglas Freitas. Além disso, uma fotógrafa do jornal Zero Hora foi atingida diretamente com spray de pimenta no rosto e em sua câmera ao registrar as prisões. Uma cena que remete a junho de 2013, quando nem mesmo a imprensa foi poupada da repressão.

Felizmente o ato não se resume à provocação do MBL. Foi um forte recado de luta e resistência contra os comensais da Idade Média e pelo direito a uma cultura livre. Livre de qualquer dogma religioso.

Centros culturais de São Paulo e Belo Horizonte já manifestaram interesse em receber a exposição interditada. Não nos submeteremos aos censores da província do atraso. O movimento LGBT e a classe artística estão mobilizados na defesa da liberdade e da cultura. Viva o Queermuseu!

Foto: Cartaz colocado na fachada do Santander Cultural em Porto Alegre/Samir Oliveira

Yo No Soy de Aquí

O que Alejandro tem a ver com Sendic, Lula e Temer

Alvaro Andrade
7 de setembro de 2017

Lembro que fazia muito mais frio que agora. Entre um mate e outro, meu primeiro amigo montevideano, o porteiro frenteamplista Alejandro, me apresentava seus conceitos sobre as distorções do regime bolivariano na era Maduro e a vergonha que sentia do ex-colega de faculdade Raul Sendic. Era uma das nossas primeiras charlas, mas logo ali percebi como a política é encarada de forma diferente pelos uruguaios, especialmente à esquerda. Alejandro representa um perfil medio que encontrei por aqui: independente da idade ou ocupação, em geral são politizados, indentificados com valores solidários e humanos, mas nem por isso cerrados em um fanatismo que os coloque em algum pólo extremo do espectro político.

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O motivo da vergonha de Alejandro sobre o hoje vice-presidente do Uruguai e epicentro de um dos maiores escândalos políticos do país nos últimos anos, se deve ao uso de cartões corporativos para despesas pessoais em free-shops enquanto era presidente da estatal de petróleo uruguaia no governo Pepe Mujica

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“En Brasil pasó lo mismo, no?” Me pergunta antes de roncar a cuia. “Si, Alejandro.” Pero en Brasil as coisas foram tratadas de forma diferente, a começar pela própria esquerda. No Uruguay, além do Alejandro e da mídia, O Mujica e a Frente Ampla também consideram errado usar dinheiro público em benefício pessoal. E deixaram isso bem claro.

A FA é uma frente política de centro-esquerda tecida por partidos políticos, movimentos  sociais e sindicais que detém uma grande penetração popular. Há espantosa quantidade de comitês instalados em praticamente todos os bairros do país.  Eles não são poucos: hoje é tão fácil encontrar um frenteamplista na Rambla de Montevideo quanto um Bolsominion na avenida Paulista.

Foto Carlos Lebrato, FA

Diversos setores da coalização que garantiu 15 anos de governo não mediram palavras para apontar os erros do vice-presidente que ajudaram a eleger e era o candidato ficha 1 para a presidência no ano que vem

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O caso será julgado em um tribunal do partido, que analisará um parecer emitido pelos colegas do Tribunal de Conduta Política em que afirma que a atuação de Sendic “..compromete sua responsabilidade ética e política” e denota um “modo de proceder inaceitável”. Eles dão voz à consciência política crítica do Alejandro e 62% dos uruguaios que acreditam que Sendic deveria renunciar.

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Não cedem ao pragmatismo eleitoral, não colocam na perspectiva das realizações de governo, não blindam Sendic como se fosse insubstituível

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Talvez a sanção final que ele irá receber não terá efeitos práticos, afinal, não tem validade jurídica e até agora não pesam sentenças contra ele. Mas a efervescência na base política forçou Sendic a percorrer cada um dos comitês de bairro para dar explicação, pedir desculpas, admitir equívocos e ouvir cobranças.

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Já não faz tanto frio quanto há três meses. Enquanto aqueço a água para o mate, assisto ao vídeo do Lula tentando explicar porque novamente está ao lado de Calheiros e cia. Assisto ao vídeo buscando alguma novidade que justifique o fato de eu ainda cogitar ir até a embaixada brasileira votar em Lula em 2018 para me livrar do Bolsonaro.

Pego a térmica e desço pra charlar com meu amigo.

O elevador abre e logo o Alejandro mostra no celular a foto do bunker de Geddel abarrotado de dinheiro.

Eso parece Narcos! Como ustedes llegaran a tal punto? Me pergunta incrédulo.

Enchi a cuia e apenas respondi que talvez nos faltem mais Alejandros no Brasil.

Foto de capa: Carlos Lebrato, Frente Amplio