Nós US

We’ve Debuted the Decadence

Sacha
8 de fevereiro de 2017

(pode ler este artigo em português aqui)

We’ve already said goodbye to 2016 and arrived at the dawn of the inauguration of our unloved circus peanut as President of the United States of America. If there were an original joke to write about this appearing to be a scene out of a movie, I would write one, but there isn’t. We already know who the next “leader of the free world” (for as much controversy as that phrase involves) is and what he stands for.

Setting the scene of the beginning of 2017 is the triumph of the rejection of “technocracy” in favor of simplistic and nationalistic responses to the changes that the progression of globalization has brought to the fore. It no longer matters what experts say with regard to the worldwide consequences of this phenomenon, since they are the easiest scapegoat for all of the problems in our economies and their inability to reallocate and reinvent workers faced against forces that know no national boundaries. This is the point from which we arrived at Trump and Brexit. The pre-existing order of the West has been profoundly altered.

The most accurate word for this phenomenon would be decadence.

Not just in the sense of decline, but also the confrontation with the failures of the system. How are we going to tell the factory worker—whether from Lincolnshire or Michigan—that their life’s work not only is never coming back, but that it was in fact substituted entirely by gains in productivity thanks to new technology and machines? By appealing to vainglory, ignoring the facts and complications of real life, because that’s what they want to hear. Decadence resides in their reaction to the false promises and the snake oil they’ve bought.

But why, then, decadence? Let’s call it that for the decline of public service, which is the point of any political position. The current discourse, arising as much in Trump as in Europe’s simmering populism, is, at heart, an appeal to a simplistic image of government functioning. Governing is not a simple task. Appealing to a fantasy of a government-turned-machine in the service of enriching those of the majority left behind is simple. Governance is not capable of pleasing everyone at once. Populism’s purpose is to say the words that it hopes will please everyone in that majority. It’s decadent because it defrauds the proper principles of politics and governance.

A lot is said about “us” in populist discourse, in appeals to patrimonial vainglory of the nation, in nostalgia for times that never existed. This “us” is most convenient when the attraction to dividing the public is strongest. We are good people, versus those who don’t have morals. We are honest workers, versus those who already have everything and wouldn’t know a proper day’s work if it slapped them in the face. We have common sense, we understand the world around us like it is, versus those who spend all day in a laboratory researching things. We are civilized, versus those buffoons on the other side. There’s a whole universe of generic examples of this “us” that simultaneously represents everyone and no one. This “us” is simplistic by default. The real us is complex, includes even the least estimable parts of our society, has defects, and always needs corrections in its system.

We’ve debuted the decadence.

Now we’re debuting Us.

Nós US

Inauguramos a decadência

Sacha
8 de fevereiro de 2017

(you can read this article in English here)

Já dissemos adeus a 2016 e chegamos à inauguração do nosso desestimado circus peanut como Presidente dos Estados Unidos da América. Se houvesse piada original a escrever desta que parece cena de filme, escreveria, mas não há. Já sabemos quem ele é e o que representa o novo “líder do mundo livre” (se bem que esta frase carrega polêmica em si). Vamos além, então.

O cenário deste início de 2017 é o triunfo de respostas singelas e nacionalistas às mudanças que a globalização traz. Não importa mais o que dizem os especialistas acerca das consequências em escala mundial deste fenômeno. Isso porque os experts são o bode expiatório mais fácil a quem atribuir o fracasso das economias, que já não são capazes de recolocarem e reinventarem as classes trabalhadoras perante forças sem fronteiras. Partimos desta base para chegar a Trump e ao Brexit. Através deste fenômeno, a ordem pré-existente do Ocidente ficou profundamente alterada.

A palavra mais acertada para este fenômeno seria decadência.

Não somente no sentido de declínio, mas também no enfrentamento da falha do sistema. Como é que vamos dizer ao trabalhador de fábrica—seja de Lincolnshire, seja do Michigan—que o seu trabalho de toda a vida não só nunca mais volta como foi substituído por completo por ganhos em produtividade graças a máquinas e tecnologias novas? Simples. Apela-se à vanglória, ignorando os fatos e a complicação da vida real, porque é o que quer ouvir. A decadência reside na reação às promessas vazias, à fumaça que comprou.

Mas, afinal, porque decadência, então? Chamo assim pela decaída do tal conhecido serviço público, que é o princípio de qualquer posição política. O discurso que tem surgido, tanto na personagem do Trump como no populismo crescente na Europa, é, no fundo, um apelo a uma imagem singela do funcionamento governamental. Governar não é uma tarefa simples. Apelar a uma fantasia de um governo sim que é simples. Governança não é capaz de satisfazer todo um povo de uma vez. Já o populismo tem como alvo dizer as palavras que satisfazem a ampla maioria de um tal povo. É decadente porque defrauda os princípios de política e de governança reais.

Muito se fala de “nós” no discurso populista, nos apelos à vanglória da pátria ou da nação, na nostalgia por tempos jamais existentes. O “nós” é mais conveniente quando a atração à divisão do povo é mais forte. Nós somos pessoas do bem, contra aqueles que não têm moral. Nós somos trabalhadores honestos, contra aqueles que já têm tudo e não sabem o que é um dia próprio de trabalho. Nós temos bom senso, compreendemos o mundo ao nosso redor, contra aqueles que passam o dia todo em laboratórios a fazer pesquisas. Nós somos cultos, contra aqueles brutos do outro lado. Há todo um universo de exemplos genéricos deste “nós” que simultaneamente representa toda a gente e ninguém. Este “nós” é simplório por defeito. O nós real é complexo, engloba até as partes da sociedade que menos estimamos, tem defeitos e precisa sempre de correções no seu sistema de ser.

Inauguramos a decadência.

Inauguramos Nós.

Glow

COMPARTILHAR É A RAZÃO

Fernanda Ferrão
7 de fevereiro de 2017

A foto da Beyoncé grávida é feia. Beyoncé é incrível mas a imagem que a artista postou no seu perfil do Instagram para divulgar a gravidez de gêmeos pode ser considerada brega, ao menos para os nossos padrões atuais. Ah, os padrões. Ainda assim, é a foto mais curtida da história do Instagram até o momento – são quase 10 milhões de likes. A tal foto faz parte de um dos três ensaios que a cantora divulgou na última semana. O responsável pelos cliques é Awol Erizku, um fotógrafo africano que mora em Nova York.  Para completar o simbolismo, foi postada no primeiro dia do Mês da História Negra.

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Provavelmente, na tua timeline, alguém falou mal da foto. Mas é feio ou é diferente? Quando não gostamos de algo, será que não fomos treinados para isso? Olha os padrões aí de novo

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Esses questionamento chegaram até mim por meio de um post no Facebook de uma jornalista chamada Carol Patrocínio (veja aqui). No post, Carol fala que mudou sua opinião sobre a imagem depois de pesquisar e entender o que estava por trás. Ou seja, que gosto é construção cultural. Vi esse mesmo post em um grupo de discussão que participo e a professora (musa) Cris Lisboa dizia para, a partir disso, discutirmos todos. Todos mesmo. Inclusive eu, inclusive tu.

Compartilhar. Compartilhar uma informação, novidade, referência, uma reflexão diferente do habitual. Textos têm esse poder: mudar o fluxo de ideias. Construir o novo (que também é desconstruir o velho).

Vamos tentar?

(Já que começamos com a família Knowles, assiste um dos clipes da irmã mais nova da família. Solange lançou seu terceiro álbum em 2016, A Seat at the Table. Um dos singles dá voz a alguns aspectos da vida das mulheres negras. Vale!)

ECOO

EU DESTRUÍA O PLANETA – E NEM SABIA

Geórgia Santos
7 de fevereiro de 2017

Não, não sou um meteoro – nem o da paixão – ou qualquer outro evento apocalíptico a que estamos acostumados a assistir no cinema em filmes como Mad Max, Independence Day, 2012 ou Planeta dos Macacos. Mas de certa forma, sou parte ativa de um movimento que destrói o planeta aos poucos e de maneira consistente, ou pelo menos era. Isso está mudando. Eu estou mudando.

Eu sempre tive a ilusão de que era ecologicamente correta. Isso porque vivia com meus pais em uma casa com duas claraboias, algo que diminua o consumo de energia elétrica e iluminava nossa cozinha “apenas” com a luz do sol, e com aquecimento solar da água. Além disso, separo o lixo. E não somente entre seco e orgânico, mas ainda entre papel, plástico e vidro. Ah, eu também fecho a torneira enquanto escovo os dentes. Provavelmente, a combinação dessas três coisas é mais do que grande parte da população faz, e essa ilusão me bastava.

Eu preferia ignorar o consumo de carnes e toda a espécie de produtos animais; eu preferia ignorar o fato de não consumir produtos orgânicos; de não observar se determinada empresa de cosméticos testa em animais; eu preferia ignorar o fato de os produtos de beleza e limpeza não serem biodegradáveis; de a quantidade de lixo produzido lá em casa estar acima do normal. Eu ando de carro, eu uso lã, tenho tapetes, calçados e bolsas de couro. Uso absorventes, protetores diários, sabão em pedra, detergente qualquer. Eu fumava. E a lista não termina.

Qual não foi o meu choque quando percebi que eu, uma mulher informada, antenada e consciente, não sabia absolutamente nada sobre sustentabilidade. E mais, estava destruindo o nosso planetinha sem dó nem piedade? Fiquei pasma.

Comecei aos poucos e aos poucos vou entendendo o que significa cuidar da terrinha de verdade. E eu vou contar tudo por aqui. Bora me ajudar a fazer Eco?

Enquanto isso, nunca é um mau momento para (re)ve Uma verdade inconveniente – An inconvenient Truth.

Reporteando

Sobre jornalismo diário, o poder público e as redes sociais

Renata Colombo
7 de fevereiro de 2017

Hoje em dia qualquer pessoa pública que se preza, seja político, artista, atleta, grande empresário, precisa saber fazer bom uso das redes sociais. No caso do poder público, o bom desempenho do cara nos perfis de facebook, instagram, e por aí vai, pode até mesmo derrubar, ou no bom e velho jargão jornalístico, furar a cobertura.

É um desafio diário imenso não cair no lugar comum. Aquele grande anúncio tão aguardado de verbas para hospitais dificilmente vai esperar o repórter chegar na coletiva e ter acesso aos números fresquinhos. Ele será feito nas redes sociais pela assessoria de imprensa ou quem sabe pelo próprio gestor público. Aquele plantão da equipe da fotografia para flagrar um encontro inesperado provavelmente será atropelado por uma foto oficial no perfil pessoal da fonte.
 
Em São Paulo a imprensa vive um bom exemplo disso. O prefeito João Doria (PSDB) sabe usar, e muito bem, as novas mídias a seu favor. Ele vem arrecadando milhões de visualizações e seguidores com esta estratégia. Não significa que as pautas são sempre válidas, muitas vezes são marketing, mas significa que ele movimenta a imprensa o tempo todo com aquilo que quer que seja divulgado. O desafio é conseguir trazer à tona os assuntos que os jornalistas querem discutir e não os que a fonte acredita que devem ser discutidos.
 
Trazendo essa situação para um mercado em recessão e cada vez mais enxuto, esbarramos em outro problema: optar pela cobertura factual do assunto escolhido pelo órgão público ou ignorá-lo e apostar naquele levantamento próprio em que um repórter ficou semanas debruçado.
 
Eu, particularmente, defendo sempre a apuração exclusiva, o olhar maldoso a coleta de dados, o aprofundamento do tema, mas também sei que está cada vez se afastando mais das nossas redações.   
Samir Oliveira

Precisamos falar sobre Pinkwashing

Eu precisava saber o que estavam fazendo, em plena marcha pela libertação palestina, um bando de militantes transexuais, lésbicas, bissexuais e gays. Afinal, o que uma coisa poderia ter a ver com a outra? Absolutamente tudo.
Samir Oliveira
6 de fevereiro de 2017
Foto: pinkwatchingisrael.com/Divulgação

Igualmente. Um nome bem sugestivo para uma coluna que vai falar sobre cultura, política, sociedade e vivências atravessadas pela temática LGBT. Que vai se debruçar sobre uma comunidade que é diversa e que reproduz, dentro dela própria, mecanismos de opressão que seus indivíduos experimentam todos os dias quando saem de suas bolhas de convivência. É sobre isso que vou falar neste primeiro texto. Especificamente, sobre como existe toda uma população duplamente estigmatizada, utilizada de forma perversa em um jogo de interesses: os LGBTs palestinos, espremidos entre a maior empreitada colonial dos nossos tempos e o discurso islamofóbico, que infantiliza suas lutas e introduz modelos ocidentais de “salvação”.

Perdoem-me por trazer um assunto tão pesado para inaugurar este espaço, mas as brechas para falar sobre este tema não se apresentam com frequência na esfera pública. Como internacionalista e gay, não poderia começar esta coluna de outra forma.

O ano de 2012 foi crucial para mim. Eu estava cobrindo o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que ocorria sob a temática “Palestina Livre”. Qual foi minha surpresa quando, na marcha de abertura, percebi um cartaz carregado por jovens que dizia: “Queers against israeli apartheid”. Em uma tradução livre: “LGBTs contra o apartheid israelense”.

Meu faro de repórter e minha nada objetiva necessidade pessoal me empurraram rapidamente em direção aqueles jovens. Eu precisava saber o que estavam fazendo, em plena marcha pela libertação palestina, um bando de militantes transexuais, lésbicas, bissexuais e gays. Afinal, o que uma coisa poderia ter a ver com a outra? Absolutamente tudo.

Descobri que aqueles jovens estavam denunciando a prática de um aparato discursivo e ideológico em Israel que utiliza a existência de relativos direitos à população LGBT naquele país como cortina de fumaça para mascarar a situação de verdadeiro apartheid imposto ao povo palestino. Naquele dia eu conheci o termo “Pinkwashing”, que designa exatamente o sistema que tentei descrever na frase anterior. Israel tenta “pintar de rosa” seu regime racista e colonialista, utilizando os direitos LGBTs como uma espécie de atestado civilizatório para ofuscar as violações diárias que comete contra o povo palestino.

O pinkwashing é baseado em duas mentiras: uma, a de que a população LGBT em Israel vive em plena liberdade, livre de preconceitos; outra, a de que a população LGBT na Palestina e no mundo árabe em geral vive subjugada e perseguida.

Ambos os discursos precisam ser analisados com mais atenção. Em Israel, há uma cena LGBT bastante movimentada, sim. Tel Aviv é uma cidade dinâmica, com uma Parada LGBT multitudinária. Mas a menos de 40 km ergue-se uma muralha de 760 km de extensão e 8 metros de altura, que transforma a Cisjordânia em uma prisão a céu aberto. Por outro lado, sim, há LGBTfobia na sociedade palestina e muito tabu em torno do tema. Mas em qual sociedade não há? O Brasil, um país de ampla maioria cristã, é reconhecidamente o que mais mata transexuais no mundo.

Antes de serem LGBTs, os gays, lésbicas, bissexuais e transexuais palestinos são, sobretudo, cidadãos palestinos. E como tais estão sujeitos a toda carga discriminatória do regime israelense, tanto quanto qualquer outro compatriota. As balas e mísseis da IDF – as Israeli Defense Forces – não distinguem seus alvos por identidade de gênero ou orientação sexual, não importa o quanto Israel diga que está preocupado com o bem estar da população LGBT. Tampouco o fato de gays e lésbicas poderem servir livremente no exército israelense atenua a repressão causada por seus soldados.

Engana-se quem pensa que os LGBTs palestinos teriam uma vida livre e plena em Israel. Em primeiro lugar, Israel não concede asilo ou refúgio a palestinos. Os que conseguem cruzar a fronteira, permanecem ilegais no país, sujeitos à deportação e sem acesso a qualquer serviço público básico ou emprego de qualidade. E os LGBTs palestinos que estão ilegais em Israel – estima-se que somente em Tel Aviv sejam 2 mil – ainda podem ser forçados pelas agências de inteligência a atuarem como espiões, sob pena de serem mandados de volta à suas comunidades com sua sexualidade plenamente revelada, acusados ainda de serem colaboradores do regime israelense. Logo se vê que Israel não está preocupada com a população LGBT, mas sim com a legitimação de seu sistema de apartheid.

Para se libertar das armadilhas postas pelo pinkwashing, é preciso reconhecer que a população palestina é diversa. É preciso entender que os LGBTs palestinos travam sua própria luta contra o preconceito de uma forma indissociável da causa da libertação nacional. Que existem organizações não governamentais trabalhando com todos estes aspectos dentro da sociedade palestina de uma forma corajosa e pedagógica, como a Al Qaws – que, em árabe, significa arco-íris – e a Aswat, que significa “vozes”. Entidades que não colocam os LGBTs palestinos na encruzilhada de terem que decidir entre suas comunidades e seus laços identitários e sua sexualidade ou identidade de gênero.

Encerro este texto com as palavras de Fahad Ali: “Eu sou árabe. Eu sou palestino. Eu sou gay. Meu paraíso não é uma parada cheia de glitter em Tel Aviv. É uma Palestina livre”.

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Eu, Daniel Blake

Pedro Henrique Gomes
18 de janeiro de 2017
Eu, Daniel Blake (divulgação)

Por Pedro Henrique Gomes

Daniel Blake sofreu um ataque cardíaco. Segundo recomendações de seus médicos, está impossibilitado de trabalhar. Ele entra com um pedido de auxílio financeiro, que lhe é devido, junto ao órgão de Seguridade Social inglês, mas tem seu pedido negado: o Estado alega que ele está em condições de trabalho. Tenta recurso, desiste, encontra com as dificuldades impostas pela falta de dinheiro, conhece pessoas em situações semelhantes, ajuda como pode.

Eu, Daniel Blake, o novo filme de Ken Loach, Palma de Ouro no último Festival de Cannes, pretende que o espectador se indigne diante das dificuldades impostas pelo Estado para que um cidadão consiga ter direito a um benefício previdenciário básico.

Loach é daqueles cineastas que não abre mão do estilo e da determinação de sua militância. De suas imagens, a tradição do espírito operário resplandece. A mira, no entanto, nem sempre acerta o alvo. A sua agenda política (que em linhas gerais são justíssimas e compreensíveis) coloca seus filmes dentro de uma norma que ele próprio não consegue transpor para além de certo engessamento narrativo. Seus filmes, mesmos os melhores (Os Ferroviários, de 2002, por exemplo), travam na unilateralidade de suas observações, destituindo-nos daquele mistério contraditório e das tensões que propõem os grandes filmes baseados no “realismo social”.

Loach condena o cinema hollywoodiano (este dos grandes espetáculos) por seus esquemas estéticos e políticos, todavia permite que seus filmes se embriaguem em um nível de chantagem emocional estranho para um cineasta do seu timbre. Eu, Daniel Blake não foge ao riscado.

Ainda que engessado, ainda que repleto de atalhos discursivos e adaptações absurdamente pesadas para passar a mensagem necessária, Eu, Daniel Blake dá indícios, logo em seu início, de que Loach tentará olhar a complexidade do mundo (mesmo que seja do mundo em que ele se insere, ideologicamente falando) sem suas certezas habituais que resultam num enquadramento sociológico severamente limitado.

Que numa modernidade capitalista as individualidades sejam alçadas a um patamar primordial, que a competitividade do mercado e o alargamento dos espaços privados sobre os públicos sejam sintomas, que o Estado burocratizado em consórcio pútrido com o mercado seja um convite ao abandono dos populares, isto parece sensato dizer – e a obra de Loach nos diz.

Mas o filme não precisa necessariamente que o espectador compartilhe de suas crenças, pois nada muda: o seu prato já vem servido e não podemos acrescentar temperos. Resta observar a degradação humanitária da qual seu filme provavelmente se alimentará. A burocracia vence, derrotando a esperança. Há como reerguê-la?

Pedro Henrique Gomes

2016: os 11 melhores filmes do ano

Pedro Henrique Gomes
18 de janeiro de 2017
Carol (divulgação) Carol (divulgação)

Por Pedro Henrique Gomes

Virada de ano religiosamente publico uma lista com os melhores filmes que vi. São 11, do goleiro ao atacante. Como é a primeira lista desta coluna, explico sumariamente o critério adotado: filmes que entraram no circuito de exibição a partir do primeiro dia do ano. O primeiro lugar deixei para Carol, esse filme grandioso do Todd Haynes. Nele, tudo é tão insólito que sem dúvida é real (Oh, Piglia!).

Sem muitos desdobramentos, eis os meus filmes favoritos de 2016:

1 – Carol, de Todd Haynes (EUA, 2015)

2 – Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia, 2015)

3 – Elle, de Paul Verhoeven (França, 2016)

4 – Creepy, de Kiyoshi Kurosawa (Japão, 2016)

5 – A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien (China, 2015)

6 – Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas (Brasil, 2014)

7 – Sangue do Meu Sangue, de Marco Bellocchio (Itália, 2015)

8 – Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira (Brasil, 2014)

9 – Sully – O Heroi do Rio Hudson, de Clint Eastwood (EUA, 2016)

10 – Certo Agora, Errado Antes, Hong Sang-soo (Coréia do Sul, 2015)

11 – A Vizinhança do Tigre, Affonso Uchoa (Brasil, 2014)

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Duas vezes Bellocchio

Pedro Henrique Gomes
18 de janeiro de 2017

O cinema sempre demonstrou dificuldades para filmar as realidades sociais. São poucos os cineastas ou movimentos que conseguiram compor um retrato capaz de alargar, para a realidade da câmera (que é uma realidade completamente diversa), as tensões que circulam na sociedade. A tarefa não é fácil e não se pode condenar os aventureiros. Pensador sofisticado, Bellocchio se serve bem neste terreno quando decide nele caminhar.

Entre os contemporâneos, é nome raro ao combinar um criterioso pensamento político, isto é, dos modos de ver as tensões sociais, com um delicado olhar histórico, isto é, no seu caso, uma observação sobre as tradições culturais (religiosas, por onde se deve entender católicas) e a sua relação com o nosso tempo. Sua obra recente o faz ora com mais liberdade poética (Vincere, 2009), ora seguindo os ordenamentos mais estritos da cena política italiana de seu tempo (Bom Dia, Noite, 2003, A Bela que Dorme, 2012).

Seus dois filmes mais recentes mantêm a escrita. Belos Sonhos e Sangue do Meu Sangue, ambos em cartaz até poucas semanas, viajam no tempo, para lá e para cá, para que suas histórias criem sentidos variados. O tempo flui exíguo na trama dos filmes, ciente de sua função transformadora. Essas passagens possibilitam uma reconfiguração, no presente, das percepções sobre os acontecimentos do passado. É impressionante como Bellocchio consegue equilibrar estes tempos e, ao fechá-los e fazê-los confluir, destacar o que interessa: as confissões. É o que está guardado, adormecido, subterrâneo, aquilo que se pretende lançar ao mundo novamente.

Cineasta livre de tudo o que não contribui ao seu trabalho, ao tratamento visual que pretende dar a cada imagem, ele nos faz lembrar, com Belos Sonhos, do seu primeiro longa-metragem, De Punhos Cerrados (1965).

Nos dois filmes, há uma sensação de instabilidade permanente que irrompe da tela e nos atinge com violência. O drama de seus personagens, além da relação com a mãe, parte da necessidade de encontrar a razão das coisas: da política, da religião, da cultura, da cidade, da família, de se adequar, de pertencer.

No entanto, nunca temos uma resposta simplificadora. É preciso confrontar as imagens. Bellocchio realiza o cinema politicamente. Um cinema feito politicamente é um cinema despojado de mensagens como recurso primordial. É um cinema que parte da imagem para dar sentido ao mundo. Neste domínio temos aqui em expoente.

Tércio Saccol

Apesar da crise

Tércio Saccol
12 de setembro de 2016

A abordagem da imprensa tradicional na cobertura econômica costuma ser alvo constante das discussões ideológicas que circulam – prensadas entre discursos de ódio, ironias e ofensas – nas redes sociais. Entre as correntes mais heterodoxas, ressaltaram-se as reportagens encabeçadas pelo “apesar da crise” uma espécie de mote para ressalvar conquistas e méritos mesmo em meio à recessão atribuída, em grande escala, à ausência de planejamento do governo brasileiro.

O apesar da crise tem muito de piada, mas é a máxima que simplifica e traduz, de certa forma, parte da linha que norteia a maior parcela do jornalismo econômico produzido atualmente. A ausência de contexto, de reconhecimento e análise sobre os emissores das mensagens recorta uma realidade apenas parcial. Ao exaltar o apesar da crise como exceção meritória em meio a um lamaçal entendido como criado exclusivamente por gestão pública, reverbera-se, na realidade, uma visão de mundo. E é justo que ao acertarmos nossos acordos com ouvintes, espectadores e leitores, o façamos ler as letras miúdas.

Recentemente, uma reportagem sobre o pós-governo Temer, o título “PIB deve melhorar, mas desemprego e inflação devem piorar”, ressalvando, em uma unanimidade de economistas a correção providencial de rumo na economia, quase que suavizando o momento tão conturbado. Ora, se por um lado, as políticas macroeconômicas visam alto nível de emprego, estabilidade de preços, distribuição de renda e crescimento econômico de forma minimamente equânime, por outro, não se pode esquecer a dimensão de cada um desses temas para nossos públicos. Desemprego e inflação podem ser mais do que tópicos para alguns milhões.

O espectro do recorte que exalta a necessidade de severos ajustes e reformas capitaneadas por grupos de economistas, também ecoa uma corrente de pensamento. Nem todo ajuste encontra concordância e naturalidade unânime. Atrás dos microfones e das canetas que conduzem as palavras, há sempre interlocutores. É justo que, seja amparada pela Escolas Austríaca, Keynesiana, Marxista ou de Chicago, não se traduza um discurso como universal, como verdade exclusiva, como linha única para o jornalismo econômico. Para uma ciência multifacetada, uma visão plural.