Samir Oliveira

Sasha Velour e o futuro da arte drag

Samir Oliveira
29 de junho de 2017
Foto: VH1

SPOILER ALERT: Se você ainda não terminou de ver a nona temporada de RuPaul’s Drag Race, não leia este texto.

Eu sou um admirador da cultura drag. Foi através desta cultura que tive minhas primeiras experiências de socialização no mundo LGBT, como até já relatei em um texto aqui. A libertação que esta forma de expressão artística permite a quem faz e desperta em quem a aprecia é algo revigorante.

Acompanhei com entusiasmo todos os episódios de RuPaul’s Drag Race e posso dizer com algum grau de certeza que esta última temporada elevou a competição – e a arte drag – a um novo patamar. A vitória de Sasha Velour trouxe um componente de inovação e ousadia que outras temporadas não se arriscaram a coroar.

Se você ainda não viu este lipsync, por favor, veja, divulgue e enalteça!

É verdade que Sasha não foi a personagem mais completa ao longo da temporada, como foi o caso de Shea Couleé, uma excelente atriz, fashionista, performer e bailarina. Mas Sasha nunca deixou a desejar, tanto é que nunca ficou entre as duas piores de nenhum episódio.

Sasha não foi a mais completa, mas sem dúvida foi a mais versátil, dando uma característica única a tudo que fazia – mesmo quando estava totalmente fora de sua zona de conforto, como em desafios que envolviam humor e dança. Isso fez com que ela se destacasse inclusive no Snatch Game, um desafio icônico da série e que pode traçar uma linha definitiva entre vencedoras e perdedoras. Sua versão de Marlene Dietrich foi milimetricamente executada e deu visibilidade à principal característica de Sasha Velour: a inteligência. Estamos falando de alguém que cogitou performar Judith Butler no Snatch Game, algo que PRECISA acontecer ainda, por favor!

Esta cena certamente provocou reações semelhantes ao Red Wedding de Game of Thrones. Aja que o diga!

Sasha é, sem dúvida, a drag mais inteligente e politizada que já participou da competição. Conseguiu provar que um bom lipsync não se resume a passos de dança, mas à criatividade, capacidade de intepretação e elementos de inovação que possam ir além das manjadas trocas de roupa no meio da performance.

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A cena em que Sasha Velour tira sua peruca ruiva e começa a ser coberta por pétalas de rosas vai ficar definitivamente marcada como o Red Wedding do mundo LGBT

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Com aquela interpretação, Sasha comprovou que não estava apenas fazendo uma performance, estava criando algo novo e mandando uma mensagem. É evidente que Sasha teve o cuidado de dosar sua inteligência e seu potencial político ao longo da temporada, afinal de contas sabemos muito bem que essas duas características não costumam ser exatamente atrativas em um reality show. Não é isso que o mercado do entretenimento procura ou faz questão de difundir. Não se trata de uma crítica arrogante, até porque – repito – sou um fã de carteirinha da série. Trata-se do reconhecimento de que a realidade do sistema em que vivemos é bem mais dura do que as brechas e possibilidades de ruptura que ele apresenta.

Sozinha, Sasha Velour não irá revolucionar a cultura drag. Mas certamente é um passo a mais no sentido de uma mudança positiva. Não é à toa que suas primeiras palavras após a vitória foram: “Vamos mudar essa porra toda”.

Foto: VH1

Nós US

Presta atenção nos detalhes

Sacha
28 de junho de 2017
(you can read this article in English here)

Esta semana, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que pais do mesmo género podem ambos constar na certidão de nascimento dos seus filhos. Foi uma reivindicação da sentença de 2015 que determinou a legalidade de matrimónio homoafetivo em todo o país, sem exceção. Esta sentença reforça a plena igualdade de todos os tipos de casamentos no que diz respeito aos direitos adquiridos pelos casais. Tudo bem até aqui. É importante, tanto para as crianças quanto para os pais, o reconhecimento legal dos seus pais (ou mães) como tal.

Ao contrário de aceitar aparências moderadas de escolhas vindo da Casa Branca, é preciso andar com mais cuidado ainda

Prestemos, porém, atenção à dissidência exprimida pelo juiz mais novo da Suprema Corte, Neil Gorsuch. Gorsuch foi nomeado por Trump e confirmado por um Senado em mãos dos Republicanos esta primavera. No extrato da sua oposição, o juiz mostrou-se disposto a interpretar sentenças prévias do modo mais estrito possível. Isto é, tratando de assuntos sociais, revela-se rigidamente indisposto a expandir direitos para minorias através da corte. Gorsuch busca interpretar a Constituição de forma mais literal e tradicionalista possível. Este reflexo serve uma visão tradicionalista da sociedade que, por acaso, se conforma com os valores da direita religiosa. O juiz, além disso, mostra-se fortemente a favor da expansão dos direitos a armas privadas, algo já polémico no país.

Para quem esteja afetado por este tipo de sentenças, Gorsuch é um pesadelo dos maiores instalado no judiciário. A balança da Suprema Corte está igual que antes da morte do juiz Scalia. A sua nomeação e confirmação, contudo, diz-nos muito sobre a visão jurídica do partido republicano e o presidente do país. Ao contrário de aceitar aparências moderadas de escolhas vindo da Casa Branca, é preciso andar com mais cuidado ainda.

Imagem: diego medrano
Nós US

Pay Attention to the Details

Sacha
28 de junho de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

This week, the Supreme Court of the United States ruled that parents of the same gender can both be registered on their children’s birth certificates. It was an affirmation of the 2015 sentence that determined the legality of gay marriage across the whole country, no exceptions. This sentence reinforces the full equality of all types of marriage with regard to the rights acquired by married couples. So far, so good. It’s just as important for children as it is their parents the recognition of their fathers (or mothers) as such.

Instead of accepting apparently moderate choices coming from the White House, we must proceed with further more caution

Pay attention, though, to the dissent expressed by the newest judge of the Supreme Court, Neil Gorsuch. Gorsuch was nominated by Trump and confirmed by a Senate in the hands of the Republicans this spring. In his dissent, the judge showed himself to be willing to interpret precedent sentences in the strictest possible manner. When it comes to social issues, he shows himself to be rigidly unwilling to expand minority rights through the courts. Gorsuch seeks to interpret the Constitution as literally and traditionally as possible. This reflex serves a traditionalist vision of society that, it just so happens, conforms itself to the values of the religious right. The judge, beyond those issues, is largely in favor of expanding gun rights—another controversial topic in the country.

For those who may be affected by this type of sentence, Gorsuch is a nightmare of the worst kind installed in the judiciary. The balance of the Supreme Court is the same as it was before the death of justice Scalia. His nomination and confirmation, however, tell us a lot about the judicial vision of both the Republican Party and the president. Instead of accepting apparently moderate choices coming from the White House, we must proceed with further more caution.

Image: diego medrano
Pedro Henrique Gomes

Crítica – Z – A Cidade Perdida

Pedro Henrique Gomes
25 de junho de 2017

Quem espera, através das imagens de Z – A Cidade Perdida, chegar à Amazônia e ver o verde exuberante exaltado plano a plano estará pisando em falso. Não é só uma questão de diferença estética. Prescinde uma experiência de conexão, de imaginação e, claro, também de interesse visual. O filme de James Gray (o seu sexto) parte da terra e nela se detém, dela se energiza e busca todos os caminhos para a sua exploração visual a partir deste espaço maravilhoso que é o mundo. Logo percebemos que não há planos aéreos característicos do filme de guerra e de exploração e descoberta: estamos no nível da terra o tempo inteiro. Não sabemos, junto com o protagonista, o que há para descobrir. A aventura é, portanto, substancialmente outra.

Cineasta até aqui conectado ao espaço urbano nova iorquino (Fuga para Odessa, Caminho sem Volta, Os Donos da Noite, Amantes e Era Uma Vez em Nova York), geograficamente muito determinado, Gray vai encontrar na Amazônia brasileira as suas obsessões. No início do século passado, o explorador britânico Percy Fawcett é convocado a viajar a uma região amazônica localizada na fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Há interesse, da parte do governo, em explorar a região. Ao chegar lá, Fawcett se nutre de outra seiva: volta convicto de ter chegado muito próximo de descobrir uma antiga cidade local, que ele chama de Z, mas que ele não tocou. Ele precisa regressar a sua odisseia.

Na Amazônia, o que trazem os europeus liderados por Fawcett, em busca da cidade perdida, é uma câmera fotográfica e os materiais de medição e mapeamento territorial. É o espaço a descobrir para dar-lhe uma forma e uma existência vivida; ele já existe na imaginação (assim como o cinema existia na imaginação dos pioneiros muito antes da tecnologia torná-lo possível, como defendia André Bazin) e vai sempre existir enquanto nos interessarmos por seus mistérios, pelo que lhe é intocável senão pelo pensamento abstrato.

Gray tem lá seus desejos e os transforma em imagens: as pretende suntuosas em sua materialidade, em sua textura e investe, por isso, na expressividade de cada plano e nas transições entre eles. A síncope elíptica de seus cortes nos transporta com absoluta fluidez para a próxima aventura – a mesma sensibilidade nos entrega coisas que só os personagens podem saber, o que Gray nos mostra sem pestanejar: para saber é preciso imaginar. Essa montagem nos coloca sempre a um passo do abismo. Não lembro de filme recente a convocar tão profundamente o espectador a uma experiência de imersão como este filme. Gray tem amor pela emoção, alcançada, é claro, com a beleza de sua fotografia (Andrew Wyeth seria uma referência na pintura?) e com a integridade de sua narrativa, nessa espécie de filme-diário hiper fragmentado.

Como Indiana Jones, Fawcett estava em busca da cidade perdida quando Machu Pichu foi anunciada precisamente pelo explorador que viria, como dizem, a inspirar o filme de Steven Spielberg. A forma do anúncio, que Gray faz seus personagens apenas comentarem, é um exemplo de como “o contexto” se inscreve no filme: importante e lateral a um só tempo. Assim como o Atentado de Sarajevo (o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand), cujo episódio deflagraria, poucas semanas depois, o início da Primeira Guerra, é comentado sutilmente. Os detalhes menores cativam mais, os pequenos diálogos reforçam mais a unidade psicológica buscada peplo filme. O grande tema do cinema de James Gray continua sendo a família.

Em última instância, mesmo que inscrito no universo dos filmes de exploração e descoberta (o filme de aventura na selva), Gray mantém os seus interesses e os amplia. A distância, a chegada a um território diferente para tentar ganhar a vida, a exemplo de todos os seus filmes anteriores, cujos personagens eram essencialmente imigrantes, dá também a tônica em Z. Persiste o drama, insistem as dificuldades. Até o final, a trajetória de Fawcett institui o dilema clássico que remonta ao filme anterior do cineasta e que modela a sobriedade de seu drama: não há condenações peremptórias em sua obra, mas penetração psicológica.

Resgatado de Era Uma Vez em Nova York, e que, como este, contém um split screen dentro dele a dividir a tela, as temporalidades, os sonhos, a esperança, enfim, o plano final de Z é coerente com as imagens anteriores e as ilumina. Que tenha inscrito o seu desfecho assim, em aberto, em continuidade, em exercício de descoberta, é certamente um sinal dessa reflexão, desse acordo com a história das imagens, que Gray muito bem conhece. Nos dois casos, além da proximidade de localização no tempo, seus personagens alimentam esperanças de descobrir e encontrar, noutro local, um sentido e uma forma para as suas vidas. No filme anterior, no âmbito mais preciso das individualidades dos imigrantes; neste, num contexto em que, embora mantido o ponto de vista do explorador, a sua aventura se pretende histórica, portanto épica.

Na longa tradição do romance de expedição, tal qual um Robinson Crusoe e um Robert Scott, Fawcett tem o seu espírito idealista, como muitos homens que se lançaram ao mar e não mais regressaram, generosamente filmado por Gray. Alma de lugar nenhum, Fawcett escreve seu destino na eternidade, como memória e imaginação, como história e mitologia.

The Lost City of Z, James Gray, EUA, 2017. Com Charlie Hunnam, Sienna Miller, Tom Holland, Robert Pattinson.

ECOO

Papel reciclado de … cocô de elefante

Geórgia Santos
25 de junho de 2017

Há duas semanas estive no Zoológico de San Diego e enquanto bisbilhotava a lojinha para ver se encontrava algo interessante para comprar, deparei com algo que, confesso, me surpreendeu: papel reciclado de cocô de elefante. Achou pesado? Desculpa pelo o trocadilho.

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Não resisti. Quer algo melhor que um bloquinho de papel reciclado de cocô pra uma jornalista que está tentando levar uma vida sustentável? Foi amor à primeira vista.

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A capa garante: “Made with real Poo!” Ou seja, feito com cocô de verdade. A patente (outro trocadilho, lamento) foi registrada pela marca PooPooPaper TM, que fabrica produtos em papel reciclado E SEM CHEIRO (ufa!) a partir das fezes desses animais fofinhos.

A explicação é bastante lógica: eles usam uma matéria prima que existe em abundância (esse não foi intencional) e fazem produtos funcionais com isso. E ainda salvam um bocado de árvores no processo. O lance é que os elefantes de alimentam quase que exclusivamente de grama e capim, e eliminam quase a mesma quantidade. Mas o sistema digestivo desses animais não consegue romper a fibra das folhas, o que significa que suas fezes estão cheinhas de fibras. Assim, chegamos ao seguinte:

Cocô de elefante tem muitas fibras -> fibras são a base para a pasta de papel -> cocô de elefante pode virar papel

Simples, né?

Glow

Clitóris ou Ovário?

Fernanda Ferrão
22 de junho de 2017
Clipe música Lalá da cantora Karol Conka Clipe música Lalá da cantora Karol Conka

Se quiser, clique e leia ouvindo: Karol Conka – Lalá

Sabe o boquete? Sabe, né? Já parou para pensar que não existe uma palavra equivalente para sexo oral em mulheres? A Karol Conka pensou. A rapper paranaense de 30 anos é uma das mulheres símbolo do que chamamos de terceira onda do feminismo. O último lacre foi lançado na primeira semana de junho: a música Lalá. O termo foi criado pela própria Karol.

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Sexo oral feminino é ‘lalá’

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É claro que o clipe foi lançado acompanhado de “””””””polêmica”””””””. Afinal, tem muita gente para dar pitaco em todo e qualquer assunto relacionado ao feminino. A equipe que criou o vídeo lindo que acompanha a música é composta apenas por mulheres. O vídeo tem quase dois milhões e meio de visualizações.

Camila Cornelsen e Vera Egito dividiram a direção. Camila teve sua conta extinta e foi bloqueada do Instagram depois de postar 01 minuto do vídeo em seu perfil. Vera, em conversa com a Dani Arrais, do Don’t Touch My Moleskine, disse:

“Na celebrada música brasileira – poderia dizer de todo o mundo também – o sujeito do desejo é masculino e o objeto desse desejo é feminino tradicionalmente. Mas agora a moça bonita que vem, não passa. Ela fica e fala do que está afim. Deixa claro também quais são suas vontades, preferências, e toma o eu lírico do tesão pra si. Karol é essa mulher inteligente, de personalidade, independente e corajosa. Ela é linda também. Provavelmente o rosto mais simétrico que eu já filmei, impressionante. Linda em qualquer enquadramento. Mas já é tempo do atributo da beleza não ser mais o principal ao se falar de uma mulher. Especialmente uma mente criativa como Karol Conká. Foi de uma honra e de uma felicidade enormes realizar esse trabalho para ela. Especialmente ao lado da Camila Cornelsen, minha mana fotógrafa inspiração e apoio pro meu trabalho e pra minha vida. ‘Direitos de prazer iguais’, clama Karol. É isso aí. Celebremos esses novos tempos. Não tem retrocesso. Desse lugar de fala a gente não sai mais.”. Punto y basta.

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Nos dias seguintes ao lançamento, Karol postou frames e imagens do clipe sempre lembrando o quanto tem sido atacada apenas por falar de um assunto que incomoda aqueles que estão acostumados a dominarem todos os cenários: os homens.

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Eu poderia falar muitas outras coisas sobre este assunto, falar das conversas que tenho com amigas, sempre cheias de relatos de homens que não conhecem o corpo feminino e de como o pudor imposto pela sociedade faz com que essas mulheres que reclamam dos homens muitas vezes nem saibam instruí-los. Porém, deixo aqui apenas a íntegra da letra escrita por Conka. Te juro que vais entender do que estamos falando! #melambelá

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Lalá – Karol Conka

Lá lá lá

Moleque mimado bolado que agora chora
Só porque eu mandei ajoelhar
Fazer um lalá por várias horas

Ele disse por aí que era o tal
Pega geral e apavora
Seduzi pra conferir
E percebi que era da boca pra fora

Dá pra perceber que existem vários
Falam demais, fingem que faz
Chega a ser hilário
Mal sabe a diferença de um clitóris pra um ovário
Dedilham ao contrário
Egoístas criando um orgasmo imaginário

Pouco importa pra ele se você também tá satisfeita
Esses caras ainda não aprenderam que 10 minutos é desfeita
Nem a bomba que toma não aguenta o molejo da lomba
Se desmonta, tem medo e no final só me desaponta

Já fico arrependida
Seca, desacreditada e fria
Desse jeito desanima
Quero ser bem atendida

O que me anima é a habilidade na lambida
Malícia, muita saliva enquanto eu queimo uma sativa

Lá lá lá, me lambe lá
Lá lá lá, me lambe, me lambe, me dê uma lambida lá

É inacreditável, eles ficam sem ação
Quando a gente sabe o que quer e já mete a pressão
Tem que saber fazer se não gera contradição
Direitos de prazer iguais, mais compreensão

Isso daqui não tá de enfeite
Dá um jeito, se ajeite
Sem ser fake, então vai se deite
Se eu quero, respeite

O clima deixa de ser quente, confundiu minha mente
Falam de mais, quando chega na hora a ação não é equivalente
Nem vem, sou apenas mais uma com experiência e sabe quem tem
Vejo vários convencidos achando que no final mandou bem

Minhas amigas concordam também
Vocês podem ir mais além
Sem dedicação espantam um harém

Curvem-se, encostem os lábios na flor
Quebra esse tabu, isso não é nenhum favor

O que me anima é a habilidade na lambida
Malícia, muita saliva
Enquanto eu queimo uma sativa

Lá lá lá
Lá lá lá, me lambe lá
Lá lá lá, me lambe, me lambe
Me dê uma lambida lá
Lá lá lá
Lá lá lá, me lambe lá
Lá lá lá, me lambe, me lambe
Me dê uma lambida lá

Reporteando

Meu relato sobre a Kiss

Renata Colombo
20 de junho de 2017

Vejo nas redes sociais uma hashtag #somostodospaiskiss. Não consegui ficar alheia, mas também não me engajei. Ministério Público está processando os pais das vítimas da tragédia na boate Kiss. Processando a quem deviam defender. Alguma coisa está errada. Muito errada…

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Naquele dia, em especial, tudo estava errado. Questionei mil vezes o que estava fazendo lá e nesta profissão. Acho que pela primeira vez vou escrever sobre isso depois de quatro anos.

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Eu estava dormindo quando o telefone tocou. Meu plantão era no domingo à tarde, se não me engano. Fiquei em casa no sábado à noite e dormi cedo – Deus costuma iluminar os repórteres. No meu caso, ele começou sua tarefa cedo também – por volta das 4h da manhã, a chefe de reportagem da Gaúcha me liga:

– Renata, preciso que tu vá para Santa Maria, teve um incêndio, o motorista te pega em casa. É grave. Ele já está chegando aí. Falamos no caminho.

Dei um pulo da cama, consegui lembrar de pegar uma muda de roupa e um protetor solar e desci. Passamos para pegar equipamento e saímos de Porto Alegre sabendo que um incêndio havia atingido uma boate chamada Kiss, que universitários costumavam frequentar em Santa Maria, e que cerca de 20 pessoas tinham morrido na tragédia. Eu não fazia ideia do que estava por vir.

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As primeiras informações

No caminho, rádio ligado, as informações começavam a apavorar. Eu era repórter há sete anos, já tinha visto algumas coisas chocantes, mas nada se comparou a este dia até hoje. De 20 para 30 mortos. Mais alguns quilômetros de estrada, sem comer, sobe de 30 para 40. Foi assim por mais de 300Km. Cheguei na Boca do Monte com 140 jovens vítimas do fogo que consumiu a boate. Ainda no caminho, quando o coração começou a disparar, rezei. Pedi muito a Deus pra me ajudar a fazer o trabalho da forma mais digna que pudesse. Prometi que não faria nada que causasse ainda mais sofrimento às famílias. Meu microfone não ia mirar nenhum pai, nenhuma mãe. A promessa seria cumprida.

Uma operação de guerra havia sido montada na cidade, que respirava tristeza. Estava calor, sol forte, mas meu protetor solar ficou na mochila. Nem passou na minha cabeça que tinha levado um. Primeiro, militares do exército auxiliavam no transporte dos corpos que os bombeiros retiravam dos escombros da boate. Eles era levados para um ginásio de esportes para a segunda fase da operação. Até remover todos, ninguém informava nada.

O problema é que em busca de informações e do paradeiro de filhos, irmãos, amigos, as pessoas estavam muito nervosas, quase derrubaram o portão que dava acesso ao ginásio. A multidão começou a crescer. Comecei a buscar informações ainda preliminares e entrava no ar o tempo todo com o pouco que conseguia descobrir.

Quando vi, eu era naquele momento uma das poucas fontes de informação que as pessoas tinham em tempo real e in loco. Os rádios dos carros estavam ligados na Gaúcha. O coração disparou de novo. A responsabilidade era ainda maior. O respeito e a cautela tinham que ser também.

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O contato com os familiares

Andava pela rua que contornava o ginásio, quando veio o primeiro baque: um pai pergunta onde estavam cadastrando familiares que buscavam vítimas. Eu respondi onde era e que estava indo até lá. Perguntei quem ele procurava, disse que podia me acompanhar. Ele respondeu que procurava os dois tesouros: suas duas filhas tinham ido à boate naquela noite. Fui eu que não o acompanhei. Achei que seria possível me controlar. Só achei.

Segundo baque foi quando o meu pai me ligou. Quando ouvi “Rê, como tu tá, mana?”, comecei um ciclo que duraria dias e eu demoraria a sair dele: chorava, respirava fundo, entrava no ar… chorava, respirava fundo, entrava no ar. Foi assim por um bom tempo.

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Vi pais descobrindo que tinham perdido filhos. Vi pessoas desmaiando de dor no coração. Vi sonhos destruídos. Vi colegas abalados. Vi solidariedade. Vi injustiças. Vi tristeza.

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E tudo relatei. Contava tudo o que via, mas nunca consegui sentir orgulho de ter feito aquele trabalho, de contar aquela história. Nem mesmo quando tive retornos de ouvintes que me confirmavam que a promessa que fiz lá no início havia sido cumprida.

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E entre tudo o que vi naqueles dias, duas imagens ficaram na minha memória e mudaram um pouco a cabeça desta repórter.

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Entrei onde não devia. Me infiltrei no grupo do ministério da saúde que faria uma inspeção no pavilhão de identificação dos corpos das vítimas. Passei despercebida. Fui. Nem pensei. Tive vontade de dar meia volta, mas fiquei. Meu relato durou 10 minutos. Mais de 240 corpos alinhados delicadamente no chão. Da cintura para baixo cobertos de lona. Um número identificava cada um. Parte de cima com roupas sujas de fuligem e cinza. Rostos jovens e tranquilos lembravam que a tragédia interrompeu a vida cedo demais. Passei este relato e saí correndo de lá. Voltei ao ciclo, a começar pelas lágrimas.

O dia estava terminando e a lista oficial das vítimas foi divulgada. Dividi a pior das tarefas com meu chefe na época, o jornalista André Machado, que segurou minha mão. Cada um lia um nome. Voz trêmula. Guardei, mas não consigo ouvir aquela gravação. A última imagem do dia e a segunda que ficou na minha memória: quando ouviu da minha boca o nome de uma das vítimas, uma menina magrinha, cabelo liso, blusa vermelha, que tinha parado do outro lado da rua para prestar atenção nos nomes, desabou no chão.

Nessa hora não chorei. Não podia. Estava na fase do ciclo de cumprir com meu papel. Cumpri. Cresci. Amadureci. Reconheço que não perdi o foco e nem o respeito. Mas não me orgulho.

Pronto. Consegui escrever. E não chorei.

ECOO

Substituindo – Sacolas plásticas por sacolas de pano

Geórgia Santos
18 de junho de 2017

Quando a gente fala em adotar hábitos mais sustentáveis, de imediato imaginamos imensos sacrifícios. Coisas caras, gastos em excesso, investimentos que a gente simplesmente não tem como bancar.

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A verdade é que alguns hábitos não são apenas simples de adotar, são baratos e economizam dinheiro e o planeta.

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A melhor maneira de começar a fazer isso é substituir aquela sacola plástica de supermercado por sacolas de pano – ou outro material, desde que seja grande e possa ser reutilizado. Pode ser até uma bolsa de palha. Tá super na moda e é sustentável, um belo combo. Aquilo que nona chamava de sporta, mesmo =)

É muito simples: é só deixar algumas sacolas de pano no porta-malas e levá-las pra o mercado na hora de fazer as compras do mês ou qualquer outra. Se não dirige, não é problema. Eu não tenho carro e sempre que vou ao mercado levo minha sacola de pano dentro da mochila ou da bolsa e pronto, tá resolvido o problema.

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Impacto das sacolas plásticas ao meio ambiente

Parece bobagem, afinal, que tanto impacto uma sacolinha pode causar? Uma sacolinha, pouco, o problema é que se estima que cada pessoa use 25 mil sacolas plásticas ao longo da vida. Pra se ter uma ideia, OITO MILHÕES DE TONELADAS vão parar nos oceanos todos os anos. Só os brasileiros consomem um milhão e meio de sacolas plásticas POR HORA.

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Agora junta tudo isso ao fato de que o plástico leva 400 anos para se decompor. Temos um problema

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Como lidar com o problema?

É complicado, óbvio. Primeiro porque não existe substituto perfeito. Há duas alternativas: 1) Sacola reutilizável, que é o que proponho aqui. Ainda assim, uma sacola de pano tem de ser usada mais de cem vezes para compensar a troca, mas é um começo se a pessoa não jogar fora a sacola de pano, né; 2) Sacolas biodegradáveis ou compostáveis. As primeiras se deterioram no meio ambiente e as segundas podem ser recicladas por indústrias especializadas.

Com relação a políticas públicas, observa-se dois movimentos. O primeiro é a taxação, em que as sacolas plásticas não são distribuídas gratuitamente, fazendo com que o consumidor seja estimulado a levar sua sacola reutilizável. O segundo é o banimento completo de sacolas que não são biodegradáveis. A Itália foi o primeiro país a aderir a essa medida, ainda em 2011. Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente tem um programa chamado Saco é um Saco, que trabalha com a conscientização para o uso de sacolas plásticas.

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Aqui tem uma lista de como os países lidam com o problema, se aplicando multas, taxação ou banimento.

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E aí, tá afim de substituir?

Tão série

Arrested Development está de volta (em 2018)

Geórgia Santos
18 de junho de 2017

Nesta semana visitei Balboa (a ilha e a península), na Califórnia. O lance é que não tem como não lembrar de Arrested Development ao ver essa placa, pois é lá que grande parte da série se passa.

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Mas o lance mais lance, mesmo, é que o serviço de streaming Netflix confirmou a tão esperada quinta temporada da série para 2018 e para nooooooooossa alegria. O retorno desse (já) clássico da TV americana mantém o estilo e o formato, já que o criador original, Mitchell Hurwitz, está de volta. Além disso, o elenco regular é exatamente o mesmo das temporadas anteriores.

Arrested Development gira em torno de Michael Bluth (Jason Bateman) e sua (mais do que) excêntrica família. Ele é o primogênito de George Bluth Sr. (Jeffrey Tambor), notório por fraudar absolutamente tudo o que é possível em seus empreendimentos imobiliários e ser preso já no primeiro capítulo, e Lucille (Jessica Walter), uma socialite egocentrica e péssima mãe que oscila entre ser superprotetora e super negligente. Michael ainda é pai solteiro e cria, sozinho, o filho George-Michael (Michael Cera). Sim, o nome dele é esse.

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O desafio desse cara é manter os negócios funcionando após a prisão do pai e tentar impedir que a família mimada gaste o que eles já não tem.

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Após as contas da família e da empresa serem congeladas, ele percebe o quanto seus estranhos irmãos George Oscar Bluth II (Will Arnett), Buster Bluth (Tony Hale) e a irmã Lindsay Funke (Portia de Rossi) gastam. Sem contar no bizarro cunhado, Tobias (David Cross) que teve sua licença de psiquiatra cassada e agora persegue carreira no teatro (e toma banho de short jeans). Os dois tem uma filha, Maeby (Alia Shawkat) – que em inglês soa como Talvez.

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“Foi indicada a 25 Emmy Awards e venceu seis, aclamada pela crítica”

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Originalmente, Arrested Development foi ao ar por três temporadas na Fox, entre 2004-2006. Apesar de nunca ter alcançado grandes índices de audiência, a série se tornou referência como uma das melhores de todos os tempos. Tanto que foi indicada a 25 Emmy Awards e venceu seis, aclamada pela crítica. Hoje é uma das queridinhas do público cult, tanto que a Netflix resolveu contratar o elenco para uma quarta temporada em 2013. E agora, cá estamos no aguardo da próxima etapa.

Em um comunicado no mês passado, Hurwitz disse que “em conversas com executivos da Netflix, nós todos sentimos que histórias sobre uma família narcisista e de comportamento errático no ramo imobiliário – e seus desesperados abusos de poder – não são representadas adequadamente na TV”, em uma clara e cômica referência à família Trump.

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“Eu sou tão agradecido a eles por esse sonho se tornar realidade e poder trazer os Bluths de volta à vida, George Sr., Lucille e as crianças; Michael, Ivanka, Don Jr., Eric, George-Michael, e quem eu estou esquecendo? Ah, Tiffany. Eu disse Tiffany?”

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Se ainda não viu Arrested Development, todas as temporadas estão disponíveis na Netflix.

Samir Oliveira

Por que a organização da Parada LGBT de São Paulo não grita Fora Temer?

Samir Oliveira
15 de junho de 2017
SA?O PAULO, SP, 04.05.2014 – PARADA GAY: A 18a Parada Gay comec?a na tarde deste domingo na Avenida Paulista e percorre ate? a Prac?a Roosevelt em Sa?o Paulo. (Foto: Ben Tavener / Brazil Photo Press).

A cidade de São Paulo realiza anualmente a maior Parada do Orgulho LGBT do Brasil. Mais de um milhão de pessoas sairão às ruas neste domingo, dia 18, para celebrar a diversidade e lutar por direitos em um evento que se caracteriza pela mistura entre a alegria festiva e a seriedade reivindicatória. Contudo, algo parece desajustado na parada deste ano.

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O país vive uma conjuntura turbulenta, com um governo ilegítimo e frágil. Com 4% de apoio popular e enrolado na Operação Lava Jato, Michel Temer é sustentado apenas pelos piores interesses fisiologistas de um Congresso Nacional coberto de lama

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Em todos os cantos do país, qualquer evento, peça teatral ou cerimônia oficial  tornou-se um palco para que alguém puxe um grito de Fora Temer, que instantaneamente se transforma em coro. Esta foi a marca do Carnaval deste ano, onde os blocos de rua das principais cidades do país expressaram este sentimento de repulsa ao governo.

Agora, que a situação está ainda mais grave do que em fevereiro, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo toma uma decisão inexplicável: escolhe como tema da edição deste ano o “Estado laico”. É evidente que a luta por um Estado laico é necessária, justa e dialoga com a proteção da população LGBT brasileira, na medida em que fanáticos religiosos neopentecostais dominam amplos setores da política e articulam iniciativas cada mais vez mais nocivas aos nossos direitos.

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Acontece que este governo representa, também, estes setores. Que, aliás, são muito bons em se misturar com qualquer governo. Não é à toa que o bispo Marcelo Crivella, hoje prefeito do Rio, foi ministro da Dilma

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A conjuntura exige da Parada LGBT de São Paulo um grito forte, alegre e colorido por Fora Temer. O movimento LGBT sempre esteve na vanguarda das lutas sociais. Simplesmente não faz sentido que a associação da parada resolva ignorar o momento histórico do país e colocar esta poderosa festa da diversidade em rota de colisão contra um governo que sequer é um aliado dos LGBTs.

Tenho a convicção de que, embora oficialmente o Fora Temer esteja ausente do tema da parada deste ano, ela acabará inevitavelmente expressando este caráter de rechaço ao governo. A população LGBT sabe que Michel Temer é um inimigo de nossos direitos. É uma pena que a própria organização da parada tenha optado por perder o trem da história.

Foto: Ben Tavener/Flickr