Catraqueanas

Ser relevante pra quem?

Gustavo Mittelmann
12 de junho de 2017

Estou passando por uma daquelas datas balizadoras de angústias e projeções. A produtora está completando dez anos e reacendendo a sensação do incômodo em mim. Pra quem acha isso ruim, pra quem não gosta de perder o sono, lamento dizer, mas esses marcos são fundamentais, por sua capacidade de gerar autocrítica. Essa inquietude é que faz a roda girar.

Dessa década andando como nossas próprias pernas – e dando inúmeros tropeços – colocamos a nossa cara para um sem número de produções. Mas fomos relevantes? Para saber essa resposta, é preciso definir uma forma de medir relevância. Bom, se estamos falando em medir, significa que são números que vão me dizer o quão relevante fomos e somos.

Seria o alcance orgânico dos nossos vídeos o fator determinante? Views, compartilhamentos ou outros dados analíticos de redes sociais? Não creio. Isso pode me dizer que conseguimos atiçar a curiosidade das pessoas ou alcançar um nível estético e narrativo que desperta interesse.

Quem sabe a relevância esteja no tamanho dos clientes que conseguimos trabalhar, e na substancialidade dos orçamentos para os projetos desenvolvidos? Isso é essencial, ou não teríamos chegado aos dez anos. Mas é engrenagem, não relevância.

Talvez seja preciso esmiuçar um pouco mais o questionamento; mais do que ser relevante, me inquieta a dúvida de ter sido relevante PRA QUEM?

Mais algumas viradas na cama e tenho a certeza que a resposta não é “para os seguidores”, “para os clientes” ou “para o gerente do banco”. Não diretamente, ao menos. Possivelmente por reflexo ou consequência. Esse tipo de relevância, para terceiros, é efêmero e serve perigosamente de alimento para um monstro chamado ego.

Em tempos de Analytics, os dados realmente determinantes são o número de vezes em que deitei com frio na barriga repassando cada detalhe da produção do dia seguinte; o número de insights de melhores planos no meio do sono, ou cada vez que levantei determinado a fazer o meu melhor naquele projeto.

É isso, somos relevantes; pra mim. E é isso que importa no final das contas. É ter um propósito, e se reinventar dentro dele a cada dia, para que a inquietude perdure por mais uma década.

Imagem: br.freepik.com/fotos-gratis/retrovisor-da-mulher-triste-ao-lado-da-janela_974075.htm

Reporteando

Precisamos (?) ser mais versáteis

Renata Colombo
6 de junho de 2017

Sou contratada como repórter. É o que mais gosto e melhor sei fazer como jornalista. Seria muito feliz sendo repórter o resto da vida. Porém, de uns tempos pra cá venho observando que o mercado nem sempre nos leva pelo caminho mais romântico ou nem sempre conseguimos conduzir nossa carreira por ele. Precisamos ser, digamos assim, mais versáteis.

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A gente amadurece e é surpreendido a cada passo. Se descobre também. Vê que tem outros talentos. E isso também pode ser legal.

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Digo isso não pra jogar a toalha, mas porque as coisas estão mudando muito e toda esta movimentação das “placas jornalísticas” desperta o vulcão da reflexão sobre a necessidade de sermos cada vez mais versáteis e, no bom linguajar popular, “pau pra toda obra”. Um exemplo: a figura do repórter especial tem sido extinta aos poucos. Não encontramos mais nas redações um cara destacado somente para grandes matérias ou coberturas especiais.

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O repórter que consegue fazer pautas mais trabalhadas é o mesmo que apurou ocorrência policial a semana toda e que fez bico na produção quando o colega foi para o departamento médico.

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Outro exemplo: as editorias estão sendo extintas. O enxugamento das redações provoca a pulverização das pautas conforme a demanda e a equipe. Hoje eu cubro economia, amanhã me pautam para meio ambiente. Provoca também dança das cadeiras, o que nem sempre agrada a gregos e troianos. Mais um exemplo: oportunidades diferentes/inéditas surgem conforme o andar da carruagem. Quando menos se espera, vem o convite para cobrir uma editoria aqui, uma ancoragem ali, uma função nova acolá.

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Aproveitar estas janelas pode ser uma forma de descobrir novos talentos e aptidões.

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Último exemplo: a boa notícia desta movimentação é que ela abre espaço, e muito, para iniciativas e projetos inovadores dentro do jornalismo. Enquanto a mídia convencional está encolhendo, uma mídia ousada, em tempo real, também confiável, às vezes até bem segmentada, está crescendo.

Volto a dizer: não sou a favor de jogar a toalha e desistir de toda a estratégia inicial de jogo, mas voto na versatilidade. Aproveitar novas oportunidades não é perda de tempo. E repórter que é repórter vai ser sempre, porque isso tá no sangue.

Pedro Henrique Gomes

Todos os horrores do presidente

Pedro Henrique Gomes
3 de junho de 2017

Rever Todos os Homens do Presidente, filme de Alan J. Pakula sobre a investigação jornalística conduzida pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward e que resultou na renúncia do então presidente Nixon, não é menos que iluminador. O leitor ao certo conhece o caso Watergate: a detenção de 5 homens que tentavam instalar escutas e fotografar documentos a mando dos Republicanos na sede dos Democratas, em junho de 1972.

Corria a campanha que culminaria na reeleição de Nixon. Ele sabia dos grampos. Nixon renunciaria dois anos depois e acabaria generosamente anistiado por seu sucessor Gerald Ford, então vice-presidente. Pakula filmou a rotina dos jornalistas dentro do thriller de conspiração, de tramas subterrâneas, de informantes, de homens que sabem mais que outros, de poder e dinheiro, de mentira, de blefe; filma, claro, relações de força. O mundo é este de sangue e violência.

Junto com Klute (1971) e A Trama (1974), compõe a “tríplice coroa da paranoia” de Pakula. Filmes de conspiração e complô, assassinatos políticos e obsessões de indivíduos diante de acontecimentos públicos foram algo comuns a partir dos anos 1960 e 70 no cinema americano. O assassinato de Kennedy em 1963, filmado por Abraham Zapruder, teria sido a imagem detonadora da ficção paranóica, que legaria, além dos filmes de Pakula, A Conversação, de 1974, de Francis Ford Coppola.

A paranoia está sempre a nos rondar, seja como forma, seja como ideologia. Surge de um acontecimento factual, mais ou menos verdadeiro, e se desenvolve ad infinituum na mente do paranoico. No cinema, frequentemente só cessa com a morte do paranoico.

O recente e atual clima político brasileiro, em forma e ideologia, abre espaço a toda sorte de maquinações conspiracionistas. As teses de complôs políticos, para lá e para cá, pululam nos media. Em meio ao caos, aos fake news, ao fla-flu polarizador, é irônico que o fim do jornalismo seja, como todos os anunciados “fins”, ele também um embuste. Antes do que nunca, agora é preciso mais jornalismo, mais investigação séria, mais apuração. A tecnologia e seus usos pelas forças políticas da riqueza engendraram novas estruturas de dominação, controle e manutenção da barbárie civilizacional que nos acomete. Para derrubar um corrupto, parafraseando uma alegoria dos anos 1960, é também preciso que o jornalismo volte a ser perigoso. Se um dia o foi.

Tão série

House of Cards está de volta

Geórgia Santos
3 de junho de 2017

“I will not yield”

Frank Underwood, House of Cards

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“Eu não vou ceder!” É assim que Frank Underwood (Kevin Spacey) começa a quinta temporada de House of Cards, determinado a continuar sentado no Salão Oval da Casa Branca. Custe o que custar, é claro.

A série não está apenas na minha lista das melhores séries da vida mas também aparece como uma das melhores produções de todos os tempos segundo as revistas Time e Rolling Stone, por exemplo. E para alegria de todos e felicidade geral da nação (escolha a sua), o MEU malvado favorito está de volta. E eu diria mais sociopata do que nunca, mas a verdade é que está sombrio como sempre.

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Os novos episódios já estão disponíveis na Netflix. E haja retina para aguentar tantas horas em frente à tela, sem piscar. Porque é exatamente o que eu tenho feito nos últimos dias.

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House of Cards pode parecer inofensiva diante da realidade, seja ela Temer ou Trump. Afinal, o que os roteiristas podem inventar que seja surreal o suficiente para prender nossa atenção e, ao mesmo tempo, não reproduzir manchetes dos jornais que lemos todos os dias? Mas eu não apostaria nisso.

É verdade que há similaridades com o que tem acontecido no mundo – você vai ver como Frank pretende lidar com estrangeiros –, mas não são intencionais (a série foi gravada antes de Trump assumir) e o dark place de House of Cards está mais escuro do que nunca. Sem contar que, na minha opinião, basear críticas negativas à essa temporada porque “a realidade a torna sem relevância” é risível. Por pior que Trump seja, não parece que assassinatos sejam rotina. Variety diz que a série “ganha pontos pela relevância mas se arrasta com um interminável e aterrorizante cinismo – como se já não tivéssemos o suficiente disso”. Ou seja, até ano passado a série era incrível porque era provocadora e agora deixou de ser interessante porque temos cinismo o suficiente na vida real? Fala sério.

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Não acho que seja o melhor momento da série, mas é interessante, atraente e traz a tensão, o absurdo (espero) e as belíssimas atuações de Spacey e Wright, exatamente como as temporadas anteriores.

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A quinta temporada começa de onde parou, Frank e Claire (Robin Wright) disputam a presidência dos Estados Unidos como companheiros de chapa contra o republicano Will Conway (Joel Kinnaman), herói de guerra e governador de Nova York. Enquanto isso, o país sofre com a instabilidade na iminência de uma guerra após um cidadão americano ser decapitado por terroristas domésticos (quarta temporada).

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E Frank está adorando e aproveitando a situação para levar o pânico xenófobo ao limite. Ele se alimenta do medo. Ele gera o medo.

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Com essa tática, Underwood espera provar que ainda é o homem mais poderoso e necessário do mundo, vencer as eleições e desviar a atenção de jornalistas e inimigos políticos que estão perto de descobrir alguns – somente alguns – de seus desvios. A série ainda traz as tramas paralelas que envolvem a sexualidade de Frank e o estranho arranjo que ele fez com Claire e seu amante; dúvidas, vazamentos, traições e, claro, assassinatos.

Então não, não concordo com as críticas de que a série perdeu o seu mojo graças à aterrorizante realidade. Isso sim é cinismo.

E como diria Underwood no final do primeiro episódio:

“You have nothing to be afraid of”

“Você não tem nada pelo que temer”

 

Samir Oliveira

Por que devemos boicotar o Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv

Samir Oliveira
1 de junho de 2017
Foto: bdsmovement.net

Exatamente hoje, dia 1 de junho, tem início o Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv. O evento, que ocorre até o dia 10, está sendo alvo de uma convocação global da comunidade LGBT palestina para que seja boicotado por produtores, diretores e atores. Eu apoio totalmente esse pedido. Por quê?

Em 2005 a sociedade palestina lançou oficialmente uma campanha internacional por boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel. A data marca o aniversário de um ano do parecer da Corte Internacional de Justiça que condenou a construção do imenso muro que Israel havia começado a erguer nos territórios palestinos ocupados, transformando a Cisjordânia em uma verdadeira prisão a céu aberto. A muralha de concreto possui uma extensão de 760 km e uma altura de até 8 metros.

A convocação de um amplo boicote internacional a Israel é uma tática de resistência não violenta encontrada pela sociedade palestina para expor e isolar um regime colonialista. Mais do que isso: um regime que implementa um sistema cruel de apartheid contra o povo palestino.

Não é por acaso que o BDS é inspirado na campanha bem sucedida de boicote contra o regime sul-africano do apartheid – que só caiu graças à solidariedade internacional de um mundo envergonhado de fazer negócios e manter relações políticas e culturais com um Estado racista. Hoje lideranças importantes daquele movimento entendem que precisam mais uma vez se colocar do lado certo da História.

Uma delas é Desmond Tutu, bispo anglicano e prêmio Nobel da Paz. Um apoiador ferrenho do BDS. “Eu sei por experiência própria que Israel estabeleceu uma realidade de apartheid dentro de suas fronteiras e através da ocupação dos territórios palestinos. O paralelo com a minha amada África do Sul é dolorosamente certeiro”, disse.

BOICOTE CULTURAL

Uma das ramificações da campanha por BDS é o chamado por boicote cultural a Israel, conclamando artistas do mundo inteiro a se recusarem a emprestar seu prestígio a um regime colonialista. Este forte apelo já conscientizou músicos como Roger Waters, Lauryn Hill, Santana e Stevie Wonder.

Uma campanha muito incisiva foi feita para que Caeatno Veloso e Gilberto Gil cancelassem sua apresentação conjunta em israel em 2015. Mesmo não tendo sido plenamente convencido por ativistas e outros artistas, Caetano chegou a escrever um artigo na Folha de São Paulo relatando sua experiência na turnê e declarando que não voltaria mais a Israel. Ainda que tenha uma limitada compreensão do que significa o BDS, Caetano saiu deste tensionamento mais consciente a respeito da situação do povo palestino e da responsabilidade de Israel neste sistema de opressão.

O TLVFEST E O PINKWASHING

Desde 2006 o Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv, patrocinado e incentivado pelo Ministério da Cultura de Israel, recebe realizadores audiovisuais do mundo inteiro. De lá para cá, tem sentido o crescimento do chamado por boicote feito pelos LGBTs palestinos.

“Eu entendo eles. Não podemos fingir que não temos grandes problemas aqui. Eu também estou furioso com meu país”, disse o fundador do TLVFest, Yair Hochner. Palavras de um cineasta que não apoia o BDS, mas foi obrigado a reconhecer que o movimento tem razão de existir. Muitos cineastas já estão incluindo nos contratos com as distribuidoras uma cláusula que proíbe suas produções de serem exibidas em Israel.

A edição deste ano do TLVFest já coleciona uma significativa rede de adesões ao boicote. O cineasta sul-africano John Trengove divulgou um firme manifesto cancelando sua participação no festival:

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“Este é um problema muito sensível para nós, sul-africanos, que estamos com a dor da luta contra o apartheid ainda presente em nossa consciência coletiva. Conhecendo o que eu conheço, senti que seria imperativa a minha retirada deste festival. É impossível não reconhecer que o festival (e minha participação nele) funciona como uma distração das violações de direitos humanos cometidas pelo Estado de Israel. Um boicote rigoroso contra todas as iniciativas patrocinadas pelo governo israelense é necessário. Como sul-africano, eu sei por experiência própria como o boicote ajudou a consolidar as transformações democráticas no meu país. Por isso decidi somar meu nome e minha voz ao movimento por boicote a Israel.”

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O filme de Trengove, A Ferida, estava agendado para abrir as sessões do festival. A equipe inteira que produziu o documentário Chavela cancelou sua participação do evento. A produção retrata a vida da icônica artista mexicana Chavela Vargas, que aos 81 anos teve a coragem de declarar em uma entrevista que era lésbica.

As baixas ainda incluem a atriz canadense Fawzia Mirza, a cineasta alemã Helene Hegemann, a atriz suíça Jasna Fritzi Bauer e a palestina Nadia Abraham, que seria jurada do festival. Todas essas pessoas entendem que não podem fazer parte da máquina de propaganda de Israel – que utiliza a existência de determinados direitos à população LGBT no país para revestir seu regime colonial com uma tintura progressista. Esta é a prática que se convencionou chamar de Pinkwashing.

Não são poucos os exemplos de que Israel utiliza a situação da população LGBT no país para transmitir ao mundo a imagem de que seria uma democracia aberta e progressista. Um farol de luz em meio ao atraso do Oriente Médio. Enfim, insira aqui o clichê islamofóbico e racista que mais convém ao sionismo.

A página das Forças Armadas de Israel no Facebook chega a ser patética na tentativa de construir a imagem de um exército camarada. Como se existisse repressão amiga. É evidente que qualquer pessoa LGBT que queira seguir carreira militar em qualquer país do mundo precisa ser respeitada e ter os mesmos direitos que heterossexuais e cisgêneros.

Só que existe uma grande diferença entre assegurar direitos e utilizá-los como arma de guerra em uma disputa por sentidos. Ainda mais quando estes direitos são muito úteis a um sistema opressivo, pois garantem a Israel mais efetivo em campo para reprimir a população palestina, vigiar os inúmeros postos de controle – verdadeiros pedágios humanos que restringem o direito de ir e vir do povo palestino – e garantir a aplicação das mais de 50 leis que discriminam os palestinos em Israel e os transformam em cidadãos de segunda categoria.

Num país onde o serviço militar é obrigatório, o que se vê nas ruas, estradas e checkpoints são jovens fardados e assustados. Quase todos perdidos de armas na mão.

E A POPULAÇÃO LGBT PALESTINA?

Quem quiser desqualificar a denúncia do Pinkwashing como uma atitude homofóbica ou supostamente contrária à população LGBT de Israel vai se dar mal. É a própria população LGBT palestina – sim, ela existe! – e seus segmentos organizados que estão dizendo em alto e bom som: “Não se deixem enganar, Israel não respeita os direitos humanos”.

Organizações como a Al-Qaws – que significa Arco-Íris em árabe – e a Aswat (que significa Vozes) fazem um fantástico trabalho de base com a população LGBT dos territórios palestinos ocupados. Organizam festas, grupos de apoio psicológico, campanhas educativas e fornecem espaços seguros para troca de experiências e articulação coletiva. Tudo isso sem embarcar no discurso capenga de que Israel é um paraíso para os homossexuais enquanto a Palestina e o mundo árabe como um todo reservam apenas sofrimento e perseguição a LGBTs.

Os LGBTs palestinos estão demonstrando na prática que é possível lutar contra o preconceito em suas comunidades sem aderir ao homonacionalismo sionista. Sem ter que fazer uma falsa escolha entre quem são e de onde vêm.

LINKS DE INTERESSE

– BDS Movement: https://bdsmovement.net
– Leis que discriminam a população árabe de Israel: https://www.adalah.org/en/law/
– Manifesto por boicote ao Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv: http://www.pinkwatchingisrael.com/portfolio/tlvpride17/#!prettyPhoto
– ONG Al-Qaws: http://www.alqaws.org/siteEn
– ONG Aswat: https://www.facebook.com/aswat.voices/
– Pinkwatching Israel: http://www.pinkwatchingisrael.com/
Foto: bdsmovement.net

Nós US

Não, não querem que tenhas cobertura médica mesmo

Sacha
25 de maio de 2017
(you can read this article in English here)

Parecia a nota final em março quando, para a surpresa de ninguém, o Partido Republicano não conseguiu passar o seu esboço de legislação sobre o sistema de saúde dos Estados Unidos. Foi escrita às pressas sem que o partido tivesse uma ideia esclarecida do que queria fazer para revogar e substituir o nomeado Obamacare, já há vários anos em vigor. Foi tudo um fracasso. Porém, passados dois meses, uma versão não mais bem articulada da mesma legislação foi apresentada novamente e, desta vez, passou. O Senado terá a última palavra sobre emendas e mudanças da proposta.

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Revela-se um desejo cínico de tirar a cobertura médica que as massas agora desfrutam

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Basta dizer que a proposta de legislação seria um desastre para os milhões que adquiriram plano de saúde com o Obamacare. Para aplacar a facção conservadora do partido, todo tipo de condição médica existente ou deixava de ser incluido na cobertura, ou teria franquias absurdamente altas. Esta legislação é um ataque frontal à saúde e ao bem-estar da população do país. E não é mera coincidência.

Parte da explicação disso tudo é porque assistência médica não é vista como um direito fundamental no lado conservador dos Estados Unidos, senão um privilégio para quem tiver o poder adquisitivo mantê-la. Segundo a lógica, o interesse não reside no paciente ou segurado, mas sim na corporação que ganha com isso. Acham que a cobertura em massa da população americana gera danos para as seguradoras e provedores de assistência médica. Resta constar que nem a população está disposta a uma reforma de tamanho impacto, nem as seguradoras estão contentes com as mudanças propostas. Revela-se, portanto, um desejo cínico de tirar a cobertura médica que as massas agora desfrutam.

A versão nova da legislação aplacou uma divisão dos conservadores suficiente para passar na Câmara. Não é de todo legislação bem pensada, nem apoiada pelo público. Falta ver se o Senado reconhece o cenário como tal, ou se a saúde for o tema que expulsa os republicanos do poder no Congresso em 2018.

Imagem: Maria Kaloudi
Nós US

No, They Really Don’t Want You to Have Medical Coverage

Sacha
25 de maio de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

It seemed like the last note in March when, to the surprise of no one, the Republican Party wasn’t able to pass its draft legislation on the medical system in the United States. It was written in haste without the party so much as having a clear idea about what it wanted to do in order to repeal and replace the so-called Obamacare, already several years in place. It was a complete failure. However, two months later, a new, no better articulated version of the same legislation was presented and passed. The Senate will have the final word on amendments and changes to the proposal.

What’s left is a cynical desire to strip the medical coverage that the masses now enjoy

Suffice it to say that the proposed legislation would be a disaster for the millions who acquired health insurance under Obamacare. To appease the most conservative faction of the party, all sorts of pre-existing conditions would either no longer be included in coverage plans, or would see their premiums skyrocket. This legislation is a direct attack on the health and well-being of the country’s population. And it’s not a coincidence.

Part of the explanation is that healthcare is not seen as a fundamental right by conservatives in the United States. Instead, it’s considered a privilege for those who have the means to sustain it. By this logic, the interest isn’t in the patient or insured person, but in fact in the corporation that profits off of them. They believe that mass coverage of the American population creates problems for insurance and medical providers. However, neither is the public at large predisposed to such a dramatic reform, nor are insurance and medical providers happy with the proposed changes. What’s left, then, is a cynical desire to strip the medical coverage that the masses now enjoy.

The new version of the legislation appeased enough of the conservatives to pass the House. It’s not at all well thought out, nor supported at large. We’ll see yet if the Senate recognizes that, or if healthcare will be the issue that forces Republicans out of power in the Congress in 2018.

Image: Maria Kaloudi
Samir Oliveira

O Estado te considera doente?

Samir Oliveira
25 de maio de 2017
Foto: Elza Fiuza/ABr

Semana passada se comemorou em 17 de maio o Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia. A data tem um significado histórico. Foi em 17 de maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar a homossexualidade uma doença. Devemos celebrar muito esta conquista. Foi um importante respaldo institucional que certamente contribuiu no processo de empoderamento de muitos homossexuais no mundo inteiro.

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Fica muito mais fácil migrar da vergonha para o orgulho quando a principal organização internacional de saúde reconhece que a homossexualidade é uma expressão natural sexualidade humana, não uma doença

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Acontece que, 27 anos após esta conquista, não podemos esquecer que a população de travestis e transexuais ainda não tem este “privilégio” de não ser considerada doente. De ter sua expressão de gênero tratada pela medicina e pelo Estado como algo natural, não como um transtorno psiquiátrico.

Até hoje o Catálogo Internacional de Doenças (CID) da OMS considera o “transexualismo” e a “travestilidade” como doenças mentais. As instituições da psiquiatria também apertam seus torniquetes contra esta população. O Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM) lista a transexualidade como uma “disforia de gênero”.

Não se trata apenas de letras mortas em catálogos e manuais. Estas classificações têm um efeito cruel na vida de travestis e transexuais, que precisam submeter-se a laudos psiquiátricos para ter acesso a tratamentos hormonais e para conseguir, na Justiça, o direito pleno à identidade.

É um absurdo que deixaria qualquer pessoa cisgênera completamente revoltada se tivesse que ser submetida a este tipo de procedimento. Imaginem a Justiça exigir que a medicina lavre um laudo para dizer que uma pessoa cisgênera de fato se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento? São opressões que o CIStema direciona apenas à população T.

Somente a mobilização da população LGBT organizada e a solidariedade de todas e todos que acreditam em um mundo mais justo e igualitário poderá fazer com que não se leve mais 27 anos para mudar esta situação.

Foto: Elza Fiuza/ABr

Pedro Henrique Gomes

A lista do Chico

Pedro Henrique Gomes
20 de maio de 2017

Saiu a mais esperada lista do ano: a do Chico!

Eu explico. O jornalista e crítico de cinema Chico Fireman pediu para críticos, cineastas, jornalistas e cinéfilos que lhe enviassem uma lista com os seus 20 filmes favoritos. O resultado é uma compilação de menções a centenas de filmes. Como lista é uma tendência por aqui, Chico recebeu o vazamento de dezenas delas. No último minuto mandei a minha, meio de susto, com o que foi vindo na memória. O filme que dá título a esta coluna, desnecessário dizer, é hors concours.

Pequeno Fugitivo, O (1953), Ray Ashley, Morris Engel
Corpo que Cai, Um (1958), Alfred Hitchcock
Chinesa, A (1967), Jean-Luc Godard
Vinhas da Ira, As (1940), John Ford
Noite da Noiva, A (1967), Karel Kachy?a
Lírio Partido (1919), D.W. Griffith
Diabo, Provavelmente, O (1977), Robert Bresson
Bunny Lake Desapareceu (1965), Otto Preminger
Rastros de Ódio (1956), John Ford
Amantes (2008), James Gray
Viagem da Hiena, A (1973), Djibril Diop Mambéty
Pagamento Final, O (1993), Brian De Palma
Terra em Transe (1967), Glauber Rocha
Turba, A (1928), King Vidor
Era uma vez no Oeste (1968), Sergio Leone
Amantes Crucificados, Os (1954), Kenji Mizoguchi
Prelúdio para Matar (1975), Dario Argento
Solei O (1970), Med Hondo
Portal do Paraíso, O (1980), Michael Cimino
Cidadão Kane (1941), Orson Welles

Além disso, Chico separou as listas em categorias. Deixo abaixo os links para todas elas. Divirtam-se!

Os melhores filmes de todos os tempos

O ranking alternativo

Melhores por década

O melhor de cada ano

Os melhores por país

As listas individuais

Os rankings temáticos

Todos os filmes votados na enquete

Reporteando

Silêncio também é furo jornalístico

Renata Colombo
18 de maio de 2017
(Brasília - DF, 18/05/2017) Pronunciamento do Presidente da República, Michel Temer, à imprensa. Foto: Alan Santos/PR

Vocês estão assistindo, meus caros, de camarote no cenário político brasileiro, a um exemplo do que chamamos de preservar o sigilo da fonte. Durante cerca de um mês, pelo menos cinco  instituições diferentes compartilharam das mesmas informações enquanto uma ação da Polícia Federal – nunca antes vista – estava em curso. NINGUÉM vazou sequer uma frase sem sentido. NADA veio a público até o momento certo.

Procuradoria-geral da República (Ministério Público Federal), Supremo Tribunal Federal, delatores da JBS, advogados da JBS, o jornalista Lauro Jardim. O que eles têm em comum? Guardaram um grande segredo durante o tempo necessário para que a operação Lava Jato chegasse ao presidente Michel Temer, ao senador Aécio Neves e a outros políticos do alto clero do governo federal.

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O segredo garantiu que a PF tivesse tempo para colocar carimbos em notas para pagamento de propina e chip rastreador nas malas, para que a corrupção transcorresse da forma mais tranquila possível para os envolvidos – sim, é isso mesmo

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Isso é muito raro, muito. Na maioria das vezes nós, repórteres, somos ansiosos, queremos garantir o furo jornalístico, não admitimos perder. Infernizamos a vida de advogados e assessores para conseguir vazar uma mísera informaçãozinha e eles fazem o mesmo conosco. Porém, segurar a ansiedade também nos permite contar histórias como esta e escrever uma nova versão do Brasil. Porque este livro está um pouco empoeirado, precisando de uma limpeza.

Foto: Alan Santos/PR