Raquel Grabauska

Livros para esperar o(a) irmãozinho(a)

Raquel Grabauska
12 de setembro de 2016

A chegada de um novo integrante na família é motivo de muita alegria.E sono.  E ansiedade. E confusão.E sono. Os sentimentos se misturam, se repetem, se alternam. Quando fiquei grávida do Tom, o Benjamin ganhou de uma amiga minha muito querida o livro “Eu Amo o Meu Irmãozinho”, de Anna Walker, da Editora Fundamento. 


Foi muito legal pra nós. Ele via a barriga crescendo e via o Nico, o personagem do livro que também ganha um mano tendo que se adaptar a nova formação da família. Isso rendeu muitas conversas com meu umbigo. O Benjamin tinha certeza de que falando no meu umbigo o mano escutava ele. Quem sou pra discordar?  Essa identificação com o Nico fez muito sucesso aqui.

Nos preparou um pouco pra nova configuração da família. Mesmo depois que o Tom nasceu seguimos lendo. E tem dias em que surgem brigas de irmãos, disputas de brinquedos. Nesses dias leio antes de dormirem e os dois acabam se aproximando. tem dias que livro nenhum aproxima ninguém, mas deixa assim, são poucos…
Essa semana achei um outro bem bonito, e já dei para uma amiga querida que está esperando o segundo filho. O livro se chama Um Bebê vem aí, de John Burningham e Helen Oxembury, Editora Paz e Terra. 

É um presente pra toda a família!

Igor Natusch

Hora de rever o resultado das urnas. De novo

Igor Natusch
12 de setembro de 2016

Cumprir mandato é quase missão impossível no Brasil. E isso diz muito sobre nossa política

De todos os presidentes que tivemos desde 1930, apenas quatro foram eleitos em votação direta e, ao mesmo tempo, tiveram oportunidade de cumprir seus mandatos até o fim. O dado, mencionado pela primeira vez no twitter por André Mendes Pini, é exatamente esse aí que você acabou de ler. Dos mais de vinte governantes que tivemos nos últimos 86 anos, apenas quatro puderam, uma vez abençoados pelas urnas, levar seus mandatos até o final. Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva. Quatro. Somente quatro.

OK, eu dou alguns segundos para que você possa digerir essa informação.

A partir daí, é possível fazer algumas ponderações. Na verdade, Lula e FHC cumpriram dois mandatos cada um, Dilma cumpriu seu primeiro mandato até o fim, então são sete períodos cumpridos na íntegra por presidentes eleitos, e não quatro. Da mesma forma, vale lembrar que João Goulart foi eleito de forma direta, em uma chapa separada, para ser vice-presidente de Jânio Quadros. Ou seja, diferencia-se da situação de Itamar Franco e, ao que tudo indica, Michel Temer – eleitos sim, mas como integrantes de uma chapa fechada, do mesmo modo que se vê eleito o suplente de um senador, por exemplo.

São ressalvas justas, mas que não mudam o fato simples e assombroso. Ser eleito pelo povo e cumprir o mandato que recebeu, algo que deveria ser a mais natural das regras democráticas, é uma exceção em quase um século de trajetória política brasileira. Observado dentro desse padrão, o corrente (e, no momento em que escrevo, virtualmente consumado) impeachment de Dilma Rousseff ganha diferentes contornos: deixa de ser um processo particular, movido por razões e circunstâncias particulares, e insere-se em um cenário de quase permanente instabilidade política e institucional.

Mais de uma vez sofremos a intervenção de forças pretensamente piedosas, querendo nos salvar de nosso próprio voto. Seja pela intervenção do Congresso, seja pelo golpe militar, seja pela ação parlamentar que muita gente diz que é golpe. Além dessas, tivemos também uma renúncia, e um presidente que tinha sido ditador e decidiu matar-se com um tiro no peito. Ignorando a ilegitimidade total da ditadura militar, sobraram dessas interrupções alguns interinos inseguros e vice-presidentes que herdam um comando para o qual dificilmente teriam sido eleitos, fossem cabeças de chapa. A unir esses encerramentos abruptos e reinícios hesitantes, é claro, um quase permanente cenário de convulsão social. Nossa democracia é conturbada e confusa, uma espécie de amor bandido que nunca se cansa de recomeçar.

Agora estão, percebam bem, tentando nos salvar de nós mesmos uma vez mais. Dilma Rousseff é uma governante fraca e sem apoio, que navega em águas turbulentas desde que foi eleita, que conduziu o país a partir de um modelo econômico irresponsável e criou dificuldades para milhões de brasileiros. As pedaladas e demais crimes de responsabilidade podem ser deixados de lado neste momento, concorde você ou não com as acusações: o grande objetivo, a meta final desse arrastado e dramático processo de impeachment é dar um reset na política nacional. De novo. Os próprios deputados e senadores que votarão pelo encerramento da Era Dilma admitem isso, sem muito esforço em disfarçar. A partir da saída de Dilma do Planalto, acreditam seus opositores, teremos a chance de colocar as coisas nos eixos. De novo. Porque o eleitor foi enganado, porque a situação saiu do controle e ninguém aguenta mais. De novo.

Não dá para levar muito a sério uma democracia que está sempre devorando o próprio rabo. Não dá para dizer que funcionam instituições que nunca conseguem garantir para nossa viagem democrática muito mais que vinte anos sem turbulência. E não podemos nos furtar a olhar no espelho e tentar entender por que diabos é tão difícil que nossos presidentes tomem posse como num reloginho, de quatro em quatro anos, nem mais e nem menos. Sem entender o que nos impede de concluir as coisas, nunca deixaremos de reiniciá-las.

Remover presidentes eleitos é um aspecto da democracia, dirão alguns. Até é, mesmo. Ainda assim, sou forçado a lembrar para vocês: quatro presidentes em 86 anos. Quatro. Apenas quatro.

Não dá para fingir que está tudo bem. Nem para acreditar muito que agora vai.

Voos Literários

A Literatura no Brasil é mesmo para poucos?

Flávia Cunha
12 de setembro de 2016

Vivemos um momento de crise no cenário político brasileiro. Isso não é novidade para ninguém, a não ser que você viva em Marte. (E talvez, mesmo lá, os marcianos estejam atentos ao que está acontecendo por aqui). Com esse panorama, falar sobre Literatura parece um pouco deslocado ou até mesmo uma alienação.

Porém, vale lembrar o papel relevante que as Artes ocupam nesses momentos de tensão social. As músicas de protesto durante o regime militar no Brasil e o quadro Guernica, de Pablo Picasso, como símbolo da guerra civil espanhola, são apenas alguns exemplos disso.

Soma-se a esse cenário, as redes sociais, em que cada vez mais gente compartilha informações sem ler e interpretar textos com a devida propriedade, deixando visível os problemas estruturais da educação no Brasil. O incentivo à leitura, de uma forma geral, seria importante para acabarmos com os alarmantes índices de analfabetismo funcional no país.

Mas um problema adicional à essa equação é a existência de uma parcela de intelectuais que se apropria da Literatura como em uma seita. Para esse grupo seleto, apenas alguns eleitos são os escritores de verdade e, evidentemente, seus leitores são seres superiores com a capacidade de compreender essas obras herméticas.

Mas será que somente os clássicos são realmente importantes para que haja um número mais expressivo de leitores no nosso país? Acadêmicos torcem o nariz para jovens (e adultos) que lêem Harry Potter, Jogos Vorazes, Percy Jackson e outras franquias do gênero. Mas considero que seria mais conveniente que os best sellers fossem uma porta de entrada para obras mais refinadas, de autores como José Saramago, Guimarães Rosa, Machado de Assis e até o temido James Joyce.

Tudo é uma questão de ir exercitando a mente. Afinal, nenhum corredor começa seus treinos com uma maratona. Então, leitores de primeira viagem não deveriam ser submetidos a obras complexas, que mais contribuem para afastá-los da Literatura do que despertar o verdadeiro gosto pela leitura, fundamental para uma mudança nessa conjuntura atual.

 

Dicas de Leitura:

  • Por que ler os Clássicos – Ítalo Calvino
  • Coleção Clássicos Comentados (diversos autores) – Editora: Ateliê Editorial
Voos Literários

O culpado é o mordomo ou histórias de detetive sempre farão sucesso

Flávia Cunha
12 de setembro de 2016

Sou fã de livros policiais, de preferência com o estilo clássico do detetive especialista em desvendar segredos e mistérios insolúveis para nós, leitores. De Sherlock Holmes passando por Hercule Poirot e Miss Marple, esse tipo de personagem encanta e fascina milhões de pessoas ao redor do mundo.

Mas por que será que mesmo tantos anos após Conan Doyle e Agatha Christie terem consagrado esse estilo literário ele prossegue sendo um fenômeno editorial? Talvez seja pelo conforto de termos a certeza que saberemos quem é o culpado de determinado crime, porque ele certamente será revelado nas últimas páginas do livro. Se pensarmos no cenário político brasileiro atual, essa convicção desaparece rapidamente, independente das nossas ideologias e crenças partidárias.

Escândalos de corrupção invadem os noticiários diariamente, até chegarmos a um sentimento de desesperança e desilusão sobre o futuro dessa nação. Nesse cenário, nada mais reconfortante mesmo do que procurar um livro em que os herois e vilões estão bem claros ou que o assassino será desmascarado no final.

Uma sugestão para quem gosta do estilo policial mas também busca uma boa análise da natureza humana são as obras do belga Georges Simenon e seu Comissário Maigret, protagonista em 75 novelas e 28 contos publicados entre 1931 e 1972. O personagem é descrito como corpulento, taciturno e até um pouco melancólico. Porém, esse policial francês não sossega até descobrir os culpados dos crimes que investiga. Nessa apuração, é que a capacidade de observação do detetive chama a atenção durante a leitura. Paris e seus habitantes são descritos em detalhes e com uma ácida visão de mundo.

Um exemplo de como as obras de Simenon não envelheceram pode ser observado já no primeiro livro em que Maigret aparece, Pietr, O Letão. Em dado momento, um policial reclama com o Comissário sobre os problemas provocados por estrangeiros na França, em uma perturbadora demonstração que a xenofobia está longe de ser um problema recente na Europa.

 

  • Sugestões de leitura:
  • Morte na Alta Sociedade – Georges Simenon
  • O Misterioso Caso de Styles – Agatha Christie (primeira aparição de Poirot)
  • Assassinato na Casa do Pastor – Agatha Christie (primeiro caso de Miss Marple)
Catraqueanas

(Ainda) há relação entre (falta de) qualidade e verdade?

Gustavo Mittelmann
12 de setembro de 2016

Hoje em dia, internet praticamente significa vídeo, e vice-versa. Passa dos 86% o total de internautas brasileiros que assistem a vídeos online. A mudança não é apenas de mídia, plataforma. Linguagem e estética também passaram por uma forte adaptação. Como figuras de destaque nessa nova onda millenial da comunicação, estão os Youtubers. Uma câmera no celular, um quarto de cenário e uma ideia de fama na cabeça. E não é que deu certo? Milhares, ou milhões, de fãs e seguidores depois, o que começou não como opção, mas como solução para viabilizar a produção com limitações de verba, equipamentos e conhecimento técnico, acabou se tornando uma prisão. O público associou essa estética caseira à sensação de verdade, vida real – e se identificou.

De fato, era isso mesmo; a gurizada mostrava como jogava aquele game, como se maquiava, o que comprava e o que gostava. Fisgou a toda uma geração. E às marcas também. Estas, passaram a querer inserir seus produtos nos vídeos daqueles. Eles, ficaram tentados a ter uma renda bem maior à proporcionada apenas pelas visualizações do Youtube.

Os games, as maquiagens, as compras e as viagens começam a se transformar em presentes. E mais, acompanhados de substanciosos cachês. Daria pra comprar uma câmera melhorzinha, um microfone, quem sabe até um quarto novo, em um apartamento novo. Mas se a coisa ficar bonita e produzida, para onde vão os seguidores (e, junto, as marcas e o dinheiro que elas colocam que poderia bancar tudo isso)?

A partir desse ponto, vemos o que era solução, se transformar em opção. Mais do que isso, passa a ser quase uma interpretação. O pensamento dominante é fingir que continua caseiro e humilde, para o público fingir que continua achando que é verdadeiro. Faz de conta que era esse jogo mesmo que eu ia comprar; que é a opção mais legal. Que esse é o BB Cream que cobre melhor as manchas, que é o perfume que eu procuro sempre pra comprar parcelado na Renner e que eu sempre quis conhecer a NASA, mais do que a Disney. Vai mais longe: faz de conta que fui eu mesmo quem escreveu esse livro que todo adolescente vai comprar e quase nenhum vai ler de fato.

E assim, vemos surgir uma geração de garotos-propaganda travestidos de influenciadores. E um mercado fracamente disfarçado de verdade, mas que, por conveniência, os interlocutores fingem não ver. O quarto virou mercado negro.

Guia de Viagem

O Novo Velho Continente

Ana Martins
12 de setembro de 2016

Crise! É o clima político que percorre o Ocidente—de norte a sul aí no “novo mundo”, de canto a canto aqui pelo velho. Em poucos anos vivemos, não uma, mas muitas crises sucessivas. E do seu cúmulo, o velho continente já não nos parece tão familiar. Paira no ar a sensação de que a Europa que até ora conhecemos mudou, sem se saber bem para o quê.

“A história é feita de longos períodos em que nada parece mudar, e de momentos em que o mundo parece ter mudado de repente”, ouvi um dia um Professor dizer. Estes “momentos” começaram em 2008 com o estalar da crise financeira, mas têm ocorrido a um ritmo cada vez mais acelerado nos últimos dois, quase três, anos.

Despertámos em choque no início de 2014 com a anexação da Crimeia pela Rússia. Um momento que trouxe à memória europeia a era de conflitos que julgávamos ter deixado no século XX. Parecia ser coisa do passado. Mas de um passado bem mais distante são os atos de violência inqualificável praticados em nome de um Deus, pensávamos.

2015 começou com o ataque islamista (fundamentalista, entenda-se—não islâmico) a Charlie Hebdo, e acabou com os ataques de Paris em novembro. Seguiram-se este ano os ataques no Aeroporto de Bruxelas e mais recentemente em Nice. Novidade não eram—vimos ataques destes ao longo da última década. Mas a insistência em tão curto espaço de tempo operou uma mudança na nossa perspectiva. Um ataque terrorista entristece-nos, preocupa-nos, revolta-nos, mas já não nos surpreende. E isto sim é novidade!

Coisa do passado parece-nos também o apoio crescente à extrema-direita que se alimenta de sentimentos racistas, xenófobos e nacionalistas que aqueles acontecimentos só vieram intensificar. Há quem veja nestes sentimentos a causa do momento histórico que fez toda a Europa estremecer há poucos meses atrás: o Brexit. Houve, convém dizer, argumentos sãos e sérios do lado Leave. Mas o certo é a incerteza que esta decisão inédita trouxe para o futuro do Reino Unido e da União Europeia. Teme-se pela coesão das duas uniões, especialmente desta última com as eleições francesas e alemãs a caminho—dois países onde a extrema-direita tem ganho terreno.

Já na Península Ibérica, a ascensão do outro extremo—à esquerda—lançou Portugal e Espanha em situações sem precedente, ainda que diferentes. Há um ano os dois países atravessavam eleições em simultâneo. Em Portugal o partido de centro-esquerda aliou-se aos partidos da extrema-esquerda formando um governo famosamente apelidado de “gerigonça”. Mas um ano depois, Espanha nem gerigonça tem! Irá a eleições pela terceira vez antes do final deste ano—um recorde!

Novidades eleitorais e referendárias à parte, o que é mais preocupante são as vozes antieuropeístas numa União Europeia instável, incerta e desacreditada. Fora dela ficará certamente a Turquia depois de uma tentativa de golpe de Estado levar o país a dar uma guinada para o autoritarismo desvelado. E pelo meio fica uma crise ainda mais difícil de resolver: a dos refugiados Sírios e de outras partes de um Médio Oriente sem paz à vista. Esta é a mais urgente e desumana das crises que afetam a Europa. É um problema que aprofunda as suas divisões, medos e hesitações, e que a faz questionar-se acerca dos seus valores fundamentais.

Todas estas crises evidenciam uma crise ainda mais profunda: a crise de identidade europeia. Diz-se que a UE é um OPNI (Objeto Político Não Identificado). E este mistério está no cerne da discussão entre e no interior dos seus Estados-membros que ponderam o grau de “união” que querem na União, já para não mencionar se querem continuar a ser parte dela.

Mas crise é sinal de mudança que, não vindo a bem, vem a mal. Estas crises podem parecer inesperadas, mas os sinais estavam à vista para quem os quisesse ver. A liderança europeia, até agora inerte, confronta-se com as questões de fundo que tem evitado. O que virá das crises financeira, de segurança, estrutural, política e humanitária está nas suas mãos. Pode ser que desta crise existencial o velho continente saia esclarecido quanto à sua identidade e direção nesta era globalizada.

Daqui da Europa prometo partilhar com o Vós o que vou percebendo deste novo velho continente.

Até breve,

Ana