Geórgia Santos

Meia-noite ainda não chegou mas a legalidade já virou abóbora

Geórgia Santos
12 de setembro de 2016

Era uma vez uma jovem chamada Democracia.

Linda, era daquele tipo de mulher que contagia, sabe? Uma brasileira voluptuosa de cerca de 30 anos com um poder hipnotizador. Com aquele sorriso largo, cheio de dentes e significado, ela dominava qualquer ambiente. Parecia quase uma justiceira, uma Mulher Maravilha em roupas mais discretas, talvez, mas sempre com o laço da verdade.

Ela era do tipo que acreditava realmente na igualdade, dizia que somente na igualdade nossa sociedade pode evoluir. Mais do que isso, ouvia a todos com a mesma atenção enquanto pregava que a liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades. Ela era tão livre que costumava sair correndo por aí, deixando sua marca por onde quer que passasse. Mas ela detestava atalhos. Ah, como detestava.

Mas esse caráter afável e altivo da Democracia a deixava vulnerável. Ela confiava e abraçava a todos mas nem todos o faziam com sinceridade. No discurso, eram amigos, mas pelas costas, o jeito faceiro dessa mulher inteligente e intensa, com os lábios sempre pintados de vermelho, incomodava aos que preferem uma moça recatada e do lar.

Em público, era a namoradinha do Brasil. Mas a portas fechadas, diziam que não é pra casar.

Todo o cinismo a deixou frágil a ponto de ela se tornar refém de sua madrasta, dona Câmara, que tinha duas filhas muito malvadas, chamadas Corrupção e Farsa. Ah, como elas a maltratavam. Dona Câmara fazia dela um joguete, usava seu nome quando considerava conveniente, mas não tinha a menor consideração por ela, o menor cuidado. E suas irmãs não perdiam a oportunidade de a destruir. Corrupção e Farsa constantemente espancavam Democracia diante de todos, que assistiam atônitos ao espetáculo. Rasgavam sua roupa, machucavam seu corpo e cometiam os abusos mais atrozes.

Depois de muito sangrar, porém, Democracia se reergueu. Com a ajuda de tantos admiradores que jamais deixaram de acreditar, ela percebeu que podia confiar no futuro. Justiça, a fada madrinha, preparou-a para uma nova vida. Pegou uma abóbora, transformou-a em bicicleta mágica e chamou de Legalidade.

Por um tempo,  a Legalidade conduziu Democracia. Por caminhos tortos às vezes, é verdade, mas elas sempre chegavam ao destino.

Justiça não avisou, no entanto, que Legalidade sucumbiria eventualmente.E todos descobriram da maneira mais dura.

Meia-noite ainda não chegou, mas Legalidade já virou abóbora e Democracia está ferida.

(Espero que não seja o Fim)

Geórgia Santos

R.I.P. Jornalismo ou (Você não pode achar isso normal)

Geórgia Santos
12 de setembro de 2016

Em 2013, os brasileiros foram surpreendidos com protestos massivos, que reuniam milhares e milhares de pessoas nas ruas de inúmeras cidades do país. Quem preferiu testemunhar do sofá, via a tudo estático, extasiado, empolgado e até assustado. Em grande parte, foram transmitidos em tempo real em canais de notícias da TV Fechada, especialmente a GloboNews. Até que alguém cunhou uma frase que resumia bem a situação: “O gigante acordou”. As pessoas, de repente, lembraram que a rua era, sim, lugar de protesto e reivindicação. E mesmo um público tão heterogêneo como aquele poderia querer a mesma coisa.

Ao longo desses últimos três anos, muita coisa aconteceu. Muitos protestos também. E com eles, muitos repertórios de reivindicação pertencentes a uma gama ampla e diversa (cartazes, gritos, apitos, depredação etc). Foi contra o governo em 2013, contra a Copa em 2014, contra Dilma em 2015, contra e a favor do Impeachment em 2016.

Com relação a esses últimos, a grande imprensa teve uma reação quase orgásmica. Deleitava-se com os protestos que fazia questão de dizer que eram pacíficos enquanto mostrava fotografias de criancinhas abraçadas em policiais e babás empurrando os carrinhos do bebê. Mas tudo bem, manifestação mais do que legítima e definitivamente expressiva (alguns falam na casa do milhão, mas as fotos são contraditórias. Deixemos assim).

Já sobre protestos contra impeachment, o foco da mídia é a “destruição”. Milhares de pessoas tomam as ruas, mas o mais importante é confronto com a polícia. Milhares estão indignados com a situação política, mas o grupo de 10 vândalos tem mais destaque. Uma menina ficou cega, mas o absurdo está em queimar contêiner.

Que seja. It happens.

Mas nada foi como que o jornal O Estado de São Paulo fez hoje.

Ontem (04), mais de cem mil pessoas saíram às ruas da capital paulista (e outras cidades do Brasil) para protestar contra o novo “presidente”, Michel Temer, que havia dito que havia umas 40 pessoas na rua. O “Fora Temer” ecoava pelo país inteiro em um grito pacífico. Sim, pacífico. Sem quebradeira, sem vandalismo, sem incêndio.

Sabe qual foi a capa do jornal O Estado de São Paulo nesta segunda-feira, dia 05?

A CANONIZAÇÃO DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Meia dúzia de palavras sobre o protesto em uma nota microscópica que ressalta um tumulto inexistente e nenhuma foto.

Em outros periódicos, frisaram o “confronto” que ocorreu no final do protesto. Detalhe, não houve confronto, apenas uma ação arbitrária da polícia, que usou bombas de gás para dispersar o público que não fez absolutamente nada a não ser gritar. Além, é claro, do jornalista agredido gratuitamente por policiais.

Se os manifestantes choraram a morte da democracia, eu registro aqui meu pesar pelo falecimento do jornalismo.

Raquel Grabauska

Livros para esperar o(a) irmãozinho(a)

Raquel Grabauska
12 de setembro de 2016

A chegada de um novo integrante na família é motivo de muita alegria.E sono.  E ansiedade. E confusão.E sono. Os sentimentos se misturam, se repetem, se alternam. Quando fiquei grávida do Tom, o Benjamin ganhou de uma amiga minha muito querida o livro “Eu Amo o Meu Irmãozinho”, de Anna Walker, da Editora Fundamento. 


Foi muito legal pra nós. Ele via a barriga crescendo e via o Nico, o personagem do livro que também ganha um mano tendo que se adaptar a nova formação da família. Isso rendeu muitas conversas com meu umbigo. O Benjamin tinha certeza de que falando no meu umbigo o mano escutava ele. Quem sou pra discordar?  Essa identificação com o Nico fez muito sucesso aqui.

Nos preparou um pouco pra nova configuração da família. Mesmo depois que o Tom nasceu seguimos lendo. E tem dias em que surgem brigas de irmãos, disputas de brinquedos. Nesses dias leio antes de dormirem e os dois acabam se aproximando. tem dias que livro nenhum aproxima ninguém, mas deixa assim, são poucos…
Essa semana achei um outro bem bonito, e já dei para uma amiga querida que está esperando o segundo filho. O livro se chama Um Bebê vem aí, de John Burningham e Helen Oxembury, Editora Paz e Terra. 

É um presente pra toda a família!

Igor Natusch

Hora de rever o resultado das urnas. De novo

Igor Natusch
12 de setembro de 2016

Cumprir mandato é quase missão impossível no Brasil. E isso diz muito sobre nossa política

De todos os presidentes que tivemos desde 1930, apenas quatro foram eleitos em votação direta e, ao mesmo tempo, tiveram oportunidade de cumprir seus mandatos até o fim. O dado, mencionado pela primeira vez no twitter por André Mendes Pini, é exatamente esse aí que você acabou de ler. Dos mais de vinte governantes que tivemos nos últimos 86 anos, apenas quatro puderam, uma vez abençoados pelas urnas, levar seus mandatos até o final. Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva. Quatro. Somente quatro.

OK, eu dou alguns segundos para que você possa digerir essa informação.

A partir daí, é possível fazer algumas ponderações. Na verdade, Lula e FHC cumpriram dois mandatos cada um, Dilma cumpriu seu primeiro mandato até o fim, então são sete períodos cumpridos na íntegra por presidentes eleitos, e não quatro. Da mesma forma, vale lembrar que João Goulart foi eleito de forma direta, em uma chapa separada, para ser vice-presidente de Jânio Quadros. Ou seja, diferencia-se da situação de Itamar Franco e, ao que tudo indica, Michel Temer – eleitos sim, mas como integrantes de uma chapa fechada, do mesmo modo que se vê eleito o suplente de um senador, por exemplo.

São ressalvas justas, mas que não mudam o fato simples e assombroso. Ser eleito pelo povo e cumprir o mandato que recebeu, algo que deveria ser a mais natural das regras democráticas, é uma exceção em quase um século de trajetória política brasileira. Observado dentro desse padrão, o corrente (e, no momento em que escrevo, virtualmente consumado) impeachment de Dilma Rousseff ganha diferentes contornos: deixa de ser um processo particular, movido por razões e circunstâncias particulares, e insere-se em um cenário de quase permanente instabilidade política e institucional.

Mais de uma vez sofremos a intervenção de forças pretensamente piedosas, querendo nos salvar de nosso próprio voto. Seja pela intervenção do Congresso, seja pelo golpe militar, seja pela ação parlamentar que muita gente diz que é golpe. Além dessas, tivemos também uma renúncia, e um presidente que tinha sido ditador e decidiu matar-se com um tiro no peito. Ignorando a ilegitimidade total da ditadura militar, sobraram dessas interrupções alguns interinos inseguros e vice-presidentes que herdam um comando para o qual dificilmente teriam sido eleitos, fossem cabeças de chapa. A unir esses encerramentos abruptos e reinícios hesitantes, é claro, um quase permanente cenário de convulsão social. Nossa democracia é conturbada e confusa, uma espécie de amor bandido que nunca se cansa de recomeçar.

Agora estão, percebam bem, tentando nos salvar de nós mesmos uma vez mais. Dilma Rousseff é uma governante fraca e sem apoio, que navega em águas turbulentas desde que foi eleita, que conduziu o país a partir de um modelo econômico irresponsável e criou dificuldades para milhões de brasileiros. As pedaladas e demais crimes de responsabilidade podem ser deixados de lado neste momento, concorde você ou não com as acusações: o grande objetivo, a meta final desse arrastado e dramático processo de impeachment é dar um reset na política nacional. De novo. Os próprios deputados e senadores que votarão pelo encerramento da Era Dilma admitem isso, sem muito esforço em disfarçar. A partir da saída de Dilma do Planalto, acreditam seus opositores, teremos a chance de colocar as coisas nos eixos. De novo. Porque o eleitor foi enganado, porque a situação saiu do controle e ninguém aguenta mais. De novo.

Não dá para levar muito a sério uma democracia que está sempre devorando o próprio rabo. Não dá para dizer que funcionam instituições que nunca conseguem garantir para nossa viagem democrática muito mais que vinte anos sem turbulência. E não podemos nos furtar a olhar no espelho e tentar entender por que diabos é tão difícil que nossos presidentes tomem posse como num reloginho, de quatro em quatro anos, nem mais e nem menos. Sem entender o que nos impede de concluir as coisas, nunca deixaremos de reiniciá-las.

Remover presidentes eleitos é um aspecto da democracia, dirão alguns. Até é, mesmo. Ainda assim, sou forçado a lembrar para vocês: quatro presidentes em 86 anos. Quatro. Apenas quatro.

Não dá para fingir que está tudo bem. Nem para acreditar muito que agora vai.