Nós US

A ciência infalível do interesse pessoal

Sacha
6 de setembro de 2017
(you can read this article in English here)

Que o efeito do aquecimento global é a tendência para furacões e todo o tipo de tempestade aumentarem em frequência, força e tamanho é conhecimento geral. A esmagadora maioria dos cientistas no mundo inteiro concorda que o aquecimento global é real e tem efeitos climáticos que intensificam as fúrias da natureza. Grande parte da porcentagem minúscula dos pesquisadores que está em desacordo com isso é, sem surpresa, bancada por interesses de indústrias poluidoras. Só não vê quem não quer, como diz o ditado.

Que há um setor da sociedade ocidental que o nega ou o questiona também é indiscutível. Uma fração pequena e consternadora de pessoas rejeita o consenso científico que nos explica o fenômeno de mudança climática. E aqueles que não querem ver estão entre nós e influenciam vizinhos que também não querem ver, e assim por diante. Esta gente não quer nada a ver com verdades inconvenientes que supõem que o seu estilo de vida tem algo de errado e causa consequências para o planeta que nos sustenta. Essa rejeição de ciência climática junta-se ao surgimento da popularização de outras atitudes anti-científicas, um verdadeiro problema dos nossos tempos modernos.

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Contudo, o que se torna cada vez mais evidente, até científico, é a inabilidade de o presidente atuar para um interesse que não seja pessoal

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Para que serve a elaboração da ciência climática então? Pois, perante as forças do furacão Harvey, o presidente tem-se mostrado incapaz de mostrar o mínimo de preocupação para com as (eventuais) vítimas deste desastre natural. As proporções dos danos causados pelo furacão já atingem recordes para o país e já se sabia que ia ser o caso antes de chegar às costas do Texas. Entretanto, o presidente teve apenas “boa sorte!” a dizer para os afetados.

Perante esse cenário, perdoou formalmente um xerife conhecido por ter feito de prisões sob o seu comando uma espécie de campos de concentração, entre outras violações de direitos humanos. O cancelamento do programa DACA também foi concretizado durante esse período. O DACA dá uma forma de anistia legal aos imigrantes sem documentos que foram levados para o país quando pequenos. Assim podem trabalhar, estudar e pagar impostos sem complicações, mas sem uma via para a cidadania. Os dreamers (sonhadores), como são chamados, têm uma imensa simpatia nacional. O motivo de revogar os seus direitos explica-se pela condição de, apesar de crescer a vida toda nos Estados, serem imigrantes sem documentos. Também foi posta em prática a proibição de pessoa trans a servir nas forças armadas.

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Tanta notícia desagradável, sem sentido prático e impopular de vez. Tudo num contexto de preocupação mediática (devida) ao furacão.

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O que isso nos mostra é que Trump apenas serve aos seus interesses e aproveita de momentos de distração ou maior importância para fazer o ilícito que não passaria tão facilmente pelo público ou até pelo Congresso. Enquanto cumpre com as suas promessas da campanha, de qualquer jeito, tenta enganar o público geral dos apectos mais impopulares por meio do caos. Não importa a dimensão de tragédia, desde que seja um momento oportuno para implementar uma política que prefere.

Boa sorte!

Imagem: Krzysztof Falkowski
Nós US

The Infallible Science of Personal Interest

Sacha
6 de setembro de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

That the effects of global warming are a tendency for hurricanes and all sorts of storms to grow in frequency, strength, and size is general knowledge. The vast majority of scientists across the world agree that global warming is real and has climactic effects that intensify nature’s wrath. A large part of the minuscule percentage of scientific research that disagrees with these sort of conclusions is, to the surprise of no one, funded by polluting industry groups. Those who don’t see it simply don’t want to.

That there is a sector of Western society that denies or questions this is also unquestionable. We have those who don’t see it among us, who influence others who don’t want to see it in neighboring places. A small, consternating fraction of people reject the scientific consensus that explains climate change to us. These people don’t want anything to do with inconvenient truths that suppose that their lifestyles or their livelihoods are bad or have consequences for the planet that gives us sustenance. Rejecting climate science goes along with a surging popularization of other anti-scientific attitudes, a true problem of our modern times.

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However, what has become ever more evident, scientific even, is the inability of the president to act in any interest that isn’t personal

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What does the elaboration on climate science have to do with anything? Well, confronted with the forces of Hurricane Harvey, the president has shown himself to be incapable of showing a minimum of preoccupation with (eventual) victims of this natural disaster. The scale of damage caused by the hurricane is already reaching records for the country and it was known that it would be the case before it arrived on the shores of Texas. Regardless, the president only had “good luck!” to say to those affected.

In the midst of this scenario, he pardoned a sheriff known for making prisons under his management into what was described as concentration camps, among other human rights violations. The cancelation of the DACA program was also concretized in this period. DACA gives a form of legal amnesty to undocumented immigrants who were taken to the country as small children. This way, they can work, study, and pay taxes with no complications, but also have no route to citizenship. These people, who are popularly called Dreamers, have widespread sympathy across the country. The motive for revoking their rights is explained by their status as undocumented immigrants, despite growing up their whole lives in the US. The ban on trans people serving in the military was also formally implemented.

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So much unpleasant, senseless, and unpopular news all at once. All of it in a context of (deserved) media preoccupation with the hurricane.

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What this shows us is that Trump serves only his own interests and takes advantage of moments of distraction or greater interest to accomplish illicit acts that wouldn’t pass by the public or even Congress so easily were it not the case. While he makes good on his campaign promises, in whichever way possible, he attempts to hide the most unpopular aspects of them from the public amid chaos. It doesn’t matter what the dimension of tragedy is, so long as the moment is opportune for implementing his preferred policies.

Good luck!

Image: Krzysztof Falkowski
ECOO

Caro é NÃO preservar o ambiente

Geórgia Santos
3 de setembro de 2017

Entre decretos e arrependimentos, o governo de Michel Temer é reconhecido nacional e internacionalmente como um desastre no que tange às políticas de proteção ambiental, especialmente na Amazônia. Ele simplesmente as ignora. Ou reescreve. Na última semana, o Brasil testemunhou o descaso do tal presidente quando um decreto acabava com uma reserva ambiental. Uma estratégia já empregada anteriormente em circunstâncias parecidas.

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E nesse turbilhão de frustração, uma entrevista tão

esclarecedora quanto estarrecedora passou despercebida

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O deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, falou à DeutscheWelle Brasil. O líder da chamada bancada ruralista, que conta com 211 deputados que defendem o agronegócio (inclusive o explorador) com unhas dentes, explica melhor do que ninguém o que ele e seus pares pensam da preservação da Floresta Amazônica:

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“Manter floresta em pé é apenas um gasto? Um custo?
Claro que é um custo. Você tem os problemas naturais, incêndios. Para preservar é preciso ter um monte de coisas: cisternas, água, caixas de água, toda uma estrutura dentro da propriedade. E quem paga a conta por isso? Cobrar é fácil. Quem paga é o produtor rural. Se alguém quer muito que o Brasil seja esse modelo que nenhum outro país do mundo foi, nós concordamos. Mas é preciso ser remunerado por isso.”

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Pobres produtores. Coitadinhos. Como vão ter lucro se não for destruindo tudo o que há pela frente?

Veja bem, não falo de pequenos produtores, não falo da agricultura familiar ou do cara que tem meia dúzia de vacas. Falo dos caras que queimam metade floresta pra um zilhão de bois pastarem enquanto seus empregados vivem em condições subumanas e eles passeiam por Miami.

A entrevista completa pode ser acessada aqui e é um festival de surrealidades. O nobre deputado garante que é mentira que fazendeiros invadam espaço de reservas ambientais, apoia a exploração do minério e plantio de soja em terras indígenas – ele inclusive acredita que pode falar em nome deles. Falando assim não parece o bicho, mas a desinformação do parlamentar assusta. Ele acredita, por exemplo, que os índios americanos são milionários, quando a realidade é bastante cruel.

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Para ele, preservar o meio ambiente atrasa o progresso

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Me sinto voltando uns cem anos no tempo. Especialmente quando vejo que o Brasil ainda lidera o ranking dos países que mais matam ambientalistas. Se preservar o meio ambiente é caro, imagina não preservar.

Reporteando

A difícil missão de convencer que ser mulher, por si só, já é pauta

Évelin Argenta
2 de setembro de 2017

A semana que passou foi, talvez, uma das mais

enojantes que São Paulo viveu

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É difícil ser mulher na cidade que nunca dorme, mas cochila lindamente quando o assunto é garantir às mulheres seu pleno direito. Explico. Domingo, terça e quarta-feira, três mulheres, em situações bem parecidas sofreram agressões sexuais no transporte. Uma, em um Uber. Outras duas, dentro de um ônibus na Avenida Paulista, maior símbolo da diversidade paulistana. Em um dos casos um homem ejaculou – sim, GOZOU – no pescoço de uma passageira. A notícia, por si só, já seria terrível. Um componente, porém, a torna terrivelmente irônica.

Os crimes aconteceram na mesma semana que o Tribunal de Justiça de São Paulo lançou uma campanha contra o assédio sexual no transporte público. A cabeça pensante desse movimento foi uma juíza, mulher, que no ano passado foi mantida refém por meia hora dentro do Fórum por um homem. Ele tinha audiência marcada por causa de agressões cometidas contra a esposa. A magistrada foi coberta com um produto inflamável e, de frente com o agressor, ouviu diversas vezes que seria queimada viva. Essa mulher juntou forças e, ao lado dos colegas homens, lançou a campanha, amplamente veiculada em rádio, TV’s e internet.

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A cerimônia foi conduzida por homens, protegidos por seus ternos suados na tarde paulistana mais seca de 2017. Seca também ficou a garganta de quem esperava, naquela tarde, ao menos uma manifestação das protagonistas da campanha

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No dia seguinte, mais uma vez, um homem ganhou as manchetes. O juiz que entendeu que o “ejaculador” da Paulista não cometeu crime e, sim, uma contravenção. O homem que gozou no pescoço da passageira, preso em flagrante, foi solto. O magistrado entendeu que, por estar sentada e não ter sido tocada pelo agressor, a vítima não sofreu “constrangimento mediante violência”, como diz o texto do artigo 213 do CP que tipifica o estupro. No momento dessa decisão, o agressor do segundo ônibus assinava um termo circunstanciado e era liberado de uma delegacia.

Se você, amigo, achou esse texto confuso e difícil de digerir, imagine as mulheres repórteres que, além de cobrirem esses casos, precisaram ouvir de colegas (em sua maioria homens) que:

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“ah, mas ele não chegou a estuprar”

“ah, mas não chegou às vias de fato”

“ah, mas eles estão amparados pela lei”

“ah, mas não vale matéria só pra discutir, temos que ter dados concretos”

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Imaginem como é, diariamente, tentar convencer que ser mulher, por si só, já é pauta.

Yo No Soy de Aquí

Maconha nas farmácias e o vanguardismo uruguaio

Alvaro Andrade
31 de agosto de 2017

A cena, mesmo que não comprovada, é muito plausível: separadas por menos de mil quilômetros, filas para comprar maconha formaram-se em duas cidades muito semelhantes do Conesul há cerca de um mês.

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Em Porto Alegre, a espera acontecia cercada de tensão, à noite, em uma famosa parada de ônibus de um bairro dominado pelo tráfico de drogas; Em Montevideo, a fila estava formada à luz do dia, em frente a uma farmácia de um tradicional reduto da classe média uruguaia.

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O estabelecimento foi um dos dezesseis pioneiros  na venda de cannabis produzida pelo próprio Estado, a última etapa do mais ambicioso modelo de regulamentação da droga já adotado na América do Sul. Enquanto no Brasil bocas de fumo como a da ‘Conceição’ vendem toneladas de maconha contrabandeadas do Paraguai e alimentam uma rede de corrupção que vai da polícia à política, o governo do Uruguai assume o controle da produção e distribuição e demonstra a viabilidade de uma nova forma de combater o poder do tráfico após o fracasso da guerra às drogas.

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A realidade entre as capitais é tão distinta que a distância entre as cidade deveria ser medida por décadas ao invés de quilômetros

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A legislação que vem sendo aplicada desde o governo de Pepe Mujica, em 2013, permite a todo cidadão uruguaio ou residente permanente consumir, plantar, participar de clubes de cultivo e, agora, comprar maconha em farmácias – que esgotaram o estoque de seis quilos e meio em menos de 12 horas de comercialização em Montevideo. Com problema em apenas 5% dos cadastrados, o início da venda já provoca aumento na busca tanto de usuários como de estabelecimentos. Aos novos interessados em adquirir, bastará ter 18 anos, ir a uma agência dos Correios, apresentar documento e comprovante de residência e registrar as impressões digitais para que minutos depois tenha direito a comprar até 10 gramas por semana a um custo inferior a R$ 50.

Nas ruas, um misto de orgulho e indiferença era manifestado diante das câmeras e microfones da imprensa internacional que registrava cenas históricas no auge do inverno no hemisfério sul.

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Enquanto usuários saíam das farmácias exultantes exibindo seus pacotes com duas variedades de cannabis, outra parcela da população observava os acontecimentos com menos deslumbramento

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Embora no Uruguai o consumo de maconha não carregue o preconceito imposto no Brasil, a legalização na Banda Oriental não chega a ser um consenso. Mas se por um lado setores encaram com desconfiança tamanha permissividade, não se pode dizer que a faixa etária defina este perfil. Pessoas de todas as idades e estilos eram vistas nas filas de farmácias, desmistificando rótulos pejorativos que normalmente são associados aos usuários.

A própria regulamentação do consumo proporciona transparência e dados que traçam o perfil médio dos consumidores. Segundo o Instituto de Regulamentação e Controle da Cannabis, homens residentes em Montevideo, com idade entre 30 e 41 anos, são a maioria dos consumidores cadastrados para comprar a erva cultivada pelo governo em instalações do Exército.

Cercada de mistérios, a última etapa da legalização deslanchou depois de uma série de titubeios do governo de Tabaré Vasquez, integrante da mesma coalização política de centro-esquerda que elegeu Mujica, mas com perfil mais conservador. Médico oncologista e ladeado por uma primeira-dama de tradição católica, o atual presidente aplicou – a contragosto – a última etapa da lei muito mais por compromisso com os partidos da Frente Ampla do que por convicção. Este contexto ajuda a entender a discreta comunicação do governo quanto ao tema, restrita a protocolares notas informativas.  No dia de início das vendas em farmácias, considerado histórico por muitos uruguaios, Vazquez recebia título de Doutor Honoris Causa na Argentina e encerrou a entrevista coletiva após ficar contrariado com jornalistas que insistiam nas repercussões sobre a última etapa da legalização.

O estilo low profile contrasta fortemente com a era Mujica, em que o ex-presidente se transformou em um pop star ao percorrer o mundo defendendo a proposta uruguaia e chegou a conceder uma entrevista enquanto repórteres fumavam maconha no pátio de sua chácara.

Apesar das tensões, não houve ruptura. A tradição laica e vanguardista que forjou a sociedade uruguaia prevaleceu e derrubou um novo tabu movido pelo mesmo sentimento que garantiu pioneirismo no direito das mulheres ao voto, ao casamento homossexual e a legalização do aborto.  Infelizmente o exemplo de progressismo continuará sendo exceção no mapa latino-americano, que caminha na direção oposta aos ventos de liberdade que sopram mais ao sul.

ECOO

Temer é o enfisema do mundo?

Geórgia Santos
27 de agosto de 2017

Sempre achei bonita a noção que aprendi na escola quando era menina, a de que a Amazônia é o pulmão do mundo. Nela está embutida uma responsabilidade pela nossa existência. Nós, brasileiros, somos diretamente responsáveis pela manutenção deste espaço sagrado, crucial para a continuidade do planeta como o conhecemos. Mas se a Amazônia é o pulmão do mundo, seria Michel Temer o enfisema?

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Se Temer é o enfisema do mundo, não sei.

Mas certamente não é o oxigênio

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Temer assinou decreto na última quarta-feira, 23, extinguindo a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), na Amazônia. Publicado no Diário Oficial da União no dia seguinte, 24, o decreto permite que uma área de 46 mil quilômetros quadrados seja explorada pela iniciativa privada. A área, maior que a extensão da Dinamarca, estava protegida desde 1984 e é rica em cobre e outros minerais.

Tudo isso foi feito sem aviso, explicação ou discussão e surpreendeu a muita gente. Tanto que a atitude de Temer foi notícia não apenas no Brasil, mas nos principais jornais internacionais em manchetes temerosas (sem trocadilho, juro). Em entrevista à BBC, o engenheiro Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e membro do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, que reúne 110 ONGs, sindicatos e movimentos sociais, disse que não houve qualquer comunicado.

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Mas alguém sabia

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A mesma reportagem da BBC mostra que, há cinco meses, o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, anunciou a empresários canadenses que essa área de preservação da Amazônia seria extinta que a exploração seria leiloada a empresas do setor privado. Raul Seixas alertou que a solução poderia ser alugar o Brasil, mas o nosso estimado governante a está vendendo, mesmo.

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Enquanto isso, nosso meio ambiente respira por aparelhos

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Foi preciso uma crítica da modelo Gisele Bundchen para que o governo federal se dignasse a emitir um comunicado. Mas que comunicado bem mequetrefe.

“A Renca não é um paraíso, como querem fazer parecer, erroneamente, alguns. Hoje, infelizmente, territórios da Renca original estão submetidos à degradação provocada pelo garimpo clandestino de ouro, que, além de espoliar as riquezas nacionais, destrói a natureza e polui os cursos d ‘água com mercúrio.”

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Ora, se há territórios degradados em função do garimpo clandestino, a solução é aumentar a proteção. Certo?

Não, a grande ideia de Temer é legalizar a exploração

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Não é a primeira vez que esse governo age desse forma. Há um mês, foi retirada a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim. E a lógica (ou falta de) daquela decisão é similar a esta. Para evitar o DESMATAMENTO ILEGAL, o governo resolveu retirar a proteção que impede o desmatamento. Logo, o desmatamento passa a ser LEGAL e o conflito deixa de existir.

Se depois dessas Temer não é o enfisema do mundo é, no mínimo, um cigarrinho. Mas a gente não desiste.

Foto/arte: Greenpeace Brasil, www.todospelaamazonia.org.br

Samir Oliveira

O Gapa agoniza em praça pública – literalmente

Samir Oliveira
24 de agosto de 2017
Foto: Clarinha Glock/Gapa

Quando o Gapa nasceu, em 1989, eu tinha apenas um ano de idade. Não acompanhei sua história. Assim como minha geração não vivenciou os anos iniciais do surgimento da AIDS. O terror social que a doença causou e a munição que o vírus deu a discursos homofóbicos é algo que vejo apenas em filmes e livros. Não é algo que senti ou vivi.

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Durante 28 anos o Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa/RS) travou uma batalha sem tréguas contra o vírus. E como se luta contra uma doença invencível? Com acolhimento, informação e muitos, muitos parceiros

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O atendimento psicossocial e jurídico totalmente gratuito a pessoas com HIV só foi possível por conta de parcerias com órgãos públicos e uma rede de financiamentos nacionais e internacionais. No início dos anos 2000, o Gapa tinha 120 voluntários, uma sede de dois andares na Cidade Baixa, veículo para atividades externas e realizava cerca de 2 mil atendimentos por mês.

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Hoje o Gapa agoniza em praça pública. Literalmente, já que no dia 11 de agosto foi enxotado de sua sede. O local foi interditado pela Justiça. Foi apenas a pedra de cal que estava faltando para coroar uma agonia que já durava muitos anos

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Na avaliação dos dirigentes do Gapa, a sociedade, de uma maneira geral, deixou de se preocupar com o problema da AIDS. Os financiadores passaram a destinar recursos a outros continentes, como a África, e os governos já não se mostravam parceiros. Assim o Gapa murchou de 120 para cinco voluntários. Teve que se desafazer de seu veículo e não conseguiu mais conservar as mínimas condições de uso de sua sede. Nem o banheiro mais estava funcionando.

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O aluguel da casa era pago pela Secretaria Estadual de Saúde desde 1992. Mas há nove anos o governo simplesmente resolveu deixar de pagar os alugueis e abandonar o Gapa à própria sorte

Era o segundo ano do governo de Yeda Crusius (PSDB)

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Desde então o Gapa vinha tentando negociar com órgãos públicos uma solução para que pudesse continuar desenvolvendo seu trabalho. Em 2009 o Estado chegou a cogitar a cedência de um imóvel na Avenida João Pessoa, mas isso nunca se concretizou. Em 2011, a prefeitura ofereceu um prédio na Rua Jerônimo Coelho. O local foi reformado para receber o Gapa e outras organizações, mas acabou sendo interditado pelo Corpo de Bombeiros e hoje está sendo leiloado.

A agonia do Gapa, como podemos ver, não é de hoje. O desrespeito é tão grande que o Estado sequer notificou o grupo a respeito do despejo da sede. Os voluntários encontraram o local lacrado pela Justiça, com todo o acervo lá dentro. São milhares de documentos com informações sigilosas das pessoas que são atendidas pela ONG, bem como materiais informativos, campanhas e relatórios. Praticamente toda a memória da epidemia de AIDS no Rio Grande do Sul foi interditada junto com o Gapa.

Agora este acervo ficará sob os cuidados (?) da Secretaria Estadual da Saúde. Enquanto isso, o Gapa segue em busca de uma sede. O governo municipal se comprometeu em pagar um aluguel, mas os dirigentes da ONG estão receosos. Aprenderam a duras penas que não é possível ficar dependente dos humores políticos dos governos.

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A agonia do Gapa é o mais cruel retrato da indiferença com que o Rio Grande do Sul enfrenta o problema da AIDS

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Os motivos ainda precisam ser melhor explicados – e arrisco dizer que há inclusive elementos psicológicos e culturais para tanto –, mas o fato é que o Estado apresenta os mais primitivos índices de contaminação da doença do Brasil.

O RS possui uma média de 38,3 casos de detecção de HIV para cada 100 mil habitantes. É quase o dobro da média nacional, de 19,7 casos. Ficamos atrás apenas do Amazonas, e por muito pouco, já que o estado do Norte possui 39,2 casos por 100 mil habitantes. Porto Alegre é a capital com a maior taxa de detecção do país: 94,2 casos por 100 mil habitantes. Um índice cinco vezes superior ao nacional.

Um Estado cuja iniciativa privada, poderes públicos e entidades sociais deixam uma organização como o Gapa agonizar em praça pública ficará preso ao horror destes índices por um bom tempo. Talvez isso nem cause espanto. Por isso precisamos olhar para trás. Especialmente nós, LGBTs, por tanto tempo demonizados em todos os cantos por conta do HIV. Se estamos aqui hoje, de cabeça erguida, é por conta do trabalho incansável de organizações como o Gapa.

Foto: Clarinha Glock/Gapa

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Rifle

Pedro Henrique Gomes
19 de agosto de 2017

A alegoria caprichada da paisagem campeira é um elemento sedutor de Rifle. Que tanto os elementos documentais se embaralhem com os ficcionais, assim como em Castanha, longa anterior de Davi Pretto, não chega a surpreender.

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É a atmosfera de um registro, que é a um só tempo puro e impuro, que Rifle busca captar

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O trabalho intelectual (força de conjunto) do filme é claramente entendido, principalmente a partir das soluções sonoras e visuais, cujas imagens decisivas são marcadas por uma trilha sonora alucinante, que golpeia, com elegante violência, os sentidos de quem as vê.

Ao combinar os elementos de uma tradição de imagens que está rigorosamente assentada em outra cultura visual (a cultura heroica e épica, da aventura e da tragédia dos desertos norte-americanos, do monument valley; desnecessário dizer, da linha do horizonte conceituada por John Ford), apropriando-se, portanto, de seu imaginário (de sonho e violência), Rifle conecta a trajetória de seu personagem aos elementos constitutivos do faroeste clássico americano, buscando, entre planos firmes do céu e da terra, aludir a esse universo sem sequestrar os seus significados.

Uma das características exemplares dessa tradição é a disputa territorial. No western, essa disputa se articula a partir de uma série de conflitos morais, econômicos, familiares, amorosos e raciais. Não que Rifle não os tenha, mas deles não se alimenta para que suas situações dramáticas se estabeleçam, isto é, não temos a necessidade premente de um justiçamento épico que, para o bem ou para o mal, viria postar o corolário sobre os bustos de seus homens combatentes. Justiçamento, nessa tradição, não é justiça. A atmosfera do filme, herdeira de uma cinefilia muito particular e híbrida, é também dona do pensamento sobre a história das imagens que busca tanto resgatar quanto discutir.

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Filme político, claro. Uma política sanguínea, cuja amarração, tensão e conflito estão projetados em torno de uma luta antiga, contra a qual é muito difícil triunfar

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Quando Dione, o protagonista discreto do filme, arma em punho, dispara contra vários carros que ameaçam se aproximar do espaço que ele representa, ele está nos dizendo claramente ao menos uma coisa: nós somos esta terra. Ex-militar, Dione trabalha para um fazendeiro de poucos recursos e o interesse de um grande proprietário naquelas terras surge como uma ameaça a qualquer coisa que eles possuam lá. Dione trabalha, ele também, para um proprietário, mas um decerto menos ambicioso – de acordo com a insinuação do filme.

O cotidiano muito tranquilo da fazenda se vê ameaçado pelo expansionismo comercial, descaracterizador das paisagens rurais desde sempre. O filme apenas incorpora os elementos simbólicos desse embate ao movimento interior de seu personagem central, que vaga solitário, centrado na atividade rural que lhe sustenta e, no limite, que lhe perturba, angustia e confunde. Dione e seu rifle respondem com disparos e estilhaços.

Rifle não se furta inclusive a arroubos moderadamente fantasiosos e delirantes (uma saída de roteiro ao psicologismo) que povoam a imaginação do protagonista. Para ele, malgrada a sua história militar, é muito difícil não pensar em partir para a luta armada. Como filho da península, como gaucho, como parte dos mitos populares e da tradição regional, Dione considera inaceitável sentar e negociar. Ele acha melhor não e por isso propõe uma ruptura violenta. Entende, institivamente, que ceder ao dinheiro seria ceder também a dominação como instrumento de conquista.

Rifle, de Davi Pretto, Brasil, 2017. Com Dione Ávila De Oliveira, Francisco Fabrício Dutra dos Santos, Sofia Ferreira, Evaristo Pimentel Goularte, Andressa Nogueira Goularte.

Nós US

A responsabilidade recai sobre os brancos, sim

Sacha
16 de agosto de 2017
(you can read this article in English here)

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O presidente dos Estados Unidos da América não consegue denunciar, com o mínimo de convicção, a supremacia branca

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Choca ler esta frase escrita sozinha assim? Pois, choca. Mas não deixa de ser verdade por isso. Foi assim mesmo a resposta do presidente às marchas da extrema-direita e neo-nazistas na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia, no fim de semana passado. Primeiro denunciou o acontecido em clamor aos “múltiplos lados maus”. Depois, recuou com uma denúncia mais completa dos grupos neo-nazistas presentes nos atos e da violência que lá ocorreu. Mas não durou mais do que um par de dias, pois recuou outra vez em uma coletiva de imprensa incoerente, onde deixou escapar lapsos freudianos que indicavam um apoio ao nomeado “alt-right”. Em suma, o presidente não consegue tapar a sua afinidade pelos movimentos mais apegados às ideias de supremacia branca. Já sabíamos disso desde a sua campanha eleitoral.

É inaceitável ter um presidente de um país democrático que apoia essas ideias, especialmente de modo tão flagrante.

Que não seja ambíguo para ninguém: a marcha que decorreu em Charlottesville foi em protesto da retirada de um monumento à Confederação. Os Estados Confederados da América foram uma tentativa em vão de manter o sistema de escravidão, em plena rebeldia contra a União e a opinião pública crescente da época, através da sucessão dos estados declarados escravistas da região Sul dos Estados Unidos da América. Sem mais. Por isso, os grupos da ideologia de supremacia branca (e sim, os neo-nazistas mesmo) têm adotado os símbolos da Confederação.

Esses mesmos grupos ameaçavam durante semanas invadir a cidade de Charlottesville em resposta à retirada da estátua confederada. No final de semana passado, invadiram-na, marchando com gritos de todo o tipo contra as minorias não brancas. Não foi, aliás, uma marcha de dois lados. Foi a reunião de grupos extremistas, unidos pela preservação da supremacia da raça branca. Invadiram uma cidade que ousou contrariar as suas crenças.

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Sem a convivência de grupos minoritários com a maioria,

não há democracia

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A verdade inconveniente de ter um presidente que mostra algum nível qualquer de simpatia com essas ideias é que questões raciais serão, durante todo o seu mandato, alvo central do debate público. Isto é, até as pessoas brancas que estavam acostumadas a poder ignorar os problemas raciais, já não podem mais. Não tomar consciência do racismo—estrutural mesmo, desde os anais do poder máximo no país—é escolher estar, passivamente, do lado opressor. É imprescindível e uma responsabilidade única que os brancos renunciem a supremacia branca. Não fazer nada perante a crescente reivindicação dos grupos supremacistas é estar conforme com os seus desejos: manter o poder de estar indiferente à condição de pessoas de outras raças no país. As minorias não têm esse luxo. É isso mesmo que os extremistas marcharam para reivindicar.

É tempo de exigir a saída de todos os simpatizantes de intolerância do governo. Se o presidente já estava emaranhado em problemas de governabilidade, agora será sempre mais. Sem a convivência de grupos minoritários com a maioria, não há democracia.

Imagem: fabrizio turco
Nós US

White People Are Responsible, Really

Sacha
16 de agosto de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

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The president of the United States of America can not manage to renounce, with a shred of conviction, white supremacy

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Is it shocking to read a sentence like that? Yes, it is. But it’s nonetheless true. The president’s response to the extreme-right and neo-nazi’s marches in Charlottesville, Virginia last weekend, went just as such. First he denounced what had happened in uproar over “multiple bad sides”. Then, he backtracked, renouncing more fully the neo-nazi groups presents in the acts and the violence that occurred. But it didn’t last more than a couple of days, since he then backtracked again in an incoherent and bizarre press conference, where he had some Freudian slips of support for the “alt-right”. In sum, the president can not cover up his sympathies for the movements most bound to the ideas of white supremacy. We already knew about this from his electoral campaign.

It’s unacceptable to have a president of a democratic country who supports these ideas, much less in such a flagrant manner.

So that it’s not ambiguous for anyone: the march that was held in Charlottesville was in protest of the removal of a Confederate monument. The Confederate States of America were a vain attempt to maintain the system of slavery, in full rebellion against the Union and growing public opinion of the time, by way of the succession of declared slave states in the American South. Nothing less. Accordingly, white supremacist groups (and yes, neo-nazis themselves) have adopted the symbols of the Confederacy.

These same groups threatened for weeks to invade the city of Charlottesville in response to the removal of the Confederate statue. Last weekend, they invaded it, marching with all sorts of chants against non-white minorities. It wasn’t, alas, a march of two side, nor however many others, against each other. It was the reunion of extremist groups, united for the preservation of the white race. They invaded a city that dared to go against their beliefs.

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Without the coexistence of minorities with the majority,

there is no democracy

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The inconvenient truth of having a president that demonstrates any kind of level of sympathy with these ideas is that racial questions will be, during his entire term, a central issue of public debate. That is, even white people accustomed to ignoring racial problems can no longer ignore them. Not taking a stand against racism—truly structural, even from within the annals of power—is choosing to be passively on the side of the oppressor. It is vital and a unique responsibility for white people to renounce white supremacy. Not doing anything in the face of growing clamor of white supremacist groups is being complicit with their desires: to maintain the power of being indifferent to the condition of other races in the country. Minorities don’t have that luxury. That’s exactly what the extremists were marching for.

It’s time to demand that all sympathizers of intolerance leave the government. If the president was already embroiled in governability problems, now it will be all the more so. Without the coexistence of minorities with the majority, there is no democracy.

Image: fabrizio turco