Raquel Grabauska

A dor de perder um filho

Raquel Grabauska
20 de outubro de 2017

Eu não gosto de me expor. Minhas redes sociais dizem muito pouco de mim. Uso bastante para o trabalho. Acho que fui a última pessoa a entrar no facebook. Sim, entrei até depois que tua vó!

.

Mas hoje fiquei com vontade de contar uma história minha

Bem pessoal mesmo

.

Eu nunca quis ter filhos. Acho que já contei um pouco disso aqui. Achava que perderia minha vida, que seria infeliz, que me sentiria roubada. Realmente, era a pior ideia do mundo. Não conseguia entender como as pessoas procriavam sem parar! Assustador.

Engravidei sem planejar, sem querer.  Continuei não querendo. Marido que dizia que também não queria, festejou como nunca. Ele, sim, queria muito. Mas com três meses de gravidez, perdemos o bebê, teve anencefalia. Aborto, sofrimento, desgaste emocional. E aí, tudo mudou. Quando o bebê foi, passei a querer a maternidade mais que qualquer coisa no mundo. Instinto, me sentia um bicho. Só pensava nisso. Só sentia essa vontade.

.

Ao perder o bebê, me dei conta que o meu medo de ter um filho era justo esse: o de perder um filho

.

Minha família tem esse histórico. Minhas duas avós perderam duas filhas muito jovens. Minha mãe também perdeu um filho. Meu irmão mais velho faleceu aos 43 anos, um a menos do que tenho hoje. Muito cedo. Não sei como minha mãe ainda viveu alguns anos. Ou melhor, sei sim, por amor a nós, seus outros dois filhos, e aos netos. Uma linda a minha mãe. Com toda a dor que sentia,  ainda distribuía amor pra nós.

Essa semana uma amiga do meu marido perdeu um filho. Quase da idade do nosso mais velho. Uma criança. Não sei o que houve. Meu marido me contou e ficamos chorando juntos. Não tem dor maior. Não tem.

Que façam todas as manhas. Que chamem mãe mil vezes. Que esparramem os brinquedos pela casa. Que estejam conosco.

Raquel Grabauska

Saudade antecipada

Raquel Grabauska
13 de outubro de 2017

Várias vezes em que eu estava com meus filhos bebê no colo, chegaram pessoas e diziam: ai, que saudade de ter um bebê!

.

Eu nunca entendi isso direito . Aquele início onde ninguém dorme, a gente não sabe se  o choro é de fome, frio, calor, xixi ou tudo junto, não me faz sentir nenhuma saudade. Ver os guris crescendo, começando falar, a andar, a ser cada vez mais eles e menos nós, me apaixona. Gosto de conversar com eles. De ouvir as teorias do Benjamin, que aos seis anos, pretende ser inventor. Gosto das proezas do Tom, que antecipa que vai aprontar quando nos pede licença e fica sozinho em algum cômodo da casa. Me divirto com eles.

Essa semana o Tom estava dormindo no meu colo. Eu sentada na poltrona e ele esparramado ali. Coube bem certinho. Fiquei olhando ele dormir e não tive vontade de levar pra cama. Levei quando o Benjamin pediu um colo também. Fiz mesma coisa. Ele deitou na poltrona, ficamos aconchegados. Contei pra ele que era nessa poltrona que eu dava de mamar quando era bebê (em muitos outros lugares também, mas ali era nossa base). Ficou me pedindo histórias de quando era bebê. Fiquei contando, ele ouvindo, nós nos amando com aquela intensidade que só pertence a pais e filhos

.

Tava tudo lindo. Daí ele diz: mamãe, quero ir pra minha cama, aqui não tá muito confortável

.

Engoli em seco o choro que quase veio, sorri pra ele e ele deitou na cama. Acho que vou começar a entender que tem saudades dos filhos bebês.

 

Raquel Grabauska

Vai doer mais em mim do que em ti

Raquel Grabauska
6 de outubro de 2017

Sabe aquela história do vai doer mais em mim do que em ti? Quando a gente tem filhos, acho que isso passa a ser verdade

.

Tenho uma grande amiga. Pessoa linda, boa, íntegra. Cria a filha com um amor, um cuidado comovente. Minha grande amiga é uma pessoa pequena de tamanho. A filha tinha chances de ser também. Começaram a perceber que a menina não estava crescendo como deveria. Exames, angústias, esperas e diagnóstico. Ela tem um problema hormonal e precisa de injeções sistemáticas para possibilitar seu crescimento.

.

E agora? Como explicar pra uma criança de dois anos que aquelas espetadinhas diárias são pro bem? Como fazer para ela entender? Como, realmente, entender?

.

Conversas, apoios, carinho. Sempre muito carinho. Dias de choro, revolta. De incompreensão. De compreensão, de aceitação também.

No aniversario e quatro anos, muitos tubinhos do líquido da injeção estavam guardados. A mãe, que além de todos as qualidades que já citei é uma pessoa altamente criativa, transformou os tubinhos da dor em lembrancinha da festa. Areia colorida, uma cordinha e tá ali a felicidade. Transformou a dor em arte, em carinho. Todos ficamos felizes com aquele carinho. Alguns de nós, sabendo a história, ficamos emocionados também.

Esse ano, uma coincidência. Sabe aquela mãe que ficava triste com as picadas  diárias da filha? Essa mãe forte, linda e sensível começou a ser sentir fraca, estranha. Exames, angústia, diagnóstico: diabetes. Uma pessoa saudável, que cuida sempre da alimentação. Diabética. Insulina diária. Picadinhas diárias.

.

Vendo mãe  e filha ali, crescendo juntas, aprendendo uma com a outra a contornar aquela chatice, aquilo que não queriam, é incrível

.

Elas sorriem e a gente não percebe o quão frágeis elas ficam às vezes. Elas sorriem e temos certeza de que ali estão duas super meninas. A Kátia é mãe da Anita e uma fotógrafa incrível. Pra quem quiser conhecer um pouco do trabalho dela: https://m.facebook.com/katiabressanefotografia/

 

Raquel Grabauska

Colo de mãe

Raquel Grabauska
29 de setembro de 2017

Semana passada tive uma dor forte e acabei parando na emergência de um hospital. Deu tudo certo, fui liberada.

Mas o que chorei…

.

O primeiro choro foi pela dor. Pra sair de casa na hora de fazer os guris dormirem pra ir num hospital no feriado, não era pouca coisa. O segundo choro foi pensando neles, os filhos. Aquele medo de não ficar bem para estar com os filhos é uma sombra assustadora. O terceiro, bom, foram muitos mesmo.

Mas estava eu lá, quieta num canto, depois de fazer todos os exames e estar esperando acabarem a medicação na veia (dizer que é na veia é só pra perceberem o tempo que fiquei lá esperando o Ping-Ping das gotas). Chegou uma moça quase desmaiada, amparada pelos pais. Os dois apavorados. Muito apavorados. As enfermeiras pediram para um dos dois saírem. Saiu o pai.

.

A filha pedia que a mãe apertasse sua barriga. Assim a dor aliviava

A mãe apertava a barriga e distribuía beijos

Ai, aqueles beijos…

.

Vi a filha naquele sofrimento e pensei na dor dela. E na dor do menininho que tinha visto antes, chorando porque tinha o braço quebrado. Chorei disfarçadamente, pensando na dor dos filhos. Pensei naquela vontade que mãe tem de pegar a dor do filho pra si. Olhei pra mãe que beijava. Os olhos dela carregados de lágrimas. Elas não desciam. A mãe não podia chorar, tinha que ser forte pra ajudar a filha. Nesse instante ela envolveu a filha num abraço. Beijou de novo. Ai, aquele beijo…

.

O choro disfarçado deu lugar a um choro solto. A dor misturou com a saudade do colo da minha mãe. Ela faleceu quando eu tinha 40 anos. Aproveitei muito. Ganhei colo até os 40

.

E tudo que queria naquele momento era aquele colo. Aquele beijo. Aquele abraço. Fechei meus olhos pra chorar quietinha. Senti uma mão segurando a minha. Ao meu lado, na emergência, tinha um senhor muito debilitado. 86 anos, alzheimer. Estava sem se alimentar. A filha acompanhava o pai. Essa filha viu meu choro e foi ser minha mãe. Me deu abraço e beijo, fez passar meu choro.

Nunca vou conseguir descrever quão bonito foi. Quando acalmei, me contou que a filha tinha ido morar na Holanda. Faz dois dias que foi. Ela me viu como filha, eu a vi como mãe. Aliviou nossas dores.

Raquel Grabauska

A morte do lobo, da mãe e da Ofélia

Raquel Grabauska
22 de setembro de 2017

Li um post de uma pessoa querida no facebook. Ela falava sobre como tava sendo difícil para a filha de dois anos assimilar que o lenhador matava o lobo. Disse que a menininha passou o dia repetindo: o lenhador matou o lobo. Nossa, esse post me fez ter reflexões profundas!

.

Lembrei que eu nunca conseguia ler a história da Branca de Neve pro meu filho mais velho pq a mãe dela morria

.

Eu dava uma volta e não contava. Quando ele tinha dois anos e meio minha mãe morreu. Foi muito rápido, ela se foi em duas horas. Ele dormiu com vó e acordou sem ela. A partir desse dia eu busquei todos os livros que podia sobre o tema da morte para lermos juntos. Ele me fez amadurecer muito. Me fez encarar o meu medo. Dali em diante não tive muitos rodeios nas histórias e nas situações. Vou falando como as coisas são. Sobre a violência, por exemplo. Amparando sempre, dando carinho e amor. Mas falando…

Nessa época lemos um livro lindo, que aborda a morte de um jeito suave, O teatro de sombras da Ofélia. Nunca é assunto bom de falar, mas há formas mais suaves que nos ajudam a passar por isso…

Raquel Grabauska

Cuidado Que Ronca – Um espetáculo gestado por muito tempo

Raquel Grabauska
15 de setembro de 2017

O “Cuidado que Ronca” é inspirado em muitas barrigas, um espetáculo gestado por muito tempo

.

Estava indo pra São Paulo para uma apresentação do Cuidado Que Mancha. No avião, estava emocionada pensando no filho do meu sócio que estava para nascer. Pensando em como seria lindo vê-lo crescer assistindo nossas peças. Nesse momento pensei que seria legal fazer um espetáculo para ele. Um espetáculo de canções de ninar para bebês. Inscrevi um projeto no Programa Petrobras Cultural e ganhamos o concurso para a criação do Livro/CD.

Ganhamos esse projeto quando eu estava grávida do meu filho mais velho. Passou o tempo, pesquisamos, criamos, trabalhamos… Ficou pronto o Livro-CD. Foi lançado pela Editora Projeto na Feira do livro de Porto Alegre e fizemos um mini-show nesse dia. Na plateia, a presença ilustre do meu bebê. Meu segundo filho foi criado junto com o livro. Ele na barriga, inspirava. Essa semana tivemos ensaio do espetáculo. No meu colo estava a Olívia, filha da Bárbara Borges, cantora do espetáculo. E assim vamos, cantando para os bebês que estão nas barrigas e fora delas.

————-

Mini Temporada do Cuidado Que Ronca

Onde: Espaço Cuidado Que Mancha (Rua Vicente Lopes dos Santos, 250)

Quando: dias 16 e 17 de setembro (com duas sessões extra)

Horário: 17h

Ingresso: R$ 20,00

 

Raquel Grabauska

“Brincadeira de menino. Brincadeira de menina”

Raquel Grabauska
8 de setembro de 2017

Rolou essa semana uma polêmica por causa do menino que faz crochê. Sabe quando dói ler alguma coisa? Pra mim é tão inacreditável ouvir falar sobre isso de novo. “Brincadeira de menino. Brincadeira de menina.” Até quando isso vai ser um problema?

.

Menino usar rosa. Menina brincar de carrinho

Menino gostar de Barbie. Menina não gostar de rosa

Menino de brinco. Menina sem brinco

Menino de cabelo longo. Menina de cabelo curto

.

Menino ou menina? Que canseira. São crianças. Vamos deixá-los ser crianças, por favor. Não é a cor da roupa, o tipo de brinquedo ou o tamanho do cabelo que vão definir quem eles serão.

E se ele não forem o que esperamos? E se ele forem eles mesmos?  E se permitimos que sejam felizes? Sem precisar esconder, impressionar… Criança tem que ser criança. Criança deveria poder ser criança.  Criança cresce e vira adulto. Que tipo de adulto viramos?

Foto: Arquivo pessoal / Facebook

Raquel Grabauska

Criando meninos 

Raquel Grabauska
1 de setembro de 2017
Hoje coloquei uma blusa que não usava faz tempo. De frescura, fiz um desfile na sala e perguntei pros meus filhos: Tô bonita ou ficou esquisita? Meu filho mais velho, que sempre (ainda) me acha linda, disse: Ficou esquisita. Perguntei o motivo. Ele: essa gola é muito quadrada.

Eu também não tava gostando muito

Troquei

Daí me dei conta: eu gosto dessa blusa

Mesmo na dúvida, tava com vontade de vestí-la. Daí pensei. Ele tem que me ver com a roupa que eu escolhi vestir. Ele tem que aprender a respeitar a roupa que eu, a roupa que as meninas, a roupa que qualquer mulher vista. Me assustei muito de pensar isso tudo. E fiquei me dando conta de que sim, claro que ele tem que respeitar as mulheres. E a mãe. E o pai. E o irmão. E os vizinhos. E todas as pessoas do mundo. Independente do sexo, do que vistam ou acreditem.

Raquel Grabauska

Dar o exemplo/ser o exemplo

Raquel Grabauska
25 de agosto de 2017

Dia desses aconteceu uma situação tensa. Uma mãe estava indo buscar seus dois filhos.  Para não atrapalhar o trânsito, ela resolveu colocar o carro parcialmente na calçada. Não atrapalhou o trânsito, mas atrapalhou demasiadamente uma vizinha  que passava em frente ao local nesse momento.

A vizinha sinalizou que aquilo estava errado. A mãe disse: é rapidinho, só vou pegar as crianças.Nisso, aquela pacata vizinha virou um leão e fez um super discurso: ela também tem uma filha. E quando não tem vaga, estaciona na outra quadra.

As duas discutiram acirradamente. Foram embora nervosas. As pessoas que presenciaram a cena, tomaram partido da mãe.

Ao saber da história, eu pensei: mas a vizinha tá certa. Todas as justificativas da mãe faziam sentido. Mas a vizinha estava certa.

.

E se passasse um cadeirante? E se passasse alguém com um carrinho de bebê? E se todos quisessem fazer a mesma coisa? E se passasse uma vizinha que gosta de fazer as coisas bem de acordo com as regras? Eram tantos “e se”…

.

Encontrei a mãe no outro dia. Perguntei o que tinha ocorrido, pois só sabia da história contada por outros. A primeira coisa que ela me disse foi: eu fiz errado. Ela me emocionou tanto com essa fala! Porque é assim mesmo. Todos temos os nossos motivos particulares. Mas fazemos parte de um todo. E se cada um conseguir respeitar um pouquinho o todo, ai, que bom seria.

Estava eu nesses pensamentos, no quanto admirei a reflexão dessa mãe, quando passou a vizinha e fomos conversar. Ela me disse: fiquei mal, não precisava ter falado com ela daquele jeito.

.

Bom, daí quase fui aos prantos, mesmo. Duas pessoas passaram por uma situação de conflito, se exaltaram, se desgastaram… E pensaram a respeito. E refletiram. E conseguiram enxergar uma à outra.

.

O argumento da mãe tinha sido: só vou pegar as crianças.

A vizinha respondeu: que belo exemplo tu tá dando pros teus filhos!

Isso foi no auge da briga. Passado tudo isso, digo: que belo exemplo que essas duas deram para os seus filhos. E para mim. E para todos nós.

Raquel Grabauska

Monstros e Ladrões

Raquel Grabauska
18 de agosto de 2017

Esse é o título do mais recente livro do Celso Gutfreind. Ele trata de um assunto que ninguém quer falar. Muito menos falar com crianças. Muito menos falar com os filhos. E precisa. Infelizmente precisa. A sinopse que está no site da Editora Edelbra.

Era uma vez um menino que era todo de prestar atenção para dentro, lá onde moram os pensamentos. Um dia, quando monstros começaram a aparecer, ele descobriu com seu pai – e o bigode dele – que sempre tem um jeito pra tudo. Pelo menos era nisso que ele acreditava até o dia em que o bigode do pai ficou todo nervoso por causa de uns monstros diferentes, que são gente, mas não lembram disso. E agora? Será que para isso também tem um jeito de resolver?

.

A violência está aí. As crianças percebem

.

Nós já fomos assaltados com os guris juntos. Foi bem difícil de explicar o que que tinha acontecido. De entender também, é claro. Desde então nosso filho mais velho sabe que temos pressa pra que ele entre e saia do carro. Que não se distraia na rua. Que seja rápido. Que seja menos criança. Esperando o tempo em que a gente posso brincar na rua de novo.