Nós US

Ainda sobre aquele muro…

Sacha
12 de setembro de 2016

Com todos os despropósitos que vimos este humilde 2016, chegamos a setembro com mais outra para o monte de lixo acumulado, na forma de uma visita ao México de um senhor candidato à presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Já estamos quase acostumados à discrepância entre a seriedade e formalidade do cargo e o irascível circus peanut* antropomorfizado que é o Trump. Desta vez foi ao México fazer diálogo com o presidente desse país, Enrique Peña Nieto, depois de largos meses passados a chamar imigrantes mexicanos de tudo menos estimáveis e valorosos para os Estados Unidos. O objetivo? Fortalecer relações e promover a unidade entre os países, ao estilo de uma visita oficial de estado. Meras horas depois, numa conferência de imprensa habitual do candidato, voltou a dizer as mesmas asneiras de sempre sobre os imigrantes naturais do país visitado. Parece ironia, mas não.

Há especulação (e parece-me a explicação mais provável, a mais) de que esta viagem foi uma tentativa por parte da equipe Trump moderá-lo por influência imediata, ou seja, somente, através de discurso direto com quem tem a chave de ouro do fluxo migratório norte-americano, consegue convencê-lo alterar o discurso radical. Visto o improviso com que o Trump tem proclamado sobre basicamente todos os temas políticos do dia além da polémica migração de muçulmanos e mexicanos, a estratégia até parece boa: o político pretendido formula uma posição na hora que, sem querer pedir desculpas ou parecer fraco no seu posicionamento, fica desdobrado depois. O problema é justamente que este é o issue mais pressionado pelo próprio Trump e por mais influenciável que seja, forma base do seu pensamento político. O fracasso é evidente. O circo mediático e correspondente falta de política a sério continua igual.

*lit. “amendoim de circo”, confeito parecido com o marshmallow criado nos Estados Unidos, amado por crianças e detestado pelos próprios pais e outros adultos com bom senso desde meados do século 20, com textura e gosto artificiais, geralmente de cor-de-laranja pálida.

Reporteando

O adorável risco de recomeçar

Renata Colombo
12 de setembro de 2016

Quando digo a mim mesma que não seria outra coisa na vida que não jornalista, o frio na barriga é um dos motivos. Nem tudo na profissão são flores, quase nada na verdade. A gente ganha mal na maioria das vezes, sofre boicotes, se frustra, ouve mais nãos do que sins. Mas tem sensações que compensam e nos levam à realização pessoal e profissional tão grandes, de desafiar a si mesmo, de provocar uma mudança real no mundo, que a balança equilibra. O que é ruim já não é mais tão péssimo. O que é bom fica ainda mais ótimo. E não, isso não é um texto de autoajuda. É o relato de alguém que virou a vida de cabeça para baixo pra descer de novo a montanha russa e faria de novo e de novo.

Quando falo em desafio, falo em risco, em ter coragem, em ir até o fim, em não sossegar até conseguir, em provar, contestar, não se contentar, não se acomodar, se orgulhar. Isso não se aplica somente no dia-a-dia ou em uma apuração. Este comportamento vale para a vida, afinal vida de repórter passa da porta da redação, é na verdade do lado de fora dela. 
Quando falo que vale para a vida é porque a profissão e a vida neste caso se misturam. O jornalismo anda ao lado, a notícia assopra num ouvido, a desconfiança sussurra no outro. Mas ele anda descuidado. Os reporteiros andam apressados, ansiosos, preguiçosos, desovam tudo antes de sentir aquele frio na barriga que falei lá em cima. Sabe quando parece que borboletas dançam lindamente no estômago? É isso. Poucas coisas na vida da gente fazem sentir isso. Temos que cuidar disso. Estamos aqui pra falar e cuidar disso.

Catraqueanas

(Ainda) há relação entre (falta de) qualidade e verdade?

Gustavo Mittelmann
12 de setembro de 2016

Hoje em dia, internet praticamente significa vídeo, e vice-versa. Passa dos 86% o total de internautas brasileiros que assistem a vídeos online. A mudança não é apenas de mídia, plataforma. Linguagem e estética também passaram por uma forte adaptação. Como figuras de destaque nessa nova onda millenial da comunicação, estão os Youtubers. Uma câmera no celular, um quarto de cenário e uma ideia de fama na cabeça. E não é que deu certo? Milhares, ou milhões, de fãs e seguidores depois, o que começou não como opção, mas como solução para viabilizar a produção com limitações de verba, equipamentos e conhecimento técnico, acabou se tornando uma prisão. O público associou essa estética caseira à sensação de verdade, vida real – e se identificou.

De fato, era isso mesmo; a gurizada mostrava como jogava aquele game, como se maquiava, o que comprava e o que gostava. Fisgou a toda uma geração. E às marcas também. Estas, passaram a querer inserir seus produtos nos vídeos daqueles. Eles, ficaram tentados a ter uma renda bem maior à proporcionada apenas pelas visualizações do Youtube.

Os games, as maquiagens, as compras e as viagens começam a se transformar em presentes. E mais, acompanhados de substanciosos cachês. Daria pra comprar uma câmera melhorzinha, um microfone, quem sabe até um quarto novo, em um apartamento novo. Mas se a coisa ficar bonita e produzida, para onde vão os seguidores (e, junto, as marcas e o dinheiro que elas colocam que poderia bancar tudo isso)?

A partir desse ponto, vemos o que era solução, se transformar em opção. Mais do que isso, passa a ser quase uma interpretação. O pensamento dominante é fingir que continua caseiro e humilde, para o público fingir que continua achando que é verdadeiro. Faz de conta que era esse jogo mesmo que eu ia comprar; que é a opção mais legal. Que esse é o BB Cream que cobre melhor as manchas, que é o perfume que eu procuro sempre pra comprar parcelado na Renner e que eu sempre quis conhecer a NASA, mais do que a Disney. Vai mais longe: faz de conta que fui eu mesmo quem escreveu esse livro que todo adolescente vai comprar e quase nenhum vai ler de fato.

E assim, vemos surgir uma geração de garotos-propaganda travestidos de influenciadores. E um mercado fracamente disfarçado de verdade, mas que, por conveniência, os interlocutores fingem não ver. O quarto virou mercado negro.

Guia de Viagem

O Novo Velho Continente

Ana Martins
12 de setembro de 2016

Crise! É o clima político que percorre o Ocidente—de norte a sul aí no “novo mundo”, de canto a canto aqui pelo velho. Em poucos anos vivemos, não uma, mas muitas crises sucessivas. E do seu cúmulo, o velho continente já não nos parece tão familiar. Paira no ar a sensação de que a Europa que até ora conhecemos mudou, sem se saber bem para o quê.

“A história é feita de longos períodos em que nada parece mudar, e de momentos em que o mundo parece ter mudado de repente”, ouvi um dia um Professor dizer. Estes “momentos” começaram em 2008 com o estalar da crise financeira, mas têm ocorrido a um ritmo cada vez mais acelerado nos últimos dois, quase três, anos.

Despertámos em choque no início de 2014 com a anexação da Crimeia pela Rússia. Um momento que trouxe à memória europeia a era de conflitos que julgávamos ter deixado no século XX. Parecia ser coisa do passado. Mas de um passado bem mais distante são os atos de violência inqualificável praticados em nome de um Deus, pensávamos.

2015 começou com o ataque islamista (fundamentalista, entenda-se—não islâmico) a Charlie Hebdo, e acabou com os ataques de Paris em novembro. Seguiram-se este ano os ataques no Aeroporto de Bruxelas e mais recentemente em Nice. Novidade não eram—vimos ataques destes ao longo da última década. Mas a insistência em tão curto espaço de tempo operou uma mudança na nossa perspectiva. Um ataque terrorista entristece-nos, preocupa-nos, revolta-nos, mas já não nos surpreende. E isto sim é novidade!

Coisa do passado parece-nos também o apoio crescente à extrema-direita que se alimenta de sentimentos racistas, xenófobos e nacionalistas que aqueles acontecimentos só vieram intensificar. Há quem veja nestes sentimentos a causa do momento histórico que fez toda a Europa estremecer há poucos meses atrás: o Brexit. Houve, convém dizer, argumentos sãos e sérios do lado Leave. Mas o certo é a incerteza que esta decisão inédita trouxe para o futuro do Reino Unido e da União Europeia. Teme-se pela coesão das duas uniões, especialmente desta última com as eleições francesas e alemãs a caminho—dois países onde a extrema-direita tem ganho terreno.

Já na Península Ibérica, a ascensão do outro extremo—à esquerda—lançou Portugal e Espanha em situações sem precedente, ainda que diferentes. Há um ano os dois países atravessavam eleições em simultâneo. Em Portugal o partido de centro-esquerda aliou-se aos partidos da extrema-esquerda formando um governo famosamente apelidado de “gerigonça”. Mas um ano depois, Espanha nem gerigonça tem! Irá a eleições pela terceira vez antes do final deste ano—um recorde!

Novidades eleitorais e referendárias à parte, o que é mais preocupante são as vozes antieuropeístas numa União Europeia instável, incerta e desacreditada. Fora dela ficará certamente a Turquia depois de uma tentativa de golpe de Estado levar o país a dar uma guinada para o autoritarismo desvelado. E pelo meio fica uma crise ainda mais difícil de resolver: a dos refugiados Sírios e de outras partes de um Médio Oriente sem paz à vista. Esta é a mais urgente e desumana das crises que afetam a Europa. É um problema que aprofunda as suas divisões, medos e hesitações, e que a faz questionar-se acerca dos seus valores fundamentais.

Todas estas crises evidenciam uma crise ainda mais profunda: a crise de identidade europeia. Diz-se que a UE é um OPNI (Objeto Político Não Identificado). E este mistério está no cerne da discussão entre e no interior dos seus Estados-membros que ponderam o grau de “união” que querem na União, já para não mencionar se querem continuar a ser parte dela.

Mas crise é sinal de mudança que, não vindo a bem, vem a mal. Estas crises podem parecer inesperadas, mas os sinais estavam à vista para quem os quisesse ver. A liderança europeia, até agora inerte, confronta-se com as questões de fundo que tem evitado. O que virá das crises financeira, de segurança, estrutural, política e humanitária está nas suas mãos. Pode ser que desta crise existencial o velho continente saia esclarecido quanto à sua identidade e direção nesta era globalizada.

Daqui da Europa prometo partilhar com o Vós o que vou percebendo deste novo velho continente.

Até breve,

Ana