Pedro Henrique Gomes

Crítica – Fragmentado

Pedro Henrique Gomes
7 de abril de 2017

Duas amigas tentam convencer uma terceira a pegar carona com o pai de uma delas, após pararem numa lanchonete. Os atrativos para a viagem giram em torno das piadas ruins que o motorista contará para as passageiras. Após breve hesitação, a jovem aceita. Um homem misterioso entra no carro, no lugar do pai, e silencia as três. Ao acordarem, estão presas e não fazem a mínima ideia do motivo. O mistério do sequestro, e do cativeiro, Fragmentado carregará até o final antes de completar. A descrição da cena é incapaz de colocar a imagem, mas, como as personalidades que o personagem de James McAvoy interpreta, esse mistério assume muitos desdobramentos.

O sequestrador sofre com o transtorno dissociativo de identidade e sua mente comporta mais de vinte personalidades, cada uma tomando o controle de seu corpo (de sua mente) a qualquer momento. Desnecessário dizer o quanto esta premissa é explorada e incorporada ao universo do diretor de Corpo Fechado e O Sexto Sentido – como as armadilhas que ele cria jogando tanto com as crenças dos espectadores quanto com suas expectativas. O seu raciocínio visual é apurado e a inventividade que propõe é decisiva para apreensão do espectador (que ele reconhece e manipula sorridente). O transtorno da múltipla personalidade está geralmente associado a um evento traumatizante, sendo uma forma de reação à ruptura do ego, a qual as várias vidas passam a tentar esquecer.

Os admiradores de M. Night Shyamalan vão recorrer, com boa razão, ao que é regular em sua obra, ao que são as suas categorias universais, as reviravoltas, as questões de fé, os recursos estilísticos, a construção psíquica do medo, enfim, o que quisermos adicionar ao bojo do cineasta. Isto é, evidentemente, coisa de cada um. O essencial é que Shyamalan está filiado a um gênero, o suspense, e que sua obra contém, em fato, uma amarração espiritual com este gênero – de Hitchcock a John Carpenter – e também um estilo próprio. Não só pelo que é mental e da ordem do sobrenatural (e por isso nos lembramos de Hitchcock, por isso nos recordamos de Carpenter, de Polanski), mas principalmente pelo que é físico, material. Fragmentado é mental e é físico.

A sua metafísica, bem entendida, não surge em oposição ao físico, mas como parte integrante dele, sua ontologia, seu alicerce memorialístico e visual. O aspecto fabular de sua obra, que tem seu auge em A Dama na Água, não é resultado de arbitrariedades: é medo, tentação, aventura, dúvida, morte, fantasia, em suma, é construção meticulosa das variantes da crença. Shyamalan é um historiador de suas próprias imagens e, num só golpe, um escritor visual destas histórias (imagens). Aquilo que o cinema fantástico de super-heróis encena com certa ironia ou “ansiedade realista”, Shyamalan resolve como ritual absolutamente consciente dos seus encargos.

É aí que ele ainda é surpreendente. Como se as expectativas que depositamos se dissolvessem magicamente nas ações dos personagens, tão frágeis e tão incapazes de agir diante do medo, que paralisa e torna inerte o movimento do pensamento. E então a morte chega, decidida, a dar um fim e um recomeço hiper-real. Os que sobrevivem, agora aperfeiçoados, são justamente aqueles que creem no poder da mente. Shyamalan é um crente.

Split, de M. Night Shyamalan, EUA, 2017. Com James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson.

Samir Oliveira

Greve geral também é coisa de viado

Samir Oliveira
6 de abril de 2017
Imagem: Reprodução/Filme "Orgulho e Esperança"

O filme “Orgulho e Esperança” retrata uma situação verídica e histórica. Em 1984 os mineiros da Inglaterra estavam em uma dura greve contra o governo de Maragret Thatcher. Uma queda de braços que tremeu o país inteiro e um verdadeiro marco na luta por direitos da classe trabalhadora.

Mas o que a população LGBT tem a ver com isso? É aí que a história fica ainda mais interessante. O incipiente movimento LGBT britânico resolve organizar uma campanha para arrecadar dinheiro às famílias dos mineiros. Um belo gesto de solidariedade com os grevistas e seus familiares. Mas as entidades dos trabalhadores não se empolgam com esta ajuda. O preconceito ainda era imenso em uma sociedade que até 1967 considerava a homossexualidade um crime.

Os ativistas não se intimidaram e viajaram até uma pequena cidade do País de Gales para apoiar o núcleo local de grevistas – para o escândalo da comunidade, que se viu na presença de gays e lésbicas abertamente assumidos e orgulhosos de si. Inicialmente, o pragmatismo falou mais alto. Os grevistas e suas famílias estavam em uma situação miserável e não podiam recusar apoio. Mas em seguida relações se desenvolveram e os preconceitos acabaram se dissipando em meio à solidariedade.

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O filme é uma obra de ficção, mas relata a inspiradora aliança que realmente ocorreu entre os mineiros ingleses e o movimento LGBT da época. Culminando, inclusive, com a participação dos trabalhadores na parada LGBT de Londres. Uma corajosa demonstração de apoio

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O Brasil de hoje certamente não é a Inglaterra dos anos 1980. Mas os ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo do governo Temer vêm embalados na mesma ideologia propagada por lideranças como Margaret Thatcher. As centrais sindicais do país, em uma demonstração rara de unidade, convocaram para o dia 28 de abril uma grande greve geral. Motivos para parar o Brasil não faltam, a começar pela reforma da Previdência – passando pela ampliação das terceirizações e pelo congelamento dos investimentos públicos por 20 anos.

O Brasil não tem uma cultura relativamente sólida de greves gerais. Eu, pessoalmente, não consigo lembrar quando foi que ocorreu a última greve geral forte no país. Ao contrário da Argentina, que é uma potência quando se trata de mobilizações sociais. Mas os protestos que lotaram as ruas contra a reforma da Previdência indicam que este ano poderemos ter uma surpresa. Uma greve geral para valer, que faça tremer o governo.

Que nós, LGBTs, nos inspiremos no exemplo dos britânicos dos anos 1980 e estendamos nossa solidariedade a todos os trabalhadores no dia 28. Até porque as medidas do governo não atingir apenas um setor. Vão atingir toda a população, independentemente de identidade de gênero ou orientação sexual. E sabemos muito bem que os ataques pesam mais sobre os setores mais oprimidos e marginalizados.

Imagem: Reprodução/Filme “Orgulho e Esperança”

Catraqueanas

Origem, Identidade e os dois lados do muro

Gustavo Mittelmann
4 de abril de 2017

Esse espaço deveria falar de inovação, tecnologias, audiovisual e internet. E eu tinha um texto pronto para postar ontem relacionando os grandes telões verticais ao lado do palco no Lollapalooza e a coluna que escrevi no dia 13 de fevereiro falando dessa tendência. Mas ontem o metrô explodiu na Rússia, e achei que já estava na hora de falar sobre um assunto que vem martelando na minha cabeça há algum tempo. Hoje, o ataque químico na Síria me fez ter certeza de que preciso falar de algo mais relevante; que não interessa se as telas estão de pé, se os corpos estão deitados no chão.

“Me identifiquei com ele na difícil posição de ter orgulho das origens e, ao mesmo tempo não me identificar com a comunidade na qual deveria estar inserido”

Há alguns meses, participei de um encontro de 20 anos da formatura da minha turma do Colégio Israelita Brasileiro de Porto Alegre. Saí de lá tomado por frustrações e questionamentos. Lembrei do meu avô, que, há quase um século, saiu de uma de nossas sinagogas dizendo que jamais colocaria os pés lá de novo, porque aquilo se tratava de negócios e não de religião. Me identifiquei com ele na difícil posição de ter orgulho das origens e, ao mesmo tempo não me identificar com a comunidade na qual deveria estar inserido. E não só por observar essa aspiração quase maçônica de funcionamento.

Cegueira unilateral

Antes que você se pergunte qual a relação da minha crise de identidade com os atentados, eu explico: está no ódio, na intolerância, na falta de senso de justiça e na cegueira unilateral. É absolutamente inadmissível que a segunda geração depois dos guetos e do holocausto se posicione de forma confortável do lado fora do muro. É revoltante ver um médico judeu pedir uma estátua ao invés de condenação para outro médico, soldado do exército israelense, que atirou contra a cabeça de um palestino ferido e rendido.

“O dever de todo judeu dessa e de todas as próximas gerações é questionar; é destruir os muros e romper as barreiras”

É desencorajador ver estes, que são descendentes como eu, louvarem o muro de Gaza, o muro de Trump ou qualquer outra forma concreta ou abstrata de segregação. Ao contrário do que ouvi das mesmas pessoas da minha turma, não é dever moral de todo judeu defender o Estado de Israel. O dever de todo judeu dessa e de todas as próximas gerações é questionar; é destruir os muros e romper as barreiras. É enxergar a questão territorial como tal, e não como uma disputa religiosa, porque não é.

Não nos regozijemos, vaidosos, com os milhões de russos, milhares de etíopes e judeus de outras nacionalidades acolhidos por Israel. Um povo tantas vezes expatriado tem que ter a humanidade de olhar para os outros e não apenas para si; perceber que também está negando pátria a seres humanos.

Não sejamos arrogantes de achar que o fato de ter os Estados Unidos como padrinho e financiador desde o surgimento, faz com que Israel seja sempre e indubitavelmente o lado certo. Este é o lado que interessa a eles até o momento. Como assim já foram Saddam Hussein e até mesmo o Estado Islâmico. Questionemos. Sempre.

“A bagagem que carregamos deve nos fazer aprender e crescer, e não ser desculpa para replicar qualquer malefício que tenhamos sofrido”

Eu tenho muito orgulho de onde venho mas, para mim, e certamente pro meu avô, judaísmo não é um pacote ideológico, político ou territorial. De fato, não considero nem mesmo o aspecto religioso do judaísmo o principal. O que deveria nos unir são os mais de cinco mil anos de uma cultura de superação, aceitação, integração e diálogo. A bagagem que carregamos deve nos fazer aprender e crescer, e não ser desculpa para replicar qualquer malefício que tenhamos sofrido. A história está feita, mas o futuro é nossa responsabilidade. Por isso, repito: eu tenho muito orgulho de onde venho; mas não gosto do caminho que estão seguindo. Afinal, não existe lado certo em um muro.

ECOO

Sim, é difícil ser ecologicamente correta

Geórgia Santos
2 de abril de 2017

Nesta semana eu sofri a minha primeira derrota ecológica desde que iniciei uma jornada para recobrar a consciência ambiental que eu nunca tive. Não pensei que fosse fácil. Ao contrário, sei da dificuldade que envolve ir contra o fluxo. Ainda assim, acho que é a primeira vez que eu digo: é difícil ser ecologicamente correta. Muito difícil.

“Conforme avanço, deparo com obstáculos cada vez maiores”

 

Não me entendam mal, não pretendo desistir. Inclusive fiz progressos importantes ao longo dos meses, especialmente com a rotina da casa e cosméticos, uma jornada que divido com vocês aos poucos. Mas conforme avanço, deparo com obstáculos cada vez maiores e mais frustrantes.

Este post deveria ser sobre minha transiçãoo para um xampu sólido e natural. Ou seja, um produto que não polui, não agride meu corpo e ainda dispensa embalagem. Uma sequencia dos cuidados capilares que venho mostrando aqui com a hidratação e leave-in. Mas não rolou.

No último mês, testei três produtos diferentes e nenhum me deixou satisfeita. E não, não testei só uma vez, testei várias. Cada um deles. Todos deixaram meu cabelo empapado, oleoso e com aspecto de sujo. Fiquei muito frustrada.

Eu resolvi dividir isso com vocês porque parte da minha frustração vem do fato de que a maioria das blogueiras que escrevem sobre o assunto falam maravilhas desses produtos. É verdade que elas falam da dificuldade, mas nenhuma testou três produtos e os três deram resultados péssimos. O lance é que eu parecia um personagem do Mágico de OZ – e não era nem a Dorothy nem o Homem de Lata.

Eu não vou desistir. Fiquei feliz que o terceiro xampu funcionou melhor do que o segundo. Ou seja, houve uma evolução. Ainda preciso descobrir se o produto é ruim, se eu não estou lavando direito ou se não estou removendo o cosmético adequadamente – por isso não vou falar quais as marcas. Nesse meio tempo, encontrei um produto com o mínimo de química possível e tá tudo bem.

Um dia eu consigo.

Pedro Henrique Gomes

Michael Cimino: o homem que pisou na cauda do tigre

Pedro Henrique Gomes
31 de março de 2017

A célebre cena da roleta russa em O Franco Atirador (1978), quando Robert De Niro tenta dissuadir o seu amigo Christopher Walken de continuar com o perigoso jogo é a síntese do poder que as imagens, nos filmes de Michael Cimino (1939 – 2016), exprimem. Absolutamente todos seus filmes possuíam certa lisura e notável efervescência algo raras. De O Último Golpe (1974) a Na Trilha do Sol (1996), sua obra é um prato cheio para entendermos um pouco da complexa história do cinema americano.

Sua filmografia comporta um malgrado episódio, como uma porção de outros, no qual o protagonista é um filme poderoso. O Portal do Paraíso (1980) não é a “obra-prima incompreendida” que aniquilou a United Artists, pois não é de compreensão que se trata o cinema. O estúdio, criado pelos pioneiros Chaplin, Griffith, Pickford e Fairbainks lá nas primeiras décadas do século passado (e que tinha como propósito fortalecer a posição dos diretores em uma indústria crescente e vivendo modificações que só viriam a se intensificar), teve então o seu maior fracasso (no sentido hollywoodiano).

A história é longa e não há espaço para remontá-la, deixo portanto a recomendação de um livro, bastante duro com Cimino, escrito por Steven Bach, um dos produtores do filme: Final Cut: Art, Money, and Ego in the Making of Heaven’s Gate, the Film that Sank United Artists.

A história deste filme custou caro não só ao estúdio, mas ao próprio cinema americano da geração pós-clássica. Cimino, é claro, sabia, do auge de sua sensibilidade, que fazia um grande filme, donde a sua insistência em manter a temperatura das cenas (a violência, física e psicológica, se é que podemos as separar), a magnitude dos planos, a honesta e ambiciosa vontade de remeter ao tradicional, a pureza dos diálogos, a extensão do tempo, a clareza de suas heranças estéticas e intelectuais. Estão lá, por óbvio, os “seus cineastas”, John Ford (decerto em primeiro lugar), D.W. Griffith, King Vidor, Cecil B. DeMille; os seus literatos, Charles Dickens, Thomas Mann; os seus pintores, Caspar Friedrich, Kandinsky, Renoir (não possuem as cenas de danças do Portal do Paraíso e de O Franco Atirador (1978) alguma semelhança com O Baile no Moulin de la Galette?).

Ele só queria filmar pessoas e sonhar

Os personagens de Cimino não precisam falar muito: existem as imagens. Aliás, a minha imaginação cinéfila sempre permitiu imaginar Griffith, cineasta do período silencioso, a falar cada vez menos em seus filmes se ainda os fizesse hoje. De fato, os seus dois filmes falados não possuem lá muitos e extensos diálogos. Como Cimino, Griffith também viu sua carreira desandar com o auxílio perverso da mesma indústria que ele, como nenhum outro, ajudou em seus primeiros passos. Cimino não teve melhor sorte, mas o seu legado é imenso. Ele foi, sempre, entre os herdeiros de Griffith e Ford, provavelmente o maior, em quem as “evidências” apareceram com mais força e vibração.

Ao contrário de Griffith e mais próximo de Ford, Cimino era um idealista crítico. Temos um exemplo definitivo em seu último filme, Na Trilha do Sol, que coloca lado a lado a crença religiosa e a ciência não para prová-las verdadeiras, mas torná-las possíveis. Pois é disto mesmo que se trata: a linha do horizonte fordiana, matéria visual constituinte da história do western, não é senão a crença na possibilidade do mundo e nesta possibilidade como ordem (moral) a ser restituída pela e na América.

Como aquele outro sonho que nunca se realizaria: a adaptação do livro de Ayn Rand, Vontade Indômita. King Vidor já havia lhe dado uma imagem cinematográfica em sua adaptação do livro homônimo. O Objetivismo, “a virtude do egoísmo”, a liberdade, a propriedade, na propalada ideia de Rand, ou seja, o laissez-faire ordenador da estrutura capitalista moderna, seriam seus materiais. Mas Cimino dizia não estar ligado em ideologias e política. Ainda bem que, neste caso, ele sempre esteve errado. Pois o que seria de um filme como O Ano do Dragão (1984) sem a violenta exposição dos meandros da máfia chinesa nos Estados Unidos (como se, naquele contexto, máfia e política não fossem partes de um mesmo processo) e O Siciliano (1987) – ou mesmo O Franco Atirador, filme antibelicista por excelência.

Não lhe importavam os motivos, mas as crenças e o que elas mobilizavam nos homens que as carregavam. Era o que ele queria filmar, o que buscava mostrar. Ele queria poder imaginar e sonhar o mundo com seus personagens.

Samir Oliveira

Devassos no Paraíso, um livro que todo LGBT deveria ter na cabeceira

Samir Oliveira
30 de março de 2017
Devassos no Paraíso

João Silvério Trevisan é uma preciosidade do movimento LGBT brasileiro. Jornalista, escritor, cineasta, pesquisador e ativista, elaborou o estudo mais completo sobre a relação do Brasil com a diversidade sexual e de gênero. Escrito em 1986, o livro “Devassos no Paraíso” faz jus ao seu nada modesto subtítulo: “A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade”.

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A obra mergulha nas entranhas de um Brasil hipócrita e repressivo para demonstrar como, historicamente, a diversidade sexual e de gênero sempre foi criminalizada e punida por diversas instituições no país – ao mesmo tempo em que, no submundo das ruas, era tolerada e apreciada

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Trata-se de uma pesquisa densa e científica, traduzida para o público com a habilidade de um jornalista experiente com as palavras.

Ao desbravar a história da repressão à comunidade LGBT no Brasil, João Silvério Trevisan resgata a cruel perseguição da Inquisição católica durante o período colonial. E nos diverte ao informar as curiosas expressões utilizadas na época para se referir à homossexualidade. O Santo Ofício referia-se ao sexo anal como “tocamento nefando”. Já o prazer lésbico era qualificado como “amizade tola ou de pouco saber”. Expressões que hoje parecem engraçadas, mas que na época condenavam à morte e à tortura.

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Ao avançarmos na leitura de Devassos no Paraíso, descobrimos que a Igreja Católica deu lugar à medicina na opressão à diversidade sexual e de gênero no Brasil

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LGBTs eram enviados aos montes para os manicômios, que funcionavam como uma espécie de depósito de tudo que a sociedade rejeitava. Em seguida o Direito se consagrou como agente repressor, com códigos, constituições e leis no Império e na República que tentavam reprimir práticas sexuais e comportamentos.

Ao mesmo tempo em que expõe o Brasil repressor, João Silvério Trevisan também nos mostra o Brasil que resiste. Aborda o pouco explorado tema da sexualidade entre os povos originários, dando voz a estudos que demonstram a naturalidade com que diversas tribos indígenas encaram a homossexualidade e a transexualidade. A vida cultural do país também é passada a limpo através de artistas e grupos que marcaram suas carreiras e performances pela quebra de estereótipos e pela ousadia em assumir suas identidades – sendo Cássia Eller e Ney Matogrosso as maiores expressões deste fenômeno.

Devassos no Paraíso também fala de política. E como fala! O autor foi um dos fundadores e editores do jornal Lampião da Esquina. Trata-se da primeira e mais importante publicação LGBT do país, cuja própria existência era uma afronta à ditadura, ainda no final dos anos 1970. Além disso, o jornalista criou o grupo SOMOS, principal organização de ativistas pelos direitos dos homossexuais naquela época.

Em seu livro, podemos receber em primeira mão os relatos de um militante histórico pelos direitos LGBTs. Identificado com a esquerda, João Silvério Trevisan é um espírito livre. Não poupa críticas a partidos e organizações que, nos anos 1970 e 1980, custaram a assimilar a pauta dos direitos LGBTs. Relata o preconceito sofrido no interior destas organizações e professado por suas lideranças, além de tentativas de cooptação da luta pela diversidade.

Aos 72 anos, o jornalista segue lúcido e afiado – talvez, por isso mesmo, um pouco afastado da cena pública e do ativismo tradicional. Em 2005, criticou o atrelamento do movimento LGBT aos governos petistas. Governos que, de fato, pouco ou nada fizeram por nossa comunidade. Em nome de uma aliança conservadora, rifaram direitos e inclusive vetaram o programa de combate à homofobia nas escolas. Entregaram todos os anéis aos aliados da direita retrógrada, que acabaram por lhes devorar os dedos, as mãos e o corpo inteiro.

É uma pena que o livro seja hoje uma raridade. Está esgotado. A única forma de conseguir um exemplar é garimpando em sebos, que irão cobrar um preço de ouro por uma obra tão rara. Escrito em 1986, o livro já possui oito edições. A mais atual foi publicada em 2003. Bem que João Silvério poderia nos dar um presente e lançar uma nova versão de sua obra, atualizada até os dias de hoje. Certamente sua análise independente, crítica e revolucionária seria um farol para nossas lutas e sonhos.

Reporteando

Documentário – onde as histórias ganham mais voz

Renata Colombo
28 de março de 2017

Sempre tive um sonho como repórter. Um só. Fazer um documentário.

Uma boa reportagem, ótima, daquelas de se orgulhar, pode chegar a uma grande reportagem, especial, de profundidade. E ela pode ser um documentário. Neste formato, as histórias reais, de gente de verdade, as coisas que impactam na vida das pessoas ganham uma plástica menos bruta, melhor editada.  Parece que dá ainda mais voz a quem tem o que contar, que não é o repórter, é a fonte, o personagem.

Um que adoro se chama Nascidos em Bordéis. É uma reportagem que qualquer jornalista baba. Sabe por quê? Porque como toda boa reportagem ela toma um rumo diferente, que não estava no script, nos surpreendendo com o que descobrimos pelo caminho. Tem frio na barriga melhor que esse para um repórter? Desconheço.

A fotógrafa inglesa Zana Briski ia somente retratar o cenário de prostituição do distrito de Linha Vermelha, em Calcutá, até resolver entregar uma câmera fotográfica nas mãos de crianças que viviam no lugarejo abandonado. Os resultados, obviamente, foram surpreendentes. As fotos revelaram histórias que as crianças não tinham coragem de contar. As imagens mostraram a realidade triste de um local em que o destino das meninas era a prostituição, que não tinha escola e onde as crianças viviam sem perspectiva de futuro.

Essa semana estreia nos cinemas um que retrata a nossa realidade de forma dura e despida. Tenho orgulho de dizer que ajudei a dar o pontapé inicial na produção, mas o mérito do resultado sensacional não é meu.  A partir de quinta-feira, dia 30, estará nos cinemas o documentário Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil, dos meus corajosos amigos Tatiana Sager e Renato Dornelles.

É triste, porém enriquecedor, mergulhar em universos onde a gente enxerga que o ser humano pode ser ainda mais primitivo, escroto e desumano. Central nos leva a uma reflexão difícil. Uma mistura de desesperança, de medo, de nojo e por que não de compaixão.

Está feito o convite. Assistam. Eu, como repórter, devorei cada imagem inédita, cada cenário conhecido, cada depoimento revoltante, cada pensamento sobre a vida e o que fazemos dela. Acho que vocês vão gostar.

Prometo que quando fizer o meu convido também!

 

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Silêncio

Pedro Henrique Gomes
24 de março de 2017

Os padres portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) vão ao Japão para procurar o mentor intelectual de ambos, Cristovão Ferreira (Liam Neeson), que lá foi e não retornou. Estamos no século XVII. O Japão dos senhores feudais, budista, não aceita a religião cristã. Os padres católicos e seguidores de Cristo são então condenados a se tornarem apostatas ou experimentarão a tortura e a morte. A primeira, em matéria de religião, em si uma forma de tortura claudicante: é necessário pisar e cuspir em imagens de Cristo para confirmar o abandono da fé. Paradoxal, como qualquer fé, é a imagem que Scorsese nos oferece destes homens e suas missões.

A história, adaptação de um livro japonês publicado em 1966 é algo como um Sermão do Padre Antônio Vieira: “Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear, são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão: os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta” (Sermão da Sexagésima).

É tentadora a ideia de incluir Silêncio, pensado no conjunto da obra de Scorsese, entre os seus filmes de aprofundamento das temáticas religiosas cristãs. Ele trata de fé, isto está claro, de modo mais direto, assim como em A Última Tentação de Cristo e Kundun. O tema é caro ao cinema americano (de D. W. Griffith a Michael Cimino, chegando ao próprio Scorsese), país de fundação cristã (protestante) que é. O cineasta inscreve seu filme na tradição de um cinema em diálogo intenso com outro, aquele que o cinéfilo conhece bem e admira com notório entusiasmo – o japonês, evidentemente; sua inspiração está baseada em Yasujiro Ozu. Ele dedica, pois, suas imagens a estas duas tradições: a dos símbolos religiosos e a das imagens do cinema como profissão de fé, como instrumento e como registro; como história da memória. Não são os melhores filmes aqueles em que os seus autores investem as suas crenças?

Silêncio é o filme de alguém que crê, sobretudo, nas imagens que cria. No entanto, ele expõe a contradição de ser um pregador não violento com uma obra repleta de violência em forma de punição – e purificação, sacrifício, martírio, autoflagelo. Rodrigues e Garupe, os homens em missão, irão sentir na carne e no espírito a dor que o Padre Ferreira experimentou. As formas de tortura utilizadas para forçar a apostasia eram as mais variadas, corpos jogados em alto mar, queimados, deixados a perecer em crucifixos.

Scorsese quer a conciliação das crenças, a convivência e o respeito no mundo dos que creem (nesse sentido ele é como Bresson). É um humanista radical: chafurda cada vez mais na seiva que nutre o pensamento cristão. Suas imagens não são dogmáticas (as de Mel Gibson em A Paixão de Cristo, por exemplo, são) – dedica o filme aos religiosos japoneses, embora os retrate como antagonistas, não exatamente como vilões. O que lhe interessa é a ideia de Deus ante a religião, o pensamento do indivíduo ante o conjunto de crenças. Seus personagens não renunciam. É até algo didática a forma como Scorsese encena e enquadra a fé dos seus, resgatando closes dreyerianos e insistindo, pela montagem, na duração e na intensidade do sofrimento em tela. É preciso um pouco sangue frio para não sofrer junto.

Silence, de Martin Scorsese, EUA, 2016. Com Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano.

Samir Oliveira

Sobre refúgios afetivos e memória coletiva

Samir Oliveira
23 de março de 2017
Foto: Travis Wise/Flickr

Toda comunidade é uma junção de pessoas unidas por traços em comum. Por valores que compartilham, por padrões de comportamento, por códigos e sistemas culturais que se tornam mais valiosos se forem preservados e difundidos coletivamente. Os espaços para que estas trocas aconteçam são fundamentais, verdadeiros refúgios.

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A população LGBT é uma comunidade extremamente diversa. Em todos os sentidos. Da política ao comportamento individual. Nada disso impede que tenhamos, também, nossos próprios refúgios. Espaços coletivos, públicos ou privados que expressam nossas identidades e onde podemos exercer nossos afetos

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A importância desses locais não deve ser subestimada. Foi justamente o ataque sistemático a um deles, o bar Stonewall Inn, em Nova York, que despertou uma rebelião na luta por direitos civis.

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Quando vim para Porto Alegre, eu pouco ou nada sabia sobre estes espaços. A descoberta foi uma aventura cotidiana de libertação e descobrimento

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Talvez o espaço mais tradicional, para mim, seja o Venezianos, um pub pequeno e aconchegante, completamente versátil. Faz as vezes de bar, de restaurante e até mesmo de festa, com uma programação bastante eclética. Outro local histórico é a danceteria Refugius. Um mega complexo que costuma receber uma boa quantidade de público do interior do Estado e da Região Metropolitana.

Enfim, eu poderia citar muitos outros lugares, como o Porto Carioca e o Bahamas, que já são referência na Cidade Baixa para o público LGBT. Acontece que estes locais não precisam necessariamente ser um bar ou uma casa noturna. Podem – e devem – ser também espaços públicos de socialização. Como a própria parada do orgulho LGBT, que ocorre anualmente em centenas de cidade do mundo inteiro.

Estes refúgios físicos e afetivos são fundamentais para a preservação de nossa memória coletiva. São espaços abertos e inclusivos a todos que respeitem a diversidade. Hoje em dia, felizmente, as fronteiras entre diferentes comunidades estão mais fluídas, possibilitando uma troca muito bonita de experiências – desde que haja o devido respeito a identidades e práticas, sem apropriação ou colonização cultural.

Durante muito tempo os espaços de socialização para a população LGBT foram tidos como “guetos”. Este conceito, além de ultrapassado, remete aos tempos mais sombrios da história humana. Queremos espaços livres e diversos. Precisamos deles para interagir e viver em sociedade.

Foto: Travis Wise/Flickr

Nós US

The Curious Case of Consternation

Sacha
23 de março de 2017

(pode ler este artigo em português aqui)

It’s confirmed: the president of the United States of America is under investigation by the FBI for Russian interference during his electoral campaign and foreign compromising in his elected office. In normal times, this investigation would be enough to force his resignation, as happened to Nixon in the Watergate scandal. We don’t, however, live in normal times.

There’s no moment in which the elected administration has distanced itself from the electoral campaign, largely due to behavior related to scandals it’s involved in. The administration maintains the same staffers as well as discourse, blaming any kind of mishap on the previous administration or Hillary. This last point in particular demonstrates a profound dissonance in the Republican Party’s discourse faced with the reality of what happened before and during the campaign.

Trump is not yet on the verge of impeachment for the same reason there were 37 hearings for the Benghazi case, continuing well after it had been settled

What is curious, then, comes from all of the supposedly bad things attributed to his opponent being, on the other hand, the very real target of open investigations against Trump and his campaign. Hillary, they said, was corrupt and compromised, incompetent for using her own email server. Meanwhile, the current administration is using private email servers and the president continues to use his old, unsecured Android phone. The FBI is openly investigating potential compromising of the administration and involved figures in it and the campaign. The inversion of culpability shows the hollowness of the rhetoric that secured Trump’s victory among just the right electorate in the final stage of the campaign.

The sudden amnesia to the consternation demonstrated for Hillary in the context of the same types of accusations the president faces hides the lesson the Republican Party has learned in its time as the opposition: it doesn’t matter what the words themselves mean, it matter what kind of implications they carry. Trump is not yet on the verge of impeachment for the same reason there were 37 hearings for the Benghazi case, continuing well after it had been settled.

It doesn’t matter if it’s an accusation of corruption, restriction to free speech, or ethics violations: it’s the capacity of that moment to generate a point of political conflict that sticks. The moment it no longer sticks or no longer serves the accusing side to advance its political agenda, sure enough, we get a curious case of amnesia.

Image credit: melodi2