Samir Oliveira

Foi com o Vini, mas poderia ter sido com qualquer um de nós

Samir Oliveira
10 de agosto de 2017

O mês de agosto tradicionalmente concentra muitas formaturas de faculdades. Inclusive foi em agosto que eu também me formei, há exatos sete anos. Uma das melhores lembranças da minha vida. Infelizmente, para o psicólogo Vinícius Beccon e seu namorado Raul Weiss, esse tipo de cerimônia não será mais sinônimo de alegria e comemoração.

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Vini, como é conhecido (e como eu tomo a liberdade de chamá-lo), foi brutalmente agredido durante uma festa de formatura na madrugada do dia 5 de agosto em Porto Alegre. Seu crime? Ter recebido um beijo do namorado – amigo da formanda de uma turma de Direito da PUCRS

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A notícia sobre a agressão ao Vini me destroçou. Na noite anterior eu havia ido a uma formatura. E amanhã comparecerei em outra. Imaginar que um gesto de carinho nestes espaços possa causar uma reação violenta de algum parente dos meus amigos é apavorante.

Vini conta que foi agredido por um grupo de homens, dentre os quais estava o próprio pai da formanda. Além disso confiscaram seu celular e devolveram apenas no dia seguinte. Numa entrevista ao jornal Zero Hora, ele disse:

– Ouvi a palavra vagabundo, aí me pegaram pelas costas, me arrastaram pelo salão por uns dois metros, na frente de todo mundo, e me deram chutes e tapas. Enquanto davam tapas, tentei pegar meu celular, mas o pai da formanda arrancou-o de mim. Davam aqueles tapas de mão aberta e diziam: “Viado! Vagabundo!”. E o pai dela dizia: “Aqui não é lugar para vocês, eu te falei”. O Raul tentava chegar perto, me socorrer, senti a mão dele tentando me puxar, mas foi segurado. Disseram: “Cala a boca ou tu vais apanhar também”. Então eu vi que deixaram a mãe da formanda entrar no meio do grupo. Eu disse: “Vou processar vocês”. Vi que ela fez cara de apavorada. Depois eu soube que ela é advogada. Ela falou: “Larga ele”. Foi aí que me soltaram.

A partir daí, um roteiro infame foi traçado pela defesa do pai da formanda. Depois de alguns dias – certamente precisava de tempo para elaborar sua versão – o sujeito se pronunciou publicamente em entrevista à Rádio Gaúcha. Tentou desmentir as palavras de Vini.

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Já que palavras não podem apagar machucados, todos devidamente periciados em exame médico feito por Vini, o pai da formanda veio com uma desculpa inusitada para os ferimentos: “Ele tropeçou e caiu”

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Mas o peixe morre pela boca. A homofobia não é um comportamento racional e os homofóbicos não resistem à oportunidade de destilar ódio gratuitamente. Especialmente quando sabem que terão plateia. Ao final da entrevista, o homofóbico se entregou. Dirigindo-se ao jornalista David Coimbra, deu uma declaração que foi praticamente uma confissão de culpa:

– Queria pedir para o David que faça uma matéria sobre os homens héteros, trabalhadores, pais de família, que esses não têm representatividade nenhuma.

É exatamente este tipo de pensamento que fornece combustível a ações violentas contra a população LGBT. Não é à toa que o Conselho Regional de Psicologia e a Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da OAB já se manifestaram em favor de Vini.

O psicólogo está processando o pai da formanda e busca identificar os outros agressores. Espero que seja feita Justiça. Que vivamos em um mundo onde as pessoas saibam que gestos de carinho não podem resultar em agressão.

Vini não tem nenhuma obrigação de doar qualquer recurso que possa vir a receber de uma sentença indenizatória. Mas já avisou publicamente, em seu perfil no Facebook, que fará isso. “SE houver qualquer processo de indenização que tiver resultado em sentença financeira, será TOTALMENTE doado a uma ONG de combate a homofobia ou discriminação de minorias”, garantiu.

O que aconteceu com o Vini Beccon poderia ter acontecido comigo. Ainda pode acontecer. Ou com qualquer pessoa LGBT. Por isso seu relato calou tão fundo em mim. Quando fecho os olhos e tento imaginar os minutos de horror que viveu naquela formatura, me lembro facilmente de um trecho do conto “Terça-feira gorda”, publicado por Caio Fernando Abreu no livro “Morangos mofados”:

A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.

E brilhamos.

Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

ECOO

Faça você mesmo (DIY) – Talco para os pés

Geórgia Santos
6 de agosto de 2017

Um dos melhores amigos da minha família é o tal do Pó Pelotense. Pai e mãe sempre usaram e eu não ficava pra trás. Volta e meia esquecia, mas era só usar uma Melissa em um dia de calor que eu lembrava do porquê amávamos tanto o Pó Pelotense. A verdade é que ninguém gosta de chulé, né. E se pudermos usar algo pra espantar esse cara que insiste em nos acompanhar, tá valendo. Por isso pensei num talco para os pés que seja natural e que a gente pode ser em casa.

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Mas e quais as alternativas sustentáveis pra o chulé? 

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É mais fácil do que tu imaginas. Eu pesquisei sobre o tema na internet, além de perguntar pra algumas pessoas, e há inúmeras receitas pra espantar o mau cheiro nos pés, mas a melhor resposta é simples: BICARBONATO DE SÓDIO E AMIDO DE MILHO. Substitui o talco por uma mistura de partes iguais de bicarbonato de sódio com maisena e o resultado será absolutamente o mesmo. O amido controla a umidade (muito importante, senão o pé fica cheiroso porém encharcado) e o bicarbonato controla o chulé.

Se sentir falta de um cheirinho mentolado ou um cheirinho qualquer, pinga umas gotas de óleo de essencial e mistura com o pó. Deixa secar e coloca em um tubinho que facilite a aplicação, tipo esse aí embaixo.

Mas assim, usa um óleo que não tenha cor. Porque eu pinguei óleo de laranja (que é amarelo) e o resultado foi esse aí, ó =(

Muito idiota. Era óbvio que isso aconteceria, a meia ficou amarela por causa do oleo de laranja. Claro que se usar o calçado sem meias ou com uma meia escura, a cor do “talco” deixa de ser problema. Mas por via das dúvidas, eu evitaria.

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Chulé prévio

E o que fazer se o chulé já tomou conta do calçado? Ah, aí a trama complica. Quer dizer, nem tanto. Nesse caso, a solução também é muito simples: VINAGRE BRANCO. Mistura uma parte de vinagre (eu prefiro o de maçã) para cinco partes de água. Umedece um pano com essa mistura e passa no calçado fedorento. Deixa secar à sombra e pronto, o chulé vai embora. Depois é só usar o bicarbonato.

Samir Oliveira

Os deputados muçulmanos disseram SIM ao casamento igualitário na Alemanha

Samir Oliveira
3 de agosto de 2017
Foto: Deputado Cem

No dia 30 de junho o Parlamento alemão (Bundestag) aprovou o casamento civil igualitário – popularmente conhecido como casamento gay. Foram 393 votos a favor e 226 contra. Os seis deputados muçulmanos do país foram favoráveis ao projeto. Em um tempo como o nosso, em que a islamofobia corre solta nas ruas e nas redes sociais, é preciso destacar este fato.

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Na Alemanha não foram os muçulmanos que se opuseram ao casamento gay, foram os católicos

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A União Democrática Cristã (CDU), partido da chanceler Angela Merkel, votou em peso contra a medida. Foram 225 deputados da CDU contra o projeto e 75 a favor – dentre eles, a única deputada muçulmana de suas fileiras, Cemile Giousouf. A votação só ocorreu porque finalmente o governo de Angela Merkel resolveu autorizar os deputados da CDU a votarem de acordo com sua convicção neste caso. Isso destravou a tramitação do projeto no Bundestag.

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Conservadora, a própria Merkel votou contra a medida. “Para mim, o casamento sob a lei alemã é a união entre um homem e uma mulher”, disse

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Além de Cemile, os demais parlamentares muçulmanos que votaram a favor do casamento civil igualitário pertencem ao Partido Verde alemão (Cem Özdemir, Ekin Deligöz, Omid Nouripour e Özcan Mutlu) e ao Partido Social Democrata (Aydan Özoguz). Estas suas siglas votaram unidas pelos direitos LGBTs, assim como o partido A Esquerda (Die Linke), com seus 63 deputados.

Ainda é muito presente o preconceito contra muçulmanos em particular e árabes em geral. É muito comum que as pessoas associem qualquer muçulmano ou cidadão árabe a terrorismo. Mesmo no Brasil, onde não se tem notícia de atentados ou grupos organizados com esta finalidade.  E onde as diferentes religiões convivem em relativa harmonia.

Eu mesmo, que não sou árabe ou muçulmano, já tive que lidar várias vezes com este tipo de preconceito – já que meu nome é árabe e, além disso, eu estudo língua árabe. “Está aprendendo árabe para virar terrorista?” e “Cuidado com o Samir, agora ele quer falar árabe” foram alguns absurdos que já ouvi. Até no Tinder já passei por isso: “Samir, nome de homem bomba”, disse o sujeito. Na primeira vez que veio falar comigo! É claro que foi bloqueado na hora.

Agora imagine sair na rua com um hijab. Imagine ir rezar em sua mesquita e ter que conviver com pichações difamatórias. Imagine ter que explicar inúmeras vezes ao dia que os fanáticos que detonam bombas e reivindicam o Islã não representam os muçulmanos.

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Imagine ser um LGBT muçulmano e ter que explicar que sua fé não é indissociável de sua orientação sexual ou identidade de gênero

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Outro braço deste preconceito é acreditar que todo cidadão árabe ou muçulmano é naturalmente um conservador. Uma pessoa atrasada e primitiva, arredia a qualquer costume ocidental e à conquista de direitos por mulheres e LGBTs. Dois mitos ridículos, sustentados por uma visão ocidentalocêntrica de mundo, que despreza as conquistas e processos históricos do Oriente, especialmente dos povos árabes – que foram tão vítimas da exploração imperialista quanto a América Latina. Talvez até mais, se considerarmos os poderosos interesses geopolíticos que dominam os países do Oriente Médio, do Golfo e do Magreb.

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É evidente que em muitos países árabes existe severa restrição a direitos de mulheres e LGBTs. Mas não precisamos ir tão longe, o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e é uma nação de maioria cristã

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É com a natural arrogância ocidental que muitos desejam ensinar aos povos árabes como eles devem conduzir suas lutas. Como se as mulheres e os LGBTs árabes precisassem ser conduzidos pela mão por algum libertador ocidental em direção à vitória. Não. Os povos árabes estão travando suas próprias lutas e não precisam de nossas lições.

Recentemente a ONG LGBT palestina Al-Qaws – palavra que, em árabe, significa arco-íris – lançou uma campanha para dialogar com a sociedade palestina a respeito de mitos sobre gênero e sexualidade. O vídeo exibe um diálogo entre três jovens palestinos, relatando de forma muito pedagógica como combatem o preconceito em suas comunidades.

É inaceitável que nós, sul-americanos e que conhecemos como poucos a realidade do colonialismo, tenhamos uma postura islamofóbica e xenófoba em relação aos povos árabes. Façamos um esforço radical de aproximação e compreensão. Temos muito a aprender com uma cultura tão rica e diversa, com povos que sentiram ao longo da história – e ainda sentem – o peso brutal da exploração colonial.

O mundo inteiro avança quando a luta contra a islamofobia e a xenofobia encontra a causa LGBT. Por mais alianças poderosas e transformadoras como essa!

Foto: Deputado muçulmano Cem Özdemir na Parada do Orgulho LGBT /Reprodução Facebook

ECOO

Cinco passos para uma vida mais sustentável

Geórgia Santos
30 de julho de 2017

Há poucos dias eu conversava com meus pais sobre o problema do aquecimento global. Mais especificamente, discutíamos o fato de o iceberg gigante ter se desprendido de plataforma de gelo na Antártica. Conforma a conversa evoluiu, começamos a conversar sobre os efeitos do nosso estilo de vida. Um artigo da revista New York fala que algumas partes da terra estarão inabitáveis já nos próximos 100 anos. Mesmo os cientistas que discordam do alarmismo e questionam alguns dados ressaltam que a situação é grave. Eles afirmam, porém, que é reversível.

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Papo vai, papo vem, minha mãe perguntou: o que eu posso fazer ?

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A dúvida que ela tem é a mesma de milhares de pessoas. E assim como a dona Tude, essas milhares de pessoas acreditam que levar uma vida mais sustentável é difícil e caro. Mas é mais simples do que se imagina. Mais do que isso, é totalmente possível. Por isso nós preparamos algumas dicas para quem não sabe por onde começar.

 

Cinco passos para começar a levar uma vida sustentável

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  1. 1. Economize energia

Essa era meio óbvia, né? Nem por isso a gente se preocupa o suficiente. E eu sou a primeira a assumir a culpa por deixar todas as luzes da casa ligadas – ou pelo menos deixava, no passado.

Começa por aí, apagando as luzes; desligando aparelhos que não estão em uso; tirando os carregadores da tomada; tomando banhos mais curtos; secando a roupa no varal; lavando a roupa e a louça à mão sempre que possível. Também evite usar o ar condicionado o tempo inteiro e escolha lâmpadas que consumam menos energia.

Se quiser dar um passo adiante, comece a utilizar fontes de energia renovável, como a solar – tem até c. Essas medidas não só ajudam o meio ambiente, mas reduzem – e muito – a conta de luz no final do mês. Ser sustentável economiza até grana. E nunca é demais lembrar que vivemos uma grave crise de energia. Quem não lembra dos apagões?

  1. 2. Economize água

Há estimativas de que 50% da água consumida em uma casa seja desperdiçada. E olha, eu lembro de fazer uma apresentação no colégio cantando aquela música horrível do Guilherme Arantes, Planeta Água, para chamar atenção para o desperdício. Isso há mil anos. Será que a gente não evoluiu nem um pouquinho?

Vamos lá, precisamos tomar banhos mais curtos (estou melhorando esse item); fechar a torneira enquanto escovamos os dentes; enquanto lavamos a louça; consertando vazamentos. Sem contar que já passou a era em que era necessário lavar calçada, né? Água da chuva tá aí pra essas e outras coisas.

As nossas fontes de água potável estão se esgotando e precisamos ser responsáveis quanto a isso. A quem acha que não passa de alarmismo, lembro que o nordeste brasileiro enfrentou, em 2017, a pior seca em 100 anos. Agora mesmo, fazendeiros do sul da europa enfrentam a pior estiagem em décadas. O estado da California, nos Estados Unidos, de onde escrevo neste momento, enfrentou os piores anos de seca de sua história. Estudos atestam que foi a pior estiagem em 1200 anos. É isso mesmo, eu não escrevi errado, em MIL E DUZENTOS ANOS.

Abaixo, o vídeo do National Geographic explica: menos de 3% da água do planeta é potável; apenas 0,3% está disponível para consumo humano; e isso é tudo o que temos. E deu. 

 

  1. 3. Abandone o carro

Ande a pé ou de bicicleta sempre que possível. Além de ser saudável, é outra maneira de ser gentil com o ambiente. Se usar o carro for imperativo, opte por um modelo mais econômico, de preferencia elétrico. Parece um contrassenso, mas há maneiras de abastecer o carro em plugues alimentados por energia solar. Sem contar que é BEM mais barato que gasolina.

 

  1. 4. Evite o plástico

Esse não é simples, há plástico por tudo e em tudo. Mas também não é impossível, é só mudar alguns hábitos. Troque as mil sacolas de plástico por uma de tecido; use uma garrafa reutilizável em vez de garrafa plástica; tenha uma caneca no trabalho, além de talheres de metal; evite pedir teleentrega; coloque as frutas e verduras da feira em saquinhos de tecido; use gilete reutilizável; prefira alimentos naturais e evite os industrializados e processados.

Enfim, evite o plástico sempre que possível. Prefira as alternativas produzias em materiais naturais e biodegradáveis. Esse pequeno documentário divulgado pela ONU Brasil ajuda a compreender o problema. 

 

  1. 5. Adote uma rotina de higiene natural

Essa passa por evitar os químicos, e também é uma alternativa saudável. Opte sempre por produtos naturais, desde sabonetes; desodorantes; maquiagem; xampu e condicionador; pasta de dentes; hidratantes para o rosto e corpo e por aí vai.

 

E aí, tá afim de experimentar uma vida mais verde? Vale a pena. Ah, e não esquece de separar o lixo 😉

 

Foto: Pixabay

Nós US

Governando pelo Twitter

Sacha
27 de julho de 2017
(you can read this article in English here)

Esta coluna é publicada a cada duas semanas. Duas semanas são exatos quatorze dias. Este pouco tempo, no entanto, parece o suficiente para que o presidente do país mais potente no mundo se emaranhasse em escândalos meramente por meio do Twitter. É difícil imaginar uma democracia em bom estado de saúde com um líder que governa apenas no seu interesse mais imediato. Ora, cá estamos.

O procurador-geral dos Estados Unidos foi escolhido para aplacar as bases mais conservadoras e nacionalistas do seu partido. Foi entre as primeiras figuras públicas a apoiar Trump desde o lançamento da sua campanha eleitoral. É fiel, portanto, desde o ponto de partida. Foi obrigado a recusar-se de uma investigação sobre o caso de conluio com a Rússia por causa da sua participação na campanha eleitoral. Em seguida, um comitê especial foi criado para investigar o caso—algo que desagrada Trump profundamente. Durante a semana passada, num pico de ira sobre o caso, Trump foi para Twitter reprovar a suposta fraqueza do procurador por se ter recusado.

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Que tiremos todos prints dos tweets incriminatórios

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Já seria absurdo se isto não se tratasse do presidente e dos cargos mais altos do país. Contudo, é o padrão estabelecido de Trump para fazer todo o tipo de declarações políticas. Seja declarações de intenção, sejam elogios ou calúnias a outras personagens políticas, não importa. Revela até informação confidencial, como se nada fosse. Vivemos numa época de governo via Twitter e nem os departamentos do governo sabem como lidar com esta estratégia – como bem vimos no caso da proibição de pessoas trans nas forças armadas.

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Decretos curtos e sem o mínimo de elaboração não fazem um governo eficaz. E oproblema é que estamos reduzidos a isso

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Sem muitas vagas ocupadas, com um presidente desconfiado de qualquer indicação de infidelidade, pouco se pode fazer. Sem que os seus aliados mais fiéis tenham segurança nos seus cargos, o presidente corre o risco de ficar num atoleiro sem saída. Que tiremos todos prints dos tweets incriminatórios.

Imagem: Weber VanHeber
Nós US

Government by Way of Twitter

Sacha
27 de julho de 2017
(pode ler este artigo em português aqui)

This column is published every two weeks. Two weeks are precisely fourteen days. That amount of time, in the meanwhile, seems to be enough for the president of the most formidable country in the world to embroil himself in scandals simply via Twitter. It’s difficult to imagine a healthy democracy with a leader who governs only in his immediate self-interest. Well, here we are.

The Attorney General of the United States was chosen to placate the most conservative and nationalistic bases of their party. He was one of the first public figures to openly support Trump from the launch of his electoral campaign. He’s loyal, therefore, from the very start. He was obligated to recuse himself from an investigation into collusion with Russian due to his participation in the campaign. Thereafter, a special committee was set up to investigate the case—something that Trump dislikes profoundly. In the last week, in a peak of rage, Trump took to Twitter to blast the supposed weakness of the attorney general for having recused himself.

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Let’s be sure to take screenshots of all the incriminatory tweets

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It would already be absurd if this weren’t about the president and highest positions of government in the country. However, it is the president’s established pattern for making all types of political declarations. Whether they are statements of intent, praise or scorn to other political figures, it doesn’t matter. He even reveals classified information on Twitter, just by happenstance. We live in an age of governing via Twitter. Not even the departments of the government know how to deal with this, as evidenced by the case of the apparent ban on trans people serving in the military.

Short decrees without so much as the minimum of detail don’t make for an effective government. The problem is that we’ve become reduced to that. With few positions in the government occupied and a President suspect of any indication of disloyalty, very little can be done. If even his most loyal allies can’t be sure of their jobs, the president runs the risk of getting stuck in a quagmire without an exit. Let’s be sure to take screenshots of all the incriminatory tweets.

Image: Weber VanHeber
Samir Oliveira

“Esses viados matam fascistas”: A resistência curda aponta o caminho

Samir Oliveira
27 de julho de 2017
Foto: Twitter/IRPGF

A imagem de guerrilheiros sustentando uma bandeira LGBT e uma faixa com os dizeres “Estes viados matam fascistas” percorreu o mundo ao longo desta semana. Trata-se de uma coluna formada por LGBTs em combate direto contra o Daesh[1], criada nas fileiras da resistência curda na Síria.

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O Exército de Insurreição e Libertação Queer[2] surgiu no âmbito das Forças Revolucionárias Internacionais de Guerrilha do Povo, que são um batalhão de combatentes do mundo inteiro ligados às Unidades de Proteção do Povo no território curdo dentro da Síria

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São muitos nomes, siglas e jargões. O fundamental é entendermos que existe um contingente considerável de pessoas lutando contra o Daesh e construindo uma alternativa em meio a uma região conflagrada. É a resistência do povo curdo. E agora os LGBTs estão na linha de frente deste combate.

“As imagens de homossexuais sendo jogados de edifícios e apedrejados até a morte pelo Daesh são cenas que não podemos simplesmente assistir e não fazer nada a respeito”, diz o grupo em seu manifesto

Os curdos são a mais numerosa etnia do mundo sem um Estado. Representam mais de 26 milhões de pessoas que vivem em regiões do Irã, do Iraque, da Síria e da Turquia. É evidente que nenhum destes países aceita ceder nacos de seus territórios nacionais para o povo curdo constituir um Estado independente.

No Iraque existe um nível maior de autonomia, com um governo regional formado dentro das fronteiras iraquianas. Na Turquia, a escalada autoritária do governo Erdogan desmantelou o HDP, o partido de esquerda pró-curdos.

Na Síria, os curdos do Norte do país têm se organizado para travar uma luta incansável de proteção de seus territórios contra o Daesh e também contra as forças do regime de Bashar al-Assad. Representam um enclave importante de resistência contra o avanço da barbárie expressa pelo Daesh. Foram os curdos que obtiveram as mais expressivas vitórias militares contra os terroristas.

Mas existe uma diferença fundamental. Enquanto no Iraque o governo regional curdo adota uma linha política conservadora e aliada às grandes potências globais, na Síria o povo curdo aposta na auto-organização de seus territórios por meio do confederalismo democrático

Trata-se de um sistema de governo de inspiração anticapitalista, traduzido para a realidade curda através das formulações políticas do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão. O PKK existe desde os anos 1970 e é considerado uma organização “terrorista” pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pela Turquia – país onde seu principal líder, Abdullah Öcalan, encontra-se em prisão perpétua desde a década de 1990.

A premissa política seguida pelo povo curdo na Síria estabelece a igualdade total entre homens e mulheres. Em 2015 tive a oportunidade de conversar com Melike Yasar, do Movimento de Mulheres Livres do Curdistão. Cansada de explicar qual o papel das mulheres curdas na luta travada no Norte da Síria, ela disparou: “As mulheres não têm papel nenhum na revolução. Elas são as que fazem a revolução. Os homens é que têm um papel nela e precisam aprender que sem a autolibertação feminina eles também não irão se libertar”.

Em 2013, os curdos na Síria anunciaram a organização de três regiões administrativas no Norte do país. São os chamados “cantões”: Afrin, Jazira e Kobani. Localizados em meio a um território conflagrado pela guerra, os cantões formam a região de Rojava – palavra que, em curdo, significa “oeste”.

Rojava possui uma população de cerca de 3 milhões de pessoas. Enquanto se mobilizam para lutar contra o Daesh e conquistar independência em relação ao governo Sírio, os curdos estão criando uma própria forma de organização social, política e econômica.

Os cantões são governados pelo povo através de assembleias populares. Cada região possui uma co-presidência composta por um homem e uma mulher. O caráter anti-capitalista e anti-Estado do processo curdo em Rojava não pode ser ignorado

É por isso que a resistência curda na Síria é tão invisibilizada na mídia, que prefere destacar os combatentes do governo regional curdo no Iraque ou a disputa entre o regime de Bashar al-Assad e o Daesh – acompanhada com uma lupa por grandes potências mundiais, especialmente pelos Estados Unidos e a Rússia.

O destaque mais comum dado à resistência curda em Rojava é através de fotos das combatentes mulheres, que possuem seu próprio exército e estão emparedando os fanáticos do Daesh na região.

Agora o mundo volta mais uma vez seus olhos para a luta do povo curdo na Síria ao contemplar a criação de um exército formado por LGBTs. Homossexuais estão na linha de frente do combate contra os comensais da barbárie. Sinal de que a esquerda inteira se move neste avanço, especialmente se considerarmos que nos anos 1960 e 1970 os LGBTs não eram respeitados dentro das fileiras dos grupos guerrilheiros que lutavam contra as ditaduras na América Latina.

Há inúmeros relatos de ex-combatentes que demonstram a mentalidade machista e homofóbica dominante na época, mesmo nos círculos mais avançados da esquerda revolucionária. Uma tradição que felizmente já foi superada.

Agora, do outro lado do mundo, os LGBTs e as mulheres estão liderando a construção de um outro tipo de organização social nos cantões de Rojava. Contra poderosos interesses geopolíticos, a resistência curda se soma ao rol de experiências históricas que apontam o caminho para a libertação contra todas as formas de opressão.

Manifesto do Exército de Insurreição e Libertação Queer[3]

Nós, as Forças Internacionais de Guerrilha do Povo (IRPGF), formalmente anunciamos a criação do Exército de Insurreição e Libertação Queer (TQILA), um subgrupo da IRPGF formado por camaradas LGBT*QI+ e também por outros companheiros que buscam esmagar o binarismo de gênero e avançar na revolução das mulheres ao mesmo tempo em que ampliamos a revolução sexual e de gênero.

Os integrantes do TQILA assistiram horrorizados aos ataques de forças fascistas e extremistas ao redor do mundo contra a população LGBT, que assassinaram incontáveis membros de nossa comunidade, argumentando que somos doentes e antinaturais. As imagens de homossexuais  sendo jogados de edifícios e apedrejados até a morte pelo Daesh são cenas que não podemos simplesmente assistir e não fazer nada a respeito. Não é apenas o Daesh que espalha o ódio contra a população LGBT baseado em motivos religiosos. Cristãos conservadores no Ocidente também atacam a comunidade LGBT numa tentativa de silenciar e apagar sua existência. Nós queremos enfatizar que a homofobia e a transfobia não são características do Islã ou de qualquer religião. Na verdade, conhecemos muitos muçulmanos, judeus, cristãos, hindus, budistas etc. que aceitam e acolhem as pessoas em suas singularidades, inclusive LGBTs. Somos solidários a essas pessoas contra o fascismo, a tirania e a opressão. Além disso, criticamos e lutamos contra o pensamento conservador e feudal a respeito da população LGBT na esquerda revolucionária aqui e no mundo inteiro.

Nosso compromisso de luta contra o autoritarismo, o patriarcado, a heteronormatividade opressiva e a LGBTfobia é reforçado pelos avanços revolucionários conquistados pela luta das mulheres curdas. O fato de as aulas de Jineologia[4] debaterem construções de gênero e sexualidade dá visibilidade aos avanços da revolução em Rojava e em todo o Curdistão, com as mulheres na linha de frente deste processo revolucionário. É necessário fortalecer estas conquistas enquanto avançamos na luta LGBT, que motivou os camaradas a criarem o TQILA.

LIBERTAÇÃO LGBT! MORTE AO ARCO-ÍRIS CAPITALISTA!

CONTRA-ATAQUEM! ESSES VIADOS MATAM FASCISTAS!

COMUNIDADES E COLETIVOS MILITANTES HORIZONTAIS E AUTO-ORGANIZADOS PELA REVOLUÇÃO E PELO ANARQUISMO LGBT!

[1]Neste texto irei me referir ao autoproclamado Estado Islâmico como “Daesh” – a forma como a sigla de “Estado Islâmico no Iraque e na Síria” é pronunciada em árabe. O som também lembra o de outra palavra em árabe, “Dahes”, que significa “aquele que semeia a desordem”. Os fanáticos do Daesh detestam ser chamados assim. Mais um motivo para usar este termo. Além de ser uma maneira de não oferecer a este grupo o status de Estado e muito menos o de representante da religião islâmica.

[2] O nome original em inglês é The Queer Insurrection and Liberation Army, formando a sigla TQILA. Como a palavra “queer” é de difícil tradução no contexto da população LGBT brasileira, acabei optando por preservá-la ao me referir ao grupo em português.

[3] O manifesto foi originalmente publicado na conta das Forças Revolucionárias Internacionais de Guerrilha do Povo no Twitter (@IRPGF) no dia 24 de julho de 2017. A tradução é livre e de minha própria autoria.

[4] Jineologia é uma filosofia de vida formulada pelo povo curdo em Rojava. Conforme explicou Melike Yassar, a expressão significa, em curdo, “mulher” e “vida”.

Foto: Twitter/IRPGF

Pedro Henrique Gomes

Crítica – Central – o Filme

Pedro Henrique Gomes
21 de julho de 2017

As imagens de Central – o Filme carregam toda a carga de nossa relação, “nominal e real”, com a violência. Sabemos que ela existe, isto é um fato. Quando não a vemos nas ruas, o noticiário (inclusive o impulsionado por nós através das “redes”) golpeia o nosso pensamento. A tendência, mais à esquerda, é negá-las e evitá-las para não alimentar a “indústria do medo”. São imagens obscenas, que instauram uma lógica de reação violenta. À direita, a reprodução dessas imagens incentiva capsularmente a repressão e, voilà, a violência do Estado contra os indivíduos e da própria sociedade contra ela mesma.

Mas como, de fato, olhamos para tais imagens para compreendê-las fundamentalmente sem cair na negação e no discurso repressivo? O silêncio ensurdecedor dessa relação é o nosso paradoxo civilizacional. O documentário de Tatiana Sager e Renato Dornelles coloca o dedo nessa ferida.

Decerto a breve introdução acima amplia o escopo daquilo que o próprio documentário se propõe a discutir, a saber, a situação deplorável do presídio central de Porto Alegre e, no limite, do sistema carcerário brasileiro, mas não consigo deixar de vincular os modos de atenção destinados aos símbolos da violência à tendência autoritária tipicamente brasileira. Se é verdade que a violência se constitui a partir de vários eixos que subtraem a humanidade de todas as partes envolvidas, não é possível que possamos pensar em resolver a questão afastando-nos dela. Será que vemos o que as imagens nos dizem?

Blocos imensos superlotados de pessoas apartadas da sociedade parecem nos dizer pelo menos duas coisas: que a violência existe e que o pensamento sobre as suas causas ainda carecem de uma reflexão intelectual profunda e sistemática. Pelo visto, a terceira via nos diz que não estamos agindo da melhor forma para lidar com o problema. O Brasil não é para amadores, estava certo quem o disse.

O documentário se faz entender: o confinamento, a sujeira, a superlotação, a violência, o perigo iminente, a incerteza, enfim, não há um lado bom em estar preso, nos confessam, pelas suas falas, os homens em cárcere. As entrevistas com presos, policiais e especialistas em segurança pública, além da câmera que a produção entregou aos presos para que eles filmassem a partir de dentro o cotidiano da prisão têm o contrapeso desejado ao costurar os argumentos, as defesas, os entendimentos, as possíveis saídas, as dificuldades e as tensões em disputa. Se a cultura da imprensa brasileira opera num “silêncio visual” (como disse João Moreira Salles) sobre a violência, Central – o Filme trata de fazer um pouco de barulho em torno da questão.

Por outro lado, não sei se por estratégia narrativa ou por desatenção, Central apenas tangencia um tema que certamente infla essa dificuldade estrutural, e este tema é a despenalização das drogas – embora enfoque no tráfico, inclusive o tráfico que circula no presídio e que o excede, os usos das drogas não participam do debate. De todo modo, está claro que aquele que já foi tido como o pior presídio do país ainda não oferece as mínimas condições de recuperação social aos condenados e tampouco dignidade aos que trabalham lá.

Como vemos, o sistema judiciário é incapaz de lidar com problemas sociais, sendo meramente um agente regulador de penas. Ao mesmo tempo em que desumaniza os confinados, também o faz com todos os cidadãos. Entre nós, é mesmo um sistema falido.

Central – o Filme, Brasil, 2017. De Tatiana Sager e Renato Dornelles.

Reporteando

Quando o jornalista vira alvo da ira institucional

Renata Colombo
20 de julho de 2017
Cidade Linda na região do Bom Retiro Heloisa Ballarini/SECOM

Já relatei aqui para vocês os desafios de lidar com o poder público em tempos de redes sociais. Já falei aqui sobre a responsabilidade redobrada que um repórter precisa ter na hora de apurar uma informação, sobretudo aquelas mais polêmicas.

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Hoje digo a vocês que a relação entre repórter e poder público segue a mesma. É muito simples: jornalista denuncia e cobra, enquanto o poder público responde

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O problema é que as redes sociais tem dado um poder que permite que as pessoas, políticos, movimentos representativos, etc, falem o que quiserem, quando quiserem e da maneira que quiserem. Uma prática diferente daquela que se espera de um jornalista, que não deve falar o que quiser, quando quiser e da maneira que quiser.

Tudo isso pra dizer que minha colega da rádio CBN, aqui em São Paulo, não falou o que quis, quando quis e como quis. Ela divulgou uma notícia apurada e de maneira apropriada. Porém, ela está sendo esculachada nestas redes sociais simplesmente porque a prefeitura e seus seguidores não gostaram da notícia.

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O que fizeram: colocaram a culpa da carta indesejada no carteiro

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E digo isso com tamanha convicção porque não somente a repórter apurou como viu o que relatou. Nada mais, nada menos, do que servidores da prefeitura “espantando” moradores de rua das ruas a base de jatos de água fria em uma das manhãs mais geladas do ano até agora.

O prefeito foi para seu Facebook fazer vídeo, o Movimento Brasil Livre (MBL) foi para as redes publicar um perfil da jornalista como se a briga fosse pessoal, um vereador ligado ao prefeito replicou tudo isso como se fosse mentira ou “fake news”.

Então eu pergunto a vocês: onde está o respeito à liberdade de imprensa, quando os apontados puderam se defender – e o fizeram – mas não satisfeitos saíram por aí esculachando a jornalista como se a notícia fosse uma invenção da cabeça dela?

Samir Oliveira

LGBTfobia de Estado: quando o poder público é agente ativo da discriminação

Samir Oliveira
20 de julho de 2017

Em maio deste ano a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ILGA, na sigla original, em inglês) publicou o relatório: “Homofobia de Estado – Estudo jurídico mundial sobre a orientação sexual no direito: criminalização, proteção e reconhecimento”.

Trata-se do estudo mais completo e recente a respeito das legislações internas de dezenas de países em todos os continentes sobre a população LGBT. A análise leva em conta não somente a existência de leis que punem a comunidade sexo-diversa, mas também de dispositivos que garantem direitos nas mais diversas instâncias.

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A riqueza de detalhes do estudo é impressionante. Uma leitura fundamental para quem deseja entender como as estruturas de Estado no mundo inteiro tratam a população LGBT

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O relatório aponta que em 124 países não existe nenhuma lei que criminaliza a relação sexual consensual entre gays e lésbicas. A boa impressão causada por este dado desmorona quando observamos a informação seguinte: outros 72 estados criminalizam essas relações em suas leis.

Em pleno 2017, existem quatro nações que punem com pena de morte seus próprios cidadãos LGBTs. Outros dois países possuem esta tipificação criminal de forma parcial, em algumas jurisdições de seu território.

O que diferencia este estudo da mera tabulação fria de dados é sua capacidade de interpretar os números através da realidade de cada país. Não é apenas o conceito físico ou carcerário de punição que é levado em conta.

Por exemplo, o relatório informa que 19 estados possuem leis de moralidade e de propaganda, que proíbem a liberdade de expressão quando o assunto é diversidade sexual e de gênero. Na prática, o Estado censura o direito das próprias pessoas de se reconhecerem e se afirmarem enquanto LGBTs.

A luta por um mundo mais justo e igualitário é árdua e longa. Estas leis não serão derrubadas da noite para o dia. Mas serão inevitavelmente sepultadas em algum momento. Nenhuma tirania dura para sempre.

A prova disso está no próprio estudo da ILGA, que demonstra que 23 países reconhecem e celebram casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Brasil está nesta lista – infelizmente não por existência de legislação que garanta este direito, mas por jurisprudência consolidada. Outros 26 estados asseguram a LGBTs o direito à adoção.

As placas tectônicas da História por vezes se movimentam de forma lenta, mas nunca permanecem inertes. Em todos os países que hoje protegem ou garantem direitos a população LGBT um dia já imperou a lógica punitiva. E nos países que permanecem institucionalmente “neutros”, o pêndulo pode virar tanto a nosso favor como contra.

Por isso é preciso seguir lutando e não se render. Sem ingenuidade, mas também sem deixar de acreditar que um outro mundo é possível – e realmente é, se fizermos nossa parte para que isso aconteça.