Voos Literários

Respeita As Minas (Na Literatura e Em Qualquer Lugar)

Flávia Cunha
7 de março de 2017

Se tem um termo que incomoda grande parte das escritoras é ter sua obra denominada como literatura feminina. O rótulo particularmente me remete a uma moça muito comportada, vestida com babados e frufrus, escrevendo sobre corações partidos, fragilidades e futilidades. No outro extremo, caso fosse usual a classificação literatura masculina, acabaria parecendo inaceitável que houvesse sensibilidade nos textos literários escritos por homens.

Em pleno século 21, o feminismo ainda é uma das bandeiras que precisam estar em evidência, para evitar a desigualdade entre homens e mulheres, em um mundo que já abriu espaço para orientações sexuais diversas e debates de temas considerados polêmicos por muitos, como aborto, por exemplo. Nesse contexto, a literatura dita feminista é um instrumento fundamental para o empoderamento feminino, um conceito que muitas vezes desperta antipatia por parte das pessoas mais conservadoras.

Uma das escritoras mais representativas dessa vertente é a gaúcha radicada em São Paulo Clara Averbuck. Na época do surgimento dos blogs, Clara apresentou aos internautas seus textos densos e diretos, abordando temas como sexo, bebidas e drogas na perspectiva de uma mulher forte e sem frescuras. Em 2002, a escritora lançou sua primeira obra Máquina de Pinball, em que aparece sua personagem mais famosa, Camila. A protagonista desse livro acabou indo parar no cinema, em uma adaptação que não agradou a escritora.

Com o passar dos anos, Clara consolidou sua luta feminista, presente no site Lugar de Mulher, no qual é uma das editoras. Também tem uma presença constante nas redes sociais, com posicionamentos políticos e relatos sinceros sobre o cotidiano de uma escritora sem grana no Brasil: viver de frilas para pagar o aluguel, como criar uma filha adolescente sozinha e sua angústia ao receber diariamente relatos de abusos sofridos por outras mulheres, sentindo-se muitas vezes impotente para dar uma real ajuda a essas manas.

Seu livro mais recente, Toureando o Diabo, traz o retorno da personagem Camila, mais amadurecida e com ideais declaradamente feministas. Não é à toa que a obra é dedicada “às minas – todas elas”. Publicado de forma independente, por meio de financiamento coletivo, o livro tem coautoria da ilustradora Eva Uviedo e pode ser comprado aqui.

Do fim dos anos 40, quando Simone de Beauvoir chocou a sociedade com seu ensaio filosófico O Segundo Sexo (que eu recomendo fortemente a leitura), até os dias atuais, o lugar da mulher é mesmo aonde ela quiser. Inclusive fora de rótulos reducionistas como literatura feminina.

(PS: Certamente falaremos sobre mulheres na literatura em muitos outros posts do blog Voos Literários. Mas o dia 8 de março é marcado por lutas extremamente significativas das mulheres e não como um dia de comemorações. Esse texto é uma singela homenagem a todas as mulheres que enfrentam qualquer tipo de discriminação ou opressão em suas vidas.)