Nas reflexões necessárias para criar os textos para esse espaço, comecei a fazer divagações do quanto ela, a Literatura, assim mesmo, com a letra L maiúscula, esteve presente em grande parte dos meus quase 40 anos de vida.
Tentando sistematizar em períodos, percebo que, mesmo antes de ser alfabetizada, eu já flertava com os textos literários, em uma paixão quase irracional.
O flagrante dessa foto foi feito por volta dos meus 3, 4 anos de idade. Eu ainda não entendia nada das histórias do Asterix e suas aventuras divertidíssimas na aldeia gaulesa resistente ao Império Romano. Mas achava a coisa mais linda do mundo sentar, muito quieta, e ficar ali olhando para aquelas páginas.
Vim de uma família de leitores compulsivos e os livros acumulavam-se pelos apartamentos em que moramos ao longo da minha infância. Eu era uma criança tímida e retraída e o único prêmio que ganhei na escola foi um diploma de primeiro lugar em leitura na biblioteca da escola estadual onde estudei.
Livro que marcou essa época: A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga Nunes
Já pré-adolescente, passei pela minha primeira perda familiar. Meu avô materno se foi, deixando uma saudade gigante da sua presença bondosa, de seus longos bigodes brancos e cativantes olhos verdes. Acabamos indo morar no apartamento que havia sido dele e a biblioteca da casa virou meu quarto. Recordo perfeitamente das leituras de livros para adultos, escondida da supervisão de meus pais. Muitos deles eu não entendia direito, mas já percebia a predileção do meu avô por autores franceses e obras de escritores gaúchos com enredos urbanos.
Livros que marcaram essa época: Contos, de Guy de Maupassant e Noite, de Erico Verissimo. (um retrato sombrio e meio surreal de Porto Alegre, ainda é meu preferido do Erico.)
Na adolescência, a rebeldia tomou conta de mim, com a separação dos meus pais. Mas ela, a Literatura, estava lá. Meu refúgio. Segui lendo muito, porque era uma fuga saudável das agruras da vida. Sem contraindicações.
Livros que marcaram essa época: É Tarde Para Saber, de Josué Guimarães e O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger.
O tempo passou, me formei como jornalista e os livros seguiam na minha preferência na lista de compras, normalmente antes de roupas ou outros itens de consumo. Em 2004, entrei numa grande emissora de rádio. Muitos acharam sensacional aquela conquista. Eu dava de ombros. Estava naquela corporação tão desejada pelos profissionais da área apenas por necessidade financeira. A Cultura e a Literatura não eram a prioridade da programação da rádio e eu sofria com isso. Por não ter afinidade com o meu trabalho. Por ter que esconder essa predileção e muitas vezes ter que fingir que amava as tais hardnews, as notícias do dia a dia.
Na falta de uma nova opção profissional, me refugiei na Literatura. Primeiro, foram oficinas literárias. Depois, comecei a estudar Letras na UFRGS. Primeiro a graduação. Depois, a decisão por interromper a graduação e fazer o Mestrado em Literatura.
Livros que marcaram essa época: O Dia Em Que O Papa foi A Melo, Aldyr Garcia Schlee, Quincas Borba, de Machado de Assis.
Lá por 2011, 2012, completamente arrasada depois de anos trabalhando com algo que não gostava, pedi demissão. Os motivos de ter ficado tanto tempo na mesma empresa, suponho que vocês possam imaginar: a ilusória estabilidade da carteira assinada. Plano de saúde. Férias remuneradas. Mas a frustração era maior do que o medo e parti em busca dos meus sonhos. Depois de um tempo trabalhando por conta própria, em 2015 surgiu a chance em uma editora de livros, voltada para o público infantojuvenil. Produção editorial e produção de eventos culturais é no que trabalho atualmente. Nem sempre compensa financeiramente, mas tenho certeza que a minha musa, a Literatura, ainda vai me recompensar, depois de tanta devoção.





