Pedro Henrique Gomes

Crítica – Fragmentado

Pedro Henrique Gomes
7 de abril de 2017

Duas amigas tentam convencer uma terceira a pegar carona com o pai de uma delas, após pararem numa lanchonete. Os atrativos para a viagem giram em torno das piadas ruins que o motorista contará para as passageiras. Após breve hesitação, a jovem aceita. Um homem misterioso entra no carro, no lugar do pai, e silencia as três. Ao acordarem, estão presas e não fazem a mínima ideia do motivo. O mistério do sequestro, e do cativeiro, Fragmentado carregará até o final antes de completar. A descrição da cena é incapaz de colocar a imagem, mas, como as personalidades que o personagem de James McAvoy interpreta, esse mistério assume muitos desdobramentos.

O sequestrador sofre com o transtorno dissociativo de identidade e sua mente comporta mais de vinte personalidades, cada uma tomando o controle de seu corpo (de sua mente) a qualquer momento. Desnecessário dizer o quanto esta premissa é explorada e incorporada ao universo do diretor de Corpo Fechado e O Sexto Sentido – como as armadilhas que ele cria jogando tanto com as crenças dos espectadores quanto com suas expectativas. O seu raciocínio visual é apurado e a inventividade que propõe é decisiva para apreensão do espectador (que ele reconhece e manipula sorridente). O transtorno da múltipla personalidade está geralmente associado a um evento traumatizante, sendo uma forma de reação à ruptura do ego, a qual as várias vidas passam a tentar esquecer.

Os admiradores de M. Night Shyamalan vão recorrer, com boa razão, ao que é regular em sua obra, ao que são as suas categorias universais, as reviravoltas, as questões de fé, os recursos estilísticos, a construção psíquica do medo, enfim, o que quisermos adicionar ao bojo do cineasta. Isto é, evidentemente, coisa de cada um. O essencial é que Shyamalan está filiado a um gênero, o suspense, e que sua obra contém, em fato, uma amarração espiritual com este gênero – de Hitchcock a John Carpenter – e também um estilo próprio. Não só pelo que é mental e da ordem do sobrenatural (e por isso nos lembramos de Hitchcock, por isso nos recordamos de Carpenter, de Polanski), mas principalmente pelo que é físico, material. Fragmentado é mental e é físico.

A sua metafísica, bem entendida, não surge em oposição ao físico, mas como parte integrante dele, sua ontologia, seu alicerce memorialístico e visual. O aspecto fabular de sua obra, que tem seu auge em A Dama na Água, não é resultado de arbitrariedades: é medo, tentação, aventura, dúvida, morte, fantasia, em suma, é construção meticulosa das variantes da crença. Shyamalan é um historiador de suas próprias imagens e, num só golpe, um escritor visual destas histórias (imagens). Aquilo que o cinema fantástico de super-heróis encena com certa ironia ou “ansiedade realista”, Shyamalan resolve como ritual absolutamente consciente dos seus encargos.

É aí que ele ainda é surpreendente. Como se as expectativas que depositamos se dissolvessem magicamente nas ações dos personagens, tão frágeis e tão incapazes de agir diante do medo, que paralisa e torna inerte o movimento do pensamento. E então a morte chega, decidida, a dar um fim e um recomeço hiper-real. Os que sobrevivem, agora aperfeiçoados, são justamente aqueles que creem no poder da mente. Shyamalan é um crente.

Split, de M. Night Shyamalan, EUA, 2017. Com James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson.