Samir Oliveira

Greve geral também é coisa de viado

Samir Oliveira
6 de abril de 2017
Imagem: Reprodução/Filme "Orgulho e Esperança"

O filme “Orgulho e Esperança” retrata uma situação verídica e histórica. Em 1984 os mineiros da Inglaterra estavam em uma dura greve contra o governo de Maragret Thatcher. Uma queda de braços que tremeu o país inteiro e um verdadeiro marco na luta por direitos da classe trabalhadora.

Mas o que a população LGBT tem a ver com isso? É aí que a história fica ainda mais interessante. O incipiente movimento LGBT britânico resolve organizar uma campanha para arrecadar dinheiro às famílias dos mineiros. Um belo gesto de solidariedade com os grevistas e seus familiares. Mas as entidades dos trabalhadores não se empolgam com esta ajuda. O preconceito ainda era imenso em uma sociedade que até 1967 considerava a homossexualidade um crime.

Os ativistas não se intimidaram e viajaram até uma pequena cidade do País de Gales para apoiar o núcleo local de grevistas – para o escândalo da comunidade, que se viu na presença de gays e lésbicas abertamente assumidos e orgulhosos de si. Inicialmente, o pragmatismo falou mais alto. Os grevistas e suas famílias estavam em uma situação miserável e não podiam recusar apoio. Mas em seguida relações se desenvolveram e os preconceitos acabaram se dissipando em meio à solidariedade.

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O filme é uma obra de ficção, mas relata a inspiradora aliança que realmente ocorreu entre os mineiros ingleses e o movimento LGBT da época. Culminando, inclusive, com a participação dos trabalhadores na parada LGBT de Londres. Uma corajosa demonstração de apoio

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O Brasil de hoje certamente não é a Inglaterra dos anos 1980. Mas os ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo do governo Temer vêm embalados na mesma ideologia propagada por lideranças como Margaret Thatcher. As centrais sindicais do país, em uma demonstração rara de unidade, convocaram para o dia 28 de abril uma grande greve geral. Motivos para parar o Brasil não faltam, a começar pela reforma da Previdência – passando pela ampliação das terceirizações e pelo congelamento dos investimentos públicos por 20 anos.

O Brasil não tem uma cultura relativamente sólida de greves gerais. Eu, pessoalmente, não consigo lembrar quando foi que ocorreu a última greve geral forte no país. Ao contrário da Argentina, que é uma potência quando se trata de mobilizações sociais. Mas os protestos que lotaram as ruas contra a reforma da Previdência indicam que este ano poderemos ter uma surpresa. Uma greve geral para valer, que faça tremer o governo.

Que nós, LGBTs, nos inspiremos no exemplo dos britânicos dos anos 1980 e estendamos nossa solidariedade a todos os trabalhadores no dia 28. Até porque as medidas do governo não atingir apenas um setor. Vão atingir toda a população, independentemente de identidade de gênero ou orientação sexual. E sabemos muito bem que os ataques pesam mais sobre os setores mais oprimidos e marginalizados.

Imagem: Reprodução/Filme “Orgulho e Esperança”