Pedro Henrique Gomes

Michael Cimino: o homem que pisou na cauda do tigre

Pedro Henrique Gomes
31 de março de 2017

A célebre cena da roleta russa em O Franco Atirador (1978), quando Robert De Niro tenta dissuadir o seu amigo Christopher Walken de continuar com o perigoso jogo é a síntese do poder que as imagens, nos filmes de Michael Cimino (1939 – 2016), exprimem. Absolutamente todos seus filmes possuíam certa lisura e notável efervescência algo raras. De O Último Golpe (1974) a Na Trilha do Sol (1996), sua obra é um prato cheio para entendermos um pouco da complexa história do cinema americano.

Sua filmografia comporta um malgrado episódio, como uma porção de outros, no qual o protagonista é um filme poderoso. O Portal do Paraíso (1980) não é a “obra-prima incompreendida” que aniquilou a United Artists, pois não é de compreensão que se trata o cinema. O estúdio, criado pelos pioneiros Chaplin, Griffith, Pickford e Fairbainks lá nas primeiras décadas do século passado (e que tinha como propósito fortalecer a posição dos diretores em uma indústria crescente e vivendo modificações que só viriam a se intensificar), teve então o seu maior fracasso (no sentido hollywoodiano).

A história é longa e não há espaço para remontá-la, deixo portanto a recomendação de um livro, bastante duro com Cimino, escrito por Steven Bach, um dos produtores do filme: Final Cut: Art, Money, and Ego in the Making of Heaven’s Gate, the Film that Sank United Artists.

A história deste filme custou caro não só ao estúdio, mas ao próprio cinema americano da geração pós-clássica. Cimino, é claro, sabia, do auge de sua sensibilidade, que fazia um grande filme, donde a sua insistência em manter a temperatura das cenas (a violência, física e psicológica, se é que podemos as separar), a magnitude dos planos, a honesta e ambiciosa vontade de remeter ao tradicional, a pureza dos diálogos, a extensão do tempo, a clareza de suas heranças estéticas e intelectuais. Estão lá, por óbvio, os “seus cineastas”, John Ford (decerto em primeiro lugar), D.W. Griffith, King Vidor, Cecil B. DeMille; os seus literatos, Charles Dickens, Thomas Mann; os seus pintores, Caspar Friedrich, Kandinsky, Renoir (não possuem as cenas de danças do Portal do Paraíso e de O Franco Atirador (1978) alguma semelhança com O Baile no Moulin de la Galette?).

Ele só queria filmar pessoas e sonhar

Os personagens de Cimino não precisam falar muito: existem as imagens. Aliás, a minha imaginação cinéfila sempre permitiu imaginar Griffith, cineasta do período silencioso, a falar cada vez menos em seus filmes se ainda os fizesse hoje. De fato, os seus dois filmes falados não possuem lá muitos e extensos diálogos. Como Cimino, Griffith também viu sua carreira desandar com o auxílio perverso da mesma indústria que ele, como nenhum outro, ajudou em seus primeiros passos. Cimino não teve melhor sorte, mas o seu legado é imenso. Ele foi, sempre, entre os herdeiros de Griffith e Ford, provavelmente o maior, em quem as “evidências” apareceram com mais força e vibração.

Ao contrário de Griffith e mais próximo de Ford, Cimino era um idealista crítico. Temos um exemplo definitivo em seu último filme, Na Trilha do Sol, que coloca lado a lado a crença religiosa e a ciência não para prová-las verdadeiras, mas torná-las possíveis. Pois é disto mesmo que se trata: a linha do horizonte fordiana, matéria visual constituinte da história do western, não é senão a crença na possibilidade do mundo e nesta possibilidade como ordem (moral) a ser restituída pela e na América.

Como aquele outro sonho que nunca se realizaria: a adaptação do livro de Ayn Rand, Vontade Indômita. King Vidor já havia lhe dado uma imagem cinematográfica em sua adaptação do livro homônimo. O Objetivismo, “a virtude do egoísmo”, a liberdade, a propriedade, na propalada ideia de Rand, ou seja, o laissez-faire ordenador da estrutura capitalista moderna, seriam seus materiais. Mas Cimino dizia não estar ligado em ideologias e política. Ainda bem que, neste caso, ele sempre esteve errado. Pois o que seria de um filme como O Ano do Dragão (1984) sem a violenta exposição dos meandros da máfia chinesa nos Estados Unidos (como se, naquele contexto, máfia e política não fossem partes de um mesmo processo) e O Siciliano (1987) – ou mesmo O Franco Atirador, filme antibelicista por excelência.

Não lhe importavam os motivos, mas as crenças e o que elas mobilizavam nos homens que as carregavam. Era o que ele queria filmar, o que buscava mostrar. Ele queria poder imaginar e sonhar o mundo com seus personagens.