Samir Oliveira

Devassos no Paraíso, um livro que todo LGBT deveria ter na cabeceira

Samir Oliveira
30 de março de 2017
Devassos no Paraíso

João Silvério Trevisan é uma preciosidade do movimento LGBT brasileiro. Jornalista, escritor, cineasta, pesquisador e ativista, elaborou o estudo mais completo sobre a relação do Brasil com a diversidade sexual e de gênero. Escrito em 1986, o livro “Devassos no Paraíso” faz jus ao seu nada modesto subtítulo: “A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade”.

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A obra mergulha nas entranhas de um Brasil hipócrita e repressivo para demonstrar como, historicamente, a diversidade sexual e de gênero sempre foi criminalizada e punida por diversas instituições no país – ao mesmo tempo em que, no submundo das ruas, era tolerada e apreciada

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Trata-se de uma pesquisa densa e científica, traduzida para o público com a habilidade de um jornalista experiente com as palavras.

Ao desbravar a história da repressão à comunidade LGBT no Brasil, João Silvério Trevisan resgata a cruel perseguição da Inquisição católica durante o período colonial. E nos diverte ao informar as curiosas expressões utilizadas na época para se referir à homossexualidade. O Santo Ofício referia-se ao sexo anal como “tocamento nefando”. Já o prazer lésbico era qualificado como “amizade tola ou de pouco saber”. Expressões que hoje parecem engraçadas, mas que na época condenavam à morte e à tortura.

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Ao avançarmos na leitura de Devassos no Paraíso, descobrimos que a Igreja Católica deu lugar à medicina na opressão à diversidade sexual e de gênero no Brasil

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LGBTs eram enviados aos montes para os manicômios, que funcionavam como uma espécie de depósito de tudo que a sociedade rejeitava. Em seguida o Direito se consagrou como agente repressor, com códigos, constituições e leis no Império e na República que tentavam reprimir práticas sexuais e comportamentos.

Ao mesmo tempo em que expõe o Brasil repressor, João Silvério Trevisan também nos mostra o Brasil que resiste. Aborda o pouco explorado tema da sexualidade entre os povos originários, dando voz a estudos que demonstram a naturalidade com que diversas tribos indígenas encaram a homossexualidade e a transexualidade. A vida cultural do país também é passada a limpo através de artistas e grupos que marcaram suas carreiras e performances pela quebra de estereótipos e pela ousadia em assumir suas identidades – sendo Cássia Eller e Ney Matogrosso as maiores expressões deste fenômeno.

Devassos no Paraíso também fala de política. E como fala! O autor foi um dos fundadores e editores do jornal Lampião da Esquina. Trata-se da primeira e mais importante publicação LGBT do país, cuja própria existência era uma afronta à ditadura, ainda no final dos anos 1970. Além disso, o jornalista criou o grupo SOMOS, principal organização de ativistas pelos direitos dos homossexuais naquela época.

Em seu livro, podemos receber em primeira mão os relatos de um militante histórico pelos direitos LGBTs. Identificado com a esquerda, João Silvério Trevisan é um espírito livre. Não poupa críticas a partidos e organizações que, nos anos 1970 e 1980, custaram a assimilar a pauta dos direitos LGBTs. Relata o preconceito sofrido no interior destas organizações e professado por suas lideranças, além de tentativas de cooptação da luta pela diversidade.

Aos 72 anos, o jornalista segue lúcido e afiado – talvez, por isso mesmo, um pouco afastado da cena pública e do ativismo tradicional. Em 2005, criticou o atrelamento do movimento LGBT aos governos petistas. Governos que, de fato, pouco ou nada fizeram por nossa comunidade. Em nome de uma aliança conservadora, rifaram direitos e inclusive vetaram o programa de combate à homofobia nas escolas. Entregaram todos os anéis aos aliados da direita retrógrada, que acabaram por lhes devorar os dedos, as mãos e o corpo inteiro.

É uma pena que o livro seja hoje uma raridade. Está esgotado. A única forma de conseguir um exemplar é garimpando em sebos, que irão cobrar um preço de ouro por uma obra tão rara. Escrito em 1986, o livro já possui oito edições. A mais atual foi publicada em 2003. Bem que João Silvério poderia nos dar um presente e lançar uma nova versão de sua obra, atualizada até os dias de hoje. Certamente sua análise independente, crítica e revolucionária seria um farol para nossas lutas e sonhos.