Samir Oliveira

Sobre refúgios afetivos e memória coletiva

Samir Oliveira
23 de março de 2017
Foto: Travis Wise/Flickr

Toda comunidade é uma junção de pessoas unidas por traços em comum. Por valores que compartilham, por padrões de comportamento, por códigos e sistemas culturais que se tornam mais valiosos se forem preservados e difundidos coletivamente. Os espaços para que estas trocas aconteçam são fundamentais, verdadeiros refúgios.

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A população LGBT é uma comunidade extremamente diversa. Em todos os sentidos. Da política ao comportamento individual. Nada disso impede que tenhamos, também, nossos próprios refúgios. Espaços coletivos, públicos ou privados que expressam nossas identidades e onde podemos exercer nossos afetos

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A importância desses locais não deve ser subestimada. Foi justamente o ataque sistemático a um deles, o bar Stonewall Inn, em Nova York, que despertou uma rebelião na luta por direitos civis.

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Quando vim para Porto Alegre, eu pouco ou nada sabia sobre estes espaços. A descoberta foi uma aventura cotidiana de libertação e descobrimento

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Talvez o espaço mais tradicional, para mim, seja o Venezianos, um pub pequeno e aconchegante, completamente versátil. Faz as vezes de bar, de restaurante e até mesmo de festa, com uma programação bastante eclética. Outro local histórico é a danceteria Refugius. Um mega complexo que costuma receber uma boa quantidade de público do interior do Estado e da Região Metropolitana.

Enfim, eu poderia citar muitos outros lugares, como o Porto Carioca e o Bahamas, que já são referência na Cidade Baixa para o público LGBT. Acontece que estes locais não precisam necessariamente ser um bar ou uma casa noturna. Podem – e devem – ser também espaços públicos de socialização. Como a própria parada do orgulho LGBT, que ocorre anualmente em centenas de cidade do mundo inteiro.

Estes refúgios físicos e afetivos são fundamentais para a preservação de nossa memória coletiva. São espaços abertos e inclusivos a todos que respeitem a diversidade. Hoje em dia, felizmente, as fronteiras entre diferentes comunidades estão mais fluídas, possibilitando uma troca muito bonita de experiências – desde que haja o devido respeito a identidades e práticas, sem apropriação ou colonização cultural.

Durante muito tempo os espaços de socialização para a população LGBT foram tidos como “guetos”. Este conceito, além de ultrapassado, remete aos tempos mais sombrios da história humana. Queremos espaços livres e diversos. Precisamos deles para interagir e viver em sociedade.

Foto: Travis Wise/Flickr