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É confirmado: o presidente dos Estados Unidos da América está sob investigação pelo FBI por interferência russa durante a sua campanha eleitoral e comprometimento estrangeiro na sua carga eleita. Em tempos normais, esta investigação seria o suficiente para forçar a sua demissão, como ocorreu com Nixon no caso Watergate. Porém, não vivimos em tempos normais.
Não há um momento em que a administração eleita se afasta da campanha eleitoral, em grande parte por motivos de comportamento acerca dos escândalos em que se envolve o regime novo. A administração mantém tanto a mesma composição de pessoal como de discursos, atribuindo todo tipo de falha ou escândalo à anterior administração ou a Hillary. O último ponto mostra-nos uma dissonância profunda no discurso do Partido Republicano e a realidade do ocorrido antes e durante a campanha.
Trump não está prestes a sofrer uma destituição neste momento pelo mesmo motivo que havia 37 audiências para o caso Benghazi ainda depois de resolvido
O curioso, portanto, vem de todo o suposto mal atribuído à oponente ser, na outra mão, o alvo real das investigações abertas. Hillary, disseram, era corrupta e comprometida, incompetente por usar servidores próprios de email. Entretanto, a administração mantém uso de servidores particulares de email e o presidente segue com o seu telefone Android inseguro. O FBI investiga abertamente comprometimento da administração e as figuras envolvidas nela e na campanha. A inversão de culpabilidade mostra o eco na retórica que segurou a vitória entre o eleitorado certo na última etapa da campanha.
A amnésia repentina da consternação mostrada por Hillary num contexto do mesmo tipo de acusações ao presidente esconde a lição que o Partido Republicano tem aprendido no seu tempo na oposição: não importa o significado das palavras, importa a implicação que levam. Trump não está prestes a sofrer uma destituição neste momento pelo mesmo motivo que havia 37 audiências para o caso Benghazi ainda depois de ser resolvido.
Não é uma acusação de corrupção, impedimento de expressão livre ou impropriedade ética que importa: é a capacidade de tal momento gerir um ponto de conflito político que serve. No momento que não serve o lado acusador para avançar a sua agenda política, logo vem essa amnésia curiosa.
