Pedro Henrique Gomes

A 13ª Emenda

Pedro Henrique Gomes
17 de março de 2017
13TH

Não demora para A 13ª Emenda confessar a sua potência argumentativa. As políticas de encarceramento em massa de negros e latinos não é um dado lateral para entender a perversidade racial que circula nos EUA. É, ao contrário, o seu traço mais marcante, o continuador ideológico do racismo e das violências escravagistas que explicam o fenômeno do sistema prisional (e, claro, da Justiça) daquele país. É entendimento do presente que ilumina o entendimento do passado, poderia dizer Marx. Há também as diferenças de classe, tão cruciais no campo minado do debate que estão amalgamadas com o racismo. O racismo evoluiu de um sistema de posse para um sistema de segregação e preconceito estruturado e violento. É ainda preciso lutar.

O filme de Ava DuVernay nos diz que para compreendermos esse recorte é preciso ter perspectiva histórica, e esta nos deixa claro que o processo de mistificação do negro como ameaça ao branco precisava ser uma ameaça real após o fim da escravidão. Precisava tomar corpo, ser imagem. O filme então utiliza as imagens de cinema, a partir de O Nascimento de Uma Nação, para reforçar esse ponto – poderia citar muitos outros filmes, vários deles menos lembrados; …E o Vento Levou, por exemplo. O filme de Griffith deu, após seu lançamento, em 1915, novo fôlego a Ku Klux Klan e inspirou nova onda de perseguições (para acompanhar esse momento vale ler Melvyn Stokes, em especial, seu livro D.W. Griffith’s the Birth of a Nation: A History of the Most Controversial Motion Picture of All Time).

Após o fim da escravidão negra, em 1865, a 13ª emenda condenou o negro ao estigma de criminoso. O filme refaz o percurso sem encenação, aposta na força das entrevistas, do arquivo. A certa altura, colocam-se as divergências em campo: mostrar ou não as imagens da violência motivada pelo racismo? É preciso chocar a opinião pública e, assim, promover algum nível de consciência social da situação histórica da população negra nos Estados Unidos? As políticas de guerra às drogas iniciadas com Nixon (Lei e Ordem) e reforçadas com Reagan promoveram um aumento absurdo do número de presos no país desde os anos 1970. Somados a isso, os complexos prisionais privados lucram como máquinas de moer carne. Quando tais políticas começam a perder força o discurso vira a ponto de os democratas, que com Clinton eram favoráveis, com Hillary pedem reformas. Nem tanto ao mar, pois, nas palavras de Angela Davis, historicamente os processos reformistas sempre significaram mais opressão. Isto é, é dos escravizados que devem nascer as ações políticas práticas e não dos escravizadores.

Uma ressalva firme ao filme é petulância da “estética Netflix”, que vem abaular, rodear de power points, promovendo um picoteamento incrível nas falas dos entrevistados para dinamizar o ritmo do filme. É uma característica comum aos documentários feitos pela empresa, a montagem ultra planejada (num mal sentido), mediada por intervalos de respiro musicados e então devolvidos ao ritmo do argumento como um soco. Esse ritmo, num filme que é puro fluxo de pensamento reflexivo, soa anacrônico.

Voltaremos a este filme em uma próxima coluna.

13th, de Ava DuVernay, EUA. Com Michelle Alexander, Angela Davis, Cory Booker, Jelani Cobb.