Em fevereiro minha solteirice mais recente completou um ano. Eu não tinha ideia do que significava estar solteiro na era dos relacionamentos intermediados por aplicativos. Muita coisa mudou no mundo durante os quatro anos em que estive comprometido. No campo das relações sociais, talvez nada tenha mudado com tanta intensidade como a forma como as pessoas se conhecem hoje em dia.
No início de 2012, quando comecei o relacionamento que teria fim no ano passado, ainda não existia o Tinder. Passei quatro anos sem nenhum tipo de contato com essa tecnologia. Não demorou muito para que eu descobrisse que a minha forma de ser solteiro no período pré-2012 era completamente ultrapassada. Na melhor das hipóteses, era ingênua. Na minha época – lá vem o idoso de 28 anos – a principal plataforma digital para relacionamentos gays era o famoso chat do Terra. Mais especificamente, a sala Eles&Eles.
Mergulhei no mundo dos aplicativos de relacionamentos atraído pela expectativa de desvendar os códigos da solteirice contemporânea. Após um ano como usuário assíduo, posso me atrever a tecer alguns comentários a respeito destes curiosos habitats.
Em primeiro lugar, eu acho incrível como aplicativos como o Tinder nos transformam em marqueteiros de nós mesmos. Precisamos construir uma imagem coerente com os objetivos que queremos alcançar, sejam eles amizade, sexo casual, fetiches ou relacionamentos monogâmicos. Qualquer que seja a proposta, precisamos construir uma imagem de nós mesmos que, em tese, nos ajude a concretizá-la. Este esforço não é necessariamente artificial, embora sua repetição possa torná-lo, no mínimo, automático e frio.
Em um segundo momento, caí numa ilusão que acredito ser comum a todos os iniciantes: a de que ter um match significa ser correspondido. Na verdade eu ainda não sei o que significa ter um match. Mas sei que não significa necessariamente reciprocidade, como a ideia destes aplicativos parece sugerir. E não falo isso para sentir pena de mim mesmo. Já deixei de corresponder tanto quanto não fui correspondido. Com o tempo fui aprendendo que estas coisas simplesmente acontecem. São definidas por circunstâncias e percepções, não necessariamente por maldades ou mesquinharias.
Em um ano interagindo com pessoas através destes aplicativos, já vivenciei uma penca de encontros que renderiam ótimas histórias. Conheci muitos caras e me surpreendi de diferentes formas. Acabei me metendo em algumas furadas, mas também cheguei a fazer até amizades – pelo menos uma boa amizade apareceu para mim pelo Tinder.
Para sobreviver nesta nova forma de ser solteiro, precisei entender que estes aplicativos não podem ser o centro da minha solteirice. Que a vida é muito mais dinâmica do que um jogo de likes e matches e que a troca de olhares e sorrisos ao acaso ainda vale para alguma coisa, felizmente.
Foto: Denis Bocquet/Flickr
