Pedro Henrique Gomes

Hell or high water

Pedro Henrique Gomes
10 de março de 2017
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Antes de me voltar para uns filmes de modo mais detido, preciso ainda escrever sobre alguns outros. Não consegui assistir a todos os filmes da “awards season”, portanto esboço abaixo algumas palavras sobre alguns deles – enquanto já há outros chegando, pois neste final semana estaremos em peregrinação para assistir Silêncio, do Martin Scorsese, e Personal Shopper, do Olivier Assayas, e O Apartamento, de Asghar Farhadi.

A Qualquer Custo, de David Mackenzie

O cenário é o sul dos Estados Unidos. Texas, claro. Jeff Bridges interpreta o xerife. Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) roubam bancos para constituírem um patrimônio (uma lembrança de que a luta de classes no velho oeste é a luta pela propriedade da terra). O filme mostra que os bancos, após tomarem as terras, dominam e controlam a economia local. Chegaram com violência, expulsaram os povos indígenas, tomaram conta das terras. Portanto, a dominação territorial/espacial é um elemento da ação de A Qualquer Custo – e de seus dramas também. Mackenzie o faz com atenção especial aos espaços (isto é, aos enquadramentos). Os espaços, no cinema, aprofundam tensões, distendem o tempo, provocam angústias e maravilhamentos. Não assisti aos seus filmes anteriores, mas o cineasta demonstra conhecer o riscado. Eis o lema que seus personagens carregam: roubar dos ricos e dar a nós, os que precisamos.

Aliados, de Robert Zemeckis

O CGI francamente debochado, o chroma key escandaloso, a atmosfera retida ao que é essencial ao movimento do filme, este Aliados é um delírio. Mesmo que seja para roubar um pouco de Raoul Walsh aqui, um pouco de Lubitsch ali, não é fácil (tentar) ser clássico. Zemeckis está plenamente consciente dos artifícios que utiliza para manipular narrativamente o seu filme e, ao mesmo tempo em que inscreve seu filme dentro da tradição, é muito livre para criar uma ação visualmente muito interessante e uma história de amor que encerra o caso de maneira a honrar os seus personagens. Uma mistura honesta de drama amoroso, filme pastiche de guerra e filme de ação fantástica (vocês viram a cena do parto em meio aos bombardeios?).

Lion – Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis

Incrível como um filme desaba totalmente após cada minuto de projeção, principalmente na segunda fase da vida do protagonista (a segunda parte do filme). Mesmo antes, nota-se que a mão é pesada, o filme teima em seguir uma cartilha jornalística sub-sensível que não consegue articular as suas sensibilidades dramáticas. As tendências estruturais se manifestam desreguladas, impedindo que mesmo a substância mais elementar para que o filme funcione, a emoção, se veja jogada numa montagem e principalmente numa encenação que impedem que o filme aconteça. O ápice do filme é a descoberta da casa através de imagens de satélite do Google. Uma reportagem escrita teria melhor sorte.

Manchester à Beira-mar, de Kenneth Lonergan

Esperto ao filmar conversas, Kenneth Lonergan faz com que as melhores cenas de seu filme sejam aquelas em que uma tensão se cria de maneira autocontida. O cineasta sabe filmar esse diálogos mais duros travados pelos personagens pois não precisa fazer muito e, ao mesmo tempo, não pode simplesmente deixá-los a própria sorte. Mas ele encontra a medida e seu filme então flui – no entanto, cá entre nós, os flashbacks ainda me parecem deslocados no filme, puramente repetitivos. Não interrompe a conversa e a melancolia que rebate daquele espaço frio e cinzento dá força ao filme. Vale acompanhar o próximos passos do cinema de Lonergan.