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Uma candidata só não quebra o teto de vidro

Sacha
8 de março de 2017
(you can read this article in English here)

Do mesmo modo que o racismo não foi solucionado apenas passando emendas à constituição, nem tendo um presidente de raça negra, uma candidata ou uma futura presidente dos Estados Unidos sozinha não quebra o teto de vidro. Nem a candidata mais qualificada das últimas gerações, através de um currículo ímpar em dedicação ao serviço público. A perda de Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016 ensina-nos uma grande lição sobre o que ainda falta por alcançar na luta pela igualdade. É tarefa de uma aldeia mesmo.

Do mesmo modo que o racismo não foi solucionado apenas passando emendas à constituição, nem tendo um presidente de raça negra, uma candidata ou uma futura presidente dos Estados Unidos sozinha não quebra o teto de vidro

Não importa alcançar metas previamente impensáveis. Não importa ganhar mais votos. Não importa impulsar uma visão do mundo que inclui a representação maior de minoridades. Não importa, aliás, nada que uma só faz. E fez.

A realidade do nosso mundo é que, gostar ou não das ideias e política dela, Hillary representa todo o acima mencionado. Foi, sem escrúpulos, a candidata com o currículo de serviço público mais completo dos nossos tempos. A sua é uma carreira que em momento algum deixou de ser ao serviço de melhorar a vida da gente. Alcançou o que muitas mulheres antes dela não conseguiram na candidatura oficial para presidente de um dos grandes partidos políticos. Ganhou em torno de 3 milhões de votos mais do que Trump na eleição. Hillary teve tudo ao seu favor para superar o último desafio e não conseguiu. Nem apareceu no local de teto de vidro que escolheu para se proclamar, caso tivesse ganhado aquela noite.

Hillary teve tudo ao seu favor para superar o último desafio e não conseguiu

Por mais horroroso que a sociedade considere o machismo desavergonhado de Trump, ela ainda está mais confortável com isso do que a novidade de mulheres ocupando cargos de maior responsabilidade. Vemos isso nas estatísticas de participação feminina na política em todo o Ocidente, onde raro é chegar à metade de uma câmara parlamentar. Mostra-se na persistência da disparidade salarial. As mulheres no país mais rico do mundo são as únicas no mundo que não têm, por lei, o direito a licença maternidade paga durante uma única semana.

Uma presidente—ou presidenta, aquela forma preferida pela primeira chefe de estado brasileira, por destacar deliberadamente a ocupação feminina do cargo—tem capacidade de gerir mudanças em todas estas políticas. Ela tem o potencial de impulsar progresso em matéria de igualdade. Mas ela não transforma a sociedade sozinha. Ela precisa do apoio de legisladores, de governadores de estados, das leis municipais, dos conselhos corporativos, das associações voluntárias. Ela precisa sobretudo da confiança da sociedade que acredita que a participação dela e de todas as outras mulheres é beneficial para todos. Mais ainda quando têm equidade para fazer as suas escolhas e fazer as suas vidas. Sem isso, o vidro mantém-se intacto.

Imagem: elma avdagic