{"id":945,"date":"2017-03-03T11:03:52","date_gmt":"2017-03-03T14:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=945"},"modified":"2017-03-03T16:40:45","modified_gmt":"2017-03-03T19:40:45","slug":"critica-eu-nao-sou-seu-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=945","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Eu n\u00e3o sou seu negro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">James Baldwin iniciou o projeto de um livro, <em>Remember This House (1979)<\/em>, que n\u00e3o concluiu, no qual pretendia contar a hist\u00f3ria dos Estados Unidos atrav\u00e9s da figura de tr\u00eas amigos seus, notadamente Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Em comum, al\u00e9m da milit\u00e2ncia pelos direitos civis dos negros americanos, Baldwin chama aten\u00e7\u00e3o ao fato de que os tr\u00eas, nos anos 1960, foram assassinados antes mesmo dos 40 anos \u2013 ele morreria aos 63 anos, na Fran\u00e7a, para onde se mudou em 1948. <em>Eu n\u00e3o sou seu negro<\/em>, dirigido por Raoul Peck, \u00e9 constru\u00eddo inteiramente a partir de fragmentos dos manuscritos deixados por Baldwin.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;N\u00e3o descarreguem as suas responsabilidades sobre n\u00f3s, o problema do racismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente dos negros, em ess\u00eancia \u00e9 dos brancos, pois voc\u00eas o criaram&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro, escritor, militante e orador habilidoso. O texto salienta a sofistica\u00e7\u00e3o do pensamento do seu pensamento, a poesia crua de sua prosa, exp\u00f5e suas contradi\u00e7\u00f5es de jovem, revela as ang\u00fastias dos anos de maturidade. Baldwin \u00e9 muito persuasivo e \u00e9 algo como isto: n\u00e3o descarreguem as suas responsabilidades sobre n\u00f3s, o problema do racismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente dos negros, em ess\u00eancia \u00e9 dos brancos, pois voc\u00eas o criaram. O genoc\u00eddio ind\u00edgena e a escravid\u00e3o negra n\u00e3o foram inven\u00e7\u00f5es dos negros. O filme chama aten\u00e7\u00e3o para as divis\u00f5es de classe no seio da sociedade americana: \u201co branco \u00e9 uma met\u00e1fora do poder\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peck costura a narra\u00e7\u00e3o, na voz de Samuel L. Jackson, com imagens de grandes filmes do cinema americano. Baldwin, atento tamb\u00e9m ao cinema, comenta alguns deles, sua heran\u00e7a, seu imagin\u00e1rio, seus <em>her\u00f3is<\/em>. N\u00e3o havia representa\u00e7\u00e3o do negro (nem do \u00edndio) no cinema americano sen\u00e3o como elementos de vilania ou a partir de um ponto de vista aristocr\u00e1tico. N\u00e3o era poss\u00edvel o reconhecimento do negro no cinema. Baldwin cresceu envolvido por essa cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme de Raoul Peck \u00e9 consciente do poderoso material que tem em m\u00e3os e n\u00e3o o despeja sobre seus espectadores. Sua narra\u00e7\u00e3o \u00e9 pausada, cantada letra por letra em sonoridade irrepreens\u00edvel, o filme \u00e9 minucioso nesse sentido puramente est\u00e9tico do rigor documental, t\u00e3o rigoroso que chega a ser um tanto engessado e apegado ao \u201ctelevisionismo\u201d da montagem. Ao mesmo tempo, a produ\u00e7\u00e3o de Baldwin como escritor tratava, n\u00e3o com menor for\u00e7a, de sexualidade, de press\u00f5es sociais, em suma, da homossexualidade \u2013 Baldwin era homossexual. O filme menciona isso apenas lateralmente atrav\u00e9s de um relat\u00f3rio do FBI, o que \u00e9 estranho, pois confiar ao estado policial e racista a descri\u00e7\u00e3o de uma particularidade fundamental de seu personagem amea\u00e7a (ainda bem que n\u00e3o consegue, gra\u00e7as a ele mesmo) retirar um peda\u00e7o dele. N\u00e3o foi o recorte escolhido pelo cineasta, no entanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o que se imputa negativamente ao filme de Peck, sem surpreender, \u00e9 um \u201colhar\u201d semelhante ao que grande parte da cr\u00edtica (ocidental) despejou (com muita viol\u00eancia, dir\u00edamos) sobre os cinemas africanos durante boa parte dos seus anos de forma\u00e7\u00e3o, a partir de 1960. Em resumo, esperavam que os cineastas dos pa\u00edses africanos \u201cn\u00e3o abandonassem as suas ra\u00edzes\u201d, que \u201ccriticassem o colonialismo\u201d e o seu continuador exatamente perverso, o neocolonialismo p\u00f3s-independ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era preciso ser radical, diziam. O bem aventurado imagin\u00e1rio colonizador (euroc\u00eantrico; nestes casos, em grande parte o franc\u00eas) pretendia <em>um certo cinema africano<\/em>: aquele que eles gostariam de ver. <a href=\"http:\/\/zh.clicrbs.com.br\/rs\/noticias\/proa\/noticia\/2015\/11\/compromisso-com-a-construcao-das-identidades-nacionais-marca-os-cinemas-africanos-das-ultimas-seis-decadas-4896385.html\">Os cineastas africanos queriam outra coisa<\/a> &#8211; ou pelo menos <em>algumas outras coisas<\/em>, mas n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para remontar este debate agora. \u00c9 claro que ao salientar isso n\u00e3o se interrompe as cr\u00edticas ao filme, apenas se questiona uma modalidade espec\u00edfica de ju\u00edzo valorativo que parece querer um tipo de filme adequado aos seus desejos, esquecendo o filme tal como ele foi concebido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I am not your negro<\/em>, de Raoul Peck, Fran\u00e7a\/EUA. Com James Baldwin, Martin Luther King, Malcolm X, Medgar Evers, Dick Cavett, Samuel L. Jackson, Henry Belafonte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>James Baldwin iniciou o projeto de um livro, Remember This House (1979), que n\u00e3o concluiu, no qual pretendia contar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":949,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[290,292,286,287,288,289,291],"class_list":["post-945","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes","tag-cinema-americano","tag-cinemas-africanos","tag-james-baldwin","tag-martin-luther-king","tag-medgar-evers","tag-racismo","tag-raoul-peck"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=945"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/945\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/949"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}