{"id":9378,"date":"2023-09-26T15:33:53","date_gmt":"2023-09-26T18:33:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=9378"},"modified":"2023-10-26T16:45:40","modified_gmt":"2023-10-26T19:45:40","slug":"o-conto-do-bioma-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=9378","title":{"rendered":"O conto do bioma invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #999999;\"><em>Atualizado em 02 de outubro de 2023<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><b>A reportagem do V\u00f3s fez uma incurs\u00e3o pelo Pampa ga\u00facho e mostra porque ele \u00e9 o bioma menos preservado &#8211; e menos protegido &#8211; do Brasil. Uma mistura perigosa de desinteresse, desinforma\u00e7\u00e3o e dinheiro gerou o ambiente perfeito para a devasta\u00e7\u00e3o da paisagem que \u00e9 patrim\u00f4nio cultural do Rio Grande do Sul.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><b>.<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><b>Parece um conto de realismo m\u00e1gico. Aqui, floresta grande e alta \u00e9 mau sinal; colinas muito verdinhas e uniformes indicam uma esp\u00e9cie invasora; e gado pastando \u00e9 sin\u00f4nimo de vegeta\u00e7\u00e3o preservada. \u00c9 estranho. O senso comum sobre preserva\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o basta para entender o que acontece nestas terras. Ou seja, \u00e9 preciso conhecer o Pampa para proteger o Pampa. N\u00e3o basta olhar sem essa vontade, porque a supress\u00e3o de campo nativo s\u00f3 \u00e9 evidente para quem quiser ver. Assim come\u00e7a o conto do bioma invis\u00edvel.<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9334\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1152\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-768x432.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-300x169.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_3553-1024x576.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cComo<b> <\/b>\u00e9 que um leigo reconhece a devasta\u00e7\u00e3o no Pampa?\u201d Essa foi uma das primeiras perguntas que eu fiz \u00e0 pesquisadora Ana Rovedder. Est\u00e1vamos frente a frente, na sala dela, no segundo andar do departamento de Ci\u00eancias Florestais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ela ficou pensativa, me disse que nunca ningu\u00e9m havia perguntado isso a ela. Mas eu viajava havia dias pela metade sul do estado e, centenas de quil\u00f4metros depois, me incomodava o fato de eu ainda ter dificuldade para identificar o que era esperado da paisagem natural e o que era devasta\u00e7\u00e3o.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Acontece que a paisagem do Pampa n\u00e3o \u00e9 composta de belas florestas tropicais como a Amaz\u00f4nia ou a Mata Atl\u00e2ntica. O Pampa \u00e9 um bioma de campo que est\u00e1 restrito ao estado do Rio Grande do Sul, onde ocupa uma \u00e1rea de 176.496 km\u00b2 (IBGE, 2004). Isto corresponde a 63% do territ\u00f3rio estadual e a 2,07% do brasileiro &#8211; o bioma estende-se, ainda, por Uruguai, Argentina e Paraguai.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os campo cobertos de gram\u00edneas espraiam-se cuidadosamente sobre as coxilhas, que \u00e9 como chamamos as colinas com declives. A vastid\u00e3o do Pampa preservado \u00e9 impressionante. \u00c9 poss\u00edvel enxergar o horizonte a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, sem nada que obstrua a vista. A paisagem natural \u00e9 pintada de tons de verde esmaecido e palha que, eventualmente, encontram o c\u00e9u azul. E apesar do predom\u00ednio dos campos nativos, h\u00e1 tamb\u00e9m matas ciliares, matas de encosta, matas de pau-ferro, forma\u00e7\u00f5es arbustivas, butiazais, banhados, afloramentos rochosos, etc.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A riqueza da biodiversidade brasileira \u00e9 not\u00f3ria e as imagens das altas \u00e1rvores das florestas tropicais e rios de quil\u00f4metros de largura s\u00e3o exportadas junto de papagaios, araras e on\u00e7as-pintadas. Mas h\u00e1 formas de biodiversidade mais sutis, como<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>a do Pampa, que podem ser dif\u00edceis de se perceber. Para se ter uma ideia, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) encontraram\u00a0<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/educacao-e-emprego\/noticia\/2015\/02\/cientistas-encontram-57-especies-diferentes-em-1-m-no-pampa-4708525.html\"><span class=\"s1\">57 esp\u00e9cies diferentes de plantas em 1 m\u00b2 de campo nativo<\/span><\/a> por estas bandas. O faz o Pampa o bioma brasileiro com a maior diversidade de vegeta\u00e7\u00e3o nativa por metro quadrado.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas com exce\u00e7\u00e3o do que se nota na rodovia, de dentro do carro, que \u00e9 algo obviamente escancarado, \u00e9 dif\u00edcil identificar a devasta\u00e7\u00e3o quando se olha para o horizonte. \u00c9 dif\u00edcil saber se aquelas \u00e1rvores deveriam estar ali, se aquele verde \u00e9 da paisagem natural ou tem a m\u00e3o do homem &#8211; que est\u00e1 cada vez mais pesada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O bi\u00f3logo Marco Azevedo explica que essa caracter\u00edstica de \u201cbioma invis\u00edvel\u201d n\u00e3o deixa de ser fruto de desinforma\u00e7\u00e3o e faz com que o Pampa se torne um alvo f\u00e1cil de uma esp\u00e9cie de desinteresse deliberado. Ele atua na \u00e1rea de pesquisa cient\u00edfica, conserva\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o ambiental no Rio Grande do Sul h\u00e1 18 anos. Ele tamb\u00e9m \u00e9 membro da Coaliz\u00e3o pelo Pampa, um movimento da sociedade civil formado para proteger o Bioma. \u201cResiste uma vis\u00e3o predat\u00f3ria sobre o Pampa, dizendo que como o campo, por muitos anos, foi ocupado pelo gado, ele deve ser considerado todo ele como uma \u00e1rea consolidada e, portanto, n\u00e3o precisaria de licenciamento ambiental para utilizar essas \u00e1reas\u201d, explica.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma an\u00e1lise in\u00e9dita feita pelo MapBiomas<b><i> <\/i><\/b>a partir da mais recente cole\u00e7\u00e3o de dados de uso e cobertura da terra, abrangendo o per\u00edodo entre 1985 e 2022, mostrou que a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa no Brasil acelerou principalmente nos \u00faltimos dez anos. O per\u00edodo coincide com a vig\u00eancia do novo C\u00f3digo Florestal, aprovado pelo Congresso em 2012. O estudo foi realizado a partir de imagens de sat\u00e9lite e mostra que, nos cinco anos antes da aprova\u00e7\u00e3o do texto (2008-2012), houve uma perda de 5,8 milh\u00f5es de hectares. Nos cinco anos seguintes (2013-2018), a perda aumentou para 8 milh\u00f5es de hectares. E nos \u00faltimos cinco anos (2018-2022), alcan\u00e7ou 12,8 milh\u00f5es de hectares. \u00c9 mais que o dobro. Isso configura um aumento de 120% em rela\u00e7\u00e3o aos anos que antecedem a vig\u00eancia da nova legisla\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os dados referentes aos \u00faltimos 38 anos n\u00e3o s\u00e3o menos alarmantes. Houve uma perda de 96 milh\u00f5es de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o nativa entre 1985 e 2022 no Brasil. \u00a0\u00c9 como se S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Esp\u00edrito Santo, Rio Grande do Norte, Para\u00edba, Santa Catarina, Pernambuco, Cear\u00e1 e Paran\u00e1 simplesmente desaparecessem. Onze estados. E proporcionalmente \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o existente em 1985, os biomas que mais perderam vegeta\u00e7\u00e3o nativa at\u00e9 2022 foram o Cerrado (25%) e o Pampa (24%).\u00a0 E a velocidade \u00e9 t\u00e3o impressionante que, de tudo que foi convertidos para algum uso humano, como cidades ou atividades agropecu\u00e1rias, um ter\u00e7o foi antropizado nos \u00faltimos 38 anos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E o Pampa perdeu a ingl\u00f3ria primeira posi\u00e7\u00e3o apenas no ano passado. O levantamento anterior indicava que se tratava do bioma brasileiro em que mais se havia suprimido vegeta\u00e7\u00e3o nativa em termos proporcionais entre 1985 e 2021. No per\u00edodo, 3,4 milh\u00f5es de hectares de diferentes tipos de campos deram lugar para a agricultura, principalmente o plantio de soja, e silvicultura. O que representa uma perda de 29,5% de vegeta\u00e7\u00e3o.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Mas n\u00e3o \u00e9 motivo para comemorar, porque entre 2021 e 2022, houve incremento na \u00e1rea desmatada em cinco dos seis biomas brasileiros &#8211; apenas a Mata Atl\u00e2ntica ficou de fora. Em termos de \u00e1rea, os maiores aumentos ocorreram na Amaz\u00f4nia e no Cerrado, mas em termos proporcionais, os maiores aumentos ocorreram justamente no Cerrado (31,2%) e no Pampa (27,2%).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso nos leva de volta \u00e0 pergunta que eu fiz \u00e0 professora Ana Rovedder, que tamb\u00e9m \u00e9 coordenadora do Neprade e da Rede Sul de Restaura\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica. Ela concorda que \u00e9 dif\u00edcil, para um olho n\u00e3o treinado, identificar a supress\u00e3o de campo nativo &#8211; no Pampa n\u00e3o se usa a express\u00e3o desmatamento. Mas ela indica que h\u00e1 elementos que podem ser observados mesmo pelo olho menos treinado, que podem amenizar a sensa\u00e7\u00e3o de invisibilidade que a falta de florestas frondosas pode causar. \u201cUma das quest\u00f5es mais sens\u00edveis, principalmente na regi\u00e3o de campanha, \u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o do solo. Ent\u00e3o a gente tem cicatrizes que nos indicam isso.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9428 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-270x180.jpg 270w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-370x247.jpg 370w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_0442-1-110x73.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As cicatrizes mais contundente s\u00e3o as eros\u00f5es &#8211; as vo\u00e7orocas &#8211; e os areais\u201d, explica. As vo\u00e7orocas s\u00e3o caracterizadas por vincos, sulcos muito grandes que se abrem no solo. J\u00e1 os areais s\u00e3o por\u00e7\u00f5es de areia, j\u00e1 bastante comuns em munic\u00edpios como Alegrete e Santiago, que d\u00e3o ao Pampa um aspecto de deserto. Ali\u00e1s, a professora Ana explica que n\u00e3o devemos usar a palavra deserto para nos referirmos ao Pampa. \u201cNo Rio Grande do Sul, para ter deserto, n\u00f3s ter\u00edamos que ter clima de \u00e1rido a semi\u00e1rido, e n\u00f3s n\u00e3o temos. As pessoas chamam erroneamente de deserto. S\u00e3o areais, porque \u00e9 uma fei\u00e7\u00e3o de solo e n\u00e3o de clima\u201d, corrige.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O solo do Pampa \u00e9 um solo arenoso por natureza, ent\u00e3o nem todo areal \u00e9 sintoma de um problema ambiental. Claro, n\u00e3o seria simples no nosso Pampa do realismo m\u00e1gico, que parece desenhado a partir de uma hist\u00f3ria de Garc\u00eda M\u00e1rquez. Mas o uso intensivo dessas \u00e1reas em sistemas muito intensivos, especialmente para o plantio de soja, aumentou essas fei\u00e7\u00f5es. \u201cOs campos n\u00e3o aguentam, n\u00e3o suportam esse tipo de produ\u00e7\u00e3o\u201d, diz a professora.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em outro conjunto de informa\u00e7\u00f5es a respeito de cobertura e uso da terra do MapBiomas, um dos dados que mais se destaca \u00e9 justamente\u00a0o avan\u00e7o da cultura de soja no pa\u00eds. Entre 1985 e 2022, a \u00e1rea ocupada para o plantio do gr\u00e3o passou de 4,5 milh\u00f5es de hectares para 39,4 milh\u00f5es de hectares. No Pampa, a soja avan\u00e7ou 3,1 milh\u00f5es de hectares e, de acordo com o estudo, est\u00e1 mudando o perfil econ\u00f4mico do bioma a partir da degrada\u00e7\u00e3o dos campos nativos, tradicionalmente utilizados pela pecu\u00e1ria.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">DE GR\u00c3O EM GR\u00c3O, O AGRO APAGA O PAMPA<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O plantio de soja provoca um esgotamento muito r\u00e1pido do solo do Pampa. \u201cVoc\u00ea at\u00e9 consegue trabalhar sistemas produtivos intensivos fazendo manejo conservacionista do solo, o problema \u00e9 quando voc\u00ea n\u00e3o faz o manejo conservacionista. E a maioria n\u00e3o faz. Fora que a soja \u00e9 uma cultura anual, ent\u00e3o todo ano se mobiliza demais essas \u00e1reas produtivas. A silvicultura \u00e9 problem\u00e1tica, mas ela \u00e9 uma cultura de ciclos de sete anos, ent\u00e3o fica mais parado. Mas a soja \u00e9 todo ano\u201d, diz Rovedder.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando eu sa\u00ed da sala da professora Ana e voltei para a estrada, os contornos do bioma e da devasta\u00e7\u00e3o foram ficando mais n\u00edtidos. E n\u00e3o muito tempo depois da nossa conversa, a professora me enviou uma fotografia via WhatsApp que exemplifica o poder de degrada\u00e7\u00e3o do plantio inconsequente de soja. \u201c\u00c0 direita, o campo nativo e \u00e0 esquerda, na por\u00e7\u00e3o superior principalmente, a soja que foi plantada onde era campo nativo. Veja que os espa\u00e7os claros s\u00e3o a eros\u00e3o e o solo exposto j\u00e1 formados em um primeiro ano de plantio.\u201d O solo j\u00e1 est\u00e1 erodido ap\u00f3s o primeiro ciclo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9445\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1237\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-768x464.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-300x181.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-1024x618.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-1536x928.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/campo-nativo-OK-2048x1237.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do impacto no solo, a agricultura sem manejo adequado tem um impacto imenso na biodiversidade da regi\u00e3o, porque quando se faz matriz produtiva em grandes extens\u00f5es, a fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 di\u00e1ria e h\u00e1 um impacto muito grande na conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para se ter uma ideia, o felino mais amea\u00e7ado do mundo vive por estas terras. Na estrada entre Dom Pedrito e Santana do Livramento, \u00e9 poss\u00edvel avistar outdoors sugerindo cuidado com o gato-palheiro-do-pampa, um animal que s\u00f3 existe aqui e j\u00e1 poderia ser considerado extinto se n\u00e3o tivesse sido avistado recentemente, como foi divulgado pela reportagem do V\u00f3s em parceria com o portal ((o))eco de jornalismo ambiental. E a principal amea\u00e7a ao gato-palheiro \u00e9 justamente a perda de habitat.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas todos os animais sofrem com isso. O Marco Azevedo, que tamb\u00e9m \u00e9 Doutor em Biologia Animal e especialista em ictiologia, fala da amea\u00e7a, por exemplo, aos peixes anuais. S\u00e3o um grupo de esp\u00e9cies pequenas, de pequeno porte, de peixes da fam\u00edlia Rivulidae, que \u00e9 bem distribu\u00edda na Am\u00e9rica do Sul. No Rio Grande do Sul, h\u00e1 cerca de 40 esp\u00e9cies de rivul\u00eddeos, a maioria delas com habitat no Pampa. \u201cEssas s\u00e3o esp\u00e9cies muito particulares, que tem distribui\u00e7\u00e3o geralmente muito restrita. E s\u00e3o chamados de peixes anuais justamente porque elas vivem em ambientes tempor\u00e1rios, que s\u00e3o po\u00e7as ou \u00e1reas alagadas sazonalmente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os peixes anuais vivem nessas po\u00e7as que geralmente ficam isoladas de corpos h\u00eddricos permanentes. Ou seja, elas secam em determinada \u00e9poca do ano e esses peixes tem o ciclo de vida adaptado a isso. \u201cQuando elas est\u00e3o cheias, eles crescem e se reproduzem muito rapidamente, em poucos meses. Ent\u00e3o, depositam os ovos no substrato lodoso &#8211; que tem determinadas caracter\u00edsticas. Quando a po\u00e7a seca, os adultos morrem, mas os ovos permanecem enterrados no substrato e v\u00e3o nascer na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o chuvosa, completando o ciclo\u201d, explica o bi\u00f3logo. Isso significa que eles n\u00e3o sobrevivem em terrenos permanentemente irrigado, nao sobrevivem em solo totalmente seco. E n\u00e3o sobrevivem em planta\u00e7\u00f5es de soja. \u201cA gente tem visto cada vez mais essas \u00e1reas serem perdidas para agricultura\u201d, diz Marco.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas entra governo, sai governo, a din\u00e2mica de expans\u00e3o da soja no Brasil segue inabalada. Ou melhor, a escolha pela exporta\u00e7\u00e3o de commodities segue inabalada. A \u00e1rea colhida era de 9,5 milh\u00f5es de hectares em 1995 e saltou para para 30,7 milh\u00f5es de hectares em 2017. E, segundo o CONAB, esse n\u00famero j\u00e1 est\u00e1 em 44 milh\u00f5es de hectares em 2022. Ou seja, 30% da \u00e1rea plantada simplesmente n\u00e3o existia como lavoura h\u00e1 pouco mais de cinco anos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O gr\u00e3o representa o maior valor de produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Rio Grande do Sul \u00e9 o terceiro maior produtor de soja do pa\u00eds. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o valor da produ\u00e7\u00e3o em 2022 foi de 345 milh\u00f5es de reais. O maior produtor \u00e9 Dom Pedrito, na regi\u00e3o da Fronteira com o Uruguai. No Pampa. O mapa do cultivo da soja e o do bioma invis\u00edvel se sobrepoem.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Mapa-da-soja-e-Pampa-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9442\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Mapa-da-soja-e-Pampa-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1024\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O problema do avan\u00e7o da soja \u00e9 o mesmo de todo monocultivo: empobrecimento do solo, destrui\u00e7\u00e3o de vertentes e nichos ecol\u00f3gicos. Uma destrui\u00e7\u00e3o que d\u00e1 in\u00edcio a um ciclo vicioso que prejudica, inclusive, o cultivo dos gr\u00e3os.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 inevit\u00e1vel pensar, portanto, que, como disse o antrop\u00f3logo F\u00e1bio Zuker em <a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/2023\/09\/guerra-ecologica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo publicado no site O Joio e o Trigo<\/a>, parece haver \u201cuma rela\u00e7\u00e3o direta entre gr\u00e3os (proponho nos centrarmos aqui no caso da soja), monocultivo, viol\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o de poder.\u201d Para explicar a provoca\u00e7\u00e3o, ele sugere que podemos pensar que a sociedade que se constr\u00f3i ao redor da soja cultivada de maneira irrespons\u00e1vel est\u00e1 solapando a sociedade que se organiza(va) em torno do que havia antes da lavoura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vamos pensar na paisagem mais tradicional do Pampa, naquela que vem \u00e0 nossa mente de pronto: um ga\u00facho montado a cavalo, com um chap\u00e9u de aba larga, bombachas, tocando o gado. Talvez sentado \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, sorvendo um mate enquanto o sol se p\u00f5e no horizonte por detr\u00e1s de uma coxilha. Pois essa cena n\u00e3o existe em uma lavoura de soja. \u00c9 a isso que Zuker se refere.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a amplia\u00e7\u00e3o de monoculturas vem acompanhada de outro tipo de rela\u00e7\u00e3o de poder, at\u00e9 pela natureza do neg\u00f3cio, em que a soja, geralmente, \u00e9 precificada e vendida antes mesmo de ser plantada. H\u00e1, portanto, o que antrop\u00f3logo chama de fechamento ao imponder\u00e1vel. Segundo ele, isso se expressa tamb\u00e9m por meio do uso de agrot\u00f3xicos, utilizados como uma esp\u00e9cie de ferramenta pol\u00edtica de elimina\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a. \u201cA produ\u00e7\u00e3o da homogeneidade encontra nos agrot\u00f3xicos a sua arma mais poderosa. Simplifica\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e exterm\u00ednio de diferentes formas de cultura e vida social andam de m\u00e3os dadas.\u201d N\u00e3o por acaso, 2.182 agrot\u00f3xicos foram liberados para uso no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAs pessoas n\u00e3o sabem, mas n\u00f3s temos 8.600 fam\u00edlias assentadas no Pampa, e elas est\u00e3o sendo afetadas\u201d, diz a professora Ana Rovedder. \u201cVou te dar um exemplo, tem um assentamento em Piratini. Eles est\u00e3o muito assustados. Eles falam o seguinte: a gente est\u00e1 vendo a soja bater na porta da gente. N\u00f3s fizemos a an\u00e1lise da qualidade de \u00e1gua. Da \u00e1gua que eles usam para lavoura, da \u00e1gua que eles usam dentro de casa, dos po\u00e7os artesianos e dos po\u00e7os rasos. Todos est\u00e3o contaminados com coliforme fecal e n\u00f3s encontramos 2,4-D em v\u00e1rias dessas fontes.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um um herbicida poderoso, um agrot\u00f3xico que foi banido na Europa h\u00e1 d\u00e9cadas, estava banido no Brasil e, recentemente, foi liberado pelo governo de Bolsonaro. \u201cEles est\u00e3o tomando essa \u00e1gua. E eles n\u00e3o usam 2,4-D. Da onde que est\u00e1 vindo?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esse caso ilustra como a paisagem n\u00e3o \u00e9 um sistema hermeticamente fechado. A paisagem do Pampa &#8211; e de qualquer bioma &#8211; \u00e9 um sistema aberto que troca fluxos. Ent\u00e3o tudo que se faz em uma propriedade afeta a sociedade em uma escala regional<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e vai encontrar eco em outras localidades. No caso de Piratini, as fam\u00edlias do assentamento da Reforma Agr\u00e1ria produzem alimentos org\u00e2nicos e bebem \u00e1gua contaminada por agrot\u00f3xico.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o acho que seja exagero prever aquelas massas de migra\u00e7\u00e3o para daqui um tempo, daquelas que n\u00f3s vimos na d\u00e9cada de 1930 no centro dos Estados Unidos. Daqui a pouco n\u00f3s vamos ver isso por falta de \u00e1gua e por falta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Voc\u00eas j\u00e1 est\u00e3o vendo faltar \u00e1gua na casa de voc\u00eas, voc\u00eas est\u00e3o vendo os agricultores morrerem de c\u00e2ncer.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A escolha &#8211; e insist\u00eancia &#8211; dos governos brasileiros pela exporta\u00e7\u00e3o de commodities mostra que a exporta\u00e7\u00e3o dos bens prim\u00e1rios \u00e9 o motor de inser\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na geopol\u00edtica e no mercado global. E essa op\u00e7\u00e3o foi feita e mantida por governos \u00e0 direita e \u00e0 esquerda no espectro pol\u00edtico ideol\u00f3gico. Tanto que o governo Lula anunciou, neste ano, o maior Plano Safra da hist\u00f3ria, com a libera\u00e7\u00e3o de R$ 364,22 bilh\u00f5es para a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria nacional. Ainda assim, a associa\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio com a ascens\u00e3o da extrema direita e do Bolsonarismo \u00e9 evidente.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao jornal Correio do Povo ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no ano passado, o presidente da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Gede\u00e3o Pereira, disse que o resultado era \u201caltamente preocupante\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No livro, As Geografias do Bolsonarismo, o autor Bruno Malheiro explica que a semelhan\u00e7a entre o mapa eleitoral da vit\u00f3ria de Bolsonaro e os mapas do cultivo de soja demonstram que \u201ca expans\u00e3o de um capitalismo de fronteira \u00e9 tamb\u00e9m a de um gosto musical, de um sabor, de um modo de se vestir e se comportar, de uma racionalidade espacial cujo conte\u00fado de rela\u00e7\u00f5es congrega um modo de vida violento e absolutamente refrat\u00e1rio \u00e0 diferen\u00e7a. Sabia-se, ali, que o alargamento das commodities no campo brasileiro n\u00e3o era apenas um processo econ\u00f4mico eivado de viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m um processo politico com forte rebatimento na pol\u00edtica eleitoral e na legitimidade do bolsonarismo.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E isso aparece nessa disputa pelo Pampa. Em que fam\u00edlias assentadas e que produzem alimentos org\u00e2nicos disputam o espa\u00e7o com uma soja cujo dono \u00e9 mais invis\u00edvel que o bioma. A dona Alaide Roso vive em um assentamento da Reforma Agr\u00e1ria em Julio de Castilhos. Ela cuida de um quintal agroflorestal implantado pelo projeto Quintais Sustent\u00e1veis em 2013. Em depoimento para o Programa Conexus bioma Pampa, desenvolvido pelo N\u00facleo de Estudos em Agricultura Familiar (NESAF) e pelo NEPRADE, ela relata o avan\u00e7o n\u00e3o requisitado dos agrot\u00f3xicos. \u201cO veneno t\u00e1 destruindo tudo. Muitas vezes eu entro a\u00ed no quintal pra colher uma fruta e eu vejo os passarinhos mortos, envenenados, que vem de outras lavouras\u201d, conta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9429 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-768x576.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-300x225.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1411-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante entrevista coletiva para apresenta\u00e7\u00e3o do balan\u00e7o de 2022 do Sistema Farsul e proje\u00e7\u00f5es para 2023, Gede\u00e3o Pereira destacou o papel do Brasil no cen\u00e1rio internacional dizendo que o pa\u00eds continuaria sendo um player fundamental para a solu\u00e7\u00e3o da fome no mundo. &#8220;N\u00f3s todos somos brasileiros, vivemos nesta p\u00e1tria e eu tenho orgulho quando saio l\u00e1 fora e vejo o quanto nosso setor \u00e9 importante. Possivelmente estejamos produzindo alimentos para mais de 1,5 bilh\u00e3o de pessoas neste mundo&#8221;, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. Para al\u00e9m do fato de que a maior parte da soja \u00e9 exportada e que milh\u00f5es de pessoas passam fome no Brasil, a soja n\u00e3o \u00e9 produzida para ser consumida de maneira direta, diferente das frutas da Dona Ala\u00edde. A commodity tem dois produtos principais: \u00f3leo e farelo. O farelo \u00e9 utilizado, basicamente, na composi\u00e7\u00e3o de todas as ra\u00e7\u00f5es. Isso significa apenas 2% da soja \u00e9 consumida in natura para alimenta\u00e7\u00e3o humana, a maior parte vai para os animais. Portanto, \u00e9 consumida indiretamente por quem come carne.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre o agroneg\u00f3cio e a fome, por\u00e9m, \u00e9 mais profunda. O agro n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 parte da solu\u00e7\u00e3o, como \u00e9 parte do problema. Primeiro, porque avan\u00e7a sobre \u00e1reas de agricultura familiar, que \u00e9 quem produz alimentos, de fato. De novo, podemos usar o exemplo da Dona Ala\u00edde. \u201cO que eu colho aqui n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra mim. Eu levo pra cidade, pro centro social onde tem crian\u00e7as que moram l\u00e1. Eu dou pra eles, pros meus vizinhos. E elas n\u00e3o tem veneno, elas s\u00e3o natural. Isso \u00e9 o mais importante, \u00e9 a gente ter, sem veneno, e ter n\u00e3o s\u00f3 pra gente, mas pros outros\u201d, diz ela. Mesmo assim, ela j\u00e1 depara com o veneno, como ela chama, no pr\u00f3prio quintal. Segundo, porque provoca o \u00eaxodo rural. De acordo com o IBGE, o pa\u00eds perdeu\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/25791-com-aumento-da-mecanizacao-agropecuaria-perde-1-5-milhao-de-trabalhadores\"><span class=\"s1\">1,5 milh\u00e3o de postos<\/span><\/a>\u00a0de trabalho rurais entre 2006 e 2017. Mas note que a quantidade de pessoas que trabalhava na agricultura familiar foi reduzida em 2,2 milh\u00f5es de trabalhadores. Mas porque a expans\u00e3o da soja pode ser culpada pela redu\u00e7\u00e3o das vagas? Porque homogeiniza o cultivo e, consequentemente, demanda menos. Isso al\u00e9m da mecaniza\u00e7\u00e3o do trabalho. Terceiro, \u00e9 simples: dinheiro. O agroneg\u00f3cio tem privil\u00e9gio para acessar financiamentos p\u00fablicos al\u00e9m do Plano Safra e, ainda por cima, \u00e9 regido pelo d\u00f3lar. Com a desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, os produtos do Brasil se tornam muito atraentes para o mercado externo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O agroneg\u00f3cio, da forma como \u00e9 produzido, n\u00e3o alimenta quem tem fome de comida, alimenta quem tem fome de grana. <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A economia brasileira, obviamente, depende da produ\u00e7\u00e3o dessas commodities, mas insistir na monocultura sem o manejo adequado do solo e sem respeitar espa\u00e7os que deveriam ser preservado cobra um pre\u00e7o alto, especialmente em um bioma que j\u00e1 passa despercebido. Como diz o Bruno Malheiro no livro, \u201co ato de jogar veneno em \u00e1reas de monocultivos rodeadas por comunidades, fazendo de esp\u00e9cies que n\u00e3o interessam aos lucros &#8211; inclusive a humana &#8211; em pragas desprez\u00edveis (\u2026)s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que carregam uma subjetividade que flerta com o autoritarismo, pois normalizam a transforma\u00e7\u00e3o da natureza em obst\u00e1culo, a convers\u00e3o dos diferentes em inimigos, a organiza\u00e7\u00e3o miliciarizada da vida social, o culto \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 implos\u00e3o de todas as formas de vida comunit\u00e1ria em nome da defesa da propriedade privada.\u201d A morte torna-se condi\u00e7\u00e3o de expans\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem trabalha com quest\u00e3o ambiental tem ido contra o progresso?\u201d, pergunta a professora Ana. \u201cN\u00e3o, ao contr\u00e1rio n\u00f3s estamos barrando problemas ser\u00edssimos que n\u00f3s vamos ter em curto prazo. E a quest\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 uma delas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 curioso que o potencial financeiro da soja seja justificativa, porque, no longo prazo, a perda de biodiversidade compromete tamb\u00e9m o potencial de desenvolvimento sustent\u00e1vel da regi\u00e3o, seja pela perda de esp\u00e9cies de valor forrageiro, alimentar, ornamental e medicinal, seja pelo comprometimento dos servi\u00e7os ambientais proporcionados pela vegeta\u00e7\u00e3o campestre, como o controle da eros\u00e3o do solo e o sequestro de carbono que atenua as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E \u00e0 medida que os campos de soja avan\u00e7am, v\u00e3o matando o campo ao redor, fazendo com que se perca a flor\u00edstica nativa dos campos tradicionais e o potencial de pastejo para o sistema de produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">UMA TRADI\u00c7\u00c3O ESMAECIDA<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando a gente olha para o Brasil, os relat\u00f3rios do MapBiomas indicam que a agropecu\u00e1ria continua sendo o principal vetor de desmatamento e pode ser constatado em quase todos os biomas brasileiros no per\u00edodo entre 1985 e 2022.\u00a0A exce\u00e7\u00e3o fica, de novo, por conta da Mata Atl\u00e2ntica, o bioma historicamente mais desmatado do pa\u00eds, onde os dois ter\u00e7os do territ\u00f3rio ocupados por essas atividades permaneceram est\u00e1veis nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.\u00a0Na Amaz\u00f4nia, a \u00e1rea ocupada pelo agro saltou de 3% para 16%; no Pantanal, de 5% para 15%; na Caatinga, de 33% para 40%; no Pampa, de 29% para 44% e no Cerrado, de 34% para 50%. As pastagens avan\u00e7aram sobre 61,4 milh\u00f5es de hectares entre 1985 e 2022; a agricultura, sobre 41,9 milh\u00f5es de hectares.\u00a0 De acordo com o levantamento mais recente, de agosto deste ano, a agropecu\u00e1ria respondeu por 95,7% de todo o desmatamento no Brasil em 2022, consolidando-se como o principal vetor de supress\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Mas no Pampa, \u00e9 preciso separar o \u201cagro\u201d da \u201cpecu\u00e1ria\u201d. Porque<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>a soja \u00e9 devastadora, mas a pecu\u00e1ria pode ser, inclusive, um meio de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9432 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-768x576.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-300x225.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1423-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando se fala de Amaz\u00f4nia, eu tenho que eliminar um bioma e plantar um capim ex\u00f3tico, ou seja, n\u00e3o nativo, formar uma pastagem artificial. E a\u00ed eu crio o gado ali em cima com uma pegada ecol\u00f3gica bastante alta, porque eu desmatei. Mas aqui nessa regi\u00e3o, os campos s\u00e3o ambientes naturais e com uma diversidade alt\u00edssima de forrageiras naturais\u201d, explica o bi\u00f3logo Glayson Bencke.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o do Pampa com a pecu\u00e1ria &#8211; ou<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>com algo parecido com a pecu\u00e1ria &#8211; \u00e9 anterior \u00e0 exist\u00eancia do ser humano na Am\u00e9rica do Sul. Trata-se de uma hist\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o conjunta com herb\u00edvoros nativos e que hoje est\u00e3o extintos, a chamada mega fauna. H\u00e1 milhares de anos, havia mam\u00edferos de grande porte que, assim como o fogo, atuavam como agentes de perturba\u00e7\u00e3o e mantinham o campo como, bem, campo. Hoje, quem exerce esse papel s\u00e3o os bois. \u201cNesse ambiente, assim como uma evolu\u00e7\u00e3o natural o gado e os cavalos entram como agentes que mais ou menos mimetizam o papel ecol\u00f3gico dessa fauna extinta ou mesmo do fogo\u201d, diz Glayson, que \u00e9 pesquisador e Mestre em Zoologia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, mais do que compat\u00edvel, a pecu\u00e1ria mant\u00e9m a flor\u00edstica de campo no Pampa. Ela opera como uma reguladora da manuten\u00e7\u00e3o. Se a pecu\u00e1ria for substitu\u00edda pela soja, as fei\u00e7\u00f5es mais arbustivas e arb\u00f3reas v\u00e3o se sobrepor ao campo e gerar um desequil\u00edbrio na paisagem. Ou seja, o modulador do Pampa \u00e9 a bocada do gado.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas a pecu\u00e1ria tamb\u00e9m tem que ser manejada com cuidado, e nem sempre \u00e9 o caso. Outro sinal de campo degradado a que podemos estar atentos, \u00e9 justamente a presen\u00e7a de uma pastagem ex\u00f3tica, o capim anoni. \u201cQuem n\u00e3o conhece, pode at\u00e9 achar lindo aquele campo. \u00c9 um capim de uma cor que oscila entre o verde e o pardo, \u00e9 uma infloresc\u00eancia parda. Mas \u00e9 um pouquinho mais dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9 todo olhar que pode olhar e ver\u201d, diz a professora Ana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O capim anoni \u00e9 uma esp\u00e9cie invasora africana que foi introduzida propositalmente com para fins de pastejo, por volta da d\u00e9cada de 1960. \u201cMas ele j\u00e1 de cara mostra que \u00e9 uma p\u00e9ssima pastagem, porque ele \u00e9 muito fibroso. Ele tem muita s\u00edlica, ent\u00e3o ele machuca a boca do gado. E se o gado t\u00e1 machucado, ele reduz o seu ganho de peso\u201d, explica. E agora, est\u00e1 no Pampa inteiro.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse tipo de coisa, esse tipo de interfer\u00eancia, acontece o tempo inteiro e ao mesmo tempo em que os nossos mecanismos de regulamenta\u00e7\u00e3o sofreram muito nos \u00faltimos anos. Sofreram n\u00e3o apenas com a despol\u00edtica ambiental da esfera Federal, mas tamb\u00e9m com a esfera estadual e isso \u00e9 importante que se diga\u201d, desabafa a pesquisadora Ana Rovedder.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">INVIS\u00cdVEL AT\u00c9 NO PAPEL<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A invisibilidade do Pampa pode ser constatada, tamb\u00e9m, quando olhamos para estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o e mesmo para a legisla\u00e7\u00e3o. O levantamento do MapBiomas indica, al\u00e9m da devasta\u00e7\u00e3o, que o Pampa tem a menor propor\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o dentre todos os biomas brasileiros, com apenas 3,3% do territ\u00f3rio protegido. E destes, 2,4% de uso sustent\u00e1vel e somente 0,9% de prote\u00e7\u00e3o integral. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas naturais protegidas no pa\u00eds, \u00e9 o que tem menos representatividade no Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (SNUC), representando apenas 0,4% da \u00e1rea continental brasileira protegida.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 signat\u00e1rio da Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica (CDB), que prev\u00ea a prote\u00e7\u00e3o de pelo menos 17% de \u00e1reas terrestres representativas da heterogeneidade de cada bioma. Segundo dados do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, as \u201c\u00c1reas Priorit\u00e1rias para Conserva\u00e7\u00e3o, Uso Sustent\u00e1vel e Reparti\u00e7\u00e3o de Benef\u00edcios da Biodiversidade Brasileira\u201d resultaram na identifica\u00e7\u00e3o de 105 \u00e1reas do bioma Pampa, destas, 41 foram consideradas de import\u00e2ncia biol\u00f3gica extremamente alta. N\u00fameros que tornam os 3% ainda mais tr\u00e1gicos.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">CAP\u00cdTULO IV DO MEIO AMBIENTE<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">Art. 251. Todos t\u00eam direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo-se ao Poder P\u00fablico e \u00e0 coletividade o dever de defend\u00ea-lo, preserv\u00e1-lo e restaur\u00e1-lo para as presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es, cabendo a todos exigir do Poder P\u00fablico a ado\u00e7\u00e3o de medidas nesse sentido.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">\u00a7 1.\u00ba Para assegurar a efetividade desse direito, o Estado desenvolver\u00e1 a\u00e7\u00f5es permanentes de prote\u00e7\u00e3o, restaura\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o do meio ambiente, incumbindo-lhe, primordialmente:<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">XVI &#8211; valorizar e preservar o Pampa Ga\u00facho, sua cultura, patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, diversidade de fauna e vegeta\u00e7\u00e3o nativa, garantindo-se a denomina\u00e7\u00e3o de origem.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de a valoriza\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o do Pampa constarem na Constitui\u00e7\u00e3o do Estado, n\u00e3o h\u00e1 uma legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para proteger o bioma. Em 2020, o governador Eduardo Leite (PSDB) sancionou o Novo C\u00f3digo Ambiental. O projeto foi aprovado apenas 75 dias ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do texto pelo Executivo e alterou 500 pontos da legisla\u00e7\u00e3o vigente at\u00e9 ent\u00e3o sem passar sequer pela Comiss\u00e3o de Sa\u00fade e Meio Ambiente da casa. Para se ter uma ideia, o texto do c\u00f3digo anterior foi discutido ao longo de nove anos at\u00e9 ser aprovado, em 2000.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/estado.rs.gov.br\/upload\/arquivos\/cartilha-proposta-codigo-ambiental.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O governo diz que h\u00e1 um avan\u00e7o<\/a>, porque o C\u00f3digo anterior n\u00e3o mencionava o bioma e agora se prev\u00ea a prote\u00e7\u00e3o. Mas isso \u00e9 porque o Pampa s\u00f3 foi reconhecido pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente em 2004. E o novo texto \u00e9 bastante nebuloso.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9435\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1.jpg\" alt=\"\" width=\"1747\" height=\"978\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1.jpg 1747w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1-768x430.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1-300x168.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1-1024x573.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Sancao_Codigo_foto1-1536x860.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1747px) 100vw, 1747px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3digo &#8211; que foi aprovado com um esfor\u00e7o do Executivo, de parte do Legislativo e do setor do agroneg\u00f3cio &#8211; indica que o Bioma Pampa ter\u00e1 suas caracter\u00edsticas e prote\u00e7\u00e3o definidas por lei espec\u00edfica, mas n\u00e3o explica como isso ser\u00e1 conduzido. Ao mesmo tempo, libera usos do solo da regi\u00e3o sem necessidade de autoriza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o ambiental. Por exemplo, um produtor rural pode substituir a pecu\u00e1ria pelo plantio de soja. Sem autoriza\u00e7\u00e3o.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os deputados Jeferson Fernandes (PT), Miguel Rossetto (PT) e representantes de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil articuladas na Coaliz\u00e3o pelo Pampa protocolaram um projeto de lei que disp\u00f5e sobre a conserva\u00e7\u00e3o e uso sustent\u00e1vel do bioma, mas o texto ainda tramita na Assembleia Legislativa. Mas at\u00e9 que ele seja aprovado &#8211; se for -, o \u00fanico dispositivo que prote\u00e7\u00e3o de que o Pampa disp\u00f5e \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica de 2015. H\u00e1 oito anos, a Promotoria de Justi\u00e7a de Defesa do Meio Ambiente da Capital, representada pelos Promotores de Justi\u00e7a Annelise Monteiro Steigleder, Josiane Camejo e Alexandre Saltz, integrantes do N\u00facleo de Prote\u00e7\u00e3o ao Bioma Pampa, ingressou com a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra o Estado do Rio Grande do Sul com o objetivo de assegurar a prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA nossa a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, ela foi bem espec\u00edfica para impedir a emiss\u00e3o de licen\u00e7as ou autoriza\u00e7\u00f5es para convers\u00e3o de campo ou para realiza\u00e7\u00e3o de qualquer empreendimento que pudesse impactar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa sem que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente exigisse a reserva legal de 20% das propriedades rurais\u201d, explica a promotora Annelise. Segundo ela, o MP-RS atacou o Decreto Estadual 52.431\/2015, que, ao distinguir as \u00e1reas rurais consolidadas por atividade pecu\u00e1ria das \u00e1reas remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, definidas no texto como \u00e1reas n\u00e3o-antropizadas, desconsiderou evid\u00eancias cient\u00edficas no sentido de que a atividade pecu\u00e1ria n\u00e3o causa supress\u00e3o do campo nativo. \u00c9 a isso que o bi\u00f3logo Marco Azevedo se referia l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A consequ\u00eancia pr\u00e1tica do decreto seria, ent\u00e3o, a dispensa da reserva legal para os im\u00f3veis rurais de at\u00e9 quatro m\u00f3dulos fiscais localizados no Pampa, independente da atividade. \u201cEsse decreto tratou a vegeta\u00e7\u00e3o do Pampa como uma grande \u00e1rea rural consolidada, porque geralmente tem gado ali pastando. Ent\u00e3o o Estado, ele entendeu que a presen\u00e7a desse gado significava a supress\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa. E a\u00ed seria tudo \u00e1rea consolidada. E na vis\u00e3o t\u00e9cnica, acad\u00eamica, dos v\u00e1rios especialistas que a gente ouviu para fazer a a\u00e7\u00e3o judicial, a presen\u00e7a do gado n\u00e3o n\u00e3o descaracteriza os remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa\u201d, disse a promotora. <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A a\u00e7\u00e3o postula que, quando da aprova\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o da reserva legal no Cadastro Ambiental Rural, o Estado do Rio Grande do Sul respeite o percentual de 20% da \u00e1rea do im\u00f3vel mantida com campo nativo, ainda que ocorra a atividade de pecu\u00e1ria na \u00e1rea de vegeta\u00e7\u00e3o nativa remanescente. Pede, ainda, que seja reconhecida a ilegalidade da anistia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s infra\u00e7\u00f5es administrativas praticadas no per\u00edodo de 22 de julho de 2008 a 25 de maio de 2012, j\u00e1 que esta anistia n\u00e3o est\u00e1 prevista no Novo C\u00f3digo Florestal.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas neste ano surgiu um novo problema: o novo zoneamento da silvicultura.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">AS VIS\u00cdVEIS LAVOURAS DE \u00c1RVORES<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser dif\u00edcil para uma leiga identificar tra\u00e7os espec\u00edficos da degrada\u00e7\u00e3o do Pampa, algo me chamou a aten\u00e7\u00e3o no trajeto entre Ros\u00e1rio do Sul e Santa Maria, horas antes da minha entrevista com a professora Ana Rovedder. Eu sabia da exist\u00eancia de algumas por\u00e7\u00f5es de florestas no Pampa, embora menos comuns. Mas tamb\u00e9m sabia que elas n\u00e3o ocorriam nos munic\u00edpios que eu havia percorrido naquelas dias. Ou seja, as florestas imensas que eu avistava agora s\u00f3 podiam ser fruto da silvicultura. Pouco depois, a professora Ana confirmou o motivo do meu espanto.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>\u201cO Pampa tamb\u00e9m tem floresta, embora n\u00e3o seja o predom\u00ednio, n\u00e3o \u00e9 o ecossistema que predomina. N\u00f3s temos um predom\u00ednio de floresta em mosaico com campo nativo naquela regi\u00e3o de Ca\u00e7apava, Piratini, Cangu\u00e7u, Santana da Boa Vista. \u00c9 uma regi\u00e3o toda \u201cdobrada\u201d. L\u00e1 tem floresta\u201d, explica.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Olhando para o mapa do Rio Grande do Sul, constatei que est\u00e1vamos longe dessas cidades. De fato, as \u00e1rvores que oprimem o visual da estrada s\u00e3o esp\u00e9cies ex\u00f3ticas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9433 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431.jpg 1920w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431-768x432.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431-300x169.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSCN1431-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A silvicultura, embora n\u00e3o seja a maior, tamb\u00e9m \u00e9 uma amea\u00e7a importante ao bioma Pampa. Plantam-se verdadeiras lavouras de \u00e1rvores que retiram uma quantidade grande de nutrientes do solo e consomem \u00e1gua a ponto de inutilizar o espa\u00e7o no longo prazo. E em vez de o governo do Estado frear o avan\u00e7o dessa amea\u00e7a, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou um novo zoneamento a partir de um estudo encomendado justamente pela ind\u00fastria de celulose. Segundo a nova regra, as esp\u00e9cies ex\u00f3ticas como pinus e eucaliptos podem cobrir mais de 10% do territ\u00f3rio ga\u00facho. Uma \u00e1rea extra de at\u00e9 3 milh\u00f5es de hectares. Isso significa que a \u00e1rea ocupada pela silvicultura pode quadruplicar e ocupar um espa\u00e7o equivalente ao estado do Rio de Janeiro.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As regras que estavam em vig\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o haviam sido aprovadas em 2009 com base em estudos da extinta Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica e com ampla discuss\u00e3o. Desta vez, a decis\u00e3o foi baseada em um relat\u00f3rio financiado pela multinacional CMPC, uma das maiores produtoras de celulose e papel do mundo, que produz no RS h\u00e1 dez anos e tem o maior interesse em explorar a regi\u00e3o. Mas quem protocolou a proposta do Novo Zoneamento no Consema foi a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias (Fiergs). No conselho, o texto foi avaliado pela C\u00e2mara T\u00e9cnica de Agropecu\u00e1ria at\u00e9 que, em mar\u00e7o deste ano, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) abriu uma consulta p\u00fablica e deu prazo de 10 dias corridos para discuss\u00e3o. Tirando s\u00e1bados, domingos e feriados, restariam quatro dias para debate &#8211; foi durante a P\u00e1scoa.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De novo, coube ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual intervir e determinar a extens\u00e3o do prazo. A promotora Annelise Monteiro Steigleder, que assinou a pe\u00e7a, tamb\u00e9m recomendou que o estudo fosse submetido tamb\u00e9m \u00e0 C\u00e2mara T\u00e9cnica de Biodiversidade &#8211; e n\u00e3o apenas a da Agropecu\u00e1ria &#8211; e que fossem incorporadas as contribui\u00e7\u00f5es da Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (Fepam).<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do MP-RS, a consulta p\u00fablica sobre o zoneamento acabou recebendo 215 contribui\u00e7\u00f5es da sociedade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo o parecer da Fepam, o estudo apresentado pela Fiergs \u00e9 \u201cinsuficiente e inadequado\u201d e pode tornar imposs\u00edvel a restaura\u00e7\u00e3o do ambiente natural. A Coaliz\u00e3o pelo Pampa e o NEPRADE tamb\u00e9m se manifestaram contr\u00e1rias ao novo zoneamento, mas a proposta original foi encaminhada praticamente intacta.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Rio Grande do Sul foi o quinto Estado brasileiro com maior produ\u00e7\u00e3o de madeira em tora oriunda da silvicultura entre 2018 e 2020, conforme a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/atlassocioeconomico.rs.gov.br\/produtos-da-silvicultura\"><span class=\"s2\">Atlas Socioecon\u00f4mico<\/span><\/a>. Foram produzidos 13,9 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos por ano no per\u00edodo. Grande parte disso \u00e9 para exporta\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA grande dificuldade quando a gente pensa no Pampa \u00e9 que ele \u00e9 um mosaico de propriedades privadas. E falando bem concretamente, nos falta uma pol\u00edtica p\u00fablica de prote\u00e7\u00e3o desse Pampa que tamb\u00e9m trabalhe com estrat\u00e9gias de ordenamento territorial,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>de realmente incentivar at\u00e9 o propriet\u00e1rio rural que tem gado. Porque hoje o apelo \u00e9 econ\u00f4mico, ent\u00e3o a pessoa que tem uma propriedade rural e de repente ela tem uma oportunidade de implantar uma lavoura de soja ou de arroz, enfim, ela vai querer fazer isso porque para ela \u00e9 mais lucrativo\u201d, desabafa a promotora Annelise Steigleder.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">ALIANZA DEL PASTIZAL<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Alianza del Pastizal pode ser um exemplo das possibilidades de se retomar o uso para o qual o bioma \u00e9 predestinado. No site da iniciativa, a primeira coisa que se l\u00ea \u00e9: produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria que conserva o Pampa. E \u00e9 um bom resumo. O grupo re\u00fane produtores rurais e parceiros institucionais que trabalham para aliar produ\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o ambiental.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 uma caridade, \u00e9 uma ideia inteligente que segue a l\u00f3gica da sugest\u00e3o da promotora Annelise. O objetivo \u00e9 promover sistemas de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria mais eficientes e que operem em harmonia com os campos nativos, mantendo e aumentando os \u201cservi\u00e7os ecossist\u00eamicos\u201d prestados, com foco na monetiza\u00e7\u00e3o desses servi\u00e7os. Ou seja, explora-se o potencial de projetos de cr\u00e9ditos de carbono e outros mecanismos de pagamento por servi\u00e7os ambientais. Assim, o produtor tem incentivo financeiro para proteger o Pampa, o campo nativo \u00e9 conservado<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e a biodiversidade de fauna e de flora continuam presentes. Completando o c\u00edrculo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Basicamente, o produtor que mant\u00e9m determinado percentual de campo nativo intacto \u00e9 recompensado por isso.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Alianza del Pastizal atua nos quatro pa\u00edses em que o Pampa est\u00e1 presente. J\u00e1 s\u00e3o 158 mil hectares de campos nativos preservados por meio de 290 produtores parceiros que est\u00e3o em 38 munic\u00edpios. \u201cJ\u00e1 que maior parte do campo nativo que resta est\u00e1 nas m\u00e3os de propriet\u00e1rios privados, trabalhamos essa quest\u00e3o de recompensar produtores que se comprometessem a criar gado e produzir carne mantendo no m\u00ednimo 50% de campo nativo. Mas tem produtoras da Alianza que tem 90, 95 e at\u00e9 100% da \u00e1rea da propriedade de campo nativo\u201d, explica o bi\u00f3logo Glayson Bencke, que tamb\u00e9m faz parte da Alianza.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, s\u00e3o 250 propriedades aderentes, segundo Glayson. E os benef\u00edcios j\u00e1 s\u00e3o evidentes. \u201cA gente j\u00e1 visitou 70 propriedades da Alianza ao todo. Nessas 70 propriedades, a gente j\u00e1 encontrou 290 esp\u00e9cies de aves, mas, mais importante que isso, a gente j\u00e1 encontrou 85% das esp\u00e9cies de aves campestres do Rio Grande do Sul do Pampa. Isso quer dizer que a gente est\u00e1, sim, mantendo a biodiversidade do Pampa, pelo menos em termos de aves.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ave-s\u00edmbolo da Alianza \u00e9 um p\u00e1ssaro chamado veste-amarela. Eu consegui fotografar um exemplar desse passarinho lindo, que voa pelos campos dos quatro pa\u00edses. S\u00f3 fiquei devendo o registro pro Glayson. Mas ele contou que as propriedades visitadas guardam muitas esp\u00e9cies raras. \u201cDas 29 esp\u00e9cies de aves amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o no Pampa, 23 encontram um lugar nessas 70 propriedades\u201d, comemorou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E outro motivo pelo qual a Alianza \u00e9 um projeto a ser celebrado, se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o desses propriet\u00e1rios com a terra, que \u00e9 diferente da de quem aposta na expans\u00e3o do monocultivo. \u201cEssa terra est\u00e1 na fam\u00edlia h\u00e1 muitos anos, ela j\u00e1 foi dividida entre os filhos, entre os netos, entre os bisnetos dos ancestrais dessas pessoas. Ent\u00e3o essa terra, ela tem um significado muito maior para algu\u00e9m que sempre viveu na regi\u00e3o do Pampa e \u00e9 pecuarista. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 ra\u00edzes, \u00e9 diferente para um arrendat\u00e1rio que vem de fora para plantar soja.\u201d Ou seja, protege-se, tamb\u00e9m uma cultura, um modo de vida, uma comunidade.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">O BIOMA INVIS\u00cdVEL<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O conto do bioma invis\u00edvel come\u00e7ou a ser escrito antes de eu entrar no carro com destino \u00e0 Piratini, a primeira parada. Foi quando eu conversei com o Glayson e ele me disse algo que foi para a estrada comigo: \u201cA eros\u00e3o n\u00e3o pega s\u00f3 a terra. Pega os costumes,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>pega as tradi\u00e7\u00f5es, pega a cultura e leva tudo embora.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois da viagem, a entrevista com a promotora Annelise Steigledder completou o ciclo com a seguinte frase: \u201cEssa paisagem \u00e9 tamb\u00e9m um patrim\u00f4nio cultural. E n\u00f3s n\u00e3o temos um instrumento que proteja paisagem, que pressup\u00f5e um olhar integrado, um olhar amplo para a regi\u00e3o. Qual \u00e9 a estrat\u00e9gia para manter essa paisagem?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9431\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-768x576.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-300x225.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/IMG_3879-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Pampa bioma que desaparece nesse conto. \u00c9 o Pampa cultura, o Pampa s\u00edmbolo do Rio Grande, o Pampa que a gente ouve nas can\u00e7\u00f5es nativistas, o Pampa que tamb\u00e9m \u00e9 imaterial. Todo esse Pampa \u00e9 invis\u00edvel a quem n\u00e3o tem interesse em protege-lo. Seja por desinteresse, desinforma\u00e7\u00e3o ou por dinheiro.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando a gente trabalha fala em preservar esp\u00e9cies de plantas e animais, em conservar nascentes, em conservar as beiras de rios do Pampa &#8211; e da Mata Atl\u00e2ntica -, a gente est\u00e1 falando de conservar processos produtivos, a gente est\u00e1 falando em conservar cultura. N\u00f3s estamos falando em conservar as pr\u00f3prias aglomera\u00e7\u00f5es humanas\u201d, revela a professora Ana, em mais uma tentativa de mostrar para quem quiser ver, como diz a can\u00e7\u00e3o de Leonardo. Mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":9334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[376],"tags":[],"class_list":["post-9378","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagens-especiais"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9378"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9378\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}