{"id":9259,"date":"2023-07-31T18:47:07","date_gmt":"2023-07-31T21:47:07","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=9259"},"modified":"2023-09-04T14:50:54","modified_gmt":"2023-09-04T17:50:54","slug":"a-mesa-vazia-de-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=9259","title":{"rendered":"A mesa vazia de Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma festa de S\u00e3o Jo\u00e3o com 1500 pessoas, me vejo sozinha. N\u00e3o fica triste, eu n\u00e3o estou. \u00c9 puramente circunstancial. Minha m\u00e3e est\u00e1 ocupada vendendo crepes, as crian\u00e7as est\u00e3o correndo feito man\u00edacas, os amigos pr\u00f3ximos j\u00e1 foram embora e eu resolvi ficar em solidariedade \u00e0 matriarca trabalhadora. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De in\u00edcio, fiquei meio sem jeito e decidi me empenhar em parecer estar fazendo algo com prop\u00f3sito: resolvi comer amendoim.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>A concentra\u00e7\u00e3o em quebrar a casca \u00e9 apar\u00eancia de ocupa\u00e7\u00e3o o suficiente para dar a sensa\u00e7\u00e3o de tudo est\u00e1 sob controle, de que eu estou perfeitamente confort\u00e1vel na posi\u00e7\u00e3o de guardadora de casacos e t\u00eanis e brindes da pesca. Mas os amendoins acabaram mais r\u00e1pido do que eu havia previsto e, de repente, eu me transformei em uma estranha olhando para os lados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A essa altura voc\u00ea j\u00e1 deve estar se perguntando onde estava meu celular, l\u00f3gico. Pois eu respondo: sem sinal. E eu sou daquelas pessoas que se levam muito a s\u00e9rio e n\u00e3o tem nenhum joguinho instalado pra curtir offline. Meu <em>guilty pleasure<\/em> \u00e9 um entediante sudoku que eu acesso na p\u00e1gina do NYT &#8211; sim, eu sei, que pregui\u00e7a. Mesmo assim, resolvi tentar a sorte com o Kindle. E dei sorte, de fato, uma sorte que eu jamais tive na pesca das festinhas desta escola. Estava \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o a biografia do J\u00f4 Soares. Ent\u00e3o, troquei o amendoim pelo livro e comecei a ler, super compenetrada, parecendo uma pessoa detest\u00e1vel que n\u00e3o consegue se divertir ou se conectar com outras pessoas em uma festa de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em minha defesa, neste tipo de evento as pessoas andam em duplas ou bandos fechados. \u00c9 uma verdade universal, mas especialmente verdade em uma cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul. Isso significa que se a gente j\u00e1 n\u00e3o conhece um dos membros do grupo, a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel. E o fato de eu estar sem \u00f3culos impede uma busca ativa, afinal, n\u00e3o posso deixar meu posto de chapeleira. Portanto, sim, ler me parece a melhor op\u00e7\u00e3o para n\u00e3o parecer uma coitada. Tarde demais?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na segunda p\u00e1gina da noite, uma letrinha do J\u00f4: \u201cUm escritor se forma n\u00e3o s\u00f3 lendo bastante, mas prestando muita aten\u00e7\u00e3o nas pessoas, na experi\u00eancia que elas transmitem, naquilo que viveram.\u201d Fiquei com vergonha. Era isso que eu deveria estar fazendo. Observando, tentando entender. Sou jornalista e cientista pol\u00edtica, meu Deus. No meu diploma t\u00e1 l\u00e1 um doutorado em ci\u00eancias <em>sociais<\/em>.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><b>Eu esqueci, por um segundo, iludida pela cosmovis\u00e3o do J\u00f4 Soares, que n\u00e3o se fica olhando para as pessoas em festa de cidade<\/b> <strong>pequena.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00f4 era um homem viajado e o conselho dele \u00e9 o mesmo de qualquer escritor, jornalista ou algu\u00e9m que se preste a observar o cotidiano. Ele n\u00e3o est\u00e1 errado. Mas em cidade pequena, n\u00e3o se observa as pessoas assim, de forma escancarada. O correto \u00e9 elas costas e, de preferencia, com o o objetivo final de alimentar alguma fofoca.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>Se eu guardar meu telefone e simplesmente ficar observando as pessoas em plena luz da l\u00e2mpada \u00e9 poss\u00edvel que eu v\u00e1 parar na cadeia. E n\u00e3o a da festa. Meu marido conta de uma das primeiras vezes em que ele foi caminhar pela cidade, as pessoas foram tao hostis a presen\u00e7a de uma pessoa desconhecida que ele ficou com medo de ser denunciado por algo horr\u00edvel, algo muito pior que caminhar de camiseta laranja. Por isso eu resolvi comprar o terceiro quent\u00e3o e mais amendoim. Mas acabou o amendoim, ent\u00e3o s\u00f3 bebi o quent\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E como tudo sempre pode piorar, as pessoas que ocupavam a mesma mesa que eu se retiram e v\u00e3o embora. E ningu\u00e9m ocupa seis lugares, que agora s\u00e3o onze. Isso significa que eu agora estou sentada \u00e0 ponta da \u00fanica mesa que n\u00e3o est\u00e1 cheia. Afinal, eu n\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estava chamando aten\u00e7\u00e3o o suficiente. Uma mulher sozinha, bebendo quent\u00e3o, cuidando para que casacos de crian\u00e7as nao sejam roubados, junto de uma bolsinha rosa e lil\u00e1s, dois pares de t\u00eanis pequenos, um par de meias sujas e dois cartuchos de amendoim a\u00e7ucarado.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>E escrevendo loucamente em um celular como se fosse uma m\u00e1quina de escrever. Preciso de uma \u00e1gua, n\u00e3o sei se pelo calor do quent\u00e3o ou da vergonha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando eu chego no bar, o J\u00fanior, um amigo, brinca: \u00e1gua, Ge\u00f3rgia? N\u00e3o vai beber vinho? <\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E assim, num passe de m\u00e1gica, entendi o furo da minha tese mal acabada. O problema n\u00e3o \u00e9 a cosmovis\u00e3o do J\u00f4 ou mesmo a minha, o problema \u00e9 aqui eu posso at\u00e9 parecer uma solit\u00e1ria misteriosa, mas eu n\u00e3o sou. Se eu espichar o olhar, encontro o P\u00f4nei, um ex-policial supostamente envolvido em atividades il\u00edcitas. \u201cSempre aquela\u201d, me diz uma. \u201cNossa, que diferente que tu t\u00e1\u201d, me diz outra. Na cozinha, tem as profes que me deram aula me abra\u00e7ando carinhosamente, as tias da merenda me atirando beijo &#8211; as que n\u00e3o se aposentaram pois n\u00e3o mais crian\u00e7a. Eu conhe\u00e7o o cara de bon\u00e9, s\u00f3 n\u00e3o lembro o nome dele. Ali t\u00e1 o advogado da minha tia, casado com minha ex-professora de Hist\u00f3ria. Lembrei, o cara de bon\u00e9 \u00e9 o irm\u00e3o da Juliane e da Jucilene. Acho que esse que passou de cachecol \u00e9 pai de um menino com quem eu j\u00e1 fiquei em 1912. Putz, era o irm\u00e3o dele tamb\u00e9m. Corei.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Do nada, um casal sentou \u00e0 minha frente. Ele estava muito b\u00eabado. Ela era t\u00edmida e obviamente submissa. Ele perguntou se eu sou de Para\u00ed e eu disse que sim. Ele respondeu que n\u00e3o, que eu nao sou de Para\u00ed. Ent\u00e3o ele perguntou de novo, e eu, de novo, disse que sim, que eu sou Para\u00ed. Ele indagou h\u00e1 quanto tempo me mudei e eu expliquei que nasci aqui. Ele duvidou, dizendo que mora aqui h\u00e1 40 anos e n\u00e3o sabe quem eu sou. Eu expliquei que moro em Porto Alegre. \u201cLogo vi que tu era de Porto Alegre.\u201d Mas eu nao sou de Porto Alegre, sou daqui. Nao sou uma estranha misteriosa.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o gostou do meu nome, e disse<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>o dele era mais bonito. Ele ficou gesticulando e eu notei que algu\u00e9m achou engra\u00e7ado que ele tenha sentado \u00e0 mesa comigo. Um casal riu, cochichou, ele n\u00e3o entendeu. Nisso, o P\u00f4nei se levantou e cochichou ao ouvido do casal. Riu tamb\u00e9m. Eu me constrangi, baixei a cabe\u00e7a<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>e voltei e digitar este<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>texto. Nesse meio tempo, Vilmar do nome bonito fez uma esp\u00e9cie de m\u00edmica para os amigos, que riram. Notei que ele derrubou \u00e1gua ou cerveja nos meus amendoins. Que \u00f3dio, eles est\u00e3o ensopados. Ele levantou da mesa e saiu sem se despedir. A namoradinha coitadinha fez o mesmo. Ele havia se sentado para comer amendoins sequinhos, mas talvez o fato de eu ter me fechado o tenha constrangido. Virou um concurso de constrangimento, aparentemente. Agora ele emporcalha o ch\u00e3o com cascas de amendoim como se fosse normal, como se n\u00e3o houvesse saquinhos, como se n\u00e3o houvesse latas de lixo, como se a culpa fosse minha, como se a mesa n\u00e3o fosse gigante, como se n\u00e3o tivesse sido escolha dele sair dali.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas l\u00e1 se vai mais uma tese mal acabada na noite. A segunda em um texto s\u00f3. Eu ia dizer que um jornalista pode e deve observar, mesmo em cidade pequena. Porque o problema nao \u00e9 o tamanho do lugar, o problema \u00e9 o pertencimento. O problema \u00e9 fazer isso na nossa cidade pequena. Mas eu estou aqui observando e observando e contando pra voc\u00eas ao mesmo tempo em que tento manter a pose de uma Hemingway torta e nada misteriosa que trocou o gin por quent\u00e3o e Paris por Para\u00ed.<\/p>\n<hr>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><b>E \u00e9 isso que eu vou fazer nesse espa\u00e7o, contar pra voc\u00eas o que eu vejo por a\u00ed. O que n\u00e3o estava na pauta, o que n\u00e3o estava previsto, o que apareceu pelo meu caminho sem que eu estivesse preparada. Vou compartilhar com voc\u00eas minhas andan\u00e7as. Ou, no caso da festa de S\u00e3o Jo\u00e3o em Para\u00ed, minhas paran\u00e7as. <\/b><\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":9351,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[2739],"tags":[2766,2754,2767,179,2765],"class_list":["post-9259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-andancas","tag-andancas","tag-cronica-2","tag-historias","tag-jornalismo","tag-sao-joao-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9259\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}