{"id":8840,"date":"2022-10-28T17:14:00","date_gmt":"2022-10-28T20:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8840"},"modified":"2022-11-24T10:35:36","modified_gmt":"2022-11-24T13:35:36","slug":"everaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8840","title":{"rendered":"O dia em que Everaldo foi cortado \u2013 e o que veio antes e depois disso"},"content":{"rendered":"\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>\u00daltima atualiza\u00e7\u00e3o em 13\/11\/2022<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O telefone tocou \u00e0s 18h45 do dia 15 de maio de 1972. Everaldo atendeu e se surpreendeu ao ouvir a voz do advogado Felix Back em uma segunda-feira \u00e0 noite e logo imaginou que devia ser algo importante. E de fato, era. O tamb\u00e9m amigo ligara para avisar que Everaldo estava fora da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8902 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1134\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1.jpg 1134w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-1-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1134px) 100vw, 1134px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era um tempo de redes sociais em que os jogadores gravam suas rea\u00e7\u00f5es ao an\u00fancio da convoca\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o ningu\u00e9m sabe exatamente o que passou pela cabe\u00e7a do jogador naquele momento. Mas certamente n\u00e3o era um samba-enredo do Bambas da Orgia, o sabor daquela eventual dose de u\u00edsque com gelo ou o cheiro da grama do s\u00edtio de Viam\u00e3o. Poderia, sim, ser um samba-can\u00e7\u00e3o de Lupic\u00ednio Rodrigues, porque talvez nem ele soubesse exatamente o que trazia no peito, se era ci\u00fame ou despeito. Afinal, foram cinco anos de Sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo tinha que sair em seguida, ia com a esposa para um churrasco em Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, onde a turma da Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha estava reunida para comemorar a vit\u00f3ria sobre o Uruguai, de alguns dias antes. Mas ele esperou pelo Jornal Nacional daquela noite para confirmar. Vai que fosse daqueles sonhos matreiros em que a gente pensa que est\u00e1 acordado. Mas n\u00e3o era. Ele realmente fora cortado da Sele\u00e7\u00e3o. O jogo em abril contra o Paraguai, na capital ga\u00facha, havia sido o \u00faltimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no local da festa, os companheiros estavam inconformados. O meia-esquerda Torino, que tamb\u00e9m jogava no Gr\u00eamio, era o mais incomodado e esbravejava. Everaldo, n\u00e3o. Ele estava calmo. Talvez tenha sido o tempo entre o telefonema e a voz de Cid Moreira. Talvez o tempo entre a casa e o Dodge Dart. Talvez o tempo ao volante tenha sido suficiente para passar a sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar. Ele chegou tranquilo, cumprimentou a todos e j\u00e1 foi dizendo que estava tudo bem e que se havia jogadores em melhores condi\u00e7\u00f5es, Zagallo, ent\u00e3o t\u00e9cnico da Sele\u00e7\u00e3o, estava certo em convoc\u00e1-los. \u201cT\u00e1 certo\u201d, dizia ele. Mas n\u00e3o estava. O futebol \u00e9 um movimento da paix\u00e3o e Everaldo n\u00e3o imaginava que aquele seria o come\u00e7o de um evento que entraria para a hist\u00f3ria do futebol brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado de F\u00e9lix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Clodoaldo, G\u00e9rson, Rivelino, Tost\u00e3o, Pel\u00e9 e Jairzinho, Everaldo foi titular daquela que ficou conhecida como a melhor sele\u00e7\u00e3o de todos os tempos. Mesmo assim, o jogador do Gr\u00eamio n\u00e3o foi convocado para a Mini Copa, um torneio organizado pelo governo e pela Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos (CDB) para celebrar os 150 anos da Independ\u00eancia do Brasil e que, segundo Zagallo, serviria como homenagem e despedida de alguns her\u00f3is do tri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, o estado inteiro se insurgiu para defender Everaldo, o lateral-esquerdo do Brasil na Copa do M\u00e9xico em 1970, e ele se tornou personagem central de um dos epis\u00f3dios mais insanos da hist\u00f3ria do futebol no pa\u00eds. Ele foi um dos motivos pelos quais a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira enfrentou a Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha em um jogo de desagravo em 17 junho de 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, uma Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha com os melhores da Dupla Grenal. Schneider; Espinosa, Ancheta, Figueroa e Everaldo; Carbone, Tovar e Torino; Valdomiro, Claudiomiro, Oberti e depois Mazinho. Do outro, a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol. Le\u00e3o, depois S\u00e9rgio, no gol; Z\u00e9 Maria, Brito, Vantuir e Marco Ant\u00f4nio; Clodoaldo, Piazza e Rivelino; Jairzinho, Leivinha e Paulo C\u00e9sar Lima. Pela l\u00f3gica, seria uma partida festiva no Est\u00e1dio Beira-Rio. Os her\u00f3is do tri seriam celebrados, assim como seriam exaltados os ga\u00fachos nascidos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, na Argentina, no Chile ou Uruguai. Mas n\u00e3o foi o que aconteceu. Cem mil pessoas vaiaram quem vestia amarelo como se fossem os rivais a quem, naquele momento, abra\u00e7avam. Queimaram bandeiras do Brasil e maldisseram o Hino Nacional em plena Ditadura Militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem era esse cara, capaz de mobilizar gremistas e colorados ao mesmo tempo? Quem era esse cara que virou estrela cedo demais? Para Jairzinho, o Furac\u00e3o da Copa de 70, n\u00e3o era apenas o companheiro Everaldo. \u201cEra um dos melhores laterais da hist\u00f3ria do futebol brasileiro e mundial.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8908 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1321\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-300x194.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-1024x661.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-768x495.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-1536x991.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-2-3-2048x1321.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo Marques da Silva nasceu em 11 de setembro de 1944, no bairro da Gl\u00f3ria, em Porto Alegre. Era filho do seu Osvaldo e da dona Florinda que, desde cedo, entenderam que o futebol seria parte da vida do guri. Devia ter cerca de dez anos quando come\u00e7ou a jogar pelo Marab\u00e1 entre companheiros bem mais velhos. Em 1970, um desses parceiros deu uma entrevista ao rep\u00f3rter Lupi Martins, da R\u00e1dio Gua\u00edba. \u201cEra um dos melhores de todos\u201d, disse o \u201cboleiro\u201d an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h4 style=\"text-align: left;\">\u201cO seu Hermog\u00eaneo, nosso t\u00e9cnico, dizia assim: esse rapaz, no futuro, talvez seja um grande craque.&#8221;<\/h4>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo foi para as categorias de base do Gr\u00eamio em 1957, quando tinha de 12 para 13 anos. O tricolor ga\u00facho foi a \u00fanica casa do jogador, exceto por um breve per\u00edodo em que foi emprestado ao Juventude, em 64. Mas se n\u00e3o houve varia\u00e7\u00e3o de clube, sobrou mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o. Ele come\u00e7ou na zaga do Marab\u00e1, chegou como centro-m\u00e9dio no Gr\u00eamio, foi experimentado como centroavante no time de Caxias do Sul, at\u00e9 que, mesmo destro, foi parar na lateral-esquerda quando voltou ao tricolor. Segundo o jornalista Batista Filho, foi obra do t\u00e9cnico Darci Schmidt. \u201cFoi ele quem viu que o Everaldo teria que ser lateral-esquerdo, pela forma de condu\u00e7\u00e3o da bola e do espa\u00e7o que dava para fazer essa troca de posi\u00e7\u00e3o que n\u00f3s vamos chamar de transi\u00e7\u00e3o.\u201d E ainda h\u00e1 um detalhe: nas primeiras convoca\u00e7\u00f5es para a Sele\u00e7\u00e3o, ele vai como lateral-direito. O goleiro Jair Eraldo dos Santos, companheiro de Gr\u00eamio e amigo de Everaldo, lembra que, al\u00e9m do tempo de bola excelente, o lateral chutava tanto com a esquerda quanto a direita. \u201cEnt\u00e3o \u00e9 por isso que ele chegou na sele\u00e7\u00e3o nessa posi\u00e7\u00e3o\u201d, recorda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira convoca\u00e7\u00e3o foi em 1967. De alguma forma, ele furava a bolha de Rio e S\u00e3o Paulo e se firmava na lateral com bastante t\u00e9cnica e poucas faltas, qualidades que eram frutos de talento e personalidade mas tamb\u00e9m de muita dedica\u00e7\u00e3o. O Lu\u00eds Fernando, sobrinho do jogador, conta que ele tinha uma jogada que era marca registrada: o bote. &#8220;Ao final de cada treino, ele colocava uma camiseta bem junto \u00e0 lateral do campo e depois vinha correndo e dava um carrinho. A camiseta era lan\u00e7ada longe e o principal era n\u00e3o levantar a grama do ch\u00e3o. A camiseta tinha que se deslocar no ar, sair da posi\u00e7\u00e3o inicial, mas n\u00e3o podia levantar a grama. Era para desarmar e roubas a bola sem machucar os advers\u00e1rios&#8221;, conta o sobrinho.\u00a0Ele treinava \u00e0 exaust\u00e3o. E funcionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo tornou-se uma pe\u00e7a importante no tricolor. O lateral Zeca Rodrigues, campe\u00e3o brasileiro com o Palmeiras, s\u00f3 conseguiu ume brecha no time titular do Gr\u00eamio quando o companheiro decidiu se casar. Everaldo e Cleci se casaram em 27 de dezembro de 1967. Juntos, eles tiveram duas filhas: Denise, que nasceu em 1968, e Deise, tr\u00eas anos mais nova. Zeca aproveitou a lua-de-mel e jogou toda a primeira fase de 68, em que o Gr\u00eamio seria heptacampe\u00e3o ga\u00facho. Mas faltou sorte. \u201cNo \u00faltimo jogo do turno eu amanheci com um torcicolo. A\u00ed ele entrou de novo.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8909 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1134\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3.jpg 1134w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-3-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1134px) 100vw, 1134px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de 1970, n\u00e3o se sabia qual seria o time titular da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira na Copa do M\u00e9xico. Pra se ter uma ideia, acreditava-se que M\u00e1rio Jorge Lobo Zagallo apostaria numa linha de ataque com Rog\u00e9rio, G\u00e9rson, Jairzinho, Roberto e Paulo Cesar &#8211; s\u00f3 dois desses acabaram sendo titulares. Rog\u00e9rio, por exemplo, era ponta-direita do Botafogo na \u00e9poca, mas hoje s\u00f3 lembra dele quem acompanha futebol h\u00e1 muito tempo. \u00c9 um bom exemplo do tamanho da d\u00favida sobre os titulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o incerta que houve um momento em que o zagueiro Brito gritou para os rep\u00f3rteres da varanda da concentra\u00e7\u00e3o, perguntando se tinham um exemplar do Jornal do Brasil. \u201cServe outro?\u201d, responderam. \u201cN\u00e3o, tem que ser o Jornal do Brasil para poder procurar emprego na parte dos classificados.\u201d Com Everaldo, a d\u00favida era ainda maior. Apesar de convocado in\u00fameras vezes, ele n\u00e3o era o titular de Zagallo e disputava a vaga com Marco Ant\u00f4nio, que tinha apenas 19 anos e era o mais jovem do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca, a revista Placar fez uma enquete para conhecer os queridinhos da torcida e o lateral-esquerdo do Fluminense conquistou o maior apoio popular. Nada menos que 87% escalaram Marco Ant\u00f4nio como titular. N\u00e3o era pouca coisa. Para se ter uma ideia, Pel\u00e9 tinha o apoio de 73% dos entrevistados. Tamb\u00e9m por isso, a escala\u00e7\u00e3o para a estreia da Copa do Mundo foi uma surpresa: F\u00e9lix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gerson e Pel\u00e9; Jairzinho, Tost\u00e3o e Rivelino. Marco Ant\u00f4nio estava fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos jornais da \u00e9poca, a justificativa oficial era de que Marco Ant\u00f4nio estava lesionado. Mas isso nunca foi muito bem explicado e a vers\u00e3o que ficou foi a de que o jogador \u201cn\u00e3o aguentou o tranco\u201d. Ou, se algu\u00e9m preferir o trocadilho, \u201camarelou\u201d. \u00c9 a explica\u00e7\u00e3o de que o jornalista M\u00e1rio Marcos de Souza se recorda. \u201cO Zagalo me falou numa cobertura de Sele\u00e7\u00e3o Brasileira e deve ter falado para v\u00e1rios profissionais. \u201cJogador meu que chega na v\u00e9spera de uma decis\u00e3o e vem com hist\u00f3ria de dorzinha, est\u00e1 fora do time.\u201d E foi o que o Marco Ant\u00f4nio fez.\u201d Everaldo seria o lateral-esquerdo titular em 3 de junho de 1970 contra a Tchecoslov\u00e1quia, na estreia do Brasil no M\u00e9xico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 eram tr\u00eas anos de convoca\u00e7\u00f5es, mas ser titular em uma Copa do Mundo era algo novo para Everaldo. E imenso. Segundo nos conta Denise Helena da Silva, filha do jogador, era tamb\u00e9m um sonho antigo. <strong>\u201c<\/strong>Naquela \u00e9poca, ser jogador de futebol era o sonho de todo guri de vila. Minha av\u00f3 dizia que quando tinha jogo da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, ele enchia a casa de bandeirinhas e dizia: um dia eu vou estar l\u00e1.\u201d \u201cO que eu posso querer mais?\u201d Era isso que ele dizia nas p\u00e1ginas da Placar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil venceu a Tchecoslov\u00e1quia por 4 a 1. No dia seguinte, o jornal O Estado de S\u00e3o Paulo indicava que, dos quatro defensores, apenas Everaldo n\u00e3o havia recebido cita\u00e7\u00e3o negativa com rela\u00e7\u00e3o ao jogo de estreia da Copa de 70. Em seguida, o jogador foi apelidado de o \u201cGauch\u00e3o da Copa\u201d pelo narrador Geraldo Jos\u00e9 De Almeida. \u201cO Everaldo, ele deu aquilo que a sele\u00e7\u00e3o precisava, que era marcar melhor pelo lado esquerdo, j\u00e1 que o Marco Ant\u00f4nio n\u00e3o marcava muito. E o Everaldo sabia das suas limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o era um grande apoiador, ent\u00e3o ele pegava a bola e dava pra quem sabia\u201d, lembra o jornalista Jo\u00e3o Carlos Belmonte. A lateral-esquerda era dele. Ele s\u00f3 ficou fora de um jogo por les\u00e3o e voltou para enfrentar o Uruguai pelas semifinais e, \u00e9 claro, vencer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil jogou a final contra a It\u00e1lia e venceu por 4 a 1. Uma partida que coroou a melhor sele\u00e7\u00e3o de todos os tempos e que at\u00e9 hoje serve de inspira\u00e7\u00e3o para o futebol moderno. O t\u00e9cnico Zagallo montou um time perfeito e improv\u00e1vel ao mesmo tempo, pois reunia, nas mais variadas posi\u00e7\u00f5es, jogadores que tinham praticamente a mesmo fun\u00e7\u00e3o: Gerson, Tost\u00e3o, Pel\u00e9, Jairzinho e Rivelino vestiam a camisa 10 nos respectivos clubes. E essa final, especificamente, tinha algo especial: era a reuni\u00e3o dois bicampe\u00f5es \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 que teriam a honra e o privil\u00e9gio de lutar pelo tricampeonato que renderia a posse da Ta\u00e7a Jules Rimet em definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h4 style=\"text-align: left;\"><strong>\u201c\u00d4 Everaldo, no momento que voc\u00ea sentiu realmente no M\u00e9xico que voc\u00ea seria campe\u00e3o do mundo, qual foi o jogo?&#8221; <\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: left;\"><strong>&#8220;Foi o primeiro jogo\u201d <\/strong><\/h4>\n<h6 style=\"text-align: left;\"><strong>R\u00e1dio Gua\u00edba, 26 de junho de 1970<\/strong><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8910 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1706\" height=\"1075\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4.jpg 1706w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4-768x484.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4-300x189.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4-1024x645.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-4-1536x968.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1706px) 100vw, 1706px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os her\u00f3is do tri foram enaltecidos com todas as gl\u00f3rias merecidas. E Everaldo, que 52 anos depois nem sempre \u00e9 lembrado quando se tem no time os brilhantes p\u00e9s de Pel\u00e9, Tost\u00e3o, Jairzinho, Rivelino, G\u00e9rson, Clodoaldo, figurava como eleito entre os melhores da competi\u00e7\u00e3o. Ele, que chegou de mansinho como reserva de Marco Ant\u00f4nio e conquistou a titularidade, segundo Denise, com uma ajudinha especial.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u201c<\/strong>O Pel\u00e9 tinha um carinho muito grande por meu pai. Eu sei que foi por uma m\u00e3ozinha dele que o meu pai se tornou titular da sele\u00e7\u00e3o brasileira. E teve uma vez que ele veio a Porto Alegre e queria muito comer um carreteiro. Ele ligou pro meu pai e disse: \u201cEveraldo, estou chegando em Porto Alegre e eu vou jantar na tua casa. E tem que ser uma comida ga\u00facha.\u201d Ent\u00e3o minha tia fez um carreteiro de charque pra ela. N\u00e3o era uma amizade assim, de estar um na casa do outro. Mas ele tirou um dia pra isso. E Pel\u00e9 \u00e9 Pel\u00e9 n\u00e9? Receber uma liga\u00e7\u00e3o do Pel\u00e9 \u00e9 maravilhoso, receber o Pel\u00e9 em casa n\u00e3o \u00e9 pra qualquer um\u201d, lembra a filha.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com ou sem carreteiro, com ou sem a ajuda de Pel\u00e9, o que fica \u00e9 o que se viu em campo. Ele foi o titular da lateral-esquerda na Copa de 70 pela qualidade do futebol que tinha. \u201cEu quero te dizer que o Everaldo, pra mim, foi um dos melhores laterais da hist\u00f3ria do futebol brasileiro e mundial. E como homem um exemplo de personalidade e um exemplo de participa\u00e7\u00e3o coletiva\u201d, lembra Jairzinho, o Furac\u00e3o da Copa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sonho de Everaldo estava realizado. Do guri que pendurava bandeirinhas da sele\u00e7\u00e3o na Gl\u00f3ria, em Porto Alegre, ele vestiu a amarelinha e trouxe a Copa do Mundo pra o Brasil fazendo parte da melhor sele\u00e7\u00e3o de todos os tempos. Como ele disse \u00e0 R\u00e1dio Gua\u00edba na volta do M\u00e9xico, uma vida boa o esperava. \u201c\u00c9, talvez com a Copa do Mundo eu consiga a minha independ\u00eancia financeira, mas acho que vai me dar a vida mais regular at\u00e9 a minha morte. Eu acho que at\u00e9 a minha morte, tem bastante tempo.\u201d N\u00e3o tinha.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8911 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5.jpg\" alt=\"\" width=\"1134\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5.jpg 1134w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-5-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1134px) 100vw, 1134px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, Cl\u00e1udio Duarte era o lateral-direto do Internacional. Naquela noite, o time havia jogado no interior contra o Inter de Santa Maria e voltava de \u00f4nibus para a capital ga\u00facha. Claudi\u00e3o n\u00e3o conseguia dormir em movimento, at\u00e9 hoje n\u00e3o consegue, segundo ele, ent\u00e3o viajava no banco da frente, com o motorista. \u201cEu lembro que a gente vinha retornando pela BR-290 e havia aquele tumulto todo ali naquela reta e que era um acidente. N\u00e3o nos deixaram parar. O \u00f4nibus passou devagarzinho e a gente, da janela, perguntou: \u201co que houve?\u201d \u201cAcidente com jogador do Gr\u00eamio.\u201d<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Era o Everaldo<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">O corpo estendido no ch\u00e3o na noite de outubro de 1974 era o do Gauch\u00e3o da Copa, um dos her\u00f3is do Tri<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lasier Martins, que \u00e0 \u00e9poca era rep\u00f3rter da Caldas J\u00fanior, estava nesse mesmo jogo e passou por essa mesma rodovia, nessa mesma noite. <strong>\u201c<\/strong>N\u00f3s est\u00e1vamos vindo de Santa Maria, nove e meia da noite, quando de longe n\u00f3s avistamos um aglomerado de gente sobre a pista. E a\u00ed o motorista reduziu a velocidade da caminhonete e quando nos aproximamos o Lupi [Martins, irm\u00e3o de Lasier e tamb\u00e9m rep\u00f3rter da Gua\u00edba] gritou: \u00e9 o carro do Everaldo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1970, quando o Brasil foi campe\u00e3o do Mundo, Everaldo ganhou um carro de presente de uma concession\u00e1ria de Porto Alegre. Nos arquivos da R\u00e1dio Gua\u00edba, est\u00e1 registrado o momento em que o rep\u00f3rter Jo\u00e3o Carlos Belmonte pergunta sobre a cor ideal do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Olha, eu n\u00e3o sei bem, tem duas cores, \u00e9 a cor azul, porque eu gosto, e tamb\u00e9m tem essa cor, esse amarelinho ouro, mas vamos ver, talvez quando eu chegar l\u00e1 eu escolha uma cor que gosto mais, mas vamos ver.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Nossos cumprimentos Everaldo, muito obrigado. E como eu disse foi uma alegria poder estabelecer esse contato voc\u00ea e seus familiares e sobretudo lhe dar essa not\u00edcia de que \u00e9 propriet\u00e1rio de um flamante Dodge Dart zero quil\u00f4metro.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carro com que ele bateu em um caminh\u00e3o carregado de arroz tamb\u00e9m era um Dodge, mas n\u00e3o era o que ele ganhou, como todo mundo sempre pensou. O Dodge Dart que ele ganhou tinha as cores do tricolor ga\u00facho. A lataria era de um azul met\u00e1lico, tinha a capota preta e era branco por dentro. Mas dois anos depois ele compraria outro Dodge. Agora sim, na cor \u201camarelinho ouro\u201d que ele cita na entrevista. Foi com esse carro que ele viajou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo era candidato a deputado estadual pela Arena com o n\u00famero 1246 e aproveitou um jogo de veteranos do Gr\u00eamio em Cachoeira do Sul para fazer campanha naquela noite. Loivo Johann, que tamb\u00e9m era jogador do Gr\u00eamio, acompanhou o amigo naquela viagem. <strong>\u201c<\/strong>Fomos juntos e na volta toda a delega\u00e7\u00e3o parou em Pantano Grande.\u00a0 E da\u00ed jantamos e fomos embora. Eu parei pra abastecer no posto logo adiante e ele encostou do meu lado. Ele me chamava de alem\u00e3o. \u201c\u00d4 Alem\u00e3o, eu vou tocando a\u00ed.\u201d \u201cVai que eu j\u00e1 vou tamb\u00e9m, s\u00f3 vou abastecer e j\u00e1 vou.\u201d Depois que eu sa\u00ed, uns 30km depois daquele posto, eu vi o carro atravessado da faixa.\u201d Loivo foi o segundo a chegar no local e a imagem marca a mem\u00f3ria ainda hoje, quase 50 anos depois. \u201cEu perdi um grande amigo. Foi um acidente muito feio, ele entrou embaixo do caminh\u00e3o carregado. Eu cheguei e fui tentar falar com ele, ele ainda estava vivo, mas a esposa e a filha mais nova j\u00e1 tinham falecido. Eu trouxe a Denise, que se salvou. Ela veio comigo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Loivo levou a Denise, que \u00e0 \u00e9poca tinha seis anos, para o Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. Ela lembra de quase tudo. \u201cN\u00f3s fomos pra um jogo de futebol e meu pai sempre levava algu\u00e9m da fam\u00edlia. Ent\u00e3o ele levou a minha tia, a irm\u00e3 dele; mais a minha outra tia, irm\u00e3 da minha m\u00e3e; a minha m\u00e3e,\u00a0 minha irm\u00e3 e o meu tio Jardelino, que era um tio l\u00e1 de Alegrete que morava aqui em Porto Alegre, primo da minha av\u00f3. E n\u00f3s fomos pra um campo onde tinha um est\u00e1dio de futebol com uma arquibancada toda pintada de branco. Ent\u00e3o eu e a minha irm\u00e3 brincamos um monte naquela arquibancada. E depois eu lembro da volta, um posto de gasolina onde n\u00f3s paramos, ele conversou com o Loivo, v\u00e1rios carros pararam para abastecer. E depois eu adormeci no banco de tr\u00e1s, no colo da minha tia. A\u00ed eu n\u00e3o lembro de mais nada.\u201d\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, hoje, \u00e9 titular do departamento de Hist\u00f3ria da UFRGS. Mas antes de ser historiador, ele exerceu a medicina por 13 anos. E estava de plant\u00e3o no HPS naquela noite.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u201c<\/strong>Era impressionante, porque ele parecia muito musculoso, muito forte, porque ele estava com uma hemorragia interna muito grande. Eu j\u00e1 nem lembro quais as les\u00f5es que ele teve, mas eram m\u00faltiplas les\u00f5es. Ele morreu logo depois de chegar. Foi uma coisa realmente muito chocante, porque quando a pessoa deixa ser um n\u00famero e passa a ter um nome, \u00e9 outra coisa. N\u00e3o \u00e9 um \u201cpoli-traumatizado\u201d, o nome dele \u00e9 Everaldo Marques da Silva.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O companheiro At\u00edlio Ancheta, que \u00e0 \u00e9poca tamb\u00e9m jogava no Gr\u00eamio, esperava Everaldo para uma celebra\u00e7\u00e3o em casa e ficou surpreso quando o telefone tocou e chegou a not\u00edcia do acidente, porque o amigo era cuidadoso na estrada. \u201cEle tinha o Dodge e eu tinha um Alpha Romeo. E sa\u00edamos a passear com as duas fam\u00edlias e ele nunca andou r\u00e1pido. Porque eu me lembro muitas vezes de que n\u00f3s viaj\u00e1mos e eu andava a 80 ou 100 km\/h e ele ficava para tr\u00e1s. Eu freava num lugar, tomava um refrigerante e ele aparecia quinze minutos depois.\u201d Depois de uma hora, um novo telefone com o aviso de que Everaldo tinha falecido. Nessa hora, o amigo j\u00e1 n\u00e3o consegue continuar. Ancheta precisou interromper a entrevista por alguns minutos neste ponto, os olhos se encheram de l\u00e1grimas e a voz n\u00e3o sa\u00eda. \u00c9 como se ele tivesse sido transportado para o enredo do bolero mais triste que j\u00e1 cantou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Everaldo Marques da Silva faleceu em 27 de outubro de 1974, aos 30 anos de idade<\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela noite, tamb\u00e9m morreram a esposa, Cleci; a filha ca\u00e7ula, Deise; e sua irm\u00e3, Romilda. A morte de Everaldo foi uma trag\u00e9dia daquelas que tem poder de anestesiar uma multid\u00e3o. A fam\u00edlia despeda\u00e7ou-se. E com ela, o estado inteiro. No Gr\u00eamio, o trauma foi coletivo. O Lu\u00eds Fernando, sobrinho do jogador, era crian\u00e7a. Mas jamais esqueceu daquela madrugada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez hoje as pessoas n\u00e3o tenham dimens\u00e3o do tamanho de Everaldo, embora devessem.\u00a0\u201cO Everaldo pegou um nome que acho que nenhum jogador ga\u00facho depois alcan\u00e7ou na mesma propor\u00e7\u00e3o. Lamentavelmente, morreu ali o Everaldo, mas ficou o nome. Ficou o nome, ficou a fam\u00edlia e ficou a estrela\u201d, ressalta o jornalista Lasier Martins. O Everaldo \u00e9 aquela estrela dourada na bandeira no Gr\u00eamio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8912 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1373\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-768x515.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-1536x1029.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-300x201.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-1024x686.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-2048x1373.jpg 2048w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-270x180.jpg 270w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-770x515.jpg 770w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-370x247.jpg 370w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-6-110x73.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia foi do ent\u00e3o vice-presidente do Gr\u00eamio, S\u00e9rgio Ilha Moreira. \u201cUm belo dia, em 1970, o Fl\u00e1vio Obino, nosso querido presidente, e eu convers\u00e1vamos sobre esse feito de um jogador do Gr\u00eamio ter entrado na hist\u00f3ria do futebol brasileiro e como o clube se inseria nesse contexto. E me veio \u00e0 mente a coloca\u00e7\u00e3o de uma estrela dourada na bandeira do Gr\u00eamio. A hist\u00f3ria pode ser esquecida por algum tempo, mas jamais ser\u00e1 apagada. E a estrela ali na bandeira do Gr\u00eamio \u00e9 isso. Cada vez que eu passo pela Arena ou vejo uma bandeira do Gr\u00eamio tremulando, eu me lembro do Everaldo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ser\u00e1 que \u00e9 o caso quando se pensa nas novas gera\u00e7\u00f5es? Ser\u00e1 que todo gremista conhece Everaldo? Ser\u00e1 que todo mundo sabe quem \u00e9 aquela estrela? Ser\u00e1 que todo mundo sabe que ele fez parte daquela sele\u00e7\u00e3o que encantou o mundo e foi escolhido como um dos melhores por jornalistas brasileiros e estrangeiros? \u201cSe fizerem uma enquete do significado da estrela da bandeira do Gr\u00eamio, muita gente n\u00e3o vai saber essa resposta e eu acho que isso faz parte desse apagamento de quem contou essa hist\u00f3ria, de quem est\u00e1 contando essa hist\u00f3ria.\u201d Quem diz isso \u00e9 o Marcelo Carvalho, coordenador do Observat\u00f3rio Contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol. \u201cQuem est\u00e1 simbolizando pra torcida qual \u00e9 o s\u00edmbolo daquela estrela. E eu acho que isso faz parte desse apagamento. A gente n\u00e3o conta essas hist\u00f3rias, a gente deixa elas serem ditas pelo povo. E a\u00ed o povo vai trazer as suas vers\u00f5es. E eu acho que essa hist\u00f3ria do racismo tem muito isso. De a gente esquecer os grandes \u00eddolos que o futebol brasileiro j\u00e1 teve que eram negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o apagamento do Everaldo come\u00e7ou em vida. No dia seguinte ao enterro do jogador, enquanto jornais ga\u00fachos como Zero Hora e Correio do Povo exaltavam os feitos da estrela, no centro do pa\u00eds, a despedida era melanc\u00f3lica. \u201cA morte de Everaldo, o tricampe\u00e3o infeliz\u201d, esse \u00e9 o t\u00edtulo da reportagem com a not\u00edcia triste do jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8914 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-7.jpg\" alt=\"\" width=\"782\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-7.jpg 782w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-7-768x403.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-7-300x157.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cN\u00e3o tivesse sido tricampe\u00e3o mundial, Everaldo seria sempre marcado pelo azar. Menino pobre nascido no dia 11 de setembro de 1944, tornou-se titular do Gr\u00eamio justamente quando, depois de 13 anos de dom\u00ednio no futebol ga\u00facho, o time entrava em decad\u00eancia. Foi tamb\u00e9m o mais pobre dos tricampe\u00f5es, o que jamais conseguiu aplicar bem o dinheiro trazido pela r\u00e1pida fama: descontrolado por problemas financeiros, perdeu primeiro a posi\u00e7\u00e3o na sele\u00e7\u00e3o, em 72, depois agrediu um juiz e tornou-se reserva no seu pr\u00f3prio time.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse epis\u00f3dio a que a reportagem se refere talvez seja a \u00fanica mancha no curr\u00edculo de Everaldo. Muito embora, para torcedores devotos como o escritor Eduardo Bueno, tenha sido um ponto alto. <strong>\u201c<\/strong>O que eu mais gosto do Everaldo \u00e9 quando ele resolveu fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os com o juiz Jos\u00e9 Faville Neto. O Gr\u00eamio era tradicionalmente roubado pelas arbitragens do centro do pa\u00eds e por algumas locais tamb\u00e9m. Eu estava presente naquele jogo contra o Cruzeiro e o tal Jos\u00e9 deu um p\u00eanalti que n\u00e3o foi. A\u00ed o Everaldo recebeu um Will Smith. N\u00e3o sei se essa lembran\u00e7a vai ser fugaz ou n\u00e3o, mas o Will Smith \u00e9 o ator que fez justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os no Oscar. O Everaldo tamb\u00e9m\u201d, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do entusiasmo do Peninha, como disse o jornalista Michel Laurence em uma cr\u00f4nica, os personagens n\u00e3o combinavam com o enredo. Um \u00e1rbitro honesto e um jogador discreto. Foi uma surpresa, especialmente para um jogador que receberia o Pr\u00eamio Belfor Duarte naquele ano, por <em>fair play<\/em>. Mas ele foi suspenso do futebol por um ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m sabe exatamente o que houve para que Everaldo agredisse o \u00e1rbitro fisicamente, mas a mat\u00e9ria do Estad\u00e3o indica que o descontrole aconteceu porque ele enfrentava problemas financeiros. Como todos os tricampe\u00f5es, Everaldo ganhara uma ag\u00eancia lot\u00e9rica da Caixa Econ\u00f4mica Federal, mas essa loja teve a licen\u00e7a cassada por irregularidades cometidas por dois funcion\u00e1rios. E a est\u00e2ncia que ele tinha em Viam\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o rendia o esperado. E assim listava os infort\u00fanios do jogador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando desembarcou em Porto Alegre voltando do M\u00e9xico, em 70, Everaldo deixou o testamento de como queria ser lembrado. <strong>\u201c<\/strong>Eu espero que os torcedores do Rio Grande do Sul e a cr\u00f4nica, em primeiro lugar, me vejam como me viam antes, para que eu seja aquele que era antes.\u201d Que assim seja.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8915 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8.jpg\" alt=\"\" width=\"1134\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8.jpg 1134w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-8-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1134px) 100vw, 1134px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chegada do Everaldo depois da Copa do M\u00e9xico, em 26 de junho 1970 foi uma consagra\u00e7\u00e3o. Depois de ir \u00e0 Bras\u00edlia, onde a Sele\u00e7\u00e3o foi recepcionada com toda a pompa e circunst\u00e2ncia, ele foi esperado por milhares de pessoas em Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cUma multid\u00e3o enorme se faz presente e a parte fronteira de Salgado Filho aqui na parte milhares de pessoas com bandeiras do Brasil, do Gr\u00eamio, at\u00e9 mesmo do Internacional, est\u00e3o presentes aqui para recepcionar o craque tricampe\u00e3o do mundo, o Everaldo. Agora l\u00e1 o Everaldo Marques da Silva, erguendo uma r\u00e9plica da ta\u00e7a.\u201d <\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>R\u00e1dio Gua\u00edba<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa imagem eternizada no som da transmiss\u00e3o da R\u00e1dio Gua\u00edba tamb\u00e9m est\u00e1 nas p\u00e1ginas de todos os jornais do RS. Everaldo vestia um conjunto de cal\u00e7a e jaqueta de couro, ou melhor, de camur\u00e7a, em tom de caramelo. A jaqueta tinha franjas ao melhor estilo Buffalo Bill, como disse Divino Fonseca na Placar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de sair do Aeroporto Salgado Filho, Everaldo foi sentado em um trono armado sobre um caminh\u00e3o. E acomodado como um rei, n\u00e3o estava sozinho. De um lado, a esposa, de outro, a m\u00e3e. No colo, a pequena Denise. O cortejo saiu do aeroporto Salgado Filho com destino ao Pal\u00e1cio Piratini, onde Everaldo seria recepcionado pelo Governador do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma escola de samba cadenciava a festa das 100 mil pessoas que sa\u00edram \u00e0s ruas para receber o \u00eddolo. \u201cUm ga\u00facho que aguentou o repuxo\u201d, como estava escrito em v\u00e1rias das faixas espalhadas pela cidade. \u201cFoi uma loucura e ali a festa eram colorados e gremistas.\u201d\u00a0\u00a0Essa lembran\u00e7a do M\u00e1rio Marcos \u00e9 importante, porque mostra que unir gremistas e colorados era uma constante pra o Everaldo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, a ova\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos com rela\u00e7\u00e3o a Everaldo parecia daquelas coisas que n\u00e3o se repetem. Mas voltou a acontecer. E assim voltamos ao come\u00e7o da nossa hist\u00f3ria, a 15 de maio de 1972.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8916 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-9.jpg\" alt=\"\" width=\"695\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-9.jpg 695w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-9-300x145.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 695px) 100vw, 695px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Everaldo estava fora. O t\u00e9cnico da Sele\u00e7\u00e3o em 72 era M\u00e1rio Jorge Lobo Zagallo e cabia a ele escolher o time que disputaria a Ta\u00e7a da Independ\u00eancia, o nome oficial da Mini-Copa. E ele n\u00e3o s\u00f3 cortou o Gauch\u00e3o da Copa como ignorou o colorado Claudiomiro, frustrando as duas torcidas. No dia 16, os jornais j\u00e1 estampavam: \u201cGa\u00fachos declaram guerra \u00e0 sele\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O torneio era ideia do general Emilio Garrastazu M\u00e9dici, o ditador do momento, e a sugest\u00e3o foi prontamente acatada por Jo\u00e3o Havelange, ent\u00e3o presidente da CBD, que era como se chamava a CBF na \u00e9poca. Os dois concordaram que era preciso celebrar os 150 anos da Independ\u00eancia do Brasil. Mas Havelange ainda tinha um segundo motivo: estava de olho na elei\u00e7\u00e3o da FIFA e essa era a oportunidade perfeita para fazer campanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas deixar os ga\u00fachos de fora gerou um clima de revolta que estava nos jornais, nas ondas das r\u00e1dios e invadia a TV. Imprensa, dirigentes de Gr\u00eamio e Inter, jogadores e torcedores faziam, naquele momento, acusa\u00e7\u00f5es severas \u00e0 CBD, afirmando que os diretores da entidade estavam comprometidos com os clubes cariocas. Al\u00e9m disso, come\u00e7aram a ventilar a ideia de que n\u00e3o prestigiariam as semifinais da Mini-Copa, que aconteceriam em Porto Alegre. Dizia-se em alto e bom som que Havelange n\u00e3o ganharia dinheiro nenhum por aqui, nem para pagar a bola. E isso era um problema imenso para o dirigente, porque ele tinha sa\u00eddo por a\u00ed, mundo afora, oferecendo rios de dinheiro pra trazer sele\u00e7\u00f5es pra o Brasil e votos a sua elei\u00e7\u00e3o na FIFA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 registros em jornais de S\u00e3o Paulo que a gauchada estava t\u00e3o incomodada que arriscava amea\u00e7ar Havelange, dizendo que era melhor ele n\u00e3o aparecer por estas bandas. O jornalista Lauro Quadros deixou a intimida\u00e7\u00e3o registrada na Folha da Manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> \u201cOlha gente: a convoca\u00e7\u00e3o do Zagalo, 24 horas depois daquele banho que demos nos uruguaios, \u00e9 uma vergonheira. Um monte de cariocas, um pouco de paulistas, v\u00e1rios mineiros e nenhum ga\u00facho. Com toda a for\u00e7a do nosso futebol, comprovada reiteradamente, \u00e9 dose! Querem uma prova da sujeira? Everaldo foi o \u00fanico tricampe\u00e3o desconvocado. Por Rodrigues Neto, do Flamengo de Zagalo. Para o RS, uma punhalada, tal como o esquecimento de Claudiomiro. Agora sei porque o Zagalo n\u00e3o veio ao Beira-<\/em><em>R<\/em><em>io domingo. Ali\u00e1s, depois dessa, nem precisa vir mais.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos jogos da Mini Copa previstos pra o Beira-Rio, tinha jogo-treino da Sele\u00e7\u00e3o marcado para acontecer em Porto Alegre no dia 17 de junho. O colunista Ant\u00f4nio Carlos Porto, da Folha da Manh\u00e3, dizia que Havelange j\u00e1 podia alterar os planos.\u00a0O presidente da Federa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Futebol, Rubens Hoffmeister, tamb\u00e9m n\u00e3o media palavras. Disse que, com a n\u00e3o-convoca\u00e7\u00e3o de Everaldo, \u201ccortaram a \u00fanica ponta que mantinha o estado ligado ao esporte nacional.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, Everaldo, que seguia discreto, afirmando que recebia aquela <em>desconvoca\u00e7\u00e3o <\/em>com a mesma simplicidade com que recebeu a primeira convoca\u00e7\u00e3o, em 67. O lateral-esquerdo do Gr\u00eamio era um homem inteligente. Disse ao jornal Estado de S\u00e3o Paulo que se os convocados tivessem a mesma sorte que ele teve, ele nunca mais seria chamado.\u201d Ou seja, a encrenca tinha tudo para esfriar, s\u00f3 precisava de tempo, mas Havelange cometeu um erro fatal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 17 de maio, durante visita \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio de S\u00e3o Paulo, Havelange disse que os ga\u00fachos n\u00e3o tinham sentimento de brasilidade. Pode at\u00e9 parecer l\u00f3gico para quem pensa numa Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha da vida, mas os ga\u00fachos n\u00e3o aceitaram, especialmente em um momento de exalta\u00e7\u00e3o nacionalista do regime militar. \u201cHouve uma como\u00e7\u00e3o nacional, eu me lembro claramente, e a m\u00eddia ga\u00facha insuflou isso\u201d, lembra o escritor Eduardo Bueno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase de Havelange foi como sal nas feridas dos ga\u00fachos, que sempre se sentiram rejeitados. Era um desacato. Afinal, apesar da pecha separatista, o Rio Grande do Sul queria que Jo\u00e3o Havelange soubesse que o Brasil vai at\u00e9 o Chu\u00ed. Inclusive a autoridade m\u00e1xima do estado. No dia seguinte \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Havelange, o governador Euclides Triches enviou um telegrama ao presidente da CDB pedindo explica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cPe\u00e7o ao ilustre presidente a gentileza de informar o exato teor das declara\u00e7\u00f5es prestadas na sede da Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio de S\u00e3o Paulo, aqui divulgadas, atribuindo a torcedores ga\u00fachos a falta de sentimento de brasilidade. Sauda\u00e7\u00f5es, Euclides Triches.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os deputados estaduais tamb\u00e9m n\u00e3o pouparam cr\u00edticas \u00e0 CBD e os parlamentares de Arena e MDB, talvez em uma uni\u00e3o ainda mais estranha que de gremistas e colorados naqueles tempos, aprovaram o texto de outro telegrama por unanimidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cOs deputados ga\u00fachos com assento nesta Casa (a Assembleia Legislativa), por unanimidade, deploram sua manifesta\u00e7\u00e3o perante empres\u00e1rios paulistas. At\u00e9 a presente data, ningu\u00e9m precisou ensinar li\u00e7\u00f5es de patriotismo e brasilidade ao povo ga\u00facho, que tem sido mestre nesse setor. Fica convidado a vir at\u00e9 o rio Grande do Sul, a fim de aprender, ao longo de nossa hist\u00f3ria, os exemplos mais vivos e dignificantes de como se constitui com lutas e sacrif\u00edcios, as p\u00e1ginas da hist\u00f3ria brasileira.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O prefeito que hoje \u00e9 nome de viaduto, o arenista Thompson Flores, lamentava o ocorrido. O vereador que hoje \u00e9 nome de Largo, o emedebista Gl\u00eanio Peres, era taxativo:\u00a0\u201cHavelange demonstra n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es para nem mesmo dirigir uma liga esportiva do interior.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final da tarde no dia 18 j\u00e1 se acumulavam dezenas de pronunciamentos, listas e abaixo-assinados com mensagens de protesto. Todas deveriam ser enviadas ao presidente M\u00e9dici. Uma delas, que circulava pela Rua da Praia, no centro da capital, indicava que\u00a0 os signat\u00e1rios manifestavam \u201ca mais viva repulsa face \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o do presidente da CBD\u201d. E foi a partir deste dia que a imprensa ga\u00facha come\u00e7ou a chamar Havelange de Jean Marie \u2013 o nome oficial do dirigente, dando uma letrinha sobre brasilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zagallo errou primeiro, ao n\u00e3o convocar Everaldo para disputar a MiniCopa. Havelange errou depois, ao dizer que os ga\u00fachos n\u00e3o tinham sentimento de brasilidade. Os dois equ\u00edvocos combinados, foram a oportunidade perfeita para um jogo de desagravo: a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira deveria enfrentar uma Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha. E o presidente da FGF, Rubens Hoffmeister, prop\u00f4s o duelo como a \u00fanica maneira de recompensar os sulistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente da CBD arrastou a resposta tanto quanto p\u00f4de, mas finalmente, em 12 de junho de 72, apenas cinco dias antes da data do amistoso agendado para Porto Alegre, \u00e9 que chega a confirma\u00e7\u00e3o de que \u201cos brasileiros\u201d enfrentariam um selecionado ga\u00facho. Para acomodar a agenda, o Hamburgo, advers\u00e1rio no jogo-treino,\u00a0 passaria a enfrentar a equipe Ol\u00edmpica, com os jovens Falc\u00e3o e Abel. Al\u00e9m disso, toda a renda do jogo seria destinada \u00e0s obras sociais da primeira-dama do estado. Assim, os dois jogos serviriam como homenagem ao povo ga\u00facho e assinalariam um ponto final nas diverg\u00eancias entre a CBD e o povo do Rio Grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 13 de junho, a Federa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Futebol publicou um livreto com a convoca\u00e7\u00e3o. Ot\u00e1vio Junior, neto do Everaldo, encontrou um original. O lateral-esquerdo do Gr\u00eamio, discreto nas manifesta\u00e7\u00f5es sobre esse jogo do qual \u00e9 personagem central, guardou esse material com cuidado. Talvez um sinal de que aquele momento foi, sim, muito importante pra ele. Na lista estavam jogadores de Gr\u00eamio e Inter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os convocados se apresentaram no dia 14 para treinar e no dia 15 para a concentra\u00e7\u00e3o. Foram dias em que, pelo menos para os atletas, a rivalidade Grenal quase desapareceu. E os mais jovens estavam maravilhados. \u201cEu lembro que eu e alguns outros jovens, a gente procurava nos treinamentos tentar fazer uma liga\u00e7\u00e3o com o Everaldo. Tentar conversar, porque ele era a estrela, a gente estava quase naquela de pedir \u201cpor favor\u201d pra ficar junto, n\u00e9? Ent\u00e3o foi um exemplo que me foi muito positivo\u201d, lembra Cl\u00e1udio Duarte, que na \u00e9poca tinha 21 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do apoio dos colegas, Everaldo sabia que estava no meio dessa guerra. Por mais que o erro de Havelange tenha sido determinante para o jogo acontecer, tudo come\u00e7ou com a n\u00e3o-convoca\u00e7\u00e3o do jogador. E n\u00e3o deixava de ser um peso, como lembra Br\u00e1ulio Lima, o \u201cMenino de Ouro\u201d do Inter. \u201cEle estava um pouco ansioso, um pouco nervoso. Durante um treino, ele estava sentado e eu sentei na bola perto dele e disse assim: o que \u00e9 pior, jogar esse jogo ou uma decis\u00e3o contra a It\u00e1lia? Ele come\u00e7ou a rir e a descontrair e eu digo: deixa que a gente pega a bronca pra ti. E o Figueroa foi l\u00e1 disse: deixa que n\u00f3s abra\u00e7amos, tu vai l\u00e1 e joga o teu futebol.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8917 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-10.jpg\" alt=\"\" width=\"818\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-10.jpg 818w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-10-768x495.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-10-300x193.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 818px) 100vw, 818px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: initial; font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, Oxygen-Sans, Ubuntu, Cantarell, 'Helvetica Neue', sans-serif; font-size: revert; font-weight: revert;\">Ent\u00e3o, em 17 de junho de 1972, sob os olhares de 100 mil pessoas, os times entraram em campo juntos &#8211; muito como uma estrat\u00e9gia frustrada para inibir a vaia monumental. Os capit\u00e3es empunhavam a mesma bandeira do Brasil. De um lado, Brito, do outro, Everaldo. \u201cE se eu bem lembro, uma coisa que foi notada por todos \u00e9 que quando os times entraram em campo, os jogadores da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira fizeram quest\u00e3o de cumprimentar o Everaldo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vaia foi in\u00e9dita para a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, acostumada a ova\u00e7\u00f5es mesmo de advers\u00e1rios. Mas a torcida, que n\u00e3o estava para diplomacias, n\u00e3o cedeu. O primeiro gol da Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha ocorreu aos tr\u00eas minutos do primeiro tempo, pelos p\u00e9s de Tovar, e o est\u00e1dio Beira-Rio quase veio abaixo. Quando Jairzinho fez o primeiro gol da Canarinho, foi um sil\u00eancio sepulcral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jogo terminou com um quase amargo 3 a 3, que, no fim, foi um placar perfeito para o desagravo, Everaldo saiu gigante, os ga\u00fachos lavaram a alma e os brasileiros, apesar de melindrados, n\u00e3o voltaram para casa humilhados.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVamos l\u00e1, pessoal. Quem \u00e9 o bom na cu\u00edca? Pergunta uma voz n\u00e3o identific\u00e1vel. Torino, gremista todo de vermelho, estava numa rodinha com S\u00e9rgio, Beto, Everaldo e Cl\u00e1udio, batucando nos vesti\u00e1rios do Beira-Rio. Nem pareciam os advers\u00e1r<\/em><em>ios valentes dos <\/em><em>Grenais. At\u00e9 Oberti, argentino fechado, batia no banco, imitando um pandeiro, batucando. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Apar\u00edcio [o treinador da Sele\u00e7\u00e3o Ga\u00facha], olhando de longe, disse: \u00e9 f\u00e1cil comandar um time assim. Veja como eles se entendem.\u201d <\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Zero Hora, maio de 1972<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel presumir que foi a reden\u00e7\u00e3o de Everaldo, embora ele n\u00e3o verbalizasse. Mas \u00e9 conjectura. Ele \u00e9 descrito sempre como um cara discreto, tranquilo, de poucas palavras e que vivia para a fam\u00edlia. Quase 50 anos ap\u00f3s sua morte, a filha Denise lembra de detalhes cheios de carinho. <strong>\u201cE<\/strong>u lembro do meu pai bem em casa mesmo, de chinelo de dedo, bermuda, camiseta e curtindo a m\u00fasica dele na vitrola. Eu lembro da P\u00e1scoa, tamb\u00e9m. Ele gostava muito e a gente tinha que procurar o ovo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem conhecia ele de perto, como o Loivo, o Zeca e o Ancheta, tamb\u00e9m sabia que ele gostava de uma festa. Apesar da discri\u00e7\u00e3o e tranquilidade, ele se soltava quando o assunto era samba. Tanto ele quanto a esposa Cleci, cujo pai foi presidente da escola de samba Bambas da Orgia. Ali\u00e1s, foi na quadra da azul e branco que eles se conheceram. \u201cEle sempre me convidava para os ensaios, para ir l\u00e1 no baile, e eu dizia: \u201cEveraldo, alem\u00e3o n\u00e3o gosta de carnaval.\u201d \u201cMas vamos junto l\u00e1, vamos tomar uma cervejinha\u201d, dizia ele. Ele gostava muito de mim, da\u00ed eu ia com ele pros Bambas l\u00e1 na travessa da Prot\u00e1sio\u201d, conta Loivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8918 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1478\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-scaled.jpg 2560w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-768x554.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-300x216.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-1024x739.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-1536x1108.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-11-2048x1478.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gosto pela m\u00fasica era tanto que ele e o goleiro Jair at\u00e9 se aventuraram pela noite porto-alegrense. <strong>\u201c<\/strong>N\u00f3s tivemos em Porto Alegre um bar chamado emboscada, no centro. Com m\u00fasica ao vivo, muito tira-gosto. E foi muito legal, vivia lotado. Tivemos at\u00e9 Sargentelli\u201d, conta o amigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando acabava a temporada do futebol, o caminho era praia. \u201cA gente era um trio, eu, Espinosa e Everaldo. E quando come\u00e7ava as f\u00e9rias, a gente ia junto para aquela regi\u00e3o das praias, Tramanda\u00ed, Cidreira. E a gente, puxa vida, at\u00e9 inventava algum tipo de roupa. Tinha um alfaiate em Porto Alegre muito famoso que fazia pra n\u00f3s alguns neg\u00f3cios diferentes\u201d, conta Jair, fazendo referencia ao alfaiate Reis, que vestia os jogadores de futebol mais atentos \u00e0s tend\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Everaldo era um deles, segundo a Denise. <strong>\u201c<\/strong>Ele era elegant\u00e9rrimo, ele gostava de se vestir bem, ele gostava de coisas boas.\u201d E gostava de inventar moda, de acordo com os amigos. O Zeca Rodrigues, que tamb\u00e9m \u00e9 padrinho da Denise, conta que as roupas do jogador do Gr\u00eamio eram um espet\u00e1culo \u00e0 parte. <strong>\u201c<\/strong>Eu lembro do casamento do Valdir Espinosa, n\u00f3s fomos padrinhos. Era eu, ele e o Jair. E o Everaldo colocou um terno que era uma coisa inexplic\u00e1vel, parecia essas fazendas para fazer sof\u00e1. Ele foi gozado por todo mundo, foi um motivo de goza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8919 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12.jpg\" alt=\"\" width=\"1134\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12.jpg 1134w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arte-12-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1134px) 100vw, 1134px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201c<\/strong>O meu pai, todo tempo poss\u00edvel que ele tinha pra estar com a gente, ele era pai. Ele tinha tempo de brincar, de nos levar pra passear. Ele me ensinou a gostar de samba, porque \u00e9 o ritmo que eu mais gosto, que me embala, que me faz feliz. Foi ele quem me apresentou, Lupic\u00ednio Rodrigues e Paulo Diniz. Eu lembro bem. Ele gostava de estar em casa com a gente. Eu tomava <strong>\u201c<\/strong>u\u00edsque\u201d com ele. O meu era \u00e1gua com gelo e ele tomava u\u00edsque, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tamb\u00e9m gostava muito de reunir a fam\u00edlia, de fazer churrasco, de estar com os amigos tamb\u00e9m e a gente sempre fez parte disso. Ele sempre levava os amigos pra dentro de casa. Pra mim sempre era festa, todo dia era festa.\u00a0 Ele era uma pessoa que adorava a vida. Ele tinha muito tempo pra ser pai, pra ser marido, pra ser irm\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando pra tr\u00e1s, pensando na mobiliza\u00e7\u00e3o que ele provocou, n\u00e3o \u00e9 estranho. N\u00e3o \u00e9 estranho que algu\u00e9m t\u00e3o amado fosse capaz de unir gremistas e colorados tr\u00eas vezes: quando voltou da Copa, quando n\u00e3o foi convocado para a Mini Copa e quando faleceu.\u00a0 <strong>\u201c<\/strong>Ent\u00e3o eu espero que os torcedores do Rio Grande do Sul e a cr\u00f4nica em primeiro lugar me vejam como me viam antes para que eu seja aquele que era antes\u201d, disse ele em 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">____________________________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Texto: Ge\u00f3rgia Santos<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Entrevistas: Cl\u00e9ber Grabauska e Silvio Benfica<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Produ\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcio Beyer<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":8890,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[376],"tags":[],"class_list":["post-8840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagens-especiais"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8840\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8890"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}