{"id":855,"date":"2017-02-24T11:42:14","date_gmt":"2017-02-24T14:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=855"},"modified":"2017-02-24T12:06:59","modified_gmt":"2017-02-24T15:06:59","slug":"critica-ate-o-ultimo-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=855","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; At\u00e9 o \u00daltimo Homem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Desmond Doss (Andrew Garfield), jovem do interior dos Estados Unidos, das profundezas da tradi\u00e7\u00e3o. Sua f\u00e9 o move indistintamente; na guerra (a Segunda Grande Guerra), decerto cegamente. Um purgat\u00f3rio terreno, real, cruel e violento, tudo isso o jovem assume para si, toma como miss\u00e3o. Crist\u00e3o de ordem adventista (lembremos, apenas de passagem, que os Adventistas do S\u00e9timo Dia, como \u00e9 o caso do protagonista do filme de Mel Gibson, s\u00e3o esperan\u00e7osos pelo <em>advento<\/em> de Cristo, que ent\u00e3o retornaria), portanto protestante de seiva conservadora, Doss vai \u00e0 guerra para salvar, n\u00e3o para matar. Ele n\u00e3o quer ser \u00edmpio. N\u00e3o pega em armas, se recusa desde o treinamento e acaba servindo como m\u00e9dico ap\u00f3s uma guerra interna com o Ex\u00e9rcito do seu pr\u00f3prio pa\u00eds (seus superiores tentaram de tudo para impedir que fosse ao campo de batalha). Vai ao front para prover assist\u00eancia m\u00e9dica, como diz o t\u00edtulo do filme, <em>At\u00e9 o \u00daltimo Homem<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Boa parte do filme se passa nesses momentos que antecedem o combate e o espet\u00e1culo edificante e b\u00e1rbaro do indiv\u00edduo redentor, material que abunda sua metade final. Em geral s\u00e3o ruins e existem, <em>grosso modo<\/em>, para fornecer os motivos que refor\u00e7aram a f\u00e9 de Doss (como se precisasse). Quando jovem, ele feriu gravemente o irm\u00e3o ap\u00f3s uma briga que, incentivada pelo pai, parecia fazer parte da educa\u00e7\u00e3o dos meninos. Agressivo e alcoolista, o pai de Doss feria a todos, a ele, ao irm\u00e3o e principalmente a m\u00e3e. Hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o, trama de sacrif\u00edcio: Mel Gibson n\u00e3o acha necess\u00e1rio, no entanto, se desculpar por seus motivos pol\u00edticos, morais, religiosos e est\u00e9ticos. Os clich\u00eas, internamente assimilados, se articulam simplesmente para que sua composi\u00e7\u00e3o tome o efeito desejado: que nossos corpos se percebam paralisados ao final da sess\u00e3o \u2013 se de amor ou \u00f3dio, pouco importa. Que muitos espectadores questionem os <em>motivos rid\u00edculos de sua f\u00e9<\/em>, isso ele conscientemente ignora, o que serve bem ao seu filme ao mesmo tempo em que o afasta de uma percep\u00e7\u00e3o mais complexa de sua abordagem. Mas ele n\u00e3o quer ir t\u00e3o longe para n\u00e3o errar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>At\u00e9 o \u00daltimo Homem<\/em> exp\u00f5e a contradi\u00e7\u00e3o, cinematogr\u00e1fica por excel\u00eancia, da pureza da f\u00e9 de seu protagonista com a sujeira do sangue que transborda do campo de batalha &#8211; e que Mel Gibson filma com despudor. F\u00e9, como todas, que comporta uma contradi\u00e7\u00e3o diante da qual o crente precisa se rebater para mant\u00ea-la. No caso de Doss, como fazer parte da guerra <em>n\u00e3o fazendo<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diferentemente de um Clint, vide <a href=\"http:\/\/tudoecritica.com.br\/?p=2864\"><em>Sniper Americano<\/em><\/a>, o filme de Gibson \u00e9 refrat\u00e1rio de uma an\u00e1lise mais dura sobre o her\u00f3i que filma, parece aceitar com muito mais facilidade e languidez a s\u00edntese que prop\u00f5e. Isso se deve, talvez, ao fato de Gibson estar muito mais aferrado ao seu sistema de cren\u00e7as do que Clint, o segundo mais c\u00e9tico e radical quanto \u00e0 representa\u00e7\u00e3o do \u201cher\u00f3i\u201d, que tamb\u00e9m enfrenta dilemas morais de ordem patri\u00f3tica e religiosa (s\u00f3 que, em <em>Sniper<\/em>, se mata para salvar). Quest\u00e3o imanente de f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste contexto, na Batalha de Okinawa, aos olhos de todos os personagens americanos do filme (com uma exce\u00e7\u00e3o importante e fundamental, a saber, o pr\u00f3prio Doss), \u00e9 claro que os japoneses s\u00e3o monstros inferiores, nutridos apenas pela \u00e2nsia de matar. O americano bom, este n\u00e3o: Doss salva inclusive alguns soldados inimigos no front. Sua f\u00e9 \u00e9 acima de tudo universal. Todos os outros combatentes veem os japoneses como insetos, mas Doss n\u00e3o os menciona desse modo, <em>sequer os menciona<\/em>. Este \u00e9, portanto, o artif\u00edcio que desencadeia a diverg\u00eancia. Doss \u00e9 incapaz de odiar o inimigo, todos os outros querem v\u00ea-los dilacerados. Como pode um homem n\u00e3o querer matar enquanto seus colegas se sacrificam pela p\u00e1tria? Gibson responde mostrando que seu personagem central est\u00e1 inspirado por Deus e, assim sendo, ele ir\u00e1 triunfar. Como? O que ele consegue, de fato, \u00e9 salvar o fracasso de todos os demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Hacksaw Ridge<\/em>, de Mel Gibson, EUA, 2016. Com\u00a0Andrew Garfield, Vince Vaughn, Teresa Palmer, Sam Worthington, Hugo Weaving, Luke Bracey.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desmond Doss (Andrew Garfield), jovem do interior dos Estados Unidos, das profundezas da tradi\u00e7\u00e3o. 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