{"id":8527,"date":"2022-01-18T10:33:29","date_gmt":"2022-01-18T13:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8527"},"modified":"2022-01-18T10:33:29","modified_gmt":"2022-01-18T13:33:29","slug":"a-filha-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8527","title":{"rendered":"A Filha Perdida"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Tatiane de Sousa*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme A Filha Perdida, adapta\u00e7\u00e3o de Maggie Gyllenhaal do romance hom\u00f4nimo de Elena Ferrante e dispon\u00edvel na Netflix desde o final do dezembro, aborda de modo nada sutil a intensidade da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3es e filhas, uma pedida a reflex\u00e3o sobre essa liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o arrebatadora, transformadora e indel\u00e9vel. A proposta n\u00e3o serve apenas para quem passa pela maternidade como para todas as mulheres como filhas.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na trama, a protagonista Leda relembra as emo\u00e7\u00f5es vividas com as filhas quando ainda eram pequenas a partir da observa\u00e7\u00e3o de uma jovem \u00e0s voltas com sua pequena durante o veraneio. As cenas observadas mostram uma m\u00e3e sufocada pela necessidade de aten\u00e7\u00e3o permanente da crian\u00e7a. Diante dos cuidados, a personagem acaba por anular seus desejos enquanto espera por dias mais tranquilos. Apesar do amor que sente pela crian\u00e7a, parece que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o desempenho do papel materno com satisfa\u00e7\u00e3o. Os flashbacks de Leda mostram igualmente uma m\u00e3e oprimida e dividida entre as possibilidades profissionais e os desejos como mulher, e as obriga\u00e7\u00f5es maternas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A personagem principal da trama est\u00e1 em f\u00e9rias, sozinha e conversa eventualmente com as filhas de 23 e 25 anos pelo telefone. Apesar de os di\u00e1logos aparentarem uma rela\u00e7\u00e3o normal, de cumplicidade e preocupa\u00e7\u00e3o m\u00fatua, Leda se prende \u00e0 culpa de n\u00e3o ter sido mais presente na inf\u00e2ncia das meninas. O t\u00edtulo &#8220;A Filha Perdida&#8221;, aponta mais na dire\u00e7\u00e3o do rompimento que se d\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o da m\u00e3e com as filhas do que na perda f\u00edsica da coadjuvante com a crian\u00e7a que acontece durante determinado ponto da trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender um pouco mais sobre essa rela\u00e7\u00e3o, vale lembrar o livro <em>A Rela\u00e7\u00e3o M\u00e3e e Filha<\/em>, (Ed. Campus), da psicanalista Malvine Zalcberg. A autora aponta que, mesmo quando h\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o paterna constitu\u00edda no Complexo de \u00c9dipo, as dificuldades da filha de separar-se da m\u00e3e existem. Principalmente quando a m\u00e3e confunde os cuidados com o dom do seu amor e oferece \u00e0 filha algo sufocante, alimentando-a em demasia, impedindo que a filha chegue a formular uma demanda em fun\u00e7\u00e3o de alguma falta ressentida. Sem falta, n\u00e3o h\u00e1 como fazer emergir um desejo pr\u00f3prio. O livro interpreta estas dificuldades que expressam uma liga\u00e7\u00e3o profunda entre m\u00e3e e filha e t\u00eam como efeito o ressentimento e a ambival\u00eancia da filha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura materna, conjuntura emocional j\u00e1 constatada e balizada por Lacan com o neologismo \u201chainamoration\u201d, isto \u00e9, haine (\u00f3dio) \u00e9namoration (enamoramento) para demonstrar o que se passa em uma menina que ama e odeia sua m\u00e3e: um processo catastr\u00f3fico e devastador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No filme o sofrimento mostrado est\u00e1 todo na m\u00e3e respons\u00e1vel pelo rompimento. Mas o telefonema no final a uma das filhas mostra que, afinal, apesar das culpas, tudo ficou bem. A culpa materna n\u00e3o se justifica com filhas felizes e capazes de construir suas vidas. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dado momento da trama, Leda, que se dedica \u00e0 carreira e imp\u00f5e-se a separa\u00e7\u00e3o das filhas, diz ao marido ser uma amea\u00e7a falar que deixar\u00e1 as crian\u00e7as com sua progenitora caso ela n\u00e3o volte. Para o pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott, &#8220;para toda mulher, h\u00e1 sempre tr\u00eas mulheres: ela mesma, sua m\u00e3e e a m\u00e3e de sua m\u00e3e&#8221; (WINNICOTT apud ZALCBERG, p. 6). \u00c9 nas dificuldades dessa rela\u00e7\u00e3o \u2013 da &#8220;cat\u00e1strofe&#8221; e da &#8220;devasta\u00e7\u00e3o \u00e0 mascarada&#8221; \u2013 que cada menina construir\u00e1 o seu caminho como mulher, em um processo de inven\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o da feminilidade. De qualquer modo, a constru\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e satisfeita \u00e9 fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de uma filha capaz de criar sua individualidade e feminilidade. O rompimento no entanto, n\u00e3o precisa ser dram\u00e1tico como em um filme para apresentar um final esperan\u00e7oso ou feliz, digno de um romance.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Parafraseando a pr\u00f3pria personagem , \u201cn\u00e3o s\u00e3o apenas as coisas inef\u00e1veis a que me refiro, mas as inesperadas.\u201d<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Jornalista, p\u00f3s graduada em comunica\u00e7\u00e3o e marketing pela Unisinos. Profissional inquieta sempre aberta a novos desafios na reportagem, produ\u00e7\u00e3o e assessoria de comunica\u00e7\u00e3o. Atualmente, consultora de comunica\u00e7\u00e3o no Tesouro do Estado. Na vida, m\u00e3e de adolescentes full time. Para descontrair, brinco de escrever e cozinhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":19,"featured_media":8528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[376],"tags":[2637,151,1256,774,185,2638],"class_list":["post-8527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagens-especiais","tag-a-filha-perdida","tag-cinema","tag-elena-ferrante","tag-filme","tag-literatura","tag-livro"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8527\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}