{"id":8451,"date":"2021-10-31T22:58:50","date_gmt":"2021-11-01T01:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8451"},"modified":"2021-11-10T10:10:06","modified_gmt":"2021-11-10T13:10:06","slug":"a-fe-e-morta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8451","title":{"rendered":"A f\u00e9 \u00e9 morta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma m\u00e3e de tr\u00eas me disse que matou a f\u00e9.<\/strong> Para uma m\u00e3e de tr\u00eas que s\u00f3 pode beijar um, \u00e9 mesmo dif\u00edcil acreditar no abstrato. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel acreditar no intang\u00edvel quando dois filhos rec\u00e9m sa\u00eddos da adolesc\u00eancia s\u00e3o presos injustamente. E eu sei que esse \u00e9 o grande teste da f\u00e9, acreditar sem evid\u00eancias. Devo\u00e7\u00e3o incondicional. Mas quando a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 saber que um dos teus morreu sob cust\u00f3dia do Estado, talvez seja pedir demais. Por que manter viva, a f\u00e9, se um dos guris j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que ela disse ficou comigo. Horas depois da entrevista, eu ainda digeria a morte da f\u00e9 daquela m\u00e3e e tomava o luto para mim. Primeiro, porque n\u00e3o foi exatamente um sentimento novo. Eu sempre questionei a natureza dessa cren\u00e7a sem limites que me parece incompat\u00edvel com o jornalismo. Quando eu ando com f\u00e9, \u00e9 como se eu fosse menos profissional por acreditar em algo n\u00e3o verific\u00e1vel. Segundo porque eu n\u00e3o vivi as trag\u00e9dias de Maria*, mas o Brasil, sim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os brasileiros est\u00e3o sufocados por uma pandemia que j\u00e1 soma 600 mil mortos no pa\u00eds. H\u00e1, por a\u00ed, um v\u00edrus a\u00e7odado em um lugar em que as autoridades n\u00e3o se importam. Os alimentos est\u00e3o caros o suficiente para ter gente na fila do osso. Meninas n\u00e3o frequentam a escola porque n\u00e3o tem acesso a absorventes. Jovens s\u00e3o encarcerados porque pretos. Al\u00e9m de toda a sorte de \u00f3dio destilada sob a forma da liberdade de express\u00e3o quando o brasileiro n\u00e3o \u00e9 livre nem para viver. Por que, ent\u00e3o, manter a f\u00e9 viva, se o Brasil j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Veja bem, essa n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de reeditar Nietzsche, que matou Deus. <em>Gott ist tot<\/em>, disse ele. O que eu digo \u00e9 muito pior. Porque eu n\u00e3o estou matando Deus diante da racionalidade iluminista. A morte da f\u00e9 \u00e9 pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 filos\u00f3fica. O sentido da f\u00e9 foi esvaziado porque, simplesmente, \u00e9 pedir demais.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">Por que algu\u00e9m precisa acreditar no invis\u00edvel, se tudo o que se faz, no Brasil, \u00e9 sofrer?<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de quatro anos, os dois filhos da m\u00e3e de tr\u00eas foram absolvidos pela justi\u00e7a. A vida deles mudou para sempre e, pra sempre, ela s\u00f3 poder\u00e1 beijar dois. Mas como uma cat\u00f3lica oscilante, foi o bastante para ressuscitar a f\u00e9. Ela respondeu \u00e0 minha pergunta, semanas depois do primeiro contato, dizendo que a gente precisa acreditar no invis\u00edvel porque, no Brasil, f\u00e9 \u00e9 sobreviv\u00eancia. Se a gente n\u00e3o acreditar no intang\u00edvel, sobra a morte. Gil bem que avisou que a f\u00e9 t\u00e1 na mulher, num peda\u00e7o de p\u00e3o, na mar\u00e9, na l\u00e2mina de um punhal, na luz, na escurid\u00e3o, na manh\u00e3, no anoitecer. A f\u00e9 t\u00e1 viva e s\u00e3 e t\u00e1 pra morrer.<\/p>\n<p class=\"p1\">Talvez o Brasil precise menos de Nietzsche e mais dos seus. A f\u00e9 n\u00e3o costuma falhar, dizem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><em>Imagem original: Mathias Faust \/ Pixabay<\/em><\/p>\n<p><em>Colagem: Ge\u00f3rgia Santos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":8478,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-8451","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-georgia-santos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8451\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}